Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA V                                    




frica do
sculo XVI ao XVIII
EDITOR BETHWELL ALLAN OGOT




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  V
      frica do sculo XVI ao XVIII
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  V
frica do sculo
XVI ao XVIII
EDITOR BEThwEll AllAn OgOT




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, V: Africa from the sixteenth to the eighteenth century.
Paris: UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational
Publishers Ltd., 1992. (Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Tradutores: David Yann Chaigne, Luana Antunes Costa, Joo Bortolanza, Fbio Lucas Pierini,
Mrcio Prado, Brbara Muniz Vieira (Glossrio)
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso e atualizao ortogrfica: Ilunga Kabengele
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil



     Histria geral da frica, V: frica do sculo XVI ao XVIII / editado por Bethwell Allan
           Ogot.  Braslia : UNESCO, 2010.
           1208 p.

          ISBN: 978-85-7652-127-3

        1. Histria 2. Histria moderna 3. Histria africana 4. Culturas africanas 5. frica I.
     Ogot, Bethwell Allan II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao IV. Universidade
     Federal de So Carlos


Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
                                     SUMRIO




Apresentao ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores .......................................................................... IX
Cronologia ....................................................................................... XI
Lista de Figuras ............................................................................. XIII
Prefcio ..........................................................................................XXI
Apresentao do Projeto ..............................................................XXVII

Captulo 1 A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes
           para a frica ........................................................................... 1
Captulo 2 As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas
           durante o perodo considerado ............................................. 27
Captulo 3 Os movimentos populacionais e a emergncia de novas
           formas sociopolticas na frica ............................................. 55
Captulo 4 A frica na histria do mundo: o trfico de escravos a
           partir da frica e a emergncia de uma ordem econmica
           no Atlntico .......................................................................... 91
Captulo 5 A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo ............. 135
Captulo 6 O Egito sob o domnio do Imprio Otomano ................... 165
Captulo 7 O Sudo de 1500 a 1800 .................................................... 205
Captulo 8 O Marrocos......................................................................... 241
VI                                                                                frica do sculo xii ao xvi



Captulo 9 Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros ....... 279
Captulo 10 A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII: a evoluo dos
              Wolofes, dos Sereres e dos Tucolores ................................ 313
Captulo 11 O fim do Imprio Songhai ............................................... 357
Captulo 12 Do Nger ao Volta............................................................. 389
Captulo 13 Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin .............. 437
Captulo 14 Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior ........ 475
Captulo 15 Do delta do Nger aos Camares: os fon e os iorubas ...... 519
Captulo 16 Os Estados Haussas .......................................................... 541
Captulo 17 O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo,
              o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade .......... 583
Captulo 18 Das savanas de Camares ao alto Nilo ............................. 611
Captulo 19 O Reino do Congo e seus vizinhos................................... 647
Captulo 20 O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso... 695
Captulo 21 A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui.............. 719
Captulo 22 A regio ao Sul do Zambeze ............................................ 755
Captulo 23 A frica Austral .............................................................. 807
Captulo 24 O chifre da frica ............................................................. 831
Captulo 25 A costa oriental da frica ................................................. 883
Captulo 26 A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800 .................. 915
Captulo 27 O interior da frica do Leste: os povos do Qunia
              e da Tanznia (1500-1800) ............................................... 975
Captulo 28 Madagascar e as ilhas do Oceano ndico ........................ 1003
Captulo 29 A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800:
              concluso ......................................................................... 1057
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de
        uma Histria Geral da frica................................................. 1071
Dados Biogrficos dos Autores do Volume II...................................... 1073
Abreviaes e Listas de Peridicos ....................................................... 1079
Referncias Bibliogrficas .................................................................... 1087
ndice Remissivo ................................................................................... 1171
APRESENTAO                                                                          VII




                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                                   frica do sculo xii ao xvi



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                              frica do sculo xii ao xvi



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
Cronologia                                                                   XI




                        CRONOLOGIA


   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
        Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
         present), tendo como referncia o ano de + 1950; nesse caso, as datas so
         todas negativas em relao a + 1950.
        Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas
         so simplesmente precedidas dos sinais - ou +. No que diz respeito aos
         sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de Cristo" so substitudas
         por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
    Exemplos:
    (i) 2300 B.P. = -350
    (ii) 2900 a.C. = -2900
         1800 d.C. = +1800
    (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
          sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                         XIII




                             LISTA DE FIGURAS




Figura 1.1 frica: os principais pontos de contato do comrcio europeu do sculo XVII ...... 5
Figura 1.2 Lavagem da lama diamantfera pelos escravos negros no Brasil .......................... 19
Figura 1.3 Venda de mercadorias, de quadros e de escravos na Rotunda, em Nova
           Orlees, na Amrica ............................................................................................. 20
Figura 1.4 Desenho satrico poltico intitulado: "Homens e irmos!".................................... 25
Figura 2.1 Entidades polticas do Sahel entre os sculos XI e XVI ...................................... 30
Figura 2.2 Rotas e relaes comerciais na frica do sculo XVI .......................................... 40
Figura 2.3 Sandlia em couro sudanesa, fabricada na regio de Kano .................................. 47
Figura 2.4 Bolsa em couro proviniente da regio de Tombuctu ............................................ 47
Figura 2.5 Espaos polticos do Saara ao Equador, no sculo XVII...................................... 51
Figura 4.1 O comrcio atlntico no sculo XVIII e no incio do sculo XIX ....................... 94
Figura 4.2 Moeda espanhola representando Ferdinando e Isabel, 1474-1504 .................... 105
Figura 4.3 Planta e corte de um navio negreiro europeu ..................................................... 111
Figura 4.4 Escravos negros trabalhando em uma plantao de caf no Brasil, por volta
           de 1870 ............................................................................................................... 115
Figura 4.5 Escravos negros cortando cana-de-acar em uma plantao nas Antilhas,
           por volta de 1833 ................................................................................................ 118
Figura 4.6 Embarque de escravos a bordo de um navio negreiro europeu .......................... 123
Figura 4.7 As fontes de abastecimento do trfico transatlntico nos sculos XVIII e
           XIX na frica ..................................................................................................... 127
Figura 4.8 A zona central da frica Ocidental ................................................................... 131
Figura 5.1 General Alexandre Davy Dumas, 1762-1806 .................................................... 140
XIV                                                                                                   frica do sculo xii ao xvi



Figura 5.2 Phyllis Wheatley, domstica que se tornou poetisa renomada no
           sculo XVIII ....................................................................................................... 149
Figura 5.3 Benjamin Banneker............................................................................................ 150
Figura 5.4 Toussaint Louverture, de Haiti .......................................................................... 152
Figura 5.5 A frica, a Europa e a sia ............................................................................... 154
Figura 5.6 Mlik Ambar ..................................................................................................... 161
Figura 6.1 O Sulto Selim I ................................................................................................ 167
Figura 6.2 Janzaros. Miniatura turca do sculo XVI .......................................................... 169
Figura 6.3 Fachada em faiana da cmara funerria de Ibrhm ......................................... 173
Figura 6.4 O Baixo Egito (al-Delta) ................................................................................... 174
Figura 6.5 O Mdio e o Alto Egito (al-Sad) ..................................................................... 175
Figura 6.6 A mesquita de Muhammad Bey Ab `l-Dahab, 1188/1774 .............................. 188
Figura 6.7 A mesquita de Mah,mud Pasha, 975-1568 ........................................................ 193
Figura 6.8 O wn da mesquita de Ahmad al-Burdayn, 1025/1616-1038/1629 ................ 193
Figura 6.9 O cmodo principal (ka`a) da casa de Djamluddn al-Dahab, 1047/1637 ...... 194
Figura 6.10 A tela em madeira (machrabia) da casa de Djamluddn al-Dahab,
            1047/1637......................................................................................................... 194
Figura 6.11 `Al Bey, vice-regente do Egito ......................................................................... 198
Figura 7.1 Reinos e sultanatos do Sudo............................................................................. 208
Figura 7.2 O porto de Suakin (gravura do sculo XIX) ...................................................... 213
Figura 7.3 As rotas comerciais do Sudo ............................................................................ 219
Figura 7.4 Os povos do Sudo ............................................................................................ 232
Figura 8.1 O Marrocos no sculo XVI e XVII.................................................................... 243
Figura 8.2 As etapas do caminho de Dom Sebastio rumo ao campo de batalha dos
           Trs Reis em Wadi al-Makhazin ........................................................................ 250
Figura 8.3 Forma de po de acar descoberta em 1960 quando das buscas na
           aucareira de Chichawa ...................................................................................... 254
Figura 8.4 O imprio de Ahmad al-Mansur (1578 a 1603)................................................ 256
Figura 8.5 Os principados do Marrocos Setentrional no incio do sculo XVII ................. 260
Figura 8.6 O sulto Mulay Ismael ....................................................................................... 264
Figura 8.7 Carta nmero 12 da correspondncia entre o sulto Mulay Ismael e o shaykh
           al-Islam Sidi Muhammad al-Fasi ....................................................................... 271
Figura 8.8 Walad Dawud Ait Hamu, ou a kasaba de Mansur em Skoura, na provncia de
           Uarzazate ............................................................................................................ 273
Figura 9.1 A Arglia, a Tunsia e a Lbia do sculo XVI ao XVIII. .................................... 282
Figura 9.2 Vaso de terracota do sculo XVII....................................................................... 291
Figura 9.3 Alade (ud) de fabricao tunisiana ................................................................... 292
Figura 9.4 Vista da cidade e do porto de Trpoli ................................................................. 294
Figura 9.5 Vista da cidade e do porto de Argel................................................................... 295
Figura 9.6 Leno bordado argelino ..................................................................................... 299
Figura 9.7 Cofre de casamento do sculo XVIII proveniente da Cablia, na Arglia ......... 300
Lista de Figuras                                                                                                                  XV


Figura 9.8 Placa de cermica do sculo XVIII, procedente de Kallalina, em Tnis ............ 303
Figura 9.9 A cidade de Constantina.................................................................................... 305
Figura 9.10 Ornamento cnico de prata para a cabea, do sculo XVIII, procedente da
             Arglia.............................................................................................................. 307
Figura 9.11 Vista parcial de uma rua da cidade saariana de Ghadames, Lbia.................... 309
Figura 9.12 Sala de estar de uma casa na cidade velha, Ghadames, Lbia........................... 310
Figura 10.2 Saint-Louis, na desembocadura do rio Senegal ............................................... 320
Figura 10.3 Trofeu composto por armas e outros objetos do Senegal ................................. 325
Figura 10.5 Um chefe wolof em seu lar .............................................................................. 332
Figura 10.6 Guerreiro do Waalo ......................................................................................... 335
Figura 10.7 Mulher fulbe no Futa Djalon. .......................................................................... 345
Figura 11.1 Panorama de Tombuctu visto do terrao do viajante ....................................... 359
Figura 11.2 A regio de Tombuctu ..................................................................................... 365
Figura 11.3 Uma aldeia Songhai ......................................................................................... 369
Figura 11.4 Touca  imagem de um antlope ...................................................................... 372
Figura 11.5 As rotas do comrcio transaariano do sculo XVI ao sculo XVIII................. 380
Figura 11.6 Viajantes aproximando-se de Tombuctu .......................................................... 382
Figura 11. 7 Uma mesquita em Tombuctu .......................................................................... 386
Figura 12.1 A regio do Nger-Volta do sculo XVI ao XVIII ........................................... 390
Figura 12. 2 Estatueta soninke representando um hermafrodita ajoelhado ......................... 393
Figura 12. 3 Estatueta mossi comemorativa de um antepassado feminino ......................... 411
Figura 12. 4 Vista geral de Kong ......................................................................................... 422
Figura 12. 5 Mercadores oferecendo seus produtos  sombra de uma figueira.................... 427
Figura 13.1 Os principais grupos de populao da frica do Oeste ................................... 439
Figura 13.2 Os movimentos migratrios dos povos da frica do Oeste, do sculo XV
             ao XVIII........................................................................................................... 447
Figura 13.3 Saleiros esculpidos em marfim, do sculo XVI, provenientes da ilha Sherbro
             (bulom), Serra Leoa ......................................................................................... 456
Figura 13.4 Corno de caa esculpido em marfim, do sculo XVI, proveniente da ilha
             Sherbro (bulom), Serra Leoa............................................................................ 457
Figura 13.5 Os principais Estados da frica do Oeste, antes do sculo XVI ..................... 460
Figura 13.6 Os principais Estados da frica do Oeste, no sculo XVII ............................. 466
Figura 14.1 Os povos akan, ga e ewe................................................................................... 476
Figura 14.2 O forte de So Jorge, em Elmina, tal como era nos tempos dos
             portugueses....................................................................................................... 485
Figura 14.3 As principais rotas comerciais das bacias do Bandama, do Volta e do
             Mono ............................................................................................................... 491
Figura 14.4 Reconstituio de um mapa da Costa do Ouro datando de 1629.................... 493
Figura 14.5 Os Estados da costa da Guin Inferior em 1700 ............................................. 498
Figura 14.6 Os Estados da costa da Guin Inferior em 1750 ............................................. 502
Figura 14.7 Tecelagem da frica do Oeste ......................................................................... 514
XVI                                                                                                   frica do sculo xii ao xvi



Figura 14.8   Peso de lato akan servindo para pesar o ouro em p ...................................... 515
Figura 14.9   Nana Otuo Siriboe II, omanhene do Estado dwaben ...................................... 517
Figura 15.1   O delta do Nger e os Camares, do sculo XVI ao XVIII.............................. 520
Figura 15.2   Cabea comemorativa, do sculo XV ou do XVI, proveniente do Benin......... 523
Figura 15.3   Cabea comemorativa, de lato, de um oba do Benin ...................................... 526
Figura 15.4   Estatueta feminina ioruba consagrada ao culto de Obatal, o orix da
              criatividade ....................................................................................................... 529
Figura 15.5   Mscara de bronze do sculo XVII, usada na cintura, proveniente do Benin .. 532
Figura 15.6   Placa de bronze do sculo XVII, proveniente do Benin .................................. 534
Figura 15.7   Placa de bronze ornamental do sculo XVI, proveniente do Benin ................. 537
Figura 16.1   A frica do Norte e o Sudo Central em 1600 ............................................... 543
Figura 16.2   O pas haussa antes de 1800 ............................................................................ 551
Figura 16.3   Os Estados haussas no sculo XVIII ............................................................... 556
Figura 16.4   Canga haussa chamada goranka da nono......................................................... 567
Figura 16.5   Vestido haussa .................................................................................................. 567
Figura 16.6   As rotas comerciais entre o pas haussa e a bacia do Volta............................... 568
Figura 16.7   Representao esquemtica das principais ligaes comerciais e rotas de
              caravanas atravs do Saara e do Sudo Ocidental e Central, por volta de
              1215 ................................................................................................................. 571
Figura 16.8   Fachada decorada de uma casa de birni em Zinder.......................................... 577
Figura 16.9   Pginas decoradas de um Alcoro haussa em miniatura, fim do sculo
              XVII-incio do XVIII ...................................................................................... 578
Figura 17.1   O Borno, o Kanem e seus vizinhos, no sculo XVIII ...................................... 593
Figura 17.2   Tecelo do Borno fabricando faixas de algodo (gabaga) ................................. 594
Figura 17.3   Mapa de Kukawa, capital do Borno no sculo XIX ......................................... 599
Figura 17.4   Muro do palcio de vero do mai em Gambaru, construdo entre
              1570-1580 ........................................................................................................ 600
Figura 17.5   Recepo da misso Denham-Clapperton pelo mai do Borno, entre
              1820 e 1830...................................................................................................... 605
Figura 17.6   Rotas das caravanas ligando, no sculo XVIII, o Borno  frica do Norte
              e ao vale do Nilo .............................................................................................. 608
Figura 18.1   Cabea em tufo vulcnico, Uele, data desconhecida......................................... 618
Figura 18.2   Migraes de populao nas regies do Uele e do Ubangui ............................ 619
Figura 18.3   Vista de face e vis de uma estatueta real kuba ................................................ 623
Figura 18.4   Mscara fang usada por um membro da sociedade Ngil.................................. 628
Figura 18.5   Mscara de estilo nguni do Gabo................................................................... 632
Figura 18.6   Estatueta kuba em ferro forjado, por volta de 1515 ......................................... 638
Figura 18.7   Bigorna kuba .................................................................................................... 640
Figura 18.8   Povos e reas de influncia ao longo do eixo Congo-Zaire.............................. 643
Figura 19.1   Topografia e recursos naturais do Congo ......................................................... 649
Figura 19.2   Cermica yombe .............................................................................................. 651
Lista de Figuras                                                                                                                     XVII


Figura 19.3        O Reino do Congo e seus vizinhos no sculo XVI .......................................... 654
Figura 19.4        So Salvador, capital do Reino do Congo, no stio de Mbanza Kongo ........... 655
Figura 19.5        Vaso nzimbu..................................................................................................... 656
Figura 19.6        Nobres congos do reino do Loango vestindo aventais de pele de gato ............ 658
Figura 19.7        Os reinos e o comrcio na regio do Congo no sculo XVII........................... 661
Figura 19.8        A corte do rei do Loango, 1668 ....................................................................... 664
Figura 19.9        O porto de Luanda no sculo XVII ................................................................. 666
Figura 19.10         A baia e a cidade de So Paulo de Luanda durante a ocupao holandesa,
                    por volta de 1640 ............................................................................................ 667
Figura 19.11         Painel decorativo de azulejos da fachada principal da igreja
                    Nossa Senhora de Nazar, em Luanda, 1665.................................................. 669
Figura 19.12         Detalhe do painel precedente representando a cabea do rei Antnio I,
                    sepultado na igreja .......................................................................................... 669
Figura 19.13         Painel decorativo de azulejos da igreja Nossa Senhora de Nazar,
                    em Luanda, representando a batalha de Mbwila ............................................ 671
Figura 19.14         As rotas martimas da frica Central, nos sculos XVII e XVIII ................. 673
Figura 19.15         Runas do antigo palcio do bispo de Mbanza Kongo (So Salvador), de
                    1548, fotografadas em 1955 ............................................................................ 679
Figura 19.16         Mscara ndongo do Loango .......................................................................... 682
Figura 19.17         O trfico de escravos na frica Central do sculo XVIII .............................. 684
Figura 19.18         Farmcia porttil lemba (nkobi) em casca de rvore, com tampa ornada
                    por um motivo de ptalas caracterstico, proveniente de Ngoyo ..................... 689
Figura 19.19         A frica Central Ocidental no sculo XVIII ................................................ 693
Figura 20.1        Os Estados do Shaba antes de 1700 ................................................................ 697
Figura 20.2        Hemba, Zaire ................................................................................................... 698
Figura 20.3        O reino luba nos sculos XVIII e XIX ............................................................ 702
Figura 20.4        Kuba, centro do Zaire ...................................................................................... 704
Figura 20.5        Luba, Sul do Zaire ........................................................................................... 705
Figura 20.6        Luba, Zaire....................................................................................................... 706
Figura 20.7        O imprio lunda no sculo XVIII.................................................................... 708
Figura 20.8        Luba, Zaire....................................................................................................... 712
Figura 20.9        Luba, Zaire....................................................................................................... 712
Figura 20.10         Chokwe, Angola e Zaire ................................................................................ 716
Figura 21.1        Etnias da regio norte do Zambeze no sculo XVIII ...................................... 720
Figura 21.2        Grupos pr-dinsticos do Zimbbue Setentrional ........................................... 723
Figura 21.3        Mscara usada pela sociedade secreta Nyau ..................................................... 726
Figura 21.4        A expanso maravi por volta de 1650 .............................................................. 728
Figura 21.5        O tamborete real de ferro do chefe Kanyenda de Khota Khota, no Malaui
                   Central ............................................................................................................. 736
Figura 21.6        Rotas do comrcio do marfim na frica Central Oriental no sculo XVIII ... 747
Figura 21.7        Restos de um forno para fundir o ferro (ng'anjo) tumbuka ............................. 750
XVIII                                                                                                  frica do sculo xii ao xvi



Figura 21.8    Enxada de ferro de fabricao tumbuka ........................................................... 751
Figura 22.1    A frica Central e do Sudeste sob os Estados mutapa e torwa....................... 756
Figura 22.2    Runas na regio de Matendere ....................................................................... 758
Figura 22.3    Runas do tipo mutoko .................................................................................... 758
Figura 22.4    Runas do tipo musimbira ................................................................................ 760
Figura 22.5    Gravura do Mutapa (sculo XVIII) ................................................................. 762
Figura 22.6    O padre Gonalo da Silveira que introduziu o cristianismo no Imprio
               Mutapa em 1560 .............................................................................................. 768
Figura 22.7    Os prazos do baixo vale do Zambeze .............................................................. 772
Figura 22. 8   O Imprio Rozwi ............................................................................................ 775
Figura 22.9    Muro decorativo em Danangombe .................................................................. 776
Figura 22.10    As principais feiras nos sculos XVI e XVII .................................................. 801
Figura 23.1    A frica Austral do sculo XVI ao XVIII ....................................................... 809
Figura 23.2    Um caador gonaqua (griqua) .......................................................................... 815
Figura 23.3    Agricultores khoi khoi fazendo a batedura dos cereais .................................... 818
Figura 23.4    Uma famlia namaqua ...................................................................................... 820
Figura 23.5    Famlia khoi khoi fazendo pastar seu rebanho ................................................. 825
Figura 24.1    O imprio etope e suas dependncias, por volta de 1550................................ 834
Figura 24.2    O Sudeste da Etipia por volta de 1500 .......................................................... 840
Figura 24.3    As migraes oromas no sculo XVI ............................................................... 850
Figura 24.4    O castelo de Gondar ........................................................................................ 857
Figura 24.5    Pintura copta sobre tecido representando a Virgem e a Criana, Gondar ....... 868
Figura 24.6    Pintura copta sobre tecido representando So Jorge e o drago, Gondar ........ 868
Figura 24.7    Pintura mural do sculo XVIII, na igreja de Dabra Birhan, Gondar ............... 870
Figura 24.8    Afresco copta do sculo XVIII representando o inferno e o diabo,
               na igreja de Dabra Birhan, Gondar .................................................................. 870
Figura 24.9    Antigo sino de igreja do Tigre ......................................................................... 876
Figura 24.10    Os muros de Wolayta, na Etipia Meridional ............................................... 877
Figura 24.11    A cristandade na frica do Nordeste por volta de 1700 ................................ 881
Figura 25.1    A bacia ocidental do Oceano ndico ................................................................ 885
Figura 25.2    Porta esculpida, Zanzibar ................................................................................. 889
Figura 25.3    A costa da frica Oriental ............................................................................... 892
Figura 25.4    Forte Jesus (Mombaa) construdo pelos portugueses em 1593-1594 ............. 899
Figura 25.5    Ornamento proveniente de uma mesquita de Vumba Kuu .............................. 909
Figura 25.6    O grande Siwa de Mwinyi Mkuu, Zanzibar .................................................... 910
Figura 26.1    O nyarubanga e a fragmentao dos luo entre aproximadamente 1570 e
               1720 ................................................................................................................. 922
Figura 26.2    O Sul da regio dos Grandes Lagos no fim do sculo XVII............................ 948
Figura 26.3    O bosque sagrado de Bunywankoko, no Nkoma ............................................. 956
Figura 26.4    Objetos encontrados no tmulo de Cyirima Rujugira, mwami de Ruanda ..... 959
Lista de Figuras                                                                                                            XIX


Figura 26.5 O santurio de Banga, no Mugamba ............................................................... 970
Figura 26.6 Os antigos tambores reais conservados no santurio de Banga,
             no Mugamba .................................................................................................... 971
Figura 27.1 Os diferentes grupos tnicos do Qunia e da Tanznia ................................... 976
Figura 27.2 Ferreiros fabricando uma enxada ..................................................................... 984
Figura 27.3 Estatueta kamba representando uma figura feminina ...................................... 991
Figura 28.1 Os grupos tnicos de Madagascar .................................................................. 1004
Figura 28.2. tienne de Flacourt, governador de Fort-Dauphin (Madagascar) de
             1648 a 1658.................................................................................................... 1022
Figura 28.3 Grupo tnico bara de Ambutsira (sudeste de Madagascar) ........................... 1040
                           PREFCIO
                   por M. Amadou - Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por socie-
dades que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados
desde as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no-
africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no
podiam ser objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e
documentos escritos.
    Se a Ilada e a Odissia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando freqentemente a "Idade Mdia"
europia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XXII                                                            frica do sculo xii ao xvi



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como
uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse refor-
ar a ideia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e ideias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingstica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria, entre outras, e
condenado ao trabalho forado, o africano passou a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior quela
do negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos afri-
canos, no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria em cuja apreciao
das realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos
intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, esforaram-
se em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e abertura de
esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues  fontes africanas
originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os prprios africanos
sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases slidas, a his-
toricidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                                     XXIII



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra, pre-
ocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos e
metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes abusivas
criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal, bem como
em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel. Eles esfor-
aram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor acompanhar
a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais discutiu-se questes meto-
dolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame das
fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e  articu-
lao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies interna-
cionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propsito
de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao da obra:
apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e rabe, assim
como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o
yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para o alemo, russo,
portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas, destinadas a um
pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.
    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e

1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili,
     peul e portugus; o volume II em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili,
     peul e portugus; o volume III em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV em ingls, rabe, chins,
     espanhol, francs e portugus; o volume V em ingls e rabe; o volume VI em ingls, rabe e francs; o
     volume VII em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII em ingls e francs.
XXIV                                                            frica do sculo xii ao xvi



nove membros, composto por africanos e no-africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso citar
primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da histria
das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos dias atuais,
reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da humanidade,
palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria, ocorrida no
perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na frica, especifi-
camente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes mais brilhantes
do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que, at recentemente
desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituio da
histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no
tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a viso africana do
mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam as culturas e as
instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional encarre-
gado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus coordena-
dores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado uma luz
original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando todo
dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro, essa
"sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da histria
dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras vivas, no
momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante no pro-
gresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas conse-
qncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural; as relaes
entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de descolonizao e
de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de pessoas ainda vivas
e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes foram abordadas com
grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor cientfico, o que constitui
um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o balano de nossos
conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas sobre as culturas
africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria geral da frica
tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem
dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicas amide utiliza-
dos na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
Prefcio                                                                                                 XXV



aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo tra-
balho histrico de valor, a mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cient-
fico Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito
de aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre
certos aspectos do passado da frica. Esses trabalhos publicados na coleo
da UNESCO, Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a cons-
tituir, de modo til, um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo
desdobrar-se- na elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional
ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade his-
trica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente com as
Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos afro-
descendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em um
agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, mais
ou menos segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar e agir de
certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados-Unidos ao norte do
Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies culturais
herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclusive, elas
constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos
elementos mais importantes da populao.




2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: no 1 - O povoamento
     do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; no 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo
     XIX; no 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; no 4  A historiografia da frica Meridional;
     no 5  A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; no 6 
     Etnonmias e toponmias; no 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; no
     8  A metodologia da histria da frica contempornea; no 9  O processo de educao e a historiografia
     na frica; no 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; no 11  Lbya Antiqua; no 12  O papel dos
     movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXVI                                                         frica do sculo xii ao xvi



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido que os esforos dos povos da frica para conquistar ou
reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas
especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica reno-
vada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde
os primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada
com vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de
certos pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era neces-
srio, para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra
de histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica
e de outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente
africano e dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso
mais precisa acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao pro-
gresso geral da humanidade. Essa obra deveria ento contribuir para favorecer
a cooperao internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas
aspiraes por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto
muito sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do Comit
Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volu-
mes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram com clareza o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publi-
car essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela
merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
Apresentao do Projeto                                                                    XXVII




     APRESENTAO DO PROJETO
                        pelo Professor Bethwell Allan Ogot*
                 Presidente do Comit Cientfico Internacional
                 para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros res-
ponsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no-africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
        Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
         da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
         evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
         dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das
         grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,


    * Durante a XVI sesso plenria do Comit Cientfico Internacional para a redao de uma Histria
Geral da frica (Brazaville, agosto de 1983), procedeu-se  eleio do novo Bureau e o professor Ogot foi
substitudo pelo professor Alberto Adu Boahan.
XXVIII                                                         frica do sculo xii ao xvi



         em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
         caminho para posteriores publicaes.
        A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
         relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
         subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
         da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e so
         analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias mul-
         tilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio da
         frica para o desenvolvimento da humanidade.
        A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das
         ideias e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela funda-
         menta-se sobre uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas
         a tradio oral e a expresso artstica.
        A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu inte-
         rior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
         maneira atravs da qual os autores africanos vem sua prpria civilizao.
         Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
         dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
         para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando
         os fatores que contribuem  unidade do continente. Essa vontade em
         examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
         alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
         atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
         em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
         uma concepo particular dos valores humanos.
    O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo sobre mais de 3
milhes de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreen-
dendo aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos,
mapas e desenhos tracejados).
    Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
    Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros do
Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos
eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles encarregam-se da ela-
borao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
Apresentao do Projeto                                                   XXIX



pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
da UNESCO. A direo da obra cabe, dessa forma, ao Comit ou ao Conselho
Executivo, nesse caso responsvel no nterim entre duas sesses do Comit.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes captu-
los so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido ao
exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico Inter-
nacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou origi-
nais, solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de
um captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especficos da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
XXX                                                             frica do sculo xii ao xvi



(dentre os quais, entre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo,
etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a comu-
nidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece sua
chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
tarefa tal qual a redao de uma histria da frica que cobre no espao, todo
um continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando,
todavia, as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio,
estudiosos pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tra-
dies histricas. Trata-se de um empreendimento continental, internacional e
interdisciplinar, de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir
e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento
adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante aos
elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo
isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos
da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio
cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                             Bethwell Allan Ogot
                                                         Em 8 de agosto de 1979
                                    Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                   para a redao de uma Histria Geral da frica
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica      1



                                          CAPTULO 1


  A luta pelo comrcio internacional e suas
          implicaes para a frica
                                               M. Malowist




    Se traarmos o mapa geopoltico do mundo no ano de 1500, veremos surgir
um certo nmero de grandes regies relativamente autnomas que estavam em
certo grau interligadas fosse atravs do comrcio ou devido a conflitos. Havia,
primeiramente, o Extremo Oriente que, representado pelo Japo e pela China,
pelas regies do Pacfico e do oceano ndico, compreendendo as ilhas Moluscas,
Bornu, Sumatra e a prpria ndia, era a fonte de abastecimento do mundo em
especiarias. Em seguida, havia o Oriente Mdio que cobria uma vasta zona
compreendendo a pennsula rabe, o Imprio Safvida e o Imprio Otomano, o
qual logo englobou a frica do Norte. Depois, havia a Europa, com os eslavos,
os escandinavos, os alemes, os anglo-saxes e os latinos, que permaneciam
confinados dentro de suas fronteiras. Enfim, havia a frica, com sua encosta
mediterrnea ao norte e suas costas do Mar Vermelho e do Oceano ndico que
participavam, de forma crescente, do comrcio internacional com o Extremo
Oriente e com o Oriente.
    O perodo que se estendeu de 1500 a 1800 viu estabelecer-se um novo sis-
tema geoeconmico orientado para o Atlntico, com seu dispositivo comercial
triangular, ligando a Europa, a frica e as Amricas. A abertura do comr-
cio atlntico permitiu  Europa e, mais particularmente,  Europa Ocidental,
aumentar sua dominao sobre as sociedades das Amricas e da frica. Desde
ento, ela teve um papel principal na acumulao de capital gerado pelo comr-
2                                                           frica do sculo xvi ao xviii



cio e pela pilhagem, organizados em escala mundial. A emigrao dos europeus
para as feitorias comerciais da frica e dos territrios da Amrica do Norte e do
Sul fez surgir economias anexas que se constituram no alm-mar. Estas desem-
penharam, em longo prazo, um papel decisivo na contribuio para a constante
ascenso da Europa que impingia sua dominao sobre o resto do mundo.
    Do ponto de vista dos historiadores, o perodo que vai de 1450 a 1630 foi
marcado, na maioria dos pases europeus, em particular, naqueles do Oeste e do
Sudoeste, por uma formidvel expanso econmica, poltica e cultural. Com o
tempo, acentuou-se a diviso do continente em um Noroeste avanado, do ponto
de vista econmico, uma pennsula ibrica relativamente pouco desenvolvida e
um vasto Centro-Oeste em rpido desenvolvimento, mas, tambm, cada vez
mais dependente dos mercados ocidentais.
    O perodo  tambm marcado por um movimento de expanso alm-mar
que atingiu imensos territrios situados na borda do Atlntico e, at mesmo,
no Pacfico. A costa africana sofreu este movimento desde o incio do sculo
XVI, ainda que a frica do Norte conhecesse uma situao diferente daquela
da regio situada ao sul do Saara. O Mediterrneo foi o palco de uma violenta
rivalidade que ops Espanha, Portugal, Frana e frica do Norte muulmana,
ao passo que a influncia do Imprio Otomano continuava em ascenso.
    Em 1517, os Otomanos apoderaram-se do Egito, depois, submeteram uma
grande parte da pennsula rabe e estabeleceram, pouco a pouco, sua domina-
o sobre Trpoli, Tnis e Argel, onde se multiplicaram regncias otomanas
sob protetorado turco. Estas fizeram pairar uma grave ameaa sobre os navios
europeus e sobre as costas meridionais da Itlia e da Espanha. No Marrocos,
entretanto, os portugueses conseguiram assegurar o controle sobre uma grande
parte da costa, at Agadir e Safi, enquanto os castelhanos se estabeleciam em
Tlemcen e Oran1.
    Estas conquistas foram de grande importncia, pois elas asseguraram aos
portugueses o controle das sadas de algumas grandes rotas do comrcio do
ouro e dos escravos, estabelecido h sculos, entre o Sudo Ocidental e as costas
mediterrneas, atravs do Saara e do Magreb. As sadas de outros grandes eixos,
de orientao norte-sul e leste-oeste, estavam nas mos dos turcos e de repre-
sentantes mais ou menos autnomos do Imprio Otomano na frica (Argel,
Tnis e Trpoli). Estes acontecimentos ocorreram aproximadamente um sculo
aps o incio da expanso portuguesa pela frica Ocidental, o que explica o fato


1   Ver captulo 9.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica            3



de os europeus2 terem desviado, em benefcio prprio, uma parte do trfico do
ouro e dos escravos que, anteriormente, era destinado ao mundo muulmano.
Da resulta uma reduo no abastecimento de ouro do Magreb, problema, cujo
estudo aprofundado permitiria, sem nenhuma dvida, uma melhor compreenso
da conquista do Arco do Nger pelos marroquinos, em 1591, que lhes permitiu
assegurar o domnio sobre certos circuitos do comrcio do ouro e dos escravos,
ligando a frica Ocidental ao Magreb e ao Egito. A clebre campanha do pax
Djdar  um exemplo tpico das grandes conquistas que marcaram o sculo XVI.
Importa destacar que este pax era tambm um renegado de linhagem ibrica,
e que sua armada, composta principalmente por homens da mesma origem,
perpetuou a tradio das conquistas espanholas e portuguesas3.
    Na poca, pensava-se, com razo, que a costa da frica Ocidental e da frica
Oriental permaneceria por muito tempo sob dominao econmica e poltica de
Portugal, que exercia tambm uma certa influncia cultural sobre seus parceiros
comerciais africanos. Durante todo o sculo XV e no incio do sculo XVI, os
portugueses conseguiram estabelecer numerosas feitorias na costa ocidental,
e fazer com que a populao do litoral e seus chefes participassem do comr-
cio com os europeus. A partir de 1481-1482, a fortaleza de Elmina tornou-se
a feitoria mais importante da Costa do Ouro. Outras feitorias ampliaram-
-se, igualmente, pela regio, como em Axim, Shema e Acra. Ao estabelecerem
novas feitorias, os portugueses esforavam-se para obter a autorizao dos chefes
autctones e para comprar, de diversas formas, a benevolncia deles.
    Na frica Oriental, eles empregaram outros mtodos: dominaram pela fora
Sofala, Mombaa, e outras cidades costeiras, onde implantaram guarnies e
recolheram o imposto em benefcio ao rei de Portugal. Ao mesmo tempo, eles
procuravam apoderar-se do comrcio do ouro, do marfim e dos metais exis-
tentes entre a costa, o interior e a ndia. Nem todas as diversas feitorias por-
tuguesas alcanaram o mesmo sucesso na frica. No comeo do sculo XVI,
o comrcio em Elmina, no esturio da Gmbia, em Serra Leoa e, em Sofala,
trouxe benefcios substanciais oriundos, principalmente, da compra do ouro a
condies vantajosas, e, em menor escala, do trfico de escravos fornecidos pelo
interior. Arguin, a mais antiga das feitorias portuguesas, todavia, continuava
declinando4.



2    V. de Magalhes Godinho, 1969, p. 184-217.
3    Ver captulo 2.
4    V. de Magalhes Godinho, 1969, p. 185-188.
4                                                            frica do sculo xvi ao xviii



    O comrcio com a frica era assaz lucrativo para Portugal. Segundo os
clculos de Lcio de Azevedo, os ganhos da Coroa, que se elevavam a cerca de
60 milhes de reais, na dcada de 1480, j atingiam 200 milhes sob o reinado
do rei Manuel (1491-1521) e no menos de 279,5 milhes em 15345. Ao que
tudo indica, esta progresso explica-se no s pelas trocas com a ndia, mas
tambm, e, sobretudo, pelas relaes econmicas com a frica. Alm disso,
esta formidvel fonte de metal precioso, vindo do continente negro, permitiu a
Joo II e ao seu sucessor Manuel estabilizarem a moeda de prata, de cunharem
o cruzado, moeda de ouro de grande valor, e, sobretudo, de reforarem a frota,
bem como, de desenvolverem a administrao do Estado e das colnias6. Esta
ltima medida teve um grande alcance no mbito poltico e social, pois ela ofe-
receu  aristocracia e  pequena nobreza a possibilidade de obterem numerosos
cargos, to prestigiosos quanto lucrativos. Deste modo, a inoportuna oposio
da aristocracia  poltica centralizadora da monarquia se finda, e a coeso do
Estado  reforada.
    O comrcio com a frica, e mais tarde com a ndia, acelerou fortemente
a ascenso da classe dos negociantes portugueses, que, no sculo XV, ainda se
encontravam, relativamente, pouco favorecidos. Ao longo deste primeiro quarto
do sculo XVI, poder-se-ia pensar que Portugal entrou em uma fase duradoura
de expanso econmica e poltica. Esta esperana , todavia, arruinada pelo car-
ter retrgrado e esttico da estrutura socioeconmica do pas. A expanso ultra-
marina necessitava de importantes investimentos financeiros e, para comprar
ouro e escravos, foi preciso escoar, pelas encostas africanas, grandes quantidades
de objetos de ferro, bronze e cobre, bem como txteis baratos, sem falar da prata,
dos produtos alimentcios e do sal. Ora, estes bens no eram produzidos em
Portugal e deviam ser comprados, no incio, junto aos mercadores estrangeiros
ou em Bruges, e, depois, nas grandes praas comerciais europias da poca. Alm
disso, o desenvolvimento da frota dependia das importaes de madeira de obra
e de outros produtos florestais provindos, essencialmente, dos pases blticos,
que tambm forneciam um certo volume de cereais, cuja produo, em Portugal,
era insuficiente desde o sculo XIV7. Esta situao ainda no foi investigada de
forma aprofundada, mas  evidente que o produto do comrcio exterior devia,
em grande parte, ser alocado  importao das mercadorias necessrias para o
comrcio com a frica. Portugal no pde aumentar sua produo interna em

5   V. de Magalhes Godinho, 1978, vol. II, p. 51-72.
6   M. Malowist, 1969, p. 219.
7   A. da Silva Costa Lobo, 1904, p. 83.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica                                                                         5




                                              Argel
                                         Ora                  Tnis       M ar
                          Safi     Tremecm                                      Medite
                                                                                          rrneo
                                  MARROCOS
                Agadir                                              Trpoli
                                                    EB
                                        GR
                                   MA
                                                                                          EGITO
                                      S            A          A       R       A




                                                                                                      o
          Arguim




                                                                                                   Nil
               So-Lus




                                                                                                  Rio
                      Rufisque
           Ri
          oS
                                        Ri



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                                          o
                    en




      Joal                                                                              SUDO
                                              N




Verde
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                        al




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                                                  r
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                                                    OYO
                      a




                                 ACHANTI
                    SERRA
                     LEOA              DO OURO                CAMARES
                                   STA
                                 CO                               Calabar
                                                                                       Rio Con
                                                   nim

                                                              fra




                Acra
                Uid
                                                           Bia
                                              Be




          Porto-Novo
                                                                        CONGO                go
               Lagos
                                           do

                                                         do




                                                                    GABO                                            Malindi
                                        lfo

                                                     lfo




                                                                                                             Mombaa           OCEANO
                                                           Loango
                                      Go

                                                   Go




                                                                                                                             ZANZIBAR
                                                              Luanda                                                            NDICO
                                                                                                                 Kilwa
                                                                            ANGOLA
                     OCEANO
                    ATLNTICO                                                                             Tete           E
                                                                                                                     U
                                                                                                                 Q

                                                                                                                                       AR
                                                                                       Ri
                                                                                         o Zam ze
                                                                                                             I




                                                                                              be
                                                                                                                                    SC
                                                                                                          B




                                                                                                                   Sena
                                                                                                        AM




                                                                                                                                  GA
                                                                                                                 Sofala
                                                                                                                                DA
                                                                                                   MO




                                                                                                                               MA




           0                500      1 000 milhas                                 SA
                                                                                    N
           0                800      1 600 km                         O Cabo
                                                                                   Cabo da Boa Esperana


Figura 1.1 frica: os principais pontos de contato do comrcio europeu do sculo XVII (mapa estabelecido
por J. Jiles).
6                                                           frica do sculo xvi ao xviii



razo de sua frgil potncia demogrfica (na metade do sculo XVI, contava-
-se somente 1.400.000 habitantes)8 e, da intensa concorrncia no estrangeiro,
notadamente, pelos produtos industriais que h anos eram muito procurados
pelo mercado portugus.
    O formidvel crescimento econmico da Europa acarreta no continente, a
partir de 1470, uma alta progressiva dos preos que se tornam espetaculares
durante a segunda metade do sculo XVI, e atinge, principalmente, os produ-
tos agrcolas e industriais. Ainda no se estudou a relao entre a elevao dos
preos e a progresso dos benefcios que Portugal tirou de seu comrcio ultra-
marino; todavia, parece que o pas no se beneficiou. O monoplio do comrcio
com a frica ou com a ndia, que, ademais, procede de uma outra concepo
econmica, no lhe foi de grande auxlio. O importante investimento, gerado
pela expanso ultramarina, apenas seria rentvel para Portugal se o pas pudesse
impor aos seus parceiros negros condies de troca que lhe fossem favorveis,
ou seja, se pudesse comprar barato e vender caro. Para isto, foi preciso limitar,
at mesmo proibir, o acesso s feitorias aos imigrantes europeus, sobretudo, aos
oriundos de pases outros que no Portugal, atravs da manuteno de uma frota
suficientemente potente para ser, de fato, dissuasiva. Esta foi uma empreitada
dispendiosa e se revelava acima dos recursos de Portugal.9
    Logo, a partir de 1470, Portugal teve que sustentar um conflito armado com
Castela. Graas  superioridade temporria de sua frota e aos seus movimentos
diplomticos, Portugal consegue eliminar Castela da frica Ocidental, segundo
os termos dos tratados de Alcaovas e de Tordesilhas, os quais foram conclu-
dos, respectivamente, em 1481 e em 1494, e, em virtude dos direitos exclusivos
sobre a expanso econmica e poltica do sudeste do Atlntico, conferidos a
Portugal pelo papa Alexandre VI. A descoberta e a conquista da Amrica, tal
como a poltica europia em geral, afastaram Castela da frica. Entretanto,
as relaes entre Portugal e seus outros rivais, na costa da frica Ocidental
e, depois, na frica Oriental, evoluem de forma muito diferenciada, pois que,
notadamente, esses pases rivais eram economicamente mais avanados do que
Portugal.
    Os soberanos portugueses, Joo II e Manuel, foram forados a pedir auxlio
aos grandes financiadores italianos e ao sul da Alemanha. Os banqueiros italia-
nos  em particular, os florentinos  estabelecidos em Lisboa e na Anturpia,
ou que possuam agentes nessas cidades, outorgaram -lhes emprstimos em

8   V. Magalhes Godinho, 1978, vol. II, p. 25.
9   Ibid., p. 185-203.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica           7



numerrio ou em mercadorias, de valor considervel, que seriam, posterior-
mente, reembolsados em espcie ou em mercadorias importadas do alm-mar.
A partir de 1480, e talvez, mesmo mais cedo, alguns destes banqueiros como
Bartolomeu Mar-Chioni, Sernigi e outros participaram ativamente das trocas
comerciais com a frica e, em consequncia, retriburam ao rei de Portugal.
A contabilidade deste ltimo, primeiro em Bruges, depois em Anturpia,
revela a estreita dependncia financeira da Coroa frente s grandes empresas
como aquelas dos Frescobaldi, Affaitati e Fuggers10. No primeiro estgio
da expanso, os soberanos de Portugal conseguiram assegurar o domnio da
importao do ouro proveniente da frica, e, em certa medida, do trato dos
escravos  ou, pelo menos, conservaram os benefcios indiretos do trato. Con-
seguiram isto graas a um sistema de licenas por eles concedidas, mediante
elevadas taxas, a negociantes, basicamente portugueses, e a alguns estrangeiros.
Frequentemente, em tempos difceis, a Coroa portuguesa renunciava aos seus
direitos na frica, em benefcio dos negociantes (salvo Elmina). As licenas
precisavam os limites da zona geogrfica na qual as operaes comerciais eram
autorizadas.
    Por volta de 1525, os portugueses comearam a encontrar dificuldades para
achar ouro, mesmo na regio de Elmina11. Parece que, nas costas africanas, eles
j no mais dispunham do suficiente de mercadorias para oferecer em troca.
Ora, o vasto interior de Elmina e de Acra era, sem dvida alguma, ainda rico
em ouro. Desta situao, aproveitam, particularmente, os europeus rivais dos
portugueses  a saber, os negociantes franceses, ingleses e holandeses  j que
eles dispunham de maiores meios financeiros e no sofriam taxa de importao,
pois suas mercadorias eram quase que exclusivamente de origem metropolitana.
Enfim, a Frana, a Inglaterra e a Holanda ainda no sucumbiam sob os pesos
de uma administrao pletrica que regulamentava o comrcio exterior e regia
a vida nas colnias. O aparelho administrativo portugus era, ao mesmo tempo,
dispendioso e lento a se adaptar s flutuaes constantes, prprias do comrcio
exterior. Na frica, os mercadores que chegavam da Frana, da Inglaterra ou da
Holanda possuam os meios suficientes para comprar em maior escala e vender
a melhores preos do que aqueles de Portugal. Documentos datados dos anos
1570 mostram que os portugueses tinham conscincia desta situao, mas que
eram incapazes de remedi-la.


10   C. Verlindem, 1957, p. 624-625; V. Rau, 1966.
11   M. Malowist, 1969, p. 492-500.
8                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



     O trfico de escravos
    Portugal foi atrado inicialmente para a frica Negra pelo ouro, que era
anteriormente exportado pelos pases islmicos. No obstante, eles no tardaram
a perceber que a frica possua uma outra mercadoria, tambm fortemente pro-
curada pelos Europeus: os escravos. Ainda que a escravido na frica fosse dife-
rente da escravido praticada pelos europeus, a tradio de exportar escravos para
os pases rabes era muito antiga em grandes partes do continente, em particular
do Sudo. Nos sculos XV e XVI, esta tradio pareceu ter ajudado, em certa
medida, os portugueses a conseguir, regularmente, escravos em uma grande parte
da frica Ocidental, notadamente, na Senegmbia, parceira econmica, de longa
data, do Magreb. Os portugueses, que penetravam cada vez mais profundamente
nas regies do sudeste da frica Ocidental, aplicaram, com sucesso, as prticas
comerciais utilizadas na Senegmbia. Compreendendo o carter indispensvel
da cooperao dos chefes e dos mercadores locais, dedicaram-se a interess-los
ao trato de escravos. Os portugueses no ignoravam que isto pudesse resultar em
uma intensificao dos conflitos entre os diversos povos e Estados africanos, os
prisioneiros de guerra tornando-se o principal objeto deste comrcio, mas eles
deixaram muito cedo de se opor s objees morais, pois, como muitos outros
na Europa, eles acreditavam que o trfico abria aos negros o caminho para a
salvao: no sendo cristos, os negros haveriam de ser condenados por toda a
eternidade se eles ficassem em seus pases.
    Logo, um outro argumento foi enunciado: os negros so descendentes de
Ham, que foi amaldioado, e, por isso, so condenados  escravido perptua12.
Estas motivaes ideolgicas no devem ser subestimadas. Devemos acrescentar
aqui que os escravos negros comearam a aparecer na Europa em uma poca
em que o trfico de escravos brancos provenientes da zona do Mar Negro, havia
praticamente ceifado, poca esta em que se comea a identificar o escravo ao
negro, sendo, ento, desconhecidos os outros representantes da raa negra.
    Durante todo o sculo XV e no incio do XVI, o principal mercado da
"madeira de bano" era a Europa, em particular, Portugal e os pases sob domi-
nao espanhola, assim como as ilhas do Atlntico  quais sejam, Madeira, as
Canrias, as ilhas de Cabo-Verde e, mais tarde, a ilha de So Tom , porm, ape-
nas em certa medida, devido s suas pequenas superfcies. O trfico negreiro na


12    o sentimento de numerosos autores portugueses. Ver G. E. de Zurara, 1994; J. de Barros, 1552-1613.
     Nota mais detalhada na edio inglesa: E. de Zurara, 1949, chs 7, 14, 25 and 38; J. De Barros and I. De
     sia, 1937, p.80.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica          9



Madeira, nas ilhas de Cabo-Verde e, mais particularmente, na ilha de So Tom
originou-se, primeiro, em razo da introduo da cultura da cana-de-acar e
do algodo. Na ausncia de tal imperativo econmico, a escravido teve poucas
razes para se desenvolver no continente europeu. Os africanos, introduzidos
em Portugal e nos territrios espanhis, foram, majoritariamente, empregados
nas cidades como domsticos ou artesos pouco qualificados. Nada indica que
eles desempenharam um papel relevante na agricultura, sobre a qual se apoiava
a economia europia. V. de Magalhes Godinho avaliou entre 25.000 e 40.00013
o nmero de escravos levados de Arguin entre 1451 e 1505. A exportao de
escravos de outras regies da frica era mnima naquela poca, exceto para os
pases mulumanos. Segundo P. D. Curtin, o nmero de escravos arrancados da
frica pelos Europeus entre 1451 e 1600 subiu, aproximadamente, para 274.000.
Desse nmero, a Europa e as ilhas do Atlntico receberam 149.000 escravos,
a Amrica Espanhola 75.000 e o Brasil, cerca de 50.00014. Estes nmeros so
muito emblemticos do incio do trato atlntico, ou seja, do perodo precedente
ao prodigioso avano das grandes plantaes no Novo Mundo. Eles corroboram
a tese segundo a qual, a descoberta e o desenvolvimento econmico da Amrica
pelos Brancos, impulsionaram o trato, instaurado, principalmente, assim como
em geral  admitido, para remediar a pungente escassez de mo de obra que
atingia os colonos espanhis. A populao local era, de fato, pouco numerosa
para executar as rduas tarefas da produo que lhe eram impostas pelos espa-
nhis15. No se pode negar que o princpio do perodo moderno presenciou, na
Amrica, uma intensa concentrao de negros nas plancies de clima tropical.
Entretanto, todas as tentativas efetuadas para empregar maciamente os negros
na explorao de minas dos Andes, resultaram em fracasso, ao passo que uma
multido de ndios conseguiu sobreviver nesta regio. No momento de seu
apogeu, por volta do fim do sculo XVI, Potosi contava somente com 5.000
africanos, dentre uma populao total em torno de 150.000 indivduos16. Ainda
assim, no se conseguiu faz-los trabalhar nas minas.
    Os primeiros africanos introduzidos na Amrica vieram da Europa, levados
pelos conquistadores (que eram seus senhores). Originrios da Senegmbia em sua
maioria, primeiro, haviam sido conduzidos  Europa ou l nasceram. Na Amrica,
chamavam-nos ladinos, porque eles conheciam o espanhol ou o portugus e foram


13   V. de Magalhes Godinho, 1962, p. 193.
14   P. D. Curtin, 1971b, p. 259, quadro 7.1.
15   Ver captulo 4.
16   J. Wolff, 1964, p. 158-169 e 172-174.
10                                                           frica do sculo xvi ao xviii



mais ou menos influenciados pela civilizao ibrica. Pensava-se muito bem deles,
contrariamente dos boais que, vindos diretamente da frica, estavam marcados
por uma outra cultura muito diversa17. Intensa nas Antilhas, desde o incio do
sculo XVI, a demanda por mo de obra negra cresceu rapidamente com a expan-
so territorial das conquistas espanholas. Em razo da elevada taxa de mortalidade
entre os ndios, e do fato de o clero e a Coroa de Castela no mais conseguirem
defender seus interesses, tal demanda no cessou de aumentar, e o fornecimento
de escravos negros, provenientes no s da Europa, mas tambm e, sobretudo, da
frica, tornou-se uma forte preocupao dos novos senhores da Amrica.
   Os portugueses tiveram, igualmente, srios problemas na frica. Durante todo
o sculo XV, eles tiveram um crescente interesse pelo comrcio dos escravos e, ao
longo do sculo XVI, como nos outros seguintes, os territrios capazes de lhes
fornecerem escravos em grande quantidade, cada vez mais, suscitavam-lhes cobia.
 sob esta tica que  preciso alocar a penetrao portuguesa no Congo (onde no
havia nem ouro e nem prata), encetada no comeo do sculo XVI, e a conquista
posterior de Angola, que foi precedida pelo rpido avano do comrcio de escra-
vos na ilha de Luanda. Obter grandes quantidades de escravos era, igualmente,
a preocupao dos colonos da ilha de So Tom, no s porque eles precisavam
desta mo de obra para suas plantaes, mas tambm, porque vendiam os escra-
vos s colnias espanholas da Amrica e, a partir do fim do sculo XVI, tambm
ao Brasil portugus. A populao negra deste pas, que era somente de alguns
milhares de indivduos, sofreu, no sculo seguinte, um brusco aumento, da ordem
de 400.000 a 450.000 pessoas, atribudo ao desenvolvimento da cana-de-acar18.
   A conquista da Amrica e a demanda por mo de obra tambm causaram
problemas considerveis  Coroa de Castela. Fornecer escravos aos colonos era
indispensvel e, simultaneamente, as finanas reais tinham a uma abundante
fonte de renda, pelo vis do sistema de licenas (essas foram concedidas aos
negociantes que se comprometiam a importar um certo nmero de escravos,
por conta dos colonos, ao longo de um certo perodo, geralmente de cinco
anos). Ora, o preo das licenas seguia o aumento da demanda por escravos.
Com toda razo, R. Mellafe afirma que era devido ao interesse financeiro que
a Coroa autorizava a importao de um enorme nmero de escravos negros19.
Dentre os primeiros a obter tais licenas, que, frequentemente, concediam um
monoplio, encontrava-se no somente aristocratas prximos do Trono (como

17   R. Mellafe, 1975, p. 14, 15, 19, 21.
18   F. Mauro, 1960, p. 179-180.
19   R. Mellafe, 1975, p. 39.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica           11



Gouvenet, o chanceler de Carlos V do Sacro Imprio Romano-Germnico, em
1518), mas tambm, e, sobretudo, grandes capitalistas, como a famlia Welser,
Heinrich Ehinger e Jrme Seiler, em 152820, muito provavelmente, no mbito
de seus projetos de povoamento e de explorao mineira na Venezuela. O fato
 que este pas contava desde muito cedo com africanos que para l eram tra-
zidos, entre outros, por financiadores e conquistadores que os compraram dos
Portugueses como escravos na frica ou na Europa. Todavia, inevitavelmente,
aqueles que desejavam participar do trfico de escravos tentavam se livrar do
dispendioso intermedirio portugus, adquirindo e vendendo "a madeira de
bano" por conta prpria. Na frica, eles precisaram superar os obstculos cria-
dos pelos portugueses, ao passo que, na Amrica, eles tiveram que recorrer ao
contrabando, pois, a Coroa de Castela autorizava a importao dos escravos
somente aos titulares de licenas. No foi difcil superar esta dificuldade, pelo
fato de os colonos espanhis da Amrica, constantemente com falta de mo
de obra, estarem igualmente dispostos a negociar com os contrabandistas que
descarregavam suas cargas em portos clandestinos. Este comrcio ilegal, alis,
favorecido pelos oficiais das colnias espanholas, que encontraram na corrupo
um meio para melhorar seu soldo, seduziu particularmente os estrangeiros. Estes
eram frequentemente pagos em ouro ou em prata, cuja exportao da Amrica
espanhola, no mbito privado, apenas era oficialmente autorizada at Sevilha e
Cdiz, centros da potncia administrativa colonial de Castela. Os particulares
no podiam, em princpio, exportar, da Espanha, nem o ouro e nem a prata.
   Portanto, tudo pareceu favorecer a exportao dos negros da frica para a
Amrica; o trfico negreiro, entretanto, apenas alcanou a sua plena expanso
quando foram criadas as grandes plantaes de cana-de-acar. Primeiro, na
Amrica espanhola, depois, no Brasil, percebeu-se rapidamente que a populao
indgena no podia suportar a dura cadncia do trabalho imposto nas grandes
plantaes, ao passo que os africanos, nas mesmas condies, mostraram-se
excelentes trabalhadores. Por outro lado, na explorao mineira, o papel dos
negros parece ter sido muito discreto, salvo, talvez, na ilha de So Domingos,
na Venezuela, e em certas regies tropicais do Mxico.
   V-se, portanto, que desde o comeo do sculo XVI e, em particular, ao
longo da segunda metade desse sculo, a frica desempenhou um papel extre-
mamente importante, ainda que pouco invejado, de fornecedora de mo de
obra e de uma certa quantidade de ouro para uma economia mundial em pleno
desenvolvimento.


20   G. Scelle, 1906, p. 122-136.
12                                                           frica do sculo xvi ao xviii



    Entretanto,  necessrio destacar que a situao dos portugueses estava cada
vez mais precria. No Marrocos, lhes eram infligidos graves derrotas pelos xerifes
(shrf) saadianos que conseguiram, durante algum tempo, engajar a populao
em uma guerra santa contra os infiis. Em 1541, eles perderam Agadir e, pouco
depois, foram obrigados, em razo das dificuldades financeiras, a abandonar a
quase totalidade de seus portos marroquinos. O ano de 1560 assistiu  primeira
falncia da Coroa portuguesa. A manuteno de um imprio colonial concedeu
enormes benefcios a uma parte da aristocracia e da pequena nobreza, assim
como, a alguns mercadores, mas ela arruinou a Coroa e seu Tesouro e tornou o
fardo cada vez mais pesado para grande parte da populao.


     O surgimento de novas potncias europeias
    Os Franceses, a partir de 1520, e os Ingleses, a partir da segunda metade do
sculo XVI, revelaram-se perigosos rivais dos Portugueses na frica. Entretanto,
desde o fim do sculo XVI, os Holandeses eram ainda mais perigosos do que
eles. No incio, apenas eram encontrados mercadores franceses isolados, como o
clebre Jean Ango, de Dieppe, ou companhias comerciais. Nem o rei da Frana,
nem a Coroa da Inglaterra associaram-se diretamente ao comrcio com a frica.
Francisco I tentou, sem sucesso, em 1531, 1537 e 1539, fazer com que seus
sditos se abstivessem das expedies  frica, a fim de no comprometer as
relaes da Coroa com Portugal, na poca em que a Frana estava em conflito
aberto com os Habsburgo da Espanha. Mercadores de Ruo, de La Rochelle
e de Dieppe j haviam enviado seus navios para a frica. Em 1525, o rei do
Congo capturou um pequeno navio francs e o entregou, com sua tripulao,
aos portugueses21. A presena francesa foi particularmente sensvel na regio
de Cabo-Verde e do Senegal. Os franceses pilhavam frequentemente, nestas
guas, os navios portugueses que retornavam carregados de ouro africano ou de
mercadorias embarcadas na ndia. Muitos outros portos franceses (Le Havre,
Honfleur) participaram, ao longo do sculo XVI, desta expanso francesa, e,
pouco a pouco, Nantes alcanou um lugar influente nela. No ltimo quarto do
sculo XVI, a presena da Frana na Senegmbia era muito forte, notadamente,
nos centros como Gore, Portudal, Joal e Rufisque (Rio Fresco), no pas Uolfe.
Os franceses traziam, da Normandia e da Bretanha, txteis, alcois, objetos
de metal, at mesmo armas de fogo. Parece que foi este ltimo comrcio que

21   A. Brasio, 1952, vol. I, p. 138, 153.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica                              13



favoreceu a Frana, pois a Coroa Portuguesa havia, h tempos, interditado, obs-
tinadamente, esse tipo de exportao na frica, no momento em que os sobe-
ranos locais se desesperavam para obter tal produto. Os franceses compravam,
sobretudo, o ouro e o marfim, mas tambm, a pimenta-da-guin (malagueta),
peles e o azeite de dend. Os escravos no ocupavam, nesta poca, um lugar em
destaque nas aquisies francesas. Na metade do sculo XVI, os franceses eram
perigosos rivais dos portugueses na Costa da Pimenta e na Costa do Ouro22.
Parece que eles exportavam para a frica muito mais mantimentos do que os
portugueses, o que se revelou particularmente prejudicial aos interesses destes
ltimos, na regio de Elmina. Foi assim que, em 1556, os franceses e os ingleses
levaram tamanha quantidade de mantimentos e os venderam a preos to irris-
rios que, em Elmina, o agente portugus ficou incapacitado de comprar o ouro23.
Entretanto, trata-se, aqui, de um caso excepcional e, em seguida, os portugueses
repararam a situao. A expanso francesa foi, sem dvida, um pouco contida
na poca das guerras de religio, mas essa  uma hiptese que deve ser confir-
mada. Parece que haviam sido vendidas armas de fogo aos soberanos locais das
costas do Camares. Entretanto, foi no Senegal que os franceses encontravam-
-se mais solidamente implantados; l, eles cooperavam frequentemente com os
tangomos, emigrados das ilhas de Cabo-Verde e mulatos, em sua maioria. Eles
expulsaram os portugueses do esturio do Senegal e da Gmbia, mas se viram,
por sua vez, obrigados a ceder o lugar aos ingleses, no fim do sculo XVI24.
    Na frica, a penetrao destes ltimos, no sculo XVI,  anloga aquela dos
franceses. Eles comearam a travar slidas relaes econmicas com o Marrocos,
a partir de 1541, ano em que os portugueses foram expulsos de grande parte
dos portos que possuam no Atlntico, os quais, a partir de ento, abriram-se
aos navios de outros pases europeus. Por volta de 1550 a 1565, as companhias
comerciais inglesas promoveram vrias expedies cuja narrativa foi preservada.
Exploravam as costas do Atlntico do Oeste at o Golfo de Benin, onde com-
pravam, sobretudo, ouro, peles e um pequeno nmero de escravos. As narrati-
vas portuguesas mostram que, no fim do sculo XVI, os ingleses mantiveram
contato com a populao da Costa do Ouro, ainda que pouco se interessassem
pelo trfico de escravos25. Sabe-se que, em 1623, Richard Jobson recusou-se a
comprar escravos negros na baixa Gmbia, ao passo que, na mesma poca e na


22   C. A. Julien, 1948, p. 177; G. Martin, 1948, p. 4.
23   G. Martin, 1948; J. W. Blake, 1942.
24   L. Silveira, 1946, p. 16, 17, 35-37, 44-46.
25   T. S. Willan, 1959, p. 94-97, 139; J. W. Blake, 1942, vol. II, p. 129, 133, 138, 150-155.
14                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



mesma regio, os portugueses eram muito ativos nesse campo, cooperando com
os traficantes africanos26. Pouco se sabe a respeito da penetrao inglesa em
outras regies da frica Ocidental. Todavia, no fim do sculo XVI, a presena
dos ingleses era muito forte nos confins da Senegmbia, de onde eles conse-
guiram expulsar no s os portugueses, mas tambm os franceses. Em 1588
foi criada a primeira companhia inglesa de comrcio com a "Guin", princi-
palmente, a partir da iniciativa de mercadores de Londres e de Exeter, que j
participaram ativamente das expedies comerciais no esturio da Gmbia27.
Entretanto, nada permite afirmar que esta companhia tenha se desenvolvido
muito. Talvez, os ingleses pensassem, no fim do sculo XVI, que a pilhagem
dos navios castelhanos, nas guas do Atlntico, lhes renderia mais do que o
comrcio com a frica.
    Foi precisamente nesta poca que os Holandeses apareceram no litoral da
frica. Eles estavam, ento, em guerra com a Espanha e se recusavam a respei-
tar a partilha do Atlntico, decretada pelo papa. Eles tratavam Portugal, nesta
ocasio governado por Felipe II, como inimigo. Os enormes capitais acumu-
lados por seus negociantes e a potncia de sua frota permitiram-lhes penetrar
mais profundamente na ndia e na frica do que os ingleses e os franceses.
Um historiador holands, H. Terpestra, considera que as primeiras expedies
holandesas na frica foram realizadas por companhias criadas, principalmente,
por comerciantes de mdia envergadura, procurando a frutificao rpida dos
seus capitais. As expedies nas ndias Orientais foram, ao contrrio, organi-
zadas por grandes capitalistas, frequentemente, emigrantes ricos de Anturpia
que podiam investir a longo prazo28.
    De 1593 a 1607, cerca de duzentos navios zarparam da Holanda em direo 
frica; em 1610 e 1611, diz-se, teria existido uma vintena por ano. Os holande-
ses vieram a Gore em 1594 e 1595 e, alguns anos mais tarde, atingiram o cabo
de Benin onde compraram tecidos de algodo e cauris, que seriam trocados, na
Costa do Ouro, por ouro e prata. Em 1611, construram o porto de Nassau, em
More, na Costa do Ouro; ser esta a primeira feitoria fortificada dos holan-
deses, na Costa Ocidental da frica. Eles desenvolveram tambm o comrcio
com a regio de Acra29. Os portugueses no podiam rivalizar com eles, pois
que a riqueza dos holandeses e a grande eficcia de suas redes comerciais lhes


26   R. Jobson, 1623, p.112.
27   Ver nota 25.
28   H. Terpestra, 1960, p. 341, 324.
29   K. Ratelband, 1953, p. XXI-XXV, LXXXIII; P. De Marees, 1605.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica            15



permitiam vender barato grandes quantidades de produtos. Isto os favoreceu
tambm em relao aos ingleses e aos franceses. Eles exportavam objetos em
ferro, bronze, cobre e em estanho, tecidos baratos, de origens diversas, alcois,
armas, diferentes ornamentos, produtos de uso corrente, at mesmo lunetas que
nem eram apreciadas por todos. Graas  venda destes produtos (cuja ampli-
tude surpreendeu Pieter de Marees, em 1601-160230), as quantidades de ouro
trazidas do interior para a Costa do Ouro ainda aumentavam, mas, sobretudo,
beneficiavam aos holandeses. Eles importavam, tambm, o acar da ilha de So
Tom, desempenhando, por algum tempo, um papel central neste comrcio e
encaminhando o produto semifinal s suas refinarias em Amsterd31.
    A penetrao dos holandeses na frica Ocidental foi um fenmeno mais ou
menos espontneo. Em 1617, eles eram to poderosos na Senegmbia que ocu-
param um posto preponderante na ilha de Gore e, em Joal, Portudal e Rufisque,
eles acabam superando, em larga medida, no s os portugueses, mas tambm os
ingleses e os franceses. Conservaram esta forte posio por mais de cinquenta
anos. Ao mesmo tempo, seus navios ancoravam em Loango, na costa do Congo
e de Angola. A princpio, eles se mostraram como os ingleses e os franceses,
pouqussimo interessados pelo comrcio de escravos. Por volta de 1600, todavia,
inaugurou-se uma nova fase da penetrao europia na frica, ao longo da qual o
comrcio de escravos ter uma importncia crescente, inclusive para os holandeses.
Esta evoluo foi anunciada com a compra de escravos em Elmina, Acra e Arda,
no Benin e no delta do Nilo, tal como em Calabar, no Gabo e no Camares. Estes
escravos eram vendidos aos donos das plantaes da ilha de So Tom (que, ento,
pertencia aos holandeses) em troca do acar ou enviados ao Brasil. Notadamente,
tratava-se de Uolfes, adquiridos no delta do Senegal; segundo O. Dapper, eles
eram muito bem reputados, em razo do vigor fsico, e eram convenientes ao
trabalho nas plantaes32. A conquista de Angola, em 1641, estava estreitamente
ligada s necessidades dos holandeses no Brasil, seguindo, nisto, o exemplo dos
portugueses33. Os holandeses perderam o nordeste do Brasil e foram expulsos de
Angola em 1648. No obstante, a associao estreita destes dois territrios, que
se baseava no trato dos escravos, persistiu at o sculo XIX.
    Ao longo deste perodo, o interesse dos europeus pela frica Oriental foi
inexpressivo. Os portugueses, que detinham Sofala e sujeitavam politicamente


30   P. de Marees, 1605.
31   K. Ratelband, 1953, p. XCV, CXV, p. 114, 118 e seg.
32   Ibid., p. 8, 10, 27-35, 40-61; O. Dapper e A. F. C. Ryder, 1965.
33   M. Malowist, 1969, p. 569.
16                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



outras cidades costeiras, no penetravam o interior. No Zambeze, eles no iam
alm de Tete e de Sena, onde compravam pequenas quantidades de ouro nos
mercados locais34. O volume de ouro e, talvez, dos outros bens enviados do
interior para a costa entrara j em diminuio na metade do sculo XVI, e nada
indica que ele tenha voltado a aumentar nos anos seguintes. Esta reduo da
chegada de ouro em Sofala trouxe consequncias nefastas para cidades como
Kilwa, Mombaa ou Malindi, que possuam uma grande atividade antes da che-
gada dos portugueses, na poca em que elas forneciam ouro e outros produtos
aos compradores vindos da ndia e da Arbia. Este declnio, talvez, se explique
pelo fato de que os muulmanos devessem colocar um fim em suas atividades
comerciais na costa da frica Oriental, mas parece que tambm ocorriam per-
turbaes nos arredores das rotas seguidas pelos negociantes, entre os portos e
o interior35. Esta questo requer investigaes mais detalhadas. As populaes
costeiras tentaram, em vo, impelir os turcos da Pennsula Arbica a intervir
contra os portugueses. Iniciada no sculo XVII, a expanso do immat de Om,
pelo litoral e pelas ilhas da frica do Leste, pouco antes de 1700, trouxe consigo
certas mudanas, obrigando os portugueses a se confinarem unicamente em
Moambique36, porm,  apenas no final do sculo XVIII e no sculo XIX que
estas mudanas tornar-se-o, verdadeiramente, muito marcadas.
   No que concerne ao extremo sul da frica, os primeiros sinais de uma
penetrao europia se manifestaram no sculo XVII, quando a Companhia
Holandesa das ndias Orientais encorajou a criao de colnias de camponeses
holandeses (e alemes), aos quais foi atribudo o nome de Beres. Todavia, o
fenmeno quase permaneceu inexpressivo, no sculo XVII, e mesmo muito
tempo depois. Entretanto, a presso dos Beres, que reduziam os San a escravi-
do ou os expulsavam de suas terras, isso quando no os exterminavam, foi um
perigoso pressgio  populao africana37.


     A frica como reserva de mo de obra
   P. D. Curtin estima em 274.000 o nmero de Negros transportados atra-
vs do Atlntico entre 1541 e 1600. Em alguns anos, este nmero chegou a


34   J. L. de Azevedo, 1947, p. 189-201; V. de Magalhes Godinho, 1969, p. 253-275.
35   V. de Magalhes Godinho, 1962, p. 272-273.
36   Ibid, p. 273; R. Oliver e G. Mathew, 1963, vol. I, p. 141, 142.
37   Ver captulo 23.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica          17



1.341.000 pessoas, atingindo 6 milhes, no sculo XVIII. Segundo os clculos
de F. Mauro, baseados nestas estimativas e considerados vlidos por P. D. Cur-
tin, o nmero de escravos enviados ao Brasil entre 1575 e 1675 foi da ordem
de 400.000 a 450.000, e, no sculo XVIII, chegou prximo de 2 milhes38.
Ao longo do sculo XVIII, o fornecimento de mo de obra negra s Antilhas
britnicas e francesas crescera consideravelmente, assim como em Cuba. Estes
nmeros testemunham uma mudana radical de atitude, ainda que progressiva,
dos Europeus para com a frica. Aos olhos deles, este continente deixou de
ser uma rica fonte de ouro para tornar-se, antes de tudo, um reservatrio de
mo de obra, sem o qual seria pura e simplesmente impossvel a criao e a
explorao de numerosos e grandes domnios europeus na Amrica. Sensvel
desde a metade do sculo XVII, esta evoluo tornou-se totalmente evidente
por volta de 1700. O rpido desenvolvimento das plantaes de cana-de-acar
foi a causa principal deste enorme aumento da demanda por mo de obra negra.
O processo, iniciado desde o sculo XV na Ilha de Madeira, nas Canrias, nas
ilhas de Cabo-Verde e, mais particularmente, em So Tom, ao longo da segunda
metade do sculo XVI, atingiu o Brasil, adquirindo grandes propores na regio
do Nordeste. A ocupao holandesa, longe de interromp-lo, refora-o ainda
mais. A situao s foi modificada quando os holandeses, expulsos do Brasil,
comearam a aplicar, nas ilhas do Caribe, as tcnicas de refinamento do acar
por eles desenvolvidas no Brasil. Tais ilhas seriam, pouco a pouco, dominadas,
principalmente, pelos ingleses e franceses. Em intensa concorrncia com estas
novas plantaes, aquelas do Brasil s conseguiam ocupar o segundo lugar na
economia mundial. Com a explorao das minas de ouro e de diamantes do Bra-
sil Central (e, mais tarde, no sculo XIX, com o desenvolvimento da cultura do
caf no Brasil Meridional), a demanda e a importao de escravos, nos sculos
XVIII e XIX, quase triplicou em relao quelas do sculo XVII39.
    Ao mesmo tempo, o fornecimento de escravos aos ingleses e franceses,
senhores das terras do Caribe, aumentou consideravelmente. Nas colnias ingle-
sas, o nmero de escravos passou de 264.000, no sculo XVII, para 1.400.000,
no sculo XVIII. A situao foi a mesma nas ilhas ocupadas pela Frana, em
especial, em So Domingos, para onde foram levados, no sculo XVIII, por volta
de 790.000 escravos, cuja maior parte veio diretamente da frica40. A cultura de
cana-de-acar tambm surgiu em Cuba, onde criou necessidades de mo de

38   P. D. Curtin, 1971b, p. 259; F. Mauro, 1960, p. 179, 180.
39   P.D. Curtin, op. cit.
40   Ibid.
18                                                           frica do sculo xvi ao xviii



obra muito parecidas. O Suriname holands, as plantaes inglesas e francesas
da Amrica Central e a parte setentrional da Amrica do Sul absorveram um
grande nmero de escravos negros. Na Amrica do Norte, as plantaes de
tabaco da Virgnia e as plantaes de arroz de Maryland forneciam as bases
para um novo avano do trfico negreiro. Ele alcanou uma intensa progresso
no sculo XVIII, quando aproximadamente 400.000 escravos foram trazidos
para as colnias inglesas41. No sculo XIX, o desenvolvimento das plantaes
de algodo transformou o sul dos Estados Unidos da Amrica em um imenso
territrio cuja economia fundamentava-se na escravido. Nas colnias do Norte,
onde predominava a cultura de cereais nas pequenas e mdias exploraes, con-
tinuava muito limitado este tipo de importao de mo de obra.
    A demanda por mo de obra negra nas colnias americanas imps  Europa
Ocidental uma tarefa de uma importncia sem precedentes, especialmente, em
uma poca caracterizada por mudanas radicais na partilha das foras econmi-
cas e polticas. Na segunda metade do sculo XVII, o declnio da Espanha e de
Portugal era cada vez mais evidente. A Holanda, na ocasio do apogeu de sua
potncia, lentamente comeou a ser repelida pela Inglaterra e pela Frana, que
possuam um desenvolvimento econmico rpido, alm de exercerem, a partir
do final do sculo XVII, uma influncia cada vez mais importante sobre a natu-
reza e a intensidade da penetrao branca na frica, ao passo que os espanhis
e, at mesmo, os holandeses, passaram a desempenhar um papel relativamente
marginal. No que tange aos portugueses, o sucesso que tiveram na conquista de
Angola permitiu-lhes conservar uma posio favorvel nessa zona importante
para o trfico de escravos.
    No sculo XVI, a Holanda e a Inglaterra, depois, a Frana e um certo nmero
de outros pases criaram companhias que asseguravam o comrcio com a frica
e o envio dos escravos para a Amrica. Consequentemente houve uma concen-
trao de recursos para esta finalidade. As companhias obtiveram de seus res-
pectivos governos o monoplio do comrcio com a frica, o que lhes permitiu
impor os preos que lhes convinham. Em contrapartida, elas tinham que prover
os fortes antigos e construir novos para proteger as feitorias europias, situadas
nas costas africanas. Nesse sentido, a ao das companhias inglesas, holandesas
e francesas reforou a posio dos europeus na frica. Os fortes europeus se
multiplicaram rapidamente ao longo dos sculos XVI e XVII, em especial, na
Costa do Ouro e em sua vizinhana imediata.


41   Ibid.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica                            19




Figura 1.2 Lavagem da lama diamantfera pelos escravos negros no Brasil.  The Wilberforce Museum,
Hull.
                                                                                                                                     20
                                                                                                                                     frica do sculo xvi ao xviii
Figura 1.3 Venda de mercadorias, de quadros e de escravos na Rotunda, em Nova Orlees, na Amrica.  The Wilberforce Museum, Hull.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica             21



    Ao mesmo tempo, a frica tornou-se um lugar de afrontamento para os
europeus. No se deve ver nisso um simples eco da rivalidade das grandes potn-
cias na Europa. Os negociantes e as companhias comerciais esforavam-se para
obter o controle das melhores feitorias situadas na costa africana. Para isto, eles
aproveitavam os perodos de guerra. Assim, as possesses dos diferentes gru-
pos rivais formados por europeus  sendo que cada grupo era apoiado por seu
governo  frequentemente mudavam de mos. Os governos em questo queriam,
antes de tudo, desenvolver as plantaes americanas, baseadas na explorao da
mo de obra negra, e aumentar os benefcios que eles retiravam do comrcio de
escravos. Logo,  inconcebvel que no apenas as grandes potncias, mas tam-
bm outros pases de menor importncia pudessem deixar a frica entregue a si
mesma. Mesmo a Sucia, a Dinamarca e a Prssia tentaram intervir nos assuntos
africanos, ainda que sem grande sucesso e, finalmente, retiraram-se deles.
    Os resultados das companhias, entretanto, no foram to brilhantes quanto o
previsto. As duas maiores companhias inglesas no foram muito ativas. A Royal
African Company, fundada em 1672 e na qual o prprio rei da Inglaterra tinha
interesses, enfrentava constantes dificuldades, embora ela controlasse, no perodo
do ltimo quarto do sculo XVII, uma parte importante do comrcio exterior
da frica, passando pela costa ocidental. Sua poltica foi muito criticada pelos
americanos, proprietrios de terras das colnias inglesas, e por numerosos nego-
ciantes da metrpole42. Os primeiros protestavam contra a imposio, feita por
ela, dos elevados preos dos escravos, ao passo que os negociantes ingleses, que
no eram membros da companhia, tambm queriam ter acesso s costas africanas
e ao lucrativo comrcio dos escravos. A partir de 1689, a companhia viu seus pri-
vilgios diminurem progressivamente, o acesso ao trato africano foi concedido a
outras tambm e na metade do sculo XVIII a companhia deixou de existir.
    H alguns anos atrs, na Inglaterra, j se abrira uma era de comrcio livre com
a frica. Os negociantes de Liverpool  durante quase meio sculo, principal
centro daquilo que se chamou de "comrcio triangular"  eram os mais poderosos.
Este comrcio foi organizado da seguinte maneira: os negociantes de Liverpool
expediam suas embarcaes, carregadas de produtos ingleses, para as costas afri-
canas, onde trocavam-nos por escravos que seriam transportados para a Amrica
e vendidos aos senhores de terras das colnias inglesas, espanholas e portuguesas.
Em troca, eles levavam produtos coloniais  Inglaterra43. No sculo XVIII, os
acordos comerciais, que os ingleses obrigaram a Espanha e Portugal a assinarem,

42   D. P. Mannix, 1963, p. 29-30.
43   Ibid, 1963, p. 69-74.
22                                                          frica do sculo xvi ao xviii



permitiram-lhes aceder, mais tranquilamente, s possesses desses dois pases
localizadas na Amrica. As ndias Ocidentais Inglesas, em particular, Barbados e
Jamaica, constituam, nos sculos XVII e XVIII, uma zona de implantao forada
e macia de africanos, empregados na cultura de cana-de-acar e, depois, na do
algodo e do caf44. Estas duas ilhas vendiam escravos aos produtores de tabaco e
de arroz da Virgnia e de Maryland, que eram cada vez mais numerosos, em troca
de cereais e de outros produtos das colnias da Amrica do Norte.
    O notrio sucesso dos negociantes de Liverpool, no sculo XVII, explica-
-se, sabe-se h muito tempo, pelo rpido avano da indstria nos Midlands,
notadamente, da metalurgia em Birmingham e da indstria txtil em Man-
chester. Os comerciantes de Liverpool podiam fornecer aos africanos, de forma
regular e a preos mais mdicos do que os dos outros europeus, facas, armas e
outros objetos em metal bastante apreciados, como tambm produtos txteis. Ao
longo do sculo XVIII, a Inglaterra se afirmou progressivamente como o pas
que estabelecia as ligaes econmicas mais estreitas com a costa africana. Sua
influncia foi sentida do Senegal at os confins do Camares. Embora ela tenha
abandonado  Frana, em 1799, seus postos avanados no Senegal, reforou a
sua posio na Gmbia e em Serra Leoa. Ela tambm desempenhou um papel
principal no trafico de escravos que se intensificou na metade do sculo XVII,
na Costa do Ouro. Da mais alta importncia para si mesma, foi o comrcio ao
qual a Inglaterra se lanou na baa de Biafra e no cabo de Benin, inclusive em
Calabar. O nmero de escravos transportados no sculo XVIII foi claramente
superior a 1.300.000. As exportaes de escravos a partir de Ouidah, Porto
Novo, Lagos e de outros portos desta costa, aumentaram consideravelmente45.
Os ingleses no foram os nicos protagonistas europeus nesta cena. Embora suas
posies fossem menos marcadas, a Holanda e, em particular, a Frana com os
mercadores de Nantes, estavam, cada vez mais, ativos na Costa dos Escravos, no
Senegal, na regio do Camares e em Loango. Angola, que, por volta do final
do sculo XVII, era o principal reservatrio de mo de obra negra, permaneceu,
durante a segunda metade do sculo XVIII, sob a influncia de Portugal que,
maciamente, continuava abastecendo o Brasil de escravos.
    As tentativas de colonizao comearam em Angola, onde os europeus, pouco
numerosos no princpio, vieram se instalar. Por outro lado, no litoral de Cabo-
-Verde e no Congo, a expanso europia manteve sua caracterstica comercial. As
feitorias e as colnias criadas pelos europeus (como So Lus, fundada em 1626)

44   K. D. Patterson, 1967, p. 16-29.
45   P. D. Curtin, 1971b, p. 259-267.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica              23



foram dispersas e unicamente estabelecidas na costa, prximas de baas bem pro-
tegidas e, geralmente, de aglomeraes africanas. Elas foram, para os negociantes
brancos, o centro de certas atividades assaz considerveis, mas de alcance limitado.
Elmina e Acra, mas tambm, Ouidah, Porto Novo, Badagri, o Antigo e o Novo
Calabar, clebres no sculo XVIII, constituam, tal como outras feitorias, pontos de
encontro estabelecido entre os brancos e os negros que lhes abasteciam de escravos
em troca de produtos europeus. Em geral, os soberanos africanos se reservavam a
prioridade neste comrcio, porm, negociantes negros desempenhavam tambm
um papel muito importante. Mesmo em Angola, os portugueses apenas captura-
vam um pequeno nmero de escravos, deixando aos agentes recrutados no seio da
populao local o cuidado de compr-los ou de captur-los no interior.
     difcil saber qual era a extenso do territrio em que o comrcio de escravos
foi praticado; parece que Herskovits e Harwitz enganaram-se afirmando que
somente a populao do litoral tinha sido dizimada pelo trato de escravos46.
 certo que as regies limtrofes dos portos foram aquelas que mais sofreram,
porm, desde o sculo XVI, informaes circulavam a respeito das grandes via-
gens que os escravos deviam cumprir para virem das zonas recuadas da frica
at os portos onde eram embarcados. No sculo XVIII, quando a exportao dos
africanos tornou-se macia, era preciso penetrar no interior das terras para con-
seguir escravos, pois, nessa poca, os principais fornecedores eram os soberanos
de pases poderosos, como Ashanti e Daom, e tambm os traficantes de Cala-
bar.  provvel que eles capturassem escravos bem no corao do continente, ao
norte dos territrios onde eles residiam47. Os antigos Estados africanos, como
Benin ou Oyo, eram bem menos acessados. O Congo que, no sculo XVIII,
entrara em um perodo de desintegrao completa, nunca desempenhou um
papel importante como fornecedor de escravos.
    Nesta poca, os europeus no pensavam particularmente em uma expanso
territorial na frica (salvo em Angola), j que eles conseguiam escravos no mesmo
lugar onde eles vendiam rum, armas e outras mercadorias, ou seja, em suas feito-
rias e nas numerosas baas por eles controladas. No estavam ainda prontos para
empreender a conquista do continente negro, especialmente, porque no supor-
tavam bem o clima, alm de estarem desarmados frente s doenas tropicais. Os
europeus, como os brasileiros e os primeiros norte-americanos que comearam a
aparecer no continente africano, faziam de tudo para conquistar a amizade dos
soberanos africanos, fornecendo-lhes, generosamente, as mercadorias que eles

46   M. J. Herskovits e M. Harwitz, 1964.
47   J. D. Fage, 1969a.
24                                                             frica do sculo xvi ao xviii



desejavam. No sculo XVII e XVIII, a comunidade de interesses muito particular
que unia os traficantes de escravos europeus a seus fornecedores (ou seja, os sobe-
ranos, os dignitrios e os comerciantes africanos) ainda se reforava. Nesse sentido,
importa destacar que o movimento em favor da abolio da escravido, iniciado na
segunda metade do sculo XVIII, enfrenta, na Inglaterra, uma resistncia vigorosa
no s da parte dos proprietrios de terras das ndias Ocidentais, mas tambm,
em larga medida, dos mercadores da metrpole. Descobrir-se-, mais tarde, que
os reis de Ashanti e do Daom, e certamente outros soberanos africanos, tambm
eram, obstinadamente, opostos ao fim do trato de escravos.
     Nos sculos XVII e XVIII, a zona pela qual os Europeus mais se interessa-
vam era a costa ocidental da frica. O comrcio de escravos era muito reduzido
na costa oriental e  somente no sculo XVIII que os traficantes europeus l
fazem suas primeiras aparies. A imensa distncia que a separava dos mercados
americanos criava srios obstculos, ainda que superveis, ao envio dos africanos
para as colnias do Novo Mundo. Numerosos habitantes da regio que corres-
ponde ao atual Moambique deviam, pois, fazer uma viagem particularmente
longa e trgica para alcanarem o outro lado do Atlntico, especialmente, o Bra-
sil. Segundo P. D. Curtin, o nmero de escravos arrancados da frica Central e
da frica do Sudeste, entre 1711 e 1810, para serem enviados  Amrica,  da
ordem de 810.000, o que representa 24% do nmero total de escravos impor-
tados48. Entretanto, faltam informaes sobre o nmero de escravos originrios
da costa oriental e de seu interior. Um nmero pequeno de escravos negros foi
exportado pelos franceses depois que se tornaram senhores na Ilha da Reunio
e da Ilha Maurcio. Na frica do Leste, as exportaes de escravos, destinados 
Arbia pelos sditos do imm de Om, aumentaram no sculo XVIII. Quando
este trfico se voltou para Zanzibar, causou efeitos trgicos nas populaes da
frica Central e do Leste. Parece, entretanto, que foi sobretudo no sculo XIX
que elas foram dizimadas pelas razias dos negreiros rabes.
     Na frica do Norte, apenas no sculo XVIII os europeus colocaram um fim
nas atividades dos piratas barbarescos, privando-os, assim, de sua principal fonte
de rendimentos. Seria interessante saber se este fato teve alguma influncia na
poltica da elite governante de Argel e de Tnis, que, ento, estava estreitamente
associada s expedies dos piratas e, notadamente, sobre sua poltica a respeito
das comunidades autctones.




48   P. D. Curtin, 1971b, p. 267.
A luta pelo comrcio internacional e suas implicaes para a frica                                 25




Figura 1.4    Desenho satrico poltico intitulado: "Homens e irmos!"  The Wilberforce Muzeum, Hull.
26                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    A expedio realizada em direo ao rio Nger, em 1591, no parece ter
obtido um efeito durvel no Marrocos. Os conquistadores livraram-se da metr-
pole muito rapidamente e seus descendentes (Arma) criaram pequenos Estados
que, alis, foram efmeros. No se encontram traos de mudanas importantes
ocorridas no comrcio entre o Marrocos e o Arco do Nger. Escravos e pequenas
quantidades de ouro continuaram sendo exportados do Sudo Ocidental. O
trfico de escravos parece ter sido expressivo, visto que, no fim do sculo XVII,
os sultes do Marrocos possuam uma armada de escravos que, durante certo
perodo, tambm exerceu uma forte influncia sobre a poltica do pas.


     Concluso
    A histria dos contatos da frica com o resto do mundo, do sculo XVI ao
XVIII, pode ser brevemente caracterizada da seguinte forma: a costa ocidental
e seu interior constituam a zona que mais estava em contato com o resto do
mundo. No princpio, os europeus se interessaram pelo ouro africano, depois, a
partir da segunda metade do sculo XVI, o trfico de escravos passou a ocupar
o primeiro plano. Ele assegurou o desenvolvimento econmico de uma grande
parte da Amrica e do Caribe, e tambm, acelerou a acumulao de capital na
Europa (sobretudo, na Inglaterra) e na frica. Nesta poca, a penetrao euro-
pia na frica foi do tipo pr-colonial e teve, sobretudo, um carter comercial.
As trocas entre as duas partes eram desiguais, pois os europeus exportavam
produtos de baixo custo, em troca dos quais conseguiam um nmero abundante
de mo de obra. Deste modo, se eles no tentaram conquistar o continente, do
ponto de vista demogrfico, causaram um grave prejuzo  frica. Geralmente
se subestimou o papel desempenhado pela frica desde os sculos XVI e XVII,
de mercado para numerosos produtos da indstria europia. Os benefcios que a
frica retirou de tais contatos se limitam  introduo da cultura do milho e de
diversas variedades de mandioca. No se poderia sustentar que isto compensa a
hemorragia demogrfica, sem falar dos sofrimentos infligidos aos inmeros seres
humanos que foram arrancados de seu meio e levados para terras longnquas,
onde tudo lhes era estrangeiro, para serem sujeitados a um trabalho pesado nas
plantaes.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado



                                          CAPTULO 2


        As estruturas polticas, econmicas e
         sociais africanas durante o perodo
                      considerado
                                                  P. Diagne




    As estruturas sociais, econmicas e polticas africanas no pararam de sofrer
mudanas entre os sculos XVI e XIX. Isto se deveu, notadamente, tanto a
fatores internos  de ordem demogrfica ou ecolgica  quanto a foras exter-
nas  tais como o comrcio de escravos, o cristianismo, o isl e o capitalismo.
No presente captulo, no ser feito somente um estudo dessas transformaes
e das novas estruturas que apareceram; tambm ser ressaltado que, na maioria
das regies do continente, a famosa imutabilidade das estruturas ou instituies
africanas  um mito histrico sem fundamento real.


    As novas estruturas sociais
    O isl e o cristianismo
    , a princpio, no domnio social que a mudana se fez sentir e que novas
estruturas apareceram. Na rea religiosa, as filosofias e as religies da Europa e
do Oriente Mdio comearam sua expanso. O cristianismo e o isl tornaram-
-se foras polticas em regies onde eram at ento desconhecidos. A questo
religiosa tornou-se crucial para civilizaes que, em razo de sua viso de mundo,
tinham at esse momento ignorado esse tipo de conflito.
28                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



   Todo o terreno conquistado pelo cristianismo nas reas costeiras da frica
oriental no decorrer desse perodo foi perdido com o assassinato do padre Gon-
alo da Silveira, padre portugus responsvel por submeter, com muito esforo,
o mwene mutapa Nogoma  influncia crist e portuguesa, em 1560. O isl,
em contrapartida, progredia na Etipia com as conquistas de Ahmad Gra
(1531-1535)1 e a dos mai, do Borno, bem como a conquista dos askiya, do
Songhai, no Saara e no Sudo ocidental.

     Das sociedades dos cativos s sociedades de escravos
    A segunda mudana importante foi a substituio, na maior parte da frica,
de um sistema prprio da frica negra, o do jonya, por um sistema importado
da Europa e do Oriente Mdio, o da escravido.
    O jonya (do termo mande jon, que significa cativo) era difundido princi-
palmente no Sudo ocidental, assim como na regio do Nger e do Chade.
Um jon (jaam em wolof, maccuba em fulfude, bayi em haussa) era um escravo
ligado a uma linhagem. No era cedvel e possua a maior parte do que produ-
zia. Nas sociedades em que reinava esse sistema, ele pertencia a uma catego-
ria sociopoltica integrada  classe dominante; era ento cidado exclusivo do
Estado e pertencia a seu aparelho poltico. Enquanto sistema e categoria social,
o jonya desempenhou um papel considervel e original nos Estados e imp-
rios de Gana, Takrr, Mali, Kanem-Borno, Ashanti, Iorub e de Monomotapa
(Mwene Mutapa)2. A elite dos escravos reais (os jon tigi mande, os farba dos
jaami buur, de Takrr, e os sarkin bayi, dos haussas) pertenciam  classe domi-
nante do Estado e da sociedade. Ela exercia certo poder, abarcava fortunas, alm
de poder, ela mesma, possuir escravos como os jombiri jon mande e escravos
cativos de Daom3.
    No entanto, a escravido oriental e ocidental, tanto sob sua forma mais
antiga, quanto sob a forma colonial que se expandiu na frica no sculo XVIII,
visava, em sua essncia, estabelecer um modo de produo que fizesse do escravo,
praticamente privado de direitos, um bem imobilirio ou uma mercadoria nego-


1    Ver o captulo 24
2    Os macamos eram grupos de escravos ao redor do mwene mutapa, ou seja, o equivalente aos prisioneiros
     reais sudaneses (furba jon, tonjon ou jaami buur).
3    O estudo da escravido dos grupos de escravos nas sociedades africanas foi assunto de vrias obras
     importantes, tal como o que foi publicado em 1977 sob a direo de S. Miers e I. Kopytoff. Ele enumera
     todas as instituies s quais se possa aplicar o termo escravido e tenta defini-lo no contexto autctone
     africano. Ver C. Meillassoux, 1975; P.E. Lovejoy, 1981; A.G.B. Fisher e H.G. Fisher, 1970.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   29



civel e cedvel. Os escravos formavam, por muitas vezes, o grosso da populao
ativa de uma sociedade, como ocorria no sistema ateniense e nas plantaes
coloniais da Arbia medieval, ou mesmo na Amrica ps-colombiana. Esse
fenmeno engendrou um conflito que continuaria a afligir o continente africano
at o sculo XX.
    Uma instabilidade crescente e guerras contnuas contriburam, ao menos
no plano demogrfico, para a expanso dos jonya no sculo XVI at que se
sobreps geograficamente s regies com sistemas de escravido do tipo antigo
ou colonial sendo assim inserida nas novas estruturas sociais. Nas regies em
que as instituies islmicas foram introduzidas, como entre os songhai, os
haussas e nas cidades da frica oriental, os dois sistemas foram frequentemente
confundidos.
    Com a criao de Estados muulmanos ou de emirados  que ocuparam
progressivamente todo o Sudo ocidental graas s jihad e s revolues de
Karamokho Sambegu, em Fouta-Djalon, por volta de 1725, e de Sulayman Baal,
em Fouta-Toro, no ano de 1775 , as tradies e o direito muulmanos foram
implantados na regio e a escravido substituiu o sistema jonya. A fundao do
califado de Sokoto por Uthman dan Fodio, no incio do sculo XIX, acelerou o
processo que reforou ainda mais a islamizao dos negro-berberes do Saara e
a conquista da regio pelos kabila rabes hassans. Tal fato transformou progres-
sivamente o sistema semifeudal dos Haratin4 (que associava uma aristocracia
guerreira e populaes sedentrias conquistadas) em um sistema que era seme-
lhante  escravido. Mas o jonya sobreviveu em meio  aristocracia tradicional
do Sudo ocidental e da regio do Nger-Chade, que quase no tinha sofrido
influncia muulmana. At a conquista colonial, o jonya guardou alguma influ-
ncia dos Estados wolof, seereer, haussa, kanembu e iorub. Com seus furba jon,
o imprio de Sgou lembra o dos mansa e seus tonjon. At a conquista colonial,
os Estados de Cayor, Siin e Yatenga ficaram em grande escala sob a dominao
da elite guerreira ou administrativa da classe dos cativos.

    A expanso das estruturas feudais
    A terceira mudana diz respeito s estruturas feudais que, intactas ou modi-
ficadas, se expandiram nas civilizaes agrrias da frica.
    Enquanto estrutura poltica, modo de produo ou sistema socioeconmico, o
feudalismo supunha no apenas laos de fidelidade, de vassalagem e de suserania,


4    Servos, na origem.
                                                                                                                                                               30
                                                                             0!                       500 milhas
                                                                             0!                       800 km
                                                   Taghaza
                                                                                                                               TIBESTI




                            TA G A N T                   Arawan                                                                     ENNEDI
                                                                                          Tadmekka     AIR
                                                                                                                           Bilma
                                                                                                         Agadez
                       Awdaghust                             Tombuct
                                              Walata                                                                               KANEM
                                                                              Gao
         TAKRR                                                                      KEBBI
                                           Kumbi
                                                                                                     Gobir
                                                                Ouahigouya
                                            Sgou                                 GURMA
                                                Djenn                                                       Biram
                                             YATENGA                                                 Kano                BORNO
                                                       Ouagadougou           Fada NGurma
                                Kankan                                   OUAGADOUGOU
                                                                  DAGOMBA
                                                                        Gambaga
                                                                                                                                     Hau (sc. XV-XVI)
                                                                        Yendi                                                        Mossi e Dagomba
                                                                                                                                     (sc. XV-XVI)
                                                                                                                                     Borno (fim do sc. XVI)




                                                                                                                                                               frica do sculo xvi ao xviii
                                                                                                                                     Gana (sc. XI)

                                                                                                                                     Mali (sc. XIV)

                                                                                                                                     Songai (sc. XVI)

                                                                                                                                     Rotas principais



Figura 2.1   Entidades polticas do Sahel entre os sculos XI e XVI. Fonte: segundo um mapa desenhado por P. Ndiaye, Departamento de geografia, Universidade
de Dakar.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   31



mas oferecia tambm a possibilidade de especular e de tirar proveito dos meios
de produo. Pouco importava se esse direito fosse fundado na propriedade
fundiria, na dominao territorial ou na possesso de uma pessoa, de um bem
ou de certos meios de produo. De fato, a propriedade fundiria  ao dominar
o pensamento, os sistemas de governo, bem como as estruturas polticas e socio-
econmicas da Europa e do Oriente Mdio  caracterizava tanto os regimes
feudais ocidentais quanto os orientais que foram implantados nas civilizaes da
frica, que eram essencialmente agrrias. Sua influncia era exercida em todo
lugar onde a ocupao das terras ou a dominao de um territrio incorria no
somente no recebimento de taxas, direitos, aluguis, meao e arrendamento,
como tambm no emprego de operrios agrcolas.
    As estruturas socioeconmicas dos territrios situados ao sul do Saara dife-
riam dos da Europa e do Oriente Mdio, e do regime feudal em si. Em funo
das condies histricas e ecolgicas, no havia especulao sobre os meios de
produo, mesmo nas sociedades e Estados de classe dessa regio. Na frica
negra, antes da apario do direito islmico ou do mailo (regime feudal) de
inspirao ocidental (introduzindo um sistema de arrendamento em Uganda
em 1900), a terra era apenas uma fonte de ganhos. A propriedade de tipo euro-
peu, fosse o direito de usar e de dispor dos bens e mesmo das pessoas (ou seja,
escravos), praticamente no existia. Os que se apropriavam ou transmitiam uma
parcela de terra ou rea de caa, de pesca ou de colheita valia-se apenas de um
direito de usufruto que exclua a especulao lucrativa ou o direito de venda.
As sociedades agrrias do sul do Saara criaram ento o lamana  sistema de
ocupao das terras que no previa nem a locao destas, nem o arrendamento
ou a meao, ainda que taxas impostas tanto pelo Estado e pelas autoridades
como pelos chefes fossem recebidas em cima da produo agrcola e pastoral.
A economia prpria da frica negra era centrada, antes de tudo, na produo
destinada ao consumo. O homem produzia aquilo de que precisava, mas no
possua os meios de produo.
    As interaes entre as diferentes estruturas sociais criaram sociedades hbri-
das e heterogneas que foram, em geral, muito mal descritas por estudiosos sob
influncia de noes preconceituosas da histria. Do sculo XVI ao XVIII, havia
ento reas marginais onde um feudalismo atpico se avizinhava ao lamana.
Contudo, na maioria das regies em que a produo era destinada s trocas,
o regime de tipo feudal dominava e o sistema de produo para o consumo
(lamana) havia sido eliminado ou transformado.
    No Egito, o sistema turco dos beylik (beilhiques) encorajou o desenvolvi-
mento do regime feudal e o regime otomano foi substitudo por uma nobreza de
32                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



proprietrios feudais, tendo ela mesma instaurado todo um sistema de relaes
entre os feudatrios e os suseranos. Como na Europa da Idade Mdia, essa
aristocracia rural era protegida pelos odjak (fortalezas e guarnies turcas). Os
grandes chefes locais governavam um arsh (rea tnica) ou um dwar (campo de
tendas) de acordo com seu sistema hierrquico. Eles submetiam khames (vassa-
los, servos) e pequenas comunidades, tal como o fazia o Makhzen. No Sahel e no
Saara mauritnio, as famlias religiosas e os djuad (chefes guerreiros) submete-
ram confederaes de pequenas comunidades, transformando-as em feudos sob
pretexto de fraternidade religiosa ou exercendo seu direito de conquista. No sul
da regio de Oran, os Awld Sidi Shaykh impuseram um tributo aos nmades
chaamba, que lhes prestaram um juramento de fidelidade. Os guerreiros hassan
impuseram as mesmas obrigaes de fidelidade (worma5) s famlias haratin e
de marabutos, ao norte do rio Senegal, e fizeram prevalecer o muud al-hurum
sobre os Fulbe.
    Os beis concediam frequentemente aos principais dignitrios turcos e autc-
tones do Magreb importantes propriedades que eles exploravam de acordo com
o sistema de meao, arrendamento ou locao. Como no Egito, a atividade
econmica estava nas mos do beilhique que tinha o monoplio das inds-
trias manufatureiras, dos moinhos, dos arsenais, da cunhagem de moedas, dos
canteiros de obras, alm de lhes ser atribudo ainda o produto da pirataria. Ele
influenciava o comrcio de cereais, leo, sal, e o comrcio txtil, e controlava as
rotas comerciais (ou seja, os pontos de chegada das caravanas e os portos), bem
como o comrcio exterior. Sua vigilncia era exercida sobre as guildas de artesos
e de negociantes. A prpria classe mdia dos negociantes servia de intermedirio
ao regime otomano.
    No resto da frica do Norte e no norte da Etipia, o regime feudal se desen-
volveu de modo distinto, em funo das condies ecolgicas que dificultavam
a concentrao de propriedade em certas regies. As grandes propriedades do
beilhique do Magreb, que se estendiam sobre vastas superfcies, acarretaram a
generalizao da distribuio de azel (feudos), explorados de acordo com o sis-
tema do khammasat (arrendamento), com partilha na base do quinto. No mbito
regional, o regime era ainda o dos milk (pequenas propriedades familiares) e dos
`arsh (propriedades comunitrias ou grupais), mas ainda no quadro da superes-
trutura feudal de especulao.



5    O termo worma introduziu a ideia de fidelidade ou de vassalagem nas lnguas do Takrr, onde esta relao
     no existia at ento.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   33



    No Egito e no resto da frica do norte, vrios sculos de dominao greco-
-romana j tinham aberto caminho ao feudalismo, ou seja, ao sistema de ikt` de
Mamluk. Sob a ocupao grega e romana, essas regies tornaram-se os celeiros
desses imprios que desenvolveram ali o domnio pblico (ager publicus) e o
colonialismo, com a ajuda da mo de obra escrava e de um campesinato total-
mente oprimido e explorado. No sul do Saara, a passagem ao regime feudal
deu-se sob o impulso de uma influncia externa.
    No norte da Etipia, por exemplo, surgiu uma aristocracia feudal que criou
grandes domnios. Isto ocorreu porque a nobreza etope havia corrompido os
princpios da filiao dupla e da partilha igual das heranas, o que deu origem
a "famlias" transgeracionais. Os membros da nobreza apropriaram-se igual-
mente do rebanho e dos produtos da terra. A economia da regio baseava-se
na agricultura de lavoura, e um grande nmero dos membros da nova nobreza
pde transmitir a seus herdeiros a integralidade dos domnios que eles tinham
acabado de adquirir. Da mesma forma, o poder poltico foi progressivamente
concentrado nas mos desse grupo; passou a ser ento crucial, para acumular
riquezas, deter um cargo poltico.  o que explica a existncia, no norte da Eti-
pia, de uma tendncia muito clara a uma maior diferenciao de classes, baseada
no acmulo da propriedade feudal e do poder poltico6.
    Esse regime semifeudal foi disseminado pelos cristos da Etipia do norte
s reas do sul, onde foram criadas as ketema (cidades de guarnio) habitadas
por uma neftenia (nobreza feudal) que colonizava as gasha (terras ocupadas).
Os gabar (camponeses) que cultivavam as terras em proveito da nobreza feudal
eram, tal como os fallahin (singular: fallah), quase servos ou, no mnimo, tri-
butrios ou clientes, obrigados a pagar o gabir ou siso, j que eles eram meeiros
ou arrendatrios.
    Na regio dos Grandes Lagos, principalmente na rea sul que compreende
uma grande parte da atual Tanznia ocidental, Burundi, Ruanda e Uvira, ao
nordeste do Congo, o sistema da "clientela" constitua um regime semifeudal,
regulador das relaes entre pastores e agricultores. Tratava-se de uma espcie
de contrato entre o donatrio (o pastor)  que fornecia o gado  e o beneficirio
(o agricultor)  que punha seus servios, os de sua famlia e das geraes vin-
douras  disposio do donatrio e de seus herdeiros. Esses contratos variavam
de acordo com as sociedades, modificando-se tambm no decorrer dos anos7.
Em Takrr, um surga ou dag aceitava, por vontade prpria, ser mantido por um

6    Ver captulo 24. Ver tambm A. Hoben, 1975.
7    E. Mworoha, 1977, cap. 3 e 4. Ver tambm captulo 26.
34                                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



homem rico ou por um homem poltico influente. Aparentemente, essas relaes
evidenciam estruturas quase feudais, devidas no a causas exteriores, mas a uma
evoluo interna.
    Os principais fatores que contriburam para a adoo do sistema socioeco-
nmico feudal otomano foram a propagao do regime do emirado muulmano
com a chegada dos askiya ao Sudo ocidental, a expanso do imprio dos mai
islamizados de Borno e a introduo do direito cornico, seguida de conver-
ses e jihad. Entre os Songhai, os askiya conservaram uma parte da estrutura
socioeconmica tradicional. Assim como a aristocracia etope que colonizara
o sul da Etipia, eles introduziram numerosas inovaes nas regies por eles
conquistadas. O askiya Muhammad e seus sucessores distriburam concesses 
maneira dos Mamluk; criaram ikt` (feudos) nas terras (kharadj) arrancadas dos
no muulmanos; e em vez de dar aos seus favoritos  os servos  as terras que
no eram cedveis ou sua propriedade, outorgaram-lhes o usufruto dos direitos,
assim como taxas e ganhos pagveis ao Estado. As crnicas (ta'rikh) fervilham
de informaes a esse respeito.
    Nos emirados, foi adotado o direito islmico das jihad, o que reforou a
implantao das estruturas socioeconmicas feudais ou semifeudais, europias e
mdio-orientais. As almamia do Fouta-Toro, do Fouta-Djalon e do califado de
Sokoto eram simplesmente calcadas nos regimes feudal e fiscal otomanos. O jom
leydi (senhor da terra), os jom lewre, jom jambere e jom jayngol 8 (que desfrutavam
das terras do Fouta) foram progressivamente integrados, no em sistemas de
fidelidade, mas em uma estrutura socioeconmica de tipo feudal.
    O novo sistema jurdico estabelecido pelos emirados esteve na origem de
uma especulao de tipo feudal sobre as terras. Os njoldi (direitos simblicos
devidos ao senhor da terra9), os kawngal (direitos sobre as reas de pesca), os
yial (direitos sobre os campos de caa), os hore kosan (direitos sobre a pastagem)
e os gobbi (direitos sobre as minas) foram transformados em direitos anuais
pagveis aos detentores do poder e recebidos sob a superviso do Estado. At
mesmo o cargo de coletor de impostos tornou-se venal, como a maior parte
dos cargos oficiais do sistema. A meao, o arrendamento, e a locao de ter-
ras generalizaram-se. Nas regies islamizadas, o nmero de camponeses sem


8    Jom lewre: primeiro ocupante e desbravador da terra; jom jambere: pessoa que tem o direito de desbravar
     a terra com um machado; jom jayngol: pessoa que tem o direito de desbravar uma terra queimando-a.
9    Esses direitos, que eram pagos em natura (cereais, partes de caa, hidromel, galinhas, cabras, etc.), tinham
     como origem um significado essencialmente ritualista, ou seja, eles eram considerados como oferendas ao
     "esprito do lugar" ocupado. Eram oferecidos no momento da posse, s vezes no momento da colheita, e
     a mais comumente quando dos funerais e das cerimnias de sucesso do laman, ou primeiro ocupante.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado                 35



terra, que haviam sido expulsos pela conquista ou pelo novo sistema jurdico,
aumentou consideravelmente. Os refo rekk (servos) seereer, os samba remoru, os
baadolo e os navetaan do Takrr, bem como os talakawa haussas tornaram-se
os equivalentes dos khames, hartin, fallahin e gaba do Mediterrneo e do Saara.
O leydi hujja (termo fulfulde que significa locatrio) equivalia a introduzir o
regime feudal otomano. O njoldi representava a locao anual do solo e o coo-
tigu o direito pagvel pelos fazendeiros, meeiros, e subfazendeiros. O sistema
muulmano oriental de controle das terras era aplicado no bayti maal ou leydi
maal e nos leydi janandi, pertencentes ao Estado, assim como nos habus, perten-
centes  comunidade religiosa. Mas as terras eram apenas em parte submetidas
s formas magrebinas de vassalagem. Existiam ainda certos casos de exonerao
de imposto do tipo makhzen10. A fidelidade devida ao ttulo do leydi urum se
manifestava pelo worma (lao de vassalagem), bem como pelos impostos muud
alhurum ou mudul horma.
    Assim, a partir do sculo XVI, houve uma conjugao de estruturas socio-
econmicas de diferentes origens. A isso se sucedeu a apario de uma nova
ordem social, ou seja, de um governo de tipo autoritrio ou aparentado ao
emirado11, no qual estruturas feudais eram sobrepostas ao lamana africano.
Essa transformao das estruturas socioeconmicas influiu na forma do Estado
mansaya: no Sudo ocidental e na Nigria, que foram islamizados, a instituio
muulmana do emirado substituiu o mansaya ou se lhe sobreps. No golfo da
Guin e na frica central e oriental, onde chefes cristos apareceram dentre os
Manicongo e os Mwene mutapa, a influncia da monarquia feudal crist ficou
cada vez mais evidente.

     A evoluo da arquitetura e das artes
   Enfim, houve tambm algumas realizaes importantes nos domnios da
arquitetura e das artes. Os construtores das cidades do vale do Nilo, do Magreb,
do Sudo, da costa, dos palcios iorubs, dos daqueles que chamamos hoje de
runas do Zimbbue, de casas, palcios, e mesquitas da costa oriental da frica,
e dos tata  que cingem as cidades haussas , todos eles eram ao mesmo tempo
arquitetos, pedreiros, decoradores e urbanistas. As casas redondas ou piramidais de
pedra ou de adobe, assim como as casas de andares dos joola, pertencem  mesma

10   Os kabila makhzen eram isentos de impostos e suas terras eram colocadas sob o controle da autoridade
     central. Em troca, os chefes makhzen recebiam impostos sobre os kabila vizinhos, os raia.
11 A expresso "regime autoritrio ou aparentado ao emirado" designa aqui as formas sociais hbridas que
   apareceram na frica negra aps os contatos com o isl. Ver P. Digne, 1967.
36                                                             frica do sculo xvi ao xviii



tradio arquitetural que a mesquita de Koutoubia de Marrakech, a tumba de
askiya em Gao e a dos califas do Cairo. O perodo precedente j demonstrara a
forte preocupao com uma arquitetura de qualidade, assim o comprovam as ru-
nas de Audagost, de Koumbi, de Kilwa, de Djenn e de Aksum. Depois do sculo
XVI, a arquitetura continuou a se renovar, talvez sobretudo no Sudo Ocidental
e na Nigria, mas as cidades da frica do norte e do vale do Nilo, no entanto,
periclitaram ao mesmo tempo em que sua prosperidade declinava. Por sua vez, os
askiya, que retomaram a tradio na frica Ocidental, foram grandes construtores,
assim como seu contemporneo no Marrocos, Abu'l-`Abbas al-Mansur.
    Sonni `Ali e o askiya Muhammad retomaram a construo do grande canal
ao longo do Nger. No Marrocos, a chegada de al-Mansur coincidiu com uma
onda de grandes obras pblicas, contudo, passageira. As tradies arquiteturais
do Sahel e do mundo islmico propagaram-se cada vez mais rumo ao sul. O
estilo arquitetural sudans, do qual as mesquitas de Sankor e de Djenn eram
prottipos, se imps a partir do sculo XVI. O askiya Muhammad construiu
Tendirma do incio ao fim e fundou a mesquita de Sidi Yahia. Foi nesse contexto
que se formaram importantes grupos de pedreiros, moveleiros e decoradores,
dando incio, no Sudo Ocidental e no Magreb, a fraternidades e castas.
    Na Etipia, o perodo chamado Gondar (aproximadamente de 1632 a 1750)
viu a apario de novos estilos arquiteturais encorajados pela Corte. Em Gon-
dar e em outras cidades, as sucessivas famlias imperiais mandaram construir
grandes e belos palcios, castelos, igrejas e bibliotecas cuja decorao interior era
muito refinada12. Nas regies costeiras de lngua kiswahili, da frica Oriental,
o perodo compreendido entre 1700 e 1850 conheceu importantes inovaes
arquiteturais: renovao dos elementos de decorao e motivos ornamentais,
originalidade na prpria concepo das casas cuja construo mostrava grande
maestria  em particular no que tange s molduras em gesso. Essa evoluo da
arquitetura acarretou o impulso de atividades contguas, tais como a escultura
em madeira e, notadamente, a de portas e a movelaria13.


     As novas estruturas econmicas
    Grandes estruturas econmicas apareceram no decorrer desse perodo: o
sistema de castas que substituiu o sistema de guildas ou corporaes, a economia


12   Ver captulo 24
13   J. de V. Allen, 1974. Ver tambm P. S. Garlake, 1966.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   37



de pilhagem, principalmente na frica do Norte e do Leste, e a economia dos
entrepostos ou feitorias, principalmente na frica Central e Ocidental.

    Uma economia artesanal e uma sociedade de castas e de guildas
    A civilizao urbana medieval contribura para a diviso do trabalho, assim
favorecendo o artesanato e as indstrias manufatureiras. Porm, no sculo
XVI, esse desenvolvimento foi desigual de acordo com a regio ou o tipo de
sociedade, e diferentes tendncias manifestaram-se em funo dos contextos
sociais.
    Nas civilizaes do Sudo Ocidental, da regio do Nger-Chade e do Saara,
por exemplo, o artesanato, bem como as atividades industriais e manufatureiras,
desenvolveram-se no quadro de um sistema de castas mais ou menos fechadas e
constitudas com base em linhagens. Sob a influncia crescente das civilizaes
do Takrr e do Saara, tal sistema tendeu a se fixar, principalmente nas regies
do sul do Senegal, nos territrios dos Mandes e dos Haussas. Graas  imigra-
o de alguns de seus membros, o do Takrr foi implantado nos territrios de
Cayor, Jolof, Siin e Salum. O nyamankala (sistema de castas) mande concedeu,
durante muito tempo, um estatuto elevado  profisso de forjador  at que
Takrr ocupasse a regio, consequentemente  jihad. Assim, Sumaguru Kant,
que desempenhou um importante papel tanto no acesso ao poder da dinastia
dos Mansa, quanto na constituio do Estado do Mali, era forjador de origem.
Os operrios que trabalhavam o metal gozavam de grande estima entre os fon e
os iorubs. Contudo, tambm nesse caso, a influncia dos imigrantes vindos do
Takrr e do Saara acabaria por revirar a tendncia dominante. No Songhai, os
askiya j governavam uma sociedade na qual o sistema de castas estava implan-
tado, estratificado e enraizado.
    No fim do sculo XVIII, a revoluo dos torodo reforou o sistema de castas
no Takrr, acentuando as divises entre as classes. Os camponeses sebbe, os pes-
cadores subalbe e mesmo os pastores nmades fulbe buruure foram progressiva-
mente desprezados. Eles no foram assemelhados aos benanga-toobe (sapateiros
ou sakkeebe, forjadores ou wayilbe, griots ou gawlo, etc.) e tornaram-se objeto de
uma segregao da parte dos nangatoobe (castas superiores). A elite dos marabu-
tos torodo depreciou cada vez mais a aristocracia dos ceddo e dos denyanke por
ela vencida, assim como todos aqueles que no fossem membros das dinastias
de marabutos aptas a aspirar a cargos elevados. Nas sociedades negro-berberes
do Saara, as divises religiosas, tnicas e raciais cristalizaram-se pouco a pouco
em castas hierarquizadas.
38                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



    Um ltimo aspecto importante da organizao da indstria ou do artesa-
nato da poca reside no grau de controle exercido pelo Estado. Nas civilizaes
mediterrneas, havia geralmente monoplio do Estado para certo nmero de
atividades como a tecelagem, a construo naval, a fabricao de armas, o refino
e o comrcio exterior. Mas os Estados da frica negra no exerceram, seno
raramente, essa prerrogativa, mesmo quando a indstria dos armamentos se
desenvolveu14. Esse perodo foi marcado pelo contraste entre a polivalncia
das diferentes categorias da populao camponesa e a ntida especializao
dos citadinos. Na agricultura e na criao de animais, a diviso do trabalho e
a especializao profissional eram muito pouco marcadas. Agricultores, pesca-
dores, criadores e caadores todos exerciam vrias outras profisses, tais como
as de forjador, empalhador, pedreiro, lenhador, carpinteiro, tecelo ou sapateiro,
de acordo com as necessidades. Acontecia de as mulheres ou alguns grupos de
idade serem especializados em certos tipos de profisses (como o trabalho com
metais, madeira e couro) que acabaram desempenhando um papel na formao
das castas.
    As indstrias do Estado cresceram: manufaturas de armas e mesmo estaleiros
para a construo de frotas martimas e fluviais foram implantadas tanto no
Sudo Ocidental e na costa ocidental do Atlntico quanto nos pases mediter-
rneos e do oceano ndico.
    A multiplicao das guerras voltou a dar, s vezes, um novo impulso ao traba-
lho dos metais. No sculo XVI, Sonni `Ali reorganizou os arsenais do Songhai,
fixando objetivos anuais de produo s oficinas. A metalurgia aperfeioou-se
no Egito onde comearam a fabricar o ao de Damasco, enquanto o trabalho
com o ferro, o cobre, o ouro e com a prata ocupava numerosas comunidades. A
indstria dos metais preciosos no Egito e na frica do Norte continuava a se
abastecer de ouro em Wadi Allaga na Nbia, em Sofala e no Sudo Ocidental.
Os forjadores mandes, organizados em castas, exportaram suas tcnicas para
as novas cidades que o comrcio atlntico fazia surgir na costa. Os garassa, tg
e maabo sudaneses, que fabricavam charruas, machados, sabres, zagaias, pontas
de flecha e instrumentos usuais, aperfeioaram sua arte e, no fim do sculo
XVIII, consertavam armas de fogo. Foi nesse setor que as novas tcnicas foram
mais rapidamente assimiladas. O artesanato do ouro e da prata estimulou o
comrcio nos souks das cidades do Magreb, do Egito e do Sudo Ocidental.
Os joalheiros berberes e wolof distinguiam-se no trabalho do ouro e das joias


14    principalmente no sculo XIX que ela ganha impulso nessa regio.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   39



em filigrana. A cunhagem de moeda de ouro (praticada h muito tempo no
norte e na costa suali, particularmente em Zanzibar e em Kilwa) progrediu
rumo ao sul, at Nikki. Os suali fabricavam igualmente magnficas jias e
outros objetos de ouro e prata. O trabalho da cermica tornou-se industrial,
a olaria, bem como a empalhao, continuavam sendo tarefa das mulheres. A
indstria do vidro continuou sua expanso e propagou-se no conjunto do pas
iorub, entre os nupes e os haussas, bem como no Egito e no Magreb. Entre os
shonas do sul da bacia do Zambeze, a extrao mineira era muito desenvolvida
e as minas de ouro e cobre constituram o fundamento da economia da regio
at o sculo XVIII15.
    O trabalho em couro florescia principalmente na Nigria, onde a pecuria
fornecia uma abundante matria-prima. A sapataria dos novos centros urbanos,
tais como Kano, Zaria e Abch, concorria com a marroquinaria, e a cidade de
Siryu, no arquiplago de Lamu, tornou-se, em 1700, a capital do trabalho em
couro e uma grande exportadora de artigos desse material. Do sculo XVI ao
XVIII, a empalhao e a tecelagem dos tapetes tomaram um lugar igualmente
importante dentre as indstrias da regio do Nger-Chade. A fabricao do
papel, que tinha substitudo o papiro, desenvolveu-se principalmente no Egito,
sob a influncia de Samarkand16. O Sudo seguiu o movimento e comeou
progressivamente a fabricar manuscritos: os alcores do Kanem eram vendidos
em todo o mundo muulmano17. As indstrias alimentares que haviam se mul-
tiplicado na Idade Mdia, nas cidades do Norte e do Sudo Ocidental, foram
tambm implantadas nas cidades nigerianas. A frica do Norte, particularmente
o Egito, especializou-se no cultivo da cana-de-acar e no refino do acar. A
extrao do leo de oliva, de palma e de amendoim, assim como o trabalho com
aougue, massas e especiarias conservou, de maneira geral, seu carter artesanal.
Na rea txtil, a cultura e a tecelagem do algodo estavam bem implantadas no
plat do Zimbbue desde o sculo XVI18. Da mesma forma, as cidades-estados
sualis eram famosas por seus tecidos: Pate, por exemplo, produzia seda de muito
boa qualidade19, e o algodo era l cultivado, desfiado e tecido. Na frica Central
do sculo XV ao XIX, os tecidos de rfia dos Congos foram renomados.



15   D. N. Beach, 1980a, p. 26-30.
16   G. Nachtigal, 1879-1881.
17   G. Nachtigal, 1876.
18   D. N. Beach, 1980a, p. 30-32.
19   G. S. P. Freeman-Grenville, 1962b, p. 142.
40                                                                           frica do sculo xvi ao xviii




                                              Tnis
                           Fez
                                                  Trpoli
          Marrakech      Sidjilmasa
                                Gadams                     Cairo

                        Taghaza        Ghat
                       Taoudenni                                       Sawakin       Meca

                Tombuct
                               Gao       Agadez             Dongola
      Kumbi
                                                                              Massawa
                        Djenn
                                                                             Sennar
                    Ouagadougou
                                                                                      Zayla
                               Benim



Equador


                                                                                        Pemba
                                                                                      Zanzibar
                                                                             Kilwa



                                                                                          Nosy
                                                                                          Mamoko

                                                            Zimbabwe
              Ouro
                                                                    Sofala
              Sal
              Cobre
              Rota das caravanas
              Vias martimas
     0!         500!    1 000 milhas
     0!         800!    1 600 km




Figura 2.2 Rotas e relaes comerciais na frica do sculo XVI. Fonte: segundo um mapa desenhado por
P. Ndiaye, Departamento de geografia, Universidade de Dakar.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   41



    A economia de pilhagem
          O comrcio com centros urbanos afastados desempenhara um papel
importante na economia africana anterior ao sculo XVI, favorecendo a produti-
vidade, o desenvolvimento das civilizaes urbanas e o estabelecimento de laos
estreitos entre as cidades e as reas rurais, transformado, assim, progressivamente
a vida no campo. Mas entre os sculos XVI e XIX, o reino da economia de
pilhagem  consequncia do expansionismo espanhol e portugus que, a partir
do sculo XVII, foi ao mesmo tempo violento e destruidor  acarretou o declnio
dos portos e das cidades mercantis que, na Idade Mdia, tinham enriquecido
graas ao comrcio transaariano. Esse declnio foi principalmente aparente a
partir de 1592, data na qual os reis cristos da Espanha e de Portugal comea-
ram a expulsar do Magreb, de Tnis e de Argel as numerosas colnias judaicas
e muulmanas ali estabelecidas.
    A Espanha, que ocupara La Palma nas ilhas Canrias, tomou Tenerife em
1495, e depois Melilla, em 1496. Em 1505, instalara-se em Mers el-Kebir
(Al-Marsa Al-Kabir) e, no mesmo ano, os portugueses ocupavam Agadir. No
ano de 1508, foi a vez da torre de Safi e, em 1509, o cardeal Ximenes tomava
Oran enquanto Argel passava para o domnio espanhol, seguido em 1510 por
Bougie; Tnis, Cherchel e Argel pagaram todos seu tributo  Espanha. Em
1513, Portugal estendera seu domnio at Azemmour.
    Essa situao ps os arabo-berberes e a Sublime Porta na obrigao de
resistir  agresso europia; corsrios, navegando sob a bandeira otomana, con-
triburam para erguer o equilbrio de foras. No ano de 1514, um dos irmos
Barberousse, Abu Yusuf, retomou Djidjelli, assim como Argel, e seu irmo
Khayr al-Din consolidou essa reconquista. A Tunsia e a Arglia voltaram para
o domnio otomano e assim ficariam ao menos nominalmente at o sculo XIX,
a despeito das expedies de Carlos V (que foi vencido diante de Argel, em
1541). Em 1551, Sinan Pasha ocupou Trpoli em nome da Sublime Porta, e, em
1574, foi a vez de Tnis. Em meados do sculo XVI, o Marrocos afirmou sua
independncia aps ter retomado Agadir, Safi e Azemmour de Portugal, graas
 jihad dos Banu Sa`ad, fundadores da dinastia dos xerifes. Em al-Makhazen,
Abu 'l-`Abbas al-Mansur, aliado da rainha Elisabeth I da Inglaterra, derrotou
um exrcito de vinte mil portugueses.
    A despeito de seus enfrentamentos com as potncias europias, os Estados
da frica do Norte continuaram a preservar sua liberdade, mas sua evoluo
ficou entravada, no sculo XVI, pelo desabamento da ordem econmica inter-
nacional. Os portos do Magreb e do resto da frica do Norte viveram ento
42                                                          frica do sculo xvi ao xviii



principalmente do produto da pirataria, de tributos e de direitos, mais do que
do comrcio ou de novas indstrias. As principais atividades dos Estados lhes
eram ditadas pela lgica da economia de pilhagem. Da em diante eram os
corsrios turcos que, ao suceder a classe dos negociantes medievais, estavam
encarregados de assegurar a prosperidade da elite militar otomana. Os portos
de Sal (Marrocos), de Argel, de Tnis e de Trpoli desfrutavam da proteo
de uma frota de corsrios que, no sculo XVII, atingiu sua idade de ouro no
Mediterrneo. Em 1558, 35 galeras e 25 bergantins praticavam a pirataria a
partir do porto de Argel, que na poca contava com apenas vinte mil habi-
tantes. Nem por isso a cidade deixava de estar numa situao econmica
deplorvel. No ano de 1580, ela foi atingida pela fome e perdeu um tero de
sua populao. Mesmo assim, ela continuou a atrair imigrantes e contava, no
sculo XVIII, com cem mil habitantes, dos quais 25 mil escravos cristos. No
sculo XVI, Trpoli tinha uma populao de 40,5 mil almas  3500 turcos,
35 mil rabo-berberes e dois mil cristos. Seus corsrios espalhavam o terror
no Mediterrneo, cenrio das operaes realizadas contra a Europa e, ainda
durante todo o sculo XVIII, a instabilidade foi contnua no Mediterrneo
ocidental. As regncias otomanas de Argel e de Tnis estavam quase sempre
em guerra com uma ou outra potncia europia; os conflitos se alternavam
com tratados e essa situao s podia prejudicar o capitalismo mercantil e a
classe dos negociantes.
     nesse contexto que se inscreve a expedio marroquina contra os Songhai
do Sudo Ocidental, bem como as jihad que as comunidades muulmanas da
frica Negra empreenderam, sob a influncia do Magreb, contra feitorias da
costa atlntica. O soberano marroquino Abu 'l-`Abbas al-Mansur, que vencera
os portugueses, tentou, aps a derrota dos songhai em 1591, reabrir a rota do
ouro e do comrcio de escravos. Em 1593, a tomada de Tombuctu permitiu-lhe
encaminhar 1,2 mil escravos atravs do Saara. A expedio do pax Djudar
acelerou a runa desse comrcio, pondo fim ao que fora o maior, seno o mais
poderoso imprio do Sudo Ocidental no sculo XVI.
    A Tripolitana e o Egito foram os que menos sofreram as consequncias do
declnio do comrcio saariano e conservaram suas rotas trans-saarianas tradi-
cionais. A Sublime Porta, que se estabelecera no Egito e em Trpoli, apoiou o
Kanem-Bornu assinando uma aliana com ele e fornecendo-lhe armas e pde
assim preservar o comrcio norte-sul (essencial para sua prpria revitalizao)
at o sculo XIX.
    Mas as sociedades dessa regio no escaparam do declnio geral. A civilizao
oriental da qual elas faziam parte estava em completa decadncia e as estruturas
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   43



feudais de tal civilizao no facilitavam a expanso de suas reas de influncia
no Mediterrneo, no Oceano ndico ou no interior, nem na regio do Nger-
-Chade e no Sudo Ocidental.
    A economia de pilhagem, da qual a pirataria no Mediterrneo fazia parte,
contribuiu muito certamente  desacelerao do crescimento econmico e tc-
nico da regio situada ao sul do Mediterrneo. Mas as estruturas socioecon-
micas e polticas desempenharam igualmente um papel na estagnao e no
subdesenvolvimento dessa regio e de seu interior. O declnio da frica medi-
terrnea acarretou o declnio de todo um subsistema que desempenhara um
papel dominante na geografia econmica e poltica do mundo medieval.
    Todos os pases do Nilo e da frica Oriental, bem como os da regio do
Nger-Chade e do Sudo Ocidental, foram atingidos em diferentes graus. Como
indica o captulo 28, consagrado especialmente a Madagascar, o perodo com-
preendido entre 1680 e 1720 era conhecido, na parte ocidental do Oceano
ndico, sob o nome de "poca dos piratas". Os pases diretamente em contato
com as novas potncias europias foram fisicamente abalados pela economia
de pilhagem, mas sofreram igualmente por no terem podido reanimar uma
estrutura socioeconmica cada vez mais influenciada por um Oriente atrasado.
Outra de suas deficincias consistia em sua incapacidade de estabelecer rapida-
mente as relaes de fora necessrias para no serem vtimas da desigualdade
do sistema de trocas da poca.

    O declnio do campo: o campesinato atingido pela pobreza
    e pela insegurana
        A economia de pilhagem provocou a estagnao das trocas comerciais
entre as cidades e o campo e influiu consequentemente em suas relaes. At
ento, suas atividades e produes haviam sido complementares. As cidades
haviam quebrado o crculo vicioso da agricultura de subsistncia, acentuado
a diviso do trabalho e lanado as bases da sociedade nova. Elas criaram o
ambiente necessrio ao desenvolvimento cientfico e tcnico, bem como ao
crescimento do comrcio e das indstrias especializadas. Estabeleceram tam-
bm novos valores econmicos, sociais e culturais e estavam na vanguarda do
progresso. Implantaram novas tcnicas de produo e modos de consumo mais
elaborados. Eram as indstrias e os comrcios urbanos que haviam at ento
encorajado o desenvolvimento em grande escala da agricultura, da pecuria, da
pesca e da caa e das indstrias a elas relacionadas. Da mesma forma, as cidades
deram origem  cultura industrial da cana-de-acar e do algodo e  cultura
44                                                          frica do sculo xvi ao xviii



de plantas tinteiras, tais como a garancina, a anileira, o aafro e a hena, bem
como  cultura de plantas odorferas. As instalaes hidrulicas, as estradas e
a criao de gado para a l, o leite e a carne, todas essas atividades deviam seu
impulso s cidades.
    O sculo XVI, contudo, iria abalar esse universo e mergulh-lo na crise.
O despovoamento das cidades acarretou o declnio da economia do campo,
causando o empobrecimento generalizado dos camponeses e o retorno ao
estgio selvagem de vastas superfcies de terras arveis. Expostos a uma inse-
gurana crescente, os habitantes do campo foram se refugiar nos confins das
florestas onde, desligados da civilizao de consumo das cidades, voltaram
cada vez mais a uma autonomia familiar ou comunitria, praticando uma
agricultura de subsistncia. Os camponeses magrebinos e egpcios produziam
seu leo de oliva e seus cereais e criavam animais domsticos. Os camponeses
da costa oeste  a costa atlntica , que produziam leo de palma e cultiva-
vam mandioca e inhame, aprenderam a cultivar tambm banana e milho. Os
criadores-agricultores da savana enchiam suas granjas com arroz, milho-mido
e fonio e fabricavam sua prpria manteiga de karit, seu leo de amendoim e
de palma. As negociaes de gneros alimentares e a troca eram as principais
formas de comrcio.
    Essa vida campestre foi novamente abalada pelo comrcio de escravos que
esvaziou o campo: quando as guerras entre aristocracias rivais no forneciam
mais um nmero suficiente de prisioneiros, a organizao de razias no campo
tornava-se corriqueira, principalmente ao sul do Saara. Privada de homens sadios,
a economia rural periclitou: regies habitadas h muito tempo despovoaram-se
e, em algumas reas, a populao continuamente assediada, regrediu da para
uma economia nmade de caa e de coleta, deixando frequentemente a rea da
savana pela da floresta.
    Os prprios modos de produo regrediram. As relaes estreitas que unem
a inovao, a necessidade das tcnicas avanadas e a abundncia de recursos vm
 tona; a rarefao dos recursos no campo africano acentuou a regresso ou a
estagnao tcnica.
    A aristocracia guerreira desviou em seu proveito uma grande parte da mo
de obra camponesa, o que, na frica Negra em particular, teve consequncias
demogrficas desastrosas no campo. As elites no poder abandonaram a agri-
cultura em funo das razias para as quais foram usados os servios de homens
livres e dos escravos capturados.
    Tornou-se cada vez mais difcil para os camponeses alimentar essas eli-
tes ociosas  particularmente nas regies devastadas do Sudo Ocidental e do
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   45



Nger-Chade, que praticavam a cultura seca e uma agricultura nmade extensiva
, tendo cada vez mais dificuldades para suprir suas necessidades. Os baadolo,
os samba remoru (camponeses pobres do Takrr) e os talakawa (agricultores e
criadores indigentes da regio dos haussas e do Nger-Chade) acabaram por
constituir a grande massa camponesa na rea da savana. A vida era to dura
quanto a dos fallahin egpcios, dos gabar etopes e dos haratin e dos khames
saarianos e magrebinos.
    A opresso do campesinato africano pelas elites rurais e urbanas cresceu
ao passo que o garrote fiscal apertou. O direito muulmano turco permi-
tia aumentar os impostos nas terras daru khurudj (no islamizadas). Quanto
aos muulmanos, eles foram obrigados a pagar no apenas o zarat (o nico
imposto que um muulmano era obrigado a pagar), mas tambm o kharadj.
Alm disso, a prtica do arrendamento e da meao encorajou a especulao
fundiria.
    A generalizao do mercado negro e sua influncia sobre a arrecadao de
impostos locais acarretou o aumento, nos pases muulmanos, das cargas fis-
cais que as elites impunham aos camponeses e artesos rurais. A pilhagem das
reas rurais bem como a captura e a servido das massas camponesas atingiram
propores gigantescas. A galag (taxa) paga ao dirigente poltico da aristocracia
do Takrr era somada ao moyal (literalmente espoliao) que dava o direito aos
membros da elite de se apropriar dos bens cada vez que tivessem uma ocasio.
    Nesse contexto, os chefes das jihad e dos movimentos cristos messinicos
no tiveram dificuldade alguma em garantir o apoio macio do campesinato. Os
chefes religiosos prometiam a igualdade quando a ordem voltasse. Eles tornavam
os aristocratas tradicionais e os europeus responsveis por todos os incmodos
e pelas causas da injustia social.
    A partir do sculo XVII, o papel poltico do campesinato aumentou. Revoltas
camponesas causadas pela decadncia do campo varreram o continente como
uma revoluo religiosa, abrindo assim o caminho para a resistncia  con-
quista colonial. Essas revoltas no eram feitas por prisioneiros ou escravos, mas
pela classe mais importante e mais fortemente explorada, a dos pequenos pro-
prietrios. No Fouta senegals, a revoluo torodo apoiada pelos samba remoru
(camponeses sem terra) era ao mesmo tempo dirigida contra o muudul horma
 imposto pelos kabila mouros  e contra o regime fiscal dos muulmanos
orientais que fora introduzido pela aristocracia denyanke islamizada. O declnio
e a falncia da economia rural variavam em natureza e amplitude, a fossilizao
econmica sendo diretamente proporcional ao subdesenvolvimento das cidades
mercantis tradicionais e de suas classes dominantes.
46                                                         frica do sculo xvi ao xviii



     Os pases do Nilo e do Oceano ndico
          As repercusses da economia de pilhagem nos pases do Nilo e do Oce-
ano ndico foram tambm totalmente desastrosas. O comrcio fazia a reputao
dos portos da frica Oriental desde o sculo XI. Ainda que eles no se igua-
lassem em tamanho ou em influncia aos das cidades do Sudo Ocidental e da
frica do Norte, no deixaram de constituir o quadro de uma importante civi-
lizao comercial e urbana em contato com a Arbia, a Prsia, a ndia, a China
e o Mediterrneo20. A invaso portuguesa marcou o incio da decadncia desse
complexo comercial urbano. O ano de 1502 viu o incio da desastrosa ocupao
portuguesa e, no mesmo ano, Kilwa e Zanzibar tornaram-se dependentes de
Portugal. Em 1505, Francisco de Almeida saqueou Kilwa e Mombasa e cons-
truiu em seguida o forte Santiago em Kilwa. Ele proibiu qualquer comrcio
entre essas cidades e os negociantes as deixaram para se instalar em Malindi e
nos Comores. Lamu e Pate foram ocupadas. O processo de deslocamento da
economia estava comeando.
    Com exceo de Luanda e Moambique, nenhuma das feitorias fundadas pelos
portugueses e depois pelos holandeses, os ingleses e os franceses se aproximava
em tamanho de uma cidade mdia do Sudo Ocidental, nem mesmo dos portos
sualis e da frica Oriental do perodo compreendido entre os sculos X e XVI.

     A economia de feitoria ou de entrepostos
         Se a economia de pilhagem se generalizou nas regies situadas  mar-
gem do Mediterrneo, do Nilo e do Oceano ndico, foi a economia de feitoria
ou de entrepostos que se tornou a estrutura dominante ao longo do Oceano
Atlntico. As feitorias no tinham a menor preocupao em inovar. Palcos de
violncia e de pilhagem, as novas feitorias martimas consistiam em fortalezas
antes de tornarem-se centros de civilizao comercial.
   Nas costas da Guin e da frica Equatorial, os portugueses (fundadores
da economia de feitoria no sculo XVI) mais pilhavam do que compravam. As
mercadorias por eles trocadas raramente eram produto de seu trabalho (exceto
o vinho e as barras de ferro provenientes de Portugal). Eles compravam pro-
dutos locais e regionais no pas Akan (sal, tecidos, tangas) e trocavam-nos em
seguida com ouro, escravos, couro, goma, marfim, mbar, almscar, caurim e
outras mercadorias na costa da Nigria, no Congo ou em Angola. Na Senegm-
bia, estabeleceram-se nos portos e tornaram-se prsperos negociantes.

20   UNESCO, Histria geral da frica, vol. IV, cap. 18.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado                      47




Figura 2.3 Sandlia em couro sudanesa, fabri-               Figura 2.4 Bolsa em couro proviniente da regio
cada na regio de Kano. Mercadorias desse tipo              de Tombuctu. Fonte: H. Barth, Travels and discove-
eram exportadas em grandes quantidades para                 ries in Northern and Central Africa, Nova Iorque,
a frica do Norte. Fonte: H. Barth, Travels and             Harper and Brothers, 1857.  Royal Commonwe-
discoveries in Northern and Central Africa, Nova            alth Society Library, Londres.
Iorque, Harper and Brothers, 1857.  Royal
Commonwealth Society Library, Londres.




    As feitorias no contriburam de maneira nenhuma para a prosperidade local.
Antes de 1800, Alberda, Cacheu, Santiago do Cabo Verde, Elmina, Ketu, Cala-
bar e So Salvador, constituam as mais importantes e comportavam cada uma
menos de cinco mil habitantes. A economia de feitoria baseava-se no comrcio
transatlntico de escravos. Em seu apogeu, nenhuma das feitorias servia de cen-
tro para o escoamento dos produtos artesanais locais, nem criava oportunidades
para as atividades comerciais ou industriais da importante populao autctone.
As feitorias para a venda de escravos eram antes de tudo um instrumento de
despovoamento. As estatsticas no concordam quanto ao nmero de escravos
deportados ou quanto ao nmero de vtimas da venda de escravos na frica: os
nmeros variam entre 25 e 200 milhes21.

21   Ver o captulo 4.
48                                                         frica do sculo xvi ao xviii



    A contribuio direta e indireta da economia de feitoria  prosperidade
mundial foi, contudo, considervel. Depois da descoberta das minas africanas, as
feitorias forneceram uma grande parte do ouro e da prata mundiais. Alm disso,
foi por elas que transitou, na sua grande maioria, a mo de obra que valorizou
o continente americano. De fato, as feitorias eram a alma do comrcio mundial,
a fonte da indstria, das finanas e do capitalismo europeu e internacional. A
Frana, uma das grandes potncias do sculo XVIII,  um bom exemplo disso.
Seu comrcio que, em 1716, representava 100 milhes de libras, passaria, em
1789, a 400 milhes de libras e, durante esse mesmo perodo, seu excedente
comercial passaria de 36 a 57 milhes de libras. As exportaes das ndias
Ocidentais com destino  Frana representavam por si mesmo 126 milhes de
libras em 1774 e 185 milhes em 1788. Durante esse perodo, as importaes
das feitorias para toda a Senegmbia no passaram de 5 milhes de libras22.
    Alm disso, a economia de pilhagem era baseada numa especulao de mo
nica. Ao contrrio do que geralmente se pensa, no houve um verdadeiro
comrcio triangular em bases iguais antes de meados do sculo XVIII. Os
navegantes europeus que controlavam o comrcio das feitorias (particularmente
os portugueses, como j dissemos) nada investiam. Os produtos europeus no
tinham a menor importncia no conjunto das trocas. O ferro, o cobre, os tecidos
e a quinquilharia que, nos sculos XVIII e XIX, rivalizavam com os produtos
locais tiveram muito pouca importncia nos sculos XVI e XVII. Os portu-
gueses eram principalmente intermedirios. As mercadorias de valor que eles
obtinham pela troca eram exportadas para a Amrica ou a Europa. Na verdade,
eles usurparam esse comrcio dos negociantes locais.
    Assim, implantando-se solidamente na rede econmica, os navegantes euro-
peus quebraram o curso normal das trocas interafricanas e estabeleceram seu
prprio monoplio de intermedirios, operando nas feitorias. No houve mais
comrcio propriamente africano entre Saint-Louis e Portendick, Grand Lahou e
Elmina, Angola e Congo ou Sofala e Kilwa. Os pombeiros, os lanados e os tan-
gomos (intermedirios) atriburam-se o monoplio do comrcio. A maior parte
das trocas dependia dos monoplios portugus, espanhol, holands e francs.
Os intermedirios portugueses, que moravam nas feitorias ou nas proximidades,
operavam em mercados e feiras que defendiam pela fora.
    A rede portuguesa foi usada pelas outras potncias martimas a partir do
sculo XVI. O nico obstculo s atividades monopolistas era a oposio dos


22   P. D. Curtin, 1969.
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   49



governos africanos, quando eram capazes de resistir, bem como as dificuldades
e os riscos com os quais se defrontavam os europeus para chegar s feitorias
dedicadas ao comrcio de escravos do interior das terras. Foi um perodo de
enfrentamentos entre os lanados, os intermedirios e os mercadores de escravos
da costa da Guin, por um lado, e as companhias, do outro, sendo que os pri-
meiros mandavam peties destinadas a Santiago e a Gore, nas quais pediam
a liberdade de operao. As numerosas informaes de que dispomos sobre as
trocas comerciais nas feitorias-fortalezas e nos entrepostos sazonais  da poca
dos portugueses at a chegada dos holandeses, franceses e ingleses  mencionam
violncias e conflitos incessantes. As feitorias do Atlntico e do Oceano ndico
foram destrudas e reconstrudas; elas mudaram vrias vezes de donos no decor-
rer da luta conduzida por potncias martimas europias, otomanas e omanenses
contra a resistncia obstinada dos dirigentes locais, que exigiam indenizaes
 duties ou curva23  que, conforme o caso, lhes eram pagas ou recusadas.
    Alm dos inerentes riscos, a economia de feitoria tinha uma caracterstica
principal: ela no favorecia em nada a construo de uma classe de negocian-
tes. Ela poderia ter suscitado, na costa, um fenmeno comparvel ao comr-
cio transaariano cujo sucesso fora garantido pelas relaes campo-cidade, bem
como pelo crescimento do artesanato e das indstrias. Exceto pelos negociantes
europeus, a maioria dos moradores das feitorias era de laptos (intermedirios
autctones). Em 1582, dos 15 mil moradores de Santiago e Fogo, 13,4 mil eram
escravos e 1,6 mil europeus detentores de todas as alavancas da economia. Antes
do sculo XIX24, no havia, nas feitorias do Atlntico (exceto naquelas da costa
de Loango), nenhuma classe de traficantes autctones de escravos, comparvel
quela que existira em Kilwa, em Mogadscio, em Mombaa e nos portos do
Mediterrneo.
    Enfim, as inovaes tcnicas que haviam revolucionado a Europa tiveram pou-
qussimas repercusses. A economia africana sofreu principalmente a concorrncia
do comrcio e das indstrias europias. A partir do sculo XVIII, os comerciantes
europeus arruinaram as indstrias e artesanatos locais da costa, pela destruio das
redes tradicionais. Ao monopolizarem os portos, paralisaram a relao entre a costa
e o interior. Assim, os Estados europeus que anexaram as reas costeiras delimitaram
suas reas de influncia (portuguesa, holandesa, francesa e inglesa) antes mesmo da
conquista colonial. Determinaram, assim, o desenvolvimento e a geografia poltica
dessas regies no sculo XVIII. Do avano do Marrocos no pas Songhai at as peri-

23   Curva nas reas sob influncia portuguesa e duty nas regies de lngua inglesa.
24   P. Diagne, 1976.
50                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



pcias das guerras internas do Sudo Ocidental, a maioria das reviravoltas polticas
africanas explicam-se pelo processo de desmembramento imposto pelas potncias
europias no sculo XVI.


     As novas estruturas polticas
    A cena poltica africana j atingira certo nvel de equilbrio e de estabili-
dade durante o perodo compreendido entre os sculos XII e XVI. No sculo
XVI, a frica mediterrnea representava um subsistema do Imprio rabe-
-Otomano do qual o Marrocos, Ifriquia e a Tripolitnia constituam uma parte.
O Egito era uma entidade  parte. A regio do Nilo, compreendendo a Nbia
e a Etipia, ligava o Sul aos Estados dos Grandes Lagos do Bunyoro-Kitara, s
cidades-estados sualis e  parte sul do Zambeze que, no fim do sculo XVI, era
dominado pelo Estado Mutapa. Quanto  frica Austral, ela contava ainda com
poucas estruturas estatais. Na frica Central, existiam dois sistemas polticos,
um sob o domnio dos Reinos Congo e Tio, outro sob o Reino Luba. Entretanto,
os habitantes das florestas no estavam organizados em Estados. As regies do
Sudo Ocidental e do Nger-Chade eram limtrofes, mas suas fronteiras muda-
vam constantemente. Ambas ficavam em contato com a Nbia e a Etipia.
    A evoluo do mapa poltico demonstrava as presses exercidas pelas foras
exteriores e suas repercusses. As guerras internas que reviravam a cena poltica
aniquilaram as fronteiras locais e o equilbrio de foras. Novos Estados aparece-
ram: eram os mais bem armados, tal como o Kanem-Bornu, ou aqueles com mais
sadas martimas, como o Cayor na Senegmbia, o Daom no golfo da Guin, a
Angola na frica Central e o reino dos Changamira na parte sul do Zambeze.
    A prpria natureza do Estado africano foi modificada. Vastas regies sem
soberanos nem chefes, que eram at ento habitadas por agricultores, caadores
ou pastores nmades, foram conquistadas e transformadas em Estados dotados
de estruturas centralizadas. As estruturas rurais dos bantos e dos cabilas ou dos
berberes do Saara foram substitudas pelos makhzen magrebinos, os mansaya ou
os farinya autocrticos da frica Negra25, o feudalismo dos beilhiques otoma-

25   O termo farinya vem de fari e de fara, que significam chefe em soninke, mande, etc. O mansaya mande
     era um sistema poltico  frente do qual se encontrava uma poliarquia composta por uma elite de civis
     ou de padres, homens livres ou escravos, membros de castas ou de guildas e de nobres ou de plebeus.
     Os ganhos eram provenientes dos impostos que os detentores do poder recebiam sobre o comrcio e
     as mercadorias. No se tratava de uma aristocracia fundiria ou de uma classe de proprietrios que,
     por terem se apropriado dos meios de produo, tinha direito a uma parte do excedente das riquezas
     produzidas.
                                                                                                                                                                                    As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado
                                               0                      500 miles

                                               0                      800 km

                                        1 BAMBARA                                        8 OYO                 15 LOANGO
                                        2 PASHALIK (DE TOMBUCT)                         9 SENNAR              16 CONGO
                                        3 MOSSI-DAGOMBA                                 10 FOUTA TORO          17 KITWARA
                                        4 GONJA                                         11 FOUTA-DJALON        18 GALLA
                                        5 KANEM-BORNO                                   12 R. TEMNE            19 ADAL
                                        6 BRON                                          13 DAOM
                                        7 ACHANTI                                       14 BENIM
                                                                                                                    Dongola
                                                               ADRAR                                BORKU
              TRARZA                         2
                 BR                       Tombuct                                                       ENNEDI                  9
                    AK       HODH                                                                                                         Massawa
 So-Lus               NA                                                   AIR              5                               Shend
                 10                                Gao                                                                                TIGR E
   Gor      JOLOF                                                    HA                 KANEM-                                               RI
                             1                                                                      WADAI                         Sennar         TR
                 GALAM                  S gou                          W                                                                Gondar       I
      Fort                                           Uagadugu               SA                             DARFUR                                       A
  Saint-James                                3                                                                                                                  Tadjoura
                  11                                                                     -BORNO                     KORDOFAN                           19
                         BURE                                  Gurma
                                                         Fada N                                                                                       Zaylac
                                          U                                                                                              GODJA
                  12                 UL                  Yendi Abomei                                                                             M
                                    S                                                        BAGUIRMI                                                       Harar       18
                                 WA           4                            Oyo                                                         SIDAMA                              N
                                       6
                                 Bonduku                  13     8                                                                     KAFFA                        ADE
                                     Kumashi
                                             7
                                                                          Benim                                                                                  OG
                                              AKAN                   14
                                                                            Calabar
                                                       
                                                    id
                                                  ra
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                                                  a




                                                                                   DUAL
                                        e


                                               Ac
                                               in
                                     ni

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                                    si

                                          El
                                  As




                                                                                                                                                                        Mogadcio
                                                                                                                                  17
                                                                                   15
                                                                                  LOANGO
                                                                                                          16
                                                                                 KAKONGO            NSUNDI
                                                                                                        KUBA
                                                                                                                                          Pemba
                                                                              Cabinda             GO
                                                                                               N So Salvador
                                                                                 Mpinda     CO SOYO              BA                                   Zanzibar
                                                                                                    A         LU
                                                                                             M BAMB LU
                                                                                                         NDA                                Kilwa




                                                                                                                                                                                      51
Figura 2.5    Espaos polticos do Saara ao Equador, no sculo XVII. Fonte: segundo um mapa desenhado por P. Ndiaye, Departamento de geografia, Universidade
de Dakar.
52                                                           frica do sculo xvi ao xviii



nos ou o sistema dos emirados muulmanos. O poder poltico passou cada vez
mais das mos dos chefes de cls e de comunidade tnica e dos laman (chefes
de territrio) s das aristocracias polticas da mansaya, da nobreza fundiria
da neftenia, dos beilhiques e sultanatos magrebinos, dos emirados sudaneses
ou mesmo dos mani (reis bantos cristianizados) cercados,  moda europia, de
prncipes, condes e camareiros.
    A partir do sculo XVI, a vida poltica concentrou-se cada vez mais nas
reas costeiras, nos portos que serviam de base aos corsrios e nas feitorias. A
aristocracia cobrava a a dcima parte. Os governos africanos implementaram
reparties de arrecadao do imposto sobre o comrcio estrangeiro. Os alcaides
mediterrneos tinham como equivalentes os alkaati, os alkaali ou simplesmente
alcaides de Gore, de Portugal, de So Salvador, de Sofala e de Kilwa. Numerosos
tratados foram concludos para tentar codificar esse sistema fiscal. O Marrocos, a
Tunsia, a Arglia e a Tripolitnia assinaram vrios acordos comerciais e tratados
de amizade de curta durao com os Europeus, e mesmo com os Americanos.
Em 1780, a guerra entre o Marrocos e a Espanha terminou pelo tratado de
Aranjuez, que redefinia as fronteiras dos dois pases e codificava suas relaes
comerciais. Mais ou menos na mesma poca, a Arglia, que estava em guerra
com os Estados Unidos da Amrica, forou essa nova nao a pagar um resgate
a piratas; os Estados Unidos pagaram ao Marrocos 10 mil dlares pela mesma
razo. A partir de 1796, eles pagaram 83 mil dlares por ano a Trpoli e, em
1797, 21 mil dlares a Argel aos quais foram acrescentados 642 mil dlares para
obter a liberao de seus extraditados.
    No fim do sculo XVIII, a aristocracia de Saint-Louis, na Senegmbia, divi-
dia entre si 50 mil libras, um dcimo do oramento de uma colnia que tirava sua
receita do comrcio exterior. No sculo XVI, os portugueses recebiam tributos
nos portos sualis de Sofala, Kilwa e Mombaa.
    Foram precisas guerras, a destruio das feitorias (pelos Zimba em Moam-
bique no sculo XVI, por exemplo) e proibies que restringissem as trocas
(como frequentemente foi o caso na Senegmbia, em Angola e no Congo) para
convencer as potncias europias e seus negociantes a recomear a pagar um
imposto. Todavia, essas fontes de ganhos mais ou menos regulares estiveram na
origem das guerras que estraalharam a aristocracia e as classes dominantes no
conjunto do continente.
    As entidades polticas representavam principalmente regies que souberam
atingir um certo equilbrio e conseguiram se desenvolver, levando em conta a
situao interna. As dimenses dessas entidades e a estabilidade de suas fron-
teiras, bem como de seu governo, eram variveis (algumas delas mantiveram sua
As estruturas polticas, econmicas e sociais africanas durante o perodo considerado   53



forma inicial at a conquista colonial). Algumas eram confederaes de Estados,
outras estados unitrios ou chefias de jurisdio limitada. Tratava-se igualmente,
em alguns casos, de um cl ou de um lamana independente no qual os primeiros
ocupantes levavam uma existncia autnoma.
    A instabilidade introduzida pela economia de pilhagem e pela economia de
feitoria criou ento, entre os sculos XVI e XVIII, Estados e economias que
no podiam mais assentar sua evoluo econmica, social e poltica em bases
coerentes e organizadas.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica                 55



                                        CAPTULO 3


    Os movimentos populacionais e a
 emergncia de novas formas sociopolticas
                na frica
                                               J. Vansina




    A natureza da mobilidade populacional
    Um dos principais pontos nos quais a histria da frica pr-colonial difere da
histria da Europa e da maior parte da histria da sia  a mobilidade das dife-
rentes categorias da populao, particularmente dos agricultores. Os agricultores
africanos das regies tropicais e subtropicais apresentaram muito mais mobilidade
do que os camponeses europeus ou asiticos que, praticando um cultivo intensivo,
renovavam a cada ano a fertilidade do mesmo pedao de terra Na maior parte da
frica, o cultivo tinha de ser extensivo e as mesmas terras no podiam ser traba-
lhadas por muitos anos consecutivos. A populao tinha ento muito menos razes
em uma terra em particular, sendo mais mvel que em outros lugares. Do mesmo
modo, havia criadores de animais, ainda que suas tcnicas de adaptao a seu meio
fossem mais comparveis s tcnicas dos pastores asiticos, particularmente daque-
les da sia central, e  transumncia praticada na Europa. De qualquer modo, esta
mobilidade da populao  uma caracterstica essencial que deve ser levada em
conta em todo estudo e toda reconstituio do passado africano, e  importante
avaliar cuidadosamente sua influncia sobre as sociedades e as culturas1.


1    A bibliografia da mobilidade da populao africana confunde-se com a bibliografia da Histria da frica.
     Neste captulo, faremos referncia, sobretudo, aos outros captulos do volume V (neste caso, o leitor
     dever se reportar s suas respectivas bibliografias).
56                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



    O presente volume permite constatar a existncia de numerosas migraes:
as dos trekboer do Cabo, a dos somalis e dos oromo do Chifre da frica (cor-
respondente ao nordeste africano), dos ngbandi de oubangui2, dos jagas (djagas)
da frica Central, dos tuaregues do Arco do Nger, dos mane de Serra Leoa,
dos fulbes de toda frica Ocidental e de todos os povos de Madagascar. Tudo
parece ter se passado como se, entre 1500 e 1800, nenhum povo tivesse per-
manecido no mesmo lugar. Desde o fim do sculo XVI, viajantes portugueses
viram uma correlao entre as migraes dos mane, dos jagas, dos zimba e dos
oromo a partir da frica Ocidental, Central e Oriental3. Todas essas migraes,
diziam os portugueses, eram o resultado de uma massa indistinta de vagabun-
dos. Os migrantes representavam para eles a anttese de uma vida estvel e bem
regrada: eles eram brbaros por oposio aos povos civilizados. Traos deste
esteretipo podem ser encontrados at 1963, nos escritos de Trevor Roper que
reduzem a histria da frica "s peregrinaes absurdas de tribos brbaras"4.
 devido ao fato de que este esteretipo nasceu no sculo XVI que o presente
captulo inscreve-se no volume V. Mas um estudo dos movimentos populacio-
nais encontraria lugar em qualquer outro volume desta Histria. Veremos que,
em escala continental, eles no so especialmente caractersticos do perodo de
1500 a 1800.
    A histria da frica foi, portanto, por muito tempo, considerada em grande
parte como "uma sequncia de migrao sem trgua"5, comparvel  histria
das grandes invases que destruram o Imprio Romano e que nos remetem
a eptetos como Huno ou Vndalo. Alm do que ela possui de pejorativo, esta
maneira de ver reduz os diferentes movimentos populacionais a migraes,
especialmente migraes macias, o que impede que se compreenda o que se
passou em cada caso particular.
    A palavra migrao designa o deslocamento de uma populao que passa de
um pas a outro para nele se estabelecer. Em zoologia, ela designa igualmente


2    H. Burssens, 1958, p. 43.
3    A. Mmerensky exprimia ainda a mesma opinio em 1883. Ele ligava as migraes dos oromo s dos jagas,
     dos fulbes e dos zimba, mas no s migraes dos mane. Ele sustentava, alm disso, que os zimba tinham
     forado os bantos do sudeste a se estabelecerem no sul do Limpopo. Merensky era um missionrio do
     Transvaaal e suas teorias refletiam as pretenses dos boers com relao  frica do Sul. As interpretaes
     deste gnero deixaram a impresso de que a frica subsaariana presenciara uma gigantesca perturbao
     no sculo XVI. Essa impresso  falsa e resulta de um amlgama de fatos destinado a sustentar certas
     vises subjetivas do mundo. Uma crtica geral desta tradio historiogrfica pode ser encontrada em J.
     C. Miller, 1973, p. 122-126.
4    T. Roper, 1963.
5    P. E. H.Hair, 1967.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   57



o deslocamento sazonal de certas espcies de animais, mas, em se tratando de
grupos de animais, o termo exato  transumncia. Estas so as definies dos
dicionrios. O conceito de migrao exprime, portanto, uma mudana na rela-
o que existe entre os homens, o espao e o tempo, o que supe uma alterao
desta relao. Neste sentido geral,  ento prefervel empregar a expresso movi-
mento populacional. As causas de tais movimentos dependem da organizao
do espao. Eles podem se produzir porque a relao entre o nmero de homens
e a quantidade de recursos mudou em seguida, por exemplo, a um crescimento
excessivo da populao ou de uma modificao catastrfica do clima, ou em
funo de uma tentativa dos homens de reorganizar o espao e seus recursos
em um territrio relativamente extenso. Na frica, as principais estruturas do
espao eram os Estados e as redes comerciais.
    Como os europeus em suas obras, os africanos destacam a importncia das
migraes em suas tradies orais. Um grande nmero dessas tradies tinha
por objetivo explicar a criao do mundo e elas se referiam frequentemente a
povos ou indivduos fundadores vindos de outros lugares, de um lugar das ori-
gens. Outros mitos afirmavam, ao contrrio, que os homens nasceram do solo e
que  por este motivo que eles so seus proprietrios. Mas foi a crena em uma
imigrao original que os eruditos estrangeiros retiveram porque ela confirmava
suas opinies preconcebidas. Eles imaginavam incessantes invases fazendo se
entrechocarem os povos africanos como se fossem bolas de bilhar: cada con-
quista produzia uma nova onda de refugiados (restvolker) que partiam em busca
de asilo em regies longnquas ou que expulsavam, eles prprios, outros povos.
Desde o comeo da antropologia moderna, Ratzel introduziu a ideia de que as
migraes bastavam para explicar as semelhanas sociais e culturais. Mais tarde,
a escola dos kulturkreise considerou as culturas como o resultado da superposio
de culturas primitivas, superposio esta que era devida a inumerveis migraes.
Tais teorias foram introduzidas nos estudos africanos por Frobenius e Baumann.
    Apesar das aparncias, a famosa errncia africana no  seno um esteretipo
sem fundamento. Hair demonstrou, em um artigo decisivo, a notvel "estabi-
lidade" de todas as lnguas da costa ocidental, do Senegal a Camares6, e esta
constatao pode ser estendida  maior parte das sociedades de agricultores
da frica a partir do sculo XVI. A tendncia atual , ao contrrio, acreditar
que as migraes so um produto da imaginao e negar toda mobilidade aos




6    P. E. H. Hair, 1967.
58                                                          frica do sculo xvi ao xviii



indivduos e grupos. Como se a estabilidade cultural ou lingustica supusesse
necessariamente a imobilidade dos homens.
    O conceito de estabilidade, bem como o de migrao, refere-se a uma rela-
o entre os homens, o espao e o tempo, o primeiro exprimindo uma ausncia
de mudana. Esses dois conceitos, entretanto, no so seno generalizaes
aproximativas de acontecimentos reais do passado cujas particularidades foram
apagadas. So, alm disso, conceitos relativos. Caso se considere uma regio
suficientemente vasta, como a que se estende a leste e ao norte do Nilo Branco,
a "migrao" dos jie (djie)7, por exemplo, torna-se estabilidade e aparece como
uma forma de adaptao ao solo e ao clima. Em oposio, o deslocamento de
um povoado em uma distncia de dez quilmetros pode ser qualificado como
migrao. A mesma coisa vale para o tempo:  preciso considerar longos per-
odos para perceber as "migraes" de certos povos que se deslocam lentamente
durante vrios sculos.  o caso dos bantos, cuja migrao durou talvez dois mil
anos. Por fim, o termo "migrao" pode ser aplicado tanto a deslocamentos indi-
viduais quanto coletivos. Neste captulo, ns o reservaremos aos deslocamentos
de comunidades que tenham pelo menos a dimenso de um povoado.
    Para compreender os fatos histricos,  preciso primeiramente estudar os
deslocamentos normais, ordinrios, ligados  busca dos meios de subsistn-
cia. Poderemos ento compreender melhor, por oposio, os deslocamentos
inabituais, anormais, e ver como se produzem, concretamente, os diferentes
movimentos populacionais. Poderemos ento examinar os tipos de fatos que
do testemunho, hoje em dia, desses movimentos populacionais inabituais e,
para concluir, passaremos rapidamente em revista os principais movimentos
populacionais que a frica conheceu entre o sculo XVI e o XVIII e que sero
estudados nos captulos seguintes.


     A utilizao das terras e a mobilidade
    Os homens dispem essencialmente de quatro meios de tirar seu sustento do
meio onde vivem: a caa associada  colheita, a criao de gado e animais doms-
ticos, o cultivo do solo e a pesca. A esses quatro tipos de atividades correspon-
dem quatro formas de deslocamentos comuns. Como se trata de deslocamentos
habituais, normais, no interior de um territrio determinado, eles no podem ser
qualificados como movimentos populacionais e muito menos como migraes.

7    J. E. Lamphear, 1976.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica                   59



    Os caadores e aqueles que praticam a colheita percorrem um territrio
que permanece relativamente estvel enquanto a densidade da populao est
adaptada a seu modo de vida. Eles vivem em acampamentos e se deslocam
frequentemente no interior do territrio, em geral durante duas semanas, como
os pigmeus de Ituri8 ou os kung san de Botswana9. Eles devem efetivamente
perseguir a caa e encontrar em quantidade suficiente os vegetais dos quais se
nutrem. Seus deslocamentos variam tambm em funo das estaes. Desloca-
mentos sazonais ocorrem, por exemplo, nas zonas florestais na poca da coleta
do mel ou ainda nos arredores do deserto de Kalahari, na poca da frutificao
ou quando os mamferos se aproximam ou se afastam das fontes de gua. Apesar
de sua grande mobilidade, tais grupos podem explorar os mesmos territrios
durante muito tempo.
    Os criadores de gado tambm se deslocam. Os animais dos quais eles tiram
sua subsistncia tm necessidade de gua, de pastagem e de sal. Esses alimen-
tos se encontram em quantidade maior ou menor de acordo com as estaes.
No Saara, por exemplo, os nmades vivem em geral nas bordas do deserto ou
prximo a grandes osis durante a estao seca e penetram profundamente no
interior do deserto quando chegam as chuvas10. Trata-se da transumncia e os
percursos so frequentemente os mesmos de um ano para outro. Nas regies
muito pouco povoadas e muito irregularmente banhadas pela chuva, como o
norte do Fezzn, os nmades no seguem todos os anos o mesmo trajeto, mas
seus deslocamentos continuam sendo regulares se considerarmos um perodo
de pelo menos dez anos11. Os criadores de camelos como os rigeibat do Saara
ocidental podem percorrer deste modo enormes distncias. Movimentos rec-
procos complexos ocorrem frequentemente entre comunidades nmades que
criam espcies diferentes (camelos, cabras, bovinos ou ovinos), em funo das
necessidades especficas de cada espcie. Os percursos dos tuaregues e dos fulbes
entrecruzavam-se no Sahel, assim como os percursos dos criadores nmades de
bovinos (os baggara) do Sudo cruzavam com aqueles dos criadores de camelos
que viviam mais ao norte, como os kabbish. Alm disso, os nmades praticavam
o cultivo e trocavam os produtos deste cultivo com aqueles que se dedicavam


8    C. M. Turnbull, 1961 e 1966; P. Schebesta, 1952; R. B. Lee, 1968 e 1979; L. Demesse, 1978 e 1980. M.
     Sahlins (1972) mostraram que este modo de vida oferece uma segurana muito grande e permite uma
     relativa riqueza, o que tem conseqncias histricas evidentes.
9    UNESCO, 1963; E. E. Evans-Pritchard, 1940.
10   Ibidem.
11   A. Cauneille, 1957.
60                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



 caa ou  colheita e com aqueles com quem entrassem em contato.  o que
faziam os trekboer da frica do Sul no sculo XVIII. Os nmades podiam
tambm comprar legumes junto aos agricultores. Neste caso, no decorrer de
seu percurso, encontravam-se necessariamente cultivadores. Assim, coexistiam
categorias da populao que exploravam os recursos naturais de maneiras diver-
sas e complementares, cada uma com sua prpria mobilidade, em uma mesma
zona. A criao de animais, entretanto, dependia, mais que a caa ou a colheita,
das variaes climticas, sobretudo a curto prazo12. Mas, se as variaes pluvio-
mtricas tinham efeitos sensveis sobre a criao de animais, esta criao no
sofria as consequncias da seca de modo to desastroso quanto a agricultura,
em particular a de cereais.
    Os agricultores conheciam tambm uma certa mobilidade, pois praticavam
um cultivo itinerante, deixando as terras que tinham cultivado no ano precedente
para desbravar novos espaos. Os povoados tinham de se deslocar quando os
campos tornavam-se muito distantes. Em uma poca recente, esses deslocamen-
tos ocorriam, em mdia, a cada dez anos, variando entre cinco e vinte anos no
mximo. As melhores terras eram aquelas que estavam fertilizadas ao mesmo
tempo pela irrigao e por um aluviamento anual, mas elas eram raras. O Egito
antigo oferece um exemplo disso e deu origem  agricultora dos osis. A esta-
bilidade das culturas fixava assim a populao. Se no considerarmos o Egito
e os arrozais inundados da costa ocidental da Guin, veremos que as culturas
permanentes eram muito raras na frica porque geralmente no era possvel
aplicar mtodos eficazes de fertilizao intensiva.
    A maior parte dos povoados se deslocava, mas, ao passo que a densidade
populacional permanecia fraca, eles seguiam um trajeto mais ou menos cir-
cular no interior de um territrio estvel. Sua mobilidade talvez fosse maior
antes da introduo da mandioca, que se tornou um dos produtos agrcolas
bsicos no comeo do sculo XVII. Alm disso, a mobilidade da populao e
a direo de seus deslocamentos no dependiam somente do estado do solo.
Na verdade, em muitas regies (em toda a floresta tropical mida da frica
central, por exemplo), os agricultores recorriam igualmente  caa, sobretudo
com armadilhas, e no desdenhavam a colheita. Assim, no caso dos nzabi do
Gabo, a localizao do povoado podia ser escolhida em funo das necessi-


12   As recentes secas modificaram muito pouco os deslocamentos dos san no interior se seu territrio, ao
     passo que reduziram seus vizinhos, cultivadores e criadores tswanas,  fome. Aparentemente, certos cria-
     dores, como os khoi prximos ao deserto de Kalahari, tornam-se temporariamente caadores-colhedores
     (san) durante as secas.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   61



dades dos caadores tanto quanto dos agricultores13. O resultado disso podia
ser um complexo conjunto de deslocamentos, mas esses deslocamentos no
ultrapassavam os limites de um territrio determinado. As variaes climticas
eram o principal perigo que ameaava os agricultores. As colheitas corriam o
risco de serem destrudas quando chovia muito ou muito pouco ou quando as
precipitaes eram precoces ou tardias. Casos de fome eram possveis mesmo
proximamente ao equador, em uma zona, entretanto, bem irrigada. Por exem-
plo, em Loango, prximo de Pointe-Noire, no Congo, no era a ausncia de
chuvas que incomodava, mas sua periodicidade. A ausncia de chuva aps
o plantio era catastrfica, assim como chuvas muito abundantes impediam
qualquer plantao. Os anos "normais" eram muito raros. Os agricultores da
Zmbia deviam fazer reservas de alimentos para enfrentar uma seca que ocor-
ria a cada cinco anos aproximadamente14. As secas eram mais frequentes nas
proximidades dos desertos, mas elas no poupavam completamente nenhuma
regio. Geralmente, dois anos sucessivos de seca provocam uma situao de
misria e trs podiam levar  fome, pois as reservas de alimento provenien-
tes de outras atividades alm do cultivo do solo esgotavam-se rapidamente
quando a populao era muito numerosa.
    No caso dos agricultores, criadores de animais e colhedores, havia ento uma
densidade mxima e uma densidade tima da populao, variveis segundo seu
meio-ambiente imediato, isto , segundo a natureza do solo, as precipitaes,
a topografia, as possibilidades de abastecimento suplementares, o estado das
tcnicas e o regime de partilha ou de distribuio dos recursos. A relao entre
a superfcie das terras arveis e o nmero de agricultores podia variar sem graves
consequncias quando as tcnicas agrcolas mudavam tambm. Do contrrio, ela
deveria se restabelecer por meio de um movimento populacional no sentido do
territrio ou para fora dele, ou ainda por meio de medidas de regulao.
    Os pescadores eram sedentrios e deslocavam raramente seus povoados.
Mas as variaes sazonais do regime dos cursos de gua podiam lev-los a fazer
expedies longnquas. Eles se instalavam, ento, em acampamentos ou sobre
os bancos de areia, como no Zaire ou no Kasa, s vezes, a centenas de quil-
metros dos povoados onde tinham deixado suas famlias. Tais expedies eram
caractersticas das bacias do Zaire, do Nger e do Benue, e forneciam o modelo
de um movimento migratrio. Os pescadores mais sedentrios eram aqueles
que viviam no litoral ou nas margens dos grandes lagos. Graas a seus barcos,

13   G. Dupr, 1982.
14   J. Allan, 1965.
62                                                         frica do sculo xvi ao xviii



eles dispunham de um meio de transporte barato e vrios dentre eles se torna-
ram comerciantes, servindo de intermedirios entre diversas comunidades. Eles
podiam tambm, caso necessrio, deslocar-se com suas posses para muito longe
de suas moradas. Deste modo, os pescadores, que tinham menos necessidade
de se deslocar que outros, estavam sempre prontos para faz-lo tanto quanto os
caadores e os criadores de animais e, em caso de necessidade, faziam-no ainda
mais facilmente.
    Ns expusemos at aqui apenas os principais fatores de movimentos popu-
lacionais comuns. Quando um grupo possua uma economia complexa ou vivia
em simbiose com outros grupos, as condies e forma de seus deslocamentos
eram, por sua vez, mais complexas. Imaginemos um povoado de agricultores
prximo  curva do rio Congo, fornecendo produtos agrcolas aos pescadores
e aos caadores-colhedores em troca de carne de caa, de peixes, de cermi-
cas e talvez ainda de outros produtos. Os caadores e os agricultores tinham
de coordenar seus deslocamentos, mas eles no podiam se afastar demais dos
povoados de pescadores que, por sua vez, eram sedentrios. Por outro lado, 
bvio que comunidades habituadas a se deslocarem podiam faz-lo por outros
motivos alm de razes econmicas. A deciso de um grupo se mudar era fre-
quentemente apressada por um crescimento da mortandade, por conflitos com
outros grupos ou por necessidade de se defender. Isto era um fato sobretudo para
agricultores que, ao contrrio dos criadores de animais, no eram obrigados a
transumar, a cada ano, durante algumas semanas para salvaguardar sua produo.
Eles partilhavam esta liberdade com os caadores-colhedores mesmo quando,
paradoxalmente, no dispunham dos meios de transporte que os criadores de
animais e os pescadores possuam!
    A mobilidade dos indivduos era igualmente considervel. As mulheres se
casavam frequentemente com um homem de outro povoado, os filhos iam viver
junto  famlia da me, os irmos podiam seguir uma de suas irms na casa de
seu marido. Os escravos, os refns, os mercadores e os peregrinos, da mesma
forma que os feiticeiros de alta reputao e os caadores (e talvez ainda outros
especialistas muito procurados) circulavam muito de um grupo para outro. A
mobilidade individual na frica era, ao menos, to grande quanto em outras
partes do mundo. O esteretipo segundo o qual certas etnias africanas no
tinham nenhum contato com o mundo exterior no tem mais fundamento que
o esteretipo oposto da errncia perptua.
    Nas sees seguintes, trataremos apenas dos movimentos populacionais
coletivos e inabituais, mas convm destacar que a distino entre deslocamen-
tos ordinrios e extraordinrios era muito mais tnue no caso dos indivduos,
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica                         63



mesmo se eles podiam, na sua somatria, produzir resultados espetaculares.
Desta maneira, pode-se considerar o trfico de escravos aps 1660 como um
acontecimento comum no que diz respeito aos indivduos. Ora, o transporte de
escravos para a Amrica do Norte e do Sul  de longe o mais importante movi-
mento populacional que a frica conheceu. Ele representa um deslocamento
maior, por sua amplitude, a qualquer outro movimento populacional, exceo
feita, talvez, s maiores migraes africanas.
    A urbanizao supe igualmente um movimento populacional. No comeo
do sculo XIV, a cidade de Zimbbue possua talvez 10000 habitantes15. Esta
concentrao era o resultado de uma migrao interior: a cidade tinha, prova-
velmente, absorvido uma centena de povoados. Aps o esgotamento das terras
cultivveis em Zimbbue, os habitantes no podiam permanecer mais l, aban-
donaram a cidade e voltaram para seus povoados16. Sua disperso representa
igualmente um movimento populacional importante17.  parte a urbanizao
e o trfico de escravos, temos muito poucos dados sobre os deslocamentos de
indivduos e mesmo das famlias. Para melhor conhec-los, seria preciso saber
em quais propores a densidade da populao variou de acordo com os dec-
nios e as regies. Mas  certo que os deslocamentos individuais ocorreram e 
preciso jamais esquecer que eles poderiam bastar para modificar sensivelmente
a densidade de uma populao. Os crescimentos demogrficos foram sem-
pre considerados como devidos a crescimentos naturais, quando eles poderiam
perfeitamente bem resultar da imigrao. O inverso vale tambm para uma
diminuio populacional.


     As tipologias dos movimentos inabituais da populao
   Os movimentos inabituais e coletivos da populao se dividem em duas
grandes categorias: as correntes migratrias e as migraes propriamente ditas.


15   D. N. Beach, 1980a.
16   P. S. Garlake, 1973; D. N. Beach, 1980a. Este exemplo mostra bem as tenses exercidas sobre o povoa-
     mento pela agricultura itinerante e a criao de animais praticada em pastos naturais.
17   Eis um outro exemplo que mostra de modo evidente como os deslocamentos individuais, quando nume-
     rosos, podem mudar completamente a distribuio da populao em uma regio limitada. A cidade de
     Jenn-Jeno, no Mali, se desenvolveu a partir de por volta de 200 a.C. e, sobretudo, depois de 250 d.C. Seu
     declnio aps o ano 1000  contemporneo do desenvolvimento da cidade de Ojenn, situada a apenas
     trs quilmetros de distncia. Jenn-Jeno era circundada por povoados satlites cujo desenvolvimento
     tinha seguido o seu e cujo declnio levou a seu abandono por volta de 1400. Ver R. J. McIntosh e S.
     Keech-McIntosh, 1982.
64                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Os movimentos da primeira categoria so movimentos progressivos e lentos que
estendem a novos territrios as formas habituais da mobilidade e da produo
alimentcia. A migrao propriamente dita  um movimento sbito, que difere
claramente dessas formas habituais. Uma corrente migratria no implica neces-
sariamente o abandono do territrio de origem, salvo, s vezes a longo termo, ao
passo que este abandono  parte da migrao. Essas duas categorias de movi-
mentos populacionais subdividem-se em vrios tipos. Uma corrente migratria 
chamada de "expanso" quando faz crescer o territrio de um grupo e se intitula
"dispora" quando  descontnua e se traduz pela fundao de estabelecimentos
separados. Alm disso, pode-se distinguir as migraes em massa, as migraes
de bandos e as migraes de elites, que so respectivamente de uma populao
inteira, de uma frao da populao (geralmente um bando de guerreiros que
praticam a pilhagem) ou de grupos muito restritos ou mesmo de indivduos,
cuja chegada provoca importantes mudanas na sociedade que os acolhe. As
migraes de elites quase se confundem com os deslocamentos individuais, mas
falaremos delas aqui em funo de sua frequncia e de seus efeitos e porque elas
so frequentemente assimiladas aos outros tipos de migraes.
    A importncia histrica e a amplitude de um movimento populacional
dependem do nmero de pessoas que se deslocam, da distncia percorrida, da
durao do movimento, de suas causas, isto , dos fatores que impelem uma
populao a emigrar e daqueles que atraem os imigrantes e, por fim, de suas
consequncias.  preciso levar em conta todos esses aspectos em cada caso,
mas eles no podem servir para que se estabelea uma classificao, pois sua
significao  varivel demais. Assim, a distncia no  significativa por si
mesma: vrias centenas de quilmetros no Saara podem equivaler a menos de
cinquenta quilmetros em uma regio muito povoada. As causas so muito
diversas. No so sempre catstrofes naturais como as secas. Os motivos que
incitam ou obrigam uma populao a deixar o lugar em que vive (causas
repulsivas) e aquilo que a atrai onde ela quer se estabelea (causas atrativas)
misturam-se de modo to variado que h, a partir desta relao, quase a mesma
quantidade de tipos de deslocamentos que de casos particulares. O nmero
de pessoas que se deslocaram  frequentemente desconhecido e, se dispomos
de nmeros, eles geralmente no so suficientemente seguros para que se
estabelea uma tipologia. Levamos, ento, em considerao apenas as carac-
tersticas do prprio movimento, com suas causas e efeitos. Descreveremos
sucessivamente os cinco tipos que distinguimos, sem perder de vista o valor
puramente prtico de nossa tipologia.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   65



     As expanses
   Dada a mobilidade natural da maior parte da populao africana, as expan-
ses so inumerveis. Elas apresentam caractersticas diferentes segundo o modo
de vida da sociedade considerada. A agricultura itinerante torna-se expanso
quando ela segue uma direo dada de preferncia a uma trajetria aleatria
ou circular. Os agricultores se deslocam por povoado; o deslocamento de um
grande nmero de aldeias de uma comunidade ou de sua totalidade  uma
expanso quando se efetua em uma s direo. As expanses resultam de des-
locamentos pouco frequentes (a cada dez anos ou mais) em distncias que so
geralmente muito curtas (de dez a vinte quilmetros). Portanto, elas podem
durar muito tempo sem que a populao em movimento jamais deixe de parecer
sedentria.
   Na floresta, a expanso dos mongo rumo ao sul, partindo do arco do rio
Zaire, tinha comeado bem antes do sculo XVI e ainda continuava no fim do
sculo XIX na maior parte da regio compreendida entre o Zaire a oeste e o
Lomami a leste. Seu objetivo parece ter sido os atraentes vales do Kasa inferior
e do Sankuru bem como a rica regio situada mais a leste, prxima  floresta.
Esta expanso provocou uma corrente a partir dos centros de povoamento muito
densos situados entre o equador e o primeiro paralelo sul, em direo aos vales
fluviais e s bordas das florestas18.
   As expanses podiam facilmente se acelerar. Bastava que se percorresse uma
distncia maior a cada deslocamento ou que esse deslocamento fosse mais fre-
quente, talvez a cada dois ou trs anos. Elas se tornavam ento um fenmeno
consciente, que respondia a intenes precisas, frequentemente motivadas por
uma atrao. Assim, durante somente meio sculo, os nzabi do Gabo-Congo,
deixando suas terras situadas a leste da grande curva do rio Ogoou, dirigiram-se
no sentido sudoeste a fim de se aproximarem das rotas comerciais e de poder
explorar novos recursos minerais19. Os fang da Como superior ganharam o
esturio do Gabo em apenas vinte anos, em seguida, continuaram sua expanso
a uma velocidade um pouco menor durante quarenta anos em direo do delta
do Ogoou. Cada uma de seus povoados se deslocava apenas em intervalos de
alguns anos, mas podiam percorrer ento at quarenta quilmetros. Tais des-
locamentos foram bem estudados em suas modalidades. Os fang jamais foram
forados a abandonar seu modo de vida habitual. Seus povoados se deslocavam


18   J. Vansina, 1981.
19   G. Dupr, 1982, p. 25-39.
66                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



sucessivamente, cada um ultrapassando, por sua vez, os precedentes. Esta pro-
gresso desenrolava-se em um meio natural uniforme. Os caadores efetuavam
reconhecimentos no decorrer de suas expedies habituais20.
    As expanses dos criadores de animais seguiam um esquema diferente. Em
geral, jovens deixavam os pastos do grupo para estabelecerem-se com seus ani-
mais em pastos virgens. Como eles encontravam esses pastos em regies nas
quais as chuvas muito raras ou muito irregulares tornavam impossvel a cultura
do solo, sua expanso era submissa, em larga escala, s condies naturais. Foi
assim que os masa progrediram, nos sculos XVII e XVIII, at que todas as
terras prprias para a criao de animais fossem ocupadas21. Um outro exemplo
bastante conhecido  o dos trekboer da frica do Sul. Colonos europeus da
segunda gerao se estabeleceram perto do Cabo a partir de 1680, aproxima-
damente. Desde o incio, os criadores se lamentaram de ser muito numerosos,
ainda que a populao estivesse dispersa. O solo era rido, e eles tinham neces-
sidade de vastas pastagens. No comeo do sculo XVIII, uma famlia se sentia
apertada quando podia perceber de sua casa a fumaa da chamin de uma casa
vizinha. Conduzindo uma parte dos animais, os caulas partiam ento em uma
carroa puxada por bois e se instalavam em outro lugar. At por volta de 1780,
esta expanso prosseguiu em regies ocupadas principalmente por outros cria-
dores (grupo khoi) dos quais os trekboer tomavam o lugar. Mas eles se chocaram,
em seguida, com uma fronteira constituda pelas terras muito mais irrigadas que
aquelas que, por eles atravessadas, eram ocupadas pelos agricultores e criadores
de animais xhosa22.
    Em certos casos, os percursos dos criadores eram longos e faziam conexo
entre vrios lugares de permanncia. Os awld sulaymn da Lbia deslocavam-
-se, em funo das estaes, entre o golfo da Grande Sirte prximo do Medi-
terrneo e os osis de Fezzn, na Lbia do Sul. Uma derrota desastrosa sofrida
em 1842 prximo de Trpoli obrigou-os a abandonar o plo da Grande Sirte.
Eles tomaram ento, para retornarem ao sul do Fezzn, a rota das caravanas que
conduziam ao Borno, indo inicialmente no sentido do Borku e depois rumo ao
Knem, apesar da resistncia determinada dos tuaregues cujos territrios eles
atravessavam. Eles atingiram o lago Chade por volta de 1850 e, aps alguns fra-
cassos iniciais, chegaram a dominar em 1870 toda a regio compreendida entre


20   P. Alexandre, 1965, p. 532. Mas o ponto de vista deste autor sobre a expanso dos fang em sua totalidade
      errnea. Ver C. Chamberlin, 1977, p. 23-80.
21   T. T. Spear, 1981, p. 63-66.
22   L. Fouch, 1936, p. 134-136.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   67



Fezzn e o Chade23. Como esta expanso se deu graas s vitrias de bandos
armados,  tentador ver aqui uma migrao de bandos. Mas, na sua totalidade,
ela  na verdade semelhante s expanses de outros criadores de animais. Des-
locando um dos plos de transumncia, ela teve por efeito a ocupao de um
novo territrio.
    Mesmo os caadores-colhedores podiam seguir correntes migratrias. Isto
poderia explicar, por exemplo, a presena de caadores baka no Camares orien-
tal. Esses pigmeus, que falavam lnguas ubanguianas, vivem mais a oeste em
relao aos agricultores que pertencem ao mesmo grupo lingustico. Mais do que
uma migrao em massa, trata-se provavelmente de um movimento partido do
vale superior da regio de Sanga e destinado a estender rumo a oeste o territrio
de caa dos baka24.
    Os vastos movimentos de expanso so o indcio de uma nova redistribui-
o da populao. Eles so frequentemente acompanhados pela colonizao de
zonas anteriormente exploradas de modo mais extensivo. Uma das tendncias
mais profundas e mais durveis da histria da frica  esta progresso inexor-
vel dos homens em nmero sempre maior em um espao sempre mais vasto e
adaptando cada vez melhor seu meio natural a seu modo de vida ao invs de se
deixar determinar e limitar por ele. Assim, a expanso dos povos de lngua bini
na floresta a oeste do Nger comeou no incio da era crist e, provavelmente,
teve seu fim somente por volta de 1200 com o desenvolvimento da cidade
de Benin25. Temos poucos conhecimentos sobre a expanso dos igbo a leste
do baixo Nger, mas sabemos que ela j havia definitivamente comeado por
volta de 1800 (Igbo-Ukwu) e que ela teve por efeito a valorizao da floresta
e, consequentemente, a transformao completa da paisagem, bem como um
crescimento sensvel da populao.  medida que os agricultores de lngua bini
simplesmente se adaptaram ao meio pr-existente a fim de submet-lo a uma
nova forma de explorao, os agricultores igbo destruram o meio ambiente
original. , portanto, natural que essas expanses sejam geralmente feitas a partir
de regies relativamente povoadas rumo a terras com menos densidade popu-
lacional. Elas contriburam para aumentar a densidade populacional de cada
regio do continente na medida em que a populao geral da frica crescia. No
se podem atribuir esses movimentos  "superpopulao", a no ser no sentido
muito limitado em que certas comunidades, como os trekboer, estenderam-se

23   D. D. Cordell, 1972; E. Rossi, 1978.
24   J. M. C. Thomas, 1979.
25   P. J. Darling, 1979.
68                                                        frica do sculo xvi ao xviii



territorialmente, apesar de sua fraca densidade, porque elas se consideravam
muito numerosas. A superpopulao  uma medida relativa da presso exercida
sobre a terra pelas tcnicas de explorao em vigor. Uma nova tcnica podia
aliviar esta presso, bem como a regulao da populao ou a emigrao.
    Os movimentos de expanso devem ter ocorrido muito cedo na frica. Os
caadores e os colhedores foram levados a estender seus territrios, seguidos
pelas comunidades que exploravam seu meio de modo mais extensivo. Em cer-
tos casos, as expanses tinham como causa uma lenta deteriorao dos recursos
provocada por uma mudana climtica cujo exemplo mais espetacular foi o des-
secamento do Saara. A arqueologia da Mauritnia mostra como este fenmeno
expulsou paulatinamente os agricultores desta regio rumo ao sul entre 1500
a.C. e o impulso do reino de Gana por volta de 70026.
    Expanses mais rpidas como a dos Fang, dos Nzabi ou dos Awlad Sullay-
man so atribudas a outras causas. No caso dos dois primeiros, a atrao para
as rotas e centros comerciais. E os Awlad Sullayman saram da Tripolitnia,
aps uma derrota militar, em direo ao Chade, onde sabiam que havia uma
rota comercial.
    Expanses dos agricultores jamais tiveram como causa uma catstrofe como
a fome ou uma epidemia. Quando passavam por uma crise grave demais, eles
no podiam conservar seu modo de vida, e suas estruturas econmicas, sociais
e polticas desabavam. Se eles abandonavam seus territrios nestes casos, era
para emigrarem massivamente e em desordem. No se tratava de uma simples
expanso. Alm disso, tais casos parecem ter sido extremamente raros.
    Um povo em expanso no expulsava necessariamente os outros povos que
encontrava em seu caminho. Frequentemente, ele se mesclava a eles e novas
sociedades emergiam desse processo. Os autctones adotavam ento a cultura
daqueles que chegavam, como no caso dos fang. Ou ento, desta fuso, resulta-
vam uma sociedade e cultura novas. Assim, a expanso dos mongo rumo ao sul
deu origem a vrios povos, dentre os quais os famosos kuba27. Quando a fuso
no ocorria, os autctones tinham de abandonar pouco a pouco seu territrio: 
o que ocorreu com os caadores san e talvez tambm com os criadores de ani-
mais khoi diante da expanso dos grupos de lngua banto do sudeste (mas uma
parte dos khoi talvez tenha sido assimilada). Aparentemente, jamais ocorreu de
um povo expulso de seu territrio invadir, por sua vez, um territrio vizinho.


26   J. Devisse, 1982, p. 171-173.
27   J. Vansina, 1978.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   69



As expanses geraram poucos refugiados dada as densidades populacionais
geralmente envolvidas.

     As disporas
    A dispora  um movimento populacional descontnuo que tem por efeito a
fundao de estabelecimentos separados da populao-me. Todas as disporas
esto ligadas ao comrcio ou a peregrinaes, salvo, talvez, aquelas dos pastores
fulbe, espalhados por toda frica Ocidental. Os fulbe no encontraram resis-
tncia porque sua dispora estava limitada a nichos ecolgicos desocupados
dos quais os outros povos retiravam apenas recursos secundrios. De fato, 
prefervel considerar o deslocamento dos fulbe como uma simples expanso
comparvel quelas dos turkana, dos nandi ou dos masa no norte do Qunia
ou na Tanznia28.
    O comrcio est na origem das disporas mais tpicas. Os estabelecimentos
dos fencios, dos gregos e dos rabes na costa do Chifre da frica, os pontos
estratgicos dos europeus e a colnia do Cabo foram todos fundados por mer-
cadores estrangeiros vindos de alm-mar. O comrcio fluvial e a pesca desempe-
nharam um importante papel na histria das disporas. A histria dos bobangui,
entre 1750 e 1850  um exemplo disso. Os habitantes de um grande povoado
situado na embocadura do Oubangui fundaram estabelecimentos e feitorias ao
longo de todo o Zaire at a embocadura do Kasa. Eles se misturaram a outros
povos e seu domnio se estendeu para formar uma nova etnia, os bobangi29. Os
sualis e sua cultura espalharam-se da mesma maneira na frica oriental, das
costas da Somlia e do Qunia at a ilha de Ibo, ao largo de Moambique, e
at Comores. Alguns sualis provavelmente se estabeleceram na Idade Mdia
no nordeste de Madagascar30. Outras disporas seguiram igualmente as rotas
comerciais terrestres. Mercadores mande fundaram assim feitorias jahanka entre
o alto Nger e a costa do Senegal, bem como feitorias jula (dyula) entre o alto
Nger e a costa do pas Akan. Mercadores yarse de lngua mossi organizaram
uma rede de feitorias no pas Mossi.
    Outras disporas deveram-se  peregrinao anual a Meca (hdjdj). Os pere-
grinos viajavam normalmente sozinhos ou em pequenos grupos. Quando, por
uma razo qualquer, eles no podiam continuar sua viagem, estabeleciam-se


28   Ver o captulo 27.
29   R. Harms, 1981.
30   UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, captulo 18.
70                                                         frica do sculo xvi ao xviii



onde eram obrigados a parar.  assim, que os takruri, originrios da frica
Ocidental, estabeleceram-se no Sudo no sculo XIX, da mesma maneira que
os djallba (mercadores) que vinham em geral da regio de Dongola fundaram
povoados prximos s rotas comerciais por eles utilizadas. Os marabtin bilbaraka
de Barka descendiam em sua maior parte de peregrinos da frica do Norte.
   Os povos dispersos mantinham relaes com seu pas de origem, seja pelo
comrcio, seja porque viviam prximos de rotas seguidas pelos peregrinos. Em
certos casos, essa relao no era mais direta ou mantinha-se por pouco tempo
com os elos de origem. Por exemplo, no sculo XV, os habitantes de Sofala
mantinham uma ligao mais estreita com Kilwa do que com as cidades situ-
adas mais ao norte e no estabeleciam relaes particulares com o arquiplago
de Lamu ou com as Ilhas Bajun, que estavam no corao do pas suali. Era a
consequncia de seu distanciamento progressivo. Do mesmo modo, Cern, na
costa atlntica de Marrocos, era uma colnia de Cartago (e no de Tiro). At
mesmo as colnias europias tendiam a se afastar de sua metrpole para estabe-
lecer relaes comerciais com outras colnias. Os colonos do Cabo se sentiam
mais prximos do imprio holands das ndias orientais organizado em torno
de Batavia do que da Holanda; Moambique dependeu diretamente de Goa
durante sculos, ao passo que aps 1648, Angola tornou-se praticamente uma
colnia brasileira.
   As disporas so movimentos populacionais muito visveis. Elas supem a
existncia de redes de comunicao estendidas e multiplicam-se com o desen-
volvimento das rotas comerciais. Se algumas delas comearam muito antes de
1500, a maior parte daquelas que conhecemos na frica pertencem ao perodo
seguinte e do testemunho de um novo aspecto do domnio do espao por parte
do homem. Elas ocorreram onde populaes bem estabelecidas comeavam a ter
economias complementares ou a trocar produtos com outros continentes. Sua
presena  um sinal da luta humana para se estabelecer no espao.

     As migraes em massa
   Uma migrao em massa ocorre quando todo um povo  homens, mulheres
e crianas , levando tudo que possui, abandona sua terra e percorre longas
distncias em um ou vrios anos. Esses gigantescos movimentos populacionais
esto ligados a verdadeiras catstrofes. A populao migrante pode ser muito
numerosa.  assim que em 429, pressionados pelos visigodos, 80000 vndalos
passariam da Espanha para a frica devido ao chamado de um governador
bizantino revoltado. Mas essa migrao era o resultado de uma redistribuio
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   71



geral da populao da Europa31. A maior invaso que se deu na frica do Norte
foi a dos ban hill e dos ban sulaym a partir de 1052. Ela ocorreria devido s
secas ocorridas na Arbia. Ela continuou at por volta de 1500, data na qual ela
atingiu a Mauritnia. Com as correntes migratrias dos rabes rumo ao Sudo e
o Chade, ela modificou o mapa cultural de toda a frica do Norte que se tornou
inteiramente arabizada32. As verdadeiras migraes em massa so espetaculares
e suas consequncias so considerveis; portanto, no causa espanto que sejam
muito raras. Entre 1500 e 1800, a nica verdadeira migrao em massa foi a
dos oromo,  qual  preciso acrescentar os deslocamentos que ela provocou em
outros povos. No sculo XIX, as nicas migraes em massa foram as do nguni,
migraes muito conhecidas que alteraram drasticamente a frica, do Cabo a
Nyanza.
    As migraes em massa eram empreitadas difceis. Os batedores tinham de
reconhecer o terreno. Era preciso guardar provises para os migrantes, que no
podiam satisfazer suas necessidades da mesma maneira que antes da partida.
Tornava-se muitas vezes necessria uma nova organizao social e poltica,
que era frequentemente do tipo militar. Os migrantes deviam ento se adaptar
a novos meios naturais, inventar novas formas econmicas e sociais e eram,
muitas vezes, levados a agresses e pilhagens, mesmo quando se tratava de
criadores de animais se deslocando com seus rebanhos. Os membros de outras
sociedades parcialmente ou completamente desorganizadas podiam se juntar aos
migrantes, cujo nmero, deste modo, aumentava progressivamente. As migra-
es podiam tambm ocorrer de modo sbito, suscitando graves confrontos e
provocando movimentos de refugiados, migraes secundrias ou expanses
rpidas. Resumindo, tais movimentos populacionais implicavam cataclismos
e alteraes drsticas das relaes do homem com o espao em larga escala.
Mesmo quando a migrao inicial se desenrolava muito rapidamente, os movi-
mentos populacionais que ela provocava podiam durar mais de um sculo, at
a fixao dos ltimos refugiados. Assim, a migrao dos oromo comeou talvez
por volta de 1530-1540, mas a regio que eles atravessaram no reencontrou sua
estabilidade seno por volta de 1700.  fato que as grandes expanses duravam
muito mais tempo ainda.
    Nossa descrio aplica-se aos casos mais extremos. Nos perodos mais anti-
gos e muito menos conhecidos,  frequentemente difcil distinguir as migraes
em massa das expanses rpidas mais macias, em especial quando se trata de

31   C. Courtois, 1955.
32   UNESCO, Histria geral da frica, vol. III, Captulos 4, 5, 15 e 16.
72                                                        frica do sculo xvi ao xviii



pastores.  assim que a progresso dos luo atravs de inmeros meios diferentes
durante vrios sculos  frequentemente considerada como uma migrao em
massa. Ela se dava com comunidades inteiras e provocou numerosos movimen-
tos secundrios, alterando de modo forte uma vasta regio, principalmente a
leste do Nilo Branco. Outros deslocamentos importantes do mesmo gnero se
produziram, na mesma poca, no sul do Sudo e no norte de Uganda. Entre-
tanto, o deslocamento dos luo durou muito tempo, talvez cinco sculos, e o que
sabemos disso33 permite-nos pensar que se tratava mais de uma corrente migra-
tria do que de uma migrao em massa, com os luo se deslocando geralmente
com seus rebanhos e parando para cultivar o solo. Certas fases da migrao
dos oromo apresentam as mesmas caractersticas. Tais exemplos mostram que
uma migrao em massa parece, s vezes, muito com uma expanso macia e
que ela pode ser acompanhada tambm de correntes migratrias. H, todavia,
uma grande diferena entre as duas, fundada nas capacidades de produo e
na estrutura militarizada de um vasto povo em marcha. Os processos no so
idnticos.
    Correntes migratrias e migraes em massa podem se combinar. O deslo-
camento dos luo foi em sua totalidade uma expanso, mas podemos considerar
como uma migrao em massa a exploso sbita dos luo do Qunia que, no
sculo XVIII, invadiram regies muito povoadas para tomar novas terras  fora.
Ao contrrio, o deslocamento dos oromo comeou como uma migrao em
massa, depois no fim do sculo XVII e sobretudo no incio do sculo XVIII, se
transformou em uma expanso.
    Como as migraes de massa so alteraes cataclsmicas, elas so expli-
cadas em geral por causas igualmente cataclsmicas, por exemplo, por bruscas
variaes climticas como as secas seguidas de fome e epidemias. Mas elas no
tm sempre causas desta natureza. A migrao dos vndalos, por exemplo, est
ligada a outras migraes e  queda do Imprio Romano e no foi produzida
por uma catstrofe natural. Certos autores explicaram-na por meio de uma
superpopulao relativa s migraes dos ban hill e dos oromo e o Mfecane,
mas, at o momento, eles no apresentaram muitas provas para comprovar sua
hiptese. As apresentadas vm, de fato, de sua defesa de que as migraes em
massa tinham todas por causa uma brusca diminuio dos recursos em relao
ao nmero de pessoas. Um raciocnio semelhante no  vlido porque, se  ver-
dade que o mecanismo das migraes redistribui os homens no espao, sua causa


33   Ver o captulo 26.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica                          73



pode variar. A presso demogrfica  apenas uma das causas possveis. Assim,
se uma presso demogrfica exerceu-se ou no sobre os oromo, foi a destruio
recproca dos reinos cristo e muulmano que a desencadeou, ou ento a prpria
migrao dos oromo, ao menos na direo que ela tomou34. Alguns arquelogos
defendem a ideia de que a populao cresceu nas regies de onde o Mfecane
partiu. Mas o crescimento demogrfico no basta para explicar esse aumento
da populao. Seria preciso ligar tal aumento de populao ao que sabemos da
predominncia que os chefes militares haviam conquistado e aos movimentos
populacionais que pareciam ter precedido o Mfecane no Zimbbue35. A presso
demogrfica foi, talvez, um fator de todas as migraes em massa  o que o
nmero de migrantes bastaria a comprovar , mas ela no foi em nenhum caso
a causa nica da migrao.

     As migraes de bandos
    A migrao de bandos, sempre armados, representa um nmero reduzido
de pessoas, sobretudo homens jovens, representando somente uma frao da
populao. Suas consequncias, por mais espetaculares que sejam, so menos
graves que as das migraes em massa e menos durveis que as das grandes
correntes migratrias. Geralmente, bandos de guerreiros partiam para conquis-
tar novos territrios por vezes (mas no necessariamente) sob o comendo de
um chefe nico. No caso dos zimba, Santos fala do chefe de um pequeno kraal
que, vido de glria, "resolve deixar seu pas no comando de um grupo armado
com a inteno de destruir, de pilhar e de festejar..."36. Os bandos jaga talvez
no tenham tido um chefe nico. Os bandos dos tyokosi eram compostos por
mercenrios37. Em certos casos (jaga e zimba, por exemplo), os bandos acaba-
ram se dispersando aps terem sido vencidos. Em outros casos (mane, tyokosi,
imbangala), chegaram a fundar uma pequena organizao poltica em torno do
chefe ou at mesmo um reino.
    Os bandos podiam provocar grandes estragos, mas suas migraes, menos
importantes que as migraes em massa, causavam menos desordem, provo-
cavam menos migraes secundrias e se ampliavam menos pela incorporao


34   Ver o captulo 24.
35   UNESCO, Histria geral da frica, vol. VI, captulos 4, 5, 7 e 9 e vol. V, captulo 22. ver, igualmente, D.
     N. Beach, 1980a, p. 320.
36 M. D. D. Newitt, 1982, p. 156.
37   Ver os captulos 12 e 14.
74                                                            frica do sculo xvi ao xviii



de migrantes estrangeiros. Elas duravam menos tempo que outros movimentos
populacionais dos quais falamos at aqui. Na maior parte dos casos, elas se
ocorriam sobretudo em funo de causas atrativas, mas as causas repulsivas
desempenharam, por vezes, um papel ao menos to importante quanto.  o caso
da expanso dos trekboer que forou os korana e os gonaqua a emigrarem rumo
aos rios Orange e Caledon38. As migraes de bandos resultavam, s vezes, da
formao de um Estado (os zimba e o Maravi, os tyokosi e o Ashanti) ou da
expanso das relaes comerciais das quais os migrantes desejavam tirar pro-
veito (caso dos jaga).  possvel, mas no h provas conclusivas a este respeito,
que a superpopulao tenha desempenhado um papel em seguida a uma seca
sofrida ou de uma outra calamidade do mesmo gnero na regio de origem
dos migrantes (caso dos imbangala). Uma das principais dificuldades que as
migraes dos bandos nos colocam  a de saber se elas faziam ou no parte de
uma migrao em massa. Assim, a invaso do Zimbbue pelos ndebele e a da
Zmbia pelos kololo39 fazem parte de uma sublevao em massa, o Mfecane.
E no  completamente certo que as migraes dos bandos jaga e imbangala
tenham sido, como todos os historiadores acreditam, movimentos populacionais
isolados, ou mesmo migraes em massa, ou ainda que elas tenham feito parte
de movimentos de maior amplitude.
    O caso dos imbangala  interessante. Os Bandos se formaram nas proximi-
dades do rio Kwango, talvez na sequncia de mudanas ocorridas no interior do
Estado de Lunda, em plena expanso na ocasio. A esses bandos mesclaram-se
marginais vindos dos Estados de Ovimbundu e de Mbundu. Os imbangala
lanaram-se na pilhagem durante vrios anos como aliados dos portugueses
que estabeleciam uma colnia em Angola. Eles se estabeleceram por volta de
1620, longe o bastante dos portugueses para estarem fora de seu alcance, perto
do rio Kwango, expulsando a populao da regio, que emigrou at o rio Kasa.
A regio onde se formaram os primeiros bandos imbangala no era superpo-
voada. Sua migrao no modificou a relao entre o nmero de habitantes e
a quantidade de recursos entre o Cuanza e o Kasa. Mas ela levou  criao de
um estado, o reino de Kasanje, que se tornou o principal centro de juno de
escravos exportados do interior da frica em direo para Luanda. No caso
dos imbangala, portanto, no se trata de nada mais que uma reorganizao das
estruturas sociopolticas e do comrcio40.

38   Ver o captulo 23.
39   UNESCO, Histria geral da frica, vol. VI, captulo 5.
40   J. C. Miller, 1976; J. Vansina, 1966a.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   75



     As migraes de elites
    As tradies orais que narram a fundao dos Estados referem-se muitas
vezes s migraes de elites: o primeiro rei  um estrangeiro, frequente-
mente um caador, vindo de longe, s ou com alguns companheiros. Esse
deslocamento refere-se a um nmero insignificante de pessoas e, todavia,
possui imensas consequncias sociais e culturais. No Malaui, por exemplo,
atribua-se a fundao do Estado do Maravi ao cl dos phiri, cujos ancestrais
teriam vindo, dizia-se, do pas Luba, situado muito longe no Shaba, ao passo
que o reino e os grupos formados em torno de chefes do Norte teriam sido
fundados por diversos estrangeiros de prestgio e com relaes de parentesco,
os ngulube41.
    Alguns desses relatos so provavelmente destitudos de fundamento real e
apenas exprimem a ideia geral a partir da qual o rei deve ser de origem estran-
geira porque  um ser  parte, envolvido em uma aura de mistrio e de sagrado.
O fundador da monarquia s pode vir do pas que tenha maior prestgio ou,
de outro modo, o mais longnquo possvel da civilizao local. Outros relatos,
entretanto, fundamentam-se sobre um fundo de verdade. Por exemplo, um
relato kuba conta que um bushoong exilado, Shyaam a Mbul a Ngoong, voltou
ao seu pas pelo oeste e unificou as tribos rivais em um reino. Este relato atesta
que o kuba sofreu influncia do oeste. J foi demonstrada a existncia de tais
influncias no plano lingustico e de um desdobramento ulterior a partir da
corte real. Aparentemente, portanto, uma dominao cultural foi exercida sobre
os kuba42. Por outro lado,  pouco provvel que a chegada de uma nica pessoa
(especialmente um exilado) tenha sido suficiente para estabelecer este domnio.
    Ao mesmo tempo que podemos negligenciar as migraes de elites em um
estudo dos movimentos populacionais, para um estudo do desenvolvimento
das formaes socioculturais, particularmente dos Estados, elas podem oferecer
um interesse considervel. Elas no modificam a relao entre uma populao
e seus recursos em um espao determinado, mas quando elas tem por efeito
a transformao da hierarquia social, elas conduzem a uma redistribuio dos
recursos e, consequentemente, a uma nova distribuio espacial da populao.
Para um estudo da questo, remetemos ao captulo 2.




41   Ver o captulo 21.
42   J. Vansina, 1978, p. 59-65 e 187.
76                                                           frica do sculo xvi ao xviii



     As fontes da histria dos movimentos populacionais
   As principais fontes da histria dos movimentos populacionais so, na frica,
as tradies orais, fatos lingusticos, documentos arqueolgicos e textos. Mas
sua explorao apresenta dificuldades. Dados mal interpretados levaram, por
vezes,  inveno de migraes que nunca existiram. Convm, portanto, dizer
uma palavra sobre essas fontes antes de apresentar os principais movimentos
populacionais do perodo de 1500-1800.
   As tradies orais no podem guardar a lembrana de uma longa expan-
so porque ela modifica muito pouco a vida cotidiana, desenrolando -se to
lentamente que a populao mal toma conscincia dela. Consequentemente,
uma tradio  suspeita quando ela pretende que um movimento tendo as
caractersticas de uma expanso tenha conduzido toda uma populao de um
determinado lugar para outro. Nenhuma tradio oral pode abarcar a totali-
dade de uma migrao em massa, pois  um acontecimento que se desenrola
em um largo espao de tempo. As tradies podem apenas tratar de episdios.
Alm disso, elas tendem a confundir as migraes em massa com as migraes
em bandos que permanecem na memria popular porque, sendo igualmente
espetaculares, desenrolam-se em um espao determinado. So lembradas, fre-
quentemente, as expanses das disporas: os habitantes de um povoado sabem
de quais outros povoados vieram seus ancestrais. Por fim, so relembradas com
preciso as migraes de elites: a tradio oral remete-nos, por exemplo, aos des-
locamentos que a famlia que reinou sobre o mangbetu tinha efetuado durante
dois sculos antes de fundar este reino43.
   Mas o pesquisador corre o risco de se enganar se ele se esquece de que as
tradies orais so ideologias e traduzem uma cosmologia. Se um povo cr que
todas as coisas provm de um nico lugar, ele acreditar evidentemente que
uma migrao o conduziu deste lugar original para o que ele ocupa atualmente.
A existncia de um paraso implica a de uma migrao original. Os kuba, por
exemplo, pretendem-se vindos das regies de baixo do rio e sados de um oce-
ano; os fang e os komo acreditam-se originrios de um lugar situado abaixo ou
acima de um determinado rio, nos limites do mundo por eles conhecido. Com
efeito, todos esses povos se orientam a partir do curso d'gua; portanto, eles s
podem descrever seus deslocamentos em relao a esse sistema de orientao.
Suas tradies relativas a migraes no possuem nenhum fundamento hist-


43   C. Keim, 1979; Colonel Bertrand, s.d..
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica                          77



rico, exceto aquelas que se referem s mais recentes migraes de massa ou de
elites quando mencionam stios prximos e conhecidos44.
    Temas muito difundidos como o da fundao de um reino por um caador
estrangeiro explicam-se tambm por razes ideolgicas. Encontramos esse tema
junto aos igala do baixo Nger, nos reinos da savana meridional e da regio dos
Grandes Lagos, no reino do Shambaa na Tanznia, ou ainda no Estado do Fipa
entre os lagos Tanganyka e Rukwa.  um esteretipo, que se aproxima de um
outro tema, prprio do Sahel do Sul entre o Atlntico e o Nilo: o do guerreiro
estrangeiro que mata uma serpente para libertar um povo (faanha comparvel
quela da vitria de So Jorge sobre o drago). Todos esses relatos no refletem
a migrao de uma elite, mas a ideologia de um Estado45. Entretanto, como 
possvel que esse Estado tenha sido fundado efetivamente por um estrangeiro
ou por um pequeno grupo de estrangeiros,  preciso verificar o fundamento
de tais relatos levando em conta sua significao simblica precisa e seu valor
ideolgico. Ns sabemos, por exemplo, que os reis de Ruanda no desceram
do cu, mas indcios lingusticos os ligam aos prncipes de Nkole. Da mesma
maneira, sabemos que o primeiro rei do Burundi, Ntare o Hirsuto, no saiu da
selva ou da floresta, mas o exame das tradies no nos permite verificar se ele
era ou no de origem estrangeira46.
    Ao interpretar as tradies, incorremos frequentemente no erro que consiste
em tomar a parte pelo todo. As tradies relativas  origem dos kamba, dos meru
e dos kikuyu do Qunia parecem ter, em cada um dos casos, estendido a toda
a populao o que era verdadeiro para uma pequena parcela dela47. O mesmo
vale para o reino Magbetu: aps sua criao, por volta de 1800, seu fundador
estabeleceu e imps uma nova genealogia e deu ao reino um nome que tinha
pertencido provavelmente a um de seus prprios ancestrais.
    De uma maneira geral, as tradies orais relativas  origem de um povo so
to suspeitas na medida em que contenham em grande nmero certos temas
estereotipados, que se encontram nas histrias dos cls, das linhagens, dos povo-
ados ou das famlias. A presena de tais temas nos ajuda, portanto, a determinar
em que medida uma tradio constitui uma fonte de informaes segura.


44   J. Vansina, 1978, p. 39-40; C. Chamberlin, 1977, p. 26-34. Nota-se a relao que existe entre a gua
     estagnada e os sistema de orientao dos fang fundado sobre o sentido dos cursos d'gua.
45   J. S. Boston, 1969; S. Feierman, 1974, p. 70-90; J. R. Willis, 1981, p. 10-44; T. Reefe, 1981, p. 23-40; E.
     Mworoha, 1977, p. 96-105.
46   J. P. Chrtien, 1981a.
47   B. A . Ogot, 1967, p. 106-261; G. Muriuki, 1974; J. A . Fadiman, 1973; K. Jackson, 1978.
78                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



   Recorremos frequentemente  lingustica, mas os fatos da linguagem so
mais difceis de interpretar que as tradies nos numerosos casos em que as
explicaes lingusticas no so as nicas possveis. A regra geral  que, quando
duas populaes de lnguas diferentes se misturam, a populao mais impor-
tante acaba por impor sua lngua  outra. Esse  o motivo pelo qual tanto a
migrao quanto a expanso macias levam geralmente  difuso da lngua
da populao em movimento. Por outro lado, quando, na sequncia de uma
dispora ou de uma migrao de bandos, um grupo restrito entra em contato
com uma populao autctone mais numerosa,  este grupo que abandona
sua lngua. A maior parte das excees que essa regra parece ter so apenas
aparentes. Uma populao conserva sua lngua aps uma dispora quando ela
 suficientemente densa e mantm uma relao com seu pas de origem, mas
no  raro que ela aprenda, alm disso, a lngua dos autctones. Os bandos
migrantes conservam tambm sua lngua quando no se misturam a outros
povos. Foi o caso dos tyokosi e dos mende de Serra Leoa. Por outro lado, os
bandos imbangala abandonaram sua lngua porque ela tinha desaparecido em
sua prpria regio de origem.
   Entretanto, a regra de assimilao lingustica pela populao mais nume-
rosa comporta tambm verdadeiras excees, que se explicam pelo prestgio
que tinham em certos casos a lngua minoritria. As lnguas ndebele e kololo
sobreviveram respectivamente no Zimbbue e na Zmbia, aps a conquista
desses pases, no apenas porque elas eram as dos conquistadores, mas sobretudo
porque, pouco depois da conquista, comeou-se a escrev-las e ensin-las nas
escolas. De outro modo, elas teriam sido absorvidas pelas lnguas majoritrias,
o shona e o luyi, do mesmo modo que o francs deu lugar ao ingls na corte da
Inglaterra muitos sculos depois da conquista normanda.
   Uma segunda regra fundamental  que a lngua absorvida sempre deixa
traos naquela que a absorve: palavras emprestadas, locues plagiadas, nomes
prprios, particularidades morfolgicas e sintticas. O estudo de tais traos pode
nos dar informaes sobre as relaes entre as populaes. Citemos, a ttulo de
exemplo, a influncia do khoi e do san nas lnguas banto do sudeste da frica,
a fortssima influncia do kikongo sobre uma lngua proveniente da dispora
de um grupo de origem setentrional, o bobangi, ou ainda os emprstimos do
kiswahili a lnguas estrangeiras48.




48   R. Anttila, 1972; T. Bynon, 1977 ; W. P. Lehmann, 1962; A . Meillet, 1925.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   79



    A lingustica permite tambm distinguir os diferentes tipos de movimentos
populacionais. As disporas so as mais fceis de identificar porque resultam
em situaes de plurilinguismo prolongadas e, s vezes,  formao de ln-
guas crioulas. O afrikaans  um crioulo como demonstram as modificaes
considerveis da morfologia e da sintaxe e as relaes lexicais com o malaio,
o portugus, o banto e o khoi (ou o san). O bobangi  um crioulo formado
por lnguas banto estreitamente aparentadas. As lnguas provenientes de uma
dispora caracterizam-se pela simplificao da gramtica e pela origem mlti-
pla do lxico. As expanses do lugar a muito menos emprstimos lingusticos
salvo nos casos em que elas colocam em contato populaes de igual importn-
cia numrica. As lnguas que resultam deste processo conservam os principais
topnimos das lnguas que elas absorvem e lhes tomam alguns emprstimos. As
expanses, ao contrrio das migraes em massa, levam a uma repartio das
lnguas que, sobre uma extenso maior do que aquela em que se desenrolou o
deslocamento, corresponde muito bem s supostas relaes de parentesco entre
as comunidades. Por exemplo, se pensamos que os fang e os grupos vizinhos
que lhes eram aparentados no emigraram em massa, isso se d notadamente
porque sua zona lingustica  contgua a outras zonas. Mas o fato de que ela
divide as lnguas em duas zonas desiguais leva a crer que eles precipitaram seu
deslocamento. Uma populao que emigra em massa, como fizeram os oromo,
impe sua lngua em regies que se repartem muito irregularmente. Mas que
podem, entretanto, formar uma zona nica ou, ao menos, uma zona principal.
Esta distribuio corresponde somente em uma estreita medida s relaes de
parentesco. Nota-se numerosos emprstimos nas lnguas das comunidades que
se juntaram aos migrantes. As migraes em massa produzem frequentemente
misturas entre mais de duas lnguas. Eis o motivo de considerarmos como
improvvel uma migrao macia dos langi, cuja lngua, o luo, sofreu influncia
de apenas uma outra lngua, o karimojong49. A predominncia do luo indica que
aqueles que falam esta lngua eram os mais numerosos no momento da mistura,
fato que no se refletiu nas tradies orais. Um bando migrante, quando muito
numeroso, impe sua lngua  regio em que se estabelece e, em regies que
ele apenas atravesse, deixa traos nas lnguas no muito prximas da sua. O
jaga e o zimba, ao contrrio do mane, do imbangala e de outras, no deixaram
nenhum trao.




49   J. Tosh, 1978, p. 17-34.
80                                                         frica do sculo xvi ao xviii



    A principal dificuldade que a lingustica apresenta  que, a menos que se
estude detalhadamente os emprstimos seguindo o mtodo "palavras e coisas"
(Worter und Sache), no se pode saber se  possvel atribu-los a outras causas
alm dos movimentos populacionais: relaes comerciais, influncia da lngua
oficial de um Estado ou da lngua falada por uma famlia que esteja no poder
(kuba, por exemplo), ou ainda o prestgio de uma lngua religiosa. Raramente
as lnguas africanas foram estudadas do ponto de vista que nos interessa aqui. 
certo que um estudo assim apresentaria grandes dificuldades, mas poderia nos
ofertar resultados preciosos.  urgente que se organize um amplo programa de
pesquisas neste domnio.
    Afirmou-se frequentemente a existncia de expanses ou de migraes tendo
por base a arqueologia aps a descoberta, em diversos lugares, de elementos da
cultura material (objetos) ou de costumes muito semelhantes ou idnticos (por
exemplo, a incinerao materializada por urnas funerrias). Tais afirmaes
pressupem o seguinte raciocnio:  improvvel que elementos semelhantes, em
particular na fabricao e na decorao de objetos, tenham sido inventados de
maneira independente em diversos lugares;  certo, ento, que esses elementos
tenham sido difundidos. Quando se trata, por exemplo, de costumes funerrios
ou da fabricao da cermica, explica-se a difuso por uma migrao. Entretanto,
os arquelogos se afastaram desta teoria50 na medida em que perceberam que
as invenes independentes eram mais frequentes do que acreditavam e que as
difuses podem se dar por outros meios alm das migraes.
    Os movimentos populacionais, aparentemente, figuram de modo importante
na origem de numerosas difuses.  difcil, por exemplo, no supor a existncia
de um movimento populacional quando se constata que um estilo novo de
cermica se difundiu uniformemente por vrias regies anteriormente carac-
terizadas por estilos claramente diferentes.  por esta razo que se pensa que
uma migrao ou uma expanso se produziu, por volta do ano 1000, da frica
do Sudeste no sentido do Zimbbue. A realidade deste suposto movimento
populacional, chamado kutama, parece confirmada tanto quanto possvel pela
arqueologia51. , entretanto, concebvel  ainda que pouco provvel  que o novo
estilo de cermica se tenha difundido como uma nova moda, sem movimento
populacional.
    H infelizmente muitos outros casos duvidosos. Quando se introduzem na
histria da cermica demais estilos de transio, no somente a diferena entre

50   W. Y. Adams et al., 1978.
51   T. N. Huffman, 1978.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   81



os estilos consecutivos se apaga, mas alm disso no  mais legtimo atribuir as
inovaes s migraes. Encontramo-nos diante dos resultados de uma anlise,
e no diante da interpretao dos prprios fenmenos. Erros deste gnero na
anlise dos dados arqueolgicos foram cometidos nos estudos de certos stios,
como no caso do Zimbbue.
    Certos autores, ainda, chegam  concluso da existncia de migraes tendo
por base a distribuio de caractersticas etnogrficas. Este mtodo, antigamente
em voga, perdeu atualmente todo crdito.  totalmente irracional acreditar, por
exemplo, que os fang tenham vindo por migrao do Oubangui pelo fato de
conhecerem a arbaleta como certos povos desta regio. Ou de acreditar, por
causa da forma de seus chapus, de seus penteados de guerra ou de seus altos-
-fornos, que os beti de Camares tenham vindo do norte52. As caractersticas
etnogrficas podem se difundir sem movimento populacional. Suas similitudes
podem ser creditadas ao acaso ou a invenes independentes umas das outras.
Elas no provam nada quando no acompanhadas de semelhanas lingusticas,
e, mesmo em casos de difuso, faltaria ainda provar que era devido a um movi-
mento populacional.
    A elaborao de teses gerais a partir de dados heterogneos pode, assim,
engendrar erros grosseiros. Um exemplo dentre os mais conhecidos  o das
pretensas migraes dos fang. Acreditou-se que os fang, os bulu, os beti e os
ntumu eram todos oriundos do norte, que eles teriam atravessado o Sanaga
conjuntamente, ou no caso dos bulu separadamente, e que, fugindo de agressores,
teriam se estabelecido em um meio natural por eles desconhecido: a floresta
tropical53. Mas esta tese se fundamentava em um amlgama de tradies diversas
que, em grande parte, eram a expresso de uma cosmologia. Nada prova que
os fang sejam originrios de outra regio alm daquelas das fontes do Como,
do Ntem e do Ivindo. Os deslocamentos que eles efetuaram aps, por volta de
1840, no possuam o carter de uma migrao em massa. Tratava-se de uma
expanso rpida54, e este movimento no tinha nenhuma relao com aqueles
que so atribudos aos bulu, aos beti e aos ntumu.
    A migrao dos bandos jaga coloca um problema particularmente difcil. Ela
teria ocorrido em 1568 e foi reportada pela primeira vez em 1591, a partir do
testemunho de um portugus que chegara na regio vrios anos mais tarde e que
a deixara em 1583. Numerosos autores examinaram a questo. Alguns dentre

52   P. laburthe-Tolra, 1981, p. 61-65.
53   P. Alexandre (1965)  o ltimo a defender esta tese. Ver tambm H. Ngoa, 1981.
54   C. Chamberlin, 1978.
82                                                            frica do sculo xvi ao xviii



eles esto hoje convencidos que os jaga jamais existiram. A tese mais radical
 que os portugueses inventaram esta migrao a fim de intervir nos negcios
do reino do Congo por ocasio de uma querela de sucesso55. Outros autores
sustentam que imigrantes penetraram no Congo em 1568, mas eles pensam
que a maior parte dos jaga eram camponeses do Congo que se revoltaram56. O
debate talvez nunca termine.


     Os principais movimentos populacionais de 1500 a 1800
    Somente uma parte da frica conheceu, do sculo XVI ao XVIII, grandes
redistribuies populacionais levando  formao de sociedades e culturas novas.
Trata-se, por um lado, da regio do Chifre da frica situada ao sul do Abbay,
ou Nilo Azul superior, e corresponde aproximadamente  Somlia e ao norte do
Qunia, e, por outro lado, da zona situada a leste do Nilo Branco, ao norte do
lago Nyanza e ao sul do Sobat. Vrios movimentos populacionais produziram-
-se nessas regies. O mais espetacular foi a emigrao dos oromo na Etipia
por volta de 1535. Outros grupos oromo emigraram ou se estenderam rumo
ao sul at o rio Tana e mesmo no interior das cidades costeiras. A partir do
incio do sculo XVI, os somalis conheceram vastos movimentos de expanso.
Esses movimentos praticamente no foram estudados e so, consequentemente,
mal conhecidos.  verdade que seu estudo  complicado pelas vicissitudes do
combate titnico que ops a Etipia e o emirado de Ahmad Gra: por volta de
1700, toda uma parte da Etipia estava sob o domnio dos oromo, os cristos e
os muulmanos tinham perdido todo o poder no sudeste, os somalis e os oromo
disputavam as boas terras at o Tana, ao passo que a populao sedentria,
numericamente menos importante que eles, era expulsa do Shungwaya, regio
costeira limitada ao sul pela fronteira entre a Somlia e o Qunia. Tais grupos,
os ancestrais dos miji-kenda, estabeleceram-se em grandes cidades fortificadas
(os kaya), atrs das principais cidades porturias do Qunia57.
    Mais a oeste, os movimentos populacionais tinham comeado muito mais
cedo, talvez por volta do ano 1000, com a migrao dos luo ao longo do Nilo
Branco. No possumos informaes seguras referentes ao que se passou antes
no leste do Nilo. Mas  certo que um grande nmero de comunidades se des-


55   F. Bontinck, 1980; J. C. Miller, 1973 e 1976.
56   J. K. Thornton, 1978; A. Wilson, 1979.
57   Ver os captulo 24 e 25. ver tambm T. T. Spear, 1978.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   83



locou, notadamente o grupo chamado karamojong, e, mais a leste, os turkana,
bem como nilotas do sul, tais como os nandi e os masa. Todos esses povos,
salvo os luo, praticavam essencialmente a criao de animais como os oromo
e os somalis. Estavam todos  procura de terras "livres", isto , terras com uma
densidade populacional relativamente baixa, que eles exploravam de modo mais
intensivo que os caadores-colhedores ou que os criadores que as ocupavam
anteriormente58. Seus deslocamentos dependiam, em uma larga medida, das
condies naturais. Os luo tinham necessidade de terras bem irrigadas, os kara-
mojong buscavam chuvas mais abundantes que os nilotas do sul e os masa que,
por sua vez, no podiam viver em regies to secas como os nmades criadores
de camelos, os somalis e os oromo meridionais. Esses ltimos, que criavam
bovinos em seu pas de origem, puderam ocupar as novas terras tornando-se
criadores de camelos. Este caso de um grupo que mudou seu modo de vida
 excepcional. Em geral, cada populao se caracterizava pela explorao de
recursos prprios a um meio determinado e por uma organizao defensiva
que se baseava em uma diviso por faixas etrias. Ela se esforava, alm disso,
para ocupar um territrio to grande quanto possvel. Entretanto, em certos
casos, no fim das expanses, conflitos armados opuseram comunidades que
tinham o mesmo tipo de economia: assim os luo do Qunia tomaram as terras
de seus vizinhos no sculo XVIII e diferentes grupos masa disputaram terras
no sculo XIX. Tais conflitos se explicam manifestadamente por uma presso
demogrfica forte demais.
    Esses movimentos populacionais atm-se, ao menos at o sculo XVIII, 
histria da ocupao das terras marginais. As terras com melhor irrigao, s
margens do Nilo, foram originalmente ocupadas por agricultores que tambm
criavam animais. Eles repeliram todos aqueles que chegaram depois. Estes,
estabelecidos em terras piores, buscaram ampliar o territrio, frequentemente
entrando em concorrncia na medida em que seu nmero aumentava. Essa
mobilidade ressalta a estabilidade que prevalecia, na mesma poca, na maior
parte do continente. Na verdade, quase por toda parte, vastas regies eram ocu-
padas por pessoas cuja economia era adaptada ao meio natural e  densidade
populacional. No conjunto do continente, o ser humano havia dominado o
espao, salvo nas terras marginais onde o combate prosseguia.
    Houve uma hiptese de que a seca tinha desempenhado um papel primordial
nos movimentos populacionais do nordeste da frica59.  verdade que o clima

58   Ver os captulos 26 e 27.
59   Ver o captulo 26.
84                                                        frica do sculo xvi ao xviii



africano tornou-se mais seco, em correlao com uma pequena era glacial que
teria durado de 1450 a 1750. Sahel ocidental conheceu igualmente a seca nesta
poca. O desmoronamento do Songhai, ocupado em seguida (sem sucesso) pelos
marroquinos60, teve por consequncia a considervel expanso que conduziu os
tuaregues ao sul do Arco do Nger, onde eles se chocaram com os fulbe. Mas
esses deslocamentos no tiveram a mesma extenso que os do nordeste da
frica. Mesmo a progresso dos mouros ou a evacuao da regio do Ar pelos
haussas de Gobir que se retiraram rumo ao sul, ainda que possam ser atribudas
 aridez, no se deram menos como deslocamentos regulares de fronteiras cul-
turais e tnicas em relao com uma variao dos limites climticos. Os homens
conservavam o domnio de seu espao. Os grandes movimentos populacionais
iniciados pelos ban hill, pelos ban sulaym por outros grupos rabes no Sudo
e no Chade chegaram ao fim. Mesmo as condies climticas desfavorveis
entre 1600 e 1750 no mudaram, em seu conjunto, o modo de ocupao do
solo, explorado de modo extensivo. A seca, no mais que o desmoronamento do
poderoso imprio etope, provavelmente no basta para explicar a mobilidade
geral da populao do nordeste da frica. O que nos parece fundamental so
antes as tenses que existiam entre, de um lado, regies de populao relativa-
mente densa, como o cerne do pas Oromo, e talvez as montanhas da Etipia
meridional do lado do Nilo; e, do outro lado, regies menos povoadas como o
norte de Uganda e do Qunia, e os riftes do Qunia e da Tanznia. Em 1700,
essas ltimas regies tinham sido ocupadas por novas comunidades que, por seu
sistema econmico e por sua organizao social, podiam atingir uma densidade
relativamente elevada.
    Em outros lugares, os movimentos populacionais eram muito menos impor-
tantes. No extremo sul da frica, os trekboer colonizavam o espao rural aberto
de Karoo, expulsando ou massacrando os criadores de animais desta regio e,
na Nambia, os herero e os namib espalhavam-se em detrimento dos autcto-
nes san e dama. As margens do Kalahari eram povoadas, como as terras ridas
do norte de Uganda e do norte do Qunia. Mais ao sudeste, um desequilbrio
considervel comeava a se manifestar: a populao desta regio crescia demais
em relao aos recursos. Os primeiros sinais de instabilidade foram talvez os
deslocamentos dos tonga rumo ao norte, em direo ao sudeste do Zimbbue, e
as migraes de bandos saqueadores no prprio Zimbbue. Na mesma poca, o
sul do Zimbbue parou de receber comunidades vindas do norte, onde as terras


60   Ver os captulos 11 e 16.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   85



eram melhores61. No sculo XIX, o primeiro grande movimento populacional
partiu de l.
    Durante todo o perodo que nos interessa, na floresta tropical da frica Cen-
tral e na savana da atual Repblica Centro-Africana, populaes se deslocavam
em massa, mas lentamente, para manter uma justa relao entre o nmero de
habitantes e a quantidade de recursos. Ns falamos da corrente migratria dos
grupos mongo que, partindo de centros fortemente povoados prximos do equa-
dor, dirigiram-se rumo ao sul. A imigrao levou  formao do reino kuba e das
poderosas sociedades situadas ao norte do Kasa inferior. Mais a leste, grupos de
lngua mongo se estabeleceram em partes pouco povoadas da savana. Diversos
centros de povoamento assaz denso se constituram entre o Zaire e o Oubangui.
Uma populao como a dos ngbandi, do vale do Oubangui, podia ento se esten-
der ainda rumo ao sul alm do rio. Mas, no sculo XVIII, apareceram sinais de
superpopulao relativa e a segunda metade do sculo viu o nascimento de um
novo povo, os zande. Eles se estenderam rapidamente a leste no sentido do Nilo,
fundando sucessivamente vrias sociedades. Nas pradarias da atual Repblica
Centro-Africana e de Camares, agricultores, notadamente os gbaya e os banda,
deslocavam-se lentamente, mas  um movimento sobre o qual nossos conhe-
cimentos so ainda muito limitados62. No oeste da floresta tropical da frica
Central, uma corrente migratria constante conduzia a populao da regio do
confluente do Mbam e da Sanaga rumo a regies menos povoadas, a sul e talvez
tambm a oeste, ao passo que, partindo de um pequeno centro de povoamento
da Guin equatorial, outras comunidades se dirigiam para o norte63.
    Como em seus deslocamentos, as diferentes populaes tinham sempre em
vista sua prpria densidade e a das populaes vizinhas, pequenas correntes
migratrias produziram-se quase por toda parte, mesmo na frica do Oeste e
do Norte, como vemos nos captulo que tratam da histria de cada regio. Essas
expanses se davam com mais ordem que as das migraes em massa, o que 
indcio de uma verdadeira estabilidade.
    A maior parte dos pequenos movimentos populacionais atinha-se  formao
ou  queda de um Estado. Na frica Ocidental, o desmantelamento do Estado
Jolof, por volta de 1520, no provocou nenhum, mas foi o declnio do imprio
do Mali que parece ter levado os soso (susu), os baga e os nalu a deixarem o
Futa Djalon e os mane a emigrarem em bandos para a Libria e Serra Leoa, que

61   Ver o captulo 23.
62   Ver o captulo 18.
63   D. Birmingham e P. Martin, 1983; P. Burnham, 1975 e 1980, p. 10-39.
86                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



eles arrasaram em parte antes de fundar, ali, novas sociedades e de dar origem
a novas culturas. Essa  a origem dos mande, por exemplo. O desenvolvimento
dos Estados mossi sem dvida no  estranho ao estabelecimento dos dogon,
vindos do sul, sobre as falsias de Bandiagara, nem  fundao, mais ao sul, de
Gonja por bandos mande. A formao do Estado ashanti levou os akwamu da
regio do Volta a se deslocarem em uma curta distncia e, consequncia mais
importante, levou grupos baoul e agni a se estenderem rumo a sudeste64. Os
bandos de guerra tyokosi, que deviam se estabelecer no norte do Togo, com-
preendiam homens do ashanti e do mande, e faziam guerra por conta de um
dos reinos mossi.
    Na frica Central os movimentos que conhecemos so menos numerosos.
A expanso do imprio do Lunda, em seguida a do reino yaka do Kwango
provocaram a migrao de bandos armados, dentre os quais os mais conhecidos
so aqueles do Lunda meridional e o que fundou o reino de Kazembe. Vrias
comunidades, que vivem hoje prximas do 5 paralelo sul entre o Kwango e o
Kasa, comearam antes do sculo XIX a se deslocar para essa regio, talvez em
funo de incurses dos yaka e dos lunda, talvez tambm porque as terras desta
regio fossem melhores e as chuvas mais regulares que em seu pas de origem65.
No Malaui, bandos armados iniciaram seu movimento de maneira espetacular
aps a criao dos Estados maravi e lunda por volta de 160066. Saindo do Malaui,
os zimba saquearam de incio o norte de Moambique e a regio do interior de
Kilwa. Eles teriam em seguida  mas seria o mesmo bando?  saqueado as terras
costeiras rumo ao norte at Malindi e alm. Um outro bando estabeleceu-se nas
montanhas do Zimbbue, mas foi destrudo em seguida. No se pode, em geral,
ligar com certeza as pequenas expanses e incurses dos povos do Zimbbue ao
desenvolvimento ou declnio de um Estado. H algumas excees: a expanso
dos manyika rumo s montanhas desrticas do Inyanga e trs expedies de
menor importncia partidas do Estado de Changamira. No Zimbbue, os outros
pequenos movimentos populacionais tinham principalmente por fim a coloni-
zao de terras pouco povoadas, situadas no sul.  sem dvida em Madagascar
que se v mais claramente como os movimentos populacionais podiam se ligar
 formao de sociedades e reinos, por exemplo, as migraes dos maroserana,
aos quais se juntaram algumas comunidades, enquanto outras deles fugiam.
Em 1500, a populao da ilha conservava uma grande mobilidade pois havia

64   Ver os captulos 10, 11, 12, 13, 14 e 15. ver tambm C. H. Perrot, 1982.
65   Ver os captulos 19 e 20.
66   Ver os captulos 21 e 22. ver tambm D. N. Beach, 1980a.
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   87



ainda terras desocupadas. Em 1800, a maior parte da ilha estava organizada em
Estados de diferentes tipos. O espao tinha sido dominado. Entretanto, neste
processo, a formao dos Estados desempenhara um papel mais importante em
Madagascar que em outras regies da frica67.
    No continente, a formao de Estados limita-se a uma parte da Tanznia
central,  Tanznia meridional e ao norte de Moambique. Nessas regies, a
formao dos Estados bena, sangu, hehne, makua (makwa), lundu e yao, e a
unificao de certos Estados nyamwezi contriburam para fixar a populao68.
    A considervel extenso das rotas comerciais ao sul do Saara levou a novas
disporas e amplificou as antigas. Ela provocou tambm outros movimentos
populacionais, que se deram mais frequentemente em curtas distncias. As
disporas mais bem conhecidas so, de oeste a leste, as dos jahanka, dos joola,
dos yarse, dos haussas, dos bobangui, dos vili, dos hungaan, dos bisa, dos yao,
e dos sualis.  preciso acrescentar as disporas europias: os franceses para a
costa do Senegal, os portugueses para Luanda e Moambique, os agentes dos
portugueses (lanados, pombeiros e o pessoal dos prazos) e os holandeses do
Cabo foram os europeus cujo estabelecimento teve a maior influncia sobre o
continente africano durante esse perodo.
    As disporas europias e africanas participaram cada vez mais do trfico de
escravos na medida em que as rotas comerciais eram mais frequentadas, mais
bem organizadas e que penetravam mais ao interior das terras. A populao
que vivia na proximidade dessas rotas se deslocava s vezes para se aproximar
ou, ao contrrio para se distanciar. Assim, os itsekiri estendiam-se rumo  costa
vizinha a fim de atingir a rota martima que conduzia ao Benin. Os efik, que
viviam perto de Arochuku, estabeleceram-se no Old Calabar, no Cross River,
onde fundaram um porto importante69. Os duala (douala) desceram o curso do
Wouri por razes similares no sculo XVIII. Numerosos habitantes do Gabo
se aproximaram progressivamente do delta do Ogooue para participar ativa-
mente do comrcio. Outras comunidades, ao contrrio, distanciaram-se das rotas
comerciais em direo  Ngouni70. A que vivia entre o Kwongo e o Kasa parece
ter fugido dos mercadores e dos ladres, ao passo que os bemba da Zmbia
aproximaram-se de uma rota comercial estabelecida no sculo XIX. Numerosos
habitantes do Zimbbue parecem ter se afastado da agitao criada pelas feiras


67   Ver o captulo 28.
68   Ver o captulo 27.
69   Ver o captulo 15.
70   Ver o captulo 18.
88                                                         frica do sculo xvi ao xviii



portuguesas com a colonizao do sul. Todos esses movimentos populacionais
eram limitados. Eles representavam somente o esforo de certos grupos para se
adaptarem ao desenvolvimento do comrcio e a uma vasta reorganizao das
relaes sociais e polticas. Movimentos do mesmo gnero produziram-se pr-
ximos s rotas comerciais e novos centros polticos da frica do Norte.


     Concluso
    Em 1500, os homens tinham dominado o espao j h muito tempo na
maior parte da frica e exploravam de uma maneira ou de outra a totalidade do
solo. Como na maior parte do continente a densidade populacional era baixa, as
expanses resolviam os problemas devidos a uma utilizao excessiva do solo. A
principal exceo era a que podia ser vista na frica Oriental, do Chifre ao rio
Zambeze, contando Madagascar, mas deixando de lado a regio dos Grandes
Lagos. A metade norte desta zona caracterizava-se por migraes em massa, por
novos modos de povoamento e pela rpida expanso de vrias comunidades de
criadores de animais. Na metade sul, contando Madagascar, onde a cultura do
solo ocupava um lugar mais importante que no norte, uma nova organizao
social e a formao de um sistema de reinos e chefias contriburam para fixar a
populao e para intensificar a explorao do solo.
    As secas e a fome no bastam para explicar as migraes em massa e as
expanses rpidas que ocorreram na metade norte desta zona. De fato, na frica
do Oeste e do Norte, as populaes vizinhas do Saara reagiram a secas seme-
lhantes apenas com lentas expanses.
    O crescimento demogrfico sem dvida no teve consequncias graves na
totalidade da frica durante este perodo porque ele era facilmente compen-
sado pelos movimentos populacionais. As novas tcnicas que, ao intensificar a
explorao do solo, permitiam o crescimento populacional, aparecem somente
em pontos isolados: a Baixa Casamansa, o pas Igbo, as pradarias de Camares,
onde se cultivavam diversos vegetais, as montanhas da regio dos Grandes
Lagos, na borda do rifte ocidental onde se praticavam a irrigao e a cultura
intensiva de bananas, o plat kukuya onde se aplicavam novos mtodos de
fertilizao, ou ainda o vale do alto Zambeze, cujas cheias serviam para a irri-
gao, enfim, todas essas regies eram e so ainda excees na frica Ocidental
e Central. O que se praticava h milnios era uma cultura intensiva nos osis
da frica do Norte e no Egito, onde se encontra o maior osis do mundo. 
impossvel explicar aqui detalhadamente por que o crescimento demogrfico
Os movimentos populacionais e a emergncia de novas formas sociopolticas na frica   89



no foi mais considervel, mas  necessrio ao menos lembrar que um grande
nmero de africanos deixaram o continente, notadamente por causa do trfico
de escravos para a Amrica.  notvel que a frica Ocidental e Central, onde o
trfico ocorreu, tenha conhecido uma estabilidade maior que a frica Oriental,
e que, se o trfico provocou movimentos secundrios, ele no tenha causado a
redistribuio macia da populao.
    Fora da frica Oriental, a mobilidade populacional dependia essencialmente
do crescimento e do declnio dos Estados e da extenso das redes comerciais.
Apesar da desapario de alguns dos principais Estados do Sahel na frica
Ocidental, os diferentes Estados da frica exerciam seu domnio sobre uma
maior parte do continente no fim do sculo XVIII do que no incio do sculo
XVI. Tumultos produziam-se nas fronteiras de cada novo Estado no momento
de sua formao.
    A frica do Oeste e a do Norte possuram, bem antes do sculo XVI, uma
rede extensa de rotas e estabelecimentos comerciais. Havia igualmente algu-
mas rotas comerciais na frica Central, mas elas se multiplicaram somente
nos sculos XVII e XVIII.  nesta poca que elas ligaram pela primeira vez
o Atlntico ao Oceano ndico. As disporas proliferaram com a expanso do
comrcio. A explorao dos recursos pde ser feita em maior escala, mesmo
do ponto de vista poltico, os Estados estenderam-se por territrios mais vas-
tos que as sociedades ou as confederaes de povoados. As rotas comerciais,
ao ligar a frica aos outros continentes, submetiam-na  hierarquizao do
espao mundial, isto , a uma organizao que, aps 1500, seria cada vez mais
dominada pela Europa.
     preciso estudar em um contexto temporal mais amplo os trs sculos que
ns aqui consideramos. A populao da frica conheceu uma estabilidade muito
maior e dominou de modo muito mais efetivo o espao durante este perodo
que durante os cinco sculos precedentes. No sculo XIX, na sequncia de um
crescimento demogrfico na frica Austral, que somente uma revoluo tcnica
teria podido compensar, a frica Austral e Oriental veriam alteraes drsticas
em funo do Mfecane. Mas a instabilidade no se estendeu ao resto do con-
tinente. Os africanos tinham obtido sucesso, em seu conjunto, na empreitada
de dominar o espao bem antes do sculo XVI. A relao entre a populao,
os recursos da terra e as tcnicas asseguravam uma situao estvel na qual um
emaranhado de elaboraes culturais em que complexidades culturais como a
urbanizao floresceram.
    Entretanto, como este captulo igualmente mostrou, ainda conhecemos mal
os movimentos populacionais. No que concerne  frica, a demografia histrica
90                                                        frica do sculo xvi ao xviii



e a histria das tcnicas esto somente em seu incio. Temos necessidade de
dados mais numerosos e, sobretudo,  preciso que se substituam noes vagas
como "migrao" por instrumentos de anlise muito mais precisos. Poderemos,
ento, descrever melhor um elemento fundamental da histria da frica: a lenta
e progressiva colonizao do continente por parte de seus habitantes.
A frica na histria do mundo                                           91



                                     CAPTULO 4


          A frica na histria do mundo:
      o trfico de escravos a partir da frica
          e a emergncia de uma ordem
              econmica no Atlntico
                                          J. E. Inikori




    No Mediterrneo Antigo, certamente houve, porm, de forma isolada, vendas
de escravos oriundos da frica subsaariana, mas somente no sculo IX ocorreu o
desenvolvimento, de forma significativa, da exportao de escravos provenientes
da frica negra rumo ao resto do mundo1. Esse trfico atendeu principalmente
a regio em torno do Mediterrneo (inclusive a Europa Meridional), o Oriente
Mdio e algumas regies da sia. Tal comrcio durou vrios sculos, haja vista
que somente se extinguiu no comeo do sculo XX. Todavia, as "quantidades"
anuais assim exportadas nunca foram relevantes. Por outro lado, a partir do
momento em que o Novo Mundo, aps a viagem de Cristvo Colombo, em
1492, abriu-se  explorao europia, um trfico de escravos africanos, envol-
vendo nmeros muito maiores, se superps ao antigo trfico: trata-se do trfico
transatlntico de escravos, praticado do sculo XVI at meados do sculo XIX.
Os dois trficos perpetuaram-se simultaneamente durante quase quatro sculos
e arrancaram milhes de africanos de sua ptria. At hoje, o papel desse comr-
cio no desenrolar da histria mundial ainda no foi devidamente evidenciado.
    Vale observar que o trfico de escravos no se limitou  frica. De fato o
mundo conheceu desde o Imprio Romano a escravido e o trfico humano
em larga escala. Os documentos histricos permitem facilmente constatar que


1   R. A. Austen, 1979; R. Mauny, 1971.
92                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



todos os povos do mundo venderam como escravos, em regies longnquas e no
curso de uma ou outra poca, alguns de seus conterrneos. Aprendemos, assim,
que a misso enviada no sculo VI para converter o povo ingls ao cristianismo
estava ligada  venda, no mercado de Roma, de crianas inglesas, vtimas das
freqentes lutas entre os povos anglo-saxes que vendiam, como escravos, os
prisioneiros capturados durante seus combates2. Situao idntica verifica-se
em outros territrios europeus. Durante sculos, as etnias da Europa Oriental
e Central (e, sobretudo os eslavos, cujo nome deu origem  palavra "escravo")
forneceram escravos ao Oriente Mdio e  frica do Norte.
    Todavia, do ponto de vista da histria mundial, o comrcio de exportao de
escravos africanos, especificamente no quadro do trfico transatlntico, repre-
senta, sob vrios aspectos, um fenmeno nico. Sua prpria amplitude, sua
extenso geogrfica e seu regime econmico  em termos de oferta, emprego
de escravos e dos negcios com os bens por eles produzidos  so os traos
distintivos do trfico de escravos africanos comparativamente a todas as outras
formas de comrcio de escravos.
    A dificuldade em determinar o seu exato papel na histria do mundo est
diretamente ligada  questo das origens histricas da ordem econmica mundial
contempornea. A controvrsia que tal questo suscita depende de alguns fatores:
em primeiro lugar, da tirania exercida sobre os pesquisadores, por diferentes para-
digmas que condicionam seus respectivos modos de pensar; em seguida, do efeito
das influncias polticas sobre as teses dos cientistas; enfim, da inexatido tocante
s informaes colocadas ao dispor de muitos estudiosos. A ttulo de exemplo,
lembraremos as opinies de alguns eminentes cientistas sobre esse tema.
    Em sua anlise sobre as origens histricas da ordem econmica internacional,
o economista negro W. A. Lewis, agraciado com o prmio Nobel por seus tra-
balhos, afirma que "teria sido mnima a contribuio do Terceiro Mundo para a
Revoluo Industrial da primeira metade do sculo XIX3". Na perspectiva inversa,
ou seja, relativamente aos efeitos da evoluo da economia internacional sobre
as economias do Terceiro Mundo, Bill Warren declara: "Nada comprova que um
processo qualquer de subdesenvolvimento tenha ocorrido nos tempos modernos,
em particular desde que o Ocidente se imps frente aos outros continentes.


2    Relata-se que um monge romano, ao ver um dia uma criana inglesa vendida no mercado de Roma, ficou
     entristecido ao saber que os ingleses no eram cristos. Mais tarde, esse monge, que se tornou papa sob
     o nome de Gregrio o Grande, ordenou que, em 596, um grupo de monges fosse evangelizar o povo
     ingls. Ver T. Cains, 1971, p. 50.
3    W. A. Lewis, 1978, p. 6.
A frica na histria do mundo                                                   93



Antes, os fatos tenderiam a fortalecer uma tese oposta, a saber, que um processo
de desenvolvimento interveio, ao menos desde a revoluo industrial inglesa, de
forma acelerada, comparativamente a todos os perodos anteriores, cujas origens
encontram-se diretamente ligadas  influncia do Ocidente [...]4".
    Por sua vez, em uma perspectiva poltica, P. T. Bauer, especialista em economia
do desenvolvimento, declarou: "Ao aceitar as eternas acusaes que o identificam
formalmente como o responsvel pela pobreza do Terceiro Mundo, o Ocidente
apenas expressou e cultivou seu sentimento de culpa. Eis o que enfraqueceu a
diplomacia ocidental, tanto junto ao bloco sovitico, muito mais ofensivo no plano
ideolgico, quanto no Terceiro Mundo. Dessa forma, o Ocidente veio a se rebaixar
perante pases com insignificantes recursos e sem verdadeiro poder. Porm, pode-
-se comprovar que essas alegaes carecem de fundamento. Elas s so aceitas
sem discusso porque o pblico ocidental no conhece concretamente o Terceiro
Mundo e, tambm, em razo de um sentimento de culpa bastante difundido. O
Ocidente nunca se deu to bem, ao passo que nunca se sentiu to mal5".
    Tais opinies, sob hiptese alguma majoritrias, encontram-se, contudo, na
obra de vrios autores estudiosos do tema. Podem-se destacar, em cada uma des-
sas opinies, traos dos trs fatores acima mencionados, mas  particularmente
notvel constatar que nenhuma delas leve em considerao o trfico transatln-
tico de escravos africanos. Tal omisso, bastante freqente nos estudos sobre as
origens histricas da ordem econmica mundial contempornea, talvez se deva
ao fato dos historiadores do trfico de escravos africanos no terem encarado
seus efeitos em escala mundial.
    Neste captulo, tentaremos analisar as consequncias do trfico negreiro no
contexto evolutivo da ordem econmica mundial, a partir do sculo XVI, com o
objetivo de melhor compreender as questes econmicas internacionais de nossa
poca. Pode-se definir a ordem econmica como um sistema singular de relaes
econmicas, englobando vrios pases aos quais tal ordem, simultaneamente,
atribui funes e concede recompensas, atravs de mecanismos prprios a uma
rede de trocas comerciais. Em seus diferentes pases membros ou sub-regies,
o desenvolvimento desse conjunto de relaes econmicas internacionais gera
uma evoluo nas estruturas econmicas, sociais e polticas, permitindo a esse
sistema continuar funcionando unicamente pelo jogo das foras de mercado. Ao
alcanar este ponto, o sistema no pode mais sofrer importantes modificaes,


4   B. Warren, 1980, p. 113.
5   P. T. Bauer, 1981, p. 66.
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                                                                                                  Liverpool                                    0!   3 000 km
                                                                                                    Bristol           Londres


                                                                    ste                                               Nantes
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        Produtos              R um                                                             Lisboa
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                                        Marfi




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                  ANTILHAS OU CARIBE
                                                               to
                                                           Ven

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                                                                      d
                                                                Es eira para                                                                               Equador
                                                                  cra        obras
                                                                     vo
                                                                        s
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                                                                                  es                                   Esclaves
                                                      Bahia                     av        c
                                                                                       ba                               Ve
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                                                                                    Ta                                     nt
                                                                                                                              o   s




                                                                                                                                                                     frica do sculo xvi ao xviii
                                       Rio de Janeiro



                                                                                                                              ud
                                                                                                                                es
                                                                                              Tabac


                                                                                                                                  te




                                                                                                                                         ves
                                                                                                                                        c la
                                                                                                                                       Es
                                                                                                 Vento oe
                                                                                                          ste


Figura 4.1 O comrcio atlntico no sculo XVIII e no incio do sculo XIX. Fonte: segundo A. G. Hopkins, 1973. Mapa reproduzido com a amvel autorizao
do Longman Group UK Ltd.
A frica na histria do mundo                                                     95



seno por uma interveno poltica deliberada, eventualmente ocasionada por
mudana de regime, em um ou mais pases que o compem.
    Partimos, aqui, da ideia segundo a qual uma primeira ordem econmica,
atribuidora de coeso a grande parte do mundo e composta por vrias regies 
Europa Ocidental, Amrica do Norte, Amrica Latina, Antilhas e frica  apa-
receu no sculo XIX, na zona do Atlntico. A Europa Ocidental e, mais tarde, a
Amrica do Norte formaram o centro dessa ordem, ao passo que a periferia era
constituda pela Amrica Latina, pelas Antilhas e pela frica. Tal configurao
traou o perfil das estruturas econmicas, sociais e polticas dessa ordem. A
extenso, nos sculos XIX e XX, da ordem econmica atlntica  sia e ao resto
da Europa resultou na ordem econmica mundial moderna que, desde ento, s
sofreu mudanas, por assim dizer, de pequena envergadura. Vale observar que,
mesmo no mbito da ordem ampliada, a posio central ou perifrica das regies
que a compem permaneceu inalterada, comparativamente ao sculo XIX. A
evoluo dos sculos XIX e XX somente acrescentou um ou dois novos territ-
rios aos dois centros, enquanto a periferia se estendeu consideravelmente.
    Nesse captulo, tentaremos, sobretudo, demonstrar que o trfico de escravos
da frica teria sido um fator primordial para o advento da ordem econmica
atlntica do sculo XIX. No desenvolvimento desse argumento, buscaremos, por
um lado, evidenciar o papel desse trfico e da escravido praticada na Amrica,
no quadro da transformao capitalista da Amrica do Norte e da Europa Oci-
dental (particularmente da Gr-Bretanha), alm de, por outro lado, ressaltar a
influncia desses mesmos fatores no surgimento de estruturas de dependncia
na Amrica Latina, no Caribe e na frica, por volta de meados do sculo XIX.
Por falta de espao e em razo da extenso da zona considerada, no ser possvel
entrar em detalhes na questo das sub-regies. Portanto, a anlise centrar-se-
essencialmente sobre os grandes problemas gerais.


    Metodologia
    Quando se trata de estudar a sociedade, defrontamo-nos com uma questo
capital, prejudicial  comunicao entre especialistas e eventualmente geradora de
violentas divergncias, a saber, a questo relativa  definio dos quadros de refe-
rncia conceituais, diferentes em funo de cada pesquisador e criadores de uma
perspectiva distinta no tocante s mesmas realidades sociais. Eis o que explica, em
grande parte, as controvrsias em que se perdem as discusses sobre o subdesen-
volvimento e a dependncia e das quais encontram-se indcios nas opinies acima
96                                                             frica do sculo xvi ao xviii



citadas. Na base dessas divergncias, destaca-se a questo de saber se  conveniente,
ou no, para as necessidades de anlise, considerar as mudanas sociais como um
conjunto. Na prtica, a atitude dos pesquisadores a esse respeito parece depender,
para muitos dentre eles, do arcabouo conceitual colocado  sua disposio. Por um
lado, aplica-se uma viso indiferenciada sobre todas as mudanas sociais, conside-
radas como fontes de desenvolvimento econmico e social. Por outro lado, particu-
larmente junto aos tericos do subdesenvolvimento e da dependncia, as mudanas
sociais diferenciam-se, entre si, em funo dos caminhos por elas tomados, um
deles levando ao desenvolvimento econmico e, o outro, ao subdesenvolvimento
e  dependncia. Todavia, em ambos os casos, tratam-se de mudanas e podem,
portanto, servir de estudos em uma perspectiva histrica.
    No que diz respeito aos processos histricos que levaram ao estado atual das
economias nacionais do mundo, a viso indiferenciada sobre a mudana social
revela-se incapaz de oferecer uma explicao satisfatria. Todas as sociedades
sofreram mudanas ao longo dos sculos. Se qualquer mudana social levasse,
afinal de contas, ao desenvolvimento econmico, a maioria das economias do
mundo deveria estar agora desenvolvida. Ora, segundo todas as definies
reconhecidas do "desenvolvimento econmico", apenas algumas delas podem
atualmente ser consideradas consolidadas. Em sua grande maioria, essas socie-
dades ainda se encontram em uma situao a partir da qual somente podem
desenvolver-se, um dia, atravs de medidas absolutamente drsticas, tais como
aquelas tomadas pela Rssia stalinista ou pela China. Por conseguinte, ao longo
dos sculos, as mudanas sociais que conduziram essas sociedades  sua atual
situao representam um fenmeno diferente daqueles referentes  processos
de desenvolvimento. Trata-se de um processo histrico que, segundo alguns
analistas, possui caractersticas de um processo de subdesenvolvimento e de
dependncia, que podem ser distinguidas do processo de desenvolvimento.
    Examinemos de perto a abordagem dos tericos do subdesenvolvimento e da
dependncia. A mudana social esta na base da estruturao social e poltica. Uma
certa combinao das estruturas econmicas, sociais e polticas favorece o desen-
volvimento econmico, mas outros pelo contrrio constituem obstculos. Os pro-
cessos de mudana social que engendram estruturas favorveis ao desenvolvimento
devem ser vistos como processos de desenvolvimento, ao passo que os outros
seriam os geradores de estruturas que constituem, de forma definitiva, entraves a
esse mesmo desenvolvimento. Esses obstculos, unicamente superveis mediante
intervenes polticas rigorosas, devem ser considerados como processos de sub-
desenvolvimento e de dependncia. Portanto,  possvel distinguir, analiticamente,
trs tipos de economias: no desenvolvida, desenvolvida e subdesenvolvida.
A frica na histria do mundo                                                                                   97



    Para o entendimento da anlise a seguir,  preciso definir esses trs termos.
Por economia desenvolvida, entende-se uma economia que possui slidas liga-
es internas, estruturais e setoriais, apoiando-se em uma tcnica evoluda e
em estruturas sociopolticas as quais permitem um crescimento autnomo6. A
expresso "economia subdesenvolvida e dependente" significa, por sua vez, uma
economia privada de articulaes estruturais e setoriais, em funo da existncia
de certas estruturas internas, herdadas de relaes internacionais anteriores cuja
natureza torna extremamente difcil, seno impossvel, a implementao de uma
tcnica evoluda e de slidas ligaes internas, setoriais e estruturais, gerando
assim uma situao na qual a expanso ou a contrao da economia depende
inteiramente do exterior7.
    Por fim, a economia no desenvolvida  aquela que no possui, nem as estru-
turas do desenvolvimento, nem tampouco aquelas do subdesenvolvimento e que
permanece, portanto, livre para facilmente tomar tal ou qual direo, em funo
do tipo de oportunidade apresentada8.
    Para entender os efeitos globais do processo de criao da economia interna-
cional,  necessrio atenciosamente estudar, nas diferentes economias em ques-
to, o tipo de estruturas econmicas, sociais e polticas geradas por esse processo.
Em seguida, poder-se- determinar quais dentre essas estruturas correspondem
ao desenvolvimento, ou em contrrio, ao subdesenvolvimento e  dependn-
cia. Para isso,  particularmente til recorrer a uma importante hiptese dos
tericos do subdesenvolvimento e da dependncia, segundo a qual, na poca


6   Por ligaes estruturais, entendemos aquelas que existem, no interior de um setor mineiro e industrial,
    entre a extrao mineira, a indstria de bens de equipamento e a indstria de bens de consumo. Por
    ligaes setoriais, referimo-nos a ligaes entre o setor industrial e mineiro, a agricultura, os transportes e
    o comrcio. Para que uma economia possa ser qualificada como desenvolvida,  preciso que os diferentes
    ramos da indstria estejam plenamente desenvolvidos e ligados entre si e que todos os setores da eco-
    nomia estejam solidamente integrados. Trata-se do nico meio para manter um crescimento autnomo
    e eliminar a dependncia.
7   Deve-se distinguir a situao de dependncia total em relao ao exterior daquela de interdependncia
    entre as economias pertencentes ao sistema de comrcio mundial. Como afirma T. dos Santos (1973 p.
    76): "Uma relao de interdependncia entre duas ou vrias economias, ou entre essas economias e o
    sistema comercial mundial, torna-se uma relao de dependncia quando alguns pases podem impulsio-
    nar de forma autnoma a sua expanso, enquanto outros, encontrando-se em situao de dependncia,
    apenas podem garantir a sua atravs daquela dos pases dominantes [...]."
8   No se deve confundir esse tipo de economia com as economias subdesenvolvidas. B. Warren (1980, p.
    169) est certamente enganado ao afirmar que "no  necessrio abandonar a ideia segundo a qual o
    subdesenvolvimento consiste na ausncia de desenvolvimento, medido em termos de pobreza em rela-
    o aos pases capitalistas evoludos". Ainda em uma perspectiva literria, o termo subdesenvolvimento
    somente adquire seu pleno sentido quando designa um processo de transformao capitalista bloqueado
    e, conseqentemente, inacabado. Essa situao no pode ser assimilada ao estado de atraso natural sub-
    jacente  noo de no-desenvolvimento.
98                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



mercantilista9, a transformao capitalista, nos pases que formariam os ndulos
centrais da economia mundial em formao, produziu, simultaneamente, uma
consolidao e um novo prolongamento das formaes sociais pr-capitalistas,
nos territrios convocados a formarem a periferia10.
   Se isto fosse verdade, o desenvolvimento dos pases nas zonas centrais teria
produzido simultaneamente as estruturas de dependncia e subdesenvolvimento
na periferia. O presente captulo organiza-se em torno desta hiptese para
confront-la aos fatos histricos.


     A amplitude do trfico dos escravos africanos
    No  possvel avaliar, com exatido, o papel histrico mundial do trfico de
escravos da frica, seno atravs de uma estimativa, a mais prxima possvel
da realidade, do volume desse comrcio ao longo dos sculos. A esse respeito,
considerveis progressos foram feitos, a partir de estimativas publicadas em
1969, por P. D. Curtin11, na avaliao de sua parte mais importante, isto , o
trfico transatlntico. Desde ento, outros especialistas publicaram resultados de
pesquisas detalhadas, apoiando-se em diferentes elementos de tais estimativas.
A tabela 4.1 oferece uma comparao dessas estimativas com aquelas de Curtin,
para os componentes correspondentes12.
    Essa tabela permite igualmente constatar que todos os resultados das pesqui-
sas efetuadas, desde 1976, tendem a comprovar a subestimao dos nmeros de
Curtin. Grande parte do trfico transatlntico de escravos ainda no foi deta-
lhadamente estudada. As pesquisas dedicadas, por David Eltis, s importaes
brasileiras de escravos, entre 1821 e 1843, mereceriam ser estendidas aos scu-
los XVI, XVII e XVIII. O volume das exportaes de escravos realizadas pela
Gr-Bretanha, nos sculos XVI e XVII, ainda no foi alvo de uma contagem
minuciosa. O mesmo verifica-se no tocante a vrias outras partes do trfico.


9    O perodo 1500-1800  habitualmente considerado como a era do mercantilismo, marcada essen-
     cialmente pela luta, entre pases da Europa Ocidental, pela dominao, em seu exclusivo proveito, do
     comrcio mundial, ento em plena expanso.
10   Segundo a anlise de Marx, as formaes sociais pr-capitalistas so constitudas pelo modo de produo
     comunista primitivo, pelo modo de produo antigo, pelo modo de produo baseado no escravismo e
     pelo modo de produo feudal. Existem algumas outras variantes dos modos de produo pr-capitalistas.
     Para uma anlise til dos problemas colocados pelas formaes sociais pr-capitalistas, ver J. G. Taylor,
     1979.
11 P. D. Curtin, 1969.
12   J. E. Inikori, 1976; P. D. Curtin, R. Anstey e J. E. Inikori, 1976.
A frica na histria do mundo                                                                                 99



                                               Nmero             Nmero estimado
                        Componente                                                           Porcentagem
        Autor                                estimado de         por Curtin sobre o
                         estimado                                                            de diferena
                                               escravos          mesmo componente
                        Exportaes
                         britnicas
     J. E. Inikori                             3699572                  2 480 000a                 49.2
                         da frica
                        1701-1808
                        Importaes
                         espanholas
 C. A. Palmer                                   73 000                  51 3000b                   42.3
                         de escravos
                          1521-95
                        Importaes
                         espanholas
  E. Vila Vilar                                268 664                  132 600c                  102.6
                         de escravos
                         1595-1640
                        Importaes
                         espanholas
  L.B. Rout Jr.                               1 500 000                 925 100d                   62.1
                         de escravos
                         1500-1810
                        Exportaes
                       transatlnticas
 D. Eltis 1977                                1 485 000                 1 104 950f                 34.4
                         de escravos
                          1821-43
                        Importaes
                         brasileiras
 D. Eltis 1979                                 829 100                  637 000e                     30
                         de escravos
                          1821-43
                        Exportaes
                       transatlnticas
 D. Eltis 1981                                 634 700                  539 384g                   17.7
                         de escravos
                          1844-67
                        Exportaes
                         francesas
      R. Stein                                1 140 257                 939 100h                   21.4
                        de escravos
                        1713-92/3
 a      J. E. Inikori, 1976; P. D. Curtin, 1969, tabela 41, p. 142.
 b      J. E. Inikori, 1976; P. D. Curtin, 1969, tabela 5, p. 25.
 c      P. D. Curtin, 1969, tabela 5, p. 25.
 d      P. D. Curtin, 1969, tabela 77, p. 268.
 e      P. D. Curtin, 1969, tabela 67, (p. 234) e tabela 80 (p. 280).
 f      P. D. Curtin, 1969, tabela 67, (p. 234) e tabela 80 (p. 280).
 g      P. D. Curtin, 1969, tabela 67, (p. 234) e tabela 80 (p. 280).
 h      P. D. Curtin, 1969, tabela 49, p. 170.
 Fontes: J. E. Inikori, 1976; C.A. Palmer, 1976, PP. 2-28; E. Vila Vilar, 1977b, PP.206-9; L. B. Rout Jr, 1976;
 D. Eltis, 1977, 1979, 1981; R.Stein, 1978; P. D. Cutin, 1969.
Tabela 4.1       Estimativa do volume do trfico transatlntico de escravos, realizada desde 1976.
100                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



Quando essas pesquisas consumarem-se, poderemos dispor de nmeros globais
inteiramente sustentados pelos trabalhos de especialistas. Todavia, as estimativas
resultantes das pesquisas realizadas, desde 1976, fazem nitidamente aparecer
uma configurao que nos permite inferir, razoavelmente, estatsticas para o
conjunto desse comrcio. A respeito dessas estimativas, importa destacar sua
abrangncia sobre todos os sculos nos quais o volume do trfico fora relevante.
Portanto, as mais substanciais revises para cima a serem feitas, a respeito das
estimativas de Curtin, devem referir-se, sobretudo, aos sculos XVI e XVII,
pocas para as quais estudos mais detalhados ainda so necessrios.
    Em funo da amplitude e da distribuio das correes que se impuseram,
aps as pesquisas realizadas a partir de 1976, uma reviso de aproximadamente
40% para cima, nos nmeros globais de Curtin, levaria a um nvel razoavel-
mente prximo do real volume do trfico transatlntico. O total, da ordem de
11 milhes de escravos exportados, ao qual chegaram as estimativas de Curtin,
passaria assim a 15.400.00013.
    No que diz respeito ao trfico pelo Saara, pelo Mar Vermelho e pelo Oce-
ano ndico, as estimativas disponveis no so to confiveis, pois se baseiam
em um conjunto de dados menos fidedignos, com exceo, todavia, daquelas de
Raymond Mauny14 e Ralph Austen15. Mauny contabiliza 10 milhes de escravos
para o perodo 1400-1900 e Austen chega a um total de 6.856.000 para o per-
odo 1500-1890, ou seja, 3.956.000 para o trfico transaariano e 2.900.00 para o
trfico do Oceano ndico e do Mar Vermelho. Em seu conjunto, as estimativas
de Austen aparentemente sustentam-se em bases mais confiveis e devem, con-
seqentemente, gozar da preferncia ante quelas de Mauny. Assim, em termos
gerais, chegamos a aproximadamente 22 milhes de indivduos exportados da
frica negra em direo ao resto do mundo, entre 1500 e 1890.

13    Paul Lovejoy deu uma interpretao, no mnimo surpreendente, dos resultados dessas pesquisas. Ao
      invs de examinar a configurao das revises provenientes de tais pesquisas e de proceder por infern-
      cia estatstica, ele retm delas um conjunto discutvel de nmeros, mistura-os aos nmeros de Curtin
      no revisados (que constituem uma importante proporo do total) e chega ao que ele denomina uma
      "nova estimativa". Segundo ele, essa nova estimativa confirma a exatido das primeiras estimativas de
      Curtin. Ver P. E. Lovejoy, 1982. Alm dos erros de apreciao de sua seleo, o fato mais curioso de sua
      "estimativa" consiste no emprego dos nmeros de Curtin para confirmar a exatido de seus prprios
      ndices. Isso  ainda mais curioso se considerarmos as pesquisas realizadas a partir de 1976, as quais
      demonstram que, sem dvida alguma, os nmeros propostos por Curtin, para o perodo anterior a 1700,
      so aqueles merecedores das mais importantes revises para cima. Ora, eles tambm so os mais usados
      por Lovejoy. Em minha opinio, seu mtodo no  recomendvel. Se formos obrigados a usar nmeros
      globais em nossos diversos trabalhos, antes das pesquisas necessrias serem levadas a cabo, o melhor 
      recorrer  inferncia estatstica com base em resultados de pesquisas mais recentes.
14    R. Mauny, 1971.
15    R. A. Austen, 1979.
A frica na histria do mundo                                                                         101



     A transformao capitalista da Europa Ocidental e da
     Amrica do Norte  poca da escravido e do trfico
     de escravos
    No momento do desembarque de Cristvo Colombo nas Antilhas, em
1492, as economias da Europa Ocidental eram, por definio, subdesenvolvidas.
A agricultura de subsistncia e o trabalho artesanal independente permaneciam
as atividades econmicas dominantes, isso em razo da proporo da populao
ativa nelas envolvida. As atividades manufatureiras faziam parte, ainda integral-
mente, da agricultura e, apenas parcialmente, ocupavam uma mo de obra agr-
cola consumidora direta da maior parte de sua produo. As estruturas sociais e
polticas faziam com que a distribuio do produto social se encontrasse ainda
regida por mecanismos de coero extraeconmicos.
    Contudo, durante trs ou quatro sculos, antes da chegada de Colombo ao
Novo Mundo, a Europa Ocidental passou por algumas importantes mudanas
estruturais. Na Idade Mdia, o crescimento da populao e sua redistribuio
regional estimularam consideravelmente o comrcio inter-regional e interna-
cional. Conseqentemente, tais fatores tambm permitiram importantes trans-
formaes institucionais em certo nmero de pases16. Durante esse perodo,
a produo voltada para os mercados interno e externo dos pases da Europa
Ocidental cresceu, enquanto a produo de subsistncia comeava a declinar.
Inovaes importantes foram introduzidas na organizao das terras e do tra-
balho, de tal forma a racionalizar o seu uso e, mais especificamente, o direito de
propriedade fundiria. Tais mudanas acompanharam-se de certa evoluo nas
estruturas sociais. Todos esses novos eventos, ocorridos entre o fim da Idade
Mdia e 1492, contriburam amplamente para permitir s economias da Europa
Ocidental gozar das possibilidades ofertadas pelo advento do sistema atlntico,
aps o desembarque de Colombo nas Amricas.
    Nitidamente, todas as economias da Europa Ocidental participaram das
mudanas ocorridas a partir do fim da Idade Mdia, porm, de forma bem diferente
segundo os pases. Foi a Inglaterra que, graas ao comrcio da l e  expanso demo-
grfica, sofreu as mais notveis mudanas observadas durante esse perodo17.


16   Para uma estimulante discusso sobre estas mudanas ver D. C. North e R. P. Thomas, 1970 e 1973; D.
     C. North, 1981; R. S. Lopez, 1976; D. B. Grigg, 1980. No podemos esquecer o debate aberto sobre o
     tema por R. Brenner, 1976; J. P. Cooper, 1978; M. M. Postan e J. Hatcher, 1978; P. Croot e D. Parker,
     1978; H. Wunder, 1978; E. Le Roy Ladurie, 1978; G. Bois, 1978; R. Brenner, 1982.
17   J. E. Inikori, 1984.
102                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Em resumo, se quisermos melhor entender o ocorrido entre os sculos XVI
e XIX, existem dois elementos a serem destacados quanto  evoluo da Europa
Ocidental ao longo dos sculos anteriores ao advento do sistema atlntico.
Por um lado, a comercializao de produtos oriundos da atividade econmica
alastrou-se por toda Europa Ocidental, consolidando assim as leis de mercado
 o que explica a facilidade com a qual as influncias foram absorvidas, direta
e indiretamente, por todos os sistemas econmicos da regio. Por outro lado,
muito sensveis de um pas a outro, os diferentes nveis das mudanas institucio-
nais desse perodo estavam ligados a novas diferenas, relativas s possibilidades
de acesso s perspectivas oferecidas pelo sistema atlntico, ao longo dos sculos
seguintes. Isso explica a desigualdade nos ritmos de transformao capitalista
nos pases da Europa Ocidental, entre os sculos XVI e XIX.
    Para analisar o impacto do nascente sistema atlntico sobre as economias
da Europa Ocidental, convm distinguir dois perodos: de 1500 a 1650 e de
1650 a 1820.
    Durante o primeiro perodo, as economias e as sociedades da regio atlntica
ainda no possuam as estruturas necessrias para que as foras presentes no
mercado assumissem totalmente o funcionamento de um sistema econmico
nico, capaz de dividir funes e lucros entre seus membros. Conseqentemente,
a Europa Ocidental usou sua superioridade militar para adquirir o domnio
sobre os recursos de outras economias e sociedades da regio. Em razo disso,
o processo de transformao da Europa Ocidental, iniciado antes de Colombo,
prosseguiu mais tarde, aproximadamente segundo o mesmo modelo, ou seja, a
maioria das trocas internacionais de mercadorias ocorria dentro da Europa, pois
que as riquezas do resto da zona atlntica no custavam nada, ou quase nada, 
Europa Ocidental.
     poca, sobretudo o ouro e a prata vieram a inundar a Europa Ocidental.
Provinham principalmente das colnias da Amrica espanhola, pois o comrcio
do ouro no oeste-africano enfraquecera-se  medida que o trfico de escravos
e a escravido se ampliavam. Uma vez trazidos  Espanha, a prata e o ouro do
Novo Mundo eram distribudos por toda Europa Ocidental (as quantidades
importadas entre 1503 e 1650 figuram na tabela 4.2).
   A colocao em circulao do metal precioso como moeda de troca ace-
lerou o processo de comercializao nas atividades econmicas da zona.  a
interao entre o rpido aumento desse fluxo financeiro e a expanso demo-
grfica contempornea que produziu o fenmeno conhecido, na histria euro-
pia, sob o nome de revoluo dos preos no sculo XVI. As condies assim
criadas desempenhariam um papel particularmente importante no advento
A frica na histria do mundo                                                                      103



              Perodo                           Prata (oz)                      Ouro (oz)
              1503-10                                                            175 133
              1511-20                                                            322 859
              1521-30                             5 256                          172 453
              1531-40                           3 040 373                        510 268
              1541-50                           6 263 639                        880 323
              1551-60                           10 692 168                      1 503 361
              1561-70                           33 258 031                       406 740
              1571-80                           39 456 766                       332 595
              1581-90                           74 181 368                       426 881
             1591-1600                          95 507 751                       686 107
              1601-10                           78 082 734                       414 959
              1611-20                           77 328 761                       312 383
              1621-30                           75 673 829                       137 214
              1631-40                           49 268 753                        43 739
              1641-30                           37 264 124                        54 639
 Fonte: C. M. Cipolla, 1976, p. 210, baseado em E. J. Hamilton, 1934, p. 42.
 Nota A extenso do contrabando era tamanha que os nmeros oficiais somente podem dar uma indicao
 da magnitude das importaes
Tabela 4.2    Quantidade de ouro e prata importados para a Espanha  partir das Amricas, 1503 a 1650.




da agricultura capitalista na Europa Ocidental e, mais especificamente, na
Inglaterra18.
    A importao do metal precioso americano tambm influiu no forte aumento
das trocas internacionais na prpria Europa. Os espanhis e seus navios eram os
nicos legalmente autorizados a transportar mercadorias com destino  Amrica
espanhola ou dela provenientes. Cdiz e Sevilha constituam os dois nicos
portos do continente onde era possvel embarcar e desembarcar. Alm disso,
as colnias espanholas da Amrica no usufruam do direito de produzir seus
prprios produtos manufaturados. Todavia, suas riquezas minerais tornaram a
classe dominante espanhola dependente de diversas importaes de outros pa-
ses europeus, com vistas a satisfazer as necessidades dos espanhis na Espanha e
na Amrica espanhola. As trocas comerciais de Cdiz e Sevilha com a Amrica



18   E. J. Hamilton, 1929; J. D. Gould, 1964.
104                                                          frica do sculo xvi ao xviii



espanhola eram controladas por comerciantes de outros pases europeus, atravs
de todo tipo de acordo secreto19.
    Assim, no sculo XVI, a Espanha tornou-se, na Europa, o centro de um vasto
comrcio internacional, dominado pela Holanda, pela Frana e pela Inglaterra,
permitindo a introduo do metal precioso das Amricas nas grandes economias da
regio, assim como a sustentao do processo de sua transformao. A prata e o ouro
latino-americanos deixavam a Espanha alguns meses aps sua chegada, a ponto de
tornar possvel dizer que "a Espanha ordenhava a vaca e o resto da Europa bebia o
leite20". Esse fenmeno ocorreu durante todo sculo XVII e at o sculo XVIII.
     O segundo perodo (1650-1820)  dominado pela estruturao econmica
e social nos pases da zona atlntica, enquanto o processo de transformao
capitalista da Europa Ocidental torna-se, por sua vez, subordinado ao sistema
atlntico. Objetivando apreciar plenamente o papel desse sistema no desenvol-
vimento econmico da regio  poca,  preciso inseri-lo no contexto da crise
geral que abalou a Europa Ocidental durante o sculo XVII.
    A expanso econmica europia, ligada ao crescimento das importaes de
ouro e de prata das Amricas e  expanso da populao, acompanhou os efeitos
da atenuao de ambos os fatores. As importaes de metal americano, cujo pice
ocorreu entre 1590 e 1600, diminuram, e a expanso demogrfica reduziu-se,
enquanto as sociedades ajustavam seu comportamento s perspectivas econmicas.
Tal situao agravou-se em razo da poltica de nacionalismo econmico, beirando
 guerra comercial, adotada no sculo XVII, por vrios pases da Europa Ocidental,
particularmente pela Frana. Devido s barreiras aduaneiras, impostas pela Frana,
Inglaterra e outros pases, com o intuito de proteger suas indstrias nacionais, a
situao econmica degenerou em crise geral e o comrcio intra-regional desmo-
ronou21. O processo de transformao capitalista interrompeu-se completamente
em alguns pases e a regresso instalou-se em outros. O mais duramente afetado
foi a Itlia que passou da posio de "pas mais urbanizado e industrializado da
Europa, [...] ao estado de tpica zona camponesa atrasada [...]22".
    Nitidamente, a natureza e a origem da crise do sculo XVII indicam que,
para levar a cabo seu processo de transformao capitalista, a Europa Oci-
dental precisava de muito mais oportunidades econmicas comparativamente
ao que o continente podia, em si, oferecer. Assim como o aponta o Professor


19    A. Christelow, 1948; J. O. McLachlan, 1940. 
20    A. Christelow, 1948.
21    R. Davis, 1969, cap. 2 e 3.
22    E. J. Hobsbawn, 1954, p. 36
A frica na histria do mundo                                                                  105




Figura 4.2 Moeda espanhola representando Ferdinando e Isabel, 1474-1504. Grande parte dessas moedas
foi colocada em circulao.  M. Holford.




Hobsbawn, "a crise do sculo XVII no se pode explicar por insuficincias
meramente tcnicas e organizacionais frente s exigncias da revoluo indus-
trial23". Tampouco se pode explicar pela carncia de capitais. "Os italianos do
sculo XVI, prossegue Hobsbawn, tinham provavelmente em mos as maiores
concentraes de capitais europeus, mas eles no souberam, manifestadamente,
investi-los. Imobilizaram-nos em prdios, e dilapidaram-nos em emprstimos
no estrangeiro [...]." Mas, os italianos tinham um comportamento racional: "Se
eles gastaram maciamente seus capitais de forma no produtiva, isso aconteceu,
talvez, simplesmente porque no era mais possvel lanarem-se em investimen-
tos progressivos dentro desse `setor capitalista'. Os holandeses do sculo XVII


23   Ibid., p. 42.
106                                                            frica do sculo xvi ao xviii



remediaram um similar congestionamento financeiro, investindo em objetos de
valor e obras de arte...24".
   Dessa forma, a explicao da crise reside na falta de possibilidades econ-
micas na Europa Ocidental e, portanto, se essa regio permaneceu dependente
de suas prprias possibilidades econmicas, contudo, suas chances de passar por
uma transformao capitalista completa foram quase inexistentes.
   Entre 1650 e 1820, as mudanas ocorridas na estruturao econmica e
social das regies extraeuropias da zona atlntica ofereceram tanto imen-
sas possibilidades quanto desafios a serem enfrentados. Assim, elas transfor-
maram completamente a paisagem econmica da Europa Ocidental em seu
conjunto e, ainda mais, aquela dos pases melhor posicionados para usufruir
dessas ocasies. No Novo Mundo, a produo de metais preciosos continuou a
desempenhar um papel importante, particularmente por ocasio da entrada do
Brasil, no sculo XVIII, em sua fase de grande produo, mas, nesse momento,
o elemento capital da estruturao econmica e social dos pases da regio
foi o considervel impulso dado  agricultura de plantao. No continente
norte-americano, tratava-se principalmente de tabaco e algodo, enquanto na
Amrica Latina e nas Antilhas reinava o acar. Em razo da amplitude das
operaes, a lgica da nova economia requeria um repovoamento completo
do Novo Mundo.
   Um comrcio muito ativo organizou-se em torno do transporte martimo de
mercadorias da frica e das Amricas: os escravos africanos partiam rumo s
Amricas, enquanto os produtos agrcolas e metais preciosos eram enviados das
Amricas rumo  Europa Ocidental. A ttulo de exemplo, as quantidades de acar
legalmente importadas das Amricas pela Europa Ocidental atingiram, no mnimo,
151.658 toneladas por ano, em 1740-1750, e 193.005 toneladas em 1760-177025.
Em razo das restries impostas pelos pases colonizadores da Europa Ocidental
sobre os fluxos de mercadorias na entrada e na sada de suas colnias, a distribuio
dos seus produtos americanos, na Europa, tornou-se um fator primordial para o
crescimento das trocas intraeuropias nos sculos XVII e XVIII26. A Inglaterra, a
Frana e a Holanda constituram os principais beneficirios dessa evoluo. No caso
da Inglaterra, o valor oficial desse comrcio exterior (importaes e exportaes)
passou, em mdia, nos anos 1663-1669, de 8,5 milhes de libras por ano para 28,4



24    Ibid., pp. 42-43.
25    R. Sheridan, 1970, tabela I, p. 22.
26    R. Davis, 1967 e 1969, cap. 2 e 3.
A frica na histria do mundo                                                                           107



milhes, nos anos 1772-1774, e para 55,7 milhes nos anos 1797-179827. Essas
mudanas ocorreram, quase unicamente ou diretamente, graas  expanso do
sistema atlntico. O mesmo verifica-se com a Frana e a Holanda. Em relao 
Inglaterra, as reexportaes dos produtos do Novo Mundo atingem 37,1% do total
de suas exportaes, entre 1772 e 1774, e no tocante  Frana, alcanam 33,2%
em 178728. No  fortuito que um especialista francs em histria econmica
possa assim ter afirmado: "O sculo XVIII pode realmente ser entendido como
a fase atlntica do desenvolvimento econmico europeu. O comrcio exterior e,
particularmente, o comrcio com as Amricas representavam o mais dinmico
setor de toda economia (o volume do comrcio colonial da Frana, por exemplo,
foi multiplicado por dez entre 1716 e 1787), excetuando-se a demanda ultrama-
rina que estimulava o crescimento de um vasto leque de indstrias, assim como
o desenvolvimento de maiores especializao e diviso do trabalho. Em funo
da superioridade do transporte martimo sobre os transportes terrestres, a econo-
mia europia do sculo XVIII era organizada em torno de alguns grandes portos
martimos, dos quais os mais prsperos eram aqueles que concentravam uma boa
parte do comrcio colonial, tais como Bordus e Nantes; cada um desses portos,
implantado no esturio de um rio, tinha suas prprias indstrias, formando um
entorno industrial para o qual servia como sada comercial29".
    As novas possibilidades econmicas geradas pela expanso no sistema atlntico
levaram  criao de empregos, estimulando assim o crescimento demogrfico em
toda Europa Ocidental, em contraste com a queda constatada no sculo XVII30.
Tais mudanas contriburam fortemente para impulsionar os mercados internos
ingls, francs e holands. Nos sculos XVIII e XIX, esse impulso, acompanhado
pela progresso nas exportaes, deu origem ao aumento da demanda que, por
sua vez, permitiu o advento das invenes e das inovaes tcnicas no curso das
revolues industriais na Europa Ocidental.  assim que a expanso fenomenal
da produo de bens de consumo, das trocas, da atividade financeira e dos trans-


27   No que tange aos anos 1663-1669 e 1772-1774, consultar R. Davis, 1969, pp. 92, 119 e 120; para os anos
     1797-1798, ver P. Deane e W. A. Cole, 1967, tabela 13, p. 44. Os nmeros relativos aos anos 1797-1798
     dizem respeito  Gr-Bretanha, os outros  Inglaterra e ao Pas de Gales. Todos os nmeros abrangem a
     totalidade das importaes e exportaes nacionais, bem como das reexportaes. Os nmeros do sculo
     XVIII so expressos em preos constantes de 1697-1700.
28   P. Kriedte, 1983, tabelas 39 e 40, pp. 124 e 128.
29   F. Crouzet, 1964.
30   Torna-se claro nos dias atuais que o crescimento da populao na Inglaterra do sculo XVIII, explica-se
     pela diminuio da idade de casamento e pelo aumento da nupcialidade. , devidos ao crescimento nas
     possibilidades de emprego. Para mais detalhes, consultar J. E. Inikori, 1984. A anlise apoia-se sobre
     dados apresentados por E. A. Wrigley, 1983, e D. N. Levine, 1977.
108                                                             frica do sculo xvi ao xviii



portes martimos, como ocorrido na zona atlntica entre 1650 e 1820, forneceu
aos pases da Europa Ocidental as possibilidades econmicas necessrias para
superarem a crise do sculo XVII, assim como romperam as estruturas econmicas
e sociais tradicionais levando a cabo o processo de transformao capitalista. O
primeiro pas a consegui-lo foi a Inglaterra. As foras liberadas por esse processo
e os ensinamentos que dele emanaram facilitaram sua concluso nos outros pases
da Europa Ocidental, os quais, direta ou indiretamente, souberam aproveitar as
possibilidades criadas pela expanso do sistema atlntico.
    Nessa mesma poca, a regio do Novo Mundo que em 1783 se tornaria os
Estados Unidos da Amrica, regio esta que, do sculo XVII at 1776, era composta
por territrios coloniais, em razo disso sujeitos a limitaes polticas importantes,
participou tambm sob vrios aspectos importantes para a expanso do sistema
atlntico. Quando Colombo desembarcara nas Amricas, esses territrios eram
certamente os mais afastados, na zona atlntica, de qualquer desenvolvimento eco-
nmico. Sua densidade demogrfica figurava entre as mais baixas do Novo Mundo
e sua organizao econmica e social, comparada quelas das civilizaes antigas da
Amrica do Sul, era quase inexistente. Aps sua ocupao pelo colonos britnicos,
esses territrios permaneceram, quase totalmente e durante dcadas, sob o regime da
economia de subsistncia. Nos sculos XVIII e XIX, a ampliao das possibilidades
de uma produo voltada para a venda estaria diretamente ligada  expanso que o
sistema atlntico sofreu de meados do sculo XVII at o sculo XIX31.
    As tabelas 4.3 e 4.4 permitem-nos medir o grau de participao desses territ-
rios no sistema atlntico, no curso dos anos imediatamente anteriores  Declarao
de Independncia e  formao dos Estados Unidos da Amrica. Em mdia, o valor
anual total do comrcio atlntico na Amrica do Norte britnica encontra, nesse
perodo, um volume da ordem de 8,4 milhes de libras (importaes e exportaes
de mercadorias, mais as exportaes invisveis). Considerando uma populao total
de 2,2 milhes de habitantes em 177032, obtemos, portanto, 3,8 libras por habitante.
A amplitude de sua participao no sistema atlntico no somente estimula o cres-
cimento do mercado interno e a produo de bens destinados a serem trocados no
mercado, como tambm encoraja a especializao, aumenta a renda por habitante
e influi sobre as taxas de migrao rumo a essa regio.
     medida que, sob influncia desse sistema, as colnias britnicas da Amrica
do Norte passam progressivamente de atividades de subsistncia  produo
mercantil, torna-se possvel distinguir trs tipos de regimes econmicos, um no

31    J. F. Shepherd e G. M. Walton, 1972.
32    J. Potter, 1965, tabela 1 (a), p. 638.
A frica na histria do mundo                                                                        109



     Regio                1768           1769             1770             1771             1772
 Gr Bretanha
                      1 658 000        1 852 000        1 818 000         2 113 000       2 135 000
  e Irlanda
     Todas as
                       979 000         1 131 000        1 272 000         1 287 000       1 498 000
     Antilhas
 Sul da Europa
   e Ilhas do          520 000          805 000          741 000           721 000         762 000
 Mediterrneo
      frica              16 000         30 000           25 000           18 000           34 000
     TOTAL            3 173 000        3 818 000        3 856 000         4 139 000       4 429 000
Tabela 4.3 Receitas totais referentes s exportaes de mercadorias e invisveis da Amrica do Norte
britnica entre 1768-1772 (em milhares de libras esterlinas).




     Regio               1768           1769             1770             1771             1772
 Gr Bretanha
                      2 908 000       2 151 000        3 112 000        5 382 000         4 135 000
  e Irlanda
     Todas as
                       524 000         767 000          792 000          676 000           939 000
     Antilhas
 Sul da Europa
   e Ilhas do             81 000        85 000           80 000           69 000           88 000
 Mediterrneo
      frica              56 000       189 000           85 000          104 000           265 000
     TOTAL            3 569 000       3 192 000        4 069 000        6 231 000         5 427 000
 Fonte J. F. Sheperd e G. M. Walton, 1972.
 Nota As exportaes invisveis provinham em grande parte dos transportes martimos
Tabela 4.4 Importaes da Amrica do Norte britnica entre 1768-1772 (em milhares de libras esterlinas).



sul da regio, outro no centro e um ltimo no norte (essencialmente a Nova
Inglaterra). Gozando, simultaneamente, de ricos recursos naturais e de mo de
obra africana barata e servil, as colnias do Sul foram incentivadas a desenvolver
a agricultura de plantao, primeiramente arroz e tabaco, seguidos pelo algodo.
As colnias do Centro, por sua vez, lanaram-se numa agricultura alimentar,
de tipo familiar. As colnias do Norte, relativamente pobres, quanto a elas, em
recursos naturais agrcolas, porm dotadas de portos naturais em gua profunda
e recursos florestais que possibilitavam a construo naval, especializaram-se
rapidamente no comrcio e nos transportes martimos33.

33   D. C. North, 1961.
110                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



    Dessa forma, o Sul produz aproximadamente todos os produtos agrcolas expor-
tados para a Europa, cabendo ao Norte garantir o maior volume no tocante s
exportaes de invisveis  transportes martimos, negcios e seguros, entre outros
 o Centro, por sua vez, fornece produtos alimentcios assim como alguns servios
para a exportao. No Sul, a produo depende de mo de obra servil africana e
tem, na Europa, o principal destino para seus produtos. A expanso do sistema de
plantaes cultivadas por escravos leva, nas Antilhas (britnicas e no britnicas), a
uma reestruturao econmica, instaurando uma diviso do trabalho com a Amrica
do Norte: as Antilhas oferecem dessa forma um vasto mercado para os produtos
alimentcios das colnias do Centro, bem como para os servios (transporte mar-
timo e outros) daquelas do Norte. Portanto, as trs sub-regies da Amrica do Norte
encontram-se ligadas, no plano econmico, ao sistema escravista das Amricas, em
termos, tanto de produo, quanto de comercializao34.
    Essas diversas modalidades de participao no sistema atlntico da poca
colonial engendraram, nessas trs regies, diferentes estruturas econmicas e
sociais. No Centro e no Norte, a produo, cuja renda  dividida de forma assaz
igual, consiste no trabalho livre de mo de obra branca, geralmente propriet-
ria das terras por ela cultivadas. No Sul, verificamos a predominncia de uma
agricultura de plantao, cuja dependncia frente  mo de obra servil africana
deu origem a uma forte proporo de escravos na populao,  constituio do
latifndio, bem como a uma extremamente desigual repartio da renda. Dos
697.000 escravos dos Estados Unidos de 1790, 642.000 estavam nos Estados do
Sul, onde representavam 36% da populao total35. Se, por um lado, no Norte e
no Centro, as estruturas favoreciam o crescimento de um mercado interno base-


34    As colnias do Sul encontravam-se ligadas ao escravismo no que tange  produo, e as do Centro e do
      Norte, por sua vez, ao nvel do mercado, pois eram as plantaes das Antilhas, cultivadas por escravos,
      as criadoras dos mercados para produtos alimentcios e de servios, dos quais dependiam, nessa poca,
      as colnias do Norte e do Centro. As receitas provenientes das principais exportaes de bens e servios,
      abaixo mencionadas (mdia anual para o perodo 1768-1772, em libras esterlinas), fornecem uma ideia da
      estrutura do comrcio de exportao na Amrica do Norte, durante o perodo colonial: tabaco, 766.000;
      transportes martimos, 610.000; po e farinha, 410.000; arroz, 312.000; peixe, 287.000; ndigo, 117.000.
      Em seu conjunto, as seis categorias consideradas representavam, durante o perodo em questo, 64,4%
      das receitas totais de exportao na Amrica do Norte britnica. O tabaco e o arroz eram cultivados,
      pelos escravos de plantaes, nas colnias do Sul, o po e a farinha provinham das exploraes agrcolas
      familiares, nas colnias do Centro e o peixe, assim como os servios de transporte martimo, era fornecido
      em grande parte pelas colnias do Norte (Esses dados foram extrados de J. F. Shepherd e G. M. Walton,
      1972, p. 258). As importaes consistiam, sobretudo, em produtos manufaturados, procedentes princi-
      palmente da Inglaterra, pas este que somente guardava para consumo interno uma pequena poro das
      exportaes das colnias: o tabaco era destinado, quase exclusivamente,  Inglaterra e  Esccia, porm,
      mais da metade das quantidades anuais eram reexportados para a Europa Continental.
35    J. Potter, 1965, tabela 2, p. 641.
A frica na histria do mundo                                                                        111




Figura 4.3    Planta e corte de um navio negreiro europeu.  The Hulton-Deursch Collection, Londres.



ado nos produtos de grande consumo, por outro lado, aquelas do Sul limitavam-
-no, encorajando ao mesmo tempo a importao de produtos estrangeiros de
luxo. Esse quadro indica a razo pela qual as colnias, do Norte e do Centro,
aproveitaram o perodo colonial para lanar as bases de um crescimento econ-
mico autnomo, enquanto o Sul estabelecia as estruturas de sua dependncia.
    Aps alcanar a independncia, a economia dos Estados do Sul permaneceria
dependente dos escravos africanos, a quem deve, integralmente, a fenomenal expan-
so na sua produo de algodo, verificada entre 1790 e 186036. Por conseguinte, as
estruturas econmicas e sociais, da poca colonial, mantiveram-se perenes no Sul
e at mesmo nos novos territrios ocupados, no sculo XIX, pelas plantaes de
algodo. Em 1850, dentre os 8.983.000 habitantes do velho e do novo Sul, 3.117.000
eram escravos, ou seja, uma proporo de 34,7%37. A repartio das terras e da renda
permanecia desigual e as estruturas de dependncia mantinham-se, ainda, slidas.


36   A produo de algodo dos Estados do Sul passou, com efeito, de 4.000 fardos de 500 libras, em 1790,
     para 3.841.416 fardos, em 1860. Entre 1850 e 1860, quase 76,5% desse algodo fora exportado (ver H.
     U. Faulkner, 1924, pp. 201-202).
37   J. Potter, 1965, tabela 11, p. 680.
112                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



   Entretanto, com a chegada da independncia, o governo politicamente
independente dos Estados Unidos da Amrica adotou medidas econmicas
que tornaram os Estados do Sul, pouco a pouco, mais dependentes, j no
mais da Europa Ocidental, mas dos Estados do Norte. Protegidos pelo
governo, armadores e negociantes dos Estados do Nordeste dominaram o
transporte martimo para a Europa, no tocante ao algodo do Sul, e a impor-
tao dos produtos manufaturados europeus, quanto a eles, destinados aos
plantadores do Sul e a seus escravos38. Paralelamente, a expanso da produo
de algodo no Sul abriu um mercado ainda mais importante para os produtos
alimentcios, estimulando assim o crescimento de seu comrcio e o fluxo de
imigrantes rumo aos territrios do Oeste. Tal especializao regional, em
torno das plantaes no Sul e de seus escravos, levou  criao de um vasto
mercado interno, alm de ter impulsionado as indstrias no Nordeste, cuja
produo, incentivada por medidas protecionistas governamentais, entrava
em concorrncia direta com os bens importados. De tal forma que, at
1860, a industrializao dos Estados Unidos dependeu, principalmente, das
plantaes escravistas do Sul: esse pas soube, em momento apropriado e em
prol de sua economia, empregar sua independncia poltica para manipular
as foras em jogo na zona atlntica, apoiando-se em estruturas favorveis,
implantadas durante o perodo colonial nas colnias do Norte e do Centro 39.
As estruturas de dependncia nos estados do Sul desempenharam, nesse
momento, o papel de condio sine qua non para a transformao capitalista
dos Estados do Norte e do Oeste.




38    Um texto datado de 4 de Julho de 1789 autorizou uma reduo de 10% nas taxas de importao, nos Estados
      Unidos, das mercadorias transportadas por navios americanos e pertencentes a americanos. Outro texto, de
      20 de Julho de 1789, impe a tais navios uma taxa de 6 centavos por tonelada de mercadoria, ao passo que
      os navios estrangeiros e construdos no exterior pagavam 30 centavos por tonelada ao atracar nos portos
      americanos. Os dois textos encorajavam a expanso da construo naval e da frota mercante no Nordeste
      dos Estados Unidos. A tonelagem oficial do comrcio exterior passa de 123.893 toneladas, em 1789, para
      981.000 toneladas em 1810. Ao mesmo tempo, as importaes transportadas por navios pertencentes a
      nacionais passam de 17,5 para 93% do total e as exportaes, de 30 para 90%. Em 1862, a tonelagem do
      transporte martimo, registrada a ttulo de comrcio exterior, chegou a 2.496.894 toneladas, cabendo ao Sul
      fornecer cerca de 75% das exportaes nos Estados Unidos, dos quais 60% em algodo e 15% em tabaco,
      arroz e acar refinado (Para consultar todos esses nmeros, ver H. U. Faulkner, 1924, pp. 201, 202, 218,
      219, 228 e 233). A renda, direta e indiretamente, proveniente de exportaes do Sul, assim como os lucros
      dos proprietrios de navios e dos negociantes exportadores e importadores do Nordeste, compem a base
      do processo de industrializao nos Estados Unidos, de 1790 a 1860. Ver D. C. North, 1961.
39    Mais detalhes a respeito da Europa Ocidental e da Amrica do Norte em J. E. Inikori, 1979 e 1981.
A frica na histria do mundo                                                                            113



     O surgimento das estruturas de subdesenvolvimento
     na Amrica Latina e nas Antilhas
    Segundo nossa definio, os pases da Amrica Latina e das Antilhas pos-
suam,  poca da chegada de Colombo na regio, regimes econmicos no
desenvolvidos. Essa ausncia geral de desenvolvimento explica-se por trs fato-
res principais: a populao, a geografia e o isolamento frente ao resto mundo.
    O nmero provvel da populao de todas as Amricas, em 1492,  objeto
de vrias controvrsias: as estimativas vo de 8,5 a 112 milhes de habitantes40.
Segundo as pesquisas da Escola de Berkeley, um nmero total entre 50 e 100
milhes41 seria o mais plausvel. Comparativamente  grandeza do territrio, tal
populao era bastante modesta, mesmo considerando as mais elevadas estimati-
vas. No mais, ela concentrava-se grosso modo em trs zonas: na Amrica central,
onde se encontravam os reinos antigos dos Astecas e dos Maias; no Imprio
Inca, do antigo Peru, e na ilha caribenha Hispaniola, atualmente dividida entre
Haiti e a Repblica Dominicana42. O restante do Novo Mundo encontrava-se
muito pouco povoado: antes da conquista, a densidade demogrfica na Amrica
Latina correspondia, segundo alguns, a nveis inferiores a 10 habitantes por
quilmetro quadrado, no tocante a mais de 90% de sua superfcie43.
    A pequena densidade populacional, em amplas zonas da Amrica pr-
-colombiana, prejudicou o desenvolvimento das trocas e a diviso do traba-
lho. Ademais, o fato de as regies mais povoadas serem afastadas, umas das
outras, e separadas das regies pouco povoadas por densas florestas, montanhas
e vales profundos, o que dificultava as comunicaes, limitando o comrcio
intra-americano. Com efeito, o comrcio martimo poderia ter desempenhado
importante papel se houvesse expandido a fronteira das trocas comerciais,
do litoral para o interior,  imagem do ocorrido na Amrica do Norte dos
sculos XVIII e XIX. Todavia, tal expanso no foi possvel, haja vista que
as Amricas permaneceram, at 1492, isoladas do resto do Mundo. Por essa


40   B. Keen e M. Wasserman, 1980, pp. 30 e 31.
41   Para as estimativas da Escola de Berkeley, consultar W. Borah e S. F. Cook, 1963; ver tambm S. F. Cook
     e W. Borah, 1971-1974. Para uma sntese, ver W. M. Denevan, 1976.
42   A partir de diversos documentos, de origem indgena e espanhola, e atravs de mtodos estatsticos muito
     elaborados, W. Borah e S. F. Cook estimaram a populao do Mxico central pr-conquista entre 18,8
     e 26,3 milhes de habitantes (W. Borah e S. F. Cook, 1967, p. 205). Avaliaram tambm a populao de
     Hispaniola em um total de 7 a 8 milhes de habitantes em 1492 (B. Keen e M. Wasserman, 1980, p.
     30). Todavia, as estimativas desses autores foram criticadas e consideradas demasiado elevadas.
43   A. Morris, 1981, p. 52.
114                                                        frica do sculo xvi ao xviii



razo, suas riquezas naturais no adquiriram valor significativo no mercado,
contribuindo modestamente para o bem-estar da populao e para o incre-
mento das trocas.
    No que tange s antigas civilizaes da Amrica Central e do Sul, pode-se
assim entender como essas sociedades, embora aptas a alcanarem um alto nvel
de desenvolvimento cultural, tenham se mostrado incapazes de atingir o desen-
volvimento no plano econmico. Faltava-lhes um sistema de troca de mercado-
rias com o resto do mundo que lhes permitisse dar um valor econmico a seus
recursos naturais, encorajar o crescimento de sua populao e sua instalao em
novos territrios, estimular as trocas intra-americanas e desencadear o processo
de transformao capitalista.
    Ora, as novas possibilidades comerciais, decorrentes da chegada dos Euro-
peus em 1492, surgiram em condies antes favorveis  criao de estruturas
de subdesenvolvimento, muito mais que de desenvolvimento. Em primeiro lugar,
os pases da Europa Ocidental garantiram, pela fora, seu domnio sobre os
recursos naturais da Amrica Latina e das Antilhas. Humilhada, desmoralizada,
posteriormente pressionada pelo trabalho e dizimada pelas doenas introduzidas
pelos europeus, a populao indgena diminuiu em toda regio  como atesta
perfeitamente, no sculo XVI, o desmoronamento demogrfico do Mxico
central. Estimada entre 18,8 e 26,3 milhes de habitantes, antes da conquista
europia, ela caiu para 6,3 milhes em 1548 e para 1,9 milhes em 1580. Em
1605, no restavam nada alm de 1,1 milho de habitantes44.
    Esse quase extermnio da populao indgena resultou em duas impor-
tantes consequncias. Por um lado, registrada entre os sculos XVI e XIX,
a impressionante expanso na produo de bens destinados ao comrcio
martimo, com a Europa e a Amrica do Norte, somente ocorreu graas 
importao macia de mo de obra servil africana. Por outro lado, as terras
cultivveis da Amrica Latina e das Antilhas passaram para o domnio de
colonos europeus e foram agrupadas em vastos latifndios, denominados
haciendas ou fazendas. Como constataremos mais adiante, esses dois fenme-
nos criaram novas possibilidades comerciais, capazes de estimular a transfor-
mao capitalista na Europa Ocidental e na Amrica do Norte, engendrando
ao mesmo tempo o subdesenvolvimento e a dependncia na Amrica Latina
e nas Antilhas.



44    W. Borah e S. F. Cook, 1967, p. 204.
A frica na histria do mundo                                                                            115




Figura 4.4 Escravos negros trabalhando em uma plantao de caf no Brasil, por volta de 1870.  The
Mary Evans Picture Library.




   A amplitude das importaes contrabandeadas de escravos para a Amrica
espanhola nos sculos XVI e XVII torna quase impossvel quantificar a real
participao da mo de obra escrava africana na extrao de metais preciosos
dessa regio durante esse perodo45. Entretanto, segundo censo realizado pelo

45   Os dados citados por E. Vila Vilar (1977a, pp. 272-273) suscitam indicaes sobre a amplitude do
     contrabando nas importaes: "D. Fernando de Sarria, o Vice-Governador de Cartagena, constatou
     o pagamento de taxas, entre 1616 e 1619, somente no que concerne a 4816 negros, enquanto que, na
     realidade, mais de 6.000 homens entraram em pouco mais de um ano (entre maio de 1619 e 1620). Ele
     afirmava que os navios aportados com 15, 25, 37 e 45 `peas' a bordo transportavam, na verdade, 200,
     300 ou 400 `peas'. O visitador (fiscal) Medina Rosales testemunhou o que seria prtica corriqueira junto
     aos negreiros: no momento de pagar as taxas de entrada, declarava-se muito menos `peas', comparativa-
     mente ao realmente transportado. O fiscal obtivera provas da sonegao: um navio declarando 68 `peas'
     transportava, de fato, 440 delas, outro, declarando 45, tinha na verdade 200 delas a bordo, outro, como
     tais, tendo declarado 65 `peas', desembarcou com 260. Nosso visitador afirmava que, em um perodo de
     um ano, do dia 10 de Junho 1620 ao dia 18 de Julho de 1621, 6443 `peas' de escravos entraram no porto
     de Cartagena. Em 1631, Juan de Orozco, tesoureiro de Santa Marta, escreveu ao Rei, explicando-lhe
     que todos os navios, aportados e carregados de negros, transportavam 400 `peas', enquanto as taxas s
116                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



clero, a populao de origem africana chegaria, em 1796, a 679.842 pessoas
no Mxico e a 539.628 no Peru46. A exatido desses nmeros est, evidente-
mente, sujeita  cauo, mas eles denotam, no mnimo, que a mo de obra servil
cumpria um papel fundamental,  poca colonial, nas economias do Mxico
e do Peru. No Brasil, durante esses dois sculos, so os escravos africanos que
garantem, integralmente, a produo de acar para a exportao. No sculo
XVIII, enquanto a forte expanso no mercado do ouro atraiu vrios negociantes
e capitalistas do setor de minerao, a produo efetiva permaneceu, na prtica,
dependente do trabalho dos escravos. A esse respeito, alis, uma confirmao
 dada pelo perfil da composio tnica da populao brasileira nos sculos
XVIII e XIX. No ano de 1798, em uma populao de 3.250.000 habitantes,
1.998.000 pessoas eram de origem africana, dos quais 1.582.000 eram escravos.
Em 1872, aproximadamente 5,8 milhes de indivduos, em uma populao
total de 9,9 milhes, eram de origem africana, entre eles, 1,5 milhes ainda
eram escravos47. Em outras palavras, a populao de origem africana represen-
tava 61,2% da populao total do Brasil em 1798 e 58% em 1872. A populao
escrava concentrava-se nas regies que forneciam o ouro e os produtos agrcolas
destinados  Europa e  Amrica do Norte. Assim, dentre os 1.566.416 escravos
do Brasil, em 1873, 1.233.210 indivduos, ou seja, 79,2%, dividiam-se em um
conjunto de seis provncias, com a produo voltada para a exportao: Bahia,
Pernambuco, Rio de Janeiro, So Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul48,
a maior concentrao, 351.254 pessoas, se encontravam em Minas Gerais, a
provncia produtora de ouro.
   Nas Antilhas, a predominncia da produo para a exportao, assegurada
por uma mo de obra de origem africana, tem reflexos, aps 1650, na com-
posio tnica da populao. Antes da metade do sculo XVII, as economias
antilhanas estavam centradas na agricultura de subsistncia, sendo nfima a parte
da produo voltada para a exportao. A partir da segunda metade do sculo,
importaes macias de escravos africanos e a expanso da agricultura de planta-
o permitiram um rpido crescimento na produo para a exportao, ao passo
que a produo de subsistncia declinava de forma espetacular. Desse modo, a

      eram pagas para 100; e D. Martin de Saavedra, presidente da audincia de Santo Domingo, certificou
      que, em 1637, um navio negreiro rumo a Cartagena com 150 `peas' registradas a bordo, transportara,
      na realidade, 300 `peas'." Consultar tambm C. A. Palmer, 1976; L. B. Rout, 1976, pp. 61-66.
46 J. E. Inikori, 1976, p. 204.
47 T. W. Merrick e D. H. Graham, 1979, tabela III-2, p. 29. A populao indgena contava 252.000 pessoas,
   em 1798, e 386.955, em 1872, comparativamente a 1.010.000 e 3.787.289 europeus, respectivamente.
48 R. B. Toplin, 1972, apndice, pp. 288-289.
A frica na histria do mundo                                                 117



populao global da ilha de Barbados, da Jamaica e das Ilhas Sob o Vento passou
de 33.000 brancos e 22.500 escravos africanos, em 1660, para 32.000 brancos
e 130.000 escravos africanos em 171349. Em outras palavras, a populao servil
passou de 40,5% da populao total, em 1660, para 80,2% em 1713. Da mesma
forma, nas Antilhas francesas, a populao global da Martinica e de So Domin-
gos contava com 6.786 brancos e 7.397 escravos africanos, em 1678-168150,
porm, em 1780, de um total de 514.849 habitantes, somente 63.682 eram bran-
cos, enquanto 437.738 eram escravos africanos e 13.429 negros alforriados51. A
populao de origem africana nas Antilhas francesas assim passou de 52% da
populao total, no fim do sculo XVII, para aproximadamente 88% em 1780.
    Essa transferncia macia de mo de obra africana para a Amrica Latina,
para as Antilhas e para os territrios do sul da Amrica do Norte levou  impres-
sionante expanso na produo e no comrcio de bens de consumo, ocorrida
na zona atlntica entre os sculos XVI e XIX. Expanso esta que, por sua vez,
suscitou oportunidades e desafios, sob cuja influncia o processo de transfor-
mao capitalista foi empreendido, nos grandes pases da Europa Ocidental e
na Amrica do Norte. Esse mesmo processo histrico gerou, em contrapar-
tida, na Amrica Latina e nas Antilhas, estruturas de subdesenvolvimento e de
dependncia.
    Em razo da forte proporo de escravos na populao dessas regies, a
grande maioria de seus habitantes no ganhava o suficiente para intervir nor-
malmente no mercado. Por conseguinte, houve comprometimento na criao
de um mercado interno para produtos de grande consumo. A falta de um
mercado interno em expanso, captador de recursos em prol de uma produo
industrial voltada para o consumo interno, determinou o destino dos lucros,
da atividade mineira e da agricultura de plantao, ora para a compra de
artigos manufaturados importados da Europa, ora para sua remessa  Europa,
onde financiavam o investimento e o consumo. Essa situao agravou -se,
igualmente, em funo de leis coloniais impositivas e restritivas ao desenvol-
vimento de atividades industriais na Amrica Latina e nas Antilhas, durante
todo o perodo colonial. Nessas condies, em seu conjunto, a regio repre-
sentou um atraente mercado para industriais da Europa Ocidental e, mais
especificamente, para os industriais britnicos, os quais abasteciam tanto
as colnias britnicas, quanto a Amrica espanhola e portuguesa, quer seja

49   Nmeros estabelecidos com base em R. S. Dunn, 1972, p. 312.
50   R. Sheridan, 1970, pp. 35 e 49.
51   E. Williams, 1970, p. 153.
                                                                                                                                                            118
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Figura 4.5 Escravos negros cortando cana-de-acar em uma plantao nas Antilhas, por volta de 1833. Fonte: The Saturday Magazine, 1833.  The Mary Evans
Picture Library.
A frica na histria do mundo                                                                              119



diretamente ou por intermdio da Espanha ou de Portugal52. A ttulo de
exemplo, o valor oficial das exportaes britnicas (compostas quase exclu-
sivamente por produtos manufaturados) com destino s Antilhas britnicas,
entre 1714 e 1773, alcanou a soma de 43,4 milhes de libras. No mesmo
perodo, o valor oficial dos produtos exportados para a Gr-Bretanha, por
essas mesmas colnias, representou 101,3 milhes de libras53. Tais nmeros
mostram, claramente, a importncia dos mercados do Novo Mundo para os
fabricantes britnicos, assim como o volume de recursos trazidos das ricas
plantaes coloniais, cultivadas por escravos54.
    Na Amrica Latina e nas Antilhas, o no-desenvolvimento industrial deu ori-
gem a sistemas econmicos precrios, cujos setores mineiros e agrcolas depen-
diam fortemente das economias da Europa Ocidental e mais tarde, tambm
dos Estados Unidos. Acrescentou-se a essa evoluo o surgimento de imprios
econmicos diretamente ligados  exportao e  importao, nicas atividades
s quais se dedicavam os magnatas das minas e as oligarquias agrrias na Am-
rica Latina e nas Antilhas. Uma prspera classe de negociantes, originria de
uma situao que durou do sculo XVI ao sculo XVIII, tambm se consagrou
a essas atividades. A extrema desigualdade na distribuio da propriedade e da
renda, ligada ao regime de plantao e  escravatura, exclua a possibilidade, para
qualquer outro grupo, de competir, em matria de poder poltico e econmico,
com a trade constituda pelos donos de minas, pela oligarquia agrria e pelos
negociantes. Assim, mesmo aps a conquista da independncia poltica pelos
principais pases da Amrica Latina, no sculo XIX, os governos continuaram a
estimular a produo de matrias-primas destinadas  exportao e a favorecer a
importao de produtos manufaturados. No tocante a esses ltimos, a essa altura,
j em vias de beneficiarem-se dos resultados frutos das revolues industriais do


52   A. Christelow, 1948; J. O. McLachlan, 1940; H. E. S. Fisher, 1963.
53   E. Williams, 1970, p. 151.
54   Trao comum a todas economias de plantao sustentadas pela escravatura no Novo Mundo, o nvel de
     produo tendia a ultrapassar os nveis de consumo do prprio territrio dessa produo. Tal foi o ocorrido
     na Amrica do Norte britnica. Entre 1714 e 1773, as plantaes coloniais do Sul, Carolina, Virgnia e
     Maryland, exportaram oficialmente para a Gr-Bretanha o equivalente a 46,6 milhes de libras em mer-
     cadorias, enquanto que para a Nova Inglaterra, Nova Iorque e a Pensilvnia (colnias sem escravos), os
     valores no atingiram seno 7,2 milhes de libras. Por outro lado, as importaes de origem britnica para
     os trs estados do Sul somente chegaram, para o mesmo perodo, a 26,8 milhes de libras em mercadorias,
     comparativamente aos 37,9 milhes nos trs estados do Norte (E. Williams, 1970, p. 151). Portanto, quanto
      produo, ela concentrava-se nos territrios cobertos de plantaes cultivadas por escravos e, no tocante
     ao consumo, esse ocorria nos territrios sem escravos do Atlntico. O poder aquisitivo do Norte provinha,
     essencialmente, da venda de produtos alimentcios e do fornecimento de servios martimos ou mercantis
     s plantaes com escravos, das Antilhas e das colnias do Sul da Amrica do Norte britnica.
120                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



sculo XIX, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da Amrica, revolues
estas que, como consequncia direta do sistema atlntico, desencadearam uma
exploso na demanda por produtos alimentcios e matrias-primas de todo tipo.
Simultaneamente, a reduo nos custos de produo fez baixar os preos dos
produtos manufaturados trocados na zona atlntica, a tal ponto que os jovens
pases independentes de Amrica Latina no consideraram rentvel criar seu
prprio setor industrial. Portanto, aproximadamente na metade do sculo XIX,
os pases de Amrica Latina e das Antilhas chegaram a uma situao tal que
suas estruturas econmicas e sociais se os levaram ao subdesenvolvimento e 
dependncia.


      As bases iniciais das estruturas de dependncia na frica
    Em um de seus artigos, Christopher Wrigley escreveu: "[...] ao que tudo
indica, a concluso inesperada resultante de recentes estudos arqueolgicos 
que o povoamento intensivo da frica subsaariana no poderia ser datado da
poca dos primeiros sinais de agricultura ou de trabalho com ferro, mas, antes,
de no mximo mil anos atrs, por ocasio do incio daquilo que denominamos
frica banto, a ltima idade do ferro. Em caso de exatido desse postulado,
abrem-se perspectivas radicalmente novas. Podemos agora pensar que a expan-
so demogrfica progredia, de forma rpida, na poca dos primeiros contatos
com os europeus [...].55"
    As evidncias indiretas das quais dispomos apoiam esta concluso. Todas as
fontes locais africanas sugerem a existncia de migraes generalizadas na pri-
meira metade do segundo milnio. Embora muitas vezes atribudos a causas pol-
ticas, esses movimentos populacionais tm certamente relao com um aumento
na proporo entre o tamanho da populao e a disponibilidade de recursos nos
povoados mais antigos, obrigando certos grupos a procurarem territrios vazios



55    C. C. Wrigley, 1981, p. 18. Segundo os clculos de Thurstan Shaw, a populao africana alcanava 2
      milhes de habitantes por volta de 10.000 a.C. e 5 milhes por volta de 3.000 a.C. (T. Shaw, 1981, p.
      589). Posnansky tambm afirma que a populao total da frica subsaariana, antes do ano 1000 d.C.,
      era "muito inferior a 10 milhes de habitantes" (M. Posnansky, 1981, p. 727). Para o ano de 1.500, Shaw
      chegou  concluso que os dados arqueolgicos permitem estimar em 20 milhes o nmero de habitantes
      para a frica do Oeste (T. Shaw, 1977, p. 108). Ao comparar esses nmeros, parece-nos que a populao
      da frica do Oeste cresceu de forma rpida entre 1.000 e 1.500. Com efeito, se admitirmos que no ano
      1.000, um tero da populao da frica subsaariana vivia na frica do Oeste, a populao dessa regio
      teria passado de aproximadamente 3 milhes de indivduos, no ano 1.000, para quase 20 milhes de
      pessoas por volta de 1.500.
A frica na histria do mundo                                                                                 121



ou pouco habitados56. Alm disso, cita-se amide os sculos XIV e XV em refe-
rncia a um perodo da histria africana marcado por importantes mudanas na
organizao e nas tcnicas de produo, tanto agrcola, quanto manufatureira,
seguida, aps o sculo VXI, por um longo perodo de estabilidade e estagnao57.
Mais uma vez, um rpido crescimento demogrfico durante os sculos anteriores,
deve ter desempenhado um fator importante nessas mudanas.
     relevante nos dados disponveis que,  poca da chegada dos europeus,
aproximadamente no fim do sculo XV, as sociedades africanas estavam envol-
vidas em grandes processos de transformao. Descobertas arqueolgicas rea-
lizadas na dcada de 1970 indicam que, em vrios casos, sua transformao
social e econmica j avanara bastante58. Entretanto, por se tratar, na poca,
de um processo ainda relativamente recente, as estruturas econmicas e sociais
permaneciam, fundamentalmente, em conformidade com o modelo por ns
qualificado como de no desenvolvimento. A populao total ainda encontrava-
-se muito reduzida, em relao  superfcie das terras agrcolas disponveis, e
disseminada por todo o continente, formando grupos separados por grandes
distncias e importantes obstculos geogrficos59. O surgimento de um imenso


56   Segundo Jan Vansina, a maioria das migraes ocorridas nas regies de floresta mida africana, antes de
     1.600, consistia em movimentos originados em zonas muito povoadas rumo a zonas de baixa densidade
     populacional ( J. Vansina, 1981, p. 758). Por sua vez, Dike, a respeito das migraes para o delta do Nger,
     nos sculos XV e XVI, descreve movimentos similares, ou seja, do Benin para o delta (K. O. Dike, 1956,
     pp. 22-25). Consultar tambm o captulo 3.
57   No que diz respeito  Senegmbia, Curtin afirma que o perodo dos sculos XVII a XIX foi marcado,
     aps os avanos realizados durante os dois sculos anteriores, por uma relativa estabilidade na tcnica
     agrcola (P. D. Curtin, 1975, pp. 13-15). Ver tambm M. Malowist (1966) e o debate assim provocado
     entre A. G. Hopkins (1966) e Malowist. H. N. Chittik tambm considera os sculos XIV e XV como
     perodos de grande prosperidade no litoral da frica Oriental (H. N. Chittik, 1977, p. 209). O processo
     provavelmente iniciou-se, pouco depois, no interior da frica Oriental. Igualmente dizem-no A. C.
     Unomah e J. B. Webster (1976, p. 272): "Dos anos 1500 a 1800, ocorreram considerveis movimentos de
     populao em toda essa regio [o interior da frica do Leste]. Zonas pouco povoadas foram colonizadas,
     sociedades mais numerosas foram criadas e novos Estados foram fundados."
58 Ver, por exemplo, T. Shaw, 1970. Segundo Northrup, "considerados em seu conjunto, os vestgios arque-
   olgicos de Igbo-Ukwu representam evidncias materiais da existncia de um artesanato muito evoludo
   do ponto de vista do savoir-faire e das qualidades artsticas. Embora as descobertas de Igbo-Ukwu sejam
   mais ricas e antigas que muitos outros elementos disponveis, no se afastam em nada das tendn-
   cias gerais do desenvolvimento cultural da Nigria meridional. Todavia, essas indstrias artesanais so
   somente o pice de uma economia, cujas descobertas de Igbo-Ukwu no nos permitem conhecer as bases.
   Malgrado essa carncia de informaes diretas, torna-se evidente que tais especialistas e sua freguesia s
   podem ter existido em uma sociedade de excedentes agrcolas capazes de garantir sua subsistncia" (D.
   Northrup, 1978, p. 20)
59   Na frica Oriental, as cidades relativamente prsperas do litoral somente estabeleceram relaes comer-
     ciais regulares com o interior no sculo XVIII. Como dito por Roland Oliver: "As razes dessa estranha
     disjuno entre o litoral e o interior so, em grande parte, certamente de ordem geogrfica. Alm da
     estreita faixa de plancie costeira, o pas sobe at o grande planalto central em terraos sucessivos cobertos
122                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



deserto entre a frica negra e os territrios do Mediterrneo e do Oriente
Mdio (durante sculos centros de comrcio internacional) limitou as trocas da
frica Negra com o resto do mundo a produtos de grande valor e de transporte
pouco custoso: o ouro e os escravos. Estes dois elementos entravavam o desen-
volvimento da diviso do trabalho, o crescimento do comrcio intra-africano, a
criao dos mecanismos institucionais de mercado e a transformao dos modos
de produo pr-capitalista, absolutamente preponderantes na poca. Portanto, a
expanso demogrfica em curso teve que continuar ainda durante alguns sculos,
de tal forma que a proporo entre a populao e as terras agrcolas atingisse
um nvel suficiente capaz de permitir o desenvolvimento da diferenciao social
e da organizao econmica e poltica. Foi tambm necessrio desenvolver o
comrcio exterior de mercadorias pesadas  produtos agrcolas, minrios e pro-
dutos industriais, entre outros  para que ele acelerasse, juntamente com fatores
internos, o processo de transformao estrutural.
    O estabelecimento, a partir da segunda metade do sculo XV, de uma ligao
comercial martima entre a frica e a Europa Ocidental parece ter oferecido,
inicialmente, as oportunidades necessrias  frica Negra, com vistas a operar
uma rpida transformao econmica e social. Alm do crescimento no comrcio
do ouro, algumas produes agrcolas, como a pimenta, tiveram incio e, inclusive,
um certo incentivo foi oferecido em prol do aumento da produo de teceles
africanos, uma vez que os portugueses e os holandeses haviam participado da dis-
tribuio de tecidos africanos em diferentes pontos litorneos do continente60.
    Porm, essas primeiras mudanas no durariam muito. Assim que os imensos
recursos das Amricas tornaram-se acessveis  Europa Ocidental, ou seja, a
partir de 1492, com o quase extermnio da populao indgena por ocasio da
conquista e com a introduo das doenas pelos conquistadores europeus, nesse
momento o papel da frica no sistema econmico atlntico modificou-se. A
populao requerida para garantir as condies internas de uma transformao
completa em suas estruturas econmicas e sociais foi transferida, de forma
macia, para as Amricas, e empregada, em larga escala, para desenvolver as
produes mercantes. As condies criadas por essa fortssima transferncia
populacional impediram, durante trs sculos, o impulso na produo de bens



      por uma vegetao seca e espinhosa, hostil e de difcil superao [...] Por isso, a mais densa populao
      e as mais importantes sociedades concentraram-se, ao menos durante a Idade do Ferro, no centro do
      subcontinente, distantes 1.300 quilmetros, ou mais, do mar." (R. Oliver, 1977b, pp. 621-622). Consultar
      tambm A. C. Unomah e J. B. Webster, 1976, p. 272.
60 A respeito dessas primeiras mudanas, ver J. W. Blake, 1932, 1977, e A. F. C. Ryder, 1969.
A frica na histria do mundo                                                                123




Figura 4.6 Embarque de escravos a bordo de um navio negreiro europeu.  The Hulton-Deusch Collec-
tion, Londres.




africanos, tanto ao nvel do comrcio interno quanto no tocante s exportaes,
dando assim origem s estruturas de dependncia.
    Consistindo na primeira perda imposta por tal migrao forada, o cres-
cimento demogrfico em curso interrompeu-se e vastas zonas do continente
simplesmente perderam seus habitantes. Avaliamos acima em 22 milhes o
nmero de indivduos levados da frica para o resto do mundo, entre 1500 e
1890, ou seja, 15,4 milhes atravs do Atlntico e 6,9 milhes pelo Saara, pelo
Mar Vermelho e pelo Oceano ndico.  necessrio, contudo, interpretar corre-
tamente esses nmeros, os quais representam as efetivas exportaes, no intuito
de, posteriormente, compar-los com os processos demogrficos ocorridos na
frica durante este perodo.
    O principal problema consiste em determinar em que medida essas expor-
taes reduziram a capacidade de reproduo da populao na frica Negra.
Isso exige uma anlise da composio por idade e gnero da populao expor-
tada, pois  o nmero de mulheres em idade maternal que permite avaliar tal
capacidade.
124                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    No caso do trfico atravs do Saara e do Mar Vermelho, havia uma forte pro-
poro de mulheres jovens e bonitas, em razo da importncia relativa da demanda
por concubinas. Nesse setor geogrfico do trfico e segundo uma avaliao geral-
mente aceita, a relao era de duas mulheres por homem. No h nenhum dado
seguro na base dessa avaliao, mas ela encontra-se confirmada pelos resultados
dos censos da populao de escravos negros no Egito do sculo XIX, nos quais
aparece uma relao de aproximadamente trs mulheres por homem61.
    No que diz respeito ao trfico transatlntico, dispomos de indicaes seguras
sobre essa relao, no tocante a 404.705 africanos importados em diversos territ-
rios do Novo Mundo nos sculos XVII, XVIII e XIX62, ou seja, aproximadamente
3% das exportaes totais para as Amricas. Embora o tamanho e a disperso da
amostragem, no tempo e no espao, sejam satisfatrios, intervm o problema da
sobre-representao da regio Congo-Angola, representante por mais de 50% do
total dessas exportaes, assim como a ausncia da frica Oriental, ainda que
razoavelmente possamos atribuir-lhe uma participao mais ou menos equiva-
lente quela da frica Ocidental. De forma global, a amostragem apresenta uma
proporo de 32,9% de mulheres num total de 404.705 escravos.
    Convm destacar que o exame dos dados relativos ao trfico transatlntico revela
uma relao praticamente constante entre as propores de homens e mulheres,
sejam quais forem as regies de onde provm os escravos.  o que mostra nitida-
mente a anlise, realizada pelo autor, em uma amostragem de 43.096 escravos63.
    As diferenas regionais apontadas por esta ltima amostragem encontram-se
confirmadas nessa outra amostra abaixo, relativa a 55.855 escravos desembarca-
dos nas Antilhas entre 1781 e 179864.
    Evidencia-se, ao analisar essas duas sries de dados, que a regio da Nigria,
entre o Golfo de Benin e o Golfo de Biafra, foi aquela que exportava a maior
proporo de mulheres, atingindo entre dois quintos e a metade das exportaes
totais. Por outro lado, a outra grande regio exportadora, a do Congo-Angola,
enviava regularmente uma proporo de homens superior  mdia; em funo
da sobre-representao de tal regio, na amostragem dos 404.705 escravos, a


61    G. Baer, 1967.
62    Esses nmeros provm de J. E. Inikori, 1982, p. 24 (129.570 escravos); H. S. Klein, 1978, tabela 3, p.
      30 (55.855); H. S. Klein, 1975, tabela 9, p. 84 (181.909 escravos oriundos, em sua maioria, de Angola);
      J. Mettas, 1978, citado por P. Manning, 1981 (12.697 escravos); D. Northrup, 1978, apndice D, pp.
      335-339 (24.502 escravos); K. D. Patterson, 1975, p. 80 (172 escravos).
63    J. E. Inikori, 1982, tabela 2, p. 23. A amostragem, relativa a escravos importados para Jamaica, abrange
      o perodo 1764-1788.
64    H. S. Klein, 1978, tabela 3, p. 30.
A frica na histria do mundo                                                                       125



         Regio africana                 Porcentagem de homens          Porcentagem de mulheres
             Gmbia                              72,1                               29,9
        Costa do Marfim                          65,7                               34,3
         Costa do ouro                           66,8                               33,2
               Uid                              57,8                               42,2
              Benin                              49,96                             50,04
              Bonny                              56,5                               43,5
             Calabar                             58,8                               41,2
              Gabo                              68,8                               31,2
              Angola                             68,2                               31,8
 Fonte: J. E. Inikori, 1982, tabela 2, p.23
Tabela 4.5    Proporo de homens e mulheres entre os escravos oriundos de diferentes regies da frica,
1764-1788.




                                   Escravos              Porcentagem               Porcentagem
    Regio africana
                                desembarcados             de homens                de mulheres
      Senegmbia                       190                    67,5                      32,5
       Serra Leoa                     5 544                   64,9                      35,1
   Costa do Marfim                    3 420                   70,6                      29,4
    Costa do Ouro                     2 721                   64,4                      35,6
    Golfo de Benin                     315                    54,5                      45,5
    Golfo de Biafra                  18 218                   56,9                      43,1
    Congo-Angola                     12 168                   69,9                      30,1
     Desconhecida                    13 279                   65,3                      34,7
 Fonte: H. S. Klein, 1978, tabela 3, p.30.
Tabela 4.6 Proporo de homens e mulheres entre os escravos desembarcados nas Antilhas, por regio de
origem (1781-1798) Fonte: H. S. Klein, 1978, tabela 3, p. 30.



proporo de mulheres em relao a esse total foi provavelmente subestimada.
Tal variao regional da composio por gnero da populao exportada  de
muita importncia para a avaliao do impacto demogrfico, em escala micro-
-regional, das exportaes de escravos.
   Para o conjunto da frica Negra, os dados acima analisados mostram que
a importncia do nmero de mulheres exportadas a cada ano provocou con-
sidervel reduo na capacidade de reproduo nessa regio. Se levarmos em
conta as perdas suplementares causadas pelas exportaes para as Amricas (a
126                                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



mortalidade entre o momento da captura e o da chegada ao trmino da viajem,
os falecimentos devidos a combates e a fome durante as capturas), assim como
a exportao de 6,9 milhes de negros (dos quais a maioria era composta por
mulheres) para o resto do mundo, tudo indica que a populao de frica Negra
diminuiu, em valores absolutos, ao menos entre 1650 e 1850.
    Esse declnio global no se distribuiu uniformemente entre as sub-regies do
continente. Ao relacionar as diferenas regionais de diviso entre os sexos acima,
organizadas com base na repartio por regio de origem das exportaes totais,
podemos ter uma ideia bastante ntida do impacto demogrfico no trfico negreiro
em nvel micro-regional65. Essa anlise leva a pensar que os territrios de onde
provinham os considerveis efetivos exportados pelo Golfo de Benin, o Golfo de
Biafra e o Congo-Angola sofreram necessariamente uma grave despovoao66.
    Por outro lado, como fora pelo emprego permanente da fora, notadamente
no quadro de operaes militares, que a populao exportada foi escravizada,
o comrcio dos escravos teve efeito altamente perturbador sobre as estruturas
sociais e polticas africanas. Essa j era a opinio de alguns observadores da poca.
Em 1679, o diretor geral da companhia holandesa das ndias Ocidentais na Costa
do Ouro (o atual Gana), Heerman Abramsz, relatava que, desde a introduo das

65    Os nmeros a seguir suscitam uma ideia, com base em dados atualmente disponveis, a cerca da repartio,
      por regio de origem, dos efetivos totais de escravos exportados pelo trfico atlntico.

Sub-regio da frica
                                             Exportaes no sculo XVIII (%)              Exportaes no sculo
    XIX (%)

De Senegmbia  Costa do Ouro                              24,8                                         10,3
Golfo de Benin                                             23,2                                         17,5
Golfo de Biafra                                            14,8                                         12,9
Centro da frica do Oeste                                  37,5                                         48,0
frica do Sudeste                                           --                                          11,4
______________________________________________________________________________________
     Os percentuais acima foram calculados a partir dos dados repertoriados por P. E. Lovejoy (1982). Embora
     o mtodo de Lovejoy e seus nmeros globais sejam certamente contestveis, alguns dados podem servir e
     a repartio percentual deles decorrente pode ser provisoriamente adotada, na qualidade de aproximao.
     No sculo XVIII, a frica Oriental j exportava escravos para as ilhas do Oceano ndico, porm somente
     a partir do sculo XIX ela o fez em direo aos territrios atlnticos. Ao estudar o impacto demogrfico
     do trfico de escravos sobre a frica Oriental, h tambm de se levar em conta o grande nmero de
     escravos que a frica do Leste continental enviou, no sculo XIX, para as plantaes de craveiros-da-
     -ndia de Pemba e Zanzibar.
66    Com o aumento qualitativo e quantitativo dos dados e se forem eles corretamente interpretados, tende-se
      a indicar nitidamente o fato de uma forte proporo das exportaes, pelos Golfos de Benin e de Biafra,
      ser originria da zona central da frica Ocidental, regio que se estende da fronteira oriental da Nigria 
      fronteira ocidental do Gana. Essa zona, particularmente no tocante  sua parte nigeriana, tambm abasteceu
      consideravelmente o trfico transaariano de escravos que capturava, sobretudo, mulheres. Como as exporta-
      es a partir dos golfos compreendiam tambm muitas mulheres, fica claro que as densidades demogrficas,
      geralmente baixas, observadas na regio a partir do sculo XIX, sejam imputveis ao trfico negreiro.
                                                                                                                                                                                                   A frica na histria do mundo
 Saint Louis       Ri                                                                                                               0!                  500 milhas
                        o
Gor     WAALO              Se
         KAYOR                                                                                                                      0!                  800 km




                             ne
Bawol



                               ga
                                  l




                                                                    Ri
                                                 AROCHUKU




                                                                     oN
                    MAN
                             DIG
                                   A FU




                                                                       g
                                          LA




                                                                          er
 Ilha de Los
                            SOSO                                    O                               enue
                                                                  HI YO AN                     oB                                    a
        Sherbro                                              MA            T   IGO           Ri                                    gh




                                                                                                                              an
                                               ACHANTI




                                                                                                                             S
                                                             M                                            Rio Ali
                                                         DAO




                                                                                                                         Rio
                                                                                                                     m
                                                                                                                                     GUI




                                                                                BE
                                                                                                                         BOBAN




                                                                  Lag o
                                                                     os
                                                                     v


                                                                                 NIM




                                                                                                                     a
                                                                   No
                                                            Po id
                  Little Sestos                 Anomabo                                     Calabar




                                                                 U




                                                                                     nny
                                                              r to
                                                                                                                              Rio Congo




                                                                                     Bo
                                                                                              LO            TEKE
                                                                                                AN
                                                                                                    GO      Pool
                                                                                                                                                 DA
                                                                                       Loango Bay
                                                                                                           Malebo                          LUN                           Tabora
                                                                                           Malemba                                                              Ujiji
                                                                                            Cabinda
                                                                                                           CONGO
                                                                                                           NDONG
                                                                                                                 O           KASANJE
                                                                                               Luanda
                                                                                                               MBUND
                                                                                                                         U
                                                                                                                                                                                           Kilwa
                                                                                                                OVIMBUNDU
                                                                                             Benguela
                                                                                                                                                                                         Ibo
                                                                                                                                                                                      UA
                                                                                                                                                              m b e zi             AK
                                                                                                                                                                                  M Moambique
                                                                                                                                                        o   Za
                                                                                                                                                      Ri

                                                                                                                                                                                    Quelimane




                                                                                                                                                                                                   127
Figura 4.7     As fontes de abastecimento do trfico transatlntico nos sculos XVIII e XIX na frica (segundo J. E. Inikori).
128                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



armas de fogo, conseqente ao desenvolvimento do trfico de escravos, "a costa,
no seu conjunto, entrou em uma espcie de estado de guerra. Tudo comeou no
ano de 1658 e, aos poucos, a situao degenerou de tal forma que nenhuma das
passagens podia mais ser usada e nenhum mercador podia mais passar67".
    Em 1730, um funcionrio da companhia holandesa declarou: "Em primeiro
lugar, no deve causar espanto que parte da frica, h muito tempo conhecida
como a Costa do Ouro, em funo das grandes quantidades de ouro compradas,
em certa poca, pela Companhia e por navios particulares holandeses, tenha nos
dias atuais se tornado nada mais que a Costa dos Escravos; as grandes quantida-
des de armas de fogo e de plvora eventualmente trazidas pelos europeus deram
origem a terrveis guerras entre os reis, prncipes e outros cabeceiras dessas regi-
es, os quais escravizavam seus prisioneiros; esses escravos eram imediatamente
comprados pelos europeus, a preos em constante alta, despertando assim e de tal
maneira a vontade dos vencedores em retomar as hostilidades que, na esperana
de lucros altos e fceis, esqueciam o trabalho e usavam de qualquer pretexto para
se atacar uns aos outros ou reavivar velhos conflitos. Por conseguinte, existe muito
pouco comrcio entre os negros da costa, a no ser aquele dos escravos [...].68"
    Mais tarde, no decorrer do sculo XVIII, um observador africano, Olaudah
Equiano, confirmou, na mesma direo: "Pelo que me lembro dessas batalhas,
tratava-se de incurses de um pequeno Estado ou de um distrito sobre outro, para
capturar escravos ou butim. Talvez fossem eles atrados por esses comerciantes que
nos traziam os produtos europeus aos quais j fiz meno. Esse modo de obteno
de escravos  corriqueiro na frica e creio haver mais escravos capturados dessa
maneira ou por seqestro, comparativamente a qualquer outro meio.69"
    Essas observaes, escolhidas a ttulo de exemplo entre inmeras fontes
similares, mostram a estreita ligao entre o comrcio de escravos e a freqncia
das guerras na frica da poca. A ligao entre esses dois ltimos fatores era,
evidentemente, de grande complexidade e os exemplos escolhidos no bastam
para explic-la. Todavia,  notrio que, direta ou indiretamente, esse comrcio




67    Heerman Abramsz, na Assemblia dos Dez no dia 23 de Novembro de 1679, em A. van Dantzig, 1978,
      p. 17. A Assemblia dos Dez era o rgo diretor da Companhia na Holanda.
68    Extrado das atas de reunio dos diretores da Cmara de Zelndia, do dia 7 de Fevereiro de 1730, citado
      por A. van Dantzig, 1978, p. 240.
69    Citado por P. D. Curtin, 1967, p. 77. Os produtos europeus mencionados por Equiano consistem em
      armas de fogo, plvora para canho, chapus e prolas. Sua descrio leva a deduzir que esses produtos
      eram trazidos para seu pas natal por comerciantes aro do sudeste da Nigria.
A frica na histria do mundo                                                                          129



favoreceu guerras freqentes, desorganizando assim as estruturas polticas e
sociais das sociedades africanas70.
    Uma das mais importantes distores consistiu na criao de aristocracias
militares com tal influncia que elas determinaram a linha poltica de quase
todos os grandes Estados africanos da poca. A existncia de um amplo mercado
de exportao para os cativos incentivou-os a ver na guerra o meio de adquirir
prisioneiros para a venda, ao invs de conquistar novos territrios, cujos recursos
naturais e humanos poderiam ter sido explorados em proveito da classe diri-
gente, atravs de sua integrao efetiva a um Estado maior. Isso implicou, para
esses Estados, um duplo efeito negativo, sobre suas prprias dimenses e sobre
sua estabilidade poltica interna; isso tambm explica o fato de muitos daqueles
que se formaram durante esse perodo nunca terem alcanado uma verdadeira
estabilidade poltica e se afundaram rapidamente, quer seja por dinmica interna
ou ao primeiro sinal de ameaa por parte de um inimigo temido.
    A existncia dessas aristocracias militares e sua influncia sobre situao
econmica de ento, em certas sociedades africanas, tambm favoreceram o
desenvolvimento do modo produo baseado na escravido. Sob influncia
estrutural do comrcio de exportao de escravos, primeiramente pelo Saara
e o Mar Vermelho, e posteriormente, de modo mais amplo, pelo Atlntico, as
diversas formas de sujeio do indivduo, existentes desde h muito tempo na
frica, transformaram-se em instituies mais ou menos inspiradas na concep-
o ocidental relativa ao ser escravo, enquanto bem possudo. Importantes par-
celas da populao das grandes sociedades africanas chegaram a ser submetidas
a essa situao por certos indivduos, fossem eles comerciantes ou funcionrios
do Estado, ligados, direta ou indiretamente, ao comrcio de escravos. Atravs
de estruturas j implantadas e em funo da penria de recursos humanos em
relao s terras cultivveis, o impulso do "comrcio legtimo", decorrente da
eliminao, no sculo XIX, da demanda externa por escravos, provocou, em
seguida, uma expanso do modo de produo escravagista na frica71.
    Tais processos histricos que se estenderam por mais de trs sculos levaram
a frica em sua totalidade a afastar-se do processo econmico de desenvol-
vimento e a tomar o caminho do subdesenvolvimento e da dependncia. A
interrupo da expanso demogrfica, que durou at o sculo XVI, suspendeu
os processos que permitiriam a expanso do comrcio intra-africano, tais como


70   Para mais detalhes, ver J. E. Inikori, 1982.
71   Para mais detalhes, ver J. E. Inikori, 1982, e particularmente, C. Meillassoux, 1982; ver tambm P. E.
     Lovejoy, 1983; S. Miers e I. Kopytoff, 1977; P. Manning, 1981.
130                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



a criao de mercados internos e de instituies correlatas, a comercializao da
produo agrcola e a generalizao da diviso do trabalho. A baixa densidade
populacional em todo continente, onde imensas regies, tal como a zona central
do oeste africano, permaneciam quase inabitadas, atrasou o avano da produo
comercial. Da mesma forma e em vastas regies da frica, a expanso do modo
de produo baseado na escravido apenas contribuiu para limitar, ainda mais, o
desenvolvimento dos mercados internos e da produo comercial. Outrossim, o
trfico transatlntico de escravos impediu, de vrias formas, o desenvolvimento
das trocas de produtos com a Europa, trocas estas que poderiam ter estimulado o
crescimento do comrcio intra-africano e a produo com fins comerciais72. Por
essas razes, em meados do sculo XIX, a produo alimentar de subsistncia
permanecia, de longe, a atividade econmica preponderante da frica. Portanto,
qualquer formao de capital na agricultura, assim como qualquer aumento na
produtividade das culturas alimentares destinadas ao mercado interno, foi prati-
camente eliminado. W. A. Lewis demonstrou de forma brilhante que os preos
atuais, no mercado mundial, relativo aos produtos africanos de base, esto deter-
minados pelo baixo nvel dos ganhos realizados pelos cultivadores africanos, no
referente aos produtos alimentcios destinados ao mercado interno, em funo
de sua reduzida produtividade73. O que W. A. Lewis no parece levar em conta
 o fato de que essa baixa produtividade da agricultura de subsistncia remonta
ao sculo XVII, herdeira de trs sculos de uma histria que foi ainda agravado
pelo impacto econmico do colonialismo no sculo XX.
    O carter rudimentar da diviso do trabalho e a escassez de mercados inter-
nos s podiam prejudicar o desenvolvimento das atividades manufatureiras alm
do estgio artesanal. Tal industrializao seria ainda entravada pela importao
desenfreada de produtos manufaturados, provenientes da Europa e do Oriente,
destinados  troca por cativos. Desse modo, com mercados internos reduzidos,


72    Encontra-se uma anlise detalhada dessa questo em J. E. Inikori, 1983. Consultar tambm J. E. Inikori,
      1982, introduo.
73    Assim escreveu Arthur Lewis: "Um campons da Nigria podia cultivar seu amendoim com cuidado e
      savoir-faire correspondentes ao que um fazendeiro australiano empregava na criao de seus carneiros,
      porm o rendimento era muito diferente. O preo justo, para empregar uma expresso medieval, teria
      recompensado a igualdade de competncias pela igualdade de remunerao. Porm, o preo de mercado
      rendia ao Nigeriano 700 libras por hectare de amendoim, enquanto o Australiano ganhava, com sua l,
      1.600 libras por hectare, de modo algum em razo de uma diferena na competncia ou por uma ques-
      to de utilidade e produtividade prprias ao amendoim ou  l, mas antes porque eram as quantidades
      de alimentos possveis que seus primos podiam produzir, em suas culturas familiares.  nesse sentido
      fundamental que os dirigentes do mundo menos desenvolvido denunciam a injustia da atual ordem
      econmica internacional, a saber, que os termos fatoriais da troca apoiam-se no jogo mercantil dos custos
      de substituio, e no, em adverso, no justo princpio de uma remunerao igual por um trabalho igual"
      (W. A. Lewis, 1978, p. 19).
                                                                                                                                                       A frica na histria do mundo
                                                                                        L               L               L              L




                                         ZO
                                              NA
                                                   CENTRAL D
                                                             A FRICA OCIDEN
                                                                             TA L




Figura 4.8 A zona central da frica Ocidental. Fonte: segundo M. B. Gleave e H. P. White, 1969, p. 124. Mapa publicado com a autorizao da American




                                                                                                                                                       131
Geographical Society.
132                                                         frica do sculo xvi ao xviii



setores agrcolas e industriais no capitalizados, bem como grande nmero de
pequenos Estados, em mos de comerciantes e guerreiros ligados  escravatura,
a frica reunia todas as condies necessrias  sua dependncia vis--vis das
economias industrializadas na zona atlntica, tanto no que diz respeito  venda
de suas matrias primas, quanto no que tange  compra de produtos manufatu-
rados e de servios, dos quais necessitava. As bases da dependncia econmica
estavam, portanto, solidamente estabelecidas em meados do sculo XIX, poca
em que o trfico de escravos chegou a seu ocaso. A partir do fim desse mesmo
sculo, a dominao colonial acabaria por consolidar essa situao.


      Concluso
    Podemos agora inferir as concluses decorrentes dos fatos e da anlise acima.
Quando, em 1492, Cristvo Colombo desembarcou nas Amricas, as econo-
mias na zona atlntica eram todas, por definio, no desenvolvidas. Na Europa
Ocidental, tal como na frica e nas Amricas, a atividade manufatureira ainda
estava no seu estgio artesanal e formava parte integrante da agricultura, que
era de longe o setor preponderante. Por toda a parte predominavam modos de
produo pr-capitalistas. Nessas condies, as economias da zona atlntica
no podiam funcionar eficazmente em um sistema nico, regido pelas foras do
mercado. Por essa razo, a Europa teve que empregar, de incio, sua superioridade
naval e militar. Em meados do sculo XIX, grandes diferenas apareceram entre
as economias nas diversas regies da zona atlntica: as indstrias mecanizadas
concentraram-se  beira do Atlntico, no noroeste da Europa e no nordeste dos
Estados Unidos da Amrica, enquanto a maior parte da zona atlntica dedicava-
-se  produo de base  produtos alimentcios destinados  venda e agricultura
de plantao, no oeste e no sul dos Estados Unidos; agricultura de plantao,
nas Antilhas; explorao mineira, criao extensiva de rebanho e agricultura de
plantao, na Amrica Latina; e, por fim, agricultura de subsistncia ou oca-
sionalmente, colheita de produtos naturais destinados  exportao, na frica
(aps a poca do trfico de escravos). A estruturao econmica e social da zona
atlntica gerou finalmente um sistema econmico nico, regido pelas foras de
mercado. Nos dias atuais, apenas uma interveno poltica deliberada, em um
ou vrios estados dessa zona, poderia transformar radicalmente as estruturas e
uma diviso internacional (mas tambm inter-regional) do trabalho firmemente
consolidadas. Salvo essa eventualidade, a situao no pode seno perpetuar-se,
A frica na histria do mundo                                                 133



 medida que regies bem posicionadas,  margem do Atlntico, continuam a
explor-la em seu proveito econmico e poltico.
    Os fatos e a anlise que apresentamos mostram claramente que tal evoluo
deriva, finalmente, do comrcio de exportao de escravos da frica. Os fatos
destacam nitidamente que a revoluo industrial, tanto na Inglaterra, do sculo
XVIII e do incio do sculo XIX, quanto no nordeste dos Estados Unidos, no
sculo XIX, no poderia ter ocorrido sem a espetacular expanso, na produo e
no comrcio de mercadorias, experimentada pela zona atlntica entre os sculos
XVI e XIX. Esse extraordinrio desenvolvimento assim originou as ulteriores
revolues industriais do sculo XIX, no noroeste da Europa. Foi sem sombra
de dvidas a mo de obra servil africana fornecida pelo trfico de escravos que
tornou possvel esta extraordinria expanso.
    No prprio momento em que essa expanso estimulava o desenvolvimento
do trabalho livre assalariado, constitudo em forma dominante de atividade eco-
nmica, no noroeste da Europa e no nordeste dos Estados Unidos, o resto da
zona atlntica viu desenvolver-se um modo de produo baseado na escravido.
Particularmente na Amrica Latina, nas Antilhas e nos estados do sul dos Estados
Unidos, a expanso desse modo de produo criou as condies para um desenvol-
vimento desigual, facilitando o rpido avano do capitalismo nas outras partes da
zona atlntica. A concentrao, no sculo XIX, das indstrias mecanizadas nessas
regies costeiras do Atlntico tornou-se possvel graas ao amplo mercado que
esse modelo de desenvolvimento desigual oferecia. Os fatos confirmam, portanto,
a hiptese segundo a qual o processo histrico das origens do capitalismo, no
noroeste da Europa e no nordeste dos Estados Unidos, levou simultaneamente 
consolidao e  extenso dos modos pr-capitalistas de produo na frica, na
Amrica Latina, nas Antilhas e nos estados do sul dos Estados Unidos.
    Apoiando-se nas condies criadas pela ordem econmica j estabelecida na
zona atlntica, no sculo XIX, as regies costeiras do Atlntico, dotadas dos ins-
trumentos de suas indstrias mecanizadas, lanaram-se na conquista econmica
e poltica da sia, dos territrios do Pacfico e do resto da Europa, para chegar,
finalmente,  ordem econmica mundial contempornea. Convm destacar que
na poca do surgimento da ordem econmica atlntica, entre os sculos XVI e
XIX, a Europa Ocidental no tinha capacidade de estabelecer com a sia uma
slida ligao comercial, baseada na troca de seus respectivos produtos.Durante
sculos a Europa permaneceu dependente do ouro e da prata das Amricas, para
manter suas relaes comerciais com a sia, na ausncia de produtos por essa
ltima considerados mais interessantes que aqueles provenientes de sua prpria
134                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



produo. Para confirmar esse fato, basta examinar a composio das exportaes
realizadas com destino  sia pela Companhia inglesa das ndias Orientais, nos
sculos XVII e XVIII74.


                                             Total de exportaes
                                                                              Porcentagem de
               Perodo                      (Mdia por dcada em
                                                                              metais preciosos
                                               libras esterlinas)
              1661-70                             133 464                             67,0
             1691-1700                            332 613                             71,4
              1721-30                             650 008                             83,6
              1751-60                             988 588                             65,7
 Fonte: P. Kriedte, 1980-3, tabela 25, p.84.
Tabela 4.7     Exportaes para a sia da Companhia britnica das ndias Orientais.




    Por outro lado, no sculo XIX, a Europa Ocidental e a Amrica do Norte j
se mostravam capazes de integrar firmemente os sistemas econmicos da sia
 ordem econmica atlntica, pois os asiticos no conseguiam mais resistir
aos produtos das indstrias europias mecanizadas. Os tecidos de tecelagens
inglesas e norte-americanas comearam a invadir a sia, forando a regio a
produzir matrias-primas no intuito de atender  demanda crescente nas novas
indstrias.  assim que a ordem econmica atlntica, apoiando-se nos imprios
coloniais, estendeu-se ao resto do mundo para criar a ordem econmica mundial
do sculo XX,o que permite dizer que esta ordem foi construda graas ao suor
e o sangue dos africanos. Quando os negros africanos foram transferidos  fora
para as Amricas, no momento em que o continente necessitava aumentar sua
populao e seu comrcio exterior de mercadorias, visando desenvolver sua pro-
duo e transformar suas estruturas pr-capitalistas, nesse mesmo perodo, todas
as mudanas nesse sentido foram bloqueadas. Eis o porqu do atraso da frica
no plano econmico, nos primrdios do sculo XX, comparativamente a todas
grandes regies do mundo. Entre o fim do sculo XIX e meados do sculo XX,
a dominao colonial contribuiu consideravelmente para mant-la nesse atraso,
entretanto, essa questo ultrapassa os limites temticos do presente captulo.




74    P. Kriedte, 1983, tabela 25, p. 84.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                            135



                                      CAPTULO 5


    A dispora africana no Antigo e no Novo
                     Mundo
                                           J. E. Harris




     A Europa e as Amricas
    Por falta de documentao, no se sabe exatamente quando os primeiros afri-
canos chegaram a Ibria, ou mais geralmente, a Europa. , contudo, provvel que
africanos oriundos do norte e do sul do Saara tenham se aventurado na Ibria,
na poca longnqua em que as trocas comerciais trans-saarianas eram intensas.
    Africanos tambm participaram, no ano de 711, da campanha muulmana
na Ibria. Nos sculos seguintes, marcados por guerras incessantes entre o Isl
e a cristandade, eles combateram como soldados e trabalharam como escravos.
De fato, a partir do sculo XIII, nas feiras de Guimares, no norte de Portugal,
encontravam-se mouros, mercadores de escravos vendendo africanos oriundos
das regies situadas ao sul do Saara1.
    A tomada de Ceuta pelos portugueses, em 1415, inaugurou a era da pene-
trao europia no continente africano. Em 1435, os portugueses alcanaram o
Senegal e, em 1483, o Congo. A partir de 1441, houve deportaes de africanos
para Lisboa, marcando assim o preldio da imigrao forada de africanos, ou
seja, do trfico negreiro que continuaria at a poca moderna. De fato, avalia-se
que entre os anos de 1450 e 1500, Portugal exportou entre setecentos e nove-


1    A. Luttrall, 1964, p. 64.
136                                                          frica do sculo xvi ao xviii



centos escravos africanos por ano. Segundo as estimativas, aproximadamente
cem mil escravos estavam presentes, no incio do sculo XVII, em Portugal e na
Ilhas Madeiras, sob domnio portugus. Em 1468, a Coroa Portuguesa instaurou
um sistema de contratos, equivalente ao asiento espanhol (monoplio), sobre o
comrcio de escravos no sul do Rio Senegal.
    A necessidade de justificar o crescimento do nmero de escravos africanos
levou os papas Nicolau V e Calisto III a expedir bulas (em 1454 e 1456, respec-
tivamente), apresentando a expanso portuguesa na frica como uma cruzada
de cristianizao do continente africano. Nessa perspectiva, a escravizao dos
africanos pelos cristos era vista como sendo do prprio interesse dos autc-
tones "pagos", argumento esse reforado pelo mito bblico segundo o qual os
descendentes de Ham, um dos filhos de No, eram amaldioados e destinados
 escravido. Tal dimenso bblica e religiosa, por ser de grande alcance, fun-
dava e justificava muito oportunamente ideias relativas  natureza "inferior" e
"selvagem" dos africanos2.
    Em Espanha e Portugal, os escravos negros costumavam trabalhar nas minas,
nas exploraes agrcolas ou na construo; eram soldados, guardas, serviais
domsticos, correios, lenhadores, operrios nas fbricas, e no caso das mulheres,
concubinas. Mesmo aqueles ou aquelas que no eram escravos ocupavam sempre
os mais humildes e difceis empregos.
    A venda e a explorao de escravos constituam um fenmeno essencialmente
urbano, j que a mo de obra africana deslocada chegava nos portos e nas cida-
des. As principais zonas urbanas implicadas eram Barcelona, Cdiz, Sevilha e
Valncia, na Espanha, e Lisboa, em Portugal. A vida urbana oferecia aos escra-
vos inmeras ocasies de fugir e, em alguns casos, de comprar a sua liberdade.
No  surpreendente, portanto, o fato de os negros "livres" terem se agrupado,
em sua grande maioria, nas zonas urbanas, onde tentaram cultivar um esprito
comunitrio e dotar-se de instituies correspondentes a seus interesses. Assim
surgiram confrarias religiosas em Barcelona, por volta de 1455, Valncia, em 1472,
e Sevilha, em 1475. Tais organizaes patrocinavam atividades recreativas, festas e
reunies sociais; arrecadavam dinheiro a fim de comprar e libertar outros escravos;
tambm compravam terrenos para poder dispor de lugares de sepultamento para
os negros, que deviam, na maioria dos casos, ser enterrados separadamente3.
    Alguns negros alforriados conseguiram ocupar funes importantes na
sociedade espanhola. Cristbal de Meneses tornou-se um eminente padre

2     J. Walvin, 1972, pp. 10-12, 32-47 e 115-152.
3     L. B. Rout, 1976, pp. 15-16
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                  137



dominicano; Juan de Pareja e Sebastin Gmez eram pintores; quanto a
Leonardo Ortez, fez uma carreira de jurisconsulto. Juan de Valladolid foi
encarregado do controle dos negros em Sevilha, em 1475. Ainda mais not-
vel foi o caso de Juan Latino, letrado de raa negra que obteve dois diplo-
mas na Universidade de Granada, o primeiro em 1546, e o outro em 1556.
Embora no tenha sido nomeado oficialmente, chegou a lecionar nessa mesma
universidade4.
    Ainda que alguns criados africanos tenham acompanhado o espanhol Nico-
las Ovando, quando da inaugurao do cargo de governador de Hispaniola, em
1502, e apesar da insistncia com a qual Pierre Bartolom de Las Casas, entre
outros, pediu a ampliao do trfico negreiro, o Estado apenas definiu uma
poltica oficial a respeito do trfico negreiro para o Novo Mundo em 1518.
Foi neste mesmo ano que Carlos I de Portugal proclamou o asiento do Negroes,
intensificando assim a concorrncia no comrcio de escravos africanos.
    Embora Portugal tenha ficado sob domnio espanhol entre 1580 e 1640,
conseguiu, no ano de 1600, um verdadeiro monoplio sobre esse comrcio:
fez um acordo com a Espanha, segundo o qual se comprometia a fornecer
escravos africanos s colnias espanholas; em 1640, tal monoplio passou
para as mos dos holandeses, e depois, em 1701, para os Franceses. No ano
de 1713, aps a guerra da Sucesso da Espanha, o monoplio, sob a forma do
asiento, foi atribudo  Inglaterra, que se tornou assim o maior mercador de
escravos do mundo.
    Antes mesmo dos ingleses tornarem-se os fornecedores exclusivos dos pases
estrangeiros, o nmero de africanos estabelecidos na Inglaterra aumentava de
forma contnua. De fato, a partir de 1530, quando William Hawkins alcanou
a costa da frica Ocidental, as viagens subsequentes levavam escravos africanos
para a Inglaterra. Em 1556, Elizabeth I considerou que havia demais "mouris-
cos" na Inglaterra, e que era preciso mand-los de volta para a frica. A partir do
sculo XVIII, os fazendeiros das Antilhas, ao visitar sua terra natal, comearam
a levar com eles escravos africanos para assumirem cargos de servial ou de
guarda-costas. Assim o faziam tambm os oficiais da Marinha ou do Exrcito,
bem como os capites de navios negreiros. O fato de possuir servidores negros
tornara-se uma marca de distino. Aos poucos, a posse de escravos negros
chegou a ser considerada como o smbolo de uma condio social elevada, e
ningum mais ignorava que era possvel conseguir uma mo de obra domstica


4   Ibidem, p. 18; V. B. Spratlin, 1938.
138                                                         frica do sculo xvi ao xviii



de baixo custo. Comearam a aparecer nos jornais anncios para a venda de
"negros".
    A maioria destes africanos era enviada, de incio, para as zonas urbanas, o
que lhes permitiu de vez em quando escapar, misturando-se  multido; con-
seguiam ento vender seus servios e entrar em contato com europeus liberais
que se opunham  escravido. Os jornais de Londres, Bristol e Liverpool, entre
outros, no somente publicavam anncios propondo escravos, como tambm
lanavam apelos para que os fugitivos voltassem aos seus senhores. Os seques-
tros aumentavam  medida que crescia a demanda por escravos. Na Inglaterra,
os caadores de escravos especializaram-se na arte de perseguir e capturar os
africanos, desprovidos de qualquer proteo legal ou estatuto social. Os escravos
assim capturados eram muitas vezes reconhecidos pelos antigos donos, em fun-
o de sua cor e das marcas deixadas na sua pele. A sua cor fazia dos africanos
o alvo dos traficantes de escravos, tanto na Europa, quanto na frica. No se
deve subestimar a influncia psicolgica da dominao dos negros pelos bran-
cos, assim como o processo de desumanizao do africano, iniciado a partir do
sculo XVIII5.
    A presena de africanos na Inglaterra tornou cada vez mais necessria a
outorga de um estatuto. Alguns ingleses pensavam que a converso ao cristia-
nismo devia conferir-lhes a liberdade e os mesmos direitos que os "civilizados".
Grandville Sharp foi um daqueles que lutaram pela abolio da escravido. Em
1767, com o caso do Africano Jonathan Strong, Sharp abraou a causa dos
escravos africanos e salvou alguns deles, lutando nos tribunais em favor de sua
liberdade. A mais importante causa, em favor da qual ele pleiteou em 1772, foi
aquela de James Summerset, um escravo foragido que havia sido recapturado.
Caso este acompanhado com o maior interesse pela comunidade africana de
Londres, em funo da forte influncia que seu desfecho podia ter sobre ela.
Embora Lord Mansfield, que julgou o caso, no tenha chegado a abolir a escra-
vido, no menos decidiu que o senhor de um escravo no poderia mais legal-
mente obrig-lo a acompanhar seu dono em suas viagens no exterior. Tal deciso
marcou o incio do recuo da escravido na Inglaterra. Nessa poca, estimava-se
em cerca de 15 mil o nmero de africanos que residiam na Inglaterra, alguns
destes na mais gritante misria, feitos prias6.
    Na Frana, a partir do sculo XV, comeou-se a prestar sempre mais ateno
na presena africana no territrio nacional. Foi nessa poca que navegadores

5     F. O. Shyllon, 1974, pp. 5-10.
6     Ibidem, pp. 17-23 e 141-164.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                 139



franceses empreenderam incurses nas diferentes regies costeiras da frica
Ocidental, principalmente na zona das ilhas de Cabo Verde e do Rio Senegal.
Muitos, dentre eles, trouxeram africanos para a Frana, em primeiro lugar como
prova da sua viagem, mas tambm para depois vend-los como escravos. Em
1595, constatou o capito portugus, Alvarez d'Almeida, que na frica vrios
autctones falavam francs e residiram na Frana.
    Ainda que, na poca, escravos africanos podiam ser encontrados nesse pas,
fica claro que o desenvolvimento da escravido na Frana no se deu, no incio,
de forma deliberada. Um tribunal real chegou a proclamar, no ano de 1571: "A
Frana, me da liberdade, no permite nenhum escravo." Entretanto, a prtica a
esse respeito variava em funo dos casos: alguns africanos eram escravizados,
ao passo que outros permaneciam teoricamente livres, embora num meio hostil.
Vrios observadores apontaram para uma presena africana em algumas cida-
des do pas, tais como Angers, Lyon, Orlees e Paris. Eram empregados como
servidores, serviais domsticos, e at mesmo como pajens nas famlias nobres;
alguns dentre eles participavam de desfiles, e de outros tipos de festividades.
Outros ainda destacaram-se nos campos de batalha. Assim foi o caso dos sol-
dados negros  oriundos da Guin, do Congo e de Madagascar  dos batalhes
Saxe-volontaires, que se cobriram de glria na Europa do sculo XVII7.
    O negro mais famoso do Exrcito francs foi Alexandre Davy Dumas, de
pai francs e me escrava e negra. As seguintes geraes da famlia Dumas
ficaram famosas nas carreiras militares e literrias. Contudo, a grande maioria
dos africanos que residiam na Frana era de empregados domsticos, cuja vida
no era to difcil quanto aquela de seus irmos escravizados.
    Um grande nmero de africanos chegou  Frana a partir do fim do sculo
XVII, e, durante o sculo XVIII, a poltica real permitiu aos franceses donos de
escravos na Amricas traz-los de volta para a Frana. Foi assim que os franceses
comearam a acostumar-se  presena dos negros entre eles.
    Existem muito poucos escritos relativos  presena africana em outras regies
da Europa. Sabe-se, contudo, que um certo nmero de africanos, particular-
mente emissrios e peregrinos etopes, foram para a Europa no fim da Idade
Mdia. No sculo XV, viviam em Veneza, no Vaticano e em algumas cidades
vizinhas, monges etopes, assim como outros africanos, inclusive escravos8.
    Os venezianos eram ao mesmo tempo mercadores e donos de escravos.
Parece que a maioria desses escravos era de origem europia e asitica, mas

7   I. B. Kake, 1948, pp. 73-85.
8   T. Tamrat, 1977; W. L. Hansberry, 1965.
140                                                                frica do sculo xvi ao xviii




Figura 5.1 General Alexandre Davy Dumas, 1762-1806. [The Moorland-Spingarn Research Center,
Howard University, Washington, D. C.]



alguns, porm, eram africanos. De fato, a queda de Constantinopla acarretou
uma diminuio do trfico no Mar Negro e o conseguinte crescimento do
trfico de africanos. A maioria dos escravos africanos teria sido adquirida nos
portos egpcios, o que permite pensar que provinham em grande parte da bacia
do Nilo, no Sudo9.
    A raridade das fontes no nos permite esboar o quadro geral da vida dos
africanos em Veneza e nas regies vizinhas. Segundo alguns testemunhos,

9     R. Smith, 1979.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                                      141



teriam sido assimilados pelas famlias locais, o que poderia explicar seu desa-
parecimento quase total at o fim do sculo XVIII. Outrossim, convm acres-
centar que a proibio da prtica de algumas profisses exercidas pelas pessoas
de condio servil foi provavelmente prejudicial aos escravos e aos serviais
africanos. Todavia, alguns observadores destacaram que os escravos gozavam
da proteo da lei. Todos deviam ser batizados, o que talvez contribusse para
o abrandamento de sua situao10. No entanto, a escravido era um estado de
servido e de desigualdade que, associado  coero fsica e psicolgica, deveria
ser estudada mais adiante a fim de inferir concluses definitivas.
    , contudo, nas Amricas que se observaram os mais determinantes e dram-
ticos efeitos da disperso dos africanos11. Durante a maior parte do sculo XV, o
trfico negreiro, por ser ligado ao desenvolvimento das plantaes portuguesas
no Brasil, e holandesas nas Guianas, permaneceu essencialmente limitado ao
Caribe e  Amrica Central e do Sul. A seguinte fase deste trfico, no sculo
XVI, coincidiu com a participao africana na explorao das Amricas. Trinta
africanos acompanharam Balboa, quando de sua viagem exploratria ao Mxico,
onde um deles teria semeado trigo e colhido a primeira safra. Da mesma forma,
duzentos africanos participaram da expedio de Alvarado, em Quito, e outros,
daquela de Pizarro, no Peru. Os mais famosos dentre eles foi sem dvida Este-
vanico, que desempenhou um papel importante na explorao do Novo Mxico
e do Arizona pelos espanhis. Africanos tambm participaram das expedies
francesas no Canad (principalmente junto aos missionrios jesutas), bem como
da conquista do vale do Mississippi12.
    No ano de 1619, uma nau holandesa desembarcou vinte negros em James-
town, para trabalharem como empregados domsticos contratados. A introduo
de tal mo de obra despertou a demanda por trabalhadores negros, e vrias
prticas foram institudas para limitar sua liberdade, notadamente aquela de
escolher livremente seu trabalho. Tal situao acarretou a institucionalizao da
escravido nas colnias inglesas da Amrica do Norte, em 1660. No fim deste
mesmo sculo, o africano foi legalmente reduzido  condio de escravo, de mero
objeto, que o senhor podia dispor a seu bel prazer, sem nenhum respeito com sua
qualidade de ser humano. No se podia tampouco esperar que o Estado limitasse
tal explorao. Esse sistema de sujeio visava a garantir um rendimento econ-
mico mximo, baseando-se na crena dos Europeus na inferioridade intrnseca

10   Ibidem, pp. 53 e 57.
11   Entre as fontes s quais se pode referir figuram J. E. Inikori, 1982, e P. D. Curtin, 1969.
12   R. W. Logan, 1940; J. W. Johnson, 1941.
142                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



do africano pelo simples fato de sua cor de pele e de suas feies fsicas, crena
esta que tinha valor de argumento13.
    Nessa mesma poca, a Inglaterra e a Espanha lutavam em prol do domnio
do Caribe. A Inglaterra tomou Barbados em 1627, e a Jamaica em 1655. As
plantaes locais exigiam uma mo de obra importante, que decuplicou ao longo
de quarenta anos, graas  chegada de um grande nmero de escravos de Angola,
Costa do Ouro, Congo, Nigria, Daom, e aps 1690, de Madagascar.
    Durante as ltimas dcadas do sculo XVII, ingleses e franceses confirmaram
sua supremacia no Caribe. Em Barbados e Jamaica, a escravido desenvolveu-
-se rapidamente e serviu de modelo para a Amrica do Norte. Ademais, no
Caribe apareceram centros de "adestramento", onde os escravos africanos eram
"domados". Porm, pelo fato de um grande nmero desses africanos "adestra-
dos" conhecer bem as condies que reinavam na ilhas caribenhas, e participar
algumas vezes de conspiraes e revoltas, eles serviam tambm como modelo
de resistncia para os escravos da Amrica do Norte.
    As mais frequentes e graves conspiraes e revoltas de escravos, que repre-
sentavam a forma ltima da luta para se libertar da escravido, ocorreram
geralmente nas regies com uma importante densidade de escravos negros. Na
Guiana britnica, por exemplo, os escravos chegaram a constituir at 90% da
populao total. Eram tambm muito numerosos na Jamaica, no Brasil e em
So Domingos (Haiti), e em menor escala, em Cuba. Por outro lado, nos Esta-
dos Unidos, os escravos apenas eram majoritrios em dois Estados, Mississipi
e Carolina do Sul.
    Se excluirmos aquelas de So Domingos, as mais graves revoltas de escra-
vos africanos ocorridas nas Amricas foram as que ocorreram na Jamaica e na
Guiana. A primeira foi a guerra dos marrons, que estourou na Jamaica em 1725 e
na qual grupos de escravos fugiram pelas montanhas para fundar ali sua prpria
comunidade. No ano de 1739, os ingleses foram obrigados a firmar um tratado
com o capito Cudjoe, oriundo da Costa do Ouro, que aceitou entregar todos
os fugitivos em troca do direito  autonomia e  iseno de impostos.
    A Guiana, formada pelas regies de Essequibo, Berbice e Demerara, sofreu
uma srie de grandes revoltas nos sculos XVIII e XIX, as quais atingiram seu
pice em 1823.
    Na dcada de 1740, a resistncia negra levou os holandeses a firmarem um
tratado de amizade com o chefe coromanta Adoe. Este ltimo e seus seguidores

13    O livro de J. H. Franklin (1967) constitui a mais segura fonte de informao da qual dispomos a respeito
      dos negros nos Estados Unidos de Amrica.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                                             143



lanaram uma campanha de extermnio total dos europeus, porm apenas atin-
gindo uma pequena zona. Nos meados do sculo, outro grupo liderado por um
chefe coromanta tentou, em vo, tomar o poder na colnia. Mas  a dcada de
1760 que merece o maior destaque: foi marcada pela grande rebelio de 1763-
-1764, promovida por africanos e crioulos, e liderada por Cuffy. Alguns observa-
dores interpretaram tal rebelio como um preldio s revoltas de So Domingos.
Nos sculos XVI e XVII, no Mxico, importantes revoltas foram fomentadas por
escravos africanos, a fim de provocar a emergncia de comunidades africanas.
Esforos similares foram tambm promovidos pelos marrons no Panam, na
Colmbia e na Venezuela, bem como pelos negros no Peru, e pelos escravos nas
ilhas Leeward e Windward, e tambm em Cuba e outros lugares14.
    Entretanto, antes da revolta de So Domingos, foi no Brasil que a luta
armada teve maior relevncia, em termos de amplitude e durao. Revoltas de
pequeno alcance sempre marcaram a histria da escravido no Brasil; porm,
foi no Estado de Palmares que se manteve, durante quase todo o sculo XVII
(de 1605 a 1695), uma comunidade africana autnoma estimada em vinte mil
membros, em sua maioria bantos oriundos de Angola e Congo. Tentaram orga-
nizar a comunidade segundo os padres de sua sociedade de origem e resistiram
tanto aos holandeses, quanto aos portugueses, at serem finalmente derrotados
em 169515.
    Tais lutas de libertao testemunham o despertar do nacionalismo no seio
da dispora africana do Caribe e da Amrica Latina. Para os africanos, no se
tratava apenas de uma necessidade de vingana ou de fuga nas montanhas, mas
tambm, e sobretudo, de criar zonas politicamente autnomas, permitindo-lhes
defenderem-se contra seus inimigos. Nessas lutas, as religies africanas, tal como
o obeah e o culto vodu, constituram um importante fator de organizao. O Isl
desempenhou um papel semelhante, principalmente na Bahia, onde contribuiu
em unir haussas e iorubs16.
    Na mesma poca, na Amrica do Norte, os africanos fomentaram tambm
uma srie de compls, desencadeando assim vrias insurreies17. Uma grande
parte das plantaes encontrava-se longe de zonas propcias  rebelio, tais como

14   R. Price, 1973; R. Bastide, 1971; O. D. Lara, 1979; R. Mellafe, 1964; C. F. Guillot, 1961; G. A. Beltran,
     1958; M. A. Saignes, 1967; F. B. Figueroa, 1961; J. J. Uribe, 1963; F. Ortiz, 1916; E. V. Goveia, 1965;
     UNESCO, 1979.
15   C. Moura, 1959; L. Luna, 1968; S. B. Schwartz, 1970 e 1977; R. K. Kent, 1965; E. D. Genovese, 1979;
     D. H. Porter, 1970, pp. 37-40.
16   E. Ignace, 1970.
17   H. Aptheker, 1944; E. D. Genovese, 1979.
144                                                          frica do sculo xvi ao xviii



as montanhas da Jamaica ou a selva da Guiana. No entanto, muitos escravos
das colnias meridionais da Amrica do Norte resolveram se esconder junto aos
ndios ou em outras comunidades. Na Flrida, por exemplo, um grupo de escra-
vos fugiu e se juntou aos ndios seminoles, com os quais organizaram ataques
contra as plantaes vizinhas. Outrossim, no incio do sculo XVIII, diante da
possibilidade do sistema dos contratos ser substitudo pela servido vitalcia, e
aps a adoo, pelas duas Carolinas, de um sistema de produo intensiva nas
suas plantaes, aproveitando-se do estatuto dos escravos tal como existia no
Caribe, insurreies estouraram na Virgnia e em Maryland.
    Em 1730, foram descobertos compls de escravos em trs colnias  Virgnia,
Carolina do Sul e Luisiana. Os lderes eram africanos que j haviam se envolvido
em revoltas na frica Ocidental. No ano seguinte, um motim estourou a bordo
de um navio negreiro ao largo de Rhode Island, e quatro anos depois, escravos
embarcados a bordo do negreiro Dolphin conseguiram matar seus algozes com
o preo de sua prpria vida. A mais grave revolta desse perodo estourou em
1739, na Carolina do Sul, no momento em que Cudjoe colocava o exrcito bri-
tnico em dificuldade nas montanhas da Jamaica. Essa revolta ganhou o nome
de rebelio de Caton18.
    Semelhantes desordens ocorreram nas colnias setentrionais de Amrica do
Norte, isentas de plantaes, e onde no tinha mais do que trs mil africanos
para uma populao branca seis vezes maior. No ano de 1712, um grupo liderado
por um africano da Costa do Ouro tentou incendiar a cidade de Nova Iorque.
Boston sofreu semelhantes fatos em 1723. Em 1741, africanos tentaram de novo
pr fogo em Nova Iorque. Porm, as circunstncias deste novo episdio, que
obteve, na poca, uma forte repercusso, ainda so objeto de anlises divergentes.
Dois anos antes da ratificao da Declarao de Independncia, Boston sofreu
de novo graves distrbios. Vale destacar que este primeiro ciclo de conspiraes
e revoltas na Amrica do Norte deveu-se, em geral, a africanos recm-chegados
na Amrica, e que ainda lutavam contra a servido. Em 1772, em vrias regies
das colnias americanas, alguns propuseram a deportao de todos os negros
alforriados para a frica ou s Antilhas, por serem considerados os instigadores
da resistncia19. Aqueles que eram presos por causa de suas atividades subversivas
eram submetidos a tratamentos brutais e enforcados. Ao contrrio do Caribe,
as condies especficas da Amrica do Norte ofereciam aos escravos uma certa
margem de manobra. Na zona setentrional das colnias norte-americanas, por

18    Ibidem.
19    Ibidem.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                 145



exemplo, existia uma real possibilidade de fuga. Tanto no norte como no sul,
bem como no Canad, diferentes grupos de Europeus, tais como os Quaker,
opunham-se  escravido e eram prestes a ajudar os fugitivos. Todavia, entre
1700 e 1750, vrios africanos da Amrica do Norte foram, ao que tudo indica,
influenciados pelas rebelies dos marrons do Caribe.
    Entre os anos de 1750 e 1775, chegaram ao pice os eventos decisivos ao
destino dos africanos, tanto na Amrica do Norte, quanto no Caribe. A afirma-
o da supremacia britnica coincidia com o desenvolvimento do movimento
antiescravagista na Gr-Bretanha. Tal situao houve como consequncia a
ratificao, em 1772, do Decreto de Lord Mansfield, segundo o qual se tornava
ilegal submeter um indivduo  escravido nas Ilhas Britnicas. Entre os brancos
das colnias americanas criou-se um movimento em favor da independncia
poltica em relao  Coroa. Isso provocou um debate filosfico a fim de deter-
minar se os negros tambm deviam ser, ou no, livres.
    As colnias norte-americanas proclamaram a Declarao de Independncia
em 1776. Contudo, j fazia tempo que vrios africanos, que l viviam, exigiam
sua liberdade. Portanto, os africanos instrudos, quer fossem escravos ou alfor-
riados, encontraram-se, naturalmente, do lado dos europeus para reivindicar
seu direito  liberdade. Alguns desses africanos combateram os ingleses ao lado
dos brancos. O negro Crispus Attucks foi a primeira vtima da luta contra a
Inglaterra, em 1770, que constituiu o preldio  Guerra de Independncia, no
decorrer da qual vrios negros tomaram as armas e entraram para a histria
com seus nomes africanos. Alguns desertaram e os ingleses concederam-lhes
a liberdade20.
    Em So Domingos, colnia francesa onde a populao mestia tornara-se
significativa, formou-se um grupo de voluntrios de cor, a fim de apoiar os colo-
nos que lutavam contra os ingleses em Savannah, na Gergia. Na Amrica do
Norte, a luta pela liberdade comeara, porm, de maneira singular: os europeus
da Amrica queriam se libertar da tutela britnica, ao passo que os africanos
deviam lutar em duas frentes para se libertar de uma dupla dominao, ou seja,
a dos ingleses e a dos colonos americanos.
    Os africanos da dispora americana faziam parte integrante de um mundo
dominado pela hegemonia europia, e no qual potentes foras econmicas e
intelectuais tentavam reorganizar as estruturas polticas e sociais. Alguns afri-
canos, por entenderem o jogo dessas foras e estarem presentes e ativos no seio


20   B. Quarles, 1961, constitui a melhor fonte a esse respeito.
146                                                          frica do sculo xvi ao xviii



desse sistema europeu, influam nas decises tomadas pelos europeus.  inegvel
que eles estavam divididos: alguns eram convencidos que a salvao passava pela
assimilao dos valores e dos ideais europeus, enquanto outros, ao contrrio,
queriam afirmar sua africanidade, sendo por isso prestes a arriscar suas vidas, a
fim de protestar e resistir  represso a eles imposta pelos europeus.
    Um dos caminhos da salvao consistiu na experincia levada a cabo em Serra
Leoa, aps a deciso judicial de Lord Mansfield, que em 1772 estabeleceu que um
dono de cativos no podia obrigar seus escravos a deixarem a Inglaterra. Conse-
quentemente a esta medida judicial e ao fluxo de africanos  alforriados por terem
combatido, junto aos ingleses, contra as foras independentistas americanas , uma
importante comunidade negra constituiu-se em Londres. Os abolicionistas tenta-
ram ento pr em prtica a ideia que consistia em reinstalar na frica os africanos
libertos. Esperava-se que uma sociedade baseada no trabalho livre difundiria o
cristianismo, desenvolveria uma economia de tipo ocidental, bem como contribui-
ria  abolio do trfico. Dessa forma, em 1787, mais de quatrocentos africanos
alforriados foram enviados a Serra Leoa, para l se instalarem. Pela primeira vez,
a ideia do regresso coletivo dos antigos escravos africanos concretizava-se.
    A primeira tentativa neste intuito, organizada e financiada por africanos,
ocorreu nos Estados Unidos e foi liderada por Paul Cuffee. Ele impressionara-
-se com as perspectivas abertas pela experincia de Serra Leoa, empenhando-se
em reunir os negros que almejavam voltar  frica. Alm disso, Cuffee queria
tambm desenvolver as trocas comerciais com o continente africano. Alm do
regresso  frica de 38 negros, em 1814, foram poucos os efeitos imediatos
dos ideais e dos esforos de Cuffee. Contudo, seu exemplo serviria de fonte de
inspirao s futuras geraes21.
    Ao passo que os europeus dos Estados Unidos estavam formando uma forte
comunidade e criando instituies refletindo sua cultura e sua independncia, os
africanos, cujos sentimentos de desencanto e de decepo eram reforados pelo
orgulho racial, tambm implementaram suas prprias estruturas. Comearam a
designarem-se como "africanos", passo este de grande importncia se levarmos
em conta o fato da maioria deles ter sido arrancada de suas famlias quando
criana, tirando-lhes assim os fundamentos necessrios  clara definio de sua
identidade tnica. Os estatutos vigentes proibiam aos negros falarem os idiomas
africanos e praticarem suas religies, enquanto a venda de escravos frequente-
mente dividia as famlias.


21    H. N. Sherwood, 1923.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                 147



    Todavia, em 1787, no intuito de protestar contra a poltica de segregao que
tentava isolar os negros em uma igreja voltada para os interesses dos brancos,
um pastor metodista africano dos Estados Unidos, Richard Allen, deixou essa
igreja para fundar a Free African Society, cujos objetivos eram ao mesmo tempo
religiosos e sociais. Em outras regies dos Estados Unidos, os africanos seguiram
o mesmo movimento e deram, em alguns casos, o mesmo nome a suas associa-
es benevolentes. Na mesma poca, Prince Hall, pastor e homem de negcios
de Boston, oriundo de Barbados, havia sido admitido no seio da Maonaria por
soldados britnicos, quando da Guerra de Independncia. Tentou, em seguida,
obter o direito de fundar uma loja manica, cujos membros seriam negros
alforriados. Diante da recusa dos maons brancos, endereou-se aos maons de
rito escocs, que lhe outorgaram a autorizao de organizar uma loja africana,
da qual ele seria o Venervel. Pela primeira vez, aparecia uma confraria de estilo
ocidental composta por negros. Em algum sentido, tratava-se para estes de dar
continuao a um costume africano, ou seja, a constituio de sociedades secre-
tas. Tais atividades deram origem ao que constituiria as mais potentes institui-
es de afro-americanos no sculo XIX  as lojas manicas e as organizaes
religiosas  que uniram os negros em escala nacional22.
    Em 1787 nasceu outra importante instituio, a iniciativa, no dos negros,
mas de brancos pretendendo ajud-los. Trata-se da Free African School de
Nova Iorque, fundada pela Manumission Society e composta por quarenta
estudantes.
    Colocando-se sob o signo da frica, os negros afirmaram assim sua vontade
de asseverar sua identidade, com base nas suas tradies e culturas de origem.
Entretanto, tais organizaes defendiam valores ocidentais, tais como a pou-
pana, a teologia puritana, a promoo do indivduo pelo trabalho e a instruo,
a ateno dada s pessoas desfavorecidas e a ideia segundo a qual era preciso
colocar-se ao dispor da sociedade. Tais eram, por exemplo, as motivaes de
George Liele, o fundador, no fim do sculo XVIII, das Igrejas Batistas nos
Estados Unidos e na Jamaica. Muitos africanos aproveitaram-se dessa corrente
de pensamento para defender os interesses de seus congneres em outras regi-
es. Essas aes inovadoras, levadas a cabo por negros americanos, favoreceriam
ulteriormente a emergncia de uma identidade comunitria nos Estados Unidos,
no Caribe e na frica.




22   A. Hill e M. Kilson, 1969.
148                                                                                    frica do sculo xvi ao xviii



    A maioria das eminentes figuras afro-americanas dessa poca eram autodi-
datas ou apenas frequentaram a escola durante alguns anos. Isto no impediu,
por parte de alguns deles, a realizao de grandes feitos: Phyllis Wheatley, nas-
cida na frica por volta de 1753, tornou-se uma poetisa renomada; Gustavus
Vassa, nascido no Benin em 1745, deportado para a Amrica e depois para a
Inglaterra, participou ativamente do movimento antiescravido e escreveu uma
obra capital na luta contra a escravatura, The interesting narrative of the life of
Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, the African.23 Benjamin Banneker, s vezes
chamado "O Etope", tornou-se um eminente matemtico e astrnomo, alm
de ter publicado um almanaque e participado da comisso que determinou e
desenhou as plantas da cidade de Washington24.
    Os negros que viviam na Europa tambm contriburam para a luta em prol
da liberdade e da dignidade humana. Aps ter estudado nas universidades de
Halle e Wittenberg, Anton Armo voltou para a Costa do Ouro para ajudar
seus conterrneos25. Da mesma forma, Philip Quacoe e Jacobis Capitein, ambos
oriundos da Costa do Ouro, estudaram na Europa e regressaram depois ao
seu pas para trabalhar. Ottobah Cagoano, alforriado em 1772 nos termos do
Decreto de Mansfield, escreveu Thoughts and sentiments on the evil and wicked
traffic of the slavery and commerce of the human species26. Da mesma forma, as
cartas de Ignatius Sancho, publicadas aps sua morte, fizeram dele um dos mais
importantes porta-vozes dos africanos no exterior. Alm disso, vrios emissrios
africanos, dentre os quais os representantes do reino do Congo, da Etipia, da
Guin e da Costa do Ouro, foram ativos na Europa27. Nesse continente, assim
como nos Estados Unidos, os africanos em luta encontraram alguns aliados
junto aos brancos, tal como a Socit des amis des Noirs, com sede em Paris.
    Porm, foi na Amrica que a luta de libertao adquiriu uma dimenso
realmente internacional. Em toda Amrica, pequenos grupos de negros con-
quistaram sua liberdade. Alguns outros nunca haviam sido escravizados, mas
todos se esforaram para viver do seu prprio modo; e, mesmo no possuindo
a capacidade de influir na poltica geral do pas, acompanhavam com o maior
interesse a evoluo da situao dos negros no mundo. Esses negros, assim como


23    A interessante narrativa da vida de Olaudah Equiano, ou Gustavus Vassa, o africano. 1789
24    Seus contemporneos falavam de Banneker como sendo "a prova viva de que as faculdades da mente no
      tinham nada a ver com a cor da pele". Ver J. H. Franklin, 1967, p. 157.
25    A. G. Armo, 1968.
26    Pensamentos e sentimentos sobre o imoral e perverso trafico da escravido e o comrcio da espcie humana. 
27    W. Rodney, 1975; W. L. Hansberry, 1965.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                                    149




Figura 5.2 Phyllis Wheatley, domstica que se tornou poetisa renomada no sculo XVIII. [The Moorland-
-Spingarn Research Center, Howard University, Washington, D. C.]
150                                                                      frica do sculo xvi ao xviii




Figura 5.3 Benjamin Banneker, negro alforriado que se tornou um eminente matemtico e inventor. Foi
um dos criadores das plantas de Washington, D. C. [The Moorland-Spingarn Research Center, Howard
University, Washington, D. C.]



aqueles que permaneceram escravos, foram profundamente influenciados pelos
acontecimentos da ilha de So Domingos (Haiti).
   Apenas dois anos depois da adoo, nos Estados Unidos, de uma Constitui-
o justificando a escravido, quer seja moralmente ou legalmente, uma revolu-
o estourava na Frana aos gritos de "Liberdade! Igualdade! Fraternidade!". Tal
movimento abalou a estrutura da colnia francesa de So Domingos, coberta
por ricas plantaes de cana de acar e onde meio milho de escravos e 24
mil pessoas de cor alforriadas viviam sob o domnio de outros 32 mil colonos
franceses, conhecidos pela opulncia e pela crueldade com a que tratavam seus
escravos. A populao africana alforriada, dentro da qual havia alguns donos de
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                 151



escravos, levou a srio o lema da Revoluo Francesa e exigiu a igualdade total
com os brancos. Logo depois, em 1791, a grande massa dos negros comeou
a se agitar, sob a influncia de um trabalhador agrcola analfabeto, Boukman,
que usava de um ritual vodu para garantir a fidelidade de seus seguidores, com-
prometidos,  maneira africana, por um juramento secreto. Instigou-os assim a
se rebelar contra seus donos. O governo revolucionrio de Paris decidiu enviar
um exrcito a fim de restabelecer a ordem. Ento apareceu na cena poltica um
personagem fora do comum: um escravo culto e cristo, nascido na dispora de
pai africano e exercendo as funes de cocheiro, Toussaint, que adotou depois
o nome de Louverture28.
    Toussaint pediu  populao que apoiasse seu pequeno exrcito atravs de
aes de guerrilha. Ele demorou cinco anos para vencer as tropas de Napoleo,
com a ajuda da febre amarela, restabelecendo a ordem e a prosperidade no Haiti.
Foi aclamado no mundo inteiro por seu gnio militar, suas capacidades de admi-
nistrador, sua humanidade e sua habilidade poltica. Sua reputao alastrou-se
rapidamente e alcanou os negros dos Estados Unidos, graas aos marinheiros
negros que desempenharam um papel importante na difuso das informaes
no mundo negro.
    O sucesso do movimento de libertao africano no Haiti provocou um sen-
timento de pnico junto aos brancos dos Estados Unidos, que temiam que os
afro-americanos tambm reivindicassem eles mesmos sua liberdade. Criou-se
uma legislao mais rigorosa, reforaram-se os controles de polcia e tomaram-se
medidas com vistas a restringir a liberdade de movimento dos negros no pas e a
impedir a chegada de novos imigrantes negros, particularmente daqueles prove-
nientes do Haiti. Entretanto, os sucessos dos negros do Haiti deram ideias a seus
irmos dos Estados Unidos. Assim, tanto o Haiti quanto Toussaint Louverture
tornaram-se smbolos para os negros que, em outras regies das Amricas e do
Caribe, almejavam a liberdade, e at mesmo a independncia.
    Um acontecimento de grande porte marcou o incio do sculo XIX nos Esta-
dos Unidos. Um pastor negro, Gabriel Prosser, organizou uma marcha sobre Rich-
mond, na Virgnia, e passou a liderar os pouco mais de mil escravos marchando
sobre a cidade. Com essa marcha, almejavam obter a sua liberdade. No entanto, a
notcia espalhara-se e o governador teve o tempo suficiente para chamar a milcia
a fim de restabelecer a ordem. Vrios negros  inclusive Prosser  foram detidos e
executados. Contudo, o exemplo e o legado do Haiti permaneceram vivos.


28   C. L. R. James, 1963; P. M. Fontaine, 1970.
152                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




Figura 5.4 Toussaint Louverture, de Haiti. [The Moorland-Spingarn Research Center, Howard University,
Washington, D. C.]




   O alvorecer do sculo XIX abriu uma nova era para os africanos que viviam
na Europa e nas Amricas. Quaisquer que fossem as diferenas, em termos de
sua aplicao, entre as legislaes europias e americanas relativas aos negros
escravizados e alforriados, as atitudes permaneceriam fundamentalmente as
mesmas. Os diferentes sistemas jurdicos em vigor, tanto na Europa, quanto
na Amrica, no concediam aos negros nem a igualdade, nem uma verdadeira
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                  153



liberdade, mesmo que tenha havido vrios exemplos de uma maior flexibilidade
e de um sensvel abrandamento de sua condio. Mesmo quando era proibido
pela lei, os negros aprendiam a ler e escrever, havia casamentos inter-raciais 
ainda que essa ideia repugnasse a maioria da populao  e as viagens, locais ou
internacionais, facilitavam a criao de verdadeiras redes de relaes. Entretanto,
os africanos da dispora sabiam que permaneciam prias em terra estrangeira.
Alm disso, percebiam que sua condio de deserdados era a consequncia direta
de seu pertencimento a uma raa e a uma cultura africanas. Da a aspirao,
norteando suas tentativas de organizao comunitria, a salvar o povo negro e
sua herana. Tal unidade psicolgica continuou prevalecendo: tornou-se uma
fonte de fora junto aos povos africanos e deu finalmente origem ao movimento
pan-africano dos sculos XIX e XX.
    Todavia, os africanos da dispora no puderam livrar-se da influncia do
ambiente fsico e social do lugar onde haviam sido transplantados. Sua lngua
e seus costumes mudaram, seus valores e objetivos transformaram-se. Sua ideia
do mundo, de eles prprios e dos outros foi modelada por vrios sculos de
impregnao da cultura euro-americana e a lembrana de sua herana africana,
ainda que firmemente ancorada neles, acabou se ofuscando, velada por anos
de ausncia e afastamento. Na Europa e na Amrica, os africanos da dispora
tornaram-se, assim, intermedirios culturais entre os africanos autctones e os
euro-americanos.


    A sia
   Ao passo que a migrao forada dos africanos na Europa e nas Amricas
constitui um captulo relativamente recente da histria mundial, o comrcio de
escravos na sia representa, por sua vez, um fenmeno histrico permanente
muito mais antigo. O priplo do Mar da Eritreia, escrito por volta do ano de 50
a.C., mostra-nos que j se exportavam escravos do Chifre da frica, e no h
porque pensar que este foi o primeiro exemplo de trfico negreiro.
    bastante provvel que os contatos e as trocas entre os povos vivendo dos
dois lados do Mar Vermelho datem da poca da pr-histria. Porm, a partir do
sculo VII, com o advento do Isl, um processo de unificao cultural instaurou-
-se na zona do Oceano ndico e do Mar Vermelho. Algumas cidades costeiras
da frica Oriental foram islamizadas, e os muulmanos desempenharam um
papel cada vez mais determinante no mbito comercial, inclusive no que tange
ao trfico de escravos. As revoltas dos Zandj que estouraram na Mesopotmia,
154                                                                                          frica do sculo xvi ao xviii




                                                                              RSSIA
                                     INGLATERRA
                                       FRANA
                   ESPANHA                ITLIA

            PORTUGAL              Mar M
                                       edite                                                                 CHINA
                                            rrn
                                                   eo
                                                                       PERSIA
                                 Trpoli
                          OS
                        OC


                                Bengasi
                      RR




                                                                    Golfo                     NDIA
                                                        EGITO
                    MA




                                                                   Prsico           Mar
                                                            Mar                    Arbico            Golfo de
                                                        Vermelho                                      Bengala
                                      FRICA
                                                             ETIPIA
 Equador

                                                                   Zanzibar           OCEANO NDICO
         OCEANO ATLNTICO




                                                                               0              2 000 milhas

                                                                               0              3 000 km




Figura 5.5 A frica, a Europa e a sia. Fonte: segundo um mapa estabelecido pelo Dr. Dulal C. Goswani,
Departamento de Geologia e de Geografia, Universidade Howard, Washington, D. C.



no sculo XI, demonstram bem a importncia de tal fenmeno nas diferentes
regies da sia. O extermnio dos Zandj no pode nos deixar esquecer que sua
revolta contribuiu  runa do califado abssida, bem como ps fim  construo
de barragens no sul do Iraque, atividade esta considerada por H. Deschamps
como "o primeiro modelo de grande empreitada tropical edificada por queiras
de escravos negros". Um pouco mais cedo, no sculo VIII, dois escravos negros
foram vistos na corte do Imperador da China e, no sculo XII, moradores de
Canto costumavam usar a mo de obra servil africana29. Alguns escritos da
poca lembram-nos que o comrcio dos escravos oriundos da frica Oriental
prosseguiu de maneira ininterrupta. Al-Mas`d o mencionou no sculo XI,
assim como Al-Idrs no sculo XII, e no sculo XIV, Ibn Battta descreveu a
prosperidade de Kilwa, que devia muito ao trfico negreiro.


29    UNESCO, 1979 e 1980; C. M. Wilbur, 1967, p. 93; E. Bretschneider, 1871, pp. 13-22. No que diz
      respeito  dispora africana na Arbia e na sia antes do perodo aqui em foco, ver UNESCO, Histria
      geral da frica, vol. III, captulo 26, que trata dessa questo.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                                      155



     pena que os historiadores da dispora africana no tenham estudado
melhor a regio da costa setentrional do Mar Mediterrneo. Particularmente,
nesse ponto de vista, a Turquia e os pases vizinhos mereceriam um estudo apro-
fundado, pois essa regio constituiu durante sculos uma importante reserva de
escravos provenientes de Tripoli e Bengasi, assim como uma zona de trnsito
para o trfico a destino das regies do interior. A esse respeito, em 1696, a com-
pra em Constantinopla de alguns jovens africanos para o Imperador da Rssia
 Pedro, o Grande  merece destaque, j que entre eles figurava Abram Petro-
vitch Hannibal, o bisav de Aleksandr Pushkin. Ao que tudo indica, Hannibal
teria nascido na Etipia, onde fora capturado pelos Turcos. Ningum sabe dizer
quantos escravos africanos chegaram  Rssia e nas regies vizinhas, passando
pela Turquia, mas foram provavelmente poucos. Essa situao, assim como o
fato da escravatura ter sido abolida na Rssia no decorrer do primeiro quarto do
sculo XVIII, explicam talvez porque os africanos desse pas eram empregados
domsticos, e no escravos30. Ainda que insuficiente, a documentao ao nosso
dispor permite, contudo, pensar que a escravido e a coero a ela ligada no se
desenvolveram na Rssia.
    A maioria dos escravos importados para a sia eram crianas, com um
nmero maior de meninas do que meninos. Embarcados nos portos da costa
oriental da frica, os escravos eram habitualmente transportados at al-Mukha
(Moca), porto rabe do Mar Vermelho. A partir de l, muitos deles eram enviados
a al-Hudaydah (Hodeida), Djeddah, Meca e outros armazns da Arbia. Outros
eram mandados ainda para os portos do Golfo Prsico, tais como al-Sharjah, Sur,
Mascate, Bandar Abbas, Bandar Lengeh, Bahrein, Bushehr, Kuwait e Bassor.
Em geral, os portos indianos recebiam suas cargas de al-Mukha ou do Golfo
Prsico, porm, em alguns casos, chegavam diretamente da frica Oriental. Dos
portos indianos, podemos citar Bombaim, Goa, Surat, Karikal, Pondicherry,
Calcut e diferentes pontos da costa do Kutch, do Gujarat e do litoral da sia
do Sudeste e da China, assim como algumas ilhas do Oceano ndico31.
    Na Arbia, Om ocupava uma posio chave na estratgia martima e comer-
cial do Oriente Mdio e constitua o principal instrumento da participao rabe
no trfico negreiro. Sua capital, Mascate, controlava o acesso ao Golfo Prsico,
por onde passavam um grande nmero de escravos africanos. Em 1784 e 1785,
os rabes de Om conquistaram sucessivamente os portos de Kilwa e Zanzibar,


30   Pushkin celebrou sua herana africana em um de seus poemas; ver D. Magarshack, 1969, pp. 12-17; A.
     Perry, 1923; B. Modzalevskii, 1907; N. Malevanov, 1974; B. Kozlov, 1970; A. Blakeley, 1976.
31   J. E. Harris, 1977, pp. 264-268.
156                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



na costa oriental da frica. A partir de ento, tomariam posse de algumas outras
cidades da costa. Depois do sulto de Om ter assumido o controle de Zanzibar
e de outras regies da costa oriental da frica, no fim sculo XVIII, cada vez
mais escravos foram necessrios para colher o cravo e os cocos das plantaes
rabes da regio32.
   No Imen e no Hadramaute viviam comunidades oriundas da frica Negra,
cuja implantao datava de uma poca longnqua. Ao que tudo indica, tais
comunidades seriam essencialmente oriundas da Etipia. Em den, uma delas
constitua um grupo comparvel  casta dos intocveis da ndia. Em outras
regies da Arbia do Sul, escravos negros da frica serviam nos exrcitos dos
sultes locais. Encontravam-se tambm entre eles concubinas e domsticos,
eunucos, marinheiros e lenhadores, administradores e trabalhadores agrcolas,
trabalhando nas salinas e nas plantaes de cana-de-acar e de tmaras33.
   Os africanos foram espalhados em vrias ilhas do Oceano ndico. Os holan-
deses procuravam escravos na frica Oriental e em Madagascar para lev-los
para a Indonsia. Os franceses e os ingleses fundaram colnias de escravos,
oriundos de frica Oriental, na Ilha Bourbon (atual Reunio), e na Ilha Maur-
cio do arquiplago de Mascarenhas. De fato, um observador notou que, de 1670
a 1810, importou-se em Mascarenhas por volta de 160 mil escravos oriundos
de Madagascar, da costa oriental da frica, da frica Ocidental e da ndia.
No que diz respeito  Ilha Bourbon, estima-se que, em 1808, o nmero de
escravos era de 53.726, sendo sua maioria oriunda de Madagascar e Moambi-
que34. O avano do trfico negreiro no sculo XIX favoreceu o desenvolvimento
das comunidades africanas das ilhas Mascarenhas. Porm, antes desse perodo,
constitura-se uma comunidade de crioulos, de notvel influncia, no decorrer
dos sculos XIX e XX. Sabe-se tambm que africanos foram at a Malsia com
mercadores e peregrinos muulmanos que voltavam de Meca35.
   A presena de escravos africanos parece ter sido um pouco mais substancial
na sia do Sul do que nas outras regies do continente36. Isso se deu provavel-
mente pelo fato de as relaes comerciais com a frica serem mais antigas e
intensas, comparativamente a qualquer outra regio. O domnio exercido pelos

32    Para mais detalhes, consultar o captulo 25.
33    R. B. Serjeant, 1967, pp. 67 e 287; J. E. Harris, 1971, pp. 39-41.
34    UNESCO, 1979.
35    R. Maxwell, 1932. Trata-se aqui de outra questo, merecedora de um estudo mais aprofundado.
36    Na poca, o imenso territrio hoje representado pela sia do Sul no estava unificado. Era composto por
      um mosaico de entidades tnicas e polticas diferentes. Sendo a ndia o maior pas a ocupar esse territrio
      e englobando a maioria das regies evocadas neste captulo, decidimos empregar aqui tal designao.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                                          157



muulmanos sobre a prspera costa ocidental da ndia, assim como a presena
indiana na frica Oriental, explicariam essas relaes privilegiadas. De qualquer
forma, a partir do sculo XIII, houve muitos escravos africanos na ndia. Dessa
forma, a Rainha Raziya, que reinava no sultanato de Deli, foi seduzida por um
escravo habsh (africano)37, chamado Djalalud-ud-dn Ykt, por ela nomeado
mestre dos estbulos reais. Outro africano, Mlik Sarvar, escravo do sulto
Muhammad de Deli, tornou-se vice-sulto em 138938.
    A segunda metade do sculo XV testemunhou o estabelecimento da presena
africana em Bengala, no norte da ndia. L haviam emigrado africanos provindos
da zona costeira de Calcut, da regio de Daca e outras provncias. O soberano de
Bengala, Rukn-ud-dn-Barbak (1459-1474), costumava confiar altos cargos, na
administrao e no exrcito, a africanos que lhe eram leais. Dessa forma, dentre seus
oito mil escravos-soldados africanos, encontravam-se vrios oficiais de alto escalo.
    A morte de Barbak marcou o incio de um perodo de instabilidade. Em
1486, Shhzda, um eunuco responsvel pelos guardas do palcio, tomou o
poder com um grupo de africanos e atribuiu-se o ttulo de Barbak Shah. No
entanto, foi logo assassinado por Amir-ul-Imona Malih Andil (Indl Khn),
tambm africano, mas que permaneceu fiel ao antigo soberano. Indl Khn
tornou-se Saif-ud-dn-Firuz e reinou durante trs anos. Quando da sua morte,
foi sucedido por Nasr-ud-dn, um jovem menino ainda menor de idade, e cuja
identidade permanece incerta. Sabe-se contudo que o regente, Habesh Khn,
era africano. No ano de 1490, outro africano, soldado da guarda real, Sd Badr,
apossou-se do poder com um exrcito de trinta mil homens, cinco mil Etopes
dos quais, subiu ao trono e tornou-se Hams-ud-dn Ab Nasr Muzaffar Shah.
Aps sua morte, em 1493, os africanos foram afastados das funes por eles
ocupadas e expulsos do reino. Todavia, ainda que no tenham exercido o poder
por muito tempo, sua influncia foi notvel nessa poca39.
    No Gujarat, africanos serviram o exrcito a partir do sculo XIII, ou talvez
antes disso. Nessa poca, representavam um importante fator poltico e econ-
mico para a regio. Em 1576, o governo do Gujarat teria pagado um tributo de
quatrocentos escravos, "filhos de chefes hindus e de abissnios"40. Alguns desses
africanos eram descendentes dos negros capturados e reduzidos  escravido


37   Habsh e siddi so dois termos substituveis entre si, com os quais designavam-se os africanos na sia.
     Para um esboo histrico geral dessa questo, ver J. E. Harris, 1971.
38   R. C. Majumdar, 1951, pp. 186-187 e 698-702; W. Haig, 1937, vol. III, pp. 251-252.
39   Ibidem, pp. 214 e 215.
40   K. K. Basu, 1932.
158                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



quando da invaso da Etipia pelos rabo-muulmanos, em 1527. No ano de
1531, outros foram levados ao Gujarat por Mustaf bin Bahrm, um capito
do exrcito turco que ajudava os indianos muulmanos a defenderem-se contra
Portugal41. Em 1537, os servios governamentais da cidade de Ahmadbd
empregavam nada menos do que cinco mil africanos42. Essa primeira implanta-
o africana no Gujarat teria constitudo o ncleo a partir do qual os africanos
emigraram depois rumo a outras partes da regio43.
    No sculo XVI destacaram-se alguns desses africanos do Gujarat. Ykt
Sabit Khn Habsh (Ulgh Khn), Khayrt Khn e Jhujhar Khn foram emi-
nentes chefes militares; Ikhtiyar-ul-Mulk formou um exrcito de aproximada-
mente vinte mil homens, incluindo afegos, rajputs, gujaratis e africanos, para
enfrentar as tropas de imperador mongol Akbar. Ikhtiyar foi derrotado, mas
ganhou a estima de Akbar e dos gujaratis. Um ex-escravo africano, Shaykh
Sayyid al-Habsh Sultani, serviu como soldado no exrcito de Jhujhar Khn.
Uma vez terminada sua carreira militar, ele fez a peregrinao a Meca, e em
seguida, desmatou e explorou as terras por ele compradas, o que lhe permitiu,
diariamente, oferecer comida a centenas de miserveis. Ademais, fundou uma
biblioteca que atraiu numerosos eruditos44.
    Em 1573, Sayyid (Sa`d) mandou erguer uma mesquita em Ahmadbd e o
cronograma de sua construo era assim concebido: "Pelo amor de Deus ergueu
esta mesquita, e o construtor  Sa`d." A mesquita Sd Sa`d devia sua reputao
 simplicidade de sua concepo: um teto sustentado por arcos e lindas janelas
arqueadas, vazadas por finos entrelaos e motivos florais. James Fergusson, reno-
mado especialista em arquitetura indiana e oriental, fez o seguinte comentrio a
respeito dessa mesquita: "O talento e a justeza com as quais as formas vegetais
foram estilizadas parecem insuperveis [...] mas talvez seja, sobretudo, a maneira
com a qual o motivo se desenvolve em toda a superfcie que revela a superio-
ridade da tcnica. Nos preciosos mrmores de Agra e Deli, podemos admirar
algumas finas amostras de entrelaos, porm longe de tanta beleza45."
    Segundo Fergusson e um de seus colegas: "Tais motivos aproximam-se,
talvez, mais da obra da natureza do que de qualquer outro detalhe arquitetural


41    M. S. Commissariat, 1957, vol. II, p. 470.
42    Hadjdj al-Dabir (s. d.), pp. 407 e 447.
43    Encontram-se comentrios sobre as grandes figuras do Kutch, entre as quais alguns africanos, e minia-
      turas representando-os, no artigo de B. N. Goswamy e A. L. Ballapeceola, 1978.
44    Hadjdj al-Dabir (s. d.), pp. 441-443, 448, 471 e 508-524; E. D. Ross, 1921, vol. II, pp. 640-643.
45    J. Fergusson, 1876, pp. 236-237.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                               159



j concebido, mesmo que seja pelos melhores arquitetos da Grcia antiga ou da
Idade Mdia46."
    M. S. Commissariat notou: "Esta maravilhosa mesquita, famosa no mundo
inteiro, constitui o ltimo prodgio do grande perodo criador da arquitetura
islmica do Gujarat47."
    Outro Africano, Sd Bashr, construiu tambm uma renomada mesquita em
Ahmadbd. Era nica pelo fato de constar de dois minaretes "que tremem",
cada um composto de trs andares. Ao fazer tremer um dos minaretes, a vibrao
 transmitida ao outro. Tal estilo era completamente novo naquela poca.
    No muito longe do Gujarat encontra-se a Ilha de Janjira, antigo centro das
prsperas atividades comerciais de uma zona que se estendia a todo noroeste
da ndia e englobava a regio da atual cidade de Bombaim e a costa do Con-
can. Segundo as tradies locais, os siddi de Janjira eram os descendentes dos
africanos provenientes do Gujarat, em 1489, quando um etope a servio do
nizm (rei) de Ahmadnagr, travestido de comerciante, desembarcou na ilha
com trezentas caixas de mercadorias. Tais "mercadorias" consistiam, na reali-
dade, em soldados siddi que, uma vez recebida a ordem, tomaram posse da ilha,
nomearam um rei e fundaram assim a primeira das dinastias de nawab (reis)
siddi. A maioria dos africanos da ilha de Janjira descende provavelmente dos
escravos importados da frica Oriental48.
    A partir de 1530, os portugueses exerceram um domnio poltico e econ-
mico sobre vrias regies da costa ocidental da ndia, notadamente na costa do
Concan, onde um grande nmero de escravos africanos foi importado. Nunca
chegavam mais de seis a dez escravos ao mesmo tempo, porm as importaes
de escravos continuaram de forma quase constante at 1740, quando franceses
e ingleses ameaaram seriamente a supremacia portuguesa nos mares. Na sua
maioria, esses escravos eram oriundos do Moambique, mas os portugueses
capturaram tambm escravos africanos quando venceram os rabes de Mascate
em Diu, em 1670. Esses escravos eram habitualmente empregados no qua-
dro de atividades comerciais, agrcolas ou domsticas e para diversos trabalhos
subalternos. Alguns deles receberam uma formao de padre e de professor de
escola religiosa, principalmente em Goa, que se tornou o quartel-general dos
portugueses para suas colnias da sia e da frica Oriental.



46   J. Fergusson e T. Hope, 1866, pp. 86-87.
47   M. S. Commissariat, 1957, p. 505.
48   J. E. Harris (1971, pp. 80-87) estuda a histria de Janjira.
160                                                                       frica do sculo xvi ao xviii



    Durante todo esse perodo, a ilha de Janjira conservou sua autonomia. No
sculo XVII, os siddi, aos quais pertencia a maioria dos muulmanos da ilha,
tornaram-se os maiores proprietrios fundirios. Um conselho de ancies junto
aos principais chefes siddi escolheu um nawa para desempenhar o papel de
soberano temporal e espiritual. Com o aval do conselho, o nawab podia nomear
e revogar os funcionrios civis e religiosos. Aps terem consolidado a sua autori-
dade poltica, os siddi de Janjira estenderam sua influncia  ilha inteira e a certas
zonas das costas indianas. Graas  potncia naval, estabeleceram sua hegemonia
na costa do Noroeste. Em 1616, aliaram-se a Mlik Ambar, rei habsh do Decan,
na ndia Central. Os dois exrcitos uniram-se no combate contra os mogois,
que durou anos. O especialista indiano K. M. Panikkar sustenta que as opera-
es navais dos mestres de Janjira obrigaram os mogois a constituir uma frota
indiana. Essa afirmao demonstra a importncia do papel desempenhado pelos
siddi. Sir Jadunath Sarkar, historiador indiano especialista das questes militares,
escreveu que "os Abissnios de Janjira representavam uma potncia temvel49".
    No sculo XVII, a Companhia Britnica das ndias Orientais tentou suces-
sivas vezes negociar uma aliana com os siddi, que dominavam a costa indiana
do Concan. Entretanto, esses ltimos, como potncia independente, continua-
ram a dominar a regio, e mais tarde negociaram tambm com os holandeses.
Os ingleses s conseguiram conter sua potncia em 1759, e Janjira acabou se
submetendo  dominao colonial inglesa no sculo XIX.
    Os siddi de Janjira influenciaram consideravelmente a histria da ndia.
No se sabe exatamente como eles conseguiram manter tal supremacia sobre os
grupos autctones, mas sua religio (eles eram muulmanos) e sua superioridade
tcnica nos domnios naval e militar constituram indubitavelmente trunfos da
maior importncia.  fundamental destacar a que ponto esse pequeno grupo de
imigrantes africanos pde influir na poltica e nas aes da Gr-Bretanha, de
Portugal e da Holanda, sem mencionar os Estados indianos da regio.
    Africanos instalaram-se tambm em vrios lugares da costa do Malabar.
Nos sculos XVII e XVIII, judeus negros, descendentes de escravos africanos,
deixaram Cochin e o Kerala, no sul da ndia, para estabelecerem-se na costa do
Malabar. Trabalhavam em geral como empregados domsticos e contrataram
casamentos com os autctones e outros judeus50.
    Os portugueses obrigaram os escravos africanos a instalarem-se em diferen-
tes lugares da costa de Malabar, e principalmente nos arredores de Goa, chamada

49    K. M. Panikkar, 1945, p. 8; J. Sarkar, 1919, vol. IV, p. 237-238.
50    A. M. Pescatello, 1972.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                             161




Figura 5.6 Mlik Ambar, rei africano que reinou na ndia do sculo XVII. [The Ross-Coomaraswamy
Collections, com a amvel autorizao do Museum of Fine Arts, Boston (MA).]
162                                                        frica do sculo xvi ao xviii



a tornar-se uma das praas-fortes de Portugal no sculo XVI. Nos sculos XVI
e XVII, os escravos negros serviram o exrcito como soldados, em Goa, Ceilo,
assim como em Macau51.
    O letrado viajante italiano Pietro della Valle assinala que negros da frica
Ocidental e Oriental (oriundos da Guin e de Moambique) eram transpor-
tados por mar rumo aos territrios portugueses52. Em todo territrio da ndia
portuguesa, os escravos negros executavam as tarefas domsticas, inclusive
transportar gua em imensos vasos. Os portugueses usavam-nos tambm como
carregadores e guardas de suas escoltas. Quanto s mulheres, escolheram-nas
muitas vezes como amantes.
    Uma outra regio da ndia, o Decan, testemunhou a incrvel ascenso do afri-
cano Mlik Ambar. O etope foi vendido como escravo na Etipia, no Hedjaz, em
al-Mukha e Bagd, antes de terminar sua viagem na ndia. Ambar passou uma
grande parte de sua vida em Ahmadnagr, onde j viviam alguns milhares de afri-
canos, dentre os quais, cerca de mil foram recrutados para sua guarda pessoal.
    A importncia histrica de Ambar deve-se ao fato de ele ter se tornado o
chefe do potente exrcito de Ahmadnagr, com o qual ele repeliu vrios ata-
ques dos mongis, impedindo assim os imperadores mongis de conquistarem
o Decan. Durante quase um quarto de sculo (1602-1626), Ambar dominou
totalmente a regio de Ahmadnagr. Durante tal perodo, fundou cidades, criou
canais e sistemas de irrigao, favoreceu a expanso do comrcio com a sia e
a Europa, atraiu na sua corte eruditos e poetas e mandou construir alguns dos
mais imponentes edifcios do Decan53.
    A ao de Mlik Ambar permite destacar a importncia dos dois pontos
a seguir. Em primeiro lugar, os africanos desempenharam, como indivduos,
um papel importante na histria da ndia. Em segundo lugar, esses mesmos
africanos conseguiram o apoio e a estima de vrios indianos, sem perder suas
especificidades.


      Concluso
   Pelo fato do trfico escravagista intercontinental ter ocultado uma boa parte
da histria do povo africano,  mister sublinhar que vrios africanos viajaram,


51    C. R. Boxer, 1969.
52    E. Grey, 1892, pp. 50-51.
53    J. E. Harris, 1971, pp. 91-98.
A dispora africana no Antigo e no Novo Mundo                                163



por vontade prpria, de um continente ao outro, principalmente os comerciantes,
eclesisticos, marinheiros e aventureiros, entre outros. Se quisermos estabelecer
um quadro suficientemente completo e realista da civilizao mundial, torna-se
imprescindvel estudar essa antiga presena de negros livres no exterior.
    Porm, a presena dos negros no mundo inteiro deve-se principalmente ao
trfico intercontinental de escravos54. De fato, a natureza de tal trfico e suas
consequncias, mais especificamente na Amrica e nos Caribes, levaram os
africanos a travarem lutas por sua liberdade. Essas lutas, com o passar do tempo,
despertaram nas conscincias a preocupao generalizada da redeno da frica
e da libertao dos negros do mundo inteiro. Esse processo constituiu-se no in-
cio da poca moderna e demonstrou, por volta de 1800, uma real influncia em
escala mundial. De fato, Toussaint Louverture apareceu, nesta ocasio, como um
smbolo internacional da liberdade dos negros. Apesar da dominao colonial,
tal processo seguiu seu curso, tratando-se provavelmente da mais importante
consequncia histrica da dispora africana.




54   Ver o captulo 4.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                165



                                    CAPTULO 6


                  O Egito sob o domnio do
                     Imprio Otomano
                                           R. Vesely




   No sculo XVI, uma nova grande potncia islmica irrompeu na histria do
continente africano e dos pases rabes, qual seja, o Imprio Otomano, que, for-
mado na sia Menor e na pennsula dos Blcs, passou a controlar uma grande
parte dos pases rabes da sia Ocidental e da frica do Norte.
   Foi a partir de 1516 que o Estado dos sultes mamelucos da Sria e do Egito
comeou a desmoronar sob os golpes da armada otomana. As relaes entre os
egpcios e os otomanos estavam tensas desde 1480, porm, em 1514, aps a
primeira campanha vitoriosa empreitada pelo Sulto Selim I, a fim de acabar
com o rpido avano da potncia persa pela sua fronteira oriental, os senhores
do Egito foram levados a tomarem uma drstica posio contra a ameaa oto-
mana. Selim responderia pela fora. Dois anos depois, ao longo de sua segunda
campanha contra a Prsia, ele decide destruir, de uma vez por todas, a coalizo
mameluco-safvida (nome da dinastia Sria).
   Em 24 de agosto de 1516, uma batalha ocorreu na plancie de Mardj Dabik
, no norte de Halab, no fim da qual a armada otomana assolou as tropas
mamelucas. A vitria alcanada pelo exrcito otomano, graas  sua superiori-
dade tcnica, foi especialmente facilitada pela defeco em favor de uma frao
pro-otomana no campo mameluco: as tropas comandadas pelo emir Khyr
Bey, vice-regente de Halab, verdadeiramente, desertaram no momento crtico.
Fortalecido pela sua vitria, o Sulto Selim ocupou Damasco sem encontrar
166                                                          frica do sculo xvi ao xviii



muita resistncia e apoderou-se de toda a Sria e da Palestina at o deserto do
Sinai, fazendo da Sria um Estado-tampo entre a fronteira oriental do Imprio
Otomano e o Egito1.
    Entretanto,  evidente que os esforos dispensados pelos novos chefes a fim
de retomarem a Sria, combinados  insistncia dos conselheiros do Sulto e dos
emires mamelucos, que se juntaram ao campo otomano, aps a batalha de Halab,
e empurraram-no a coroar sua campanha com a conquista do Egito, incitaram
Selim a continuar sua marcha. Sem grande dificuldade, ele chegou ao Cairo e
derrotou as tropas mamelucas, comandadas por Tmn Bey, o ltimo dos sultes
mamelucos, em uma curta batalha ocorrida em Raydniyya, em 23 de janeiro de
1517. Foi, ento, o fim do sultanato mameluco.
    A vitria dos otomanos sobre os mamelucos no se deu apenas em razo
da superioridade militar, j que esta foi s a causa mais evidente. Alis, a razo
principal disso deveu-se  diferena das situaes econmicas e polticas entre
os dois Estados. Na Europa e na sia Menor, o Imprio Otomano esten-
dia seu domnio pelos territrios que possuam uma vida econmica evoluda,
fundada na extrao de minerais e na explorao de matrias-primas. Estas
atividades concentravam-se em um certo nmero de centros de produo, cujas
relaes comerciais internacionais eram intensas, o que abria largas perspectivas
de crescimento ao Imprio. Por outro lado, o Estado mameluco praticamente
no dispunha de nenhum recurso mineral e apoiava-se, quase exclusivamente,
na agricultura e no comrcio internacional que transitava em seu territrio,
cujo elemento principal, o comrcio de especiarias do Oriente, pouco tempo
antes, havia cado nas mos dos portugueses, gerando, assim, um rpido decl-
nio dos benefcios. Alm disso, as importaes de metais preciosos da frica
encontravam-se em clara regresso. Durante muito tempo, o Estado mameluco
esforou-se para resolver tais problemas atravs de uma utilizao sistemtica
das reservas econmicas internas, completada por confiscaes e sobrecarga
tributria, medidas que suscitavam, entre os autctones, o dio para com a casta
estrangeira dos mamelucos que os exploravam, e a esperana de uma libertao
decorrente da queda do regime.
    A vitria de Selim em Mardj Dabik, em 1516, causou profundas repercusses
para a sia Ocidental e para a frica do Norte. Ela selou o destino do sultanato
mameluco do Egito, poupando a Prsia do choque de uma nova invaso oto-
mana, e salvou a Sria de uma destruio certeira, assegurando-lhe, ao contrrio,


1     Ahmad b. al-I ladjdj Abu I Ali, 1962, p. 143.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                         167




Figura 6.1   O Sulto Selim I, conquistador do Egito. The Hulton-Deutsch Collection, Londres.




um perodo de estabilidade que lhe permitiu se reforar e, ironia do destino, at
mesmo se tornar uma ameaa permanente para os otomanos. A conquista do
Egito iria igualmente modificar a poltica otomana, a partir de ento orientada
para o domnio das rotas martimas do Mediterrneo, e levar o Imprio a empre-
ender a conquista de outros pases rabes da frica do Norte.
   Os ltimos territrios conquistados abrangiam as regies possuidoras de
grande importncia econmica, poltica, mas tambm estratgica. O Egito des-
pertava um interesse muito particular em razo de sua agricultura intensiva,
de sua numerosa populao e de sua posio no Mar Vermelho, que impunha
aos seus novos senhores a tarefa de continuar a luta contra os portugueses pela
supremacia no Oceano ndico. Alm disto, o prestgio dos sultes otomanos foi
168                                                         frica do sculo xvi ao xviii



realado pelo fato de eles terem se tornado  como antes, os sultes mamelucos
 os guardies das duas cidades santas do isl, Meca e Medina, e das rotas de
peregrinao da sia e da frica.
    Antes de abandonar o Egito, em setembro de 1517, Selim colocou Khyr
Bey, o antigo emir mameluco,  frente da provncia do Egito, decidindo mant-
-la na condio de entidade administrativa nica. O tempo que duraram as
funes de Khyr Bey pode ser considerado como o perodo da transio para
a autoridade otomana, sem concesso sobre o territrio conquistado. Khyr Bey
teve que abandonar a gesto do conjunto do territrio do antigo Egito, apesar
do fato de dispor apenas de meios limitados para sustentar sua autoridade. Ele
governou o Egito mais como vassalo do Sulto do que como administrador de
provncia, ainda que seu mandato tenha sido renovado em termos oficiais, de
forma que ele ocupou essa funo at sua morte, ocorrida em 1522. Conservou
o seu ttulo mameluco Malik al-umar (rei daqueles que comandam), mantendo
sua corte segundo o ritual dos sultes mamelucos. Tambm se cercou de antigos
dignitrios mamelucos, dispostos a servir ao novo regime, confiando-lhes no
s importantes tarefas na gesto das finanas, mas tambm cargos polticos e
militares. Ademais, as modalidades da antiga administrao no foram em nada
modificadas e o pessoal administrativo permaneceu, por assim dizer, idntico.
A organizao da justia continuou baseada em um sistema de quatro juzes
supremos, um para cada escola de direito.
    Selim entregou a renda da provncia ao inteiro controle de Khyr Bey.
Quanto s ofertas regularmente enviadas por este ltimo a Istambul, sede do
poder otomano, mais representavam presentes pagos com suas prprias fontes,
como prova de sua lealdade ao Sulto, do que tributos da provncia destinados
ao Tesouro do Estado.
    Khyr Bey empregou grandes esforos para controlar os recursos materiais
da provncia. Para conseguir isso, mas tambm para reduzir o poder poltico dos
dignitrios mamelucos, ele aboliu os ikt` (feudos) ainda existentes e os incorpo-
rou aos bens do Estado. E, em contrapartida, aos seus antigos detentores foram
atribudos salrios fixos pagos pelo tesouro provincial. Ele revisou tambm o
regime de doao. Estas medidas permitiram a realizao de um recenseamento
cadastral completo e a atualizao dos registros. Alm disso, permitiram a Khyr
Bey cumprir o dever que lhe incumbia: assegurar o abastecimento em trigo das
duas cidades santas, Meca e Medina.
    Entretanto, os poderes de Khyr Bey no eram ilimitados. O Sulto Selim
tinha deixado um forte contingente de tropas estacionadas no Egito, destinado
a consolidar o poder otomano e a dissuadir, caso necessrio, os mamelucos de
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                   169




Figura 6.2 Janzaros. Miniatura turca do sculo XVI. [Topkapi Museum, Istambul. Sonia Halliday
Photographs.]
170                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



qualquer tentativa de retomarem o poder. Estas tropas eram compostas por dois
corpos de infantaria, a saber, um destacamento de janzaros e outro de `azabn,
e por dois corpos de cavalaria, aquele dos tfenkiyn e o dos gnllyn. Aos
janzaros cabia a misso mais importante, ou seja, guardar a cidadela do Cairo,
centro administrativo, sede do governo e do Tesouro da provncia. Os azabn
eram encarregados de vigiar as rotas que conduziam ao Cairo, e de formar as
guarnies dos fortins construdos nas zonas agrcolas, a fim de assegurar a pro-
teo contra os ataques dos nmades. Os dois destacamentos da cavalaria eram
utilizados para garantir a aplicao progressiva das novas decises de Khyr Bey
sobre o conjunto do territrio egpcio. A fim de manter sua autoridade sobre
estas unidades mal disciplinadas, Khyr Bey formou suas prprias tropas de
cavalaria, recrutadas dentre os antigos e novos mamlk.
    No momento da morte de Khyr Bey, em 1522, o processo de incorporao
do Cairo, a antiga capital de um Estado independente durante sculos e levada 
posio de provncia otomana, estava plenamente lanado e tudo parecia indicar
que ele estava prestes a se realizar.


      A administrao otomana e os conflitos internos da
      classe dirigente
         O princpio do novo perodo  inaugurado pela morte de Khyr Bey 
foi marcado por uma revolta contra a supremacia otomana. Alm de uma tmida
tentativa de insurreio contra o primeiro vice-regente, organizada por dois
administradores regionais mamelucos e rapidamente reprimida, uma tentativa
mais sria de libertao do Egito tomou a forma de uma revolta, desencadeada
pelo novo vice-regente Ah,mad Pasha, em 1524. Este se proclamou Sulto do
Egito, cunhou sua prpria moeda, conseguiu o apoio de algumas "tribos" rabes
e tomou a cidadela do Cairo. Porm, em seguida, ele fora expulso do Cairo, aps
ter sido trado pelos chefes bedunos que o haviam, em princpio, apoiado2.
     luz de tais acontecimentos, tornou-se evidente que o governo de Istambul
devia definir, em termos claros, o estatuto do Egito no seio da organizao do
Imprio Otomano.  isto que foi realizado atravs de um ato jurdico especial, o
Knn Nme, que visava regulamentar a vida poltica, militar, civil e econmica
do Egito. Tal decreto introduzia, de fato, no Egito, o sistema de administrao


2     A revolta de Ahmad Pasha , em geral, ligada aos planos, tramados pelos safvidas contra os otomanos,
      que incluam atividades subversivas no Egito.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                             171



otomana. No quadro desse sistema, ao vice-regente denominado wl, que sem-
pre possura o cargo de pax, foram atribudos certos privilgios no usufrudos
pelos vice-regentes das outras provncias e que foram inspirados nas formas em
uso na corte de Istambul. O vice-regente recebeu como sede a cidadela do Cairo,
capital dos antigos sultes. Quatro vezes por semana, convocava uma reunio do
Dwn, principal conselho executivo da provncia, composto por comandantes
dos corpos de tropa, por representantes das Administraes das finanas e da
corte, por comandantes dos portos e por outros dignitrios. O prestgio ligado 
funo de wl foi ainda reforado pela criao de sua guarda pessoal, chamada
Mteferrik)as, exatamente como a guarda pessoal do Sulto em Istambul3.
    O Knn Nme retomou um certo nmero de formas e costumes adminis-
trativos dos mamelucos, em matria de administrao civil e financeira. O Egito
estava dividido em quatorze distritos sob a autoridade de um kshif, cujo cargo
consistia em manter o sistema de irrigao e arrecadar o imposto dos cultiva-
dores. A regio situada ao sul de Asyt, foi entregue  tutela dos shaykh rabes
do grupo dos hawwra que, aps 1517, obtiveram a soberania nesses territrios,
alm de serem reconhecidos por Khyr Bey como regentes do Alto Nilo.
    Uma seo importante do Knn Nme era aquela que institua oficialmente
os odjak), tropas imperiais introduzidas no Egito por Selim I4. Os janzaros
foram recompensados por sua lealdade durante a revolta de Ah,mad Pasha,
tornando-se a base principal do poder do Sulto: seu comandante, o agha, era
um dos membros mais eminentes do Dwn e, alm disso, a Moeda egpcia
estava instalada em seu acantonamento, situado bem no interior da cidadela.
Tambm os mamelucos foram recompensados pela criao de um novo odjak),
aquele dos umer-i-sherkise (emires circassianos), ao qual, progressivamente,
integraram-se os mamelucos do Cairo, assim como no odjak) dos mteferrik)a ou
naquele dos ghaushes, corpo central dos mensageiros criado pelo Knn Nme.
    Todas as tropas acantonadas no Egito recebiam um soldo regular pago pelo
Tesouro provincial egpcio. Os mais altos dignitrios  o wl, o supremo juiz
(que sozinho substitua os quatro juzes supremos) e os vinte e quatro altos
dignitrios do exrcito e da administrao, os sandjak, bey  recebiam um salrio
anual, o sliyne, pago pelo Tesouro egpcio.


3   Alm disso, a recepo de um novo vice-regente pelos dignitrios locais era regrada por um cerimonial
    especial.
4   As tropas otomanas eram compostas pelos seis odjak) seguintes: a dos mteferrik)a, dos cavushan, dos
    gnllyn, dos tfenkiyn, dos `azabn, e dos mustahfizn. Sulaymn acrescentou-lhes um stimo, aquele
    dos erkise (dos Circassianos). Ver A. K. Rafik, 1963, p. 144-146.
172                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    Tais salrios e emolumentos eram pagos com os fundos da receita do imposto
fundirio, dos impostos e direitos cobrados sobre as atividades produtoras e comer-
ciais dos habitantes dos burgos e cidades e da captao  qual eram sujeitados os
adeptos de outras religies que no o isl. Estes impostos eram arrecadados no
quadro de um novo sistema administrativo e financeiro implementado no Egito e,
em virtude do qual, cada vilarejo ou grupo de vilarejos correspondia um muk,ata`t,
ou seja, uma circunscrio simultaneamente financeira e administrativa. Cada
muk,ata`t era administrado por um responsvel civil chamado emn5. O conjunto
do sistema fiscal baseava-se no arrendamento feudal pago sob a forma de um
imposto fundirio6, arrecadado pelos administradores de cada regio. Os impostos
aplicados aos habitantes das cidades eram arrecadados pelos kshif, chamados emn
(nesse caso especfico, arrecadador), que gozavam de um salrio anual fixo, inde-
pendente do montante da receita dos impostos. A cada um dos shaykh rabes da
regio de Asyt), no quadro do sistema do iltizam, era atribuda uma circunscrio
na qual eles podiam, na condio de multazin7, arrecadar os impostos e conservar
o seu produto, desde que garantissem o trabalho agrcola e repassassem uma parte
fixa de sua receita ao Tesouro provincial, em troca do privilgio outorgado.
    A partir de 1525, o excedente obtido aps a cobertura das despesas era todo
ano enviado a Istambul e no mais ao Hedjaz. O envio regular deste hazne ou
hazine (tesouro) era uma das tarefas mais importantes do vice-regente. Ao longo
do sculo XVI, o hazine foi enviado regularmente e seu montante total ultrapassou
vrias vezes a soma acordada de 400.000 guldens8. Certa soma em dinheiro era
igualmente consagrada a compra de gneros agrcolas destinados s cozinhas do
Sulto. Ademais, o Egito cumpria suas obrigaes para com Meca e Medina9.


5     S. J. Shaw, 1962a, p. 31.
6     O rendimento do imposto fundirio no era conhecido com exatido na poca da promulgao do
      Knn Nme, pois o recenseamento cadastral ainda no estava concludo, o que no ocorreu antes de
      1576. Todavia, graas  ordem e  segurana que reinavam no Egito no sculo XVI, o campo egpcio
      prosperava e  superfcie das terras arveis acrescentavam-se terras novamente cultivadas e novos lotes.
      Razo pela qual foi apenas o plano cadastral de 1608 que apresentou o inventrio completo de todas as
      terras agrcolas.
7     Segundo o sistema do iltizam que, por volta de 1658, substituiu o sistema do mukata`t, as terras per-
      tencentes a cada vilarejo ou grupo de vilarejos eram destinadas aos leiles pblicos. Aqueles que mais
      ofereciam (multazim) adquiriam o dever de aumentar os impostos junto aos camponeses. Assim, as terras
      tornavam-se seus iltizam.
8     Correspondente a 16 milhes de paras de dinheiro egpcio.
9     Houve uma reorganizao geral do sistema de doaes, criada pelos sultes mamelucos, para Meca
      e Medina, sistema esse ampliado pelos sultes otomanos. O Egito enviava ao Hedjaz, no somente
      considerveis somas de dinheiro, mas tambm donativos no monetrios, especialmente, o trigo. Alm
      disso, tambm era enviado um donativo para a Ka`ba, extrado de uma conta dos fundos especiais.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                           173




Figura 6.3 Fachada em faiana da cmara funerria de Ibrhm, agha dos janzaros, por volta de 1062/1652,
na mesquita de Aksunkur (747/1346-748/1347). [Instituto de egiptologia, Universidade Charles, Praga.]
174                                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




           Mar Mediterrneo

                          Roseta                                                         .
                                                                                    Damieta
                                                     Lago Burulus
      Alexandria                                                               Faraskur
                                                                                              L. Manzala
                                                         Kafr
                              Lago Idfu          .
                                             Disuk
                                                      al-Shaykh
                 Lago Mareotis                                    DAKAHLIA                Matariya
                                                                    .
                                Damanhur           Mahalla                Mansura
                                             Abyar al-Kubra            Samannud
                     AL-BUHAIRA
                          .                           GARBIA
                                                          Tanta
                                                                        Mit Ghamr
                                                    MENOUFIA
                                          Shibin al-Kum
                                                                             .
                                                                         SHARKIA
                                                       Minuf
                                          Tarrana
                                                                                Bilbays

                                                                .
                                                                KALUBIA


                                                      Imbada        Bulak
      0!              60 milhas                         Guiz          Cairo
      0!               100 km
                                                                Nilo




Figura 6.4 O Baixo Egito (al-Delta). Fonte: `Abd al-Rahim, `Abd-Rahman e Wataru Miki, Village in
Ottoman Egypt and Tokugawa Japon. A comparative study, Instituto para o estudo das lnguas e culturas
da sia e da frica, Tkio, p. II. Mapa publicado com a prezada autorizao do professor Wataru Miki,
Universidade Keio, Tquio.



    O Knn Nme egpcio legalizou igualmente a arrecadao de direitos sobre
os bens pessoais considerados como um iltizam. No princpio, esta nova regu-
lamentao aplicava-se aos ativos fundirios agrcolas; depois, ela se estendeu,
ao longo do sculo XVI, a outros ativos, ligados  ascenso do poder dos odjak)
e de seus oficiais, em detrimento daquele dos representantes dos senhores oto-
manos. Aos oficiais e mesmo aos soldados de baixo escalo, foram outorgadas,
progressivamente, todas as funes, permitindo-lhes controlar as riquezas, ao
passo que os arrecadadores eram, pouco a pouco, reduzidos  condio de sim-
ples funcionrios, sem nenhuma influncia na coleta do imposto ou em qualquer
outro aspecto da poltica fiscal.
    Tal processo espelhava a mudana operada nas relaes polticas no cerne
da classe dirigente. Por volta do final do sculo XVI, o poder poltico no pas
cristalizou-se em torno de dois grupos distintos: de um lado, os depositrios
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                            175




                  Mar Mediterrneo
                                                             .
                                                        Damieta
                        Alexandria


                                                    Cairo          Suez
                                        Guiz

                          Madina al-Fayyum
                                                  Bani Suwayf
                                      Fashn



                                        Nilo
                                                Minya
                                       Rio       Malawi
                                     Manfalut
                                                       .
                                                  Assiut

                                                Tahta
                                                           Akhm m
                                                   Girga            Kena
                                                                         . .
                                                                         Kusayr
                                                   Farshut           .
                                                                     Kus          Mar Vermelho
                                     Kharga                         Thbes
                                                            Isna
                                                                      Edfu
      0               150 milhas

      0              200 km
                                                           Assu




Figura 6.5 O Mdio e o Alto Egito (al-Sad). [Fonte: `Abd al-Rahim, `Abd-Rahman e Wataru Miki,
Village in Ottoman Egypt and Tokugawa Japon. A comparative study, Instituto para o estudo das lnguas e
culturas da sia e da frica, Tkio, p. II. Mapa publicado com a prezada autorizao do professor Wataru
Miki, Universidade Keio, Tkio.]



oficiais do poder poltico, nomeados pelo governo central, tendo no topo o wl;
e, do outro lado, os odjak) e seus oficiais, alm dos sandjak, bey e seus mamlk.
Ainda que no tivesse um carter oficial, o ltimo grupo dispunha do poder
militar e econmico e, a partir do fim do sculo XVI, passou a ter uma impor-
tncia cada vez mais manifesta na vida poltica do Egito.


    A influncia otomana na frica do Nordeste
   No sculo XVI, o Egito desempenhou um papel importante na poltica expan-
sionista do Imprio Otomano. A posio geogrfica do Egito transformava-o no
intermedirio natural entre o Mediterrneo e o Oceano ndico. A rota comercial
que levava as mercadorias do Oriente para a Europa passava pelo Mar Verme-
176                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



lho e o Egito10. Na poca da conquista do Egito pelo Sulto Selim, em 1517, o
comrcio com o Oriente estava nas mos dos navegantes portugueses. Uma vez
o Egito submisso, restava aos otomanos eliminar, se possvel, os portugueses do
Oceano ndico, ou, ao menos tentar criar obstculos  penetrao desses ltimos
no Mar Vermelho.
   Uma ocasio propcia para intervir no Oceano ndico foi-lhes fornecida pelo
governador do Guzerate, na ocasio em que insistiu, junto ao Sulto Sulaymn,
em obter ajuda contra os portugueses que haviam ocupado o porto de Diu. A
campanha foi confiada ao vice-regente do Egito, Sulaymn Pasha. Na rota de Diu,
em 1538, ele tomou Aden, no Imen, que foi submetida  Administrao oto-
mana. Embora no tenha conseguido expulsar os portugueses de Diu, ele ancorou
no porto de Kusayr, no Alto Egito, e, aps ter alcanado Assu, prosseguiu sua
marcha, ao longo do Nilo, at o norte da Nbia. Expulsou as tribos rabes do vale
do Nilo e atingiu Wd Halfa. Na ilha de Sy, ele construiu uma fortaleza que se
tornaria o mais avanado posto meridional do Egito otomano.
        Era difcil manter a autoridade nesta regio distanciada do Alto Egito,
dominada pelos shaykh hawwra. Na metade do sculo XVI, foi necessrio res-
tabelecer a supremacia otomana. Uma expedio comandada pelo antigo wl do
Imen, zdmir Pasha, reocupou Ibrm, Assu e Sy, e nelas estabeleceu guarnies
de tropas bosnianas. Uma nova provncia, o Berberistan, foi criada e colocada sob
a autoridade de um kshif, diretamente subordinado ao wl do Cairo.
        Em 1557, zdmir Pasha tomou posse de Masswa, no litoral do Mar
Vermelho, e de Zayl', em frente ao Aden, e conquistou uma parte da regio
interna pertencente ao rei da Etipia. Masswa tornou-se o centro de uma nova
provncia otomana na frica, o Habesh, que constituiu, desde ento, um ele-
mento importante do dispositivo otomano de defesa do Mar Vermelho contra
os portugueses, e permitiu garantir a segurana das vias comerciais, em direo
ao Imen, e ao litoral mais meridional da frica Oriental. Como os portugue-
ses haviam repelido os rabes e os otomanos do comrcio do Oceano ndico,
a criao destes postos no Mar Vermelho era essencial ao prosseguimento das
trocas comerciais que, para obedecer  evoluo da demanda internacional, se
afastaram das tradicionais especiarias do Oriente, em proveito do caf. Dada
a nova predileo pelo caf, o volume das trocas comerciais em trnsito pelo
Egito no perdeu muito a sua importncia, e este pas continuou extraindo da
considerveis benefcios.

10    Entre 1560 e 1570, foi at planejado a escavao de um canal atravs do istmo de Suez. A sugesto, feita
      pelo gro-vizir Meh,med Pasha Sokollu, caiu, em seguida, no esquecimento.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                              177



    A criao das provncias do Egito e de Habesh marcou o pice da influn-
cia otomana na frica do Nordeste. O perodo de 1517 a 1580 constituiu o
apogeu da potncia otomana no Egito. Os sintomas do declnio da autoridade
do governo central e de seus representantes no haviam ainda aparecido, antes,
seu poder reforava-se. Em 1575, por exemplo, na parte meridional do pas,
as regies situadas ao sul das cidades de Girg foram reunidas em uma nica
entidade administrativa, e foi deste modo que a provncia do Alto-Egito surgiu
em 1583, quando os chefes hawwra, na condio de administradores, foram
ento substitudos por um dignitrio enviado pelo Cairo.
    O Alto-Egito havia, desde sempre, ocupado um lugar  parte na organizao
poltica dos Estados do vale do Nilo, distinguindo-se do resto do Egito por
suas caractersticas polticas, seus sistemas sociais, suas particularidades tnicas
e religiosas, alm de sua geografia. Pelo fato de ser to diferente, serviu muito
como refgio aos movimentos dirigidos contra o poder em vigor11. Sua impor-
tncia poltica foi reforada pela funo econmica que possua, notadamente
seu controle sobre as rotas comerciais e o trfico do Nilo. O interesse e o respeito
dos otomanos para com esse territrio imprescindvel resultaria, concretamente,
no estatuto especial que lhe foi atribudo no quadro da gesto administrativa do
conjunto da provncia egpcia.
    Assim, o administrador do Alto-Egito, tal como aquele do conjunto do Egito,
portava o ttulo de wl e ocupava o segundo lugar na hierarquia administrativa,
logo depois do administrador de toda a provncia. O posto era ocupado exclusiva-
mente por um dignitrio da condio de sandjak, bey. Incumbia-se do vasto dispo-
sitivo administrativo e financeiro organizado segundo o sistema em vigor no Baixo
Egito. Sua importncia poltica, bem como sua lealdade; era igualmente acentuada
pelo considervel efetivo das foras armadas colocadas  sua disposio.


     Os conflitos militares internos
    O perodo de paz interna, inaugurado pela represso da rebelio de Ahmad
Pasha, em 1524, durou aproximadamente sessenta anos. Nos anos 1580, a
situao de dependncia na qual o Egito se encontrava, no mbito do desenvol-
vimento econmico geral do Imprio Otomano, levou-o a experimentar os pri-


11   A subprovncia do Alto-Egito era tambm muito vasta e sua superfcie ainda cresceu ao longo do sculo
     XVII. Em 1640, os kabla rabes foram expulsos da regio de Bahnas; em 1694, da regio de Asyt e
     de Aftt; em 1698, das cercanias de Assu, de Manfalt e de Minya.
178                                                          frica do sculo xvi ao xviii



meiros sintomas de dificuldades econmicas, que no tardaram a desencadear
conflitos terrveis entre os diversos componentes da casta militar dirigente.
    Algumas revoltas militares estouraram entre 1598 e 1609, fomentadas por
cavaleiros economicamente fracos, do corpo dos spahi, que foram os mais atin-
gidos pela recente e veloz inflao. Os primeiros episdios dessas lutas internas
tiveram como consequncia o enfraquecimento da posio dos vice-regentes,
os quais apenas conseguiam cumprir com suas obrigaes para com o Sulto
ao explorar a rivalidade entre o corpo dos spahi e o fiel exrcito dos odjak,
esforando-se, ao mesmo tempo, para equilibrar os dois grupos, a fim de pre-
servar a paz na provncia. Tais revoltas culminaram, principalmente, na excluso
definitiva do corpo dos spahi da luta pelo poder, que ops os odjak entre si.
    Os anos seguintes viram aumentar a importncia dos vinte e quatro sand-
jak bey, formadores de um grupo anlogo, de certa forma, quele dos grandes
emires do antigo sultanato. Em razo de sua condio, eles eram habilitados a
ocupar os mais elevados cargos polticos. Em regra geral, at aproximadamente
1620, ocupavam as funes de serdar, ou seja, de comandantes dos corpos de
tropas estacionadas no Egito ou que operavam fora de suas fronteiras. Alm
disso, eram-lhes confiado o comando das unidades de escolta do hazine egpcio,
enviado a Istambul (cargo chamado de amr al-khazna), e aquele das tropas de
proteo das caravanas de peregrinos na rota rumo a Meca (cargo chamado de
amr al-Hadj dj). Foi tambm dentre eles que foi designado o administrador do
Alto-Egito; na condio de defterdr, eram igualmente colocados  frente da
Administrao das finanas da provncia. Como indcio de sua influncia pol-
tica crescente, destacamos que, no princpio do sculo XVII, um dentre eles foi
chamado para exercer as funes de k`im makam (adjunto do vice-regente).
    Desfrutando, habilmente, dos poderes econmicos e militares dos vice-regentes,
os beis consolidaram as posies por eles gradualmente conquistadas, ganhando,
como arrecadadores, o controle de uma grande parte dos ativos fundirios.
    Seus primeiros passos aparentes na cena poltica foram a destituio, em
1631, do vice-regente, Msa Pasha, cujo substituto fora um vice-regente adjunto,
Ridwn Bey al-Fakr, que, alm de ter sido escolhido pelos beis, era proveniente
de seu meio. Apesar dos protestos de Msa Pasha, a Sublime Porta ratificou a
vontade dos beis. Desta forma, criou-se um precedente que permitiu a contnua
repetio do procedimento. Ainda que a razo invocada da destituio de Msa
Pasha tivesse sido o assassinato de Kayts Bey e o confisco de seus bens, os motivos
dos beis e dos odjak eram, na verdade, muito mais profundos: Msa Pasha tinha
comeado a revisar, por baixo, os emolumentos deles. Em 1517, os militares foram
autorizados a cobrar os himye (tributos de proteo), que eram, em princpio,
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                       179



depsito de garantia que protegeriam os habitantes das cidades conquistadas con-
tra a pilhagem. Mesmo os habitantes do Cairo os haviam pago. Com o passar dos
anos, entretanto, tais tributos foram se tornando dispendiosos, transformando-se,
para os soldados, em um meio de enriquecerem atravs da explorao da popula-
o urbana. Msa Pasha quis colocar um fim quilo que constitua uma tributao
ilegal dos citadinos, e foi isso que causara a sua perdio. Quanto aos odjak, aca-
bavam de reforar sua posio ao admitir, entre eles, comerciantes e artesos que
ganhariam, desde ento, os mesmos privilgios desfrutados pelos primeiros, sob a
forma de direitos de extorso; eles eram potentes demais para que o governo de
Istambul pretendesse colocar um fim em suas artimanhas.
    Msa Pasha foi, portanto, substitudo por Ridwn Bey al-Fakr que gover-
nou como vice-regente at a data de sua morte, ocorrida em 1656. Ele era a
personalidade mais notvel da Fakrya, uma associao poltica que agrupava
beis e seu squito mameluco. A esta associao opunha-se um outro partido,
Ksimya, igualmente formado por beis e seu squito, e que, tal como a Fakrya,
buscava tambm alianas entre os nmades e as pessoas das cidades. Acresce-se
a isto o fato de que a luta entre esses dois grupos dividia, igualmente, os odjak,
os janzaros aliaram-se  Fakrya, e os `azabn, a Ksimya. Deste modo, por
volta do fim do sculo XVII, o conjunto da sociedade egpcia encontrava-se
dividido em dois campos.
    Ridwn Bey consolidou sua posio obtendo do Sulto um decreto que o
nomeava comandante vitalcio da caravana dos peregrinos, ao passo que seu
aliado `Al Bey era nomeado wl vitalcio do Alto-Egito atravs de um outro
decreto do Sulto. A Fakrya estava, portanto, bem situada na vida poltica, com
suas principais personalidades solidamente estabelecidas no topo da hierarquia da
provncia. Por volta de 1650, ela dominava completamente o Cairo. Entretanto,
aps a morte de Ridwn Bey, homens mais jovens apoderaram-se das posies
principais no seio da Fakrya, dando sinais de uma temeridade que suscitou
desacordos entre os seus membros e cedo ocasionou seu desabamento.
    Em 1660, aps ter expulsado a Fakrya do Cairo, a Ksimya, com o apoio
do vice-regente, conseguiu obter (por uma curta durao) o posto de vice-
-regente do Alto-Egito, tal como aquele de vice-regente adjunto da provncia.
Entretanto, antes que pudesse consolidar sua posio, seu chefe, Ahmad Bey
Boshnag, foi assassinado, em 1662, sob a ordem do prprio vice-regente.
    Tais acontecimentos testemunharam os esforos da Sublime Porta em res-
taurar sua autoridade no Egito. Uma prova incontestvel de seu sucesso, devido
a uma hbil explorao das dissenses entre os partidos concorrentes, foi o fato
de que, desde 1661, lhe foi possvel suspender todo o pessoal no militar dos sete
180                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



odjak e impor, aos multazim, um acrscimo de 20% nos pagamentos recolhidos
sobre os feudos desses ltimos, a fim de cobrir o dficit do hazine provocado pela
forte inflao. Estas medidas suscitaram o descontentamento, porm, a corte de
Istambul foi mais longe e tomou medidas suplementares. Em 1670, Kara Ibram
Pasha recebeu a ordem para aplicar uma reforma fiscal no Egito com o apoio do
exrcito. Aps um remanejamento radical do oramento e quatro anos de intensas
negociaes com todas as partes interessadas, ele conseguiu duplicar o montante
do hazine, que passou de 15 a 30 milhes de paras. Alguns feudos importantes
permaneciam nas mos dos odjak e isso Kara Ibram o confirmaria em 1672.
    Os princpios desta reforma estabeleceram as referncias para a resoluo
dos problemas fiscais durante todo o perodo seguinte, at 1798. Todavia, os
resultados obtidos no tiveram longa durao e, rapidamente, o montante do
hazine baixou de novo. Isto porque a deciso de reduzir a influncia econmica
dos odjak (cujos recursos financeiros compreendiam, simultaneamente, benef-
cios legais e recolha de impostos ilcitos), em benefcio do Tesouro do Estado,
veio muito tarde. A legalizao, em 1672, dos ttulos sobre os feudos ainda
existentes reforou a posio dos janzaros e dos `azabn, ou seja, dos odjak que
haviam dividido o mais lucrativo mukata`t12, em detrimento dos ghaushes e dos
mteferrikas. A concluso da reforma fiscal transformou um sistema, at ento
aberto, em que era possvel operar facilmente trocas nas reparties dos feudos,
em um sistema fechado, cujos diversos grupos estavam engajados em uma vivaz
controvrsia.
    A nova situao, resultando do enfraquecimento da posio do pax, ao
longo da primeira metade do sculo XVII, e da eliminao das conspiraes dos
beis, nos anos 1660, permitiu aos odjak apoderar-se das redes exploradoras dos
habitantes das cidades13. Os beis que no possuam nenhum meio de participar
dessa explorao permaneciam extraindo seus rendimentos das propriedades
agrcolas, o que os tornava exploradores da populao rural.


12    Os janzaros eram os beneficirios das receitas das alfndegas de todos os portos egpcios, com exceo
      de Suez, cuja receita destinava-se ao vice-regente. Os `azabn controlavam os benefcios dos celeiros de
      trigo e dos portos de desembarque de Blk e do Velho Cairo, bem como, a taxa sobre os jogos.
13 A ambio dos odjak de serem legalmente titulares de mukata`t e de criar fontes de renda ilcitas
   reforava-se pela aproximao incessante ocorrida entre eles e a populao local. Tal ambio incitava-os,
   cada vez mais frequentemente, a dedicarem-se a uma atividade econmica e a aceitarem comerciantes
   e artesos em seu meio. Seus clientes eram, em particular, ricos mercadores de caf. Esta aproximao
   esteve na base da cobrana, pelos odjak, do himye e da recolha de um impostos de 10% sobre a herana
   de um cliente falecido. Os novos membros no perdiam nada nesse negcio, pois era-lhes concedida
   uma proteo que os livrava das disposies legais, geralmente em vigor, e os tornava beneficirios de
   uma condio preferencial ligada aos interesses dos odjak.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                                        181



    Aproximadamente entre 1670 e 1750, a vida poltica tornou-se ainda mais
complicada. Ela era influenciada no somente pelas dissenses entre os odjak,
mas tambm pelos conflitos, procedentes das afiliaes divergentes ocorridas em
seu ncleo. A atitude das faces internas era determinada, simultaneamente,
pela sua relao com o poderoso odjak dos janzaros e sua ligao com um dos
velhos partidos, Fakrya e Ksimya. A rivalidade entre os dois partidos j havia
sido transposta para o interior dos prprios odjak, nos quais, cada partido criava
seu prprio grupo que, por sua vez, esforava-se para dominar todo o odjak.
Assim, os dois elementos de base do poder econmico e poltico da classe diri-
gente eram fonte de conflitos: a posse e a eventual redistribuio dos feudos e
as recolhas ilegais de impostos sobre os resultados da atividade econmica dos
membros dos odjak, bem como os tributos recebidos ilegalmente pela proteo
dos comerciantes e dos artesos dependentes dos odjak14.
    O odjak dos janzaros, cuja posio dominante apoiava-se na deteno dos
feudos ou redes urbanas mais rentveis, era aquele em que as relaes estavam mais
tensas. Por cerca de vinte anos, o janzaro Bashodabashi Kchk Mehmed foi o
protagonista da luta no seio deste odjak. Em 1680, ele foi expulso do Egito aps
o conflito que o ops aos principais oficiais de seu odjak. Porm, mais tarde, ele
retornou e juntou-se, sem demora, ao odjak dos gnllyn, onde ganhou o apoio
do agha que o introduziu junto  Fakrya. Com a ajuda do chefe desse partido,
Ibrhm Bey, Kchk Mehmed conseguiu, em 1692, livrar o odjak dos janzaros
de seus comandantes kasm e garantir a dominao a partir da. Pouco depois, foi
aprovada, pelos mais altos dignitrios do conjunto dos sete odjak, sua deciso de
abolir certos tributos de proteo e todos os outros ilegais, exigidos pelos arreca-
dadores janzaros e `azabn, das alfndegas da Alexandria, de Rashd e de Blk.
Com o apoio do wl, ele conseguiu executar a sua deciso. A principal razo para
esta "nova orientao"  que, incontestavelmente, favoreceu as camadas inferiores
da populao dos burgos e das cidades, transformando numerosos membros do
odjak dos janzaros em inimigos jurados de Mehmed, agrupados em torno de
Mstaf Kazdoghlu  foi, sem dvida, o temor de ver reproduzidas as rebelies de
1678, causadas pela inflao contnua e pela forte alta da cotao do trigo.


14   Essas disposies fiscais, contrrias aos princpios da lei islmica (shar`a) e  regulamentao em vigor,
     foram criticadas como abusos (mazlim) e os dirigentes do Estado central solicitavam, terminantemente, sua
     supresso, em particular, a fim de prevenir eventuais dificuldades polticas. O peso principal da explorao era
     suportado pelas camadas populares, cuja situao foi agravada em razo das ms colheitas e de tudo aquilo
     que as seguiu: alta dos preos, fome e epidemias. Por volta do fim do sculo XVII (em 1678, 1687 e 1695), a
     resoluo das contradies no seio da classe dirigente seguiu-se tambm das primeiras importantes rebelies
     do povo que, evidentemente, influenciaram a atitude dos principais agentes polticos.
182                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



    Durante o vero de 1694, a tenso atingiu um grau crtico no odjak dos janzaros.
Alm disso, a baixa vazo do Nilo provocou, nesse vero, uma alta sbita do preo
do trigo. Fiel aos princpios de sua poltica, Kchk Mehmed tomou medidas contra
os especuladores potenciais, fixando o preo do trigo e organizando sua distribuio
de tal maneira que os intermedirios no pudessem nela interferir. Tais medidas
tiveram como efeito a aproximao entre a oposio janzara e o odjak dos `azabn,
possuidores dos armazns de cereais. O conflito atingiu seu ponto culminante com
o assassinato de Kchk Mehmed, permitindo aos odjak recuperarem a posse de
seus feudos perdidos e, ao mesmo tempo, a liberdade de decidirem sobre os preos
dos gneros alimentcios. Em seguida, houve uma alta brutal dos preos de todos
os artigos de primeiras necessidades, que desencadeou a fome em 1695, seguida da
epidemia de 1696. Foi preciso as cheias abundantes do Nilo, em 1697, para colocar
um fim a este difcil perodo.
    Desde 1688, a crise encontrava-se ampliada por uma eroso contnua do
valor da moeda e, por volta de 1622, a situao agravara-se extremamente.
Para tentar suprir o dfice do hazine, a Administrao provincial aumentou
em 4% os impostos devidos pelos iltizam, o que no impediu a Sublime Porta
de exigir que o hazine fosse enviado em moeda de ouro ou de prata. Tal exi-
gncia chocou-se com uma intensa oposio dos odjak, visto que a depreciao
da moeda acarretava-lhes grandes benefcios, assim como aos seus clientes, os
mercadores. Foi a oposio deles que fez malograr, em 1697, a tentativa de
reforma financeira e de transformao do sistema fiscal, concebida pelo perito
financeiro Ysf al-Yahd15.
    Uma nova srie da alta dos preos , resultado de um afluxo de moedas
desvalorizadas provenientes de outras regies do Imprio  no princpio do
sculo XVIII, ofereceu aos janzaros a oportunidade de subtrair dos `azabn o
monoplio do comrcio de cereais. Mais uma vez, evidenciou-se que o pro-
blema principal era a arrecadao do himye, ao qual nenhum dos odjak estava
disposto a renunciar. Para sair do impasse, chegou-se a um acordo que exclua o
problema principal, porm era conveniente aos odjak. Decidiu-se que as moedas
desvalorizadas apenas poderiam ser utilizadas em funo de seu peso de metal e
que seriam cunhadas em seu lugar, moedas de prata fina (fidda dwn). Simul-
taneamente, publicou-se a lista dos preos dos artigos de primeira necessidade e
interditou-se a exportao do caf para os pases cristos. O decreto de criao


15    A reforma propunha, entre outros, estampilhar a moeda, a arrecadao de um direito de 10% sobre o
      caf estocado, o estabelecimento de um monoplio do Estado sobre a torrefao do caf, a aplicao de
      uma marca de fbrica sobre os tecidos e a tarifao das empresas e das lojas pelo Estado.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                      183



da moeda contribuiu, sem dvida, para diminuir o declnio do para egpcio,
porm, as decises aceitas no tiveram xito no principal problema socioecon-
mico, a saber, os tributos de proteo. Por causa da tenso que permaneceu viva
entre os odjak, uma nova crise poltica perfilou-se no horizonte.
    Esta crise veio  tona por volta de 1710, tendo como causa primeira os pro-
blemas suscitados pelas exportaes de caf com destino aos pases cristos. O
rpido aumento do volume de tais exportaes, correspondendo a uma demanda
europia cada vez mais crescente, fez com que disparassem os preos do caf. Os
negociantes atacadistas e seus protetores janzaros extraram tamanhos benef-
cios que os outros odjak ficaram abalados. O problema do himye voltou, por-
tanto, a ocupar o primeiro plano da cena. No havia meio de resolv-lo, sem
ambiguidade, abreviando toda discusso, em razo da diviso que reinava no
odjak dos janzaros, entre partidrios da Fakrya e partidrios da Ksimya. A
desavena esteve, ento, na origem de um feroz afrontamento, nunca visto no
interior do odjak, envolvendo at mesmo os beis.
    A personagem mais importante de tais acontecimentos foi o janzaro Basho-
dabashi Ifrandj Ahmad, que esteve em favor da participao de seus condisc-
pulos nas atividades econmicas. Ele era sustentado pela Fakrya, mas isso no
impediu a Ksimya de, em 1707, obter a expulso dele do odjak. No princpio
do ano de 1709, a tenso tinha atingido um grau tamanho que os janzaros
encontravam-se isolados diante de rivais unidos, e Ifrandj Ahmad, com o apoio
da Fakrya, foi reintegrado ao odjak. A medida foi seguida da expulso dos ofi-
ciais favorveis a Ksimya, os quais haviam se pronunciado em favor da expulso
de Ifrandj Ahmad, em 1707. Este ato consolidava a posio da Fakrya no
odjak e a unidade dos partidrios da poltica de Ifrandj Ahmad, mas um golpe
certeiro caiu sobre os janzaros por meio de um decreto enviado de Istambul,
que estabelecia os preceitos da poltica oficial da Sublime Porta em relao aos
atuais problemas. Tal decreto colocava um fim, imediatamente, em todos os
abusos e nas relaes de favor existentes entre protetores militares e civis. Alm
disso, continha a ordem de transferir a Moeda, que devia abandonar o recinto
do acantonamento janzaro e instalar-se em um novo edifcio.
    No final do ano de 1710, a crise foi ainda agravada pela ruptura entre os
dois beis que se encontravam  frente da Fakrya, Ayyb e Kayts, sendo que
este ltimo passou  Ksimya, e pelo retorno dos dignitrios expulsos. O frgil
equilbrio do poder encontrava-se, assim, comprometido, e a crise se degenerou,
transformando-se em um conflito armado, no qual, tambm os beis estavam
abertamente implicados. O chefe da Fakrya, Ayyb Bey, e o wl do Alto-
-Egito, Mahmd Bey al-Kabr, aliaram-se com os partidrios de Ifrandj Ahmad,
184                                                           frica do sculo xvi ao xviii



ao passo que seus rivais recebiam o reforo do chefe da Ksimya, Aywaz Bey,
de Ibrhm Shanab, de Mehmed Bey Kutamish e de Kaiyts Bey, trnsfuga da
Fakrya. Aps um cerco de dois meses, em junho de 1711, a resistncia dos
janzaros, que controlavam a cidadela, desmoronou. Os beis da Fakrya fugiram
do Egito e Ifrandj Ahmad foi executado.
    Os acontecimentos de 1711 tiveram como efeito aparente a diminuio da
influncia, no s do odjak dos janzaros, mas tambm dos outros odjak, que
estavam exauridos em razo dos vinte anos de lutas incessantes. Ao mesmo
tempo, tais acontecimentos colocaram os beis e os mamelucos em primeiro
plano. Desde a metade do sculo XVII, no somente os sandjak bey, mas tambm
os membros da hierarquia militar otomana formavam seus prprios cls mame-
lucos. Por volta do final do sculo XVII e no comeo do XVIII, os escravos
alforriados e os mamelucos de numerosas "casas", tais como a Kazdughlya, a
Kutamishya, a Balfya, a Djulfya, j detinham a maioria dos cargos, alm de
controlarem numerosos feudos e redes urbanas. Aps 1711, o Egito passou por
um perodo de uma vintena de anos, ao longo do qual, a cena poltica modificou-
-se, pois que os beis, novamente, ocuparam a dianteira.
    O reino dos odjak no Egito, apesar das crises econmicas e polticas que o
atingiram em seu fim, deu origem a grandes mudanas econmicas e sociais. A
produo agrcola aumentara e o comrcio das mercadorias egpcias era ativo e
mais lucrativo, seus benefcios apenas eram ultrapassados por aqueles do comrcio
de trnsito, notadamente, pelos benefcios do caf, que muito haviam contribudo
para a prosperidade geral. O bom desenvolvimento da economia estava atrelado 
elevada taxa de crescimento demogrfico, de forma que uma abundante mo de
obra foi empregada na cultura extensiva das terras agrcolas e nas atividades de
produo e de comrcio, em plena expanso nas cidades. Nesta poca, a populao
do Cairo chegou a 300.000 habitantes e ultrapassou, portanto, o pico de 250.000,
no comeo do sculo XIV, poca de sua maior prosperidade.
    A moeda tornava-se um problema permanente devido  sua depreciao, cada
vez mais manifesta aps as derrotas do Imprio Otomano na Europa. Entretanto,
o Egito no era to afetado pelos acontecimentos dos campos de batalha euro-
peus: as trocas comerciais continuavam sendo feitas normalmente e era irrisria
a participao dos odjak egpcios nas guerras. Nestas condies de paz, os odjak
passavam por uma mutao progressiva no plano social. As tropas estavam per-
manente estacionadas no Egito e seus membros misturavam-se  sociedade local
mais frequentemente pelo vis do casamento. Eles somente se distinguiam das
pessoas do pas pelo status militar, por alguns privilgios e pelos deveres que lhes
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                         185



incumbiam. Entretanto, durante estes tempos de paz, sua disciplina relaxou-se
enormemente e, cada vez mais, suas qualidades militares deterioraram-se.
    Depois de 1711, a luta pelo poder prosseguiu em dois nveis: entre os grupos
polticos distintos e no interior de cada um deles. Em 1714, Kaits Bey, o chefe da
Ksimya, partido majoritrio no momento, foi executado por seus subordinados
que se apoderaram, ento, da rysa (do comando). Contudo, aps a prematura
morte de um deles, Ibrhm Bey Ab Shanab, Ism`l Bey, o filho de Aywaz Bey,
tornou-se seu chefe nico e sua supremacia extinguiu-se. Uma oposio formou-se
entre os mamelucos de Ab Shanab, a Shanabya, que se aliou aos beis da Fakrya
contra Ism`l Bey, a fim de desaposs-lo da Ksimya, com toda a faco aywazide.
O homem  frente da Shanabya formou, ento, um duunvirato com Dh `l-Fakar,
o chefe da Fakrya. Esta unio, equivalente a um compromisso poltico, era ditada
por uma nova crise econmica que foi precipitada pela queda de Mehmed Bey
Cherkes, o primeiro chefe da Shanabya. A fim de amenizar a tenso crescente, ele
havia tentado obter, como outros antes dele, a reduo dos impostos e a renncia
da cobrana de taxas ilcitas junto aos odjak. Os odjak estavam dispostos a negociar,
mas quando foi preciso conseguir expulsar de seu meio os negociantes e os rabes
hawwra, eles recusaram apoiar Mehmed Bey Cherkes, o que marcou tambm o
fim de sua carreira poltica e levou ao seu assassinato.
    As lutas incessantes entre os beis ofereceram aos vice-regentes, a partir de
1720, a oportunidade de reforarem sua autoridade. Era visando a esse nico
objetivo que eles tomavam parte nos conflitos e suas intrigas contriburam
diretamente com o assassinato de Ism`l Bey e como a queda de Mehmed Bey
Cherkes. Em seguida, aps o desmoronamento da Ksimya, em 1729, eles
ativamente continuaram esta poltica com a Fakrya, ento dirigida por trs
homens: Mehmed Bey Kutlumush, o janzaro Khya `Uthmn (Osmn) e o
azab Khya Ysuf.
    A rivalidade entre esses trs chefes ofereceu a Bakir Pasha, em 1736, a opor-
tunidade de tentar transferir, ao Tesouro do Estado, tanto as taxas legais quanto
as ilcitas, recebidas pelos odjak. Ele quebrou a resistncia, objetada por estes
ltimos, atravs da eliminao de seus trs representantes. Entretanto, tal ao
no fora aprovada pela Sublime Porta, que, em proveito do Estado, interditava
estritamente a alienao dos feudos dos odjak. Os novos chefes da casta militar
egpcia, representados por `Uthmn Bey Dhu `l-Fakar e pelo janzaro Khya
Ibrhm Kazdoghlu, aliaram-se aos odjak, recusando a se submeterem. Alm
disso, a atitude deles era apoiada, por unanimidade, pelos representantes dos
`ulam' (irmandades religiosas).
186                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



   Com a chegada de Ibrhm Kazdoghlu,  frente do odjak dos janzaros, a
Kazdughlya passou a ocupar o primeiro plano. Era uma potente faco da
Fakrya da qual, at ento, nunca se ouvira falar. Seus chefes no ocupavam o
posto de sandjak bey, mas, como nenhum foi assassinado, o grupo restou relati-
vamente intacto. A partir de 1743, ano em que Ibrhm Khya forou `Uthmn
Bey a emigrar, tornando-se, assim, o nico chefe do aparelho militar do pas, a
Kazdughlya reinou como partido nico e manteve sua posio at 1798.
   Aps `Uthmn Bey ter deixado o pas, Ibrhm Khya abraou a causa de
Ridwn, que era o khya dos `azabn e o chefe da Djulfa, uma pequena faco
da Fakrya. Seu duunvirato inaugurou, a partir de 1744, dez anos de reinado
sem partilha dos dois mais potentes destacamentos militares do Egito. Os dois
homens no ocuparam o posto de sandjak bey, mas cada um deles nomeou trs
de seus mamlk na corporao dos beis. Ridwn Khya dedicou-se, desde ento,
ao seu passatempo preferido, a construo, ao passo que Ibrhm Khya fazia do
Egito seu domnio privado. Ele apoderou-se das mais rentveis fontes materiais,
constituiu um potente cl mamlk e se enriqueceu de todas as formas.
   Entretanto, o poder aparentemente estabilizado dos dunviros dissimulava
sintomas da prxima falncia das estruturas socioeconmicas, sobre as quais,
apoiava-se, at ento, o poder militar16.
   Ao longo dos dez anos de durao do duunvirato, a autoridade coletiva,
que havia sido aquela dos odjak, foi substituda pelo exerccio do poder pessoal
daqueles que se revelariam dois dspotas. A boa situao econmica do pas, e,
notadamente, a estabilidade dos preos e da moeda foram os ltimos motivos
que mantiveram a paz interior. As contradies inerentes  conjuno de um
duro regime poltico e de uma situao econmica favorvel manifestaram-
-se pouco aps a morte de Ibrhm Khya, em 1754. Ridwn Khya padecera
primeiro, na ocasio de uma revolta dos janzaros, provocada por sua proposta
de impor uma nova taxa sobre o caf. Ainda que o motivo da revolta fosse a
vontade dos odjak de defender seus privilgios, cada vez mais corrodos, tambm
era a expresso de um antagonismo para com os mamelucos, os quais, tendo
ascendido aos postos de bey e de oficiais dos odjak, eram, desde ento, capazes
de ascender ao poder poltico e econmico. O declnio do poder poltico dos
odjak esteve diretamente ligado quele de sua potncia econmica, entre 1720

16    No sistema tradicional de explorao, os odjak beneficiavam seus clientes com uma certa parte dos
      privilgios que eram exclusivos  classe dirigente. Tal vantagem desapareceu do sistema instaurado pelo
      duunvirato em que a explorao era agravada por confiscaes, emprstimos forados e outras medidas
      draconianas afetando, particularmente, os mercadores. Os dois potentados partilhavam o esplio, segundo
      um rateio convencionado e conhecido por todos.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                    187



e 1750, quando eles perderam certos privilgios lucrativos e viram diminuir os
rendimentos das taxas arrecadadas sobre outros recursos, em particular, sobre
o comrcio de especiarias e do caf que comeava a sofrer com a concorrncia
do caf das Antilhas. Os odjak sofreram o contragolpe do empobrecimento dos
mercados domados pelos dunviros. Depois de 1760, seu poder enfraqueceu 
medida que eles se transformavam em simples reservas do squito mameluco,
cujos membros podiam portar o ttulo de oficiais.


    O desenvolvimento cultural
    O fim da soberania do sultanato mameluco e a transformao do Egito em
provncia (wilya) do Imprio Otomano tiveram importantes repercusses na
atividade cultural egpcia, que, muito distintamente, em seu desenvolvimento,
refletiu a nova ordem das relaes sociais, econmicas e nacionais. A educao
tambm foi influenciada, da mesma forma que a lngua rabe, na condio de
veculo de expresso cultural.
    Aps a queda do sultanato mameluco, o Cairo deixou de ser o centro espi-
ritual do mundo sunita, posio que havia ocupado desde 1261. A singulari-
dade da cidade era, ento, reforada pela presena dos califas abssidas e das
diferentes universidades reagrupadas em torno da antiga mesquita al-Azhar, 
qual convergia tudo aquilo que o isl considerava como homens "em busca do
conhecimento". Eles chegavam ao Cairo para ampliar os seus campos de saber,
para ensinar em um dos numerosos madrasa existentes na cidade ou, para ocupar
um cargo importante na Administrao do Estado, cuja autoridade poltica e
prosperidade econmica faziam da capital uma cidade efervescente de ativida-
des. Ainda que al-Azhar fosse, mesmo aps 1517, uma das mais prestigiosas
escolas para os estudantes dos pases rabes, aqueles que almejavam uma car-
reira no servio do Estado se viam cada vez mais frequentemente obrigados a
estudar nas escolas de Istambul, que preparavam seus alunos para servirem em
qualquer parte do vasto imprio. Quanto aos postos de professor nas escolas,
eram tambm muito procurados e serviam, com frequncia, de trampolins para
o acesso aos cargos elevados e honorficos da funo pblica. Istambul e outras
cidades da parte central do Imprio ocuparam, a partir de ento, o lugar que
havia sido, sem dvida, do Cairo, at 1517, e isso, mesmo aos olhos dos sditos
rabes do Sultanato Otomano.
    A incorporao do Egito e de outros pases rabes no Imprio Otomano,
em que a utilizao do turco-otomano predominava na vida pblica e cultural,
188                                                                    frica do sculo xvi ao xviii




Figura 6.6 A mesquita de Muhammad Bey Ab `l-Dahab, 1188/1774. [Instituto de egiptologia, Univer-
sidade Charles, Praga.]
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                         189



foi uma nova e tangvel etapa do declnio da importncia da lngua rabe, como
mediadora da cultura arbico-islmica. Era atravs da grande literatura neo-
-persa e da literatura em lnguas turcas, florescentes nessa poca, que se exprimia
a cultura espiritual islmica. A perda da independncia poltica dos pases rabes
trouxe consigo, igualmente, o desaparecimento da lngua rabe nos assuntos
pblicos, o que comprometeria, em consequncia, a sua utilizao na literatura.
Esta, salvo os temas que misturavam o direito e a religio, mas compreendendo
os textos cientficos, era suscitada e lida pela classe dirigente que, embora des-
conhecesse o rabe, era capaz de apreciar as obras escritas em turco ou persa.
Ademais, a cultura persa atravessava, precisamente entre o sculo XV e XVIII,
um perodo de fertilidade expressiva, em flagrante contraste com as expresses
culturais e literrias das regies de lngua rabe.
    Como em todas as outras provncias rabes do Imprio Otomano, a cul-
tura do Egito caiu sob a frula poltica, social e cultural do poderoso ocupante
turco-otomano e, pouco a pouco, encontrou-se integrada  nova verso turco-
-otomana da civilizao islmica. Atravs do processo dialtico das influncias
mtuas no mbito desse conjunto cultural, ela conservou um carter prprio que
se tornaria o ponto de partida e o regulador do despertar nacional rabe, nos
sculos XIX e XX. Tal singularidade observou-se tambm na literatura rabe e
egpcia, entre os sculos XVI e XVIII, embora esta tenha passado ao segundo
plano das atividades literrias oficiais . Este perodo, comumente descrito como
aquele do grande declnio da literatura rabe, no trouxe nada de novo aos
gneros clssicos, mas introduziu, obviamente, uma nova orientao da produo
literria. Os textos em lngua rabe eram escritos e destinados a leitores perten-
centes s camadas mdias da populao das cidades, notadamente, os `ulam' das
categorias subalternas,  elite dos clrigos, aos comerciantes e artesos, todos de
lngua materna rabe. Dessa orientao nasceu o carter popular bvio dessa
literatura, manifesto tanto nos seus gneros quanto em sua linguagem.
    Foi na poesia que esta tendncia se afirmou de forma mais aparente. Atrelado
 expanso das ordens dervixes, a poesia mstica sf  (sufi) conquistou um largo
pblico e alcanou uma grande popularidade, notadamente, atravs das obras,
marcadas pela influncia de Ibn al-Frid, que cantava os louvores do profeta
Muhammad17. Glorificavam-lhe, tambm, os mawlid, lendrios elogios escritos
em prosa.


17   Muhammad ibn Ridwn al-Suyti (falecido em 1766) foi o autor de um desses poemas populares. Ainda
     que em menor grau, em razo de seu carter retrico, uma certa popularidade ligava-se tambm aos
     escritos de `isha al-B`niya e queles do mdico `Abd al-Rahmn al-Humayd (falecido em 1587).
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    Um novo gnero potico surgiu nessa poca, aquele das stiras, cujo mais
notvel  o Hazz al-kuhf [Chacoalhando as cabeas dos camponeses], por
al-Shirbn, de 1787. Seu autor ridiculariza a estupidez e a grosseria dos campo-
neses, tal como a fraqueza de esprito e a vaidade dos `ulam', pelo comentrio
de um poema satrico escrito por um poeta aldeo fictcio, chamado Ab Shaduf
ibn Udjayl (Pai da Balana, Filho do Novilho). A lngua empregada nessa obra
 o rabe falado nos campos egpcios. Em um de seus poemas, "Kasid Ab
Shaduf ", ele trata da explorao dos camponeses pela administrao e pela
famlia e das injustias s quais eles so submetidos. Hasan al-Badr al-Hidjz
(falecido em 1719), era um outro poeta renomado. Alm de uma coletnea
de poemas sobre temas religiosos, ele escreveu um conjunto de stiras, obras
moralistas que comentavam notveis acontecimentos e criticavam a sociedade
contempornea.
    Fora desta poesia, assistiu-se ao surgimento de uma corrente potica for-
malista de cunho excntrico e precioso, endereando-se a um abundante
pblico e da qual um dos autores tambm foi o chanceler de Azhar, `Abdullh
al- Shubraw (falecido em 1758), autor de uma pequena coletnea de poemas
de amor e elegias sobre as estaes, tal como os panegricos de Muhammad e
de outras eminentes personalidades. Seu representante foi Abdullh al-Idkw
(falecido em 1770), que escreveu textos, tambm em prosa, no mesmo esprito
que as obras de seu contemporneo Ysuf al-Hifnw (falecido em 1764).
    A narrativa popular enriqueceu-se com uma nova obra, qual seja, um romance
sobre a conquista do Egito por Selim I, cujo protagonista era o ltimo Sulto
mameluco, Tmn Bey, resistindo ao agressor em um combate desigual. Tal
romance foi escrito por Ahmad ibn Zunbul, tambm autor de uma relao
histrica concisa do acontecimento que forneceu sua trama ao romance.
    A literatura cientfica, por sua vez, no conheceu nenhuma primavera. Ao
contrrio, ela continuou declinando, caracterizada pela falta de originalidade no
tratamento dos conhecimentos e por comentrios estreis a respeito dos escritos
de grandes nomes do passado, outrora autoridades. O ideal islmico, ao qual os
idelogos otomanos tentavam integrar a sua sociedade, no admitia nenhuma
anlise crtica. Os comentrios e glosas, muito em voga, ainda que refletissem
muito precisamente os gostos de ento, no eram capazes de apresentar uma
imagem objetiva da sociedade18.


18    Notadamente, apareceu um certo nmero de pequenos tratados sobre os problemas do momento, em
      particular no campo do direito aplicado, sem falar dos guias prticos abreviados que frequentemente
      tinham a forma de manuais.
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    Nesse mbito a historiografia teve mais possibilidades. Entretanto, no Egito,
ela sofria uma falta de demanda e de pessoas interessadas pelos escritos hist-
ricos. Se deixamos de lado os escritos de Ibn Yys  que embora se findando
em 1552, so considerados como parte da histria dos mamelucos , as obras
produzidas pelos historigrafos do sculo XVI ao XVIII no so de boa quali-
dade, em especial, no nvel da metodologia. Apenas alguns livros deste perodo
podem ser considerados como crnicas reais, ricas em elementos judiciosamente
apresentados.19 Muito frequentemente, as outras obras se reduziam a ente-
diantes listas cronolgicas de sultes, de vice-regentes e de juzes supremos,
ou a breves resumos da histria do Egito at a poca do autor20. Encontram-se
tambm alguns tratados detalhados sobre certos acontecimentos marcantes, que
se apiam, com frequncia, em uma experincia pessoal21. Um certo nmero
de fascculos histricos foi redigido em verso, outros, em linguagem corrente22.
Se a ltima crnica mameluca de Ibn Iys relata os primeiros anos do perodo
otomano, os ltimos decnios do sculo XVIII esto descritos na mais impor-
tante obra do gnero, escrita no sculo XIX, ou seja, a crnica de al-Djabarti, o
derradeiro texto de sua espcie na literatura rabe do perodo feudal.
    O simples comentrio, se ele demonstrou ser frequentemente estril, con-
tudo, originou uma obra importante escrita por Muhammad Murtad al-Zabd
(falecido em 1791): os numerosos volumes do dicionrio Tdj al-ars, comen-
trio do Al-Kmz d'al-Frzabd. A filologia foi igualmente tratada por
al-Khafdji (falecido em 1659), autor tambm de um importante conjunto de
biografias de eminentes personalidades.
    Os tratados sobre as rotas das peregrinaes de Meca e Medina, tal como os
textos sobre os lugares de peregrinao, os tmulos de personalidades renoma-
das, em particular aqueles dos homens da cincia e dos santos, constituam um
gnero literrio muito apreciado.
    A venerao dos santos, expresso da f dos fiis, estava ligada  rpida
extenso das ordens dervixes e ao interesse suscitado pelos msticos. Uns e
outros gozavam de uma grande popularidade no Egito, desde o sculo XVI. O
mais conhecido era a Ahmadya, ordem fundada por Ahmad al-Badaw (fale-


19   Por exemplo, a crnica do perodo de 1517 a 1737, redigida por Ahmad Chelebi.
20   Este gnero de texto  tipicamente representado pelos livros de al'-`Shk, de Mar` ib Ysuf e de
     al-Sharkw.
21   Dentre eles, o melhor  o livro de al-Shlihi, intitulado Wak'at al-Sandjik [Os desacordos dos sandjak
     bey], que trata da revolta dos beis da Fakrya, em 1660.
22   Notadamente, o livro em verso de al-Ghamr e as crnicas de Dermirdesh, em linguagem corrente.
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cido em 1276), cujo tmulo em Tant era o centro de um culto especial. Essa
ordem possua numerosas ramificaes, tais como a Bayymy, a Sha`rwya e
a Shinnwya. Dentre as ordens influentes,  preciso citar a Kdiryya, a Rifya
e a Nakshbandya, ao passo que a Ibrhimya, a Demirdshya, a Bakrya, alm
de outras, ainda eram de menor envergadura. As ordens dervixes tinham  sua
frente um representante dos descendentes do Profeta (nakb al-ashrf), que era
um shaykh da famlia al-Bakr cuja origem remontava ao primeiro califa Ab
Bakr. As ordens dervixes eram associadas a determinadas categorias sociais e
incluam, notadamente, certos grupos sociais e representantes de certas profis-
ses. A estrutura social das ordens e sua slida organizao conferia aos seus
chefes certo poder poltico que lhes permitia uma influncia sobre a vida pblica.
Alm dessa importncia poltica, as ordens tinham tambm um papel cultural.
Elas contribuam com a educao de uma multido, fazendo com que seus
membros tivessem acesso  cultura espiritual atravs da literatura, especialmente,
por meio da poesia. Tal contato suscitava, alm disso, um interesse individual
pela palavra escrita, que podia ocasionar criaes originais. A poesia mstica
foi cultivada por um certo nmero de poetas como a pliade dos membros da
famlia al-Bakr, como `Abdullh al-Sha`rw, Ahmad al-Dardr e outros que
no enquadravam completamente seus poemas, seus tratados e as conferncias
que davam no crculo de sua fraternidade, nos dogmas do isl.
    Durante todo o sculo XVIII, o Egito ignorou os benefcios oferecidos pelas
prensas de impresso, malgrado o fato de que tanto os livros turcos quanto os
rabes comearam a ser impressos em Istambul, desde 1729. A cpia manuscrita
continuava sendo o nico meio para multiplicar as obras literrias.
    O Cairo e outras cidades muulmanas esto ainda embelezados por nume-
rosos monumentos arquitetnicos edificados durante o perodo otomano. Um
lugar  parte est ocupado por edifcios voltados ao culto ou  educao, cuja
construo foi financiada pelos fundos especiais constitudos por doadores que
foram vice-regentes, altos dignitrios dos odjak, beis, e tambm por vrios sultes
otomanos e outros membros da dinastia. Da mesma forma que o fundo material
de doaes constitua-se, com frequncia, por objetos profanos, tais edifcios
comportavam diversos elementos especificadamente egpcios, obviamente, em
menor parte do que os elementos otomanos de importao. Ns os encon-
tramos na concepo arquitetnica de conjuntos e, sobretudo, no ornamento,
com emprego do estuque, de janelas coloridas etc.23 Os elementos importados


23    Foi na mesquita de al-Burdayn (a partir de 1611) que os elementos locais foram mais utilizados.
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Figura 6.7   A mesquita de Mahmud Pasha, 975-1568. [Instituto de egiptologia, Universidade Charles,
Praga.]




Figura 6.8 O wn da mesquita de Ahmad al-Burdayn, 1025/1616-1038/1629. [Instituto de egiptologia,
Universidade Charles, Praga.]
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Figura 6.9   O cmodo principal (ka`a) da casa de Djamluddn al-Dahab, 1047/1637. [Museu Ulmer,
Ulm.]




Figura 6.10 A tela em madeira (machrabia) da casa de Djamluddn al-Dahab, 1047/1637. [Museu
Ulmer, Ulm.]
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encontram-se principalmente na forma da manra (a grande cpula central), a
decorao mural em faiana e os motivos florais pintados sobre os tetos e as
paredes24. Os vestgios das casas particulares confirmam tambm que sua arqui-
tetura conservava, em geral, caractersticas tradicionais.25 Embora a decorao
interior abrisse um espao maior aos elementos de estilo otomano, em voga
naquele momento, em particular aos painis decorativos em faiana, o mr-
more e a madeira eram tradicionalmente sempre muito utilizados. As amplas
dimenses destas residncias e o conforto que elas ofereciam testemunham o
modernismo em matria de habitao dos citadinos abastados, este ltimo sendo
o prprio revelador das mudanas progressivas que conhecia a sociedade egpcia
e da importncia crescente dos mercadores, cujo grupo j formava o embrio da
futura classe burguesa. Tais mudanas seguiam, no Egito, o ritmo da evoluo
de todo o Imprio Otomano, todavia, com um leve perodo de atraso em relao
 regio europia e  Sria.


     O declnio econmico e as tentativas para obter
     a independncia
    Aps a morte de Ibrhm Bey e de Ridwn Khya, a Kazdughlya foi dila-
cerada por terrveis conflitos. Durante um curto perodo, um certo nmero de
beis sucedeu ao seu comando, todos antigos mamlk de Ibrhm Khya. O ttulo
honorfico de shaykh al-balad, inusitado at ento, foi conferido a um deles,
Husayn Bey Sbundj, em 175626.
    O shaykh al-balad seguinte, `Al Bey al-Ghazzw, que eliminou Husayn Bey,
em 1757, encontrou a oposio de um grupo conduzido por `Abd al-Rahmn,
influente janzaro khya. Este ltimo, desejando preservar sua influncia nos
bastidores dos negcios polticos, decidiu substituir al-Ghazzw por um bey
que ele considerava como seu homem, `Al Bey vulgo al-Djinn (o diabo). Apro-
veitando a partida de al- Ghazzw para Meca, em 1760, ele fez seu homem ser
aceito pelos beis como novo shaykh al-balad.


24   As mesquitas mais conhecidas so aquelas de Sulaymn Pasha, na cidadela do Cairo (1538), de Sinn
     Pasha, em Blk (1571) e a mesquita de Sulaymn Mlika Safaya (1610). A mesquita de Muhammad
     Bey Ab 'l-Dahab (1774) oferece uma boa sntese dessas diferentes influncias.
25   Por exemplo, a casa de Zaynab Khatun (1713), a de Djamluddn al-Dahab (1637) e aquela de al-Sihaym
     (1648-1796).
26   Ao que parece, Mehmed Bey Cherkes foi o primeiro a portar esse ttulo oficioso, que designava somente
     um grau superior dentre os beis egpcios (grande entre os grandes).
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    Logo, `Al Bey revelou-se ser um homem extraordinariamente ambicioso
e enrgico. Estabeleceu, solidamente, sua posio no Egito27 e, graas s suas
relaes junto  Sublime Porta, conseguiu ser considerado por Istambul como o
nico homem capaz de colocar ordem na desastrosa situao do Egito.
    Na poca da ascenso de `Al Bey ao poder, as relaes entre o Egito e a
Sublime Porta estavam relativamente tensas. A causa disso era o aumento con-
tnuo do dficit do hazine egpcio, cujo montante total atingia vrias dezenas
de milhes de paras.  a razo pela qual o governo de Istambul decidiu intervir
militarmente no Egito em 1761. `Al Bey explorou a inquietao que reinava do
lado egpcio e a irritao crescente da corte para obter, em 1763, alm de uma
ajuda financeira, a autorizao de conservar todos os bens confiscados de seus
adversrios, em troca da promessa de colocar a provncia em ordem frente a todas
as suas obrigaes financeiras. Engajou-se em pagar a dvida acumulada ao tetudo
do hazine ao longo dos dez ltimos anos (91 milhes de paras) e em entregar a
soma de 50 milhes de paras recolhida pela venda dos privilgios confiscados28.
    A dureza das medidas repressoras, impingidas por ele a todos os detentores
de grandes fortunas ou de influncia poltica, acarretou a formao de uma
oposio.  frente desta encontrava-se Slih Bey que partiu para o Alto-Egito
em 1765 a fim de se juntar ao shaykh Humm, chefe praticamente independente
dos rabes hawwra que j davam asilo a um considervel nmero de adversrios
de `Al Bey.
    Apesar da ameaa que representava esse grupo, o qual tinha o Alto-Egito nas
mos, `Al Bey tentou uma campanha contra ele. Porm, o chefe da expedio,
Husayn Bey Kashkash, antigo mamlk de Ibrhm, voltou o corpo expedicion-
rio que lhe havia sido confiado contra `Al Bey e, com a cooperao dos elemen-
tos da oposio do Cairo, o impeliu a deixar o Egito pela Sria. Todavia, no ano
seguinte, `Al Bey voltou ao Egito apoiado pela Sublime Porta, reconciliou-se
com Slih Bey e, em 1768, derrubou Husayn Bey Kashkash e Khall Bey, que
haviam formado o duunvirato, reinando sobre o Egito em sua ausncia.




27    A fim de neutralizar a influncia do resto da Kazdughlya, `Al Bey promoveu o mamlk de Ibrhm
      Khya, Ism`l, e dois mamlk de seu prprio cl, Muhammad Bey Ab `l-Dahab e Ahmad Boshnak,
      conhecido mais tarde pelo nome de al-Djazzr (o Carniceiro), ao posto de sandjak bey. Na mesma
      ocasio, livrou-se dos chefes mais antigos, tais como `Abd al-Rahmn, o chefe da Kazdughlya que era
      um janzaro khya, e Slih Bey, o ltimo representante importante da Ksimya.
28 Os feudos confiscados ou aqueles cujos detentores estavam mortos foram redistribudos a novos bene-
   ficirios em troca do pagamento de uma taxa excepcional, denominada hulwn, que representava, em
   geral, oito vezes o rendimento anual do feudo.
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    To logo cumprida a promessa feita  Sublime Porta de pagar os atrasados do
hazine, `Al Bey modificou radicalmente sua poltica. Ainda em 1768, ele deps
o vice-regente, autonomeando-se aos postos de vice-regente e de vice-regente
adjunto. De novo, em 1769, ele demonstrou sua vontade de reunir em suas mos,
ao mesmo tempo, o cargo de chefe titular da Administrao egpcia e o poder
poltico real, na condio de shaykh al-balad, depondo o novo wl pouco aps
a sua nomeao. Contudo, ainda que ele tenha se tornado o verdadeiro mestre
do Egito, cuja submisso ao Sulto no era mais do que uma mera praxe, `Al
Bey no resolveu se proclamar soberano independente. Isto no o impediu de
usurpar o direito de cunhar sua prpria moeda e de ter seu nome citado nas
preces das sextas-feiras. Esforou-se tambm para empregar todos os recursos
materiais exclusivamente para consolidar seu poder econmico e poltico, ou
seja, para reforar o exrcito e desenvolver a agricultura e o comrcio. Era este
o mesmo objetivo que ele perseguia ao estabelecer relaes comerciais com os
principais Estados da Europa.
    Sua ambio29, brilhantemente dissimulada por ele como um desejo em servir
ao seu Sulto, teve uma nica ocasio para satisfazer-se, em 1770, quando as
obrigaes de seu cargo autorizaram-no a engajar-se na luta de sucesso dos
emires hshimite de Meca. A resoluo da sucesso por uma interveno egp-
cia e a substituio, em Djeddah, do vice-regente otomano por um bey egpcio,
constituram uma vitria, sem ambiguidade, de `Al Bey sobre a supremacia
do Sulto no Hedjaz. Muito provavelmente estimulado pelo sucesso, `Al Bey
comeou a cultivar a ideia de unificar sob seu reino, mesmo sendo no quadro
do Imprio Otomano, as regies que outrora haviam constitudo o territrio do
Sultanato mameluco, ou seja, alm do Egito, o Hedjaz, (sob a frula da dinastia
vassala dos Katdites hshim) e a Sria.
    No mesmo ano de 1770, `Al Bey viu apresentar-se a ocasio de estender
seu domnio  Sria. Os maus caminhos que tomava a guerra contra a Rssia e
a destruio da marinha otomana pela frota russa em Cheshme praticamente
excluram a possibilidade de uma medida retaliativa aplicada contra o usurpa-
dor, tanto mais que o vice-regente de Damasco se encontrava em dificuldade
em razo da rebelio do administrador de Akka e da Galileia, o shaykh Zhir
`Umar. Alm disso, `Al Bey entrara em contato com os chefes da frota russa,
que operavam no Mediterrneo Oriental, a fim de incit-los a apoiar suas aes
descentralizadoras e assegurar a ajuda deles, em caso de necessidade. Apesar da


29   Ela valeu-lhe para ser denominado Bulut Kapan, ou seja, Apanha-Nuvens.
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Figura 6.11 `Al Bey, vice-regente do Egito. [The Mansell Collection, Londres.]
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                       199



indeciso inicial de Ism`l Bey, comandante das tropas enviadas por `Al Bey,
em reforo junto ao shaykh Zhir `Umar, os exrcitos aliados reforados por
novas unidades sob o comando de Muhammad Bey Ab `l-Dahab conseguiram
vencer as tropas do governo e ocupar Damasco. Talvez temendo as represlias
da Sublime Porta ou porque ela se mostrava disposta a nomear Muhammad
Bey  frente do Egito, caso se livrasse de `Al Bey, ento, este ltimo e Ism`l
Bey garantiram sua lealdade ao Sulto e regressaram ao Cairo com seu exrcito.
Obrigado a refugiar-se no Alto-Egito, no comeo de 1772, Muhammad Bey
juntou-se aos rabes hawwr e aos partidrios da Ksimya. E quando a expe-
dio punitiva, montada contra os rebeldes do Sul, desertou e juntou-se a eles,
com seu comandante Ism`l Bey, o poder de `Al Bey arruinou-se. Na primavera
de 1772, as foras aliadas venceram as tropas leais a `Al Bey, o qual teve de
entregar seu cargo a Muhammad Bey. Com o apoio de seus aliados da Sria e
da Palestina, ele tentou retornar, mas seus escassos partidrios foram dispersos,
alm do que ele morreu pouco tempo depois no cativeiro.
    Ainda que `Al Bey tivesse se inspirado no passado do Egito, certos aspectos
de sua carreira foram, antes, anunciadores daquilo que estava por vir: a vio-
lncia com a qual se livrava de seus adversrios e, em particular, suas atividades
na pennsula arbica e na Sria, o seu interesse em tirar proveito dos recursos
econmicos do pas e a autonomia poltica crescente que ele se outorgou diante
do governo central. Se o seu xito teve curta durao, isto, incontestavelmente,
deveu-se  imensido de sua ambio social e poltica, entravada pelo sistema
de "casas" mamelucas e pela instvel fidelidade delas.
    Entretanto, no mesmo perodo, pode-se observar os sintomas de uma crise
socioeconmica de longa durao que se prolongou, com intensidades variveis,
at o incio do sculo XIX. O interesse dispensado por `Al Bey  agricultura foi
motivado pela necessidade de aumentar a receita do arrendamento feudal, pois
foi, antes de tudo, nos campos que se aplicou a sua dura poltica fiscal. Esta foi,
sem dvida alguma, uma das causas principais do empobrecimento dos agricul-
tores e da fuga deles para as cidades que, no entanto, no podiam lhes oferecer
meios suficientes de existncia, pois, cada vez mais, artesos e comerciantes
encontravam-se empobrecidos por causa das medidas que lhes eram impostas,
tais como as taxas a pagar antecipadamente, e direitos de sucesso exorbitantes.
Ora, tal empobrecimento, provocado pela explorao sem piedade de todas as
camadas da populao, apenas se acentuou com o passar dos anos e uma srie
de epidemias acrescentou-se a tal horror.
    Com o testemunho da lealdade que lhe concedeu o novo shaykh al-balad,
cumprindo as suas obrigaes como ele o fizera, a Sublime Porta esperou que
200                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



aquele por ela apoiado a ascenso ao poder, fosse, enfim, um homem que lhe
seria inteiramente devoto. Em 1775, Muhammad Bey enviou mais de 130
milhes de paras, como contribuio anual, ao Tesouro e montou uma expedio
militar contra o shaykh Zhir `Umar, conforme as ordens do Sulto. Contudo,
foi morto durante o bloqueio de Akkar, o que marcou o fim do engajamento
do Egito na Sria. As tropas egpcias evacuaram o territrio ocupado e os beis, a
partir de ento, deixaram de se interessar pela Sria, para somente interessarem-
-se pelo Egito.
    As rivalidades que nutriam a luta pelo poder entre os membros da elite
mameluca, aps a morte de Muhammad Bey, foram, tambm elas, exploradas
ativamente pela Sublime Porta. Esta sustentava todo potentado que, em troca do
direito de confiscar os domnios de seus rivais vencidos, engajava-se em enviar 
Sublime Porta a maior parte das taxas cobradas junto aos novos detentores dos
feudos. Tal atitude, testemunha de uma mudana importante no funcionamento
do sistema dos feudos, era sintomtica do fato de a Sublime Porta no nutrir
nenhuma inteno de intervir diretamente nos negcios do Egito, contentando-
-se em utilizar as lutas que opunham os mamelucos entre si para tirar delas o
mximo de rendimentos financeiros.
    Os principais protagonistas da luta pelo poder supremo, que durou apro-
ximadamente dez anos, foram trs beis da Kazdughlya: Ism`l, um antigo
mamlk de Ibrhm Khya, e dois antigos mamlk de Muhammad Bey Ab
`l-Dahab, Murd Bey e Ibrhm Bey. O primeiro episdio desta luta foi con-
cludo quando estes ltimos conseguiram, reunindo suas foras, obrigar Ism`l
e seus partidrios a abandonarem o Egito, em 1778. O segundo episdio foi o
eco dos combates travados entre os dois vencedores. Ibrhm, ainda que reco-
nhecido oficialmente como shaykh al-balad, chocou-se com Murd Bey que o
impedia de ser completamente senhor da situao. Essa rivalidade ofereceu 
Sublime Porta a oportunidade de manobrar e manipular os dois adversrios para
uma s finalidade: aumentar, ao mximo possvel, o montante anual do hazine.
Entretanto, ela no se beneficiou plenamente com essa possibilidade, assim, os
dois homens confiscaram, em benefcio prprio, uma parte crescente dos ren-
dimentos materiais da provncia e at os privilgios expressamente reservados a
certos cargos, os quais eles no eram habilitados a deter30.



30    Como, por exemplo, a renda do Ofcio das alfndegas de Suez, apossada em 1779 e que era anteriormente
      reservada, na condio de iltizam, ao vice-regente; ela constitua-se, sobretudo, pelas leis de importao
      cobradas sobre o caf.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                       201



    A partir de 1778, progressivamente, controlaram o conjunto da Administra-
o da provncia, apropriando-se de todos os rendimentos financeiros que eles
utilizavam para seus prprios fins e, em particular, para cobrir os custos de seu
singular combate. Ibrhm Bey no mais cumpriu com todas as suas obrigaes
de shaykh al-balad ou ento ele apenas enviava a Istambul uma pequena frao
da soma acordada. Assim, a Sublime Porta foi levada, em 1784, a considerar o
fato de seus interesses no Egito estarem em perigo, na ocasio em que os dois
rivais, reconciliando-se, decidiram governar a provncia em comum acordo, em
um momento coincidente com o incio de uma crise econmica (findada em
1792). Era, desde ento, quase certo que os dunviros no estariam mais dis-
postos a pagarem os atrasados dos cinco anos precedentes.
    Tal presuno bastava para justificar a deciso de restabelecer o controle
direto do governo central no Egito, por meio de uma interveno militar. Em
julho de 1786, um corpo expedicionrio otomano aportou em Alexandria e em
Rashd, sob o comando de Hasan Pasha. Ele dispersou, durante seu avano, as
tropas mamelucas, porm, Murd Bey e Ibrhm Bey bateram em retirada para
o Alto-Egito, com o restante de suas foras. A restaurao da autoridade do
Sulto devia ser concluda por um certo nmero de medidas, a serem tomadas
por Hasan Pasha. Sua primeira tarefa era destruir a potncia militar dos dois
usurpadores e reformar, a partir dos elementos mamelucos que permaneceram
leais, um instrumento que se curvaria, em obedincia, s exigncias da Sublime
Porta. Este objetivo devia ser atingido atravs da criao de uma nova promo-
o de beis e de comandantes de guarnio, nomeados dentre os membros de
diversas "casas" mamelucas. A autoridade moral do Sulto se reforaria por um
certo nmero de decretos que sublinhava o carter islmico de seu regime, assim
como a tirania dos dois rebeldes, e que, alm disso, prometia abrandamentos
fiscais e o retorno aos princpios justos do Knn Nme.
    Dado que o objetivo principal da expedio punitiva era o restabelecimento
do pagamento regular do hazine, Hasan Pasha estabeleceu um certo nmero de
decretos fiscais que visavam garantir a execuo das obrigaes da provncia do
Egito para com a Sublime Porta, por um lado, e, por outro, para com as cidades
santas do Hedjaz. Porm, antes de poder aplicar esses decretos, ele foi chamado
a encarregar-se de outras misses militares.
    A interveno militar no produziu os resultados esperados. Isto ocorreu, entre
outros fatos, porque Hasan Pasha no conseguiu submeter os dois beis rebeldes.
Ademais, a diviso virtual do Egito, em uma parte baixa, governada pelo represen-
tante do Sulto, e uma parte alta, dominados pelos dois rebeldes, foi aceita como
uma realidade imolvel, sobretudo a partir do momento em que esses ltimos,
202                                                         frica do sculo xvi ao xviii



aps uma retirada momentnea para a Nbia, restabeleceram o controle sobre
todos os pontos ocupados no Alto-Egito, em 1787, pelas tropas otomanas ou fieis.
Mesmo se Hasan Pasha trouxe certas mudanas dentre os detentores de ttulos
e cargos, nomeando Ism`l Bey para o posto de novo shaykh al-balad, o regime
dos mamelucos continuou intacto, se bem que todas as condies continuavam
reunidas para que as mesmas dificuldades ressurgissem do passado.
    A crise poltica que se seguiu  morte de Muhammad Bey Ab `l-Dahab foi
seriamente agravada, a partir de 1783, por dificuldades econmicas tais como
ms colheitas, acompanhadas da fome, da alta dos preos e da queda da moeda.
Estas dificuldades eram ainda acentuadas por uma atmosfera poltica tempes-
tuosa, pela desorganizao da Administrao por tarifas fiscais pesadssimas.
O caminho dramtico que tomava os acontecimentos foi coroado por uma
epidemia, que explodiu em 1791, mais mortfera do que as precedentes; a ela
deveu-se, ao menos, a simplificao da situao poltica, pois, contou-se, dentre
suas vtimas, um grande nmero de beis leais, inclusive, Ism`l Bey. Foi assim
que Murd e Ibrhm, no vero do mesmo ano, estavam prestes a entrar de novo
no Cairo, sem desferir golpes, e a restabelecer seu reino em todo o Egito.
    A Sublime Porta consentiu em deix-los governar sob a condio de que
suas obrigaes fossem cumpridas normalmente. Visando garantir a execuo
dessas obrigaes, a Sublime Porta e os dois homens assinaram, em 1792, um
acordo estipulando a soma total a ser paga e a forma de pagamento. No h
dvida sobre o fato de o acordo ter sido respeitado, porm a contra gosto, e no
em sua totalidade. O retorno dos dois beis ao poder restabelecia tambm o duro
regime de explorao que o Egito havia conhecido antes da expedio de Hasan
Pasha, e suas consequncias para a economia foram ainda mais desastrosas. O
pas estava desorganizado em razo da anarquia poltica dos dez anos prece-
dentes, pelos traumas econmicos e pela pilhagem incessante,  qual estavam
submetidos todos os recursos e as reservas de sua economia. Isto a um tal grau
que todas as tentativas feitas para travar o declnio geral malograram, apesar do
fato de, salvo uma nfima parte, todos os meios drenados pelo dispositivo fiscal
permanecerem no Egito. A situao crtica da economia traduzia, pura e sim-
plesmente, o Estado de opresso poltica no qual toda a sociedade era mantida
sob o controle rigoroso da magra franja constituda pelos beis mamelucos e seus
cls. O governo central no possua a fora que lhe era preciso para elimin-los
e as condies necessrias e suficientes no haviam ainda surgido para que tal
ao brotasse no interior da sociedade egpcia. O primeiro impulso foi dado
pela expedio militar francesa que atingiu a costa egpcia, sob o comando de
Napoleo Bonaparte, ao longo do vero de 1798.
O Egito sob o domnio do Imprio Otomano                                                            203



     Concluso
    O perodo histrico iniciado pela queda do Sulto mameluco, em 1517, e
concludo pela expedio francesa de 1798, foi uma era durante a qual o desen-
volvimento da sociedade egpcia foi determinado por sua prpria dinmica
interna, mas tambm pela evoluo da sociedade do Imprio Otomano, da qual
ela era um dos componentes. Todavia, diferentemente das partes europias do
Imprio Otomano, o Egito permaneceu nos confins da evoluo poltica durante
a maior parte deste perodo, pois seu desenvolvimento socioeconmico no
havia atingido o estgio em que se iriam manifestar os primeiros sintomas da
existncia da burguesia, como nova classe social. A evoluo de sua sociedade
no transps, portanto, as fronteiras do ltimo estgio da transformao social
conhecido pelo nome de feudalismo31.
    A incorporao do Egito em seu ncleo constituiu, para o Imprio Otomano,
um avano notvel em vrios aspectos, reforando seu potencial econmico e sua
potncia poltica. Entretanto, grandes mudanas foram introduzidas nas relaes
entre o governo central e a provncia do Egito, que criaram uma atmosfera cons-
tantemente carregada de tenses entre ambas as partes. A fonte dos conflitos
encontrou-se, primeiramente, como em outras provncias, na esfera das relaes
polticas e econmicas. O declnio gradual da potncia poltica e econmica oto-
mana gerou, em sua esteira, choques sociais, cada vez mais frequentes e ferozes,
cujos efeitos conjugados queles das crises polticas e dos choques econmicos
provocaram a formao de foras descentralizadoras. Estas tinham por objetivo
o domnio da economia e das instituies polticas do pas e no compartilhavam
a ambio de criar um Estado independente.
    O avano das foras separatistas no Egito, no ltimo tero do sculo XVIII,
no foi nenhum fenmeno isolado nos pases rabes do Imprio Otomano.
Estados em estgios mais ou menos maiores de independncia constituram-se
na Tripolitnia, no Iraque e na Sria, ao longo do sculo XVIII, alguns a partir
das possesses hereditrias de seus prncipes.
    Entretanto, no caso do Egito, certos acontecimentos prprios do primeiro
estgio de desenvolvimento das foras separatistas anunciavam as caractersti-
cas que tomaria essa regio nos sculos XIX e XX. Basta lembrar as atividades
dos beis egpcios na pennsula arbica e na Sria, anlogas aos primeiros passos


31   O autor no ignora o carter especfico dessa formao particular nos pases da sia Ocidental e da
     frica do Norte, tal como tratado por um considervel nmero de eruditos (ver Enciclopdia do Isl,
     cf. ikt`).
204                                                          frica do sculo xvi ao xviii



da poltica expansionista de Mehmed `Al, ou ainda, a pouca diligncia mani-
festada pelos beis, como tambm por Mehmed `Al, para livrarem-se inteira-
mente da tutela do Sulto otomano, em sua condio de dirigentes praticamente
independentes.
    A expedio de Hasan Pasha, em 1787, apresenta um certo nmero de tra-
os comuns quelas de Bonaparte, tanto por sua conduta quanto pelas formas
tomadas e pelos efeitos que ela teve sobre os povos submetidos. Revelou, assim,
a insuficincia militar do regime mameluco e sua vulnerabilidade, em caso de
ataque por um inimigo mais forte do que ele. A expedio napolenica no
deixou dvidas quanto a esse assunto. Ademais, a expedio otomana, como uma
tentativa para destruir as foras descentralizadoras e para estreitar as relaes
entre a provncia e o governo central, surgiu como a primeira ao anunciadora
do rumo ao qual os esforos do Estado otomano iriam desenvolver-se ao longo
do sculo XIX.
    O crescente interesse suscitado entre os dirigentes do Egito pelos territrios
limtrofes do pas, seus contatos com os representantes de potncias estrangeiras
ou seus esforos para encetar relaes comerciais independentes com outras
regies, igualmente, indiciam o fato de que o Egito saa de seu isolamento
secular e comeava a participar ativamente da evoluo em curso, em sua regio.
O isolamento, do qual o Egito estava lentamente emergindo, findou-se, defi-
nitivamente, com o princpio da expanso colonial francesa no Mediterrneo
Oriental. No mbito dos problemas, cada vez mais rduos, formadores daquilo
que se chamou a questo do Oriente e da expanso do domnio colonial das
potncias europias, o Egito tornar-se-ia um pas de importncia crucial na
cena poltica mundial.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                             205



                                        CAPTULO 7


                     O Sudo de 1500 a 1800
                                    Y. F. Hasan e B. A. Ogot




    O perodo que nos interessa aqui foi caracterizado por movimentos migrat-
rios constitudos pela populao que saa do interior do Sudo1 rumo ao exterior,
bem como do exterior para o interior de tal regio. No norte, a lenta penetrao
dos rabes muulmanos  que no decorrer do tempo vieram se instalar em grande
nmero  j estava muito avanada no incio deste perodo2, o que resultaria na
assimilao progressiva dos nbios cristos e de outras etnias no seio do grande
mundo pan-islmico. O processo de assimilao cultural e tnico funcionou a
nos dois sentidos: ele acarretou, por um lado, a arabizao e a islamizao de
numerosos povos sudaneses e, por outro, a indigenizao dos imigrantes rabes.
    A influncia da cultura islmica e rabe no Sudo meridional foi insigni-
ficante, sendo as energias expansionistas dos nilotas do sul empregadas para
pr termo  progresso dos rabes rumo ao sul, bem como  difuso do Isl.
Na verdade, at o fim do sculo XVIII, os nilotas e, mais particularmente, os
shilluk e os dinka formaram uma verdadeira ameaa s fronteiras dos Estados
muulmanos do norte.


1   O nome de Sudo designa aqui a parte oriental do Bilad al-Sudan que compreendia, na Era Medieval,
    o reino cristo da Nbia e, depois, os sultanatos islmicos de Funj e de Fur, e que, no presente captulo,
    equivale em boa parte ao territrio da moderna Repblica do Sudo. O uso oficial do termo Sudo para
    designar uma entidade poltica ou administrativa data do regime turco-egpcio local, de 1821 a 1885.
2   UNESCO, Histria geral da frica, vol. IV, cap. 16.
206                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Assim sendo, este captulo tratar principalmente do estabelecimento e
da expanso dos dois Estados muulmanos da savana (os sultanatos funj e
fur), de suas relaes mtuas e sua interao com as sociedades africanas no-
-muulmanas que por sua vez emergiam de uma mistura de grupos lingusticos
e culturais diversos.
    Veremos igualmente que a expanso do Isl constitui um fator importante
da histria do Sudo do sculo XVI ao XVIII.
    O processo de arabizao e de islamizao que progredia rumo ao sul se
deteve, durante esse perodo, na linha de diviso das guas (compostas pelo
Sudd, pelo Bahr al Ghazal e pelo Bahr al-`Arab). Foi assim, portanto, que se
estabeleceu a fronteira cultural entre o que se denomina hoje Sudo Setentrio-
nal e Sudo Meridional. A existncia dessa fronteira cultural  um profundo
determinante de nossa interpretao do Sudo atual.
    No Sudo Meridional, o reflexo das relaes entre as duas regies se deu
principalmente sob o ngulo da agresso e da explorao econmicas sofridas
pelo pas em funo tanto das expedies armadas dos funj na regio do alto
Nilo, quanto daquelas dos fur na regio do Bahr al Ghazal. J no norte, at
pouco tempo atrs, costumava-se creditar as mudanas econmicas e sociais
ao papel representado pelos imigrantes muulmanos  geralmente rabes , os
"sbios estrangeiros" vindos do norte ou do leste.  atravs desta perspectiva que
buscamos explicar a formao do Estado no Sudo setentrional, e no atravs
de uma anlise histrica da base econmica dos Estados em questo e de suas
respectivas formaes sociais e culturais.
    No sculo XX, o "norte"  apresentado como rabe e muulmano e o "sul"
como africano (negroide) e "pago" (ou "animista"), e a fronteira que os separa
toma um carter cada vez mais religioso e tnico. Tal concepo foi amplamente
difundida pelos escritos dos antroplogos e dos administradores coloniais. Dos
dois lados da fronteira ideolgica, viram-se desenvolver expresses, preconcei-
tos raciais complexos, o que levaria a definir, portanto, cada uma dessas regies
como uma entidade racial e religiosa exclusiva que tinha pouco contato, seno
nenhum, uma com a outra.
    A realidade histrica era evidentemente muito mais complexa do que isso.
Primeiramente, a "fronteira" entre essas duas regies sempre foi muito movi-
mentada e nem sempre se deslocava para o sul ou para o oeste. Por exemplo,
a partir de meados do sculo XVII e at 1861, os shilluk  que ocupavam o
alto Nilo  expandiram a fronteira para o norte at Alays e, ento, pilharam o
sultanato funj e os montes nuba.
O Sudo de 1500 a 1800                                                             207



    Em segundo lugar, alm de ser constantemente movimentada, a fronteira
representava uma vasta rea que, na regio do alto Nilo, por exemplo, estendia-
-se por vrias centenas de quilmetros. O mesmo ocorria na regio ocidental.
O que os invasores do sultanato fur, os djallaba (comerciantes), e os baggara
consideravam como a fronteira, constitua, por volta de 1800, um imenso ter-
ritrio3. Alm disso, no interior da prpria fronteira, transformaes culturais,
tnicas e sociais ocorreram constantemente, com a populao sendo cada vez
mais constituda por rabes, fur, funj, shilluk, naath (nuer) ou dinka, em funo
das circunstncias polticas e econmicas. De fato, entre os sculos XVI e XVIII,
o processo de transformao social e de integrao tnica, devido  chegada dos
rabes e do Isl nas regies de Nuba e Beja, ainda estava em andamento em toda
extenso dessa vasta fronteira.
    Em terceiro lugar, no prprio interior dos sultanatos muulmanos do norte, o
processo de mutao tnica foi um fenmeno complexo. E, a princpio, o processo
de arabizao  que englobou rabes e todo tipo de sudaneses autctones  teve
uma conotao mais cultural do que tnica. Exceto por poucos casos, o termo
rabe perdeu quase todo seu significado tnico. Os rabes baggara, que vivem ao
longo da fronteira entre as duas regies, so um perfeito exemplo disso. Outro
exemplo: o da comunidade autctone heterognea tendo em comum a lngua
bongo-bagirmi e que compreende os cara (kara), os binga, os gala4, os banda e
os feroge. No sculo XVIII, cada sultanato foi dividido em um certo nmero
de chefias, cuja maior parte era formada por sociedades plurais. Alm disso, as
formaes sociais no interior desses sultanatos tinham se tornado ainda mais
complexas devido  escravido. Um nmero enorme de escravos, capturados nas
regies meridionais, entravam nas fileiras dos exrcitos dos sultes, enquanto
outros eram completamente assimilados  nova sociedade. No mais, tanto o
comrcio de escravos como o comrcio fronteirio de outros produtos  tais como
o marfim e as plumas de avestruz  no apenas estabeleceram laos entre as duas
regies sudanesas, como tambm colocaram o Sudo em seu conjunto, e mais
especificamente a rea fronteiria, em contato com os mercados mundiais.
    Enfim, em consequncia das migraes e do jogo dos fatores polticos e
econmicos, a populao do Sudo terminou sua evoluo, no decorrer desse
perodo, para chegar  composio que ns conhecemos atualmente. Com exce-
o dos povos do oeste, originrios da parte central e ocidental do Bild al-Sdn
(como os Takrr e os fulbe) e dos rashaida da Arbia, nenhum grupo tnico novo

3   R. S. O'Fahey, 1980, p. 137-139.
4   Para esse grupo lingustico, ver A. N. Tucker e M. A. Bryan, 1966, p. 10-19.
208                                                                                                              frica do sculo xvi ao xviii




             0!                    60 milhas

             0!                  100 km




                                                                  lo
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  DESERTO           DA LBIA

                                               3a catarata




                                                                   M
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                                                             4a catarata
                                                                                                 5a catarata

                                                                               U
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                                                                                                               io
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                                                                                          Soba
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                 NA                                                                 NA
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                                                                                       WA                                    ABIS
                                         RDOF
                                              O                                    `AL                                             SNIA
                                                                                                       Ri




                                  CO                                                  Sennar              Ra
                                                                                                          o




                                                                                                                 h ad
                                                                                             J
                                                                                          ND
                                                                                       FU
                                                                                 Branco




                                                                                                                                            Reinos e sultanatos do Sudo (de acordo com Y. F. Hasan)
                                                                                Nilo




                                                                                                                Nilo




             oa
                     . b (ou Rio Kiir)
                  l-Ara                                                                                               zu
                                                                                                                  A




                                                                                                                         l
           Ri


                                  Rio . l-Ghazal
                                      a
                                                                                                                                            Figura 7.1
O Sudo de 1500 a 1800                                                                                   209



apareceu no Sudo nos sculos XIX e XX; em 1800, os grandes movimentos
populacionais praticamente acabaram.


    O Estado `abdallbi
    Na segunda metade do sculo XV, uma confederao de kabila rabes con-
duzida por seu chefe Abdallah, apelidado de Djamma (o Unificador), conseguiu
conquistar o reino de Alwa5. Ao contrrio do que geralmente se pensa, a con-
quista de Soba no foi empreendida em comum pelos funj e os rabes, mas um
feito exclusivo destes ltimos. Ela foi o sinal da supremacia dos rabes e marcou
o incio de sua influncia sobre o Bild al-Sdn oriental6.
    Abdallah Djamma e seus descendentes, os `abdallbi, fixaram a sede de seu
governo em Kerri, no norte de Soba, no Nilo. Soba perdeu ento sua impor-
tncia e, quando Daudi Reubeni passou por l, em 1523, a cidade j estava em
runas7. Escolheu-se Kerri porque era de fcil acesso para os rabes do Butana,
cujo apoio era essencial aos `abdallbi. A regio permitiu tambm controlar as
vias de passagem, obviamente comerciais, ao longo do vale do Nilo e, alm, na
sua margem ocidental.
    No  fcil determinar a extenso do novo Estado. Pensa-se que os `abdallbi
tenham exercido sua autoridade sobre os rabes que viviam no norte da Gezira,
no Butana, a leste do Nilo, e talvez sobre alguns grupos bedja. As chefias ara-
bizadas instaladas entre a cidade de Shandi e a fronteira egpcia pareciam ter
participado do ataque dos rabes contra Soba e continuaram fiis ao chefe da
confederao rabe. Suas relaes no so muito conhecidas, porm, mais tarde,
os `abdallbi, enquanto suseranos, tiveram o poder de confirmar a designao
dos novos chefes.
    O Estado `abdallbi independente no durou o tempo suficiente para criar
suas prprias instituies. No incio do sculo XVI, ele teve de enfrentar
um inimigo poderoso: os funj, povo nmade de criadores de animais, que
avanavam ao longo do Nilo Azul. Os dois movimentos de migrantes entra-
ram em luta provavelmente para garantir a posse das pastagens do norte da
Gezira. Em Arbadji, em 1504, os funj venceram os `abdallbi e obrigaram seu


5   Para mais detalhes, ver UNESCO, Histoire gnrale de l'Afrique, vol. IV, cap. 16, p. 442-443. Fazer refe-
    rncia  verso em portugus, j traduzida?
6   P. M. Holt, 1960; Y. F. Hasan, 1972, p. 23-26.
7   S. Hillelson, 1933, p. 60.
210                                                               frica do sculo xvi ao xviii



rei a aceitar sua suserania8. Os `abdallbi continuaram a administrar a parte
norte do sultanato funj enquanto feudatrios, at a conquista turco-egpcia
de 1820.


      O sultanato funj
    Os funj eram nmades criadores de bovinos cuja origem distante proporcio-
nou muitas hipteses contraditrias. A tradio sudanesa evoca seu reino sob o
nome de al-Sultana-al Zarka9 (o sultanato negro). Daudi Reubeni, que l esteve
em 1522-1523, escreveu que seu monarca era um muulmano negro que reinava
sobre uma nao composta de negros e brancos10, ou seja, autctones e rabes.
No decorrer de sua viagem a Sennar, em 1772, o viajante escocs James Bruce
relatava que os funj descendiam de pilhantes shilluk vindos do Nilo Branco11. As
tradies sudanesas, provavelmente de origem rabe, atribuem-lhes contudo um
ancestral rabe, descendente de um refugiado omada, que veio pela Abissnia.
Ele teria se casado com uma princesa indgena e herdado sua autoridade. As
tradies sudanesas falam dele como "o homem abenoado" que trouxe novos
costumes12.
    No se sabe exatamente em que data a dinastia funj reclamou para si uma
ascendncia omada. Baseando-se nas observaes de Reubeni,  possvel saber
ao menos que o rei `Umra Dunkus, que venceu os `abdallbi, era muulmano.
Entretanto, tudo indica que os fatores determinantes para a rpida islamizao13
dos funj no se deveram somente  influncia da nova sociedade muulmana
sobre a qual era exercida a hegemonia funj; a fora de suas relaes comerciais e
cultuais com o Egito tambm foi um elemento muito importante para tal pro-
cesso. Assim como outros povos convertidos vivendo  margem das sociedades
muulmanas, os funj queriam ser considerados como rabes e consequentemente
reivindicaram para si ancestrais rabes. Assim esperavam erguer seu prestgio no
mundo rabe e reforar sua autoridade moral sobre seus habitantes rabes. Mas
 importante notar que Ibn, filho de Dayf Allh, ao falar das elites dirigentes,


8     J. Bruce, 1805, vol. III, p. 370-372 e vol VII, p. 96.
9     Zarka (azrak) significa negro(a) no rabe sudans falado.
10    S. Hillelson, 1833, p. 55-60.
11    J. Bruce, 1805, vol. VII, p. 96.
12    Y. F. Hasan, 1965.
13    P. M. Holt, 1967, p. 20; J. L. Spaulding, 1972.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                          211



as denomina "reis dos funj" e "reis dos rabes" (ou seja, rei dos `abdallbi e dos
dja`aliyyn), deixando claro portanto que existia uma diferena tnica entre os
dois grupos14.
    Tendo estabelecido sua suserania sobre os territrios dos `abdallbi, os funj
administraram seu domnio a partir de Sennar, que se tornou a sede de seu
governo. O shaykh (chefe) dos `abdallbi, conservando teoricamente toda sua
autonomia em seus antigos domnios, tornou-se um vassalo dos funj e carregou
o ttulo de mandjil ou mndjuluk que os reis funj conferiam aos grandes feuda-
trios. Contudo, teria havido relaes antagnicas desde o incio entre os funj
e seus vassalos.
    Querendo sacudir o domnio funj, o shaykh Adjib I, que tomou o poder
em meados do sculo XVI, desafiou os funj, venceu-os e expulsou-os para a
Etipia. Sob o reinado de Dakin (entre 1569 e 1585-86), os funj conseguiram
reencontrar sua antiga supremacia, mas tiveram de outorgar a Adjib I o direito
de nomear os juzes em seus domnios. Aparentemente, a poltica de Dakin,
que quis reorganizar o reino e aplicar uma nova regulamentao, destrura o
equilbrio frgil entre os dois grupos, levando Adjib a entrar em rebelio aberta.
Em Karkodj, a alguns quilmetros ao norte de Soba, um exrcito funj infligiu
uma derrota esmagadora aos `abdallbi, por volta de 1612, no decorrer de uma
batalha em que Adjib I encontrou a morte. Seu cl refugiou-se em Dongola.
Foi ento negociado um acordo entre os `abdallbi e os funj, graas  intercesso
do shaykh Idris wad al-Akbr, influente dignitrio religioso15. Com a exceo de
Arbadji que passava sob a jurisdio funj, o status quo estava restabelecido: os
descendentes de Adjib  com o ttulo de wad `Adjib  continuaram a governar
diretamente os territrios do norte at Hadjar al-`Asal, a exercer sua autoridade
sobre a maior parte das chefias nmades e, indiretamente, sobre os cls e as
chefias que viviam no vale do Nilo at a terceira catarata, ou seja, at a fronteira
da Nbia otomana. Esse acordo permitiu ao sultanato viver um longo perodo de
estabilidade. Contudo, por volta de meados do sculo XVII, a chefia shaykiyya
se revoltou contra a hegemonia dos `abdallbi e se proclamou independente do
sultanato funj16.




14   Y. F. Hasan, 1965; Ibn Dayf Allh Muhammad `Abd Nur, 1973, p. 61-90.
15   Ahmad b. al-Hadj dj Ab 'l-`Ali, 1961, p. 8-9; Ibn Dayf Allh Muhammad `Abd Nur, 1973, p. 63, 227
     e 296.
16   Y. F. Hasan, 1972, p. 63-75.
212                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



      A expanso do sultanato funj
    Os otomanos, que tinham conquistado o Egito em 1517, preocuparam-se
com o fato de a autoridade do sultanato funj se estender at a baixa Nbia, ori-
ginalmente dependente dos `abdallbi. Ainda que enfrentamentos fronteirios
tenham sido percebidos, os otomanos no intervieram de fato at o reinado do
sulto Suleyman, o magnfico (1520-1566). Para afastar a ameaa que os portu-
gueses configuravam no Mar Vermelho, os otomanos enviaram uma expedio
naval ao Oceano ndico e decidiram tomar a Etipia, aliada dos portugueses. Ao
voltar dessa expedio, zdemir recebeu a ordem de pr fim  "rebelio" dos funj
na Nbia, onde duas faces rivais se enfrentavam. zdemir tomou, na fron-
teira, as fortalezas estratgicas de Ibrim e de al-Dirr. Em Sy, entre a segunda e
a terceira catarata, ele construiu uma fortaleza que marcava o limite meridional
do Egito otomano. Ao que tudo indica, essa nova provncia, conhecida sob o
nome de Berberistan (ou seja, pas dos berberes ou nbios), foi efetivamente
administrada pelos otomanos depois da instalao de guarnies bsnias nas
fortalezas de Assu, de Ibrim e de Sy17.
    Aps ter deixado o cargo de governador do Imen em novembro de 1554,
zdemir Pasha teve vrios encontros com o sulto, no decorrer dos quais eles
examinaram os negcios do Egito, do Imen e do Habesistan18. Em seguida, foi
encarregado de conquistar o Habesistan. Depois de minuciosos preparativos no
Egito, a expedio subiu o Nilo. Em Assu, zdemir perdeu o controle de um
exrcito indisciplinado e teve de encerrar a campanha. Compreendeu-se ento
que a expedio no fora dirigida contra o Habesistan, mas contra o Funjistan
(pas dos funj). Mais tarde, em 1577, um certo Suleyman Pasha recebeu a ordem
de empreender a conquista do Funjistan, mas essa campanha nunca aconteceu19.
Finalmente, a fronteira egpcia foi solidamente estabelecida em Hannik, em
1622, aps alguns combates entre os `abdallbi e os otomanos. Hannik fica
 igual distncia da terceira catarata e de Mushu, o mais setentrional posto
alfandegrio funj20.
    A administrao da Nbia otomana era confiada a um responsvel, tendo
o ttulo de kashif. Este cargo tornou-se hereditrio e pertenceu  famlia do


17    G. rhanl, 1974, p. 1-2, 21-22; P. M. Holt, 1961.
18    As fontes otomanas usam os termos Habesistan ou Abissnia para designar todos os territrios ao sul
      do Egito, at a ilha de Zanzibar ou Moambique na frica oriental. Ver G. rhanl, 1974, p. 21.
19    Ibidem, p. 34-35 e 77.
20    P. M. Holt, 1974, p. 21.
                                                                                                                               O Sudo de 1500 a 1800
                                                                                                                               213
Figura 7.2   O porto de Suakin (gravura do sculo XIX). [The Illustrated London News, 1888. The Mary Evans Picture Library.]
214                                                        frica do sculo xvi ao xviii



primeiro kashif, que viveu em al-Dirr. Da mesma maneira, os descendentes dos
primeiros soldados bsnios que haviam se casado com autctones continuaram
a manter a guarnio das fronteiras otomanas da regio.
    Teria sido ainda zdemir quem criou uma base militar otomana para lutar
contra os portugueses e os etopes: Suakin, que dependia a princpio dos mame-
lucos do Egito, ficou sob a suserania otomana e Massawa foi anexada em 1557.
A partir da, a faixa costeira que se estende entre esses dois portos constituiu
a provncia de Habes. Em Suakin ficava uma guarnio otomana comandada
por um governador ocupando o cargo de sandjak. Uma vez afastada a ameaa
exercida pelos portugueses, Suakin voltou a ser a principal sada comercial do
sultanato funj. A princpio, as relaes entre o governador otomano e os funj
foram agitadas e deterioraram-se ainda mais com o tempo, at tomar a forma de
conflitos armados. Em 1571, de acordo com fontes otomanas, os funj (ou talvez,
mais exatamente, os bejas) atacaram Suakin e sitiaram-na durante trs meses.
Contudo, considerando as relaes comerciais ativas existentes entre as duas
partes, uma atmosfera mais amigvel acabou se estabelecendo. Suakin ganhou
uma importncia que no lhe foi contestada antes do incio do sculo XX. O
cl arabizado dos bejas, os hadriba, que tinham outrora dominado a regio de
`Aydhb, desempenhava um papel de primeiro plano na vida comercial. Em
consequncia, foi entre eles que os otomanos escolheram os soberanos locais,
conhecidos sob o nome de emires (amir)21.
    No incio do sculo XVII, os funj haviam aparentemente consolidado sua
posio em Sennar. Os territrios administrados diretamente por eles estendiam-
-se de Arbadji at o sul de Fazghli, o que constitua sem dvida o limite norte
da fronteira etope. A expanso da dominao funj rumo ao oeste, atravs da
Gezira at o Cordofo, fora empreendida pelo sulto Abd al-Qadir. Por volta
de 1554, ele enfrentou vitoriosamente os chefes de Sakadi e das colinas de
Moya. Os dois chefes foram mantidos em suas funes aps haverem se con-
vertido ao Isl e aceitado pagar um tributo anual22. Tudo indica que a presso
crescente exercida pelas comunidades nilticas no Nilo Branco, s custas de
Sennar, desembocou num confronto entre os funj e os shilluk que viviam prin-
cipalmente na regio do Nilo Branco. O sulto Bdi II Ab Dikn (por volta de
1645-1718), cujo reinado representou a era de ouro do sultanato, estabeleceu
uma cabea-de-ponte em Alays  sobre o rio  e instalou uma guarnio funj.
A administrao de Alays foi confiada a um membro da dinastia que, devido a

21    G. rhanl, 1974, p. 76.
22    J. Bruce, 1805, vol. VI, p. 368.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                                    215



sua condio, vinha imediatamente depois do chefe dos `abdallbi. A partir dessa
posio estratgica, os funj estavam em condies de vigiar todos os movimentos
efetuados do outro lado do rio e de exercer sua autoridade sobre os shilluk, que
ao que tudo indica, concluram uma aliana com eles23.
    Os funj penetraram em seguida nos montes nuba, uma das principais regi-
es fornecedoras de escravos. O reino islamizado de Takali, que acabava de ser
criado a, foi rendido  condio de Estado vassalo24. Da mesma forma, os funj
estenderam sua suserania s montanhas do norte de al-Dyr e do Cordofo, que
se tornariam mais tarde o palco de intensas lutas com os musabba`t. Os nume-
rosos prisioneiros capturados entre os nubas no muulmanos das "montanhas"
foram instalados nas vilas, ao redor de Sennar. Eles formavam a guarda encar-
regada da proteo do sulto. Seu nmero aumentou ainda mais no decorrer de
novas incurses nas montanhas e compras. A criao de um exrcito de escravos
a servio de um soberano tinha precedentes nos anais do isl: uma medida
idntica fora tomada pelo califa abssida al-Mu`tasim e pelo sulto do Darfur
no sculo XVIII. Tal situao preocupava seriamente os guerreiros tradicionais,
ou seja, a aristocracia funj, e esta ltima revoltou-se sob o reinado de Bdi III
(o Vermelho, 1692-1716). Embora o sulto tenha conseguido conter a revolta,
a aristocracia funj no permaneceu por isso menos capaz de afirmar seu poder
e deps o filho de Bdi III, Unsa III, acusado de levar uma vida libertina. Este
evento marcou o fim da linhagem direta de `Umra Dunkus. O prncipe Nl
sucedeu Unsa III em 1720.
    A despeito da interveno da aristocracia funj, o Estado continuava baseado
nesse exrcito de escravos. Outra crise iniciou-se sob o reinado de Bdi IV Ab
Shullkh (1721-1762), o ltimo dos verdadeiros soberanos funj. Na primeira
parte de seu reinado, considerado como "justo e prspero", Bdi IV deixou os
negcios do Estado a cargo de seu ministro Dka. Com a morte deste, ele baniu
os ahl al-usl (os homens de alta linhagem e de cargo elevado) e, com o apoio
do exrcito de escravos nubas e de refugiados fur, exerceu um poder arbitrrio.
Para se livrar dos funj influentes que a ele se opunham, Bdi enviou-os em
guerra contra Musabba`t, que tinha tomado parte dos territrios funj no Cor-
dofo. Aps algumas derrotas, o exrcito funj, sob o comando de Muhammad


23   Ahmad b. al-Hadj dj Ab 'l-`Ali, 1961, p. 9-10; Y. F. Hasan, 1972, p. 68; R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding,
     1974, p. 61-63.
24 Alguns historiadores no esto de acordo sobre as relaes que existiam entre os funj e os takali na poca.
   A primeira teoria, segundo a qual se tratava de uma relao de vassalagem, foi contestada por J. Ewald,
   1983, p. 10.
216                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



Ab Likaylik, conseguiu uma vitria decisiva em 1747. Por consequncia, Ab
Likaylik conservou o comando das foras fundj no Cordofo e foi seu vice-rei
durante catorze anos25.
    Neste nterim, os funj travaram duas guerras contra a Etipia, motivadas
principalmente por conflitos fronteirios; nenhuma das duas, porm, modifi-
cou radicalmente a situao. A histria das relaes entre funj e etopes oferece
numerosos exemplos de cooperao positiva e de interdependncia econmica.
Para os cristos da Etipia, Sennar representou durante muito tempo a nica
abertura continental para o mundo exterior. Ali chegavam seus bispos do Egito e
ali vendiam ou compravam mercadorias aos negociantes. Era ali, tambm, que os
missionrios cristos da Europa chegavam at a Etipia  o pas do padre Joo.
    A primeira guerra da Etipia eclodiu no incio do sculo XVII. Aps ter sido
deposto, o sulto Abd al-Qadir recebeu asilo poltico do imperador Susenyos
da Etipia que o nomeou governador de Chelega, de onde era possvel vigiar os
movimentos das caravanas ao longo da fronteira. O sulto funj que ento reinava
ficou preocupado, pois, a despeito de trocas de presentes entre o imperador e
Bdi I, as relaes tinham se deteriorado e a fronteira era palco de escaramuas
e de roubo de escravos. Os incidentes de fronteira agravaram-se em 1618 e em
1619; um grande nmero de soldados, entre os quais alguns armados de mos-
quetes, estavam engajados. Como os dois soberanos a conduziam longe de suas
capitais, esta guerra no constitua uma ameaa grave para nenhum dos dois.
Ela terminaria, contudo, em favor da Etipia26.
    A segunda guerra da Etipia comeou por incurses na regio de Kalbt-
-Dinder destinadas a impor a cobrana de tributos. Em maro de 1744, Iyasu
II marchou sobre Sennar,  frente de um grande exrcito etope. Os dois exr-
citos enfrentaram-se em uma batalha sobre as margens do Dinder, no decorrer
da qual os etopes foram derrotados, tendo seu imperador escapado por muito
pouco da morte. O mrito dessa vitria brilhante do exrcito funj foi atribudo
ao prncipe dos Musabba`t, Khamis Djunkul e a seus partidrios, que se tinham
refugiado em Sennar. Embora as relaes entre Sennar e Gondar se tornassem
tensas por vrios anos, as rotas comerciais permaneceram abertas. A vitria dos
funj, comemorada por Bdi IV e seus sditos com grande fervor religioso, ecoou
at Istambul. Conta-se tambm que o califa otomano teria se declarado "feliz
pela vitria do isl"27.

25    Ahmad b. al-Hadj dj Ab 'l-`Ali, 1961, p. 9-10; P. M. Holt, 1961, p. 20-22; Y. F. Hasan, 1972, p.71-77.
26    W. Aregay e S. H. Selassie, 1971, vol. VI, p. 65-66.
27    Ibid., p. 67-68, Ahmad b. al-Hadjdj Abu 'l-`Ali, 1961, p. 21-22.
O Sudo de 1500 a 1800                                                        217



     O progresso do isl
    A instaurao do sultanato funj-'abdallbi deu ao pas alguma unidade e
estabilidade, o que facilitou a penetrao do isl. Os eruditos muulmanos foram
os responsveis por transmitir os preceitos do isl e divulgar o misticismo sufi.
Eles eram bem recebidos pelos soberanos, que os encorajavam a virem se insta-
lar no pas. At ento, o isl tinha se expandido apenas por intermdio de dois
grupos: os comerciantes, por um lado, e principalmente os rabes nmades, por
outro. Os primeiros, com os quais, durante mais de nove sculos, se manteve
contato, agiam como propagadores do isl. O comrcio e o proselitismo sempre
caminharam juntos  margem das sociedades islmicas. Os segundos, conquanto
fossem pouco versados na doutrina islmica e no fossem animados por zelo
religioso, desempenharam um grande papel na expanso do isl, notadamente
atravs de casamentos com sudaneses autctones. A islamizao era o corolrio
normal da arabizao28. A ao de uns e outros era s vezes reforada pela ao
de alguns mestres.
    No decorrer do primeiro perodo funj, o nmero desses mestres aumentaria,
vindos do Egito, do Hedjaz, do Imen, e do Magreb. Contudo, em sua maioria,
tais mestres nasceram no pas, e alguns haviam estudado no Cairo ou em outros
lugares santos. Em meados do sculo XVI, Mahmud al-`Araki, o primeiro eru-
dito muulmano sudans, criou, ao voltar do Cairo, dezessete escolas no Nilo
Branco. Por volta de 1750, Ibrhim al-Bld ibn Djbir, um descendente de
Ghalm Allh ibn `Ayd, foi o primeiro a fundamentar seu ensinamento nos
dois manuais malequitas: o Risla de Ab Zayd al-Kayrawni, e o Mukhtasar de
Khalil ibn Ishk. Tal ensinamento explica a predominncia do rito malequita na
regio, reforado ainda pela influncia cultural do Magreb e do Bild al-Sdn,
onde a escola malequita mantinha a hegemonia.
    O primeiros eruditos muulmanos buscavam, antes de mais nada, ensinar a
lei muulmana, a shari`a, e sua aplicao. Seus esforos para transmitir um ensi-
namento ortodoxo e aumentar o nvel do conhecimento religioso conheceram
grandes dificuldades, em funo da extenso, do isolamento e do atraso do pas.
O isl ortodoxo, antes de fixar a suas razes, fora precedido por um isl mais
popular e menos exigente.
    A maior parte dos sfi tarika, ou ordens religiosas, vieram do Hedjaz. A
primeira, e talvez a mais popular, foi a Qadiriyya, fundada por `Abd al-Kdir


28   J. S. Trimingham, 1949, p. 82.
218                                                          frica do sculo xvi ao xviii



al-Djilni (1077-1166), de Bagd. Ela foi introduzida no Sudo por Tdj
al-Din al-Bahri, tambm de Bagd, quando este veio de Meca em 1577 a
convite de um mercador sudans que ali estava em peregrinao. Ele perma-
neceu sete anos na Gezira, perodo em que iniciou na Qadiriyya numerosas
personalidades sudanesas (entre elas o shaykh `Adjib I), fator que garantiu seu
sucesso.
    Outra ordem, a Shadhiliyya, foi introduzida no Sudo por um membro da
kabila dos Dja`aliyyn, que tinha estudado no Hedjaz, Hamd ibn Muhammad
al-Madjdhb (1693-1776). Denominada Madjdhubiyya no pas, esta ordem
transformou-se, com o cl dos Madjdhb, em uma teocracia tnica, instalada
ao sul do afluente do Atbara, regio onde desempenhou um papel temporal e
espiritual importante.
    No momento em que o sufismo comeou a ser difundido no sultanato
funj, essa ordem j perdera muito de sua importncia no mundo muulmano.
Permeado por algumas prticas heterodoxas, ele deixara de ser um meio de
aprofundar as crenas religiosas. A populao, desprovida de uma slida for-
mao religiosa, acreditava que uma certa baraka (bno ou bondade) ema-
nava dos homens santos, os quais desempenhariam um papel de intermdio
entre o homem e Deus. Eles acreditavam tambm que esses poderes ou fun-
es msticas podiam ser transmitidos aos descendentes do homem santo ou
se manifestar aps sua morte. Esta crena fez com que a populao conferisse
grande importncia ao culto dos santos. Alguns mestres sufi, que geralmente
recebiam terras ou estavam isentos de impostos, tiveram uma considervel
influncia poltica, como, por exemplo, Idris wad al-Akbr e os Madjdhib.
Os soberanos e seus sditos acabaram por reverenci-los ainda mais do que
os juristas.
    Todavia, no sculo XVII, as duas funes, a dos religiosos e dos juristas, no
se distinguiam mais entre si. Os juristas, diante da notria influncia de seus
rivais, esforaram-se em atrelar o ensino do direito  autoridade sufi. Essa evo-
luo era visvel na vida cotidiana local, uma vez que o ttulo de faki (derivado
do rabe fakih, jurista, plural fukah') era aplicado sem distino aos juristas e
aos msticos.
    A criao de numerosos centros religiosos e a grande influncia pessoal que
exerciam permitiram aos faki instaurar alguma estabilidade e continuidade 
sociedade instvel e heterognea dos funj: seu ensinamento da doutrina islmica
representava um elemento unificador, e a fidelidade que lhes era testemunhada
estava sobreposta por uma fidelidade ainda maior ao isl. O zelo missionrio
dos faki no se limitou ao sultanato funj, mas espalhou-se at o Cordofo, o
O Sudo de 1500 a 1800                                                                                                               219




             0!                             60 milhas

             0!                            100 km

                                                                            .
                                                                       Assiut




                                                                              lo
                                                                            Ni
                                                                           o
                                                                         Ri
                                                                        3 a catarata
                                                                                                                         Sawakin
                               Osis Salima                              4 a catarata
                                                                                                        5 a catarata




                                                                                                 A
                                                                                        DE B RTO
                                                                                            AYUD
                                                            Dongola
                                                                                                             Berber

                                                                                         DESE                          .
                                                                                                                       Koz Radjab
                                            `IN




                                                                                                     al-Damar
                                                                  ik
                                                                al
                                       A
                                     RB




                                                                                                                       Ri
                                                                                                      Shend
                                     -`A
                                                           -M




                                                                             6 a catarata




                                                                                                                         oA
                                   AL
                                                        al




                                                                                                     .
                                                                                                     Kerri




                                                                                                                            tba
                                                     di




                              RB
                                                  Wa




                         DA



                                                                                                                                ra
                                                                                                     Soba

  Kobbie
                                                                                          Sennar             Di
                                                                                                                  Ri



  FUR                                         C O R D O F  O                                                  de      Ra
                                                                                                                     o



                                                                                                                  r         h ad
                                                                                            branco




                                                                                                                                      As rotas comerciais do Sudo (de acordo com Y. F. Hasan).
                                                                                                               Nilo
                                                                                                                 az
                                                                                                                   ul
                                                                                          Nilo




                     .rab (ou Rio Kiir)
                 al-`A
           Rio


                                            Rio . l-Ghazal
                                                a
                                                                                                                                      Figura 7.3
220                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Darfur e o Borno. De fato, clebres juristas sudaneses atraram discpulos de
toda a regio situada entre a Gezira e o Borno29.
   O isl progredia da mesma maneira no Cordofo e no sultanato fur, recen-
temente criado. O Darfur sofreu a influncia de correntes islmicas vindas do
Magreb, do Bild al-Sdn central, e em seguida, cada vez mais, do reino funj.
Essas influncias fora sentidas no Kanem e, a partir da, em toda regio, bem
antes do sculo XI30.


      O comrcio e o Estado
    Algumas das grandes rotas comerciais da regio atravessavam os sultanatos
fur e funj em direo ao Egito e ao Mar Vermelho, rotas contribuindo gran-
demente para estreitar os laos culturais e econmicos da regio com o mundo
exterior. De uma maneira geral, o comrcio distante caminhava paralelo aos
interesses dos sultes funj e fur, assim como da maioria dos soberanos da rea
sudanesa. Tal comrcio se beneficiava com seus incentivos e proteo. Os escra-
vos, o ouro, as plumas de avestruz e outros produtos da frica eram trocados por
finos tecidos de algodo, jias, armas e diversos outros artigos de luxo. Alm dos
direitos aduaneiros recebidos nas trocas, os sultes necessitavam de objetos de
luxo para manter seu prestgio e recompensar seus fiis partidrios.
    O comrcio exterior era feito ao longo de dois grandes eixos orientados nos
sentidos oeste-leste e sul-norte. O primeiro ligava o Borno-Wadai a Sennar por
Kobbie  principal centro comercial do Darfur  e o Cordofo. Neste ponto, ele
servia a Koz Radjab e a Suakin, fosse diretamente, fosse ao passar por Shandi.
Por essa estrada, conhecida como a rota do Sudo, circulavam no s mercado-
rias, mas tambm peregrinos muulmanos.
    Por essa rota, o Sudo Oriental abria-se s influncias culturais do Sudo
Ocidental e da frica do Norte. Ela era seguida pelos eruditos muulmanos
que mantinham relaes estreitas com o vale do Nilo e o Hedjaz. Seu ponto
de partida parece ter se fixado no Darfur, que atraa tambm os peregrinos dos
pases situados a oeste do Lago Chade. No incio do sculo XIX, ela atravessava
o cinturo sudans at o Futa Toro, a oeste. Por ser muito mais curta e demandar
menores taxas de viagem do que outros itinerrios, tal itinerrio era igualmente


29    Foi por isso que al-Kaddal contava 1500 estudantes do Takrr e Arbb al-Khashin, por sua vez, 1000
      estudantes da regio situada entre a Gezira e o Borno.
30    Y. F. Hasan, 1971; Ibn Dayf Allh Muhammad `Abd Nur, 1973, p. 3-23.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                                   221



usado por peregrinos que no tinham meios para atravessar o deserto egpcio
em companhia das caravanas. A maioria deles viajava a p, vivendo de caridade
e desfrutando da proteo do povo muulmano. Alguns deles, dentre os quais se
incluem eruditos, instalaram-se no leste do Sudo, no podendo ser confundi-
dos com determinados movimentos migratrios de povos da frica Ocidental,
como os fulbe que haviam criado importantes comunidades no incio do sculo
XIX, notadamente no Darfur. Ao que tudo indica, tais peregrinos exerciam uma
atividade comercial importante ao longo de seu caminho, vendendo asnos, livros
e outras mercadorias. Eles tambm inscreviam frmulas em amuletos.
    A segunda estrada comeava em Sennar, de onde caravanas partiam duas
vezes por ano rumo ao Egito. Passava por Kerri (e mais tarde por Halfyat
al-Mulay), atravessando diretamente o deserto de Bayuda (ou partia de um
ponto situado no curso do Nilo), e ligava Asyut, no Alto-Egito, por Dongola
e Salima. Todavia, em virtude das turbulncias provocadas pela rebelio dos
shaykiyya no sculo XVIII, ela foi posta de lado em funo do surgimento de
outra, que se estendia ao longo da margem oriental do rio. Partindo de Sennar,
esta nova rota passava por Shandi e al-Damr, percorria o Atbara, alcanava
Berber para, depois, atravessar o deserto da Nbia, sob a proteo dos rabes
`abbda, e, finalmente, desembocar em Isna, no Alto-Egito.
    No osis de Salima, a estrada do Nilo juntava-se  Darb al-`Arba'in, ou
"estrada dos quarenta dias", principal artria do comrcio fur com o Egito, que
partia de Kobbie, passava por Suwayni, o ltimo posto alfandegrio dos Fur, e
se juntava a Asyut pelo deserto, percorrendo os osis de Salima e de Khrdja.
Uma outra estrada se dirigia rumo ao nordeste em direo a Trpoli e a Tunsia,
passando pelo Fezzn31.
    Graas a seu vasto interior e  sua posio estratgica, Sennar tornou-se um
importante centro comercial. Na sua descrio datada de 1701, o padre Krump
escreveu: "De toda a frica, ao menos entre pases mouros, Sennar  talvez a
maior cidade comercial. As caravanas chegam sem parar, vindas do Cairo, de
Dongola, da Nbia, da outra margem do Mar Vermelho, da Etipia, do Darfur,
do Borno, do Fezzn e de outros reinos.  uma cidade livre e os homens de
todas as nacionalidades e de todas as religies podem l viver sem impedimentos
de qualquer tipo32".



31   R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 6-9; P. M. Holt, 1961, p. 12-14; Y. F. Hasan, s. d. e 1977; U.
     al-Naqar, 1972, p. 92-113.
32   T. Krump, 1710.
222                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



    A maioria dos estrangeiros que se encontrava em Sennar era composta de
mercadores e de alguns artesos. Ao que parece, a maior parte do comrcio
permaneceu nas mos dos sudaneses nilotas djallba (comerciantes). Agentes
intermedirios entre Sennar e o Egito, os dankia e os dja`aliyyn de Shandi
adquiriram experincia comercial e capitais suficientes para se aventurar rumo a
novos territrios. Por seu esprito empreendedor, os djallba tambm desempe-
nharam um papel importante no comrcio fur, estimulando o desenvolvimento
de centros comerciais no Darfur. Ainda que os djallba do Sudo e do Alto-
-Egito fossem os principais investidores do comrcio distante, esse comrcio,
sua organizao e proteo dependiam, ao que tudo indica, da autoridade dos
sultes dos respectivos pases. s vezes, os sultes enviavam suas prprias cara-
vanas ao Cairo33. No Darfur, o comrcio distante era razoavelmente submetido
ao controle do Estado.  graas a essas caravanas comerciais que o sultanato fur
se fez conhecido pelo mundo exterior.
    A predominncia comercial de Sennar sofreria tanto com a rivalidade entre
funj e fur, que lutavam pelo controle do Cordofo, como com incurses dos
Shilluk, que comprometiam a segurana na estrada de Kobbie (al-Obeid) em
Sennar. Foi por esta razo que as caravanas optaram por tomar a direo do
norte rumo a Shandi34. Quando Bruce passou por l, em 1773, a cidade era um
grande centro comercial, regido de maneira autnoma por Sa`db Dja`aliyyn35.
No incio do sculo XIX, Shandi adquirira tamanha importncia que havia, de
acordo com Burckhardt, suplantado Sennar como grande ponto de encontro das
caravanas nbias e posto de troca entre fur e etopes36.
    No leste, os hadareb de Suakin praticavam tambm o comrcio distante,
notadamente entre o Mar Vermelho e o Nilo. Eles compravam produtos afri-
canos e escravos em Shandi para troc-los por produtos vindos da ndia em
Suakin, que constitua o mais importante mercado de escravos depois do Cairo
e de Massawa37.
    O encaminhamento dos escravos rumo ao norte pelo Nilo era um fenmeno
antigo. Os rabes lanaram mo desta prtica, por sua vez, quando concluram
o tratado de Bakt com os nbios. Quatrocentos escravos eram expedidos anu-


33    R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 68.
34    J. L. Burckhardt, 1819, p. 321-322.
35    J. Bruce 1805.
36    J. L. Burckhardt, op.cit.
37    Encontra-se um estudo mais detalhado dessa questo em Y. F. Hasan, s. d. e 1977; R. S. O'Fahey, 1970;
      J. L. Spaulding, 1971, p. 150; T. Walz, 1975.
O Sudo de 1500 a 1800                                                        223



almente da Nbia e o mundo rabe comeou a apreci-los, utilizando-os como
domsticos. Excelentes arqueiros, esses escravos formavam unidades combaten-
tes muito cobiadas. Os Tulnidas (868-935), os Ikhchdidas (935-969) e os
Fatmidas (969-1171) do Egito procuravam os escravos negros para engaj-los
nas fileiras dos seus exrcitos.
    O resultado disso foi um aumento na demanda de escravos negros. A Nbia,
entretanto, dada a baixa densidade de sua populao, no podia atender s necessi-
dades do mundo muulmano, obrigando os comerciantes rabes a explorar outras
fontes ao sul e sudeste desse Estado. Desse modo, os rabes (o termo  usado
sem preciso, pois engloba os rabes e seus sditos) contriburam para reiniciar o
comrcio de escravos, conferindo-lhe tamanha importncia que se conservou at
as ltimas dcadas do sculo XIX. A princpio, os escravos eram nbios e bejas;
depois, com o aumento da demanda, eles foram importados do Cordofo e do
Darfur; a seguir, progressivamente, foram trazidos do Bahr al Ghazal, do Borno-
-Wadai e de outros territrios do Bild al-Sdn central. Os escravos oferecidos
no mercado de Shandi, no fim do sculo XVIII, compreendiam etopes e nubas
do Cordofo, ou eram originrios do Darfur, do Borno e do Dr Silla.
    Os escravos deviam sua condio a conquistas, sequestros ou compras, e o
papel desempenhado pelos negociantes rabes foi diferente de acordo com a
poca e o lugar. Todavia, ao que parece, no conjunto, os comerciantes rabes
no buscaram escravos diretamente (exceto no sculo XIX), mas se dirigiram
a fornecedores ou intermedirios locais. Os comerciantes e seus fornecedores
tiravam total partido dos costumes antigos que se prestassem a seu negcio. Os
mercadores rabes ficavam bastante satisfeitos quando podiam encontrar escra-
vos por meios pacficos em troca dos produtos que comercializavam.
    A demanda exterior de escravos negros destinados aos exrcitos foi redu-
zida na poca dos ayyubidas (1172-1251), que dispensaram suas tropas negras,
substituindo-as por escravos brancos. Os mamelucos praticaram a mesma pol-
tica (1251-1517): sob sua administrao, o exrcito foi quase unicamente com-
posto por escravos brancos.
    Todavia, a demanda por soldados negros era mantida em determinadas regi-
es, notadamente nos jovens sultanatos funj e fur, onde esses escravos constitu-
am o maior contingente do exrcito. No sculo XIX, Muhammad `Ali Pasha,
vice-rei do Egito, recrutou, a princpio, escravos negros para constituir seu novo
exrcito. A maioria deles fora comprada no Sudo. O vice-rei, ento, renunciou
a seu projeto de constituir um exrcito de negros, embora durante todo o sculo
XIX, o exrcito egpcio ainda contasse com um grande contingente de soldados
sudaneses.
224                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



      O declnio do sultanato funj
    A notria decadncia comercial de Sennar veio acompanhada tambm
por um declnio poltico. Com o agravo das medidas repressivas tomadas por
Bdi IV, alguns membros da aristocracia funj  que tinham acompanhado Ab
Likaylik ao Cordofo e cujas famlias tinham sido muito dolorosamente atingi-
das  persuadiram o general a depor o sulto. Ab Likaylik entrou em Sennar
com seu exrcito, deps Bdi, substituindo-o, em 1762, por seu filho Nsir. O
sucesso obtido pela revolta de Likaylik marca uma data importante na histria
do sultanato. O shaykh Muhammad Ab Likaylik e seus sucessores, os wazir,
tornaram-se desde ento os verdadeiros soberanos hereditrios ou os regentes
do Estado at sua queda. Os sultes funj no passavam de marionetes nas mos
dos regentes hamadj. O cronista funj resume bem esse deslocamento do poder:
Bdi, escreve ele, "foi o ltimo rei mestre do poder, e com ele acabou a verdadeira
monarquia. Depois dele, o poder de ligar e desligar passou aos hamadj 38".
    O termo hamadj era aplicado pelos rabes sudaneses para designar alguns
povos antigos da Gezira que, conquanto considerados como descendentes dos
jaalis, no eram nem funj nem rabes. A hegemonia hamadj, sob a direo de
Ab Likaylik, representa provavelmente o ressurgimento de um antigo povo que
fora arabizado e islamizado39.
    Com a morte de Ab Likaylik, por volta de 1777, os reis funj conspiraram
com os governadores das provncias  notadamente os `abdallbi  para expulsar
seus regentes. Os descendentes de Ab Likaylik disputavam o poder entre si
e se encontravam em uma situao difcil. De fato, os cinquenta ltimos anos
do sultanato funj foram marcados por intrigas, revoltas e guerras civis entre
faces rivais.
    No norte, a autoridade dos chefes `abdallbi no vale do Nilo tambm decli-
nava: os sa`db, de Shandi, e os madjdhib, de al-Damr, se tornaram pra-
ticamente autnomos. Os guerreiros shaykiyya, que dominavam a regio de
Dongola, eram constantemente atacados pelos mamelucos do Egito. Em 1811,
estes ltimos escaparam do massacre organizado por Muhammad `Ali, estabe-
lecendo um acampamento em Dnkla al-`Urdi, em combate aos shaykiyya.
No oeste, os funj, assediados pelo sultanato fur, acabaram sendo expulsos do
Cordofo. Quando as foras turco-egpcias se aproximaram de Sennar em 1821,
o sultanato estava fraco demais para opor a menor resistncia.

38    J. L. Burckhardt, 1819, p. 310.
39    Ahmad b. al-Hadj dj Ab 'l-`Ali, 1961, p. 21; R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 94.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                    225



     O sultanato fur
    O sultanato fur foi um dos Estados islmicos da rea da savana do Bild
al-Sdn, situado nos confins ocidentais do Bild al-Sdn oriental. A oeste, ele
era separado do sultanato de Wadai por pequenos reinos semi-independentes,
cuja fidelidade os dois sultanatos compartilhavam. A leste, as plancies do Cor-
dofo, que separavam os sultanatos fur e funj, compuseram o cenrio de um
conflito de ordem essencialmente econmica entre os dois Estados. Primos dos
sultes fur, os mussaba`t, estavam tambm em p de guerra com os Estados
rivais e tentavam consolidar seu domnio sobre o Cordofo. O deserto da Lbia
ao norte e o Bahr al-`Arab ao sul limitavam o Estado por fronteiras naturais. A
regio central, dominada pelo Jabal Marra, bero do sultanato fur, era o ponto
de interseo entre numerosas rotas comerciais: fontes de prosperidade e, igual-
mente, vias de trocas culturais e migraes humanas.
    As origens do sultanato fur so pouco conhecidas em funo da raridade das
fontes escritas. De acordo com a tradio oral, o Estado fur foi precedido por
duas dinastias autctones, as dos ddj e dos tundjr. O reino ddj teve seu
apogeu nos sculos XIII e XIV. No incio do sculo XV, os ddj perderam o
controle do comrcio, sendo sucedidos pelos tundjr. Estes ltimos impuseram
sua autoridade, a princpio, sobre a regio central, para depois, pouco a pouco,
avanar sobre o Darfur e algumas partes do Wadai40.
    Foi provavelmente sob o reino dos tundjr (por volta de 1400-1600) que a
influncia do isl foi sentida na regio pela primeira vez, em virtude dos nume-
rosos contatos comerciais mantidos com o mundo muulmano e da penetrao
de imigrantes rabes41. Contudo, a verdadeira islamizao da regio comeou
apenas com a criao do sultanato fur, no incio do sculo XVII.
    O sultanato devia seu nome aos fur, comunidade sudanesa que vivia nos
arredores do Jabal Marra e que, por suas origens, se ligava talvez aos povos do
oeste do Bahr al Ghazal. No se sabe exatamente por que razo os fur desceram
de sua montanha para se instalar na savana.
    De acordo com R. S. O'Fahey, o sultanato fur, como os outros Estados isl-
micos da rea sudanesa,  resultado do comrcio distante, sendo formado em
consequncia da intensificao das trocas ao longo da "estrada dos quarenta
dias"42. Muitos especialistas notaram que a expanso do Isl estava associada

40   Y. F. Hasan, 1972, p. 72-82.
41   Ibidem, p. 82-85; P. M. Holt, 1961; R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 121.
42   R. S. O'Fahey, 1971, p. 87.
226                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



ao comrcio; no caso do sultanato fur, desempenhando um papel importante
no desenvolvimento do prprio Estado e no reforo de seus contatos com os
povos vizinhos.
    O sultanato kayra perdurou de 1640 at cerca de 1874. Foi restabelecido
em 1898 e finalmente anexado pelo Sudo anglo-egpcio em 1916. Suleyman
Solongdungu foi provavelmente seu fundador histrico (por volta de 1640-
-1660), deixando a memria daquele conquistador que expulsou os tundjr
e anexou a regio situada ao redor do Jabal Marra. Nestas campanhas, ele era
seguido pelos grupos rabes  notadamente nmades criadores de camelos e de
gado  como os habniyya, os ma`liyya, os rizaykt e os misayriyya.
    A poltica de expanso e consolidao incentivada por Suleyman Solong-
dungu foi levada adiante por seus sucessores, progredindo em direo ao norte
e nordeste. Ahmad Bukr b. Ms (por volta de 1682-1722) anexou o Estado
do Dr Kimr por sua importncia estratgica. Essa expanso colocou a dinastia
kayra em contato com os zaghwa, cujos territrios se tornaram uma fonte de
conflitos entre os sultanatos do Wadai e do Darfur. Os kayra consolidaram sua
posio no Dr Zaghwa por meio de casamentos e de seu apoio a certos grupos
em luta. Os conflitos pela posse dos territrios fronteirios terminaram em favor
do sultanato kayra, e o Wadai continuou a pagar o tributo que era anteriormente
destinado aos reis tundjr. Todavia, o sulto Ya`kb recusou-se a pag-lo, invadiu
o Darfur e penetrou at Kabkbiyya, importante centro comercial. Aps dois
anos de preparativos militares, durante os quais angariou armas, especialmente
de fogo, no Cairo, Bukr expulsou do pas os invasores43.
    At o fim do sculo XVIII, a histria poltica do Darfur esteve pautada pela
luta entre duas faces da dinastia kayra: os sultes, que buscavam centralizar o
poder em suas mos, e os outros prncipes, que queriam reforar os poderes da
dinastia em seu conjunto. Tal conflito eclodiu porque o sulto Bukr expressara
a vontade de que cada um de seus filhos o sucedesse um aps o outro. Ora, ele
no tinha menos do que uma centena de filhos, dos quais cinco subiram ao
trono fur. Seu primeiro sucessor, Muhammad Dawra, comeou a eliminar seus
irmos ou exil-los no Jabal Marra. Depois designou seu prprio filho, Ms,
para suced-lo. Entretanto, logo mudou de opinio, substituindo Ms pelo
irmo mais novo deste, `Umar Lel. Ms, por sua vez, reagiu contra seu pai.
Quando `Umar Lel chegou ao poder, a hostilidade cresceu entre ele e seus tios,
os filhos de Bukr. Suleyman ibn Ahmad Bukr se refugiou junto aos musabba`t


43    R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p.126-128; Y. F. Hasan, 1972, p. 86-88.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                           227



que, aps falhar numa tentativa de tomar o trono kayra, tiveram de imigrar
para o Cordofo. Suleyman no chegou a garantir o apoio dos Musabba`t, nem
mesmo do sulto do Wadai, mas tais empreitadas levaram `Umar Lel a invadir o
Wadai em meados do sculo XVIII. Aps violentas batalhas, o sulto do Wadai,
Muhammad Djawda, venceu o exrcito fur e capturou o sulto.
   O conflito continuou durante o reinado do sexto sulto, Abu `l-Ksim b.
Ahmad Bukr. Para reforar sua prpria posio, ele combateu seus irmos, recru-
tando um exrcito de escravos antes de fazer qualquer chamado a guerreiros tra-
dicionais. Dessa forma, ele "se ops definitivamente aos homens livres de seu pas,
privilegiando os escravos e cobrindo-lhes de riquezas e ttulos honorficos.44".
   Muitos dignitrios insurgiram-se contra a ideia de que a autoridade do sul-
to pudesse depender de um exrcito de escravos. De fato, criou-se uma tenso
anloga quela pela qual passara o sultanato funj sob o reinado de Bdi IV.
   No decorrer da batalha contra as tropas do Wadai, Abu `l-Ksim foi abando-
nado pelos chefes de guerra tradicionais e seus homens, permanecendo isolado
com seus escravos. Ele perdeu essa batalha e foi ferido. A velha nobreza fur e os
guerreiros tradicionais, ento, proclamaram um novo sulto, Muhammad Tayrb
ibn Ahmad Bukr, que seguiu o exemplo de seus predecessores e constituiu,
por sua parte, um exrcito de escravos, a kurkw (corpo de lanceiros, em fur).
Escravos turundj dos montes Nuba, os dading de Dr Tama e outros tambm
foram incorporados em suas fileiras. Um dos membros da kurkw, o eunuco
Muhammad Kurra, tornou-se um dos primeiros camareiros do rei. Mais tarde,
obteve uma distino ainda mais importante e foi nomeado b shaykh, cargo ao
qual era atribuda uma grande autoridade45.
   No podendo se estender rumo a oeste em detrimento de seu temvel ini-
migo, o sulto do Wadai, Tayrb, firmou com este um tratado que permaneceu
em vigor durante uma centena de anos. Ele se voltou ento para o leste, contra
os musabba`t, que teriam retomado o controle do Cordofo depois da retirada
de Ab Likaylik, em 1761-1762. Outros motivos teriam levado a essa mudana
de direo. Tayrb queria impedir que os musabba`t chegassem a constituir um
Estado forte no Cordofo. Por outro lado, talvez houvesse motivaes de ordem
econmica, como, por exemplo, manter o controle sobre as estradas comerciais,
bem como sobre as reservas de escravos e de ouro do Cordofo meridional.
A chegada de um grande nmero de djallba  conhecidos por seu esprito
empreendedor  e de mestres religiosos vindos do sultanato funj, bem como

44   G. Nachtigal, 1971, vol. IV, p. 285.
45   R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 129-137 e 171-175; Y. F. Hasan, 1972, p. 87-88.
228                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



a multiplicao dos laos comerciais com o Egito, talvez tenham inspirado a
deciso do sulto. Seu objetivo imediato era, provavelmente, expulsar do Darfur
seus irmos e outros membros da velha nobreza fur, a fim de permitir que seu
filho Ishk o sucedesse.  frente de um grande exrcito, Tayrb atacou Hshim,
sulto de Cordofo, o qual, abandonado por seu exrcito, se refugiou no sultanato
funj. O Cordofo, por sua vez, caa nas mos dos fur e assim continuaria at a
conquista turco-egpcia. O prprio Tayrb morreu em Bara.
    A sucesso deu lugar a uma luta entre os partidrios de Ishk e seus tios,
os filhos de Ahmad Bukr. Muhammad Kurra conseguiu o apoio da segunda
faco em favor de `Abd al-Rahmn, o filho mais novo de Ahmad Bukr. `Abd
al-Rahmn era um jovem piedoso e instrudo que no tinha relaes com as
tribos, nem o apoio das novas foras do Estado, mas saiu vencedor da guerra
civil. O novo sulto recompensou Muhammad Kurra, nomeando-o b shaykh,
cargo inferior somente ao de sulto. De 1790 at cerca de 1804, Muhammad
Kurra foi o homem forte do Estado46.
    Para marcar sua vitria, `Abd al-Rahmn construiu, em 1741-1742, uma nova
residncia real (fshir) em Khor Tandalti, a leste de Jabal Marra. At ento, os
sultes fur no dispunham de capital fixa. O estabelecimento de tal capital em
al-Fshir e a consolidao das foras de centralizao e de islamizao sob o
reinado de `Abd al-Rahmn marcaram o apogeu do sultanato kayra. Esse rei-
nado permitiu que os laos com o exterior se estreitassem, graas ao comrcio
e  chegada dos mestres religiosos. O Estado tirava proveito das correntes de
trocas que tomavam a "estrada dos quarenta dias". G. W. Browne, que viajou
pelo Darfur entre 1793 e 1796, assim descreve o papel de seu dirigente: "o rei 
o principal comerciante do pas. Neste caso, ele manda no apenas transportar
uma grande quantidade de suas prprias mercadorias por cada caravana que v
para o Egito, mas tambm vender, nos pases vizinhos do Sudo  por entre seus
escravos e homens  mercadorias importadas do Egito47."
    Os sultes utilizaram o comrcio para firmar sua situao poltica, com-
prando armas, armaduras e produtos de luxo para recompensar a fidelidade de
seus subordinados e de seus aliados.
    A infiltrao dos dja`aliyyn e dos dankia estimulou o comrcio e a reli-
gio. `Abd al-Rahmn trocava presentes com o sulto otomano, conferindo-lhe
o ttulo honorfico de al-Rashid (o justo). Ele se correspondia tambm com
Bonaparte em 1799, quando da ocupao francesa no Egito.

46    P. M. Holt, 1961, p. 26-28; R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 134-140; Y. F. Hasan, 1972, p. 91
47    G. W. Browne, 1799, p. 301.
O Sudo de 1500 a 1800                                                          229



    A adoo do isl foi, provavelmente, muito mais lenta no Darfur do que no
sultanato funj, tendo acelerado a partir do sculo XVIII. Atribui-se ao sulto
Suleyman Solongdungu a adoo do isl como religio da corte e a introduo
das prticas religiosas islmicas. Algumas famlias religiosas do Darfur afirmam
que seus ancestrais se instalaram no sultanato sob o reinado de Suleyman. Por
sua parte, na corte de Kayra, os ritos e prticas das religies africanas coexis-
tiram durante algum tempo com o isl48. Consequentemente, a influncia do
isl foi estimulada por Ahmad Bukr que mandou construir mesquitas e escolas,
enquanto Muhammad Tayrb trazia livros religiosos do Egito e da Tunsia. `Abd
al-Rahmn al-Rashid, ele mesmo um erudito muulmano, incentivou os juristas
e os msticos de outros pases a virem se instalar em seu sultanato. Foi claramente
o caso do rabe tunisiano `Umar al-Tunisi, seguido de seu filho Muhammad e
cuja descrio do Darfur  uma das principais fontes da histria desse pas49.
Outros sbios chegaram do Egito, do Hedjaz, do Sudo niltico e do oeste
do Bild al-Sdn. Foi dessa ltima regio que veio Mlik al-Futwi, membro
de uma famlia religiosa, que instruiu `Abd al-Rahmn antes de sua ascenso
ao trono, tornando-se, em seguida, ministro do sulto Muhammad al-Fadl.
Considerando que a execuo das decises de justia era reservada ao sulto
e aos dignitrios, cujo direito era reconhecido tradicionalmente pelo costume,
`Izz al-Din al-Djmi foi provavelmente nomeado grand kdi (juiz supremo no
tribunal da shari`a) como simples conselheiro.
    Para atrair os eruditos ao seu pas, o sulto oferecia terras aos que ensinassem
os preceitos do isl, graas ao sistema da hakura, ou iseno de impostos, como
era o caso no sultanato funj. Alguns desses personagens desempenharam o um
papel de mediadores50.
    No fim do sculo XVIII, ao que parece, o sulto e seus colaboradores mais
prximos, que no eram afiliados a nenhuma tribo, haviam colaborado ampla-
mente para o desenvolvimento do comrcio exterior e adotado instituies
islmicas para a administrao do pas. Tal quadro contribuiu para modificar
a estrutura tnica do Estado e, ao mesmo tempo, enfraquecer as antigas prti-
cas religiosas que at ento se mantinham. O surgimento de uma nova classe
de mercadores, juristas e msticos facilitou essa evoluo. Contudo, a dinastia
kayra, bem antes dos ancestrais rabes, fixava suas razes na comunidade fur.



48   Y. F. Hasan, 1972, p. 90-91.
49   Muhammad ibn `Umar al-Tunisi, 1965.
50   Y. F. Hasan, 1971, p. 83-85; R. S. O'Fahey, 1971, p. 87-95.
230                                                                                      frica do sculo xvi ao xviii



Se o idioma rabe era usado na diplomacia e no comrcio, o fur permaneceu a
lngua da corte.
   Com a morte de `Abd al-Rahmn, por volta de 1802, seu filho Muhammad
al-Fadl sucedeu-lhe com a ajuda de Muhammad Kurra. O novo sulto logo
entraria em conflito com este, e, embora o tivesse nomeado seu prprio ministro,
ordenou seu assassinato. Muhammad al-Fadl reinou durante quase quarenta
anos, perodo em que se acelerou o declnio do Estado51.


      O Sudo meridional
   Embora haja estudos antropolgicos pertinentes acerca dos dinka, dos nuer,
dos anywa, dos shilluk e dos azande  empreendidos por eminentes pesquisa-
dores como W. Hofmay, D. Westermann, C. G. Seligman, E. Evans-Pritchard
e vrios de seus alunos, bem como por F. M. Deng , a pesquisa histrica sobre
o Sudo meridional ainda est no incio. O mesmo acontece com os estudos
arqueolgicos, geralmente concentrados no Sudo setentrional, e com a pesquisa
lingustica histrica52.


                                                  Nilo-saarianos


                                            Fur                    Nilo-Chari


                                            Sudaneses orientais         Centro-sudaneses


                         Kuliak                  Surma                  Nilticos


                                      Nilticos ocidentais         Nilticos orientais      Nilticos meridionais
                                                                                              (no aparecem na
                                                                                             poca considerada)

     Dinka                Nuer                     Luo        Bari           Grupo dos Lotuxo


               Acholi                 Shillluk           Luo de Wau                 Anywa




51    R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 162-164 e 167; Y. F. Hasan, 1972, p. 95-96; R. S. O'Fahey, 1970,
      p. 3 e 9.
52 Para se ter uma ideia do tamanho da nossa ignorncia, ver J. Mack e P. Robertshaw, 1982.
O Sudo de 1500 a 1800                                                            231



    Contudo, grandes linhagens emergem dos raros dados de que dispomos.
Assim, fontes lingusticas mostram cada vez mais claramente que as culturas
nilticas e, provavelmente, as do Sudo central tm suas razes no Sudo Meri-
dional53. Alm disso, sabemos hoje que a maioria dos grupos lingusticos que
desempenharam um papel relevante na histria do Sudo Meridional pertence
 famlia nilo-saariana de Greenberg.
    Grande parte do Sudo Meridional e da Uganda Setentrional foi, ao que
tudo indica, ocupada por comunidades falantes de lnguas do Sudo Central, at
as ltimas dcadas do primeiro milnio  poca na qual a regio comeou a ser
colonizada por povos de lnguas nilticas oriental e ocidental. De fato, um dos
grandes temas histricos do perodo que nos interessa consiste na "nilotizao"
progressiva dos habitantes do Sudo Meridional, os quais anteriormente falavam
a lngua do Sudo Central. Hoje, a regio  ocupada essencialmente pelos nilti-
cos; apenas os moru e os madi, que vivem a oeste do Nilo Branco, testemunham
a antiga presena de povos falantes da lngua do Sudo Central.
    Roland Oliver, ao propor uma sntese dos dados arqueolgicos da idade do
ferro relativos  pr-histria dessa regio, tende a confirmar o que as fontes
lingusticas demonstram54. Segundo o pesquisador, havia, na idade do ferro, dois
centros culturais, um ao leste dos pntanos do Nilo  nas fronteiras sudano-
-etopes , e outro localizado no plat ferruginoso da bacia Nilo-Congo. Essas
duas culturas  uma niltica e a outra banto  eram separadas pelas culturas
do Sudo Central, evoluindo, portanto, independentemente uma da outra. 
medida que os nilotas se deslocavam rumo ao sul e s regies banto, tais cultu-
ras se mesclavam. Oliver considera, ainda, que, em virtude dessa mistura com
os nilticos, as comunidades de lngua banto comearam a praticar a pecuria
intensiva.
    No que diz respeito ao Sudo, Oliver distingue, entre os nilticos, dois per-
odos na idade do ferro. O primeiro coincide com o ltimo perodo da idade
do ferro entre os bantos. Na regio equatorial do oeste e na de Bahr al Ghazal,
esse perodo  associado aos pecuaristas da idade do ferro, os luel, que se carac-
terizavam por criar bovinos sem chifre e construir pequenas elevaes para se
protegerem das inundaes tpicas da estao das chuvas. J. M. Stubbs, C. C. T.
Morison, S. Santandrea e G. Lienhardt supem que os luel tenham representado
a primeira leva de povos luo vindos do norte. Sua olaria era geralmente simples
ou cinzelada com a ajuda de roletas feitas de fibra torcida.

53   C. Ehret, 1982.
54   R. Oliver, 1982. Ver tambm seu captulo em J. Mack e P. Robertshaw, 1982.
232                                                                                                                      frica do sculo xvi ao xviii




                   0                        60 milhas

                   0                   100 km




                                                                            lo
                                                                          Ni
                                                                          o
                                                               OS

                                                                        Ri
                                                             BI
                                                             N




                                                                                                                             BE
                                                                                                                               DJ
                                                                                                                                 A
                                                         3 a catarata




                                                                                      SH
                                                                    NA .
                                                                      KIA




                                                                                        AY
                                                               DA




                                                                                           O
                                                                         4 a catarata




                                                                                             NY
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                                                                                                            5 a catarata




                                                                                                                     N
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                                                                                                              IY
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                                                                                                            L
                                                KABA

                                                                                                         `A
                                                                                                       JA
                                                                              6 a catarata




                                                                                                                         io
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                                                                                                                            Atb
                                                                                                                                ara
                                           LA                                                        SHUKI`IYYA
                                      AH                                                               Rio
       TU
                                K   AW                                                         YA            Ra
             ND                                                                           IY                    h   ad
                   JU                      DJAWAMI`A                             AS   SAN                                RUFA
                        R                                                    H                                                `A
   R                                        BIDAR
                                                                                                MASA




FU                                                IYYA
                                                                                                                     ANA
                                                                                           Branco




                                                                                                             KIN
                            BAK. . R
                                                                                                    LL AM




               U               KA A                      A
            DJ                                      IM
       DA                                      AZ
                                              W
                                                                                                     IYYA




                                            HA
                                                                                        Nilo




                                                                        NUBA
                                                                                    UK




                                                MISAY

                                                                                                                                                    Os povos do Sudo (de acordo com Y. F. Hasan)
                                                                                                                             Nil




                                                         RIYYA
                 ab (ou Rio Kiir)
                                                                                 ILL




            l-`Ar
                                                                                                                                o




          oa
                                                                                                                              Az




        Ri                        .
                                                                              SH




                            RIZAYKAT
                                                                                                                                ul




                                                                    Lago No
                                                                                           NG
                                                                                        JIE




                                               .
                                           Rio al-Ghazal                 NAATH
                                                             JIENG




                                                  Z AN
                                                         DE
                                                                                                                                                    Figura 7.4
O Sudo de 1500 a 1800                                                        233



    Sucedido pela ltima idade do ferro entre os nilticos  a que nos interessa
especificamente , esse perodo de transio parece ter coincidido tanto com a
apario dos bovinos de chifre na regio do Bahr al Ghazal, como com a prtica
generalizada da transumncia, particularmente entre os dinka.  provvel que
os bovinos de chifre se tenham disseminado em direo ao sul, a partir do des-
locamento dos rabes baggara e da queda do reino de Dongola.  igualmente
interessante notar que a penetrao rabe no Sudo Setentrional e Central, nos
sculos XIII e XIV, no apenas coincide com as migraes nilticas ocidentais,
mas tambm constitui sua causa55.
    A rpida expanso dos nilticos ocidentais e orientais rumo ao sul e ao leste
pode ento ser relacionada  apario da pecuria intensiva, generalizada graas
 introduo dos bovinos de chifre, e que, associada a cultua de cereais, era um
modo de produo alimentcia adaptado s regies mais secas. Dessa forma, os
nilticos puderam ocupar numerosos territrios at ento evitados pelas comu-
nidades de lngua banto.


     O reino dos Shilluk
   No Sudo meridional, entre os integrantes do grupo dos luo  que inclua
tambm os luo do Bahr al Ghazal e os anywa que viviam cada qual de um lado
da fronteira sudano-etope  os shilluk representavam o elemento mais impor-
tante. Sob a direo de seu chefe, Nyiang (por volta de 1490-1517), os shilluk
instalaram-se, a princpio, perto de Malakal, aps terem vencido e expulsado os
funj que habitavam o que se tornaria, mais tarde, o corao da regio shilluk,
entre Tonga ao sul e Muomo ao norte.  atravs dessa regio, situada na conflu-
ncia do Nilo e do Sobat, que se tem acesso ao lago No, o que explica a enorme
importncia estratgica que lhe era, sem dvida, atribuda. Nesse pequeno grupo
de lngua luo estavam incorporados, entre outros, elementos funj e nuba, os
quais, representando culturas e tradies econmicas diferentes e misturados
no cadinho da histria, formaram o que se tornou a nao shilluk a partir da
segunda metade do sculo XVII.
   No decorrer desse sculo de formao, os shilluk estabeleceram em seu reino
uma economia mista, baseada na pecuria e na cultura de cereais. Essencial-
mente sedentria, essa populao no praticava a transumncia, ao contrrio dos



55   D. W. Cohen, 1973; I Hrbek, 1977, p. 78-80.
234                                                           frica do sculo xvi ao xviii



dinka e dos nuer. Os shilluk viviam em vilas espalhadas por 150 quilmetros, ao
longo da margem ocidental do Nilo, entre Muomo e Tonga.


      As fronteiras e a interdependncia socio econmica
    No incio do sculo XVII, a margem ocidental do Nilo j se encontrava
superpovoada, e a situao no melhoraria no sculo XIX, tendo em vista que,
segundo G. Schweinfurth, de todas as regies africanas conhecidas pelo restante
do mundo (considerando o vale do Nilo no Egito), esta era a de maior densidade
populacional56. Os shilluk comearam a avanar na direo de duas reas fron-
teirias. No norte, tentaram tomar posse do vale do Nilo Branco, entre Muomo
e Alays, territrio de aproximadamente 480 quilmetros, permeado de ilhas e
de densas florestas de mimosa. A regio era imprpria para a agricultura, mas
fornecia caa, peixe e mel em abundncia. A partir do reinado de Odak Ocollo
(por volta de 1600-1635) e at 1861, os assim designados shilluk do rio contro-
laram essa regio, a qual os muulmanos chamavam de Bahr Scheluk.
    A segunda rea fronteiria era compreendida entre o Nilo e os montes nuba.
A tradio confere um lugar muito amplo s atividades dos shilluk e dos nuba
nessa regio, antes de sua ocupao pelos rabes baggara no decorrer da segunda
metade do sculo XIX.
    Eis o que escrevem a respeito disso R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding em sua obra,
The kingdoms of the Sudan: "Os sculos XIV e XV constituram, nas regies do
Sudo situadas ao longo do Nilo, um perodo de mudana, de ajuste a um contato
cultural com pases vizinhos e de composio com dois grupos invasores: os ra-
bes e as comunidades de lngua niltica, particularmente os shilluk. A unificao
da Nbia no incio do sculo XVI pode ser considerada tanto como uma reao
nbia contra os invasores, quanto como uma reao positiva em relao s novas
condies econmicas e sociais engendradas por estas foras de invaso"57.
     nesse contexto mais amplo que se deve reinserir a histria dos shilluk no
decorrer deste perodo. Eles se voltaram para as regies fronteirias do norte e
do oeste que, oferecendo um atrativo econmico, constituam o que P. Mercer
chamou de "outra fonte de aprovisionamento"58. Alm do mais, tal fonte per-
mitia acolher o excedente de populao.


56    G. Schweinfurth, 1873, p. 85.
57    R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 15.
58    P. Mercer, 1971, p. 414.
O Sudo de 1500 a 1800                                                                                235



     As tradies shilluk nos informam, por exemplo, que durante o reinado
do reth (rei) Odak Ocollo, os shilluk apoiaram o Darfur, contra o sultanato
funj, no embate pelo controle do comrcio na regio do Nilo Branco. Aps
a capitulao de Takali, os funj e os shilluk se reencontraram frente a frente
ao longo do Nilo Branco, aparentemente esgotados por cerca de trinta anos
de guerra.
     Mas essa trgua foi logo rompida com a chegada de outro povo de lngua
jii  os dinka  que invadiram o sul do funj a partir de 163060. Ao longo dos
   59

sculos XVII e XVIII, os dinka expandiram-se no sul da Gezira, o que provocou
uma mudana progressiva no equilbrio de foras da regio. Sua presena repre-
sentava uma ameaa tal para os shilluk e os funj que ambos uniram suas foras
contra os dinka, por consider-los um inimigo comum. Com isso, conseguiram
impedir que o novo inimigo dominasse o norte ou o oeste, empurrando-o para
o leste, rumo  fronteira etope.
     A aliana que os dois grupos constituram contra os dinka marcou o incio de
uma interdependncia socioeconmica que os shilluk j haviam estabelecido em
diferentes pocas com diversos grupos  os funj, os djallba, os rabes baggara,
os piratas rabes, os mercadores europeus e os mahdistas  normalmente com
o fito de explorar os dinka. O fato de os shilluk terem se associado vrias vezes
a diversos grupos para explorar um povo parente de lngua jii constitu prova
cabal de que tais alianas socioeconmicas ainda no eram orientadas por uma
ideologia. A ideologia racial ou tnica no Sudo meridional  um fenmeno pos-
terior ao perodo Mahdiyya. Os historiadores que se interessam pelos diversos
tipos de dependncias scio-econmicas deveriam estudar as relaes entre os
diferentes grupos do Alto Nilo  os shilluk, os fur, os funj, os nuba, os rabes,
os dinka e os nuer  com o fim de entender, primeiro, o que representava nesta
poca a mobilidade das fronteiras e, segundo, de que modo diversos grupos se
integraram em sistemas socioeconmicos diferentes.


     O desenvolvimento das instituies polticas e sociais
    A metade do sculo XVII produziu um quadro de evoluo poltica que teria
influncia considervel no desenvolvimento socioeconmico do pas shilluk.


59   Os que usam essa lngua so os povos de lngua niltica das regies ocidentais, compreendendo os luo,
     bem como os dinka e os nuer (naath). Todos eles usam o jii, que significa "povo", da seu nome.
60   R. S. O'Fahey e J. L. Spaulding, 1974, p. 61-63.
236                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Apesar de sua diversidade, a populao adquiriu um sentimento de unidade
nacional, adotando uma administrao mais centralizada sob a direo do reth.
Uma das principais consequncias dessa reforma foi o estabelecimento pro-
gressivo de um monoplio real sobre as fontes econmicas, bem como sobre o
comrcio interior e exterior.
    Trs nomes esto associados a essa reforma na histria dos shilluk: Abudhok,
rainha e filha do reth Bwoc, uma das muitas mulheres influentes na histria dos
shilluk; seu meio-irmo Dhokoth; e Tugo, o filho deste ltimo. O reth Dhokoth
(por volta de 1670-1690) deve sua notoriedade s incurses que o levaram no
apenas pelo Nilo abaixo, mas tambm rumo ao oeste, nos montes Nuba. A
grande fome de 1684 (conhecida, em lngua rabe, com o nome de umm lahan)
provocou a fuga de vrios shilluk para o norte, a fim de pilhar Bahr Scheluk ou
ali se instalar. Dessa forma, pode-se imputar a destruio de dezessete escolas
religiosas situadas entre Alays e a confluncia do Nilo Azul e do Nilo Branco 
grande fome e aos shilluk61. As razias de Dhokoth foram extremamente frutfe-
ras e permitiram tambm capturar cativos. Originrios, em sua maior parte, da
regio situada ao leste de Kaka, foram reinstalados em Athakong, onde fizeram
parte da guarda pessoal do reth Dhokoth.
    Os xitos econmicos e militares do reth Dhokoth explicam em grande
parte a centralizao dos poderes do reth, centralizao esta que se consolidou
com seu filho e sucessor Tugo (por volta de 1690-1710), que fundou a vila
de Fachoda, onde se fixou a residncia permanente do reth. Anteriormente,
os soberanos governavam a partir de sua vila natal e l eram enterrados. Foi
tambm Tugo quem instituiu os ritos complexos da cerimnia de investidura
dos reth shilluk. Sua reputao estendeu-se rapidamente, tanto no interior
quanto no exterior do reino. Ao que tudo indica, houve uma correlao entre
o grau de centralizao poltica e o aparecimento de uma hierarquia de classes
na sociedade shilluk.
    No incio do sculo XVIII, o sultanato funj se desintegrava, como vimos
anteriormente.  medida que a autoridade dos funj sobre o Nilo Branco decli-
nava, a dos shilluk progredia. Em 1772, quando James Bruce esteve em Sennar,
no teve dvida alguma de que os shilluk eram os senhores de Alays62, na medida
em que levaram suas incurses at a confluncia dos dois Nilos. Brun-Rolet
confirmou em seguida essa indicao, acrescentando o dado de que o local atual


61    Ibn Dayf Allh Muhammad `Abd Nur, 1973, p. 95 e 344; P. Mercer, 1971, p. 410.
62    J. Bruce, 1805, vol. VI, p. 390.
O Sudo de 1500 a 1800                                                        237



de Cartum fora um centro importante at 1780, data em que os pilhantes shilluk
destruram-na, massacrado todos os seus habitantes63.
    As duas ltimas dcadas do sculo XVIII representaram a runa final do sul-
tanato funj, o que permitiu aos shilluk reforar sua supremacia no Nilo Branco.
O viajante ingls George William Browne, que ficou no Darfur durante quatro
anos (1793-1796) e escreveu um livro sobre o comrcio na regio, indica que
os shilluk controlavam totalmente o rio em Alays, organizando ali um servio
de traslado que possibilitava aos caravaneiros que circulavam entre Sennar e
al-`Obeyd atravessar o Nilo64.


     O declnio do poder shilluk
   Durante o reinado do reth Nyakwaa (por volta de 1780-1820), os dinka 
provavelmente dos ramos rueng e ngok , emigraram em massa do outro lado
do rio Sobat. Os shilluk  que durante um sculo e meio haviam usufrudo
do controle total da regio do Nilo Branco, do lago No, ao sul, at Alays, ao
norte  tiveram ento de aceitar a presena de outras populaes de lngua jii.
Mas isso no foi tudo. Um ano depois da morte de Nyakwaa, os exrcitos de
Muhammad `Ali Pasha, vice-rei do Egito, invadiram o Sudo, puseram fim 
administrao funj e instalaram o domnio turco-egpcio a fim de explorar o
Sudo em benefcio prprio. O enfrentamento com os shilluk, que dominavam
o curso do Nilo Branco, era inevitvel. A despeito de uma resistncia firme, a
partir de 1821, a fronteira shilluk recuou constantemente para o sul, diante da
invaso progressiva dos rabes e do regime turco-egpcio.
   Para dominar o Nilo Branco, os shilluk deviam controlar as vias navegveis.
Tal controle dependia de suas pirogas, ou seja, do poder de sua marinha. Eles
possuam um grande nmero de barcos e eram excelentes remadores. Em suas
incurses ou expedies militares, eles costumavam partir em grupos de trinta
ou quarenta pirogas, constituindo, portanto, uma fora militar considervel na
regio. Citaremos novamente Mercer: "[...] antes da criao dos estaleiros navais
turcos do Nilo Branco, nada na regio se aproximava das pirogas shilluk"65. Em
1826, no entanto, com a criao de um estaleiro turco-egpcio em Mandjara, a
supremacia dos shilluk sobre o Nilo Branco comeou a declinar.


63   C. E. J. Walkley, 1935, p. 277.
64   W. G. Browne, 1799, p. 452-453.
65   P. Mercer, 1971, p. 412.
238                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



      Os povos do Bahr al Ghazal
    A regio situada no sul do Bahr al Gazhal e no oeste de uma linha que vai
de Meshra al-Rek e Rumbek ao ponto de encontro entre as fronteiras do Sudo,
do Congo e da Uganda modernos  toda esta regio era ocupada por etnias que
pertenciam a duas grandes famlias lingusticas: os ubanguianos (Nger/Congo)
e os sudaneses do centro (Saara/Nilo), que, h muito, a estavam instalados. De
fato, parece que os sudaneses do centro viveram nessa regio durante vrios
milnios antes da era crist, seja perto de Bahr al-`Arab, seja na regio de Wau66.
Fixados unicamente ao longo dos cursos d'gua, viviam da cultura dos cereais,
da pecuria e da caa.  a eles que devemos o stio arqueolgico de Djabal
Turkyi (5 19' de latitude N. e 30 27' de longitude L.) que remonta a mais ou
menos 180-220 antes da nossa era67. Antes de 1800, so encontrados povos que
falavam essas lnguas desde a regio de Hofrat-en-Nahas at as fronteiras da
floresta tropical mida ao sul e, tambm, dos dois lados do Nilo superior at o
lago Alberta.
    Os ubanguianos chegaram do oeste (Repblica Centro-africana) e se ins-
talaram geralmente a oeste das comunidades que falavam o sudans central
 ou entre essas comunidades , o que  compreensvel, considerando a fraca
densidade populacional da regio. Eram povos agricultores e fundamentaram
sua economia no inhame, antes de passar  cultura de cereais ou de bananas, de
acordo com o lugar onde se encontrassem. Eles no criavam gado, o que implica
uma atitude fundamentalmente diferente dos povos do Sudo central, no que
diz respeito  riqueza e, especialmente, ao dote.68.
    Sabemos muito pouco sobre a vida desses povos antes de 1800, uma vez que
os acontecimentos advindos no sculo XIX acarretaram a dissoluo de suas
comunidades. Nesta poca, mercadores de escravos vindos do Darfur j exer-
ciam seu negcio em diversas regies, como por exemplo, em Dar Fertit e em
Dar Banda, ao sul de Hofrat-en-Nahas. Os zande, por sua vez, comeavam a
conquistar as regies situadas mais ao sul, atravs da assimilao das populaes
atacadas. Em outras regies, em particular no norte, produziu-se uma forte cor-
rente migratria rumo  regio centro-africana,  medida que os povos de lngua
banda, entre outros, fugiam dos mercadores de escravos. As pesquisas de F.



66    C. Ehret, 1974, p. 86; N. David, 1982, p. 80-81.
67    N. David, 1982, p. 81-82.
68    D. E. Saxon, 1982; N. David, 1982, p. 88-91; L. Bouquiaux e L. Hyman, 1980, p. 807-822.
O Sudo de 1500 a 1800                                                           239



Santandrea69 oferecem-nos outra explicao sobre o silncio das tradies orais
acerca da histria antiga. Segundo sua pesquisa, no havia, na regio, grandes
unidades polticas, fator suficiente para explicar a relativa facilidade da conquista
zande. Tal fator significa tambm que as tradies dos cls  das famlias que
dirigiam as pequenas unidades vivendo em colnias dispersas, vilarejos ou s
vezes vilas  no vm de muito longe. No existe tradio oral a respeito do que
ocorreu antes de 1800. As nicas genealogias que remetem a perodos anterio-
res  entre 1650 e 1705  abrangem as famlias dirigentes de trs cls bongo70.
Elas nos indicam simplesmente que os cls j estavam instalados na regio de
Wau-Tonj no sculo XVIII e que sua organizao social era ligeiramente mais
complexa do que a dos outros grupos que ali tambm viviam. Por outro lado,
tratava-se de uma organizao mais simples que a de seus vizinhos, os nilti-
cos. A amplitude da resistncia  centralizao aparece igualmente na tradio
bongo. Vrias unidades polticas bongo seguiram Ngoli, heri da resistncia
contra os zande. Mas ele foi assassinado por "chefes de cls rivais" no momento
em que acabava de expulsar os zande71.
    Tudo o que se pode dizer do perodo estudado neste captulo  que o Darfur
comeou a exercer oficialmente sua dominao sobre o Dar-Fertit bem antes de
1800, exigindo dos habitantes da regio de Hofrat-en-Nahas o pagamento de
um tributo, enquanto algumas famlias rabes encabeavam pequenos grupos
instalados na regio de Raga. Pesquisas so necessrias em toda esta regio, a fim
de recolher dados sobre os modos de vida, as trocas comerciais e os eventuais
movimentos migratrios antes de 1800.




69   F. Santandrea, 1964 e 1981.
70   F. Santandrea, 1964, p. 136-138.
71   Ibidem, p. 132.
O Marrocos                                                                                       241



                                       CAPTULO 8


                                     O Marrocos
                                             M. El Fasi




    Vimos, no volume IV, como a Espanha e Portugal tinham, no sculo XV, lan-
ado sua ofensiva contra a frica do Norte e, particularmente, contra o Marrocos.
Os portugueses, a partir de 1415, ano em que conquistaram Ceuta, fixaram-se
pouco a pouco em numerosos pontos do litoral atlntico a partir dos quais fize-
ram as bases de lanamento de suas incurses ao interior marroquino.
    Todos esses acontecimentos tiveram vivas repercusses e suscitaram uma
forte resistncia bem como um poderoso desejo de libertar os lugares conquista-
dos. Os diferentes shaykh das zawiya1 e confrarias religiosas atiaram esse estado
de esprito e o empregaram para concentrar seu poder e preparar a populao
contra esses invasores, considerados como novos cruzados.
    Alguns sharif do Dara (Dar'a), liderados por Abu `Abd Allah, famigerado
al-Ka`im bi-`Amr Allah (Aquele que se ergue por ordem de Deus) designaram-
-se ento para combater os infiis para que esvaziassem os lugares que ocupavam
no pas. A proclamao ao poder de al-Ka`im bi-`Amr Allah, em 1511, marcou
o advento da dinastia dos saadianos. A luta durou cerca de quarenta anos. Ela
era dirigida, por um lado, contra os portugueses e, por outro, contra os reis
wattasides.



1   A zawiya , entre outros, um centro cultural-religioso. Quando ela  fortificada e abriga defensores da
    f, chama-se ribat.
242                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    No Sul do Marrocos, os portugueses estavam to pouco seguros que eles no
deixavam mais seus cercos fortificados. Desde ento, s se acelerou o declnio
da colonizao portuguesa. Os golpes dados aos postos fortificados portugue-
ses pelos sharif e pelos chefes religiosos (que os historiadores europeus cha-
mam de marabutos) multiplicaram-se, e seus assaltos foram frequentemente
sangrentos.
    No Norte, os portugueses eram igualmente ameaados pelos combatentes de
Sal que constantemente assediavam Acila (Arzila) e os outros presdios ocupa-
dos pelos portugueses. E assim eles foram expulsos de al-Ma'mura (chamada
hoje de al-Mahdiyya), na embocadura do Sebu.
    Durante esse perodo, as lutas entre a nova dinastia dos saadianos instalados
no Sul do pas e a velha dinastia dos watasidas-merinidas causavam ao Marrocos
enormes prejuzos, pois elas enfraqueceram uns e outros e impediram-nos de
liberar todos os postos ocupados pelos portugueses. Felizmente, aps uma bata-
lha sem resultados entre o sulto wattaside Ahmad e o sharif Ahmad al-A`radj,
ocorrida no Tadla em 1527, concluiu-se um tratado estipulando que os saadia-
nos guardariam o Suz e Marrakesh, e que o resto do pas seria conservado pelo
sulto, tendo ainda Fez por capital.
    Essas disposies permitiram ao Marrocos gozar de doze anos de paz. Os
saadianos aproveitaram dela para crescer e organizar suas foras e para se con-
sagrar  luta contra os portugueses.
    Nesse momento, ocorreu um fato importante. O governador do Suz, o sha-
rif Muhammad al-Mahdi, tinha intensificado a cultura da cana-de-acar em
suas terras2 e desenvolvido o comrcio do acar. Mas os portugueses tinham o
monoplio da exportao desse produto a partir do porto de Agadir, ainda ocu-
pado por eles. O sulto saadiano decidiu ento libert-lo. Essa base portuguesa
era chamada por seus ocupantes de Santa Cruz do Cabo de Aguer. Muhammad
al-Shaykh j tinha organizado um exrcito capaz de enfrentar os portugueses e
faz-los evacuar Agadir. Com a ajuda da artilharia, ele sitiou a cidade, mas teve
de esperar seis meses para abrir uma brecha em suas defesas. A tomada de Aga-
dir repercutiu consideravelmente em Portugal e resultou na imediata evacuao
de Safi e de Azemur (1542). Mas Mazagan (al-Djadida) permaneceu nas mos
dos portugueses porque era mais fcil de defender.


2     Sabe-se que a produo de acar datava da Alta Idade Mdia. O Marrocos era seu maior exportador.
      Ver D. de Torres, 1667, cap. XXXV; P. Berthier, 1966. As pesquisas de P. Berthier foram encorajadas pela
      universidade em que trabalhava o autor deste captulo, nos anos 50; elas constituem o melhor trabalho
      sobre o assunto.
O Marrocos                                                                243




Figura 8.1   O Marrocos no sculo XVI e XVII (de acordo com M. El Fasi)
244                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Essas vitrias dos sharif apontaram-nos como os campees da jihad e
Muhammad al-Shaykh como o heri da libertao nacional, assegurando-lhe
no pas um prestgio considervel. Ele podia desde ento retomar a luta contra
os wattasides e tentar reconquistar o Norte do Marrocos, governado ainda por
eles, de acordo com os termos do Tratado de Tadla.
    Muhammad al-Shaykh, aps ter expulsado seu irmo e rival Ahmad al-A`radi
do Tafilalet, ficou livre para acabar com os wattasides. Ele planejou ocupar Fez,
cuja posse lhe asseguraria o poder supremo no Marrocos.
    A luta entre a antiga e a nova dinastia durou cerca de dez anos e foi coroada
com a entrada de Muhammad al-Shaykh em Fez dia 13 de setembro de 1554.
Mas o maior motivo de inquietao desse prncipe era constitudo pela ameaa
proporcionada a seu pas pelos turcos de Argel. Ele pensava, com efeito, que o
nico perigo corrido pelo Marrocos vinha do poderio otomano, o qual subju-
gara todos os pases rabes do Oriente e do Ocidente, o que os marroquinos, de
acordo com seu tradicional apego  independncia, no podiam admitir. O sulto
decidiu ento, para preservar seu pas de uma invaso turca, iniciar a expulso dos
otomanos da frica. J em 1550, Tlemcen fora tomada pelos dois filhos mais
velhos do sulto saadiano, `Abdallah e `Abd al-Rahman, mas a reao turca fora
imediata. O pax de Argel, tendo convocado um grande exrcito comandado por
um convertido, Hasan Corsa (os historiadores chamam os europeus convertidos
a servio do Magreb de renegados), enviou-o para combater as tropas marroqui-
nas, vencendo-as; Tlemcen foi ento reocupada pelos turcos em 1552.
    Para conseguir pr em ao seu grande projeto de conquistar a Arglia,
Muhammad al-Shaykh procurou aliana com a Espanha. Conversaes foram
engajadas com o conde de Alcaudete, governador espanhol de Or, e as duas
partes se entenderam para montar uma expedio contra Argel. Dois mil cava-
leiros espanhis pagos pelo sulto seguiriam a operao conduzida pelos mar-
roquinos. Os turcos ficaram sabendo desses preparativos, o que levou Salah
Ra'is a pedir  Sublime-Porta dinheiro e reforos para atacar a cidade de Or,
ocupada ento pelos espanhis. Nesse nterim, Salah Ra'is morreu e foi Hasan
Corsa quem comandou o ataque a Or. Mas os barcos turcos que deveriam
sitiar a base espanhola pelo mar foram chamados para combater a frota crist
de Andrea Doria que ameaava o Bsforo. Assim, o sulto, livre de um rival
perigoso, pode empreender a conquista da Arglia. Ele comeou sua investida
por Tlemcen e conseguiu ocup-la.
    Em 964 da hgira (1557 da era crist), o sulto Muhammadal-Shaykh foi
assassinado por um oficial de sua guarda, pago pelo poder otomano. Esse fim
dramtico em nada mudou a determinao dos saadianos em continuar a obra
O Marrocos                                                                     245



de expurgar do Marrocos toda ocupao estrangeira e de defend-lo contra
qualquer nova intruso de uma potncia estrangeira (ainda que muulmana,
como o imprio otomano, que estendera seu domnio a todos os pases rabes,
como indicado anteriormente). Isso quer dizer que o novo califa, Abu Muham-
mad `Abdallah, proclamado sulto sem nenhuma contestao aps o assassinato
de seu pai, continuou a poltica traada por seu predecessor. Ele foi apelidado
al-Ghalib Billah (o Vencedor com apoio de Deus).
    O novo sulto, mesmo no tendo cumprido sua vingana contra os assassinos
de seu pai, considerou que podia voltar-se contra os portugueses e tentar desaloj-
-los de Mazago. Ele comeou ento a reconstituir o exrcito, adquirir armas mais
avanadas e a organizar uma vasta campanha psicolgica, ajudado pelos zawiya
e pelos chefes das confrarias. Notar-se-, em especial, que Sidi Ahmad u Mussa
(que exercia enorme influncia no Suz e gozava de renomada santidade nacional)
arregimentou todas as kabila tanto contra os turcos quanto contra os portugueses.
Quando ento al-Ghalib Billah se sentiu forte o bastante para atacar Mazago
(chamada ento de al-Briza e, mais tarde de al-Djadida), ele se preparou e convo-
cou um grande exrcito composto de infantaria e cavalaria dotadas de armamento
altamente eficiente, compreendendo 24 peas de artilharia, das quais 10 de grosso
calibre, dentre as quais o famoso Maymun (amuleto da sorte).
    Ainda que essa tentativa de libertar Mazago no tenha sido coroada de
sucesso, mostrou aos portugueses que eles teriam de se ver com uma nova potn-
cia autntica. Por sua vez, o sulto, considerando que as ameaas de Portugal no
interior do pas estavam descartadas, consagrou-se  prosperidade de seu reino,
encorajando o comrcio com Estados europeus, particularmente com a Frana.
Um documento nos mostra, por exemplo, que um ato de associao entre o
Marrocos e mercadores de Ruo, firmado em 1570, permitia a estes estabele-
cerem relaes comerciais com o Marrocos, principalmente com as cidades de
Safi, Tarudant e de Marrakesh3.
    No domnio da arquitetura, sabe-se que al-Ghalib Billah foi um dos maiores
construtores da dinastia saadiana. Assim, ele mandou construir uma grande
mesquita em Marrakesh e restaurou, alm disso, a mesquita almada da atual
casb de Agadir. De uma forma geral, a arte marroquina, herdeira das antigas
dinastias, carregou-se de mais ornamentos e ganhou em esplendor.
    O reinado de Mulay `Abdallah al-Ghalib Billah foi no conjunto calmo e prs-
pero. O sulto morreu tranquilamente em 1574, aps dezessete anos de reinado.


3   H. de Castries, 1905-1936, vol. I, p. 303.
246                                                           frica do sculo xvi ao xviii



    Sua sucesso foi mais difcil. Infringindo a lei antiga segundo a qual o direito
do homem mais velho da famlia precede o do primognito do soberano morto,
proclamaram sulto Muhammad, filho de al-Ghalib Billah. Este abriu para o
Marrocos uma nova era de tumultos, felizmente bem curta, que acabou com a
vitria na batalha dos Trs Reis. O novo sulto tomou o ttulo de al-Mutawakkil,
mas ele permaneceu conhecido principalmente sob o apelido de al-Maslukha.
    Mulay `Abd al-Malik, o mais velho dos prncipes saadianos e tio de al-Mas-
lukha, achou que cabia a ele a herana do trono. Depois da proclamao ao
poder do filho de al-Ghalib Billah em Fez, ele se refugiou em Sidjilmasa, depois
em Argel e, finalmente, em Constantinopla. Ele entrou no exrcito otomano e
participou da reconquista de Tnis pelos turcos, provando a ter grande cora-
gem. Em sua volta a Constantinopla, ele encontrou ento o califa em melhores
condies para ajud-lo a reconquistar o reino de seus ancestrais. Nesse sentido,
Murad encarregou o wali de Argel, el-Hadj `Ali, de colocar  disposio do
saadiano uma pequena tropa armada. Chegando no Marrocos  frente desse
exrcito, Mulay `Abd al-Malik no encontrou resistncia alguma, pois o povo
era-lhe completamente a favor. Al-Mutawakkil foi abandonado por seu exrcito
e no lhe restou nada mais seno fugir, deixando Mulay `Abd al-Malik entrar
em Fez, dia 31 de maro de 1576, onde foi recebido pela populao com um
entusiasmo delirante.
    Al-Mutawakkil fugiu ento para o Sul. Seguido e derrotado pelo sulto
no Wadi al-Cherrat entre Rabat e Fedala, ele pde ainda escapar e conseguiu
reocupar Marrakesh. O vice-rei de Fez, Mulay Ahmad, irmo do sulto, foi
encarregado de for-lo a deixar a cidade e captur-lo. A primeira dessas ordens
foi executada, mas al-Mutawakkil conseguiu mais uma vez fugir. Ele rumou para
o Norte e pediu ao governador de Vlez de la Gomera para dar-lhe asilo em
sua cidade. O rei Filipe II, consultado sobre a questo, autorizou o governador
a acolher o fugitivo se ele fosse acompanhado apenas de uns dez membros de
sua famlia.
    Mulay `Abd al-Malik, uma vez livre, ao menos provisoriamente, do fardo
que representava al-Mutawakkil, ps-se a reorganizar o Estado, a recuperar
suas finanas, a reconstituir seu exrcito e fez de seu irmo, Mulay Ahmad, o
califa de Fez.
    Para recuperar o tesouro pblico, que ele encontrara vazio, ele poderia ter
recorrido a novos impostos. Mas ele julgou que isso somente empobreceria o
pas ao invs de enriquec-lo. Adotou ento meios mais eficazes que no one-
rassem as finanas de seus sditos: ele reforou a marinha, mandou construir
novos navios e restaurar ou renovar os antigos. Numerosas profisses se bene-
O Marrocos                                                                                   247



ficiaram com isso, e as trocas comerciais com o resto do mundo, notadamente
com a Europa, se intensificaram. Essa poltica foi coroada de sucesso e teve
consequncias felizes em todas as reas.
    Mas esse sucesso foi igualmente devido  personalidade de Mulay `Abd
al-Malik, pois gozava de uma slida reputao junto aos Europeus. Com efeito,
numerosos so os estrangeiros a elogi-lo. Notemos, particularmente, o retrato
muito lisonjeiro que o escritor e poeta francs Agrippa d'Aubign traou desse
rei. Ele nos informa, entre outras coisas, que o sulto saadiano "conhecia as ln-
guas espanhola, italiana, armnia e eslava (russo). Ele era tambm um excelente
poeta em rabe4".


    A batalha dos Trs Reis
   Portugal forjara para si, no sculo XVI, um poderoso imprio comportando
vastos territrios na Amrica, na sia e na frica. No momento em que o sulto
saadiano al-Mutawakkil, destronado, se refugiou em Vlez de la Gomera, reinava
nesse imprio o jovem rei Dom Sebastio que sonhava, desde sua mais tenra
infncia, conquistar o Marrocos e, a partir da, continuar a conquista de todo o
Magreb para, enfim, se dirigir rumo ao Oriente e livrar a tumba do Cristo da
dependncia muulmana. Procurando um apoio para reconquistar o trono saa-
diano, Al-Mutawakki procurou o rei da Espanha, que se recusou a receb-lo ou
conceder-lhe o menor suporte para sua empreitada desesperada. Ele fez ento
contato com o rei Dom Sebastio. Esperava apenas por essa ocasio, pois, tendo
decidido contra a opinio de seus conselheiros iniciar a expedio com a qual
sonhava desde sempre, ele encontrou na chegada do dissidente marroquino o
argumento decisivo para convencer seus opositores. Quanto  opinio pblica
portuguesa, trabalhada pela propaganda dos extremistas (especialmente no meio
do clero), ela estava entusiasmada e encorajava fortemente a louca expedio
preparada pelo jovem rei.
   Mulay `Abd al-Malik, por sua vez, sabendo de todos esses preparativos, ten-
tou desencorajar o jovem rei de Portugal dessa empresa temerria; no que ele
duvidasse de suas possibilidades, nem de sua coragem (mesmo porque ele era
apoiado por seu povo e particularmente pelo movimento religioso djazulita e
por seu chefe, Abu'l-Mahasin Yusuf al-Fasi5), mas tentando preservar seu povo


4   T. A. d'Aubign, reed. 1981/1995.
5   O chefe do djaluzismo shadilita  o dcimo primeiro ancestral do autor desse captulo.
248                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



e seu pas das agruras da guerra e desejando trabalhar pela manuteno da paz,
ele decidiu convencer Dom Sebastio a renunciar  sua expedio. Com essa
inteno, ele escreveu-lhe uma carta nica na histria da diplomacia, tanto pelo
contedo quanto pelo comovente ar de sinceridade, de sabedoria e de desejo de
paz que ela carrega. Os arquivos franceses conservaram a traduo italiana desse
documento, publicada pelo conde Henry de Castries em suas Sources indites de
l'histoire du Maroc (Fontes inditas da histria do Marrocos). Eis o essencial:
          "O que vs vos aprontais a fazer, ou seja, a vir-me fazer a guerra em meu pas, 
      uma injustia e uma agresso sem razo, porque eu no vos quero mal algum, nem
      o penso de vs e no empreendi contra vs nenhuma m ao. Ento como vs vos
      permitis de me privar de meu direito e de o dar a um outro em troca de promessas
      ilusrias que ele  incapaz de cumprir enquanto eu estiver vivo? Vs vindes para me
      expulsar de meu reino, ainda que vs no podeis, com todo o que possus e que se
      encontra em vossos Estados, realizar esse desejo. E no credes que  a covardia a me
      ditar essas palavras. Sabei que, ao contrrio, se vs passais alm dessas recomenda-
      es, vs vos exporeis a uma destruio inequvoca. Estou outrossim disposto a me
      entender convosco, face a face, no lugar que designareis. Fao tudo isso no desejo
      de vos preservar dessa destruio. Acrescento que aceitarei me apresentar convosco
      diante de vosso tribunal, o qual no tira nada de ningum para d-lo a outro de
      maneira ilegal e injusta. E aceito antecipadamente o julgamento desse tribunal [...]
      Deus  minha testemunha em tudo o que digo! E sabei que estou informado que
      entre seus convivas h nobre que vos do conselhos que vos levaro  derrota6".
    Essa carta, testemunha do alto sentimento de responsabilidade e do profundo
amor pela paz do sulto Mulay `Abd al-Malik, revela tambm seu senso diplo-
mtico, pois, ao colocar Dom Sebastio diante de sua responsabilidade, fazia
saber ao mesmo tempo por essa advertncia que o verdadeiro agressor e criador
de distrbios na regio mediterrnea era exatamente o jovem rei de Portugal.
Mesmo assim, Dom Sebastio continuou seus preparativos de guerra.
    Um outro exemplo do conhecimento tido por Mulay `Abd al-Malik da psi-
cologia e do carter de Dom Sebastio aparece no que relatam os historiadores
marroquinos. Sabendo, dizem eles, que o rei de Portugal se considerava o per-
feito exemplo da cavalaria, da coragem e da intrepidez, imbudo dos mais nobres
sentimentos, Mulay `Abd al-Malik escreveu-lhe o que segue, quando soube do
desembarque portugus em Arzila:



6     H. de Castries, 1905-1936, p. 383-387.
O Marrocos                                                                                             249



        "No  uma marca de cavalaria nem de nobreza de alma lanar-se contra pes-
    soas desarmadas a viver pacificamente em seu vilarejo, sem esperar que seus rivais
    cheguem para ter consigo. Se ento s um verdadeiro cristo, espera a onde ests
    at que eu te d nas vistas".
    Quando Dom Sebastio recebeu essa carta, os membros de seu conselho,
particularmente Muhammad al-Masluk, aconselharam-no a no esperar, pois,
segundo eles, era uma armadilha; era preciso ao contrrio apressar-se em atacar
para ocupar, primeiramente, Larache (al-Arish) e, em seguida, Alccer-Quibir.
Mas seu alto senso de honra impediu Dom Sebastio de expor sua reputao a
uma desonra infame. Ele decidiu ento no sair de Arzila, onde ficou durante
dezenove dias, at a vspera da batalha.
    No h vestgios dessa correspondncia nos documentos europeus7. Em
contrapartida, acredita-se que o rei Dom Sebastio hesitasse entre o itinerrio
martimo para atacar a cidade de Larache e a rota terrestre. Um conselho de
guerra foi convocado em Arzila para estudar as duas possibilidades. A maioria
dos membros desse conselho, encabeada por al-Maslukha, inclinavam-se para o
caminho martimo. Mas o rei preferia o caminho terrestre, escolha que lhe per-
mitia provar sua bravura e percias guerreiras. Foi sua opinio que prevaleceu.
    As tropas saadianas partidas de Marrakesh rumo ao Norte viram suas fileiras
aumentarem sem parar de numerosos voluntrios. Alm disso, o sulto ordenara
a seu irmo, o califa de Fez, a adiantar-se a ele rumo a Alccer-Quibir com os
contingentes de Fez e de sua regio, notadamente com o corpo de elite dos jovens
arqueiros da capital (os rima), e de a se unir aos adeptos locais da zawiya djazuli.
    Mulay `Abd al-Malik escolhera, com efeito, Alccer-Quibir para estabelecer
seu posto de comando porque essa cidade era prxima s posses portuguesas a
partir das quais o rei de Portugal lanaria seu ataque. Alm do mais, era o centro
do movimento djazulita dirigido por Abu `l-Mahasin Yusuf al-Fasi, habitante
local e possuidor de uma zawiya8.
    Quando o exrcito saadiano chegou, ele encontrou Mulay Ahmad e o corpo
de elite dos jovens arqueiros de Fez. Mulay `Abd al-Malik encarregou-os, aps
a travessia de Dom Sebastio sobre o Wadi al-Makhazin (nome dado a essa
batalha decisiva), de destruir-lhe a ponte para impedir os portugueses, uma vez



7   Os comentrios acompanhados por ele devem-se unicamente a historiadores marroquinos.
8   Para tudo o que diz respeito a esse grande homem, ver: Kitab al-Istiksa, de A. al-Nasiri, em H. de Cas-
    tries, 1905-1936, vol. V, p. 131, 134, 135 e 138; E. Lvy-Provenal, 1922, p. 240-247; J. Berque, 1982,
    p. 137-145.
250                                                                   frica do sculo xvi ao xviii




Figura 8.2 As etapas do caminho de Dom Sebastio rumo ao campo de batalha dos Trs Reis em Wadi
al-Makhazin, de 30 de julho a 4 de agosto de 1578 (de acordo com M. El Fasi)
O Marrocos                                                                    251



vencidos, de conseguir um caminho para o mar, ordem que foi executada na
noite de 3 para 4 de agosto de 1578.
    No dia seguinte ocorreu a batalha, dita dos Trs Reis, devendo ela ser con-
siderada uma das mais importantes da histria da humanidade e, mais par-
ticularmente, da histria do Marrocos e do Isl. Essa batalha traz, entre os
historiadores rabes o nome de Wadi al-Makhazin e, entre os historiadores
espanhis e portugueses, o de batalha de Alccer-Quibir.

   O dia da batalha
    Aps minuciosos preparativos que terminaram na criao de um dos maiores
exrcitos dessa poca e, tendo sua base instalada em Tnger, o rei Dom Sebastio
se dirigiu para Alccer-Quibir, centro do estado-maior de Mulay `Abd al-Malik.
    Na manh de segunda-feira no fim do ms de djumada'II do ano 986 da
hgira, correspondente ao 4 de agosto de 1578, os dois lados se prepararam
para a batalha. Foi um dia histrico, o ponto culminante de longos sculos de
lutas entre muulmanos e cristos. Iniciados na Espanha, os combates tinham
se estendido ao Marrocos. Foi tambm o dia para o qual Dom Sebastio se
preparara desde sua infncia e marcava, a seu ver, o incio da conquista do
mundo. Mas para os muulmanos, foi o dia em que milhares de mrtires caram
defendendo sua causa justa.
    As foras dos dois lados se prepararam para atacar, cada uma usando sua
prpria ttica. O exrcito cristo estava disposto no campo de batalha em qua-
drado, um corpo de legionrios formando a linha de frente. As tropas alems
mantinham o flanco direito, os espanhis e os italianos, o flanco esquerdo. A
cavalaria, menos numerosa que a infantaria, se desdobrava ao longo de cada ala.
Um pequeno corpo de partidrios de Muhammad, o Pelado, (composto por 300
a 600 homens, de acordo com as fontes) vinha reforar esse exrcito.
    Quanto ao exrcito marroquino, ele se desdobrava em formao de crescente,
do centro do qual o rei Mulay `Abd al-Malik, de uma liteira, dirigia o combate.
Com efeito, se a doena que ele contrara em Marrakesh imobilizara seu corpo,
sua mente continuava s e ativa. s margens desse crescente encontravam-se os
cavaleiros, sendo seu centro ocupado pela infantaria e a artilharia.
    Aps a orao da aurora, os mercenrios se lanaram contra o flanco esquerdo
dos muulmanos, pegando-os totalmente de surpresa. O sulto `Abd al-Malik,
vendo acelerar a debandada de suas tropas, levantou de sua liteira e, sacando sua
espada, chegou a abrir caminho diante de si. Sua ao deu um novo impulso de
coragem a seus soldados. Infelizmente, ele sucumbiu a esse esforo, mas, antes
252                                                        frica do sculo xvi ao xviii



de entregar a alma, como a batalha estava apenas comeando, ele ordenou a seus
servos para ocultarem sua morte.
    Enquanto a batalha se incendiava e muitos homens caam dos dois lados,
os muulmanos continuavam avanando enquanto os cristos cediam terreno,
tanto que acabaram por fugir pelos campos rumo  ponte que encontraram
destruda. Eles se lanaram ento no rio para atravess-lo, mas foram levados
pela correnteza e pereceram afogados.
    Contudo, Dom Sebastio resistia, provando enormemente sua coragem. Mas
isso no o salvou. Ele sucumbiu, com efeito, no campo de batalha, em meio a
milhares de seus soldados e de seus servos devotos. Muhammad, o Pelado, ten-
tou escapar, se jogou no rio onde se afogou. Seu corpo foi pescado e levado para
Ahmad al-Mansur, proclamado rei aps a vitria (da qual tirou precisamente
seu nome: al-Mansur, o Vitorioso).
    O nmero de mortos nos dois lados continua desconhecido.  possvel,
contudo, pensar que o nmero de muulmanos no campo de honra chegou a
vrios milhares. No campo dos portugueses e de seus aliados, quase nenhum
escapou, porque os que no se afogaram nem morreram em combate foram fei-
tos prisioneiros. Os relatos tradicionais apontam que o nmero de prisioneiros
cristos bate na casa dos 14.000.
    Enquanto negociaes eram feitas pela troca do corpo de Dom Sebastio
por um resgate, ele foi levado para Fez. Mas al-Mansur estava orgulhoso demais
para aceitar uma troca de qualquer espcie, ainda mais depois dos resgates rece-
bidos pelos prisioneiros, especialmente nobres, trouxeram-lhe somas que, de
acordo com certos historiadores, esto na origem de seu apelido al-Dhahabi (o
Dourado). A quantidade de ouro paga pelos portugueses foi, com efeito, maior
do que a trazida pela conquista do Sudo. Al-Mansur, seguindo sua convico,
decidiu ento, no decorrer das negociaes, informar ao rei da Espanha Filipe
II que estava pronto para devolver o corpo do rei sem mais delongas.

      As consequncias da batalha dos Trs Reis
   Essa batalha decisiva teve consequncias considerveis que marcaram
durante longos sculos, de um lado, o Isl e o Marrocos e, de outro, a Europa
e Portugal. A vitria deu aos saadianos um novo flego de juventude e trouxe
ao Marrocos paz e prosperidade nas reas econmicas e culturais. Alm disso,
graas aos resgates pagos em troca dos milhares de prisioneiros portugueses, a
dinastia saadiana tornou-se muito rica e sua reputao se estendeu pelo mundo
inteiro.
O Marrocos                                                                                         253



    No que concerne ao desenvolvimento econmico, um caso particular merece
nossa ateno. A indstria aucareira, aps um momento de estagnao (visto
que o Marrocos era seu principal exportador mundial), obteve um impulso
considervel.
    O mesmo ocorreu em todas as reas, tanto industriais como artsticas. A
arquitetura9 em particular, sob o impulso dos saadianos e da burguesia enrique-
cida, se aperfeioou para atingir um grau de refinamento notvel, como mostram
as obras-primas ainda existentes, particularmente em Marrakesh. Mas, com sua
estabilidade reencontrada e aquecidos por um poderoso sentimento de orgulho,
os marroquinos estimularam a emergncia de numerosos talentos artsticos,
poticos e literrios, manifestados notadamente nas obras de `Abd al-`Aziz e
al-Fishtali de al-Makkari ibn al-Kadi.
    As repercusses da batalha dos Trs Reis no foram menores no plano da
poltica internacional. Decorreu dela um enfraquecimento considervel da influ-
ncia portuguesa no caso do mundo muulmano e, mais particularmente, no
caso dos "pases do Golfo". O que quer que seja, essa batalha suspendeu todo
perigo vindo das cruzadas rumo aos pases do Oriente. Ela foi, com efeito, a
ltima do seu tipo e nitidamente cessou toda veleidade dos simpatizantes da
ideia de cruzada. Ela tambm teve por efeito o reforo do poder do Imprio
Otomano e  com justia que os europeus consideram essa vitria marroquina
como a vitria de todos os muulmanos, precisamente pelo fato de ela ter sim-
bolizado a solidariedade muulmana.
    Inversamente, ela teve por consequncia conduzir os otomanos a renunciar
a qualquer ideia de conquistar o Marrocos, permanecendo este o nico territ-
rio rabe no submetido  influncia dos turcos. Isso permitiu  lngua rabe
guardar, nesse pas, sua clareza e sua autenticidade e continuar a a desempe-
nhar o seu papel durante longos sculos. O estilo da literatura epistolar e dos
decretos emanando dos secretariados reais permaneceu puro de toda influncia
estrangeira. E foi assim que os textos escritos na poca saadiana e alawita (e
at o reinado de Mulay Hassan I) parecem t-lo sido na poca gloriosa dos
omeyades na Espanha e dos almorvidas, dos almadas e dos mernidas no
Marrocos.
    Se nos estendemos sobre essa batalha dos Trs Reis, foi por causa de sua
importncia em si e para o Marrocos. O professor Lvi-Provenal no se enga-
nou ao observar o que segue:

9   A arquitetura ficou estagnada durante um certo tempo em consequncia do enfraquecimento da dinastia
    wattaside.
254                                                                     frica do sculo xvi ao xviii




Figura 8.3 Forma de po de acar descoberta em 1960 quando das buscas na aucareira de Chichawa.
 Ministrio da Cultura, Marrocos



          "No  preciso censurar os historiadores marroquinos por se estenderem lon-
      gamente sobre essa clebre batalha e por lhe darem a extrema importncia que ela
      merece realmente [...] Tem-se a prova hoje em dia de que, mais ainda do que a
      conquista do Sudo, a recompra da nobreza portuguesa feita prisioneira no decorrer
      dessa batalha valeu ao sulto Ahmad al-Mansul uma riqueza extrema (da seu ape-
      lido, al-Dhahabi, o Dourado). Todas as potncias europias sem dinheiro tentaram
      negociar emprstimos com o Marrocos. O imprio dos chorfa at mesmo praticou
      uma poltica de aliana e por pouco no conseguiu, principalmente se `Abd al-malik
      no tivesse morrido, que ele fosse parar, assim como o Imprio Otomano, no mesmo
      caminho que os europeus"10.


10    E. Lvy-Provenal, 1922, p. 107, nota 1.
O Marrocos                                                                                           255



     A expanso dos saadianos no sculo XVI
    O reinado de al-Mansur durou um quarto de sculo, durante o qual o sulto
voltou-se  consolidao do poder saadiano, ao desenvolvimento de seu reino
em todas as reas e ao estabelecimento de relaes econmicas com os principais
Estados da poca.
    Depois da vitria de Wadi al-Makhazin, ele se consagrou  libertao das
cidades que ainda estavam nas mos de europeus: Arzila, Tnger, Ceuta e
Mazago. Ele conseguiu remover os ocupantes de Arzila em 1589. Tnger s
seria libertada no sculo seguinte pelo sulto alawita Mulay Ismael, e Mazago
(al-Djadida) por seu neto Muhammad III. Quanto a Ceuta, ela passou ao poder
do rei da Espanha, Filipe II, pois este herdara o reino de Portugal. At hoje
depende da Espanha, da mesma forma que Melilla e trs outros presdios.
    Esse sucesso perfeito de al-Mansur incitou-o a intervir alm das fronteiras
do Marrocos para restabelecer a situao que prevalia desde o tempo do almo-
rvidas e realizar a unidade do Isl. Na realidade era um pretexto e a verdadeira
motivao dessa campanha era o desejo de expanso que habitava e sempre
habita todas as grandes potncias.  por isso que no se devem julgar os eventos
histricos de acordo com nossas concepes e ideais atuais.  preciso se lembrar
que a histria  de Alexandre, o Grande, a Napoleo, como antes e depois deles
 possui um grande nmero de conquistadores.
    Mas no caso dessa expedio rumo ao Sudo, al-Mansur foi desaprovado pela
opinio marroquina, o que foi extraordinrio para essa poca, exaltando assim a
honra do Marrocos. Com efeito, antes de empreender essa campanha, ele reunira
um conselho de guerra ao qual ele exps seu projeto. "Quase todos, diz H. Terrasse
em seu Histria do Marrocos, desaprovaram a empreitada como tendo riscos demais
e principalmente porque se tratava de fazer a guerra contra os muulmanos11." Essa
foi tambm a opinio dos `ulama', os verdadeiros representantes do povo. E  isso
que conta na apreciao desse acontecimento histrico.
    Mas al-Mansur passou por cima de todos esses conselhos e decidiu por si s
pela expedio do Sudo, como a chamam os historiadores marroquinos. No
nos parece til descrev-la detalhadamente: todas as obras tratando da Histria
do Marrocos, tanto em rabe quando em lnguas europias, se estendem sobre
esse acontecimento12, mas devemos evocar seus fatos mais relevantes.


11   H. Terrasse, 1949-1950, vol. II, p. 203.
12   Ibid., p. 202-205; A. al-Nasiri, 1954-1956; H. de Castries, 1905-1936, vol. V, p. 195-198 e 209-218;
     Cossac de Chavrebire, 1931, p. 330-334. Ver tambm captulo 11.
256                                                                                frica do sculo xvi ao xviii




                                                                                              Or          Argel
                                                                            a         a
                                                                          ut is   ilh
                                                     Tnger             Ce ad Mel
                                                   Larache                 B
                                                    Sal
                                                 Rabat                                       Tlemcen
                                                                          Fez
                                         Azemmour   Anfa
                                           Safi
                                                       Marrakesh
                                     Mogador                             Sidjilmasa
                                                               Ouarzazate
                                      Agadir         Tidsi
                                                                    Zagora




                                           Tinduf



             Dakhla
                                                             Taghaza

                                                               Taoudni




                      Shinguetti


                                                                                                  Agadez


                Rio
                    Se
                       n   e
                           ga




                                                           Tombuct
                              l




                                                                                   Gao
                                                      ge
                                                     r




                                                   N
                                               Rio                           Principais rotas comerciais
                                                                             Rotas militares saadianas
                                                                             Cursos d'gua
                                                                             Centros saadianos
                                                                             Principais cidades saadianas

                                                               0!                                 500 milhas

                                                               0!                                800 km

Figura 8.4   O imprio de Ahmad al-Mansur (1578 a 1603) (de acordo com M. El Fasi)
O Marrocos                                                                   257



    Al-Mansur morreu em 1603, aps ter feito do Marrocos um Estado prspero,
unificado e invejado. Um perodo de instabilidade marcou ento o pas, pois,
como acontece frequentemente aps o desaparecimento de um dirigente, seus
sucessores brigam pelo poder e se lanam em interminveis lutas internas. No
caso de al-Mansur, foram seus filhos e netos que ensanguentaram o Marrocos
durante meio sculo. Essa situao engendrou a apario de vrios pretendentes
ao poder alm dos membros da famlia saadiana.
    Em todas as regies do pas, membros de confrarias religiosas se manifesta-
ram em nome do patriotismo para restabelecer a paz e combater os portugueses
e espanhis, pois estes se aproveitaram da fraqueza dos ltimos saadianos para
ocupar as costas do Marrocos.
    O mais clebre e sincero desses chefes da guerra contra os primeiros coloni-
zadores dos tempos modernos era incontestavelmente Abu `Abdallah Muham-
mad al-Ayyashi, de Sal. Chefe guerreiro amado por alguns e temido por outros,
ele conseguiu por um tempo pacificar as reas colocadas sob sua autoridade,
particularmente a cidade de Fez. Apesar de todos os seus sucessos, ele nunca
pretendeu o poder supremo por ser um verdadeiro santo. Ele foi assassinado
sob a ordem de seus inimigos, os moriscas de Rabat, em 1051 da hgira (1641
da era crist).
    Em 1046 (1636/1637), pela nica vez no Atlas Mdio, o neto de um shaykh,
cuja cincia e santidade eram unanimemente reconhecidas, se revoltou e se
declarou sulto de todo o Marrocos. Esse pretendente se chamava Muhammad
ibn M'hammad ibn Abu Bakr al-Dalal. Seu av fundara uma zawiya no Atlas
Mdio cuja localizao continua incerta atualmente aps sua destruio pelo
segundo rei alawita, al-Rashid ibn al-Sharif. Ela se tornara um centro de estudos
islmicos quase to prestigiado quanto a Universidade de Karawiyyin de Fez.
Vrias sumidades na rea das cincias islmicas do sculo XI da hgira (sculo
XVII da era crist) passaram pela zawiya de Dila.
    O filho de Abu Bakr Muhammad seguiu os passos de seu pai e continuou
a gerir os negcios espirituais e intelectuais da zawiya que ganhou ainda mais
amplitude. Quando morreu, seu filho o substituiu.
    Aps a morte de al-Mansur em 1012 (1603), dez de seus descendentes bri-
garam pelo poder durante um pouco mais de meio sculo. Durante esse perodo,
dois reis puderam reinar por mais de vinte anos entrecortados por vitrias de
seus irmos ou primos que tomaram o poder e o perderam em seguida, sem falar
dos pretendentes dentre os chefes de zawiya e outros aventureiros. Outros rebel-
des, pretendentes ao trono, dificultaram a vida dos saadianos no Norte e no Sul
do pas. Na regio de Tnger, al-Khadr Ghaylan, um discpulo de Muhammad
258                                                          frica do sculo xvi ao xviii



al-Ayyashi, pretendeu continuar as lutas contra os portugueses empreendidas
pelo grande defensor do Isl. O mais notvel desses acontecimentos  que todos
os pretendentes ao trono do Marrocos se apresentavam como os salvadores da
unidade do pas e defensores da estabilidade do poder.
    Os gnatas eram uma faco dos a`rab (nmades rabes) que foram expulsos
do Cairo pelos fatmidas e invadiram o Magreb em ondas sucessivas, destruindo
tudo o que encontravam em seu caminho, casas, florestas e qualquer trao de
civilizao. No sculo VI da hgira (sculo XII da era crist), eles foram introdu-
zidos no Marrocos pelo almada Ya`kub al-Mansur. Os almadas, os mernidas
e os saadianos serviram-se deles como mercenrios em suas guerras internas ou
fora do Marrocos. Instalaram-se, por fim, nas plancies frteis da costa atlntica,
expulsando seus habitantes rumo s montanhas do Atlas Mdio, e foi na verdade
a eles que se deveu a arabizao do Marrocos.
    Em 1069 (1658/1659), sob o reinado de Abu al-`Abbas Ahmad ibn Muham-
mad al-Shaikh ibn Zaydan, um alcaide dos shbanatas, chamado `Abd al-Karim
in Abu Bakr al-Shbani e conhecido sob o nome de Karrum al-Hadjdj, levantou-
-se em Marrakesh contra o sulto Ahmad, conhecido sob o nome de Mulay
al-Abbas (entretanto sua me era uma shbanata). Ela o aconselhou a ir at seus
tios maternos para tentar uni-los  sua causa. O sulto foi capturado pelo alcaide
e morto por ele. Em seguida, esse ltimo declarou-se sulto e ocupou o palcio
real de Marrakesh. Seu reinado durou cerca de dez anos, marcados pelo abuso
tributrio, injustias e crueldade. A misria se estabeleceu, principalmente no Sul
do pas. Exasperados por essas agruras que tomaram o pas, at seus partidrios
e fiis quiseram se livrar desse tirano. Um deles o surpreendeu em seu palcio e
o matou imediatamente com um golpe de lana. Seu filho Abu Bakr ibn Abd
al-Karim tomou seu lugar e reinou por um tempo at sua morte, ocorrida qua-
renta dias antes da chegada do sulto alawita Mulay al-Rashid em Marrakesh.


      Os primeiros sultes da dinastia alawita
   Todos os pretendentes ao trono e  unificao do Marrocos que ensanguen-
taram o pas aps a morte de al-Mansur fracassaram em suas tentativas. A honra
de estabelecer um poder forte, duradouro e so devia caber  dinastia xerifiana
dos alawitas que, h trs sculos e meio, reina no Marrocos. Essa longevidade 
devida aos princpios polticos que os sultes alawitas sempre aplicaram: a prin-
cpio, o apego profundo  integridade do pas; em seguida, a fidelidade a todos os
O Marrocos                                                                                              259



nobres ideais da civilizao muulmana; enfim, o interesse no desenvolvimento
da educao em todos os nveis.
    V-se por a que, ao contrrio das motivaes na base da constituio de todas
as dinastias anteriores, exceto pelos mernidas, os alawitas no apareceram como os
defensores de uma misso religiosa. Seu objetivo era unicamente poltico: unificar
o pas, estabelecer um poder estvel e forte, assim como generalizar o ensino.
    Mas, antes, quem so esses alawitas? Trata-se de uma famlia cuja genealo-
gia com o Profeta  estabelecida de maneira cientfica pelos grandes eruditos
do Marrocos: al-Arabi al-Fasi, seu sobrinho, o shaykh al-Islam, `Abd al-Kadir,
al-Imam al-Yusi e outros citados pelo autor do Kitab al-Istiksa13.
    Os descendentes da famlia formaram uma aristocracia religiosa que adquiriu
um grande prestgio junto a todos os habitantes da regio de Tafilalet. O bis-
neto de al-Hasan, Mulay `Ali al-Sharif, tornou-se muito clebre. Ele teve nove
filhos, dentre os quais Mulay al-Sharif, que viveu toda sua vida em Tafilalet e
cuja reputao se estendia por todo o Sul marroquino. A instabilidade reinante
no Marrocos incitou os filali a proclam-lo sulto. Nesse momento, como ns j
vimos, o Marrocos estava dividido entre os dilawiyya do Atlas Mdio, ocupando
Fez, Ibn Hassun, reinando em Suz e no Alto Atlas, al-Khadr Ghaylan, devas-
tando o Noroeste, e outros aventureiros aproveitando-se dessa instabilidade para
pilhar as cidades e vilas sem vergonha.
    Na prpria regio de Tafilalet, uma famlia ocupava uma fortaleza, Tabussant,
e se opunha aos chefes alawitas. Uns eram apoiados pelos dilawiyya e os outros
por Abu Hassun. Houve combates entre as duas partes. Mulay al-Sharif foi captu-
rado e preso por Abu Hassun. Ele foi libertado por seu filho, Mulay M'hammad.
Seu pai abdicou em seu favor e ele foi sagrado rei do Marrocos em 1050 (1640).
Assim comeava a dinastia alawita. A palavra alawita14 vem do nome de Mulay `Ali
al-Sharif de Marrakesh, o ancestral da linhagem. Essa dinastia, tambm chamada
Hasani ou Filali, ou seja, proveniente de Tafilalet, a antiga Sidjilmasa.
    Mulay M'hammad no foi reconhecido por seu irmo, Mulay Rashid, e dei-
xou Tafilalet. Ele comeou a errar pelas cidades e pelos kabila do Sul e do Norte.
Ele foi pelo vale do Todgha, em Demnat, para a zawiya de Dila e em Fez.
    Quanto a seu irmo, ele reuniu um exrcito e se dirigiu para Dara, ocupada
por Abu Hassun. Travou vrias batalhas contra este e o expulsou dessa regio.
Dirigiu-se ento rumo  zawiya de Dila e travou uma batalha contra os Dila-


13   A. al-Nasiri, 1954-1956, vol. VII, p. 3-4.
14   De uma forma geral, a palavra alawita  usada para designar todos os descendentes de Ali, primo e genro
     do Profeta. Mas os alawitas da Sria nada tm a ver com o califa Ali.
260                                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




                          Zona de influncia de                Territrio dos ltimos                    Territrio dos
                          al-Nakis e al-Khadr                  soberanos saadianos                       primeiros
                          Ghaylan                              e shbanatas                               Alawitas


                          Territrio da                        Zona de influncia
                          Dilawiyya                            dos Samlaliyun




                                                     Tnger         Ceuta

                                                               Tetun                               Melilha
                                                  Larache
                                                                                    Badis                     Tlemcen
                                                            Ouezzane
                                                                                                            Oujda
                                                       Mamura
                                                                       Fez            Taza
                                                     Sal
                                                            Mekns
                  Azemmour
                   Breja


                                                       iya
                                                    Z aw Dila`iya
               Safi


                             Marrakesh                                 Sidjilmasa (Tafilalet)

               Mogador



      Agadir                Tarudant

  Massa

                  Ighil




                                                                               0              100           200 km
                                                                               0!                     100 milhas


Figura 8.5     Os principados do Marrocos Setentrional no incio do sculo XVII (de acordo com M. El Fasi).
O Marrocos                                                                                            261



wiyya, mas foi vencido. Decidiu atacar Fez e conseguiu por fim ocup-la em
1060 (1650). Mas ele teve de deix-la ao fim de quarenta dias para no expor
seus soldados a uma derrota certa. No conseguindo mais se instalar em Fez,
ele rumou para o Marrocos Oriental. Ocupou a cidade de Uda e avanou at
Tlemcen. Toda a regio do Oeste argelino foi atacada por suas tropas.
    Com um acordo concludo entre Mulay M'hammad e os turcos que gover-
navam a Arglia, Mulay Rashid retornou a Ouidah. Continuando seu projeto
de subir ao trono do Marrocos, que acabava de ser estabelecido por sua famlia,
ele veio se instalar em Taza.
    Mulay Rashid, alm da reputao adquirida, teve ento  sua disposio
os meios em dinheiro e homens para levar a cabo seu projeto de sempre. Ele
prometeu a seus companheiros, uma vez no trono do Marrocos, recompens-
-los com a instituio de uma festa simblica que consistiria em escolher um
estudante da Universidade de Karawiyyin e sagr-lo sulto dos tolba (rei dos
estudantes) durante quinze dias no decorrer dos quais festividades seriam
organizadas  beira do Wadi Faz pelos estudantes15. Tendo conquistado toda
a regio de Taza, proclamou-se sulto. Seu irmo Mulay M'hammad, ao tomar
conhecimento de tal fato, veio encontr-lo para pr um termo a suas emprei-
tadas. Uma batalha foi travada entre eles, mas no durou muito, pois Mulay
M'Hammad fora atingido por uma bala mortal j no incio do encontro.
Mulay Rashid o lamentou, mas  preciso reconhecer que a morte de seu
irmo arranjou seus negcios. Era 1075 (1664). A conquista do Marrocos
podia comear.
    Mulay Rashid ocupou primeiro Taza. Ele foi em seguida para Tafilalet, bero
da famlia, onde um filho de seu defunto irmo se manifestou contra, ele entrou
vitoriosamente em Fez em 1076 (1666). Pela tomada dessa capital, sem cuja
possesso nenhum poder se manteria no Marrocos, a dinastia alawita foi defi-
nitivamente estabelecida.
    Mulay Rashid cuidou em primeiro lugar da organizao e da administrao.
Ele distribuiu dinheiro aos ulama e fez deles seus conselheiros particulares. Ele
nomeou como kadi da capital o sbio Hamdun al-Mazwar. Todas essas aes
valeram-lhe a filiao dos Fasi, conhecidos por sua repugnncia em aceitar um
estranho sem t-lo previamente considerado digno de sua confiana.



15   Essa tradio estudantil durou at a poca moderna, quando caiu no esquecimento. Eu a restabeleci no
     incio da independncia quando eu era ministro da educao nacional e reitor das universidades marro-
     quinas. Em seguida, ela voltou a ser esquecida.
262                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



    Ele passou os dois anos seguintes pacificando todo o Norte do Marrocos e,
no fim do ano de 1078 (1668), ele se preparou para submeter a zawiya de Dila,
o nico poder, ainda que enfraquecido, na regio do Atlas Mdio. Ao chegar na
plancie do Fazaz, o exrcito de al-Rashid encontrou as tropas de Muhammad
al-Hadjdj al Dila'i, impondo-lhes uma derrota sem precedentes em sua histria.
Mulay Rashid entrou na zawiya com suas tropas, tratou seus ocupantes com
humanidade e no derramou uma s gota de sangue. Ele ordenou que transfe-
rissem o velho Dila'i para Fez para que l ele morasse com todos os membros
de sua famlia. Isso aconteceu no primeiro ms do ano de 1079 (1668).
    Aps essa vitria, restou apenas a Mulay Rashid sujeitar os ltimos basties
de insubmisso no Sul do Marrocos. No ms de safar de 1079 (julho de 1668),
ele decidiu libertar Marrakesh dos shbanatas. Conseguiu ocupar a cidade, cap-
turou Abu Bakr ibn Karrum al-Hadjdj al-Shabani, bem como outros membros
de sua famlia e mandou mat-los.
    O ltimo poder local que permaneceria no Suz era o dos samlaliyun. O
fundador desse principado morrera em 1070 (1659), fora substitudo por seu
filho Muhammad. Em 1081 (1670), Mulay Rashid atacou a cidade de Taru-
dant, ocupou-a e rumou para a fortaleza de Ighil, capital dos samlaliyun. Ele
capturou e matou os membros dessa famlia de marabutos bem como seus mais
fervorosos partidrios. Com essa vitria, todo o Marrocos estava purificado e o
poder alawita definitivamente estabelecido.
    Um ano e meio mais tarde, em 1082 (1671), Mulay Rashid encontrou a
morte num acidente de cavalo. A histria por ns traada dos ltimos saadianos
at o incio da dinastia alawita , sobretudo baseada em acontecimentos, porque
os transtornos reinantes ento, a insegurana e a instabilidade do poder no
permitiam s artes e letras se manifestarem. Foi apenas com Mulay Rashid que
o Marrocos reatou com suas tradies culturais e se lanou em novas realizaes
sociais e econmicas. Mulay Rashid estimava muito os sbios e os homens de
letras. Ele mesmo estudara na Universidade de Karawiyyin.
    Ele mandou construir a maior madrasa (escola cornica primria e secund-
ria) de Fez, modestamente chamada de Madrasa Cherratin16, nome da rua em
que ela foi construda. Ele mandou construir outra em Marrakesh. Dentre suas
obras monumentais, nota-se a construo da ponte sobre o Wadi Sebu a quinze
quilmetros a Leste de Fez.



16    Quando eu era reitor da Universidade de Karawiyyin, eu oficialmente a rebatizei como al-Madrasa
      al-Rashidiyya.
O Marrocos                                                                     263



   Do ponto de vista econmico, ele emprestou aos comerciantes somas con-
siderveis para encorajar suas atividades e, assim, estimular a prosperidade de
toda a populao. Ele conseguiu fazer uma reforma monetria que consistia em
reduzir o valor da muzuna de 48 para 24 fels. A forma das moedas de bronze
cunhadas em sua poca foi modificada, tornadas redondas. Dentre suas obras
sociais,  preciso assinalar seu interesse pela questo da gua, principalmente nas
regies desrticas; ele mandou assim cavar numerosos poos nos desertos do
Marrocos Oriental, particularmente em Dara, por onde passavam as caravanas
comerciais e aquelas dos peregrinos que rumavam para Meca.
   De uma forma geral, os historiadores so unnimes em declarar que o rei-
nado de Mulay Rashid foi marcado por um impulso notvel em todas as reas,
por um longo perodo de paz e por uma prosperidade aprecivel aps longos
anos de distrbios e de misria pelos quais passara o pas.


   O reinado de Mulay Ismael
    A histria de Mulay Ismael  marcada por fatos eminentes. Esse soberano
concluiu, de fato, a obra comeada por seus dois irmos que consistia em unificar
o Marrocos colocando-o sob domnio de um nico trono, como no tempo de seu
poder e grandeza passados. Foi igualmente ele quem firmou as bases do Estado
fundado por seus dois irmos e lanou as premissas do Estado marroquino que
salvaguardou at o presente o patrimnio do Marrocos. Enfim, foi ele quem
cuidou para a lei muulmana ser ensinada em todas as terras do Marrocos, a fim
de assegurar tanto a unidade poltica quanto religiosa do pas.
    Ele tinha enorme interesse nas questes relativas  religio muulmana e
seu proselitismo dirigia-se tambm aos reis da Europa tais como Lus XIV e
James II da Inglaterra, aos quais ele escrevia, convidando-os a abraar o Isl. Ele
observava estritamente os preceitos da lei muulmana e levava uma vida austera,
no tendo em toda sua vida tomado bebidas inebriantes. Alguns historiadores
chegam a descrev-lo como cruel, violento, desptico, e podendo enfurecer-se
sem outro pretexto a no ser o prazer de ver derramar sangue  acusaes falsas,
pois foram baseadas na imagem contra ele forjada pelos cativos europeus. Com
efeito, cada um desses prisioneiros, depois de liberto e de volta  sua ptria,
punha-se a relatar, com exagero, as provas que suportara, o que difundiu no
imaginrio dos europeus a ideia da violncia e da crueldade de Mulay Ismael.
    Alm disso, os embaixadores do Sulto eram enviados s capitais europias:
Ibn Haddu em Londres e al-Hadjdj Muhammad Tamim sucessivamente a
264                                                                 frica do sculo xvi ao xviii




Figura 8.6   O sulto Mulay Ismael. [Mausolu Muhammad V, Rabat. Com a amvel autorizao do
Curador].
O Marrocos                                                                    265



Paris e a Versalhes. Reciprocamente, delegaes enviadas pelos Estados euro-
peus vinham solicitar sua amizade. Ele mantinha relaes pessoais com os reis
da Inglaterra e da Frana e intervinha nos negcios desses dois Estados, onde
ele tinha informantes, permitindo-lhe estar sempre a par do que acontecia l.
Ele era perspicaz em poltica. Dizia ele: "O rei da Espanha  uma criana que
deixa ao Cu a responsabilidade de governar seu pas; o da Inglaterra no  livre
em seus atos; o da ustria tem necessariamente a necessidade de satisfazer os
grandes eleitores. S o rei da Frana governa de verdade", referindo-se a Lus
XIV, realmente um dos maiores monarcas da Europa daquela poca. Assim era
o monarca que subiu ao trono no Marrocos aps a morte de seu irmo Rashid.
Sua sagrao ocorreu na quarta-feira do dia 16 dhu `l-Hidjdj 1082 (16 de abril
de 1672).
    Os notveis das cidades e das kabila vieram prestar-lhe um juramento de
fidelidade, exceto aqueles de Marrakesh. Com efeito, seu sobrinho, Ahmad ibn
Muhriz, ao ficar sabendo da morte de seu tio Mulay Rashid viera precipitada-
mente para essa cidade e fizera seus habitantes proclamarem-no sulto. Obteve
o apoio de um grande nmero de partidrios, principalmente dentre as pessoas
do Suz. Mulay Ismael no teve ento outra sada seno avisar sobre o perigo
antes que ele se agravasse. Poucos dias aps sua sagrao, ele marchou contra
seu sobrinho e combateu a ele e aos kabila de Hauz que tinham se unido contra
ele. Ele os venceu, entrou em Marrakesh e perdoou os habitantes por sua falta
de diligncia em prestar-lhe um juramento de fidelidade, desculpando-os pela
rebelio de seu sobrinho. Este ltimo fugiu aps sua derrota, mas recomeara a
conspirar, incitando os habitantes de Fez a se revoltarem e a proclam-lo sulto,
o que ele conseguiu obter.
    Ao tomar conhecimento dessa agitao, Mulay Ismael decidiu ocupar-se
primeiramente de seu sobrinho. Marchou contra ele, obrigando-o a fugir pela
segunda vez, para o Saara. Depois ele rumou para Fez, sitiando-a at sua submis-
so, mas em seguida decidiu fazer de Mekns sua capital. Ao voltar a essa cidade,
ele ordenou a construo de palcios, casas, muralhas, estrebarias, entrepostos
e outros estabelecimentos desse tipo. Ele mandou arrumar jardins e fontes, at
o ponto de essa cidade concorrer com Versalhes (que Lus XIV, ao abandonar
Paris, escolhera por capital). Em Mekns, os trabalhos de construo duraram
vrios anos.
    Quanto a Ahmad ibn Muhriz, aps ter tentado em vo por duas vezes
tomar o poder nas duas capitais, do Norte e do Sul, tentou uma terceira vez
se rebelar contra seu tio. Atacou pela segunda vez Marrakesh, ocupando-a
em 1085 (1674/1675) e a transformou em uma cidade fortificada. Seu tio
266                                                        frica do sculo xvi ao xviii



veio siti-lo. O stio durou quase dois anos ao fim dos quais ibn Muhriz, no
aguentando mais, fugiu mais uma vez para o Suz. Mulay Ismael fez sua entrada
em Marrakesh e, dessa vez, deu ordens para castigar dentre os habitantes os
que apoiaram ibn Muriz.
   Dentre os acontecimentos de poltica interna sob o reinado de Mulay
Ismael, pode-se assinalar a revolta de trs de seus irmos, Mulay al-Harran,
Mulay Hashim e Mulay Ahmad, que eclodiu no fim do ms de ramadan 1089
(1678/1679). Os rebeldes foram reconhecidos e apoiados em seu movimento
pela kabila dos Ait`Atta. O sulto marchou contra eles,  frente de um impo-
nente exrcito e as duas partes se encontraram no Djabal Saghru. A vitria
coube a Mulay Ismael, cujos soldados deram prova de grande coragem, e pro-
vocou a fuga dos trs irmos para o Saara.
   A situao de ibn Muhriz, refugiado no Suz, teve altos e baixos, enquanto
seu tio, absorvido pelas importantes questes interiores e exteriores do Estado,
no podia se ocupar totalmente dele. Em 1096 (1684/1685), enquanto se
encontrava em Mekns, Mulay Ismael soube que seu irmo al Harran e seu
sobrinho ibn Muhriz aliaram-se e ocuparam a cidade de Tarudant. O sul-
to marchou contra eles  frente de um imenso exrcito e sitiou Tarudant.
Durante o stio, ibn Muhriz foi morto. Assim acabou-se a aventura desse
revoltado que, durante mais de catorze anos causara muitas preocupaes a
Mulay Ismael. Quanto a Mulay al-Harran, ele continuou sitiado em Taru-
dant. Quando finalmente o exrcito real tomou de assalto a cidade, ele fugiu
para o Saara.

      As campanhas militares de Mulay Ismael para recuperar as cidades
      marroquinas ocupadas pelos europeus
   O Marrocos, antes do advento da dinastia alawita, era dividido entre os agi-
tadores e os cristos e era cobiado por todas as outras naes. Essa situao
fora causada pelas traies e distrbios pelos quais foram responsveis os lti-
mos reis saadianos, como vimos. Mulay M'hammad, depois seu irmo, Mulay
Rashid, veio para pr um termo a essa situao e unificar o Marrocos sob a
dominao de um nico trono e um nico rei. O irmo deles, o grande Mulay
Ismael, afirmou-se na linhagem, coube-lhe o papel, aps ter consolidado a obra
de seus dois predecessores, de completar a unificao do Marrocos liquidando
a colonizao crist.
O Marrocos                                                                    267



   A retomada de alMahdiyya
   O porto de al-Mahdiyya, chamado ento de al-Ma'mura, era um dos mais
importantes do Marrocos. Corsrios das mais diferentes naes tentavam ocup-lo.
Desse porto, dependente de Sal, cidade habitada pelos andaluzes, partiam os bar-
cos marroquinos para combater os espanhis e outros inimigos. Aproveitando-se
da fraqueza dos marroquinos resultante das querelas entre os filhos de al-Mansur,
os espanhis o ocuparam, em 1023 (1614) at o momento em que Mulay Ismael
decidiu retom-lo. Ele marchou contra essa cidade, sitiou-a, privando-a de gua,
ocupou-a em 1092 (1681) e prendeu todos os espanhis que a se encontravam.

   A retomada de Tnger
    Tnger fora dominada pelos ingleses aps um de seus reis ter se casado
com uma princesa portuguesa. Mulay Rashid tentara reintegrar essa cidade ao
Marrocos, mas ele morreu antes de libert-la. Dada sua importncia, Mulay
Ismael fez todo o seu possvel para recuper-la e encarregou um de seus maiores
generais, `Ali ibn `Abdallah al-Rifi, de siti-la. Aqui a verso marroquina difere
da europia quanto  causa da evacuao da cidade pelos ingleses. Se as duas
verses concordam em dizer que os ingleses evacuaram Tnger sem oferecer
resistncia e aps demolir torres e fortificaes, os historiadores marroquinos,
em contrapartida, afirmam que os ingleses agiram assim em represlia  severi-
dade do stio imposto pelo general `Ali al-Rifi. Quanto aos historiadores euro-
peus, eles alegam que essa evacuao ocorreu por razes de poltica interna: o
governo e o parlamento ingleses temiam ver o duque de York, convertido ao
catolicismo, tomar Tnger como base de operaes para atacar o rei Carlos II e
tomar o poder. Foi a razo pela qual o soberano ingls teria ordenado ao lorde
Dartmouth evacuar Tnger.
    Apesar de tudo, esses ltimos historiadores reconhecem, entre outras causas
dessa evacuao, a dificuldade provada pelos ingleses em repelir os ataques
marroquinos. A experincia nos provou suficientemente que os europeus nunca
abandonaram um s palmo de terra muulmana ocupada sem terem sido afron-
tados e vencidos.
    Independentemente de como tenha sido, o exrcito, conduzido pelo general
`Ali ibn `Abdalah al-Rifi, entrou em Tnger no ms de rabi`I 1095 (fevereiro
de 1684). Sem perder tempo, o general se ps a reconstruir o que os ingleses
demoliram e a restaurar as mesquitas, muralhas, torres e tudo o que eles tinham
destrudo durante sua estadia e no decorrer de sua fuga.
268                                                        frica do sculo xvi ao xviii



      A retomada de Larache
    A perda de Larache foi a mais catastrfica para os muulmanos do Marrocos,
pois esta cidade no fora ocupada  fora pelo inimigo espanhol, mas tinha-lhe
sido cedida por um dos reis do Marrocos em troca de seu apoio para retomar
o poder que ele acreditava ter-lhe sido usurpado. Enquanto o filho e o neto de
al-Mansur, o saadiano, disputavam o trono, os europeus tentaram tirar proveito
dessa situao para ocupar Larache, ento um centro estratgico importante. Foi
ento que Muhammad Shaykh recorreu  Europa para pedir aos reis estrangei-
ros uma ajuda militar contra seus dois irmos. Mas o rei da Espanha, Filipe III,
ficou a par dessa inteno e iniciaram-se negociaes ao fim das quais o preten-
dente ao trono marroquino aceitou ceder Larache ao rei da Espanha em troca
de ajuda pra conquistar o trono. Negcio feito, Muhammad Shaykh voltou para
Fez e os espanhis ocuparam Larache em 1019 (1610). Larache permaneceu
sob o domnio espanhol durante mais de oitenta anos, at o advento de Mulay
Ismael. Esse grande rei atacou essa cidade com um grande exrcito, sitiando-a
e impedindo os espanhis de sarem dela durante cinco meses. Violentos com-
bates ocorreram entre sitiantes e sitiados, coroados pela retumbante vitria dos
marroquinos. A retomada de Larache, ocorrida na quarta-feira, dia 18 moharram
1101 (1 de novembro de 1689), deu aos marroquinos uma imensa alegria que
s teve igual intensidade na dor sentida quando de sua perda.

      A retomada de Arzila
   O porto de Arzila cara em mos portuguesas no incio do reino de Banu
Wattas. Recuperado pelos primeiros reis saadianos, foi retomado uma segunda
vez pelos portugueses. Passando assim de mo em mo, acabou por ficar com
os espanhis. Quando o general Ibn Haddu terminou sua misso em Larache,
recebeu do sulto a ordem para se dirigir rumo a Arzila para siti-la. Esgota-
dos, os sitiados pediram para terem a vida poupada, o que lhes foi concedido
mediante a aprovao do sulto. Mas, temendo o pior, eles fugiram  noite em
seus barcos. Os marroquinos entraram em Arzila em 1102 (1691).

      Os exrcitos de Mulay Ismael
      A milcia dos Wadaya
   Os reis marroquinos recrutavam seus soldados tanto no seio das kabila de
seu cl, como no seio das kabila aliadas. Os almorvidas, por exemplo, tinham
O Marrocos                                                                                          269



apoio das kabila sanhadja (lamtuna, lamta e outras), enquanto os almadas
tinham o apoio das kabila masmuda. Foi assim at o advento dos saadianos. Eles
recrutavam seus soldados dentre as kabila de bedunos rabes introduzidos no
Marrocos no tempo de al-Mansur, o almada, e estabelecidos no Sul do pas. Os
saadianos constituram, a partir dessas kabila, uma milcia conhecida como a dos
wadaya. Os wadaya haviam se dispersado em seguida  queda dos saadianos. No
decorrer de sua estadia em Marrakesh, Mulay Ismael teve a ideia de reuni-los e
fazer deles soldados a fim de reforar seu poder. Esses novos recrutas receberam
uniformes e foram levados para Mekns, a capital. Foram acrescentados aos
homens de shbanata e de zirata. Com seu nmero aumentado, Mulay Ismael
dividiu-os em dois grupos. O primeiro foi enviado a Fez e o segundo ficou no
Riyad, em Mekns.

     A milcia dos Bawakhir
    Mulay Ismael refletia muito sobre as causas que tornavam as naes fortes,
estveis e temidas. Ele acabou por entender que isso resultava de seu pode-
rio militar. Mas entendeu tambm que sua decadncia decorria do excesso de
autoridade adquirido pelos militares e seus chefes. Decidiu ento criar uma
milcia composta de escravos. Essas pessoas so naturalmente dadas  obedin-
cia, condio essencial da disciplina e, como ficam  merc de seus mestres, so
naturalmente dadas a obedec-lo.
    Mulay Ismael pensou nisso quando organizou a milcia dos wadaya, assim
como dissemos anteriormente. Um dos secretrios do Makhzen, Muhammad
ibn al-Kasim `Alilish17, cujo pai era igualmente secretrio de al-Mansur, o saa-
diano, disse-lhe um dia: "O rei tinha uma milcia de escravos e eu possuo o livro
no qual meu pai os inscrevera". Ele mandou mostrar esse registro e lhe disse
que havia ainda, na regio de Marrakesh, um grande nmero desses escravos,
que lhe era possvel juntar e inscrever novamente num registro especial para
faz-los trabalhar no exrcito. Mulay Ismael confiou-lhe essa tarefa e ordenou
por escrito aos chefes das tribos da regio a ajud-lo e assisti-lo. `Alilish se ps
ento a procurar esses escravos e conseguiu reuni-los todos. Ele foi to bom
nisso que no restou mais nenhum negro em nenhuma tribo, fosse ele escravo,


17   Ao contrrio do que est mencionado em A. al-Nasiri, 1954-1956, vol. IV, p. 26, onde atribuem-lhe o
     nome de Umar ibn Kasim. Na verdade, possuo uma carta, um manuscrito desse secretrio, endereada
     ao vizir al-Yahmadi e assinada Muhammad ibn Kasim. O mesmo nome  dado a esse personagem numa
     carta endereada por Mulay Ismael a nosso ancestral, o shaykh al-Islam Sidi Muhammad ibn Abd al
     Kadir al-Fasi. Al-Dua ysjif-Ribati trata-o da mesma maneira.
270                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



mestio ou livre de condio. A opinio pblica ficou escandalizada com essa
medida, principalmente os ulama, depositrios da lei muulmana, proibidora
da explorao de homens livres. Essa questo deu incio a uma longa polmica
entre o rei e os ulama de Fez e acarretou uma vasta correspondncia, da qual
uma clebre parte ainda existe, entre Mulay Ismael e o shaykh al-Islam Abu
'l-Su`ud al-Fasi18.
    Para voltar a Mulay Ismael, devo formular essa observao geral a seu res-
peito. Se, como alegam os europeus, ele era realmente agressivo, cruel e desp-
tico, nem o mais simples sbio, tendo apenas a fora da f e do direito, o teria
contrariado. Mas Mulay Ismael, que temia a Deus e respeitava suas leis, estava
convicto de que agia de acordo com a lei muulmana nesse caso que ele con-
siderava ser o maior bem realizado em favor do Marrocos e do Isl. O que o
encorajava ainda mais a manter sua posio era o fato de sua responsabilidade
nesse assunto ter sido atenuada pelo papel desempenhado por Muhammad ibn
Kasin `Alilish na reduo da condio de homens livres  escravido, pois ale-
gava que ao menos o pai deles fora escravo no tempo dos saadianos. No mais,
Mulay Ismael tinha a conivncia de certos ulama mais acomodados, tanto que
um erudito escreveu ao shaykh al-Ishlam al-Fasi, sem data nem assinatura, uma
carta na qual dizia o seguinte:
          "Que no dizeis em sua carta [aquela endereada a Mulay Ismael]: nosso senhor,
      vitorioso pela graa de Deus, e guiado em todas as suas aes e particularmente no
      recrutamento de seus escravos antes de sua reduo  escravido e as precaues
      tomadas a respeito da lei muulmana. Tendo sido estudada a fundo essa questo,
      nada mais resta a fazer aps todas as justificativas apresentadas. Tudo est nas mos
      do nosso senhor  que Deus o torne vitorioso! , que age conforme nossas prprias
      diretivas e as dos outros ulama; tudo isso a fim de ter a conscincia tranquila, que
      Deus o guarde eternamente para ns mesmos e para todos os muulmanos! Ele
      possui alm do mais a respeito disso uma documentao ampla o bastante para
      convencer a todo ctico e crtico. Falar assim  dizer a verdade.  o que vs devereis
      ter feito, sem medo de contrariar de forma alguma s leis divinas e humanas. Espero
      que vs vos mostreis mais conciliador em vossa correspondncia endereada a nosso
      senhor, que Deus lhe conceda seu apoio!, a fim de que ele fique satisfeito com isso.
       por vos estimar que vos dou este conselho."
   A correspondncia trocada a esse respeito entre o sulto e os ulama
prolongou-se at a morte de Sidi M'hammad ibn `Abd al-Kadir al-Fasi, em 1116

18    A. al-Nasiri, 1954-1956, vol. IV, p. 42.
                                                                                                                                           O Marrocos
Figura 8.7   Carta nmero 12 da correspondncia entre o sulto Mulay Ismael e o shaykh al-Islam Sidi Muhammad al-Fasi. [S.E.M. El Fasi].




                                                                                                                                           271
272                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



(1704/1705), e iniciara certamente na ltima dcada do sculo XI da hgira.
Contudo, a primeira das cartas dessa troca que chegou at ns  uma datada de
28 dhu 'l-ka`da 1104 (julho de 1693). Nela, o soberano pedia a Sidi M'hammad
que estudasse a argumentao de Alilish relativa  reduo dos homens livres
 escravido, de precisar se essa operao estava conforme a lei e dizer se a
aprovava ou no. Esse erudito respondera, sem dvida, francamente  questo,
ou ento insinuara que a lei no permitia reduzir homens livres  escravido.
O desacordo agravou-se a ponto de o sulto, irritado, ter escrito uma carta19 a
respeito da qual o autor de al-Istiksa disse:
          "No mesmo ms de dhu 'l-ka`da do mesmo ano, ou seja, em 1108 (1696-1697),
      o kadi e os ulama de Fez receberam do sulto uma carta censurando-os por no
      terem aprovado a reduo dos homens inscritos no registro  escravido. Uma
      segunda carta chegou, na qual o monarca elogiava a populao de Fez, criticava
      severamente os ulama e ordenava a destituio do kadi e dos oficiais pblicos
      dessa cidade20."
   O primeiro escrito a fazer aluso a essa passagem de al-Istiksa faz parte de
minha coleo pessoal. Ele se refere a numerosas questes e, de forma geral,
resumem-se nisso: o sulto julgara necessrio e indispensvel organizar um
exrcito para defender o territrio do Isl. Ele desenvolveu nessa longa carta
seu ponto de vista sobre a instituio desse exrcito de escravos e pediu ao des-
tinatrio que a distribusse aos ulama e pedisse sua resposta. Possumos apenas
uma dessas respostas, a de Sidi M'hammad na qual ele  categrico: "Quanto
quele cuja condio de escravo no pode ser provada, h unanimidade entre os
sbios para dizer que ele  livre e que de forma alguma  permitido possu-lo
nem dispor de sua pessoa, seja vendendo-o, seja de qualquer outra maneira, pois
os homens nascem livres".
   Foi ento que o monarca, para convencer o shaykh al-Islam da necessidade de
organizar o exrcito dos Bawakir, recorreu ao seguinte meio: por carta datada do
ms de djumada'I 1110 (dezembro de 1698), ele o tomava como testemunha de
que ele alforriara todos esses escravos com os quais ele constitura uma milcia e
que ele os guardara como reserva para assegurar a defesa do territrio do Isl.



19    Essa correspondncia, de uma importncia capital do ponto de vista histrico, social, jurdico e religioso,
      foi publicada pelo autor deste captulo com reproduo fotogrfica de documentos na revista Hesperis-
      -Talmuda, num nmero especial publicado em 1962  ocasio do terceiro centenrio da ascenso de
      Mulay Ismael.
20    A. al-Nasiri, 1954-1956, vol. IV.
O Marrocos                                                                              273



   Ignoramos qual tenha sido a resposta de Sidi M'hammad. Contudo, numa
correspondncia sobre esse assunto, cuja data no est longe daquela da morte
do sbio (radjab 1115/outono de 1703), ns encontramos uma indicao de no
haver relao direta com o assunto, mas que trata da incorporao dos habitantes
de Fez ao corpo de arqueiros. Tudo indica que o sulto consultou igualmente o
sbio a respeito dessa ltima questo e recebeu uma resposta insatisfatria. Ele
aproveitou ento dessa ocasio para lhe enderear uma longa carta, cujo texto
integral ser encontrado na coletnea das cartas de Mulay Ismael, citado mais
acima.
   No ano seguinte, Sidi M'hammad morreu e Mulay Ismael continuou a pedir
aos ulama de Fez seu aval. O caso teve vrias peripcias at 1120 (1708/1709),




Figura 8.8 Walad Dawud Ait Hamu, ou a kasaba de Mansur em Skoura, na provncia de Uarzazate,
construda provavelmente no sculo XVIII.  Ministrio da Cultura, Marrocos.
274                                                         frica do sculo xvi ao xviii



data na qual o monarca os obrigou finalmente a aprovar o Diwan al-Abid
(Registro dos escravos).
    Tal  o histrico da criao da milcia dos Bawakir que ns traamos bre-
vemente,  certo, porm apoiando-nos em documentos importantes e nicos.
Essa milcia, em seu incio, contribuiu em grande medida para manter a paz e
a segurana no pas unificado. Mulay Ismael mandara, de fato, construir forta-
lezas e cidadelas (kasaba) em todas as regies do Marrocos, fronteiras argelio-
-marroquinas at os confins meridionais do Saara. Guarnies foram enviadas
para essas fortalezas e os filhos desses soldados, vindos com a famlia, recebiam
uma formao especial, o que  importante ser mencionado aqui.
    Graas a essa poderosa milcia, Mulay Ismael conseguiu devolver ao Marro-
cos sua fora e seu prestgio aos olhos das grandes naes da poca, que come-
aram ento a tem-lo. Essa milcia permitiu igualmente, assim como dissemos
mais acima, fazer reinar a segurana no Marrocos e devolver a seus habitantes
confiana e tranquilidade de esprito.


      Mulay Ismael nomeia seus filhos vicereis nas
      diferentes regies do Marrocos
    Essa designao conta dentre os fatos que causaram a Mulay Ismael as maio-
res dificuldades. De fato, esse soberano tinha um enorme nmero de filhos cuja
cifra, na poca de sua morte, chegava a 500 meninos e outras tantas meninas. Ele
no podia, ento, satisfazer a todos. Tambm teria sido melhor para ele aplicar,
desde o incio, a soluo  qual chegou finalmente aps amargas experincias.
    Em 1111 (1699/1700), ele dividiu as provncias marroquinas entre seus
filhos: Mulay Ahmad (famigerado al-Dhahabi) foi enviado a Tadla com 3000
soldados negros; Mulay Abd al-Malik foi enviado a Dara diante de 1000 cava-
leiros; Muhammad al-Alem para o Suz, com 3000 cavaleiros; Mulay al-Mamun
al-Kabir para Sidjilmasa. Esse ltimo se estabeleceu em Tizimi com 500 cava-
leiros, mas morreu dois anos mais tarde. Foi substitudo por Mulay Yusuf em
1113 (1701/1702). Mulay Zaydan foi enviado ao Marrocos Oriental. Ele lanou
expedies contra os turcos e at mesmo adentrou a cidade de Mascara onde
pilhou o palcio do emir Uthman Bey. Seu pai o destituiu em funo do pacto
que o unia ao califa otomano e mandou substitu-lo por Mulay Hafid.
    Os filhos mais velhos de Mulay Ismael que no obtiveram nenhum vice-
-reinado sentiram-se lesados. Pior, alguns tentaram ocupar provncias  fora,
como Mulay Abu Nasr, que atacou seu irmo Mulay Abd al-Malik, venceu-o
O Marrocos                                                                   275



e tomou Dara. O prncipe vencido fugiu. O sulto enviou seu filho Mulay
Sharif para retomar de Abu Nasr a provncia de Dara, sendo-lhe dada esta em
substituio a Abd al-Malik por ter-se mostrado incapaz de se defender. Nesse
nterim, Mulay Muhammad al-Alem se rebelou no Suz, fazendo-se proclamar
sulto e marchou contra Marrakesh, sitiando-a e ocupando-a. Mulay Ismael
mandou contra ele seu filho Mulay Zaydan, que combateu o revoltoso durante
dois anos. Tendo visto as consequncias desastrosas dessa experincia, as brigas
provocadas entre seus filhos com ele ainda vivo, alguns chegando at a reivindi-
car o trono, Mulay Ismael ps-se a enviar para Tafilalet todos os seus filhos ao
atingirem a puberdade. Ele mandava instalar cada um numa casa, na maioria
das vezes com sua me, dava-lhes um lote de palmeiras e uma terra para cultivar
bem como um certo nmero de escravos para ajud-los em seus trabalhos. O
soberano agira sabiamente, pois tinha filhos demais para dar a todos uma vida
principesca em Mekns ou outras cidades do Marrocos. Enviando-os a Sidjil-
masa, ele resolvera esse problema. Em 1130 (1717/1718), ele destituiu todos os
seus filhos, exceto Mulay Ahmad al-Dhahabi, governador do Tadla, pois tivera
sucesso em sua tarefa, por no ter havido em sua provncia nenhuma sublevao,
nem dirigida contra ele, nem por ele fomentada contra seu pai.
    Depois dessa medida, o pas teve paz e tranquilidade e a obra de edificao
de Mulay Ismael durante os dez ltimos anos de sua vida tornou-se manifesta.
Os marroquinos voltaram-se para o comrcio e a agricultura e contriburam para
o desenvolvimento das riquezas do pas, encorajados por uma segurana total.
Os historiadores tambm concordam em afirmar que, durante esse perodo, no
havia ladres nem pandilheiros, e isso graas s medidas severas tomadas tanto
contra os culpados de um crime quanto contra seus cmplices. Decorreu dessa
situao um grande bem-estar e uma excelente qualidade de vida, graas aos
meios dos quais dispunha a esmagadora maioria da populao.
    Mulay Ismael permanecera cinquenta e sete anos no trono. Nenhum rei do
Marrocos, nem mesmo de todo Isl, anterior ou posterior, reinou durante um
to longo perodo, exceto al-Mustansir al-Ubaydi, que foi proclamado rei  idade
de sete anos e reinou at a idade de sessenta e sete anos. Mulay Ismael morreu
no sbado 28 radjab 1139 (21 de maro de 1727).


   Os sucessores de Mulay Ismael
   Aps a morte de Mulay Ismael aconteceu o que j se esperava, ou seja, que
seus numerosos filhos que, j no tempo em que ele vivia, brigavam pelo poder
276                                                          frica do sculo xvi ao xviii



regional que lhes tinha concedido seu pai, puseram-se a se revoltar para chegar
ao poder supremo. Durante dezenas de anos, nenhum dos pretendentes conse-
guiu estabelecer um poder slido e durvel. O primeiro deles, Mulay `Abdallah,
foi sagrado e destitudo vrias vezes.
    O papel da milcia dos Bawakhir, criada para manter a ordem e fazer reinar
a tranquilidade, foi desastroso. Instituies idnticas nas dinastias muulmanas
desde os abssidas de Bagd at os otomanos com seus janissrios foram uma
calamidade para essas dinastias e para os povos que sofriam com isso.
    Por volta do fim do sculo XVIII, um grande rei, Sidi Muhammad ibn
Abdallah, ou Muhammad III, subiu ao trono do Marrocos. Ele restabeleceu a
ordem, reforou o poder real e fez do Marrocos um pas respeitado por todas
as naes.
    Ele se interessou em primeiro lugar pelo impulso do comrcio e, para tanto,
comeou a modernizar os portos, particularmente o de Mogador, chamado desde
ento de Eassaura (a pequena muralha ou, de acordo com uma outra etimologia,
o pequeno mapa, porque o mapa da construo desse porto circulava entre os ope-
rrios). Ele fechou acordos comerciais com certos Estados europeus, em particular,
em 1757, com a Dinamarca, sobre relaes privilegiadas com o porto de Safi.
    Num outro plano, Muhammad III foi um reformador21: interessou-se direta-
mente pela Universidade Karawiyyin de Fez e redigiu textos reformando os pro-
gramas de estudos, modificando os textos a estudar, as disciplinas a ensinar etc.
    Do ponto de vista religioso, ele era partidrio da pureza original do Isl,
excluindo o que se chama de marabutismo, ou seja, o culto dos santos e o
fato de pedir-lhes que intercedam junto a Deus em favor dos homens. Essas
tendncias fundamentalistas ficaram, no entanto, limitadas porque no final do
sculo XVIII, o movimento waabita na Arbia clamava por reformas muito mais
radicais do que as desejadas por Muhammad III. No decorrer desse perodo,
ele estava em excelentes termos com o sharif de Meca, Surur, ao qual ele dera
uma de suas filhas em casamento. Como os waabitas eram inimigos do sharif
de Meca, Muhammad III cuidou de evitar reformas parecidas demais com a
ideologia waabita. Isso no impediu que, durante seu reinado e de seu filho,
Mulay Sulayman, o poder das confrarias diminusse sensivelmente.
    No plano das relaes exteriores, Muhammad III continuou, ao longo de
todo seu reinado, a concluir acordos com as naes estrangeiras. Ele reconheceu
a independncia dos Estados Unidos da Amrica, props a abolio da escra-


21    Ibid., captulo sobre o reinado de Muhammad III.
O Marrocos                                                                                              277



vatura a Lus XV e apoiou o imprio otomano em seu conflito com o imprio
russo. Em 1767 expulsou os portugueses de Mazago22, mas a morte o surpre-
endeu quando dos preparativos para o stio de Ceuta.
   Para concluir, podemos dizer que o reinado de Muhammad III foi o fator
essencial da estabilidade do Estado e do poder da dinastia alawita. Seu amor
pela paz o fez recorrer  guerra somente para a libertao de Mazago, enquanto
todas as questes internas ou externas eram resolvidas pela negociao e pelo
dilogo. De uma forma geral, essa poltica sbia e realista teve resultados favo-
rveis para o povo marroquino que pode gozar, durante essa segunda metade do
sculo XVIII, de uma prosperidade geral e de uma segurana total.




22   O nome dessa cidade situada na costa atlntica, ao sul de Casablanca, no  de origem estrangeira, como
     frequentemente se pensa;  o nome de uma tribo berbere, os Banu Mazaghawa, que vivia nos arredores
     de Mazago. Esse mesmo nome  o que recebia a cidade de Argel, pelas mesmas razes, e que se chama,
     entre os gegrafos e historiadores rabes Jazu'un Bani Mazaghawa.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                      279



                                          CAPTULO 9


                     Arglia, Tunsia e Lbia:
                  os otomanos e seus herdeiros
                                                M.H. Chrif




    O incio do sculo XVI foi marcado por uma profunda crise que aniquilou as
velhas estruturas estatais magrebinas e seus equilbrios anteriores. Superada graas
 interveno otomana nos pases de Argel, Tnis e Trpoli (e o dos sharif das
provncias saarianas no Marrocos), o perodo de turbulncias abriu o caminho para
uma nova ordem que levou um certo tempo para emergir de acordo com o pas,
mas que acabou por assegurar uma certa estabilidade no Magreb at a crise estru-
tural que, no incio do sculo XIX, anunciaria a dominao do regime colonial.
    Qual foi a importncia subjacente desta crise? De que maneira os otomanos
contriburam para o restabelecimento da estabilidade do Magreb no sculo
XVI? Em que medida, por um lado, permaneceram estrangeiros  sociedade
dominada por eles e, por outro lado, se integraram aos pases conquistados? 
evidente que a situao foi diferente (mas at que ponto?) de Argel a Tnis e
de Tnis a Trpoli, mas  tambm claro que o sculo XVIII, sculo de relativa
estabilidade, apresentava caractersticas diferentes das do sculo XVII, marcado
por hesitaes e flutuaes.


    A crise do sculo XVI e a soluo otomana no Magreb
   Essa crise atingiu todo o mundo rabe da poca: crise econmica, devida em
parte ao desvio das principais rotas comerciais e atestada pelo recuo da economia
280                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



monetria em favor de uma economia de subsistncia; crise social  e poltica 
consecutiva ao enfraquecimento das foras de integrao ou de dominao uni-
ficadora da sociedade (foras poltico-militares, classe dos grandes mercadores
e os ulama, os eruditos do isl); crise cultural em funo da rejeio da inovao
e de uma ligao patolgica s coisas do passado  ideias, comportamentos,
costumes e gostos. Essa crise multiforme era ainda mais perigosa em funo
do despertar da rival Europa, na poca, economicamente (grandes descobertas,
impulso do capitalismo mercantil...), politicamente (progresso da centralizao,
e em seguida das monarquias absolutas) e culturalmente (o Renascimento reno-
vava ento o pensamento, os hbitos e as tcnicas).
    Apenas os turcos osmanli, nos confins do mundo muulmano, conseguiam,
em parte, se adaptar s condies de sua poca, pela adoo de certas tcnicas
ou ideias modernas (armas de fogo, organizao militar e administrativa efi-
caz...). Por mais limitada que tenha sido essa resposta muulmana ao desafio
da poca (ela no se baseava em srias transformaes internas da sociedade
muulmana), ela no deixou de ser uma soluo para sociedades e Estados
em plena desintegrao, fortemente expostos  ameaa externa, como os do
Magreb no incio do sculo XVI.

      A crise interna magrebina
   O Magreb, no fim da "Idade Mdia1", est em plena crise: reduo
demogrfica, desarticulao da economia e da sociedade, incurvel fraqueza
poltica.
   As mltiplas causas subjacentes a isso so essencialmente de ordem estru-
tural. H, a princpio, a temvel proximidade do deserto e seus brutais avanos
rumo a pores substanciais do Magreb em caso de seca durvel ou abandono
prolongado da valorizao das terras, e esse foi precisamente o caso no fim
da "Idade Mdia"; em seguida, a justaposio de modos de produo e de
sociedades muito diferentes (gaba`il rabes ou arabizados, comunidades mon-
tanheiras berberes, populaes rurais sedentrias, urbanas); depois, a prpria
maleabilidade dos elementos unificadores da sociedades, fossem eles de ordem
social, econmica ou espiritual; enfim, a estagnao tcnica e cultural.


1     O termo Idade Mdia  inadequado quando aplicado  histria mulumana. Emprestaremo-no, contudo,
      da historiografia europia enquanto conveno universalmente aceita. Acrescentamos tambm que o fim
      do sculo XV constitui um verdadeiro ponto de inflexo no apenas para a Europa, mas igualmente
      para outras civilizaes: com as armas de fogo, o desenvolvimento do comrcio mundial e o incio do
      capitalismo, comea realmente a poca moderna.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                                 281



   Invoca-se frequentemente a responsabilidade dos nmades hilalianos2 pela
decadncia magrebina dos ltimos sculos da "Idade Mdia": j se deliberou
sobre a acusao, ao menos no que tange a sua falta de nuana e a seu carter
partidrio3. Entretanto, os grupos rabes (ou arabizados sob sua influncia),
por suas atividades e sua organizao, por sua diviso em cls rivais ou alia-
dos (mas sempre distintos), por seu modo de vida e sua tica guerreira (sua
"nobre irregularidade", como dizia Jacques Berque), constituam um elemento
de fraqueza no conjunto magrebino, o ponto fraco do Magreb, pode-se dizer.
Quando os anos calamitosos se repetiam ou quando uma grave crise poltica
enfraquecia o poder central, essas tribos retomavam sistematicamente seus
caminhos belicosos para encontrar novos meios de subsistncia ou de participar
da luta geral pelo poder.
   Como na Europa, epidemias e fome dizimaram a populao magrebina no
decorrer dos sculos XIV e XV. O conjunto dos habitantes do Magreb no devia
passar de 3 a 6 milhes na poca. Imagina-se sem dificuldades os efeitos dessa
queda demogrfica: produo reduzida, valorizao das terras ameaadas num
pas permanentemente ameaado pelo avano do deserto, insegurana crescente
num territrio quase vazio. Na mesma poca, os tesouros da Amrica, deposi-
tados em Sevilha a partir de 1503/1505, iam praticamente tirar todo valor das
moedas que o antigo mundo estocava e contribuir para o poder daqueles que
os detiveram em primeiro lugar (os ibricos), depois daqueles que os captaram
participando do novo sistema econmico mundial (holandeses, ingleses e fran-
ceses particularmente)4.
   O lento declnio que minava as cidades magrebinas desde os sculos XI e
XII, exceto por alguns casos (algumas cidades bem localizadas nos grandes
eixos comerciais ou nas costas) e por algumas trguas mais ou menos prolon-
gadas (no sculo XIII, por exemplo) teve uma rpida decadncia no extremo
fim do sculo XV e no decorrer das primeiras dcadas do seguinte: paralisia
do mundo dos negcios, desacelerao das trocas comerciais, generalizao
da penria alimentar e da misria. Leo, o Africano, atribua invariavel-
mente essa misria, constatada em toda parte, tanto nas cidades quanto nas
regies de culturas sedentrias,  opresso fiscal  pesando at o absurdo nas


2    Grupos rabes do alto Egito, que invadiram o Magreb a partir de meados do sculo XI, notadamente as
     plancies do interior, e subjugaram ou converteram a seu modo de vida e a sua cultura os antigos povos
     dessas regies.
3    J.P. Poncet, 1967.
4    I. Wallerstein, 1974.
                                                                                                                                                                                             282
                                                                                                                   a ka
                                                                                     gel        gia              ab ar
                                                                                                               nn Tab
                                                                                                                                                     0!                         500 milhas
                                                                                  Ar         Bu              A              Tnis
                                                                                                                                                     0!                         800 km
                                                                   w
                                                               ze
                                                     Or     Ar                              Constantina
                                                                       GRANDE
                                                                       CABLIA                                         Kairouan
                                    RIF                                                                           .
                                                                                                               Gafsa
                                                         Tlemcen                              Biskra
                                           Fez                                                                              Ilha de Djerba
                                                                                                             Gabez
                                                                        Laghwat
                                     MARROCOS                                                                TUNSIA                                                   Marsa
                                                                                              Tuggurt
                            AS
                           L                                          G AL                                                      Trpoli
                        AT                                        ERENT Wargla                          AL
                   TO                                                D                                NT                                                            Bengasi
                 AL            Tafilalet                          CI                            I   E
                                                                                                                               TR
                                           Banu Abbas
                                                              O                              OR                                     IPO
                                                                                         G                                                        Surt               BENGASI
                                                                    al-Golea       ER               Gadams
                                                                                                                                       LIT
                                                                                                                                          N
                                                                                                                                             IA
                                 Tabelbala                 Timimun
                                                                                                                                                                      Awdjila
                                                                                                                                                           Zayla
             Tinduf
                                                 Adrar
                                                                          . .
                                                                       In Salah

                                                                                                                                    Murzuq
                                                              ALGRIA                                                                                     LBIA

                                                                                                                     Ghat
                                                                                                                               FEZZAN
                                                           Wallen




                                                                                                                                                                                             frica do sculo xvi ao xviii
Figura 9.1    A Arglia, a Tunsia e a Lbia do sculo XVI ao XVIII.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                      283



populaes ainda submetidas ao imposto  e s depredaes cometidas pelos
nmades.
    Os nmades, com efeito, se libertavam do jugo estatal e estendiam seu
empreendimento e seu modo de vida pastoral-guerreiro na maior parte do
pas: eles se aproveitavam do vazio criado pelo despovoamento e da fraqueza
da valorizao agrcola, bem como empregavam a violncia para subsistir,
tirando complementos alimentares das comunidades mais fracas do que
eles. O fato  que as zonas de culturas sedentrias se retraram diante da
ofensiva deles. Chegou-se ao limite de haver campos de cereais de tama-
nho extremamente reduzido, cultivados em claustros cercados de muralhas.
Leo, o Africano, que os observou nos arredores de Tnis, conclua: "Pense
na quantidade de gros que se pode tirar de um pequeno claustro murado,
mantido com tanto cuidado e trabalho! [...] Ningum colhe dele o bastante
sequer para meio ano5."
    Nesse contexto comeou o naufrgio dos Estados multisseculares dos zayya-
nides (ou Banu Abd al-Wadid) em Tlemcen e dos hafside em Tnis. Seus recur-
sos diminuram em consequncia da desorganizao do comrcio e da reduo
do volume de bens tributveis. A ineficcia das tropas, bem como da burocracia,
j negligenciadas, aumentou ainda mais; a isso se juntavam os efeitos das con-
cesses (ikta) de terras ou impostos, concedidos pelos soberanos empobrecidos
aos poderosos grupos guerreiros. Logo, as cidades mais ou menos afastadas do
centro do poder iam conseguir sua autonomia (Trpoli, Bugia, Constantina
no caso do reino hafsida), e os grandes grupos conseguiriam reinar de forma
absoluta nos espaos por eles dominados. O Bilad al-Makhzen (pas submetido
 autoridade estatal) se reduziu progressivamente a uma rea mais ou menos
restrita ao redor da residncia do sulto, alm de algumas ilhotas de obedin-
cia um pouco mais afastadas. E mesmo assim a insegurana era grande nesses
lugares: o sulto hafsida devia defender a si mesmo, de armas em punho, com
suas tropas ameaadas por nmades, quase sob os muros de sua residncia, no
incio dos anos 40 do sculo XVI6.
    O domnio dos zayyanide em Tlemcen a partir do sculo XV e dos hafsidas
em Tnis e no leste do Magreb, por volta de 1530, j estava bem abalado quando
os espanhis e os otomanos puseram os ps em suas terras.




5    J. Leon, o Africano, 1956, vol. II, p. 383.
6    Ibn Abi Dinar, 1967, p. 169.
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      A interveno estrangeira no Magreb central e oriental
    O vazio poltico ou a baixa resistncia magrebina explica seguramente que
essa interveno tenha acontecido; tal interveno, porm, respondia antes de
tudo s necessidades ou desejos dos conquistadores. Suas iniciativas devem ser
colocadas no contexto das paixes religiosas da poca: o esprito de cruzada
entre os espanhis, que acabavam de sair da reconquista de sua terra; a defesa de
Dar al-Islam, associada ao ideal de conquista (o do ghazi)7, entre os otomanos.
As reas costeiras magrebinas ofereciam, alm do mais, um interesse estratgico
certeiro aos dois protagonistas, fosse para proteger suas prprias posses dos
assaltos dos adversrios (que podia contar com a cumplicidade das minorias
religiosas: muulmanos da Andaluzia, cristos dos Blcs), fosse para servir de
bases quando de uma eventual ofensiva8. Sublinhemos tambm que o incio da
ofensiva hispnica no Magreb, a partir de 1505, ocorreu logo aps as primeiras
levas de metais preciosos da Amrica, em 1503-15049, que davam aos espanhis
os meios de conduzir uma vigorosa poltica de expanso.

      Os espanhis no Magreb central e oriental
    De 1505 a 1574, os reis da Espanha realizaram esforos repetidos para
assegurar pontos de apoio nas costas magrebinas: basta lembrar das grandes
expedies de Pedro Navarro em 1505-1511 (contra Or, Bugia e Trpoli), as
do Santo Imperador romano em 1535-1541 (contra Tnis e Argel), enfim as
de Dom Joo da ustria que retomou Tnis dos turcos em 1573 (dois anos
aps sua grande vitria de Lepante contra a frota turca). Os resultados foram
contudo limitados, pois a conquista do interior do Magreb e a converso dos
indgenas se mostraram rapidamente impossveis. Os espanhis contentaram-
-se em ocupar algumas cidades ou presdios (Or, de 1509 a 1708, depois de
1732 a 1792, Trpoli, de 1510 a 1551) e edificar algumas poderosas fortalezas
em terra africana, como o Peon, na entrada de Argel (de 1511 a 1529), ou
La Goulette, no anteporto de Tnis (de 1535 a 1574). Nesse ltimo caso,
tratava-se de manter a cidade sob tutela e, principalmente, vigiar a margem
meridional do estreito da Siclia.
    Essa poltica de ocupao restrita deve ter sido completada pela busca cons-
tante de aliados ou protegidos locais. Os mais clebres foram os sultes hafsi-

7     A. Temini, 1978; K. R. Sahili, 1977.
8     F. Braudel, 1928 e 1935.
9     H. Chaunu e P. Chaunu, 1955, vol. VIII, cap. 2, p. 14 e segtes.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                      285



das, praticantes de um sutil jogo de gangorra entre espanhis e muulmanos a
partir de 1535: o ltimo sulto, Muhammad (1573-1574), at mesmo aceitou
dividir seu poder em Tnis com o comandante cristo da capital. Exatamente
como os hafsidas, os ltimos zayyanide de Tlemcem contraram uma aliana
intermitente com os espanhis, at a tomada de sua capital pelos turcos e seu
desaparecimento final em 1551-1554. Os ibricos tampouco desdenhavam a
aliana dos chefes de menor importncia, tais como os shabbiya, mestres de
Kairu e da Tunsia central, por volta de 1550, ou os banu amir e banu rashid
na regio de Or.
    Mas, de uma maneira geral, a barreira religiosa e cultural era tamanha que
nenhuma aproximao duradoura entre os espanhis e os chefes locais era pos-
svel. Foi exatamente disso que se aproveitaram os turcos muulmanos.

    Os otomanos em luta contra os espanhis
    Os primeiros turcos a conduzir a luta contra os cristos no Magreb foram os
ra`is corsrios. Eles agiram a princpio por conta prpria, mas em acordo com
os soberanos locais e com a cumplicidade da populao, como os irmos Barba
Ruiva, Urudj (ou Arrudj) e Khidhr (ou Khayruddin), dos primeirssimos anos
do sculo a 1519. Por volta dessa data, depois da derrota e morte de Arrudj,
Khayruddin apelou para o sulto otomano, cuja suserania ele reconheceu: era o
incio das Regncias (iyala) magrebinas (ou barbarescas).
    Graas aos janissrios e aos armamentos fornecidos por Istambul, a Arglia
foi progressivamente submetida por Khayruddin, depois por seus sucessores,
particularmente Salah Rais (1552-1556) e o todo-poderoso beylerbey dos odjak
do oeste, Killidj, ou Ildj Ali (1568-1587). O leste da Ifrikiya foi o teatro de
um longo duelo hispano-turco por cerca de quarenta anos (1534-1574), onde
intervieram ativamente  mas nem sempre  sua vantagem  soberanos hafsidas
e chefes locais, como os Shabbiya de Kairu, e onde se ilustraram prestigiosos
corsrios tais como Torgut, ou Dragut (em meados do sculo e at sua morte
em Malta, em 1565). As principais etapas da conquista turca no leste do Magreb
foram a tomada de Trpoli, em 1551, de Kairu, em 1557, de Djerba, em 1558
e, enfim, de Tnis por duas vezes, em 1569 e 1574. Depois dessa data, tanto os
espanhis quanto os otomanos foram chamados a outros teatros de operaes
e a situao estabilizou-se em proveito dos turcos, permanecendo senhores do
Magreb central e oriental, exceto pelo enclave de Or, Mers-el-Kebir (Marsa
el-Kebir), e da ilhota de Tabarka.
286                                                          frica do sculo xvi ao xviii



      A organizao das Regncias otomanas
    Provncias militares descentralizadas, os "odjak ocidentais"  como eram cha-
madas as novas provncias africanas  nunca foram perfeitamente integradas ao
sistema poltico-militar otomano: sem tributo regular, nem administrao direta
da parte da metrpole, sem introduo de instituies caractersticas da Europa,
como a dos timar (feudos), na frica do Norte. Inicialmente dependentes de um
nico chefe de guerra, o beylerbey de Argel, as trs Regncias magrebinas foram
diferenciadas aps a morte do onipotente Killidj, em 1587.
    Cada provncia era confiada a um pax, nomeado por Istambul e assistido
pelo Diwan (conselho dos oficiais superiores turcos). A milcia dos janissrios,
composta de alguns milhares de homens, assegurava a defesa do pas, man-
tendo a um mnimo de ordem, desempenhando um papel ativo na coleta de
impostos e no funcionamento da "administrao". Tal milcia constituiu desde
o incio o pilar central do novo regime, e seus membros instalaram-se como
senhores e proprietrios nos territrios conquistados por eles. A esse corpo
dos janissrios estavam associados os corsrios: vindos do arquiplago grego,
da Albnia ou de pases europeus prximos (Itlia, Provena, Espanha...) todos
convertidos ao isl (mais ou menos sinceramente para alguns), esses corsrios,
assim como seus homlogos da milcia, eram uniformemente tomados por
turcos e assimilados  casta dos conquistadores de cujo estatuto privilegiado
eles partilhavam.
    O Makhzen (a administrao) preenchia algumas funes relativamente
simples: a coleta dos impostos destinados a cobrir os custos da guerra e a
manuteno do corpo dos conquistadores instalado no pas; a manuteno da
ordem pblica e o exerccio da justia, ao menos nas cidades habitadas pela
populao sedentria submetida; o servio postal. Uma pequena equipe de
escribas (khudja) e de contadores, alguns altos personagens polticos (inclusive
o pax) ou religioso (dos quais o kadi, ou magistrado, fazia parte) e, principal-
mente, militares de todas as patentes preenchiam essas mltiplas tarefas. Com
o tempo, o Makhzen teve de recrutar auxiliares no pas: soldados, como os
kabilas, ou cavaleiros indgenas admitidos a servio dos turcos; civis como os
escribas rabes, os conselheiros de todo tipo, os intendentes ou os camponeses
sujeitos ao imposto (lazzam) etc.
    No restante, as instituies locais continuaram a reger a sociedade, exceto por
interveno ocasional dos novos proprietrios. Citemos o caso das comunidades
locais que continuaram a obedecer a seus prprios chefes eleitos (shaykh) e a seus
costumes (urf). Lembremos-nos tambm do caso das instituies religiosas que
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                        287



no pararam de prover a justia (exceto por atentado grave  ordem pblica ou
negcio implicando os turcos), de assegurar o culto, de dispensar o ensino e de
praticar a caridade.
    Ainda que leve e rudimentar, a nova organizao otomana trazia ao Magreb
aquilo de que ele mais precisava, ou seja, a adaptao  sua poca, a dos tempos
modernos: um exrcito disciplinado manejando armas de fogo, uma adminis-
trao relativamente centralizada, a drenagem de uma parte dos fluxos mone-
trios circulando pelo Mediterrneo por meio dos corsrios. O novo regime
foi geralmente bem recebido pelas cidades, diretamente expostas aos ataques
cristos e ameaadas de asfixia pela autonomia encontrada no campo. Tambm
o foi igualmente pelos homens de religio, particularmente os ulama, partid-
rios de um poder forte. Enfim, alguns puseram-se a seu servio por interesse,
escolha ou tradio, tais como a elite urbana, grandes personagens rurais e
algumas comunidades (makhzen). Contra os turcos se ergueram todos os que
haviam aproveitado da liberdade do incio do sculo XI: as comunidades rurais
que dispunham de sua prpria organizao social e guerreira e que encontravam
em seus novos senhores apenas a dura servido e a pesada explorao. Tambm
foi necessrio aos turcos longas guerras para submeter o interior do pas (ao
menos as regies interessantes) e para a implantar campos armados (mahalla)
permitindo-lhes a cobrar impostos e impor um mnimo de ordem. Eles se tor-
naram tambm mestres na arte de jogar uma saff (confederao) contra outra.
No tendo o poder de assegurar sua empreitada na regio apenas pela fora
das armas, a diplomacia tornava-se em suas mos um poderoso instrumento
de coero.


    O sculo XVII magrebino: em busca do equilbrio
    Pouco modificada em seu conjunto pelo episdio otomano, a sociedade
magrebina recuperava-se pouco a pouco, no sculo XVII, da crise do sculo
precedente; suas cidades costeiras at obtiveram algum impulso e a situao
de sua populao sedentria tambm possivelmente melhorara. Ela no estava,
porm, ao abrigo de graves crises (epidemias, fomes, guerras civis) vividas espo-
radicamente. A classe dirigente turca sofria algumas transformaes internas
em funo da entrada de novos elementos em seu seio, como tambm de seu
relativo enraizamento no Magreb. Entre os governantes e os governados, os
interesses, os horizontes e as perspectivas diversificaram-se, e as lutas, longas
e complicadas, multiplicaram-se entre faces opostas ao longo de todo esse
288                                                                                      frica do sculo xvi ao xviii



sculo. Na rea das relaes exteriores, alguns problemas ampliaram-se, notada-
mente o das relaes com a metrpole, Istambul, e o dos corsrios barbarescos,
em seu apogeu entre 1600 e 1650. O afastamento aumentava entre as Regncias
na medida em que sua evoluo poltica seguia orientaes divergentes.


      A sociedade do Magreb otomano no sculo XVII
    A frica do Norte otomana compreendia os grupos scio-econmicos seguin-
tes: os citadinos, os camponeses da periferia, os camponeses semi-sedentrios
praticando a pastagem migratria de um a trs meses por ano, os pastores nma-
des viajando longe de seu watan (terra natal), os cameleiros nmades do grande
deserto e os habitantes sedentrios dos osis. As principais camadas urbanas
compreendiam os notrios, religiosos e mercadores, os trabalhadores, os kulughli
(prsperos descendentes de imigrantes otomanos casados com autctones), os
militares otomanos e os funcionrios imperiais civis.
    A populao rural era dividida em kabila10, comunidades certamente perten-
centes a uma mesma linhagem patrilinear. A genealogia servia para justificar
os motivos e modalidades da atribuio e da gesto dos negcios de diver-
sos pequenos grupos a um xeique eleito, assistido por um conselho informal,
composto pelos chefes das pequenas kabila. Acima das kabila, encontrava-se o
saff (pl. sufuf), confederao formada por alianas entre as kabila. Assim eram
formadas unies estveis, fossem elas estabelecidas no seio de uma mesma rea
ecolgica, fossem elas reunindo comunidades de esferas ecolgicas e econ-
micas diferentes, como cameleiros, pastores, agricultores semi-sedentrios e
grupos urbanos. Alguns grupos territoriais elaboraram estruturas hierrquicas
centralizadas durveis, tais como os grandes principados tuaregues (grupos de
obedincia amenokal). Alianas eram igualmente feitas entre kabila com base
na frequentao de um mesmo santurio ou na adeso a uma mesma turuk
(confraria).
    Os historiadores teriam ento errado ao verem nessa populao rural um
mosaico de grupos e de faces cuja rebelio ou submisso aos otomanos resul-
taria da nica vontade de cada um deles. Foi, ao contrrio, a dinmica das muta-
es ecolgicas e das mudanas de unio das sufuf que determinou a atitude de
rebelio ou de cooperao dos grupos. Ademais, a existncia das sufuf significa
que um sistema poltico nico funcionava em vastas extenses do Magreb. A

10    Kabila (plural kabail). Na Histria geral da frica, o plural se escreve kabila.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                          289



poltica urbana s entrava com uma parte muito modesta nesse contexto mais
amplo. Havia, frente  oposio das siba (blocos dissidentes), grandes blocos
aliados ou submissos ao Makhzen.
    O sculo XVII distingue-se dos sculos precedentes por essa melhoria da
estabilidade territorial e pela diminuio concomitante dos tumultos, ao menos
nas regies bem irrigadas do Magreb, graas a um Makhzen novamente con-
solidado e ao sistema do saff.
    Ainda que a maior parte da populao dos campos falasse rabe, restavam
vrias comunidades berberfonas, frequentemente ainda ibaditas. Elas viviam em
regies onde encontraram refgio, como as montanhas do Djabal Nafusa tripoli-
tano, as do Awras e da grande Cablia, no Magreb central e, a oeste, as montanhas
do Atlas e do Rif. As comunidades berberes distinguiam-se das comunidades
rabes pelo constante sucesso de seus atos de resistncia contra os otomanos. Isso
se devia  dificuldade de acesso s reas nas quais elas se refugiaram e a seus sis-
temas aperfeioados de defesa. Um tal sucesso permitiu-lhes ficar muito atrelados
s diversas formas da cultura berbere. Elas no abriram mo de sua atitude de
desafio a respeito das novas autoridades otomanas, conservaram sua identidade
berbere e, no conjunto, salvaguardaram sua autonomia, recusando-se, por exemplo,
a pagar o imposto. Aquelas que no puderam manter sua autonomia foram ara-
bizadas. Observemos, contudo, que algumas regies superpovoadas, notadamente
a Cablia, tornaram-se reas de recrutamento de soldados regulares a servio de
Argel ou de Tnis (os clebres zwawa) e, talvez tambm, zonas de disperso de
operrios sazonais e vendedores ambulantes rurais (a emigrao da mo de obra,
testemunhada no sculo XIX, certamente j existia anteriormente).
    As reas rurais (Sael tunisiano, por exemplo), os osis meridionais, as regies
produtoras de trigo sob controle urbano (regies do hanshir tunisiano e dos
haush argelinos), as plancies cercando as cidades (Sael de Argel e Manshiya de
Trpoli, por exemplo), eram lugares habitados por uma sociedade bem diferente
daquela das comunidades montanheiras. Seus membros levavam uma existn-
cia sedentria. Algumas ligaes comerciais colocavam-nos em relao com o
mundo exterior, beneficiavam-se de um regime de propriedade fundiria (milk)
solidamente estabelecido ou mais bem definido do que o dos montanheiros e
sofriam a influncia da economia e da cultura urbanas, todos aspectos que suge-
rem a existncia de estruturas sociais e relaes sociais complexas, de mentalida-
des e de comportamentos mais prximos dos urbanizados que dos bedunos. A
onipresente linhagem patrilinear se duplicava em relaes hierrquicas parecidas
com as que ligavam o proprietrio dos meios de produo ao khamma (meeiro
cujo aluguel representa um quinto das colheitas) nas grandes regies cerealistas;
290                                                         frica do sculo xvi ao xviii



algumas especialidades apareciam (funes artesanais, religiosas ou administra-
tivas) nessa sociedade; os valores urbanos, tais como a submisso  autoridade
propagavam-se a mais facilmente do que em meio montanheiro e a influncia
do direito escrito  essencialmente cannico  fazia-se sentir mais nitidamente
a. Esses traos, manifestamente estruturais, tiveram de ser acentuados no sculo
XVII (e ainda mais no sculo seguinte) com a melhoria, modesta, porm real,
da segurana, a consolidao da sociedade urbana, a extenso de sua influncia
e, enfim, o estabelecimento de relaes com os Estados mercantilistas europeus:
essas relaes devem ter favorecido a extenso das culturas de exportao e do
sistema econmico-social subjacente a tais culturas, particularmente nas grandes
reas cerealistas cultivadas pelos khamma.
    Quanto aos osis, graas a seu afastamento do mar e dos poderes centrais,
bem como  manuteno das trocas por caravanas com a frica profunda ou
com o Oriente, eles abrigavam sociedades muito homogneas das quais emer-
giam oligarquias ou dinastias locais de poder bem afirmado, tal como as dos
Fasi no Fezzan.
    As cidades, por seu lado, por menos prestigiadas que fossem diante das do
Oriente rabe ou muulmano, no deixaram de afirmar sua presena e influncia
no conjunto magrebino. Tratava-se de capitais costeiras como Argel, Tnis e
Trpoli, mas tambm das antigas metrpoles, como Kairu, Constantina e Tle-
mcen. Herdeiros de venerveis tradies ou estimulados por novas descobertas,
o comrcio e o artesanato fortaleceram-se de novo a partir da primeira metade
do sculo XVII. Observemos, a ttulo de exemplo, o impulso da indstria da
chechia (bon de l vermelha) em Tnis, graas  chegada dos muulmanos ou
mouriscos expulsos da Espanha depois de 1609, e da indstria txtil de luxo
na maior parte das cidades magrebinas. Quanto ao comrcio, foi favorecido
principalmente nas cidades costeiras, a princpio pelas atividades corsrias e os
produtos e o dinheiro que trazia, depois pelos laos estabelecidos com o capita-
lismo mercantil europeu, essencialmente a partir do sculo XVII. O Ilm (saber
religioso) impulsionava uma retomada progressiva depois da crise do sculo
XVI, graas  relativa prosperidade material das cidades, traduzida pelo aumento
do nmero dos wakf (fundaes religiosas). Essa retomada devia-se igualmente
s novas autoridades turcas que concederam, em prioridade, sua proteo aos
sbios hanefitas de rito semelhante ao seu, mas tambm aos malekitas locais,
por razes talvez mais temporais do que espirituais (busca de legitimao de seu
poder extrnseco e em grande parte militar).
    A classe dirigente situava-se no topo da hierarquia poltica e social. Cons-
tituda em princpio por elementos turcos militares, ela se abriu de fato a
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                              291




Figura 9.2 Vaso de terracota do sculo XVII, destinado a conter leo e outros lquidos, proveniente do
distrito de Kallalina, em Tnis. Altura: 45 cm [ Museu das artes africanas e ocenicas, Paris. Foto: R.
Chuzeville].
292                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




Figura 9.3 Alade (ud) de fabricao tunisiana, de onze cordas e bojo de melo, de tipo egpcio, com um
corpo ovide de madeira colada e incrustaes de madreprola. Comprimento: 81 cm [ Coleo Museu do
homem, Paris. Foto: D. Ponsard].



outras categorias. Foram a princpio os cristos convertidos ao isl, inva-
riavelmente chamados de turcos a despeito de nomes como francis, ingliz,
kursu (corso), sardu (sardo) e outros nomes. Tudo indica que chegaram a seu
apogeu na primeira metade do sculo XVII, em sua qualidade de introdutores
da modernidade e da tcnica europeias, principalmente em matria militar e
martima. Eles desempenharam um papel muito ativo no apenas nessas reas
(como capites corsrios em particular), mas tambm nos diversos postos
polticos e administrativos (viu-se at mesmo um deles se tornar dey, chefe
da milcia turca, nos pases tunisiano e tripolitano na poca). Nessas duas
Regncias, os turcos legaram bem cedo a seus filhos nascidos de mulheres
autctones (os kulughli) os encargos e os privilgios que lhes estavam reserva-
dos, considerando-os completamente turcos. Mais exclusivistas, os turcos de
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                        293



Argel recusaram-se a faz-lo e provocaram por isso uma grave insurreio dos
kulughli que terminou com a derrota destes e sua excluso total do sistema, ao
menos entre aproximadamente 1630 e 1680.
   Outra diferena no nvel da classe dirigente entre Argel e as outras duas
Regncias consistiu, nestas duas ltimas, na integrao progressiva de alguns
autctones como conselheiros, secretrios, kaid-lazzam (fazendeiros submeti-
dos a impostos) e mesmo comandantes das foras militares recrutadas no pas,
enquanto em Argel, a excluso dos autctones continuou sendo a regra. Em
poucas palavras, a classe dirigente estimulou, no sculo XVII, uma aproximao
com as elites locais da Tunsia e da Tripolitnia, enquanto estabeleceu selva-
gemente sua posio de estrangeira em Argel. Como explicar essa diferena?
Resultava essencialmente da fora ou da fraqueza das elites locais: poderosas
em Tnis graas a suas tradies histricas e a suas atividades, fortes em Trpoli
graas ao grande comrcio, elas no estavam solidamente implantadas em Argel,
cidade nova, criada praticamente pelos turcos, no sculo XVI.

    Os regimes polticos nas Regncias no sculo XVII
   A princpio provncias otomanas, as trs Regncias adquiriram uma ampla
autonomia frente  metrpole desde o incio do sculo XVII, mais por causa da
incapacidade de Istambul do que pela vontade de independncia das provncias.
Mas, alm desse trao comum, elas tiveram uma evoluo divergente no sculo
XVII, explicada pela diferena de composio de suas classes dirigentes e de
suas sociedades.
   Foi em Tnis que houve a mais rpida evoluo. Desde cedo desprovido de
todo poder real pelos oficiais superiores da milcia reunidos no diwan, o pax
tunisiano foi contudo mantido como smbolo da lealdade otomana. Mas, em
1591, esses oficiais superiores, por sua vez, tiveram de ceder o lugar, no seio
do diwan, aos representantes dos janissrios. O regime de democracia militar
assim instaurado no durou muito tempo: desde 1598, o chefe nico turco 
o Dey  confiscou todos os poderes e instaurou um regime autocrtico que
tentou manter o equilbrio entre os interesses da casta turca e das autoridades
locais. Por volta de 1630, emergiu uma nova autoridade no pas, a do bey, ou
comandante das tropas do interior. Exercida por um mamluk (livre) de origem
genovesa, Murad, essa funo permitiu a seu titular conquistar o interior do
pas s custas das grandes confederaes at ento independentes. Dispondo
dos recursos do interior do pas e de foras militares, em parte turcas, em
parte recrutadas dentre os autctones, contraindo aliana com as autoridades
294                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



locais, o Bey consolidou pouco a pouco sua posio, concentrou o poder no
seio de sua famlia (a dinastia muradita) e empreendeu uma verdadeira pol-
tica monrquica, conforme as tradies do pas e os interesses das autoridades
locais. Ele conseguiu derrotar seu rival, o Dey, chefe da milcia turca, notada-
mente no decorrer do conflito armado de 1673. Mas o triunfo muradita durou
pouco: a crise geral do fim do sculo XVII, o enfraquecimento da milcia turca
que fora o mais eficaz instrumento de unificao, as lutas internas entre beis
rivais, as intrigas ou intervenes de Argel e, enfim, a reao pr-turca de um




Figura 9.4 Vista da cidade e do porto de Trpoli. Gravura francesa do sculo XVIII, de F.A. Aveline. [
Biblioteca Nacional de Paris].



oficial superior da milcia acabaram, em 1702, com essa primeira experincia
de monarquia "seminacional".
   Em Trpoli, a mesma evoluo foi esboada, mas com algum atraso: nomea-
o de um dey em 1603-1604, poltica anloga  dos muraditas tunisianos entre
aproximdamente 1630 e 1672, preponderncia dos beis, notadamente na poca
de Murad al-Malti entre 1679 e 1686, vitria final do bey kulughli, Ahmad
Karamanli, em 1711. Essa evoluo rumo a um regime monrquico melhor inte-
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                               295



grado ao pas foi contudo bloqueada ou atrasada, em Trpoli, por vrios fatores:
as intervenes intempestivas de Istambul, tentando retomar o poder efetivo
no pas (por volta de 1610 e 1689), o alto poderio das confederaes bedunas
(Mahamid, Tarhuna e outras), poupadas pelo poder turco de Trpoli em razo
da incapacidade em destrui-las, a autonomia sempre combatida, mas sempre
reconquistada, das provncias oriental (Benghazi) e meridional (Fezzan), enfim
a prpria modstia dos recursos do pas. O poder dependia definitivamente de
um equilbrio entre turcos e autoridades urbanas (essas ltimas enriquecidas
pelo controle do grande comrcio de caravanas e o artesanato), entre interesses




Figura 9.5 Vista da cidade e do porto de Argel. Gravura francesa do sculo XVIII, de F.A. Aveline.
[ Biblioteca Nacional de Paris].



martimos e terrestres, entre cidades e grandes kabila, entre centro e provncias.
Desse frgil equilbrio nascia a instabilidade.
    Foi em Argel que o regime conservou de forma mais duradoura suas caracte-
rsticas originais de provncia militar turca. O pax manteve a uma parte de suas
prerrogativas at 1659, ano em que o diwan dos oficiais superiores da milcia
(os agha) tomou o poder. No por muito tempo, pois um dey, representante a
princpio dos rais (capites) corsrios e em seguida dos janissrios, conseguiu
296                                                         frica do sculo xvi ao xviii



tom-lo depois de 1671. Mas seu poder permaneceu precrio, exposto ao humor
do exrcito, aos conflitos entre cls ou aos acasos da conjuntura: de 1671 a
1710, nada menos que onze dey ocuparam o cargo supremo; a maioria deles foi
derrubada e morta quando das revoltas de janissrios. Surgiu ento um regime
militar, democratizando-se ao longo de todo o sculo XVII, porm unicamente
em proveito dos mebros de base da casta turca, por falta de um grupo forte de
autoridades locais  os citadinos  que pudesse exercer sua influncia sobre o
regime poltico como em Tnis ou mesmo em Trpoli. Esse regime no escapou
contudo  necessidade histrica de concentrao do poder nas mos de um dey,
mas ele s conseguiu se livrar das tendncias igualitrias ou aristocrticas da
casta turca tardiamente no sculo XVIII.
    Ao excluir as autoridades do pas (em Argel) ou ao associ-las pouco a pouco
ao exerccio e s vantagens do poder, as Regncias permaneceram prximas a
Istambul. Sua poltica frente s comunidades rurais foi rigorosssima, funda-
mentada em grande parte no uso das foras armadas e visando pressionar os
sujeitos tanto quanto permitisse sua capacidade de contribuio ou seu poder
de resistncia. Nota-se, contudo, que desde o sculo XVII, a classe dirigente
comeou a usar certas foras locais  apoiando-se em alianas com grupos ou
em chefes locais  para impor sua dominao, ao menos em Tnis. Dito isso, de
uma forma geral, as relaes de fora continuaram a predominar sobre qualquer
outra poltica, da a propenso dos bedunos  revolta, seu apoio quase espont-
neo a qualquer pretendente ao poder e a instabilidade, em definitivo, dos regimes
magrebinos no sculo XVII.
    Foram essencialmente os recursos externos das trs Regncias que lhes per-
mitiram sobreviver e obter certo xito.

      Os ganhos externos: atividades corsrias e comrcio
   Uma certa historiografia colonial reduziu abusivamente a histria dos pases
magrebinos, na poca moderna,  das atividades corsrias associadas  pirataria.
A deformao  manifesta na medida em que as atividades corsrias, to distante
da pirataria quanto a guerra terrestre do banditismo, apenas interessaram uma
pequena parte da sociedade magrebina, tambm na medida em que elas tiveram
de contar, na segunda metade do sculo XVII, com os interesses mercantis dos
grandes Estados europeus e de seus aliados locais. O que exatamente ocorreu
com essas atividades corsrias e esse comrcio?
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                        297



     As atividades corsrias magrebinas no sculo XVII
    Herdeira das grandes lutas conduzidas pelos otomanos contra seus ini-
migos cristos no sculo XVI, as atividades corsrias tornaram-se o apangio
das Regncias turcas magrebinas depois de a Turquia ter feito a paz com os
espanhis no Mediterrneo e de as provncias otomanas do Ocidente terem
adquirido sua liberdade de ao. As atividades corsrias continuaram a ser orga-
nizadas ou estreitamente controladas pelos diversos Estados magrebinos e seus
principais dignitrios: elas obedeciam a certas regras, ainda que estas fossem
frequentemente transgredidas no decorrer de aes, por definio aventureiras
e violentas. Praticadas, em seu proveito, essencialmente por turcos, albaneses
ou cristos convertidos, elas continuaram sendo o monoplio de uma frao da
classe dirigente otomana; uma boa parte dos materiais, assim como a maioria
das tcnicas usadas para a construo dos navios vinha do estrangeiro. Por isso
as atividades corsrias sempre apareceram como atividades marginais, seno
estrangeiras, na vida magrebina de ento  ainda que os proveitos delas tirados
fossem altos e seu peso poltico e militar, importante. Sua finalidade era mlti-
pla: guerra santa por excelncia, elas contribuam para justificar a conquista e o
poder turcos nas Regncias; trazendo grande lucro dos resgates de escravos e das
tomadas de barcos cristos, tais atividades mostraram-se extremamente lucra-
tivas para os armadores e os corsrios implicados, para os Estados beneficirios
de uma parte substancial dos lucros e, indiretamente, para o conjunto da popu-
lao dos portos corsrios envolvidos nesse trfico peculiar; enfim as atividades
corsrias contribuam para fazer temer os Estados nelas implicados, em funo
dos prejuzos que podiam infligir ao comrcio dos grandes Estados europeus.
     evidente que a importncia das atividades corsrias variou muito de uma
poca a outra. Com sua crescente autonomia nas Regncias a partir dos anos
1580, ela aproveitou-se,  sua maneira, da prosperidade do Mediterrneo do fim
do sculo XVI e do incio do seguinte, para depois atingir incontestavelmente
seu apogeu graas as guerras europeias da primeira metade do sculo XVII.
Aperfeioando sua frota pela adoo de navios arredondados e de barcos do
tipo Berthon (graas ao apoio interessado dos holandeses, ingleses e outros),
as Regncias puderam constituir frotas considerveis Por volta de 1610-1630,
Argel teria mantido cerca de 80 navios e Tnis de 30 a 40 embarcaes de todos
os tamanhos11. A segunda metade do sculo testemunhou o declnio irreversvel
das atividades corsrias magrebinas com o crescimento do poder de fogo das


11   P. Grandchamp, 1937.
298                                                           frica do sculo xvi ao xviii



frotas europeias e o progresso do mercantilismo das grandes potncias crists.
A partir dos anos 1680, a Frana e a Inglaterra impuseram s Regncias o
respeito por sua marinha e seu comrcio; as atividades corsrias mantiveram-se
ento contra os nativos das pequenas potncias crists, com o consentimento
tcito ou incentivos secretos das grandes que a viam um meio de eliminar a
concorrncia de seus rivais de menor importncia (os italianos, os espanhis...).
Era preciso doravante circunstncias excepcionais como as guerras europeias
(particularmente as do fim do sculo XVIII e do incio do sculo XIX) para
que as atividades corsrias magrebinas pudessem retomar realmente, mas tem-
porariamente, sua liberdade de ao.

      O progresso do comrcio euromagrebino no sculo XVII
    Pode parecer paradoxal falar de progresso do comrcio no decorrer do sculo dos
corsrios. De fato, estes nunca atravancaram totalmente as transaes pacficas, por
um lado, e seu declnio acelerou-se desde a segunda metade do sculo XVII, por
outro lado. Essa mudana seria devida, em primeiro lugar,  influncia dos grandes
Estados europeus adeptos do mercantilismo e capazes, a partir de um certo momento,
de impor suas vises aos dirigentes magrebinos. Estes, por sua vez, dividiam-se em
uma faco militar (ainda preponderante em Argel) e uma faco civil, favorvel ao
comrcio, dominando sua rival, essencialmente em Tnis (no decorrer do ltimo tero
do sculo XVII).  nessas circunstncias que as relaes comerciais com a Europa se
firmaram, com novas bases e em proveito de novos parceiros.
    O comrcio de trnsito tradicional declinou fortemente, exceto no que con-
cerne as relaes transaarianas atravs da Tripolitnia (de um lado, mercadorias
europias tais como metais, sal etc., do outro, p de ouro, escravos, plumas de
avestruz, sene) e exceto pela venervel e imponente caravana de peregrinos entre
o sul marroquino e Meca que passava pelos osis argelinos e tunisianos, e pelas
etapas tripolitanas e egpcias. Fora essas excees, as trocas comerciais martimas
impostas pelos Estados europeus, essencialmente em seu proveito, dominavam
tanto em quantidade quanto em valor.
    Os produtos agrcolas magrebinos ocupavam um lugar cada vez mais impor-
tante nas exportaes para a Europa: os cereais, em particular, gozavam de
uma demanda cada vez mais sustentada por parte das provncias meridionais
da Europa ocidental. Em funo dessa demanda e para resolver uma situao
financeira difcil, os Estados magrebinos participaram ativamente do comrcio
de exportao de produtos agrcolas, fosse colhendo alguns (os cereais, por
exemplo), fosse, para alguns dentre eles, assinando contratos de exclusividade
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                        299



com os lazzam (caso tpico dos couros pelos quais os judeus de Livorno garan-
tiram para si o monoplio de compra e de exportao desde o fim do sculo
XVII em Tnis), fosse retirando fortes taxas dos produtos rurais de exportao
(a teskere, ou licena de exportao, constitua o meio de taxao mais corrente).
Os produtos artesanais vinham em segundo lugar nas mercadorias exportadas,
mas iam principalmente para pases muulmanos: chechias de Tnis, produtos
txteis de luxo, couros trabalhados.
    Dentre as importaes, alm dos inevitveis produtos de luxo destinados a
uma elite restrita, encontravam-se os instrumentos destinados a garantir o con-
trole do interior do pas, como as armas (a despeito das proibies oficiais), as
moedas, o papel para escrever e, enfim, certos produtos destinados ao artesanato
local (em Tnis, as ls e as matrias tintureiras para as chechias dominavam as
importaes de valor no fim do sculo XVII).




Figura 9.6 Leno bordado argelino, em musselina, seda natural e
fios de ouro e prata, datando do fim do sculo XVII ou XVIII
[ Reunio dos museus nacionais].
300                                                                          frica do sculo xvi ao xviii




Figura 9.7 Cofre de casamento do sculo XVIII proveniente da Cablia, na Arglia (kabila de Aghil-Ali),
de madeira de cedro, lato e ferro. Comprimento: 198 cm [ Museu das artes africanas e ocenicas, Paris.
Foto: R. Chuzeville].



    Incontestavelmente, os principais beneficiados com essas relaes comerciais
eram os Estados europeus, seus mercadores e transportadores, sob a iniciativa
dos quais eles se estabeleceram. As grandes expedies navais dos anos 1670 e
1680 propunham-se essencialmente a reduzir as atividades corsrias e a assentar
o comrcio europeu em bases confortveis: segurana dos cristos garantida,
reduo dos direitos de importao (para 3% ad valorem para os ingleses, depois
para os franceses), possibilidade de fazer sair os produtos do pas mediante certos
tributos e condies. Dava-se incio  poltica dos tratados desiguais.
    Paradoxalmente, esses tratados foram em geral aceitos pelos dirigentes
magrebinos, no apenas por medo do poder de fogo europeu, mas tambm
por interesse, visto que eles tiravam do comrcio martimo proveitos subs-
tanciais, alm da aquisio de produtos europeus e de armas permitindo-lhes
controlar o interior do pas. Alm disso, alguns grupos sociais tinham a seu
interesse: os fazendeiros sujeitos ao imposto, em relao com o comrcio euro-
peu (caso dos judeus de Livorno, por exemplo), os mercadores atacadistas, os
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                        301



fabricantes de chechias que dependiam dos cristos para as matrias-primas e
para o escoamento dos produtos acabados (o transporte rumo ao Levante era
garantido pelos europeus), enfim, talvez algumas categorias de produtores (os
oleicultores do Sael tunisiano ou os proprietrios das grandes reas produtoras
de cereais).
    evidente que essas diversas tendncias, surgidas no fim do sculo XVII,
prolongar-se-iam e confirmar-se-iam no sculo seguinte.


    O sculo XVIII: o fim de uma poca?
    Tradicionalmente, os historiadores tratam o sculo XVIII otomano como
uma poca de crise ou de acelerao do fenmeno de decadncia: em que medida
isso  verdade para as Regncias ou sandjak Ocidentais?

    As sociedades magrebinas no sculo XVIII
   Com relao  situao prevalecente no sculo anterior,  evidente que o
Magreb no registrou mudanas fundamentais: mesmos processos de produo,
mesma arquitetura social, mesmas instituies, mentalidades e hbitos inalte-
rados. Entretanto, progressos podem a ser percebidos, ao menos em algumas
regies ou em alguns grupos: extenso das culturas cerealistas nas grandes reas,
propagao da preciosa figueira da Barbria bem alm das regies de coloniza-
o andaluz onde foi a princpio introduzida. Poder-se-ia multiplicar os ndices
otimistas, mas jamais ser possvel conseguir totalizar uma soma de mudanas
ou de progressos suficientes para revirar os processos de produo e as estruturas
sociais.
   Estas ltimas conservavam seus traos distintivos herdados de um passado
distante (comunidades patrilineares majoritrias, diviso em comunidades...) ou
prximo (classe dirigente vinda do estrangeiro, hierarquia tnica nas cidades). As
nicas mudanas observveis foram introduzidas pelo servio do Estado, de um
lado, e pelo desenvolvimento do comrcio com a Europa, do outro: consolidao
de algumas famlias de autoridades locais  frente de comunidades rurais, em
alguns cargos religiosos (zawiya, confrarias distintas e honradas pelo poder),
em cargos administrativos (governos de provncias) ou venais (arrendamentos
diversos).  clebre o caso da ascenso, nos beilhiques argelinos, de algumas
famlias kughuli, como os al-Gulli de Constantina e os Bu-Shlaghim de Or;
no menos clebre  o exemplo das famlias judias argelinas de Bacri e Bush-
302                                                         frica do sculo xvi ao xviii



nak, que desempenharam um papel preponderante nas relaes de Argel com
a Europa no fim do sculo XVIII e no incio do sculo seguinte. Em Tnis, o
arrendamento (lizma) das provncias, a concesso das alfndegas etc. permitiram
a algumas famlias tornarem-se ricas e poderosas, visto que os Banu Ayyad e os
Djalluli acabaram por ceder ao Estado seus mais preciosos agentes. Alm do
mais, tais famlias e seus homlogos menos ilustres acabaram por conferir ao
Estado tunisiano uma estabilidade notvel, maior do que alhures.

      O Estado tunisiano no sculo XVIII
   No incio do sculo XVIII, a Tunsia consitua o mais afirmado e integrado
Estado do Magreb, por razes tanto geogrficas (plancies amplamente abertas
para o mar), quanto histricas (autoridades influentes nas cidades, longas tra-
dies monrquicas).
   Contudo permanecia uma provncia do Imprio Otomano, dirigida por
um veli (governador) nomeado por Istambul; a casta turca no deixava de a
exercer sua preeminncia poltica e social, e o regime continuava a se apoiar
na milcia dos janissrios e a usar a fora frente  maioria da populao. Mas
na realidade, a suserania turca tornava-se cada vez mais terica, na medida
em que o bey de Tnis gozava de uma total autonomia. A classe dirigente
otomana inclua os kulughli, totalmente integrados  sociedade local, e abria-
-se cada vez mais s autoridades locais. A milcia dos janissrios limitava-se
a um papel estritamente militar, totalmente apartado da vida poltica, e a eles
faziam contrapeso outros corpos armados recrutados no pas (awawa, spahis
"rabes", cavaleiros montanheiros). Os efeitos da poltica da fora eram final-
mente atenuados pela prtica, por parte dos beis, de alianas com as autorida-
des locais e, notadamente, os chefes religiosos, obtidas em troca de vantagens
concedidas  dinastia. Conclumos das constataes precedentes que o regime
tunisiano, no sculo XVIII, possua uma dupla natureza, explicvel ao mesmo
tempo por suas origens (conquista militar estrangeira) e por sua adaptao
progressiva ao meio das autoridades locais; essa dualidade de carter poderia
confortavelmente explicar tanto as dificuldades do regime quanto seu sucesso
posteiror, no sculo XVIII.
   Com a invaso do pas pelas tropas turcas de Argel, em 1705, um oficial
kulughli, Husayn b. `Ali, proclamou-se bey, liderou a resistncia ao invasor e,
aproveitando-se de sua vitria, eliminou seus rivais e fundou um regime semi-
monrquico durvel. Restringindo os turcos a tarefas meramente militares e seus
representantes  pax e dey  a um simples papel honorfico (mas necessrio, pois
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                           303




Figura 9.8 Placa de cermica do sculo XVIII, procedente de Kallalina, em Tnis, usada como decorao
mural interior [ Museu das artes africanas e ocenicas, Paris. Foto: R. Chuzeville].
304                                                          frica do sculo xvi ao xviii



concretizava a suserania otomana), obteve o apoio dos kulughli, dos andaluzes
e das autoridades locais, bem como conseguiu uma centralizao relativamente
avanada: no plano econmico, esta traduzia-se pela aquisio a baixos preos
dos produtos agrcolas (mushtara), dos quais uma parte era entregue aos nego-
ciantes europeus. "O bey controla o comrcio de uma forma tal que pode ser
considerado o nico mercador do Estado", escrevia, por volta de 1730, o cnsul
francs em Tnis, de Saint-Gervais, guardadas as devidas propores12.
    Entretanto, acumulavam-se as contradies: entre as tentativas de centra-
lizao e o carter principalmente fragmentrio da sociedade rural, entre o
afastamento dos turcos da vida poltica e o estatuto de provncia otomana da
Regncia, entre a economia de subsistncia e o grande comrcio ao qual estava
ligado o beilhique. Em 1728, o sobrinho do Bey Ali Basha revoltou-se: ele foi
logo seguido por uma parte do pas, ento dividido em partidrios do revoltoso
(os bayshiya ou paxastas) e em fiis do bey reinante (os husayniya ou hussei-
nistas). A crise durou at 1762. A princpio marcada pelo triunfo de Ali Basha,
de 1735 a 1756, depois por aquele dos filhos de Husayn b. `Ali, pontuada por
invases do pas por tropas de Argel enviadas em socorro de um ou outro rival,
notadamente em 1735 e 1756, a crise foi o palco de revoltas espordicas, at
1762, por parte algumas comunidades.
    A Regncia obteve novamente a paz aps essa data e at o fim de 1815,
na poca de Ali Bey (1759-1782) e de Hammadi Pasha (1782-1814). Foi uma
poca relativamente prspera, apesar de alguns flagelos como a terrvel peste de
1784-1785 e as fomes de 1777-1778 e 1804, que, todavia, s teriam restabele-
cido o equilbrio comprometido entre os recursos do pas e o volume da popula-
o. Os ganhos de origem externa aumentaram consideravelmente, por causa da
intensificao das relaes comerciais com a Europa at 1790, da forte demanda
europeia por produtos alimentares no decorrer das guerras napolenicas (1792-
-1814) e, enfim, da retomada vigorosa da atividade corsria no mbito dessas
mesmas guerras. Isso permitiu ao Estado aliviar sua presso fiscal ou ao menos
no acentu-la, o que teve por efeito reduzir as tenses polticas. Acrescentemos
a essas causas econmicas ou fiscais os resultados positivos da poltica de aliana
com as autoridades de todo lado, seguida pelos beis da poca. Como provas desse
sucesso, podemos evocar, por um lado, a ausncia de revoltas graves de 1762 at
pouco depois de 1815 e, por outro lado, o triunfo do bey de Tnis em suas guerras
contra o estrangeiro: Veneza (1784-1792), Trpoli (1793-1794) e, principalmente,
Argel (1807) que ps fim a uma dominao que durava desde 1756.


12    de Saint-Gervais, 1736.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                           305



   Esse perodo de equilbrio e de sucesso, do qual se beneficiou Tnis durante
mais de meio sculo, terminou pouco depois de 1815 com a retomada da expan-
so europeia em novas condies, desfavorveis para todos os pases no euro-
peus: uma nova era abria-se, anunciando o imperialismo colonial.

    A Regncia de Argel no sculo XVIII
   J vimos que, dentre as trs Regncias magrebinas, a de Argel conservou por
mais tempo uma classe dirigente alognica e militar. Isso no a impediu contudo
de passar por algumas transformaes.
   Apesar de seu declnio anunciado, as atividades corsrias continuavam a ser
praticadas seletivamente contra alguns pases cristos como a Espanha; para
prevenir seus efeitos sobre estabelecimentos comerciais, os pases nrdicos e




Figura 9.9 A cidade de Constantina, tal como a representavam uma litografia francesa do sculo XIX
[ Biblioteca Nacional de Paris].
306                                                          frica do sculo xvi ao xviii



alguns Estados italianos, como Veneza, consentiram pagar um tributo a Argel.
Mas, paralelamente s atividades corsrias, o comrcio com os grandes Estados
mercantilistas, como a Frana e a Inglaterra, desenvolvia-se: estes eram particu-
larmente interessados na compra de cereais, realizada a princpio pelo "Bastio
da Frana", perto de Annaba, em La Calle, depois no oeste, por Arzew e, enfim,
por Or, aps sua recuperao pela Regncia, em 1792.
    Outra fonte de ganhos de origem externa, a guerra contra os Estados vizi-
nhos trouxe lucros  classe dirigente de Argel, particularmente as intervenes
em Tnis em proveito de pretendentes ao poder, em 1735 e 1756, por terem
ocasionado um butim considervel, recolhido na ocasio, e um tributo  disfar-
ado  pago por Tnis de 1756 at cerca de 1807.
    No interior do pas, os impostos continuavam a ser arrecadados da maneira
mais tradicional que fosse, por meio da mahalla (expedio armada) e em pro-
veito da casta exclusivista turca. Lembremo-nos que os kulughli, mestios de
turcos com mulheres autctones, ficavam excludos da milcia e dos altos cargos
do Estado. Essa poltica no deixou de suscitar oposies cujas provas so as
inumerveis insurreies kabilas, como a de 1767-1772 que resultou em uma
considervel reduo de impostos. Mais graves pareciam ser os levantes da
populao da Ornia, sob a liderana das confrarias religiosas, e as revoltas dos
constantinenses, liderados pelos senhores feudais locais, no incio do sculo XIX,
pois eles denotavam uma certa tomada de conscincia antiturca e marcaram a
renovao da influncia dos chefes locais no momento em que a milcia dos
janissrios mostrava sinais de fraqueza.
    A decadncia dessa milcia no foi em si uma tragdia, j que o mesmo
fenmeno, h muito tempo anunciado em Argel, ocorrera igualmente em Tnis
e em Trpoli. Desde o fim do sculo XVII, um chefe nico  o dey  tendia
a concentrar o poder; ele foi cada vez mais apoiado, no sculo XVIII, por um
corpo restrito de dignitrios turcos, no seio do qual ele era escolhido. Assim, a
democracia militar, cara aos janissrios e aos rais turcos, era progressivamente
enfraquecida. O regime argelino ganhou assim estabilidade e eficcia: de 1671 a
1710, dos onze dey que tomaram o poder, apenas um conservou o cargo at sua
morte natural; de 1710 a 1798, dos nove dey que chegaram ao cargo supremo,
sete morreram de morte natural. Citemos igualmente o caso da durao excep-
cional do reinado de Muhammad b. `Uthman, de 1766 a 1791, conferindo assim
ao Estado argelino uma estabilidade incontestvel.
    Nas provncias, a mudana foi ainda mais ntida, pois os beis de Constantina,
do Titteri e do Oeste dispunham de um nmero restrito de janissrios e tiveram
necessariamente de contar com o apoio dos corpos de autoridades e chefes locais.
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                         307




Figura 9.10 Ornamento cnico de prata para a cabea, do sculo XVIII, procedente da Arglia.
Altura: 15 cm [ Museu das artes africanas e ocenicas, Paris. Foto: R. Chuzeville].




Viu-se at mesmo beis kulughli ligados por laos de sangue s grandes famlias
locais (os Quili em Constantina, os Bu-Shlaghim ou a famlia de Muhammad
b. `Uthman al-Kabir no oeste). Em resumo, mais integrados no pas e menos
militarizados do que em Argel, os beis das provncias mostraram nitidamente
que o regime argelino mudava nos moldes tunisiano e mesmo tripolitano.
    Essa evoluo chegou tardiamente  prpria capital: apoiando-se nos kulu-
ghli e nos zwawa, o dey `Ali Khodja, no fim de 1817, exterminou a milcia dos
janissrios ou o que restava dela, e escapou definitivamente da influncia dos
militares turcos, tal como os beis de Tnis e de Trpoli o fizeram um sculo
308                                                          frica do sculo xvi ao xviii



mais cedo. A partir da, poder-se-ia antecipar uma nacionalizao mais rpida
do regime argelino, mas a conquista francesa de 1830 ps fim a uma evoluo
impulsionada talvez tarde demais ou em condies por demais desfavorveis,
enquanto o divrcio j estava consumado entre a populao e seus dirigentes.

      A Regncia de Trpoli no sculo XVIII
    Assim como em Tnis no incio do sculo XVIII, um oficial kulughli, Ahmad
Karamanli, tomou o poder em Trpoli, em 1711, e fundou uma dinastia de beis,
chamada a reinar at 1835. O sucesso dessa famlia  devido a vrios fatores. A
princpio, a longa durao dos reinados: Ahmad exerceu o poder de 1711 a 1745,
Ali, de 1754 a 1793 e Yusuf, de 1794 a 1832. O segundo fator de sucesso foi a
existncia de mltiplas alianas entre os kulughli e as grandes famlias urbanas da
Tripolitnia. O terceiro, e talvez o principal, residiu na importncia dos ganhos
externos do beilhique: os ganhos diretos (despojos e resgate de prisioneiros)
e indiretos (tributos com os quais numerosos Estados europeus compravam a
segurana de seus estabelecimentos comerciais) das atividades corsrias, reati-
vadas depois de 1711, e entre 1794 e 1805; as arrecadaes ligadas ao grande
comrcio transaariano (atravs do Fezzan, cujo controle Trpoli garantira por
meio de sucessivas expedies) e mediterrneo (com Livorno e o Levante). Tal
comrcio esteve, sem dvida, na origem do poder do grupo de comerciantes das
cidades tripolitana e da prosperidade da colnia judaica, no fim do sculo XVIII
e no incio do seguinte.
   A Regncia de Trpoli sofreu, no decorrer desse sculo, srios problemas. As
catstrofes naturais foram, a princpio, devastadoras: citemos, por exemplo, a
fome de 1767-1768 e a terrvel peste de 1785. De uma forma geral, os recursos
eram limitados, da as graves tenses entre um Estado de exigncias elevadas
(pois vivia na hora da modernidade) e a populao de capacidades contributivas
modestas.
   A segunda fonte de problemas para o Estado residia na organizao da maior
parte da populao em duas grandes confederaes de efetivos flutuantes. Os oto-
manos no podiam governar sem o apoio de uma ou de outra. Ora, elas estavam
em luta perptua, e os adversrios do regime de Trpoli eram sistematicamente
taxados de rebeldes. Quando pretendentes rivais ao trono obtinham apoios nas
confederaes concorrentes, guerras civis eclodiam, tal como aquela de 1791 a
1793, opondo diversos membros da famlia Karamanli uns aos outros.
   Em terceiro lugar, Istambul no desistiu de retomar o poder efetivo em
Trpoli, o calcanhar de Aquiles do Magreb otomano. Em 1793, por exemplo,
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                                      309



um oficial turco, Ali Burghul, entrou em Trpoli e da expulsou os Karamanli;
estendendo sua empreitada at Djerba, em territrio tunisiano, sofreu a riposta
do bey de Tnis, que o expulsou de Trpoli e restabeleceu como bey, em 1794,
um dos Karamanli concorrentes. O reinado de Yusuf Karamanli inaugurou um
primeiro perodo de prosperidade. Ele desfez as manobras a princpio tentadas
pelos Estados Unidos de Amrica para dep-lo. Mais tarde, contudo, ele foi
obrigado a aceitar tratados com a Gr-Bretanha e a Frana, pondo praticamente
fim s atividades corsrias e s taxas de proteo. Assim foi perdida uma fonte
de ganhos de primeira importncia, perda que o comrcio transaariano no
conseguia compensar.
   Foi preciso reforar a fiscalidade, a preo de uma vigorosa oposio no meio
rural, enquanto crescia em Trpoli o descontentamento alimentado pela dimi-
nuio do nvel de vida. A dinastia acabou por perder seu crdito. No mais,
Yusuf cometeu graves erros de clculo em suas relaes com a populao de
Djabal Nafusa e com o saff, dirigido pelos Awlad Sulayman de Surt e de Fezzan,
erros que acarretaram a perda das bases rurais de seu poder. Alm disso, os des-
contentamentos inflavam-se a respeito do poder crescente dos consulados da




                                                         Figura 9.11 Vista parcial de uma rua da
                                                         cidade saariana de Ghadames, Lbia
                                                         [ P. Mazzari, Schio (Itlia)].
310                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




Figura 9.12   Sala de estar de uma casa na cidade velha, Ghadames, Lbia [ Dr Al-Saghayar A. Bahimmi,
Trpoli].



Frana e da Gr-Bretanha em Trpoli, por intermdio dos quais essas potncias
intervinham ocasionalmente nas relaes entre lbios.
    Assim se explica a boa recepo reservada ao corpo expedicionrio otomano
que desembarcou em Trpoli em maio de 1835, marcando a retomada nas pr-
prias mos da Sublime-Porta dos negcios da Lbia.
    Enfim, a ltima fonte de dificuldades para a Regncia consistia nas tentativas
crists de reduzir as atividades corsrias e impor condies comerciais favorveis
a Trpoli. A mais clebre guerra j declarada aos corsrios foi a que fizeram con-
tra ela os Estados Unidos, no incio de sua apario no cenrio internacional,
de 1801 a 1805: acabou, de toda forma, com uma paz de compromisso. Esse
no era mais o caso em 1815, quando os europeus chegaram a impor unilate-
ralmente suas condies. Estes eliminaram as atividades corsrias e abriram o
pas a seu comrcio nas condies que lhes convinham. Puseram-se a exigir do
regime tripolitano indenizaes por qualquer propsito e fora de propsito: por
insulto a seu cnsul, a Frana exigiu o pagamento de 800.000 francos em 1830;
por insulto ao filho de seu cnsul, a Inglaterra reclamou no menos do que
Arglia, Tunsia e Lbia: os otomanos e seus herdeiros                       311



200.000 piastras. Com seus recursos financeiros esgotados, o Estado tripolitano
ficou completamente paralisado. Ademais, minado por revoltas que era incapaz
de reprimir: consituiu ento uma presa fcil para o Imprio Otomano que a se
reinstalou duradouramente, em maio de 1835.


    Concluso
    O Magreb atravessava uma grave crise no sculo XVI, provocada essen-
cialmente por sua no adaptao  poca das armas de fogo, das monarquias
centralizadoras e dos tesouros da Amrica. Os otomanos trouxeram a soluo
aos pases do Magreb central e oriental instalando a aparelhos  militares e
administrativos  modernos, capazes de assegurar sua defesa externa e de a fazer
reinar o mnimo de ordem compatvel com a perenidade do conjunto. Mas, ao
mesmo tempo em que assumiam essas funes, os otomanos impunham a seus
sujeitos uma dura servido, acompanhada de uma severa explorao dos recursos
(quando isso lhes era possvel), devida em parte  estagnao das sociedades
autctones. O Magreb otomano sobreps assim Estados e classes dirigentes
modernas, dominadoras e exploradoras, a sociedades tradicionais, dominadas
e exploradas. Mas  evidente que, de um sculo a outro, a situao diferia um
pouco de Argel a Tnis ou a Trpoli.
    Tornando-se rapidamente autnomos com relao a Istambul (sem nunca
romper a lealdade oficial que os ligava a sua metrpole), os "odjak ocidentais"
diferenciavam-se pouco a pouco em Estados particulares e frequentemente
antagonistas: no menos de uma dezena de guerras opuseram os regimes de
Tnis e de Argel entre 1600 e 1800. Esses Estados tiveram uma evoluo
um pouco diferente (ou em ritmo diferente) no decorrer dos sculos XVII e
XVIII. Enquanto a classe dirigente otomana abria-se progressivamente aos
kulughli e s autoridades locais em Tnis e em Trpoli, fechava-se, em Argel,
numa atitude nitidamente exclusivista: a isso seguiu-se a apario de monar-
quias seminacionais no sculo XVIII nos dois primeiros pases, e a longa
continuao de um regime fortemente influenciado por suas origens conquis-
tadoras e estrangeiras em Argel. Notemos contudo que a evoluo geral das
Regncias rumo a uma maior integrao ao pas e a uma maior centralizao
de tipo monrquico tambm ocorreu na Regncia argelina, mas, a princpio,
no nvel das provncias, e em seguida  apenas a partir de 1817 , na capital.
Acrescentemos enfim que foi essa evoluo distinta e um pouco diferente das
trs Regncias (acentuada mais tarde pela diversidade das situaes coloniais)
312                                                        frica do sculo xvi ao xviii



que determinou a partilha do Magreb em Estados particulares tais como os
que conhecemos at hoje.
    Um outro conjunto de problemas determinantes na histria do Magreb
otomano tem a ver com suas relaes com a Europa crist. Dela provinham
em boa parte os instrumentos da modernidade que conferiam aos Estados e s
classes dirigentes magrebinas os meios de exercer sua hegemonia sobre a popu-
lao local: armas de fogo e armamentos modernos, papel para escrever, divisas
e metais preciosos e, enfim, homens introdutores das tcnicas e ideias novas.
Basta dizer que as relaes com a Europa eram vitais para as classes dirigentes
do Magreb: foram a princpio relaes de guerra (as atividades corsrias), ins-
tauradas pelos militares otomanos, por iniciativa prpria e essencialmente em
seu proveito. Em seguida, foram relaes de paz  principalmente mercantis
 impostas pelos grandes Estados mercantilistas e bem aceitas pela frao civil
das classes dirigentes magrebinas e de seus aliados locais. Essas relaes bene-
ficiaram primeiramente o capitalismo europeu a sua origem e, somente depois,
os Estados magrebinos (e seus associados locais), tanto quanto foram capazes
de defender seus interesses e seus pontos de vista frente a seus protagonistas
europeus, at aproximadamente 1815  uma data que fecha manifestamente um
perodo e abre outro, o da exclusiva preponderncia europeia.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII



                                      CAPTULO 10


   A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII:
     a evoluo dos Wolofes, dos Sereres
               e dos Tucolores
                                         B. Barry




    A regio da Senegmbia, que rene as bacias dos rios Senegal e Gmbia, 
um pouco afastada do arco do Nger, na metade do caminho entre o Saara e a
floresta.  esta a razo pela qual permaneceu dependente, at o sculo XV, dos
Estados do Sudo e do Saara. A valorizao de sua faixa atlntica, concomi-
tante  chegada dos portugueses, concedeu-lhe, ento, uma grande importncia
geopoltica, pois se tornou um eixo de penetrao da dominao econmica e
poltica de uma Europa em plena expanso, assim como permitiu o escoamento
dos produtos do interior do Sudo Ocidental rumo ao Atlntico.
    Apesar das variantes regionais no plano geogrfico e, sobretudo, da diver-
sidade de seu povoamento  wolof, fulbe, mande, seereer, tukulor, joola, nalu,
baga, tenda , a Senegmbia teve um s destino, ligado  convergncia, nesta
ponta oeste-africana, entre as influncias do Sudo, do Saara e da floresta. Tal
unidade reforou-se, a partir do sculo XV, graas  influncia do comrcio
atlntico cujo papel se mostrou determinante na evoluo econmica, poltica e
social dos Estados da Senegmbia.
    A partir do sculo XV, o comrcio portugus de ouro, de marfim, de couro
e de escravos desviou as rotas comerciais do interior para o litoral, assim como
provocou, no decorrer do sculo XVI, o desmembramento da Confederao do
Jolof, seguida pela ascenso do Reino Denyanke, no vale o Rio Senegal, e do
reino do Kaabu (Gabu), nos arredores dos rios do sul.
314                                                          frica do sculo xvi ao xviii



      No decorrer do sculo XVII, a partilha da costa em zonas de influncia
holandesa, francesa, inglesa e portuguesa coincidiu com a intensificao do
comrcio negreiro, que permaneceu, ao longo do sculo XVIII, a pedra angular
do comrcio atlntico. Tal comrcio engendrou o reino da violncia, reforado
ainda pelo carter guerreiro e arbitrrio dos regimes sebbe (singular ceddo: chefe
de guerra), regimes estes simbolizados pelos respectivos reinos do Djamel-Teen
do Cayor e do Bawol, Lat Sukaabe Fall, e do Satigi, do Futa Toro, Samba
Gelaajo Jeegi. Diante da violncia dos sebbe, o Isl constituiu ento a nica
barreira contra o carter arbitrrio da aristocracia. No fim do sculo XVII, os
adeptos do Isl tomaram as armas quando da guerra dos marabutos, e, apesar
de sua derrota, fomentaram as trs revolues setecentistas  do Bundu, do Futa
Djalon e do Futa Toro. Dessa forma, a oposio entre regimes sebbe e teocracias
muulmanas constituiu o pano de fundo da histria da Senegmbia, submetida
s consequncias do comrcio atlntico.


      O monoplio portugus e a reorganizao do mapa
      poltico do sculo XVI
    Ponta ocidental da frica, a costa da Senegmbia corresponde  parte do
litoral africano com a maior abertura para o oeste. Durante um longo per-
odo que se estende at o sculo XV, o pas permaneceu como dependncia do
Sudo e do Saara, antes de sofrer a influncia do Atlntico, com a chegada
dos portugueses que investiram nessa regio. O comrcio portugus do ouro,
do marfim, das especiarias e, logo depois, dos escravos provocou o desvio das
rotas comerciais rumo ao Atlntico. Esta primeira vitria da caravela sobre a
caravana deu origem, a partir de meados do sculo XVI, no s a profundas
mutaes polticas, econmicas e sociais, mas, principalmente,  redefinio do
mapa poltico da Senegmbia.

      O comrcio portugus
    Muito cedo na poca do domnio maliano sobre a Senegmbia, as margens
do Rio Gmbia foram dominadas por Jula mandingo que ligaram  partir das
escalas do Wuuli, do Niani, do Niumi e do Kantora  o Arco do Nger ao comr-
cio de noz-de-cola, do ferro e ndigo das regies florestais. Os conquistadores
mande fundaram, assim, no sul da Gmbia, o reino de Gabu, que dominou,
em nome do Mali, toda a Senegmbia Meridional e uma parte da Senegmbia
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                          315



Setentrional, na medida em que a dinastia gelowar do Siin e do Saalum tinha
origem kaabunke1.
    Mas, a partir de meados do sculo XIV, a crise de sucesso provocada pela
morte do mansa sulayman, em 1360, favoreceu a criao da Confederao do
Jolof, cujo soberano, Njajaan Njaay, estendeu sua autoridade ao conjunto da
Senegmbia Setentrional, entre os rios Gmbia e Senegal. A hegemonia da
Confederao foi desde cedo abalada, antes de seu total desmembramento,
no sculo XV, em funo da invaso liderada por Kolly Tengella, que deixara
o Sahel maliano com numerosos Fulbe para se instalar nos altos plats do
Futa Djalon. A partir de 1490, vrios companheiros de Koly ou de seu filho
dirigiram-se rumo ao norte para fundar, no vale do Senegal, a dinastia denyanke
do Futa Toro. No decorrer de seu xodo, enfraqueceram na sua passagem a auto-
ridade dos principados mande da Gmbia e, apesar da resistncia dos Beafada,
abalaram completamente o equilbrio poltico da Senegmbia2.
    Assim, o advento do regime denyanke coincidiu com a chegada dos pri-
meiros europeus a explorar o litoral africano, ou seja, dos portugueses. Estes se
instalaram, por volta de 1445, em Arguin a fim de desviar para o Atlntico o
comrcio do Sudo e da Senegmbia, tradicionalmente dirigido ao norte pela
rota saariana. Finalmente, aps algumas tentativas de penetrao no interior, o
fracasso da construo de um forte, em 1448,  margem do Rio Senegal  cuja
navegao era prejudicada pelas cataratas do Felu , assim como a presena
efetiva do Mali na Gmbia, obrigou os portugueses a confinar-se na costa.
    A partir das ilhas de Cabo Verde, os portugueses praticaram a cabota-
gem comercial ao longo da costa e dos esturios dos rios Senegal e Gmbia.
Implantaram-se firmemente  margem dos rios do Sul e na Gmbia, regio
esta que ocupava uma posio estratgica no comrcio inter-regional da Sene-
gmbia. O comrcio portugus de ouro, marfim, peles, especiarias e escravos
acrescentou-se ao antigo circuito de comrcio inter-regional de noz-de-cola, sal,
tecidos de algodo, ferro e ndigo. Ou melhor, os portugueses investiram, desde
cedo, no importante centro comercial do Wuli, ponto de partida das caravanas
que ligavam a Gmbia ao alto Senegal, no norte, e ao Arco do Nger, no leste,
obrigando assim o Mali, ento em declnio, a voltar-se cada vez mais para o
Atlntico, no intuito de escoar seu ouro.
    O comrcio de ouro do Sudo, que se espalhava doravante nas feiras do Wuli
e do Kantora, ocupou um lugar destacado no comrcio portugus e contribuiu

1   Y. Person, 1974a, p. 7.
2   J. Boulgue, 1968, p. 177.
316                                                          frica do sculo xvi ao xviii



fortemente para o rompimento das ligaes existentes entre, de um lado, a regio
de Bambuk e do Bure e, por outro lado, o Saara e o arco do Nger, transfor-
mando este em um componente da Senegmbia. O comrcio do couro, de uma
ordem de 150.000 peles no ano de 1660  recorde alcanado em virtude da
forte demanda europia , constitua, aps o ouro, o segundo produto de expor-
tao da Senegmbia. A isso se acrescentavam o marfim, a cera, e sobretudo os
escravos que, ao longo do sculo XVI, se tornaram a primeira e principal fonte
de exportao para a Europa da Senegmbia, situada a meio caminho entre
a Europa e as Amricas. Tal trfico foi particularmente importante na poca
da valorizao das ilhas Canrias, de Cabo Verde e da Madeira, assim como,
mais adiante, no incio do desenvolvimento da economia de plantao no Novo
Mundo. Walter Rodney avalia que um mnimo de 5.000 escravos por ano eram
exportados a partir dos rios do Sul entre 1562 e 1640. Alis, desde o comeo, os
portugueses, que trocavam cavalos por escravos, encorajaram, nas ilhas de Cabo
Verde, uma economia de plantao, o que lhes permitiu produzir acar, algodo
e ndigo, integrando-se, assim, no comrcio inter-regional da Senegmbia3. Os
afro-portugueses (os lanados ou tangomos) se tornariam progressivamente
os intermedirios indispensveis entre o comrcio europeu e a Senegmbia,
que sofreria, a partir da segunda metade do sculo XVI, profundas mutaes
econmicas, sociais e sobretudo polticas.

      A reorganizao do mapa poltico dos Estados de Senegmbia na
      segunda metade do sculo XVI
   Apesar de sua relativa importncia, o comrcio portugus provocou, a partir
do sculo XVI, uma crise econmica e poltica ao longo dos rios do Sul, assim
como acelerou o desmembramento da confederao do Jolof, na Senegmbia
Setentrional.
   Em virtude da dominao desde cedo exercida por Portugal, a crise atingiu,
em primeiro lugar, a regio dos rios do Sul que controlava o comrcio inter-
-regional da Senegmbia.
   Dessa forma, a crise foi precoce na regio compreendida entre os rios Casa-
mansa e Cacheu, amplamente investida por comerciantes cabo-verdianos. Nessa
regio, os bainuk e os casanga, sendo habilidosos teceles e tingidores, tornaram-
-se rapidamente os principais clientes para o algodo procedente das ilhas de
Cabo Verde. Sua prosperidade provinha tambm da produo agrcola, neces-

3     W. Rodney, 1970b, pp. 153-161.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                             317



sria tanto aos residentes europeus, quanto ao abastecimento das cargas de
escravos. A vantajosa posio dos bainuk provocou conflitos com os lanados,
que solicitariam, em 1570, a ajuda de Mansa Tamba, rei dos casanga. A riva-
lidade entre, por um lado, bainuk de Buguendo e Bichangor e, por outro lado,
os Estados kasanga incentivados pelos interesses portugueses, terminou apenas
por volta de 1590, com a morte de Mansa Tamba do Kasa4.
    Porm, desde o incio, o comrcio de escravos  pedra angular das atividades
comerciais dos portugueses  perturbou profundamente a situao econmica,
poltica e social da regio dos rios do Sul. Com efeito, os mandes especializaram-
-se na captura de escravos em grande escala, consolidando o poder do Kaabu
que, de fato, controlava a totalidade do territrio entre o rio Gmbia e o Futa
Djalon. O Kaabu aproveitou-se ento dos desastres causados pela passagem
das tropas de Koly Tengella junto aos bainuk, pepel, kasanga e beafada, para
impor sua lei na maior parte da regio dos rios do Sul e tirar maior vantagem
do comrcio martimo.
    Da mesma forma, os habitantes das ilhas Bijagos organizaram-se de forma
sistemtica a fim de participar ativamente das capturas humanas no con-
tinente. De fato, ao passo que as mulheres se consagravam  agricultura, 
pesca e  construo de casas, os homens fabricavam as famosas embarca-
es, chamadas almadies, com as quais formaram uma verdadeira frota de
guerra, capaz de amedrontar toda regio dos rios do Sul. Assim, o mosaico
de populaes dessa zona  Bainuk, Joola, Pepel, Balante, Nalu, Landuma e
Baga  foi a primeira vtima do comrcio negreiro. Por isso, a tendncia ao
isolamento, sobretudo junto aos joola, intensificou-se nessa regio de mangue
onde a natureza encontrava-se propcia ao refgio. Contudo, foram os grupos
minoritrios da regio Tenda  Bassari, Coniagui e Badyaranke vivendo entre
as montanhas do Futa Djalon e os rios do Sul  as principais vtimas do trfico
de escravos5.
    Portanto, a crise econmica, poltica e social foi precoce na regio dos rios do
Sul e isolou algumas comunidades costeiras em proveito da potncia continental
do Kaabu. A evoluo poltica dos Estados dos rios do Sul  organizados em
torno da linhagem  para elaboradas formas monrquicas foi bloqueada pela
presso dos povos vizinhos e pela violncia das capturas de cativos, que pro-
vocaram, nessas comunidades, reaes de defesa e de isolamento. Tal bloqueio
reforou-se quase at o sculo XIX, poca da conquista colonial.

4   G. E. Brooks, 1980, p. 19.
5   W. Rodney, 1970b, p.110.
318                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Ao contrrio, aps o declnio definitivo do Imprio do Mali, o Kaabu tornou-se
a potncia dominante da regio. Como verdadeira potncia militar, controlou, em
seu proveito, a rede comercial bainuk e beafada e conquistou simultaneamente os
principados mandes ao longo do rio Gmbia. Os maane e os saana, ou seja, a dinastia
naanco que governava em Kansala, reforaram seu carter guerreiro e simboliza-
ram, desde o incio, o reino dos sebbe, que dominou a vida poltica em Senegmbia
durante a era do trfico negreiro. A conquista do Siin e do Saalum pela dinastia
gelowar, oriunda do Kaabu, demonstrou muito bem a potncia desse reino.
    Os sculos XVI e XVII constituram sem dvida o apogeu do Reino de
Kaabu, que se imps, em lugar do Mali, em toda zona dos rios do Sul, at o
triunfo da revoluo teocrata do Futa Djalon. A revoluo freou a expanso
do Kaabu rumo ao interior das terras, no incio do sculo XVIII. Porm, essa
expanso coincidiu com a intensificao do trfico negreiro e, sobretudo, com o
monoplio do comrcio nos rios do Sul pelos europeus. A iniciativa do comrcio
inter-regional dos rios do Sul, cuja importncia era vital a Senegmbia, passou
dos povos autctones aos portugueses. Estes se incrustaram no antigo circuito
norte-sul da costa e reduziram os beafadas, os bainuk e, sobretudo, os mandes
e os bijagos,  atividade de caadores de cativos ou de meros corretores do
comrcio atlntico para o interior.
    Da mesma forma, a parte setentrional da Senegmbia entre os rios Gmbia
e Senegal sofreu, por sua vez, uma profunda e duradoura reorganizao de seu
mapa poltico, a partir da segunda metade do sculo XVII.
    A confederao do Jolof, j abalada pela invaso macia de Kolly Tengella,
desintegrou-se sob a influncia do comrcio portugus que, ao favorecer as pro-
vncias costeiras, acelerou o desmembramento poltico da Senegmbia.  assim
que, aps sua vitria sobre o buurba jolof em Danki, Amari Ngoone proclamou
a independncia da provncia martima do Waalo no esturio do rio Senegal e
do Bawol no sul-oeste, empurrando assim os jolof para o interior. O territrio
jolof foi, portanto, consideravelmente reduzido. O pas no manteve mais rela-
es diretas com o comrcio transatlntico a partir de ento dominante, sendo
tambm excludo, ao norte, do comrcio transaariano em funo da potncia do
Reino denyanke do Futa Toro6.
    O desmembramento do Jolof foi o resultado de vrios combates que inau-
guraram a era de violncia dos senhores da guerra. As monarquias sebbe instau-
raram a violncia no somente nas relaes entre os Estados da Senegmbia,


6     J. Boulgue, 1968, p. 212.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                           319



mas tambm nas relaes polticas e sociais dentro de cada Estado. O mesmo
processo deu tambm origem aos reinos do Siin e do Saalum, que se emancipa-
ram, ambos, definitivamente do Imprio do Jolof no decorrer do sculo XVI.
    Aps o esfacelamento da confederao do Jolof, o Damel do Cayor, Amari
Ngoone, tentou, durante algum tempo, impor sua hegemonia ao anexar o Bawol
e uma parte do Waalo, mais especificamente na desembocadura do rio Senegal,
encruzilhada do comrcio atlntico. Ele assumiu o ttulo de damel-teen, inaugu-
rando assim uma longa srie de unies temporrias entre os reinos do Cayor e
do Bawol. De fato, o sonho de qualquer damel do Cayor consistia em se tornar
teen do Bawol, e vice-versa. Porm, desde cedo, a luta entre o Cayor e o Bawol
impediu o Damel de realizar sua ambio de reunir, por sua vez, as antigas pro-
vncias da confederao do Jolof sob sua autoridade. Por outro lado, esse fracasso
favoreceu a ascenso do Reino denyanke do Futa Toro.
    O Satigi do Futa Toro, designado pelas fontes europias como o "Grande
Ful", aproveitou-se tambm do desmembramento do Jolof para estender sua
dominao  maior parte da Senegmbia Setentrional. A dinastia denyanke
atingiu seu auge no incio do sculo XVII com o reino de Samba Lamu. Por
dominar o esturio do rio Senegal e uma parte do Sahel maliano e mauritano,
ao Futa Toro incumbia doravante a dupla misso de controlar o comrcio do
Sudo rumo ao Saara e o comrcio martimo europeu7.


    A partilha da costa senegambiana e a reao muulmana
    do sculo XVII
    A partir do sculo XVII, o monoplio portugus foi abalado pela chegada
sucessiva dos holandeses, dos ingleses e dos franceses. Essas novas potncias
europias instalaram-se na costa da frica, iniciando a grande aventura do
cercamento da frica.
    As potncias europias engajaram-se assim em uma competio voraz e por
isso conseguiram se impor na Senegmbia, ao criar zonas de influncia prote-
gidas com zelo por feitorias fortificadas estabelecidas ao longo do litoral, em
Arguin, Saint-Louis, Gore, no forte Sanint James, em Cacheu e Bissau.
    Tais feitorias serviam, em primeiro lugar, como armazm para os escravos
cujo comrcio se tornou, a partir da segunda metade do sculo XVII, a prin-


7   Ibidem, p. 244.
320                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



cipal atividade das potncias europias da costa africana. O intenso trfico e
seu corolrio, a caa de cativos, deu origem a profundas crises econmicas,
polticas e sociais. O trfico negreiro engendrou assim a violncia nas rela-
es entre Estados, a militarizao do poder e, tambm, o progresso do Isl
militante. Sendo assim, desde o fim do sculo XVII, a Senegmbia foi o palco
de um amplo movimento ligado aos marabutos, Que procurava unificar os
Estados do vale do rio Senegal contra os nocivos efeitos do trfico negreiro
de almmar.

      As feitorias e a partilha da costa
   A reorganizao do mapa poltico estava intimamente ligada ao recrudes-
cimento da violncia entre Estados e ao desenvolvimento do trfico negreiro
que acelerou o desmembramento poltico da Senegmbia. Coincidiu tambm
com a chegada dos holandeses, dos franceses e dos ingleses, cuja presena
no litoral senegambiano se consolidou, a partir da segunda metade do sculo
XVII, em detrimento do monoplio portugus. Com efeito, o trfico negreiro,
que se havia convertido em pedra angular do mercantilismo colonial aps o
avano da indstria aucareira no Novo Mundo, acelerou a partilha da Sene-
gmbia em zonas de influncia, graas  construo de feitorias fortificadas
ao longo da costa.




F igura 10.2 Saint-Louis, na desembocadura do rio Senegal. Desenho de E. de Brard, segundo Nouveaux.
[Fonte: Le tour du monde, Paris, Hachette, 1861, vol. III.  Hachette, Paris.]
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                           321



    A partir de 1621, os holandeses instalaram-se em Gore, seguidos, em
1659, pelos franceses em Saint-Louis, frente  desembocadura do rio Senegal,
ao passo que os ingleses construram, em 1651, o forte Saint James, junto
ao esturio do rio Gmbia. Assim eliminados aos poucos da Senegmbia
Setentrional, os portugueses se confinaram   exceo de sua base perma-
nente de Cabo Verde  em Cacheu e Bissau. J estavam, ento, obrigados a
compartilhar o rico mercado da regio dos rios do Sul com as novas potncias
europias. De qualquer modo, a construo de uma srie de feitorias fortifica-
das ao longo da costa confirmou a reorientao do comrcio da Senegmbia
para o mar.
    O forte Saint-Louis, na desembocadura do rio Senegal, permitiu aos fran-
ceses controlar todo o comrcio realizado ao longo do rio, de fevereiro a maio,
nas diferentes escalas do deserto do Waalo, em Coq e em Terrier Rouge, no Futa
Toro. A construo do forte Saint-Joseph, no fim do sculo XVII no Gajaaga,
garantiu o monoplio francs em todo vale do rio Senegal, desde sua desem-
bocadura at rio acima, na porta de entrada do Sudo. A Frana tentou assim
fazer desse rio o centro de gravidade do comrcio da Senegmbia Setentrional,
ao atrair para as escalas o comrcio de Arguin e Portendick, na costa mauritana,
assim como aquele do Sudo, concentrado no Arco do Nger8.
      A ilha de Gore  ocupada primeiramente pelos holandeses, tomada pelos
portugueses em 1629 e 1645, antes de passar pelas mos dos ingleses, em 1667, e
enfim pelas dos franceses, em 1677  detinha o monoplio do comrcio ao longo
da Pequena Costa. Desde ento, foi por esta via que os franceses comerciaram
com o Cayor na escala de Rufisque, com o Bawol na escala de Portugal, e enfim,
com o Siin na escala de Joal. Gore tentou tambm estender sua esfera de influ-
ncia rumo ao sul, na Gmbia  com a feitoria d'Albreda  e na regio dos rios
do Sul, em Bissau e Cacheu. Os franceses ali encontraram a concorrncia dos
portugueses, e principalmente dos ingleses, firmemente estabelecidos na Gm-
bia. De fato, o forte Saint James, de incio construdo pelos ingleses, controlava
todo o comrcio ao longo do rio Gmbia, com as escalas de Jufure e Bintang, e
at as cataratas de Barakunda, com as escalas de Sutuku e Fatatenda no Wuli.
    Cada principado mande instalado ao longo do rio Gmbia, cuja enorme
vantagem consistia em sua constante navegabilidade, formava uma possvel
escala para os comerciantes ingleses. Dessa forma, os ingleses estavam bem
posicionados para conquistar no s as escalas da Pequena Costa, no norte, mas


8   B. Barry, 1972, pp. 111-126.
322                                                          frica do sculo xvi ao xviii



tambm aquelas dos rios do Sul, e, sobretudo, para concorrer perigosamente
com o comrcio francs rio acima9. A Gmbia dispunha de boa infraestrutura
para atrair  sua rbita o comrcio do Sudo, o que explica o fato de a regio ter
sido colonizada desde cedo pelo Imprio do Mali. Os portugueses, eliminados
do norte, retornaram, portanto, para a regio dos rios do Sul onde criaram as
feitorias de Bissau e de Cacheu. Porm, eram os lanados de Cabo Verde que l
sustentavam a presena de Portugal, cuja situao econmica na Europa j no
mais lhe permitia enfrentar a concorrncia de ingleses, franceses e holandeses.
    A faixa martima da Senegmbia era assim controlada por uma srie de forti-
ficaes, construdas de preferncia nas ilhas, cuja funo principal consistia em
desviar o comrcio da regio para a costa atlntica Tais construes permanentes
tinham um duplo objetivo: proteger cada zona de influncia assim delimitada
contra a concorrncia das outras potncias europias e limitar os perigos de uma
eventual unio dos Estados da Senegmbia contra o monoplio do comrcio
europeu.
    A presena macia holandesa, francesa e inglesa na Senegmbia  aps a dos
portugueses que, na poca, tinha equivalente apenas na Costa do Ouro  estava
estreitamente ligada  emergncia do mercantilismo colonial. Com efeito, depois
de Portugal e da Espanha, essa febre de acumulao da riqueza atingiu as outras
potncias atlnticas, engajadas desde ento na conquista dos mercados da frica,
da sia e do Novo Mundo.
    Cada uma das potncias europias, simultaneamente  edificao de suas
feitorias fortificadas da costa africana, criava companhias de carta cujo objetivo
era conquistar o monoplio do comrcio martimo. Essas companhias, cuja
esfera de influncia ultrapassava muitas vezes os limites da Senegmbia, eram
respectivamente: a Companhia Holandesa das ndias Ocidentais, criada em
1625, a Companhia Francesa das ndias Ocidentais, criada em 1665, e a Royal
African Company (Companhia Real Africana), criada pelos ingleses em 1672.
Por serem todas aprovadas pelas monarquias, tais companhias simbolizavam a
ascenso dos Estados-naes da Europa, refletindo, ao mesmo tempo, a com-
petio prestes a se desencadear entre essas potncias, com vistas  compsita
dos mercados.
    Em certa medida, as companhias de carta permitiram  nobreza, enfraque-
cida em termos econmicos diante da burguesia metropolitana, dedicar-se ao
comrcio ultramarino sem correr o risco da decadncia social. Por todas essas


9     P. D. Curtin, 1975, pp. 105-109.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                  323



razes, as rivalidades do continente europeu repercutiram imediatamente na
Senegmbia, cujas feitorias passaram de uma potncia  outra em funo do
equilbrio de foras no plano local ou metropolitano.
    Em tal contexto, aps terem colocado em xeque os primeiros monoplios
portugueses, os holandeses foram eliminados da costa senegambiana, a partir de
1677, em favor dos ingleses e dos franceses. Permaneceram apenas em Arguin
e Portendick, na costa mauritana, onde se mantiveram at a primeira metade
do sculo XVIII, em razo da importncia crescente do comrcio de goma. A
Senegmbia continuou ento dividida entre a zona de influncia francesa, de
Saint-Louis at Gore, e a zona de influncia inglesa na Gmbia, ao passo que
franceses e ingleses disputaram com os portugueses o controle dos rios do Sul.
A posse da Senegmbia tinha uma importncia vital, em funo de sua proximi-
dade com a Europa e a Amrica, exatamente num momento em que o avano
das plantaes se acelerava, fazendo triplicar, entre 1651 e 1700, a demanda por
escravos negros com destino s Antilhas francesas e inglesas10.
    Saint-Louis, Gore, o forte Saint James, Cacheu e Bissau transformaram-se
em verdadeiros armazns de escravos, encaminhados para a costa a partir dos
mercados do interior,  espera dos navios negreiros com destino ao Novo Mundo.
Entretanto, antes da organizao sistemtica da captura e do encaminhamento
de cativos a partir do Arco do Nger, os povos costeiros, e mais especificamente
aqueles de Senegmbia, eram a fonte principal desse trfico negreiro.
    A proximidade da Senegmbia, tanto com a Europa, quanto com a Amrica,
assim como a abertura tardia dos grandes mercados de escravos no Golfo de
Guin e em Angola podem explicar a importncia da Senegmbia no comrcio
negreiro, incipiente nos sculos XVI e XVII.  hoje claro que Philip D. Curtin
tenha subestimado a participao dessa regio neste trfico, reduzido por ele a
menos de 10% do total, ps 1640, apesar da ausncia de estatsticas confiveis11.
Todavia, a importncia desse comrcio na Senegmbia no constitui um mito,
como bem o mostra o testemunho de P. Lemaire, em 1682:
        "Em troca desses negros, so oferecidos tecido de algodo, cobre, estanho, ferro,
     aguardente e algumas bagatelas de vidro. O lucro que se extrai de tal comrcio  de
     800%. Os couros, o marfim e a goma so levados para Frana, e no que diz respeito
     aos escravos, estes so enviados s ilhas francesas da Amrica para trabalhar nas
     plantaes de acar. Os melhores custam dez francos cada e so revendidos por


10   Ibidem, p. 102.
11   Ibidem.
324                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



      mais de cem escudos. Em troca de quatro ou cinco jarras de aguardente pode-se
      obter um escravo razoavelmente bom. Por isso a despesa consiste menos na compra
      do que no transporte, tendo em vista as grandes despesas das naus12."
   Por certo, no ser possvel avaliar quantitativamente as exportaes da Sene-
gmbia, porm ser necessrio evidenciar as desiguais relaes de troca que se
estabeleceram, a partir dessa poca, entre europeus e senegambianos, assim como
as consequncias do comrcio atlntico que dominou a evoluo histrica da
regio. Alis, a importncia de tal trfico de escravos deu origem, no vale do rio
Senegal, a um amplo movimento ligado aos marabutos, apenas alguns anos aps
a construo do forte Saint-Louis.

      A guerra dos marabutos
    De fato, aps a reorganizao dos Estados, no decorrer do sculo XVI, sus-
citada pela influncia do comrcio portugus, a Senegmbia sofreu, a partir do
fim do sculo XVII, uma profunda crise econmica, poltica e social. Essa crise
manifestou-se principalmente na parte setentrional do pas, resultado, ao mesmo
tempo, do trfico negreiro e do comrcio atlntico em seu conjunto.
    O movimento ligado aos marabutos e desencadeado em nome do Isl pelo
marabuto mouro Nsir al-Dn, demonstrou bem a gravidade da crise provocada,
desde essa poca, pela presena europia na Senegmbia13. O movimento, sob
o manto do Isl puritano, partiu do sul da atual Mauritnia onde a populao
berbere sofria, em seu conjunto, com uma profunda crise econmica, em funo
do declnio do comrcio transsaariano, processo acentuado pela instalao dos
franceses em Saint-Louis, em 1659.
    Haja vista sua posio estratgica na desembocadura do rio Senegal, a ilha
de Saint-Louis desviava, a partir de ento, a totalidade do comrcio do vale
para o Atlntico, rompendo assim com a complementaridade secular entre
os berberes nmades do Chamama e os agricultores sedentrios do rio. O
monoplio comercial de Saint-Louis privou assim os mouros no somente da
mo de obra servil usada h sculos na produo e no trfico com a frica do
Norte, mas tambm dos cereais, para os quais o vale servia de armazm aos
pases do Sahel, ao norte do rio Senegal. A multiplicao dos entrepostos de
escravos na costa fixou o comrcio de gros nas feitorias, a fim de satisfazer a
necessidade crescente de cargas de escravos durante a longa espera e, tambm,

12    P. Lemaire, 1695, p. 68.
13    B. Barry, 1972, pp. 135-159. Estudei em detalhe esse movimento dos marabutos.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                                 325




Figura 10.3 Trofeu composto por armas e outros objetos do Senegal. Desenho de J. Pelcoq para a exposio
colonial francesa. Fonte: Le tour du monde, Paris, Hachette, 1861, vol. III.  Hachette, Paris.
326                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



por ocasio da travessia rumo ao Novo Mundo. Essa crise econmica acendeu
o antagonismo poltico e social que opunha, uns aos outros,os guerreiros hasa-
niyya, de origem rabe, os Ban Maghfar, e os marabutos de origem berbere,
os Sanhdja.
    A sociedade berbere estava abalada pela descida, rumo ao sul, dos guerrei-
ros hasaniyya e pelo monoplio de Saint-Louis que desviava o comrcio do
vale do rio Senegal. Nsir al-Dn impulsionou ento um movimento religioso
baseado no Isl puritano, a fim de salvar a sociedade berbere da desintegrao
atravs da conquista do vale do rio Senegal, de vital importncia para a econo-
mia do Sahel. A luta entre os guerreiros hasaniyya e os berberes da classe dos
marabutos prolongou-se em virtude da proclamao da guerra santa (jihad)
nos reinos do vale do rio Senegal. Em seu contexto de origem, o movimento
de Nsir al-Dn constitua uma tentativa de regular a vida poltica e social
segundo os ensinamentos da shari`a (lei islmica) em sua mais pura ortodoxia,
a fim de acabar com o poder arbitrrio dos guerreiros hasaniyya atravs da
instaurao de uma verdadeira teocracia muulmana.
    A proclamao da jihad nos reinos do vale do rio era motivada por con-
sideraes tanto econmicas, quanto religiosas: a reconquista dos mercados
de cereais e escravos, a converso da populao e a purificao das prticas
do Isl. A partir de 1677, o sucesso da guerra santa no Waalo, no Futa Tora,
no Cayor e no Jolof foi amplamente facilitado pela profunda crise vivida
pela Senegmbia Setentrional, em funo dos perniciosos desdobramentos
da intensificao do trfico negreiro durante a segunda metade do sculo
XVII. As consequncias da caa de cativos em grande escala constituram
a base de um dos principais temas desenvolvidos pelo movimento de Nsir
al-Dn.
    Tal movimento puritano, seno reformista, ops-se, de incio, ao prosse-
guimento do trfico negreiro e condenou vigorosamente a tirania dos reis
que participavam ativamente das capturas14. A ausncia de dados precisos no

14    Chambonneau, a principal testemunha desses acontecimentos, evidenciou muito bem as causas do
      movimento de Nsir al-Dn que, na qualidade de grande servo de Deus, tinha como misso " mostrar a
      todos os reis como mudar de vida, praticando o Sala de forma melhor e mais frequente, contentando-
      -se com trs ou quatro mulheres, excluindo de sua convivncia todos os griots, trovadores e gente de
      prazer, e, portanto, Deus no queria que eles pilhassem seus sditos e ainda menos que os matassem
      ou os tornassem cativos". Ele continua: "Deus no permite que os reis pilhem, matem ou faam cativos
      dentro de seus povos, aos reis cabendo, ao contrrio, mant-los e proteg-los, no sendo os povos feitos
      para os reis, mas os reis para os povos." At esse perodo, o movimento dos marabutos era conhecido
      na sua fase mauritana, graas aos Ta'rkh de origem berbere, divulgados por Ism`il Hamet. O texto de
      Chambonneau, publicado por C. I. A. Ritchie, esclarece ainda mais a verdadeira dimenso dessa revoluo
      muulmana que se estendeu at os Estados do rio Senegal. Ver C. I. A. Ritchie, 1968, pp. 338 e 339.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                                    327



constitui um argumento suficiente para negar a evidncia dos efeitos desastro-
sos do trfico negreiro, quer no plano econmico, poltico ou social15.
    De incio, o movimento ligado aos marabutos foi, antes de mais nada, uma
reao de autodefesa do comrcio transaariano diante do monoplio cada vez
mais poderoso da feitoria de Saint-Louis. Nesse contexto, ele opunha-se no
somente ao monoplio comercial de Saint-Louis no vale do rio Senegal, mas
tambm, e sobretudo, ao prosseguimento do trfico negreiro, ou seja,  exporta-
o macia de fora de trabalho que assolava a regio de modo decisivo.
    Tal oposio ao comrcio de escravos no significava, em hiptese alguma,
qualquer propsito de eliminar a escravido domstica ou a venda de escravos em
pequena escala, pois que se tratava de uma tradio secular cujo desenvolvimento
no quadro do comrcio transaariano nunca provocara uma crise to aguda quanto
aquela do trfico atlntico. Vale acrescentar que o Isl, no incio mero pretexto usado
pelo movimento dos marabutos, mudou desde ento de carter. De fato, da religio
de uma casta minoritria de mercadores e de corteses das cortes reais, passou a
representar a reao popular de resistncia contra a arbitrariedade das aristocracias
no poder e contra os efeitos nocivos do comrcio atlntico em seu conjunto.
    Contando com a cumplicidade dos muulmanos autctones e o apoio das
massas populares, o movimento dos marabutos, tal como um maremoto, varreu
sucessivamente as aristocracias governantes no Futa Toro, no Waalo, no Cayor
e no Jolof, sem encontrar forte resistncia. Aps a derrota desses quatro reinos,
Nsir al-Dn substituiu as aristocracias decadas por chefes religiosos conven-
cidos da causa, chamados por Chambonneau de buur jullit ou grandes mestres
de orao. Foi o triunfo, em todo o norte da Senegmbia, das teocracias muul-
manas, as quais dependiam da autoridade poltica e espiritual de Nsir al-Dn,
mas mantinham as caractersticas especficas a cada um dos reinos conquistados
pelo movimento dos marabutos.
    No Futa Toro, apesar da ausncia de detalhes relativos a estes eventos, a
vitria dos marabutos foi fulgurante. Alm disso, a participao da populao na

15   Todos os viajantes que visitaram a regio depois de Charbonneau so unnimes em considerar que o
     sucesso do movimento dos marabutos se deu graas aos efeitos do trfico negreiro. Em 1682, Lemaire
     fala do Brak que capturava escravos no seu prprio pas, demonstrando que o sucesso do movimento
     dos marabutos se deveu  promessa feita aos habitantes do Waalo de "ving-los da tirania de seus reis".
     Gaby, depois de Lacourbe em 1689, afirmar igualmente: "Os reis no tm o direito de impor tributos
     a seus sditos. Toda sua renda consiste em cativos e rebanho. Muitas vezes saqueiam seus sditos, sob o
     pretexto de que se falou mal deles ou que se roubou ou matou, de tal forma que ningum tenha segu-
     rana a respeito de seus bens ou de sua liberdade, pois que qualquer um pode se tornar cativo, e  isso
     que causou uma revoluo em seu reino." Todos esses testemunhos no impediram Philip D. Curtin
     de fechar os olhos sobre nossa interpretao do contexto econmico, poltico e social desse movimento.
     Consultar P. D. Curtin, 1975, p. 50.
328                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



queda do poder dos satigi foi macia e violenta. No Waalo, o brak Fara Kumba
Mbodji resistiu bravamente, mas foi subjugado pelo nmero de seguidores do
movimento dos marabutos, recrutados no interior do Futa Toro. Sua morte,
durante esse combate, permitiu ao partido dos marabutos instalar-se e nomear
um brak fantoche, Yerim Kode, de extrao real. Este aceitou as condies do
sistema teocrtico implantado por Nsir al-Dn16.
    No Cayor, a tradio oral  mais explicita no que diz respeito s circunstn-
cias do sucesso do movimento dos marabutos, o qual se aproveitou amplamente
da crise poltica no seio da aristocracia. Nesse caso, tal movimento dirigido
pelo Xaadi abraou a causa da Linger, Yaasin Bubu, destituda de seu ttulo
pelo novo damel, Decce Maram Ngalgu, em proveito de sua me. Yaasin Bubu
converteu-se ao Isl, dando assim o exemplo a uma parte da classe dirigente
(garmi) e a sua clientela. Casou-se com o marabuto Njaay Sall que matou Decce
Maram Ngalu, e ela instalou outro soberano no poder, Mafaali Gey, ele tambm
convertido ao Isl por mera ambio poltica. Mas, pouco tempo depois, foi a
vez de Mafaali ser morto, por no ter respeitado as leis cornicas. O assassino,
Njaay Sall, proclamou-se ento vice-rei no quadro do movimento "tubenan" de
Nsir al-Dn. O assassinato de Mafaali acarretou uma ciso no movimento dos
marabutos. Os garmi, ao perder a possibilidade de ascender ao trono do Cayor,
recorreram ao buur saalum, Maxureja Joojo Juuf17.
    Mas, em 1674, o declnio do movimento foi precipitado pela morte de Nsir
al-Dn, quando de uma batalha contra os guerreiros hasaniyya na Mauritnia, e
motivado tambm pelas contradies internas dos vice-reinos dos Estados do rio
Senegal. Tal declnio permitiu aos franceses  cujas atividades comerciais foram
praticamente suspensas at a completa derrota do movimento dos marabutos,
em 1677  intervirem de forma direta para apoiar militarmente as aristocracias
decadas do Futa Toro, do Waalo, do Cayor e do Jolof. Esta reao tem diversas
explicaes. Em primeiro lugar, os franceses queriam impedir a consolidao,
no vale do rio Senegal, de um amplo conjunto poltico que, sob o manto do Isl,
poderia doravante impor suas condies comerciais. Desejavam tambm resta-
belecer o trfico de escravos, na medida em que  imprescindvel  prosperidade
das plantaes do Novo Mundo e, portanto, ao comrcio triangular. Por terem
plena conscincia da ameaa direta do movimento dos marabutos sobre seus
interesses, os franceses de Saint-Louis concederam apoio militar e financeiro


16    B. Barry, 1972, pp. 137-142. Nesse livro, nossa anlise do movimento no Waalo foi mal interpretada, em
      razo de uma infeliz confuso com os eventos do Cayor.
17 L. G. Colvin, 1974, pp. 587-589; M. Diouf, 1980, pp. 122-123.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                                   329



s diferentes aristocracias decadas, a fim de ajud-las a reconquistar o poder18.
Apesar de to evidente testemunho por parte de Chambonneau, Philip D. Cur-
tin, com o pretexto de "descolonizar a histria africana", tende a negar qualquer
interferncia entre a presena europia e a evoluo das sociedades senegambia-
nas, por ele estudadas isoladamente19. Para defender seus principais interesses,
os franceses ofereceram um apoio logstico ao Brak de Waalo, Yerim Kode, que
abandonou o partido dos marabutos no Futa Toro, no Jolof e no Cayor. Assim,
em 1677, o movimento encontrou-se quase eliminado, para proveito das antigas
aristocracias, restabelecidas em suas prerrogativas. O fracasso dessa primeira
reao popular contra o trfico negreiro e a arbitragem dos poderes estabelecidos
teve consequncias duradouras sobre a evoluo dos reinos da Senegmbia.
    Na Mauritnia, fonte do movimento, a derrota dos marabutos berberes
garantiu a perenidade do poder poltico dos guerreiros hasaniyya que fundaram
os emirados do Trarza e do Brakna. A partir do sculo XVIII, a presso militar
dos hasaniyya sobre os Estados do lado esquerdo do rio Senegal foi constante,
em virtude da intensificao do comrcio da goma, o que permitiu aos mouros
participar, desde ento de forma lucrativa, do comrcio atlntico. A guerra dos
marabutos  conhecida, nos textos europeus, como o movimento tubenan, e nas
crnicas berberes, como shurbuba  teve consequncias mais slidas do que o
movimento almorvida, surgido na mesma regio, no sculo XI.
    O movimento almorvida lanara-se pela conquista do norte, ao passo que o
movimento de Nsir al-Dn dirigira-se rumo ao sul. Apesar de seu fracasso, este
ltimo influenciou, doravante, a firme orientao dos berberes do Chamama,
atrados pelo comrcio atlntico, na direo do vale do rio Senegal. Estes parti-
ciparam cada vez mais da histria poltica, econmica e religiosa da Senegmbia.
Por um lado, os emirados do Trarza e do Brakna envolveram-se na violncia

18   Chambonneau, que presenciou os acontecimentos, descreve claramente a participao da feitoria de
     Saint-Louis na aniquilao do movimento dos marabutos. Durante a primeira campanha, entre maio
     e o 20 de junho do ano de 1674, de Muchin obteve o apoio dos chefes do Waalo e subiu novamente
     60 lguas rio acima, nos primeiros dias de julho de 1674, com "os mesmos navios, e outros menores, de
     tal forma que a frota, por ser mais potente do que a primeira vez, amedrontou todos os negros que a
     avistaram [...]. Esta armada naval regressou um ms e meio depois, e quando chegou, no ms de agosto,
     foi recebida com salvas de fogos e atrao [...]". C. I. A. Ritchie, 1968, pp. 345-346.
19   Eis o maior defeito do livro, por outro lado muito bem documentado, de Philip D. Curtin sobre a Sene-
     gmbia. Nunca tentei negar a dinmica interna prpria das sociedades africanas, mas quis afirmar que
     sua evoluo foi, desde o sculo XV, cada vez mais determinada pela presena europia. Tal presena
     incorporou a frica ao sistema capitalista ento em formao, inaugurando seu processo de dependncia.
     Dependncia esta que prossegue ainda hoje, e, como no passado, graas  aliana do capital estrangeiro
     com as classes dirigentes africanas. Mesmo que sob o pretexto de "descolonizar a histria da frica",
     no se pode negar essa evidncia, a no ser com o objetivo de perpetuar a dependncia da frica. Ler,
     a esse respeito, a resenha de P. D. Curtin em B. Barry, 1972 (P. D. Curtin, 1973b).
330                                                              frica do sculo xvi ao xviii



generalizada entre os Estados do vale do Senegal; por outro, os marabutos
zwwiya continuaram estreitando suas relaes com os partidos de marabutos
instalados nos reinos de Senegmbia, participando assim da contestao, pelo
vis do Isl, dos poderes militares. A partir do fim do sculo XVII, o Chamama
era parte integrante da Senegmbia.
    Essa longa guerra dos marabutos desencadeou, em toda regio, uma srie de
ciclos de fome, bem como a represso aos muulmanos, o que levou a um aumento
considervel do comrcio de escravos, em favor da feitoria de Saint-Louis e da
aristocracia triunfante. Dessa forma, a derrota dos marabutos garantiu a continui-
dade da expanso comercial de Saint-Louis com a cumplicidade da aristocracia,
nica beneficiria das vantagens do comrcio atlntico. A Frana, em Saint-Louis,
afastara definitivamente o perigo da criao de um amplo conjunto poltico que
poderia ter-lhe imposto suas condies comerciais no vale do rio Senegal.
    A pulverizao poltica acentuou-se em razo tanto das guerras civis em prol da
conquista do poder como daquelas que opunham os diferentes reinos, a fim de ali-
mentar o comrcio de escravos. O uso de armas de fogo generalizou-se, e os poderes
autocrtico e militar impuseram-se em todos os reinos, sendo os sebbe ou os cativos
da coroa usados como instrumento do arbtrio das aristocracias no poder. Entre-
tanto, a vitria de Saint-Louis reforou a contradio entre a aristocracia e o resto do
povo, cada vez mais voltado para o Isl que, a partir de ento, constituiria o principal
movimento de oposio aos regimes instalados no conjunto da Senegmbia.
    Desde essa poca, numerosas famlias ligadas ao movimento dos marabutos
deixaram as regies costeiras e o vale do rio Senegal para se refugiar no inte-
rior, particularmente no Bundu e no Futa Djalon, onde tentaram consolidar a
autonomia das comunidades muulmanas. As revolues muulmanas dessas
duas regies, no comeo do sculo XVIII, marcaram assim o triunfo do Isl
militante, como reao s consequncias do trfico de escravos. Dessa forma, a
oposio entre as teocracias muulmanas e os reinos dos sebbe dominou a hist-
ria da Senegmbia ao longo do sculo XVIII, que  o apogeu da era do trfico
negreiro transatlntico.


      O impacto do trfico negreiro: poder ceddo e revoluo
      muulmana no sculo XVIII
   Ao longo do sculo XVIII, todo comrcio atlntico e, mais especificamente,
o trfico negreiro acentuaram a crise poltica, econmica e social dos Estados
da Senegmbia.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                               331



   Nessa atmosfera de violncia generalizada, os aristocratas sebbe reforaram
seu carter guerreiro e impuseram a centralizao do poder monrquico graas
ao apoio dos escravos da coroa. Em reao  imposio da aristocracia, as comu-
nidades muulmanas constituram enclaves no interior dos Estados, bem como
organizaram as revolues do Bundu, do Futa Djalon e do Futa Toro.

     A consolidao do poder ceddo e as crises polticas
    Os reinos wolofes do Kayor, do Bayol e do Waalo, assim como os reinos
sereres do Siin e do Saalum evoluram tambm no sentido da consolidao e
da centralizao do poder monrquico.
    O Cayor, sob o reinado de Lat Sukaabe Fall, representou, sob todos os
abetos, o perfeito exemplo da evoluo de um regime ceddo para um regime
autocrtico, smbolo do advento dos senhores da guerra na Senegmbia. Lat
Sukaabe Fall (1695-1720)  considerado pela tradio como um usurpador
que se aproveitou dos distrbios para unir as coroas do Bawol e do Cayor, sob
o ttulo de damel-teen. Ele imps o monoplio real sobre a venda de escravos
e a compra de armas de fogo, e, por isso, reforou o poder monrquico ao
eliminar os ramos reais dorobe e gelowar em proveito de sua meen (famlia
materna), os Geej. Favoreceu seus partidrios no seio das linhagens detentoras
de cargos hereditrios e multiplicou as alianas matrimoniais, no intuito de
criar uma ampla rede de clientela que doravante constituiria um componente
permanente da vida poltica.
    Lat Sukaabe implantou uma verdadeira reforma das instituies a fim de
garantir a integrao dos marabutos ao sistema poltico, pois sabia muito bem
do perigo que o movimento dos marabutos representava desde a poca de Nsir
al-Dn. Nomeou os serin lamb (detentores das novas jurisdies) de tal forma
a atrair os ramos caulas do partido dos marabutos. De origem garmi ou doomi
Buur, os serin lamb tornaram-se agentes do poder central, encarregados da defesa
das fronteiras, e adotaram rapidamente os costumes militares do partido ceddo
no poder. Por sua vez, os serin jakk recusaram qualquer compromisso com o
poder ceddo e, alm de dedicarem-se s atividades religiosas e ao ensino, conti-
nuaram a polarizar o descontentamento das massas camponesas submetidas ao
esplio da aristocracia ceddo20.


20   As reformas particularmente interessantes de Lat Sukaabe Fall foram evidenciadas por Lucy Colvin e
     amplamente explicitadas por Mamadou Diouf e Abdoulaye Bara Diop. Consultar L. G. Colvin, 1974,
     pp. 587-597; M. Diouf, 1980, pp. 124-130; A. B. Diop, 1981, pp. 167 e 226.
332                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




Figura 10.5 Um chefe wolof em seu lar. Desenho feito ao vivo por E. de Brard. Fonte: Le tour du monde,
Paris, Hachette, 1861, vol. III.  Hachette, Paris.




    Todavia, a consolidao do poder central e, em particular, de sua linhagem
geej atrapalhou consideravelmente os interesses do comrcio francs, na medida
em que Lat Sukaabe Fall,  frente do Cayor e do Bawol, pde, a partir de ento,
impor seus preos s feitorias de Gore, Rufisque e Portudal. Ele tambm foi
partidrio do livre comrcio com as naes europias. Em 1701, mandou pren-
der Andr Bru, o Diretor Geral da Companhia do Senegal, pois este queria
impor o monoplio comercial da Frana nesta zona em detrimento dos ingleses
da Gmbia21.
    O reinado de Lat Sukaabe foi particularmente interessante por ter verda-
deiramente marcado o advento dos senhores da guerra nos reinos wolofes e
sereres. Esse monarca se imps graas a sua habilidade em resolver, em proveito
prprio, os conflitos polticos internos, e tambm graas ao monoplio real
sobre as importaes de armas. Contudo, quando da sua morte, os franceses
aproveitaram-se da crise de sucesso para impedir, por qualquer meio, a reuni-
ficao do Cayor e do Bawol sob a autoridade de um nico soberano, como foi


21    J. Boulgue, 1968, pp. 171-193.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                          333



caso do reinado de Maysa Ten Wejj, em 1736. Ale disso, os conflitos de sucesso
entre os soberanos do Cayor e aqueles do Bawol constituram a maior fonte
de abastecimento de escravos, estimulando, por conseguinte, o fornecimento
de armas a esses novos senhores da guerra que reinavam sem partilha sobre os
reinos wolofes da costa22.
    O Waalo representa outro exemplo contundente dessa crise poltica e social
causada pela interveno regular dos franceses de Saint-Louis na luta de suces-
so que ops as trs famlias reais: os Tejek, os Loggar e os Joos. Tal poltica
intervencionista ocorreu em um momento em que a conjuntura econmica
estava se transformando, em funo da importncia crescente do comrcio da
goma. Com efeito, a partir do incio do sculo XVIII e motivado pelas necessi-
dades da indstria txtil europia, o comrcio da goma  at ento monopoli-
zado pelos mouros dos emirados do Trarza e de Brakna  ajudou os franceses,
no somente para solucionar a crise econmica do fim do sculo XVII, como
tambm a exercer uma presso constante sobre os reinos do vale do Senegal. O
Waalo, o Cayor, o Jolof e o Futa Toro foram os ltimos a sofrer as consequn-
cias dessa nova contradio, criada pelo desejo dos franceses de atrair, para seu
benefcio exclusivo, o comrcio da goma para as feitorias do rio Senegal. Tal
vontade era ditada pela forte concorrncia exercidas pelos holandeses e ingleses
sobre os franceses, principalmente nas escalas de Arguin e Portendick, na costa
mauritana. De 1717 a 1727, essa concorrncia deu origem  primeira guerra da
goma cujas consequncias foram duradouras, principalmente no desenvolvi-
mento do reino do Waalo,23.
    Dessa forma, aps o fracasso da expedio de Rigaudire, em 1723, visando
recuperar as feitorias mauritanas, at ento nas mos dos holandeses, Bru,
o comandante da feitoria de Saint-Louis, buscou formar uma aliana com o
Beccio Malixuri, kangam (chefe de provncia) de Roos Beecio. O objetivo de tal
aliana era levar Alichandora, o emir do Trarza, a entregar o forte de Arguin aos
franceses, assim como de contrabalanar a hostilidade do Brak do Waalo e do
Damel do Cayor para com a feitoria de Saint-Louis. Com o apoio desta, Mali-
xuri rebelou-se em 1724 contra o Brak do Waalo, Yerim Mbanik. Essa tentativa
de separao era representativa da poltica dos franceses de Saint-Louis, que
tinha por objetivo o desmembramento poltico dos Estados, a fim de melhor
defender seus prprios interesses24.

22   C. Becker e V. Martin, 1975.
23   A. Delcourt, 1952, p. 240.
24   B. Barry, 1972, pp. 186-189.
334                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Alm disso, a partir do fracasso da mediao entre a feitoria de Saint-Louis
e Alichandora, Malixuri perdeu o apoio da Companhia do Senegal, precipitando
assim sua derrota diante do brak Yerim Mbanik. Este ltimo, com um exrcito
de 200 a 300 cavaleiros e 3.000 infantes  dos quais metade usava armas de
fogo  tornou-se, em 1734, um dos mais poderosos reis da regio. Por isso seus
sucessores, os dois irmos Njaag Aram Bakar (1733-1757) e, sobretudo, Naatago
Aram Bakar (1756-1766), conseguiram exercer sua hegemonia sobre os reinos
vizinhos, principalmente no Cayor, nesta poca, arruinado pela fome e por sete
anos de guerra civil. Eles reivindicaram ento a posse da totalidade do territrio
situado nas proximidades do esturio do Senegal, tentando, tambm, apoderar-
-se dos tributos pagos por Saint-Louis ao Damel.
    A manifestao poltica de hegemonia do Waalo foi abalada pelos ingleses,
quando estes ocuparam Saint-Louis a partir de 1758. At ento, o Brak Naatago
Aram, cujo poder provinha do controle da via de acesso ao comrcio, assediara
constantemente os ingleses. Por desempenhar o papel de porteiro do rio, o Brak
Naatago Aram exigiu vrias vezes o aumento das taxas e do preo dos escra-
vos. Em 1764, por duas vezes, bloqueou as trocas comerciais de Saint-Louis
e interditou o acesso, pelo Waalo,  parte do rio acima. Os ingleses reagiram
e disponibilizaram sua ajuda ao Damel do Cayor, Makoddu Kumba Jaaring,
que conseguiu, no ms de agosto de 1765, resgatar a maior parte de territrio
anexado pelo Waalo.
    O governador ingls O'Hara, aps ter pensado, por algum tempo, na cons-
truo de um forte no continente para garantir a segurana do comrcio de
Saint-Louis, aproveitou-se da morte de Naatago Aram com o objetivo de arran-
car definitivamente o poder do Waalo. Animados pela manifesta vontade de
angariar da regio o maior nmero possvel de escravos para suas plantaes do
Caribe, os ingleses forneceram armas aos mouros, que ento invadiram todo o
vale do Senegal. Em 1775, apenas no reino do Waalo, os ingleses conseguiram
mais de 8.000 escravos em menos de seis meses. Nesta poca, a abundncia de
escravos no mercado de Saint-Louis era tal que um escravo no valia mais do
que uma pea de roupa25.
    Essa hemorragia humana coincidiu com o incio de uma longa guerra civil
de mais de vinte e nove anos, durante a qual as duas famlias reais, Loggar e
Joos, tentaram recuperar o poder, monopolizado pela famlia Tejek desde o incio
do sculo XVIII. De fato, a ascenso dos dois irmos Aram Bakar ao trono do


25    Ibidem, pp. 208-210. 
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                               335




Figura 10.6   Guerreiro do Waalo. Fonte: Le tour du monde, Paris, Hachette, 1861, vol. III.  Hachette,
Paris.
336                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Waalo simbolizou o triunfo da matrilinhagem tejek sobre as duas outras matri-
lhagens joos e loggar, segundo um processo idntico quele que deu origem ao
monoplio geef no Cayor.
    Contudo, o reino Waalo foi submetido desde cedo  presso dos mouros
trarza, cada vez mais poderosos por conta da importncia da goma. Estes inter-
vieram regularmente nas disputas de sucesso que arruinaram por completo o
poder desse reino, desde ento incapaz de ter uma poltica independente e de
gerar uma dinmica interna capaz de favorecer a emergncia de verdadeiros
senhores da guerra, da envergadura de Lat Skabbe Fall.
    Os reinos sereres do Siin e do Saalum passaram por uma evoluo simi-
lar quela dos reinos wolofes. Entretanto, a histria do Siin foi marcada pela
estreiteza de suas fronteiras e pelo contexto global de violncia, obrigando-o
a se fechar sempre mais s influncias externas e a praticar uma agricultura
extensiva, para conservar sua coeso. O Buur siin instaurou, contudo, uma forte
centralizao administrativa, a fim de controlar os sax-sax, nomeados em cada
localidade pelo poder central. Por outro lado, em funo do carter cosmopolita
de sua populao e, sobretudo, da sua posio vantajosa no eixo do rio Saalum,
a evoluo do Saalum foi assaz diferente. As ricas salinas garantiram assim ao
Buur suficientes rendimentos para poder participar do trfico de escravos e
tambm para permitir a expanso do Saalum rumo  Gmbia26.
    O Futa Toro, sob o regime dos denyanke desde a chegada de Koly Tengella,
passou por uma evoluo idntica quela dos reinos wolofes, ou seja, perma-
nentes e violentos conflitos entre os pretendentes ao trono e, sobretudo, o uso
macio de armas de fogo. A crise poltica endmica favoreceu a frequente inter-
veno dos mouros e da feitoria de Saint-Louis, preocupada, antes de mais nada,
em satisfazer suas necessidades em escravos e goma.
    Desde o incio, a ausncia de regras precisas de sucesso dos satigi favoreceu
a guerra entre os diferentes pretendentes, assim como as vrias usurpaes pos-
sibilitadas pela fora dos chefes de guerra sebbe. Em tal contexto de violncia,
Bubakar Sire pediu, em 1716, o apoio dos marroquinos, dando -lhes, assim,
oportunidade para que estes interferir na vida poltica do Futa Toro, doravante
obrigado a pagar o muudul horma (imposto cerealfero)27. Alm disso, o Futa
Toro participou diretamente da luta que ops Alichandora e os emires do Trarza
e do Brakna. Esta situao deu origem  interveno crescente do Marrocos, que


26    M. A. Klein, 1968, pp. 26-29.
27    O. Kane, 1974, p. 245.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                          337



acabou mandando suas tropas, os famosos Orman, para resolver os conflitos do
vale do rio Senegal, do Waalo at o Gajaaga.
    De fato, em 1720, Alichandora, expulso e destitudo pelos poderosos vizinhos
do norte  os Ulad Dellim  pediu ajuda ao Sulto do Marrocos. Queria pr fim
 hegemonia do Brakna no sul da atual Mauritnia, ao passo que o Shrf alme-
java, na realidade, o reconhecimento de sua suserania sobre os emirados mouros
do sul do Marrocos. Mas os Orman, com 5.000 homens  segundo Saint-
-Robert , no obedeceram s ordens e arrasaram todos os pases ribeirinhos.
Eles terminaram por se dividir em duas faces: uma delas aliou-se ao Trarza, a
outra ao Brakna. Alichandora, derrotado em 1722 pela faco aliada ao Brakna,
refugiou-se junto ao beccio Malixuro, no Waalo. Durante essa primeira metade
do sculo XVIII, os Orman participaram ativamente das numerosas crises de
sucesso do Futa Toro. Houve assim, entre maio de 1721 e dezembro de 1724,
uma enorme confuso, uma vez que Bubakar Sire e Bubu Ms se sucederam
numa rapidez vertiginosa no trono dos satigi, at o momento em que o lendrio
Samba Gelaajo Jeegi apropriou-se do poder, em 1725, com a ajuda dos Orman
de Gady e do comandante do forte Saint-Joseph28.
    Samba Gelaajo Jeegi (1725-1731) foi o prottipo do senhor da guerra cujas
faanhas, temeridade e coragem alimentam at hoje as narrativas dos griots do
Futa Toro. Sambayel mo Lamotoko [o pequeno samba que no reina] (por ter
usurpado o poder pela fora, sem ser entronizado) com sua famosa gua, Umu-
latum, e seu fuzil, Bubu Lowake (bubu significa que no  necessrio carreg-lo)
simbolizaram, sob todos os aspectos, a violncia da vida poltica no Futa Toro.
    Samba Gelaajo Jeegi foi o chefe ceddo por excelncia que, com seu exrcito de
sebbe munido de armas de fogo, levou a cabo quarenta e cinco batalhas durante
seu reinado, ao som dos bawdi peyya yiyan (tambores de sangue) e dos dadde
yiyan (cantos de guerra ou cantos de sangue)29.
    Sua epopia, ainda maravilhosamente cantada no Futa Toro, foi evocada de
forma magnfica nas duas verses publicadas por Amadou Ly e Amadou Abel
Sy30. Esta evocao potica da gesta ceddo atravs da epopia de Samba Gelaajo
Jeegi  ainda hoje entoada pelos sebbe em seus cantos de guerra. O gumbala,
hino  bravura e  coragem, , antes de mais nada, o canto pico da morte,
no qual o ceddo assume seu destino de guerreiro, sua fidelidade aos ancestrais
e  tica de sua casta. Dessa forma, o que h de mais marcante no gumbala 

28   Ibidem, p. 246.
29   O. Kane, 1970b.
30   A. Ly, 1977; A. A. Sy, 1979.
338                                                           frica do sculo xvi ao xviii



a viril poesia composta de violncia e de morte, de cavalgadas fantsticas e de
desmedida. Trata-se de uma poesia macabra, um hino ao guerreiro, ao cavalo,
ao fuzil e  lana:

                  Aquele  o homem que dizia....
                  Pelas preces de minha me,
                  Pelas preces de meu pai,
                  No me mate, meu Deus, de uma morte vergonhosa,
                  Aquela de morrer em minha cama
                  Junto ao choro das crianas
                  E aos gemidos dos idosos31.

    Da mesma forma, os lenngi, apenas cantados pelas mulheres sebbe durante
os casamentos ou as circuncises, so cantos hericos evocando o desdm pela
morte e a salvaguarda da honra. Cant-los permite reafirmar o pertencimento
dos noivos  casta dos sebbe e lembr-los dos valores que devero perpetuar32.
Porm, essa epopia de Samba Gelaajo Jeegi encontra-se infelizmente evo-
cada fora de seu verdadeiro contexto histrico dominado pela violncia advinda
do trfico negreiro, contexto este que, ao fim e ao cabo, explica a emergncia
desse tipo de senhor da guerra, sustentado pela tica ceddo. Dois fatores podem
esclarecer a situao de violncia permanente do Futa Toro. O Marrocos, por
intermdio de seu exrcito de Orman, almejava controlar os emirados mouros
inseridos no circuito atlntico, graas ao comrcio de goma e escravos. Por sua
vez, a feitoria francesa de Saint-Louis estava presente em quase todo o rio Sene-
gal, com o principal objetivo de arrancar o maior nmero possvel de escravos da
regio. Todos esses fatores externos criaram um cenrio de instabilidade crnica
no Futa Toro, em que a aristocracia militar dos denyanke disputou constante-
mente o poder do satigi, contando com o apoio dos mouros e de seus aliados
orman, ou, ainda, dos franceses. Assim, Samba Gelaajo Jeegi, aliado aos mouros,
tentou em seguida se aproximar dos franceses de Saint-Louis, com o intuito de
abalar a tutela marroquina. Em 1725, pediu armas, plvora e balas em troca de
uma centena de cativos e solicitou  Companhia do Senegal a construo de um
forte em Jowol, sua capital. Melhor ainda, em julho de 1725, ele tentou proteger
os interesses franceses contra o esplio dos mouros. Talvez fosse essa aliana que


31    A. A. Sy, 1979, pp. 365-367.
32    Ibidem, pp. 438-439.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                                       339



lhe permitiu reinar sem interrupo no Futa Toro, de 1725 a 1731, apesar das
pretenses de seus dois rivais, Bubu Ms e Konko Bubu Ms33.
    Entretanto, por estarem longe de sua base de Saint-Louis, os franceses no
conseguiram pr um fim definitivo  presso exercida pelos mouros que, desde
essa poca, "tinham a negraria sob controle34".Alis, os franceses acabaram
manipulando algumas faces para atrapalhar Konko Bubu Ms e dar van-
tagem a seu aliado Samba Gelaajo Jeegi, exilado novamente em Bundu. Com
efeito, entre 1738 e 1741, este ltimo, cujo exrcito era constitudo por uma
faco de Orman, alistados por Saint Adon em troca de mercadorias, reconquis-
tou o poder frente a Konko Bubu Ms. Permaneceu, contudo, refm de seus
aliados orman e mouros; para se livrar da tutela destes, tentou em vo pleitear
junto aos franceses a construo de um forte em Jowol. Morreu pouco depois
em circunstncias misteriosas. Para a tradio, ele morreu segundo o ideal de
coragem do guerreiro ceddo, ou seja, pela mo traidora de sua mulher, comprada
por seus inimigos durante seu segundo exlio no Bundo: "Colocaste lalo em
minha refeio por causa da nossa discusso do outro dia. Sei que morrerei ao
comer essa refeio, mas a comerei mesmo assim. Nunca se dir que tive medo
da morte. Nunca recuo diante da morte e me afasto da desonra35."
    Pouco importam, alis, as circunstncias da morte de Samba Gelaajo Jeegin,
heri lendrio da violncia sacralizada neste Futa Toro minado pela guerra.
A partir de 1752, o novo satigi Sube Njaay, por sua vez, foi expulso por Yaye
Hoola, acompanhado por seus guerreiros que saquearam o Bundu, com a ajuda
do Xaaso e dos Orman. O Futa Toro parecia estar no fundo do abismo, pois os
satigi se sucederam em um ritmo frentico, o que favoreceu a dominao dos
mouros, em um pas que reuniria, a partir de ento, todas as condies para o
sucesso da revoluo muulmana de 177636.
    Desde o fim do sculo XVII, o Gajaaga, rio acima, integrou-se tambm ao
circuito do comrcio atlntico, aumentando consideravelmente as atividades dos
comerciantes soninke, na encruzilhada das trs regies ecolgicas da Senegm-

33   O. Kane, 1974, pp. 246-247.
34   Ibidem, p. 248.
35   O. Kane, 1970b, p. 924.
36   " sempre o mesmo o que se pode dizer a respeito do pas dos Fula. Ele  sempre o alvo dos mouros e
     no se presta mais ateno s revolues que l ocorrem, pois elas no influem em nada na situao do
     pas. Pagamos o tributo habitual ao rei que se embutira no lugar. Tudo se passa muito bem." Arquivos
     nacionais da Frana, Col. C6-16, Lettre du Conseil suprieur du Sngal, 25 juillet 1752. "O pas dos Fula
     mudou de rei. No h nada mais a ser dito, pois no interessa sobre qual cabea cair a coroa, uma vez
     que todo poder esta na realidade nas mos dos mouros." Arquivos nacionais da Frana, Col. C6-14,
     Lettre du Conseil suprieur du Sngal, 20 juin 1753.
340                                                          frica do sculo xvi ao xviii



bia, ou seja, a costa, a savana e o Sahel. O comrcio soninke fazia do Gajaaga
o principal fornecedor, tanto de sal e de mercadorias europias para os pases
do Arco do Nger, quanto de tecidos de algodo para a Senegmbia ocidental.
Porm, apesar dessa dinmica, o pas, tal como o Futa Toro, sofreu uma crise
poltica e social ligada ao trfico negreiro e  invaso dos Orman. A crise pol-
tica  que comeou por volta de 1700, com disputa entre o Tunka, Naame de
Maxanna, e seu primo, Maxan de Tamboukane, na provncia do Kammera 
prolongou-se, em 1730, com a guerra entre o Gwey e o Kammera, provocada
pela deposio do tunka Muusa Jaabe de Ciaabu em favor de Bukari Sette de
Maxanna, proclamado nesta ocasio chefe da confederao do Gajaaga.
    Essas tenses multiplicaram-se e levaram, entre 1744 e 1745, a uma srie de
guerras civis que destruram para sempre a unidade da Confederao soninke,
favorecendo, assim, em 1750, a invaso do pas pelo Xaaso, aliado aos bambara
do Kaarta. O invasor xaasonke foi repelido, mas o Gwey e o Kammera acabaram
enfraquecidos por interminveis disputas, e o futuro da confederao do Gajaaga
encontrou-se comprometido de forma duradoura37.
    H escassas informaes acerca da evoluo do reino do Kaabu, que domi-
nou a Senegmbia Meridional at o triunfo da revoluo muulmana do Futa
Djalon. O poder do Kaabu, ainda significativo aps o sculo XVIII, fundava-se
no comrcio de escravos, fato que reforou consideravelmente o carter guerreiro
do Reino nanco. Por volta de 1738, o Mansa do Kaabu entregou 600 escravos
por ano, unicamente para os portugueses, enquanto a regio dos rios do Sul, sob
controle kaabunke, exportava milhares de cativos. O Kaabu firmou ento sua
autoridade nas provncias costeiras, enquanto espoliava seus vizinhos do interior,
bajaranke, fulakunda, koniagui e bassari. Tendo Bara Mansa falecido por volta
1705, o Kaabu, agora dirigido pela aristocracia nanco, parecia estar no auge de
seu poder. Porm, o estado de guerra permanente consolidou, ao mesmo tempo,
as posies tanto dos khorin (chefes de guerra em nvel provincial), quanto dos
guerreiros sonike, famosos pelo consumo abusivo de dolo (lcool). Nesse caso,
tambm, como revelaria a crise poltica do sculo XIX, as disputas entre as trs
linhagens reais de Sama, Pacana e Jimara deram lugar a mltiplas guerras civis,
visando impor um poder central nico no reino. Tal conjuntura, atestada no
sculo XIX por abundante documentao, explicou o sucesso das guerras san-
tas fomentadas a partir do Futa Djalon e do Bundu, bem como das revolues
muulmanas internas contra o Estado soninke do Kaabu38.

37    A. Bathily, 1975.
38    M. Man, 1978, p. 128.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                         341



    As revolues muulmanas do sculo XVIII
    Na segunda metade do sculo XVII, a derrota militar do movimento mara-
buto de Nsir al-Dn foi seguida pela intensificao da ao clandestina do Isl
contra o poder ceddo e, tambm, pelas desastrosas consequncias do trfico de
escravos em toda regio da Senegmbia.
    No interior dos Estados controlados pelas poderosas aristocracias militares,
as comunidades muulmanas reforaram-se, conquistando progressivamente sua
autonomia poltica e social sob a direo de influentes familias de marabutos.
Cada vez mais, essas comunidades muulmanas  ligadas entre si para alm
das fronteiras nacionais, em funo de vrios vnculos religiosos, polticos e
econmicos  tentaram ora criar novos Estados, ora tomar o poder atravs da
violncia e da proclamao da guerra santa.
    Assim, a partir do fim do sculo XVII, Maalik Sy fundou a teocracia
muulmana do Bundu, seguida, no incio do sculo XVIII, pela revoluo
muulmana do Futa Djalon liderada por Karamokho Alfa. Aps o sucesso
dos muulmanos nesta regio situada nas fronteiras da Senegmbia, foi pre-
ciso esperar a segunda metade do sculo XVIII para assistir ao triunfo do
partido marabuto torodo, liderado por Sulaymn Baal, no Futa Toro, bastio
do regime denyanke. Este triplo sucesso revelou tanto a continuidade quanto
a solidariedade do movimento dos marabutos em toda regio da Senegmbia,
cuja histria ser, a partir de ento, dominada pela luta entre as teocracias
muulmanas e o poder ceddo.

    A revoluo muulmana no Bundu
    A represso imposta aos marabutos aps a derrota de Nsir al-Dn pro-
vocou a sada macia de um grande nmero de muulmanos do Futa Toro
rumo ao Bundu, onde Maalik Sy fundou, por volta de 1690, a primeira teo-
cracia muulmana nos confins da Senegmbia. Maalik Sy foi sem dvida um
seguidor do movimento dos marabutos e fez parte desta pliade de lderes
muulmanos educados em Pir ou em Kokki, no Cayor, em ligao estreita
com os berberes zwiya.
    Nascido em Suyuma, perto de Podor, Maalik Sy, aps ter terminado sua edu-
cao religiosa, viajou pela Senegmbia para se estabelecer finalmente no limite
do Gajaaga, com a autorizao do Tunka de Ciaabu. Entretanto, tal aliana,
firmada entre Maalik Sy e o Tunka, que lhe concedia assim uma concesso
territorial tal como reza a tradio do Jonnu, foi rapidamente rompida devido 
342                                                          frica do sculo xvi ao xviii



posio estratgica do Bundu no fim da rotas comerciais da Gmbia39. De fato,
Maalik Sy, instalado nesta regio cosmopolita onde conviviam bajaranke, konia-
gui, bassari, jaxanke, soninke e numerosos fulbe vindos do Futa Toro, aproveitou-
-se da fraqueza do Gajaaga para proclamar a guerra santa. Criou assim o Estado
teocrtico do Bundu, graas a seu prestgio religioso e  organizao militar, por
ele implementada com o apoio dos muulmanos vindos em sua maioria do Futa
Toro, aps a derrota do movimento dos marabutos40.
    Maalik Sy abraou a causa dos marabutos jaxanke, que tinham os interesses
comerciais constantemente ameaados pelos esplios da aristocracia militar do
Gajaaga. O partido muulmano tomou ento o controle da regio de Falm
cuja importncia comercial e riqueza agrcola constituiriam, no decorrer dos
sculos seguintes, o fundamento da potncia da dinastia sisibe41. Maalik Sy
tomou, por sua vez, o ttulo de almamy, uma deformao, em lngua fulfude, de
al-imn, ttulo j usado por Nsir al-Dn.
    Philip D. Curtin evidencia as ligaes religiosas e familiares existentes entre
o movimento de Nsir al-Dn e a revoluo do Bundu. Maalik Sy, mesmo
no participando diretamente da guerra dos marabutos, foi, de todo modo, um
fervoroso defensor, tendo realizado parte dos objetivos polticos e religiosos do
partido dos marabutos42.
    Apesar da falta de documentao para explicar as causas do sucesso dessa
primeira revoluo muulmana, fica claro que as comunidades muulmanas bus-
caram implantar-se longe da costa, nos confins da Senegmbia, a fim de escapar
da poltica de opresso do poder ceddo. O destino do Bundu esteve desde ento
ligado ao das comunidades muulmanas do Futa Toro e do Futa Djalon, aos
quais servia como intermedirio. Notoriamente bem situado nas rotas comer-
ciais, ligando o Arco do Nger s feitorias da Gmbia, o Bundu consolidou-se
progressivamente sob a dinastia dos sisibe, em detrimento do Gajaaga43.

      A revoluo muulmana no Futa Djalon
   A vitoriosa revoluo muulmana do Bundu foi seguida, alguns anos mais
tarde, pela revoluo do Futa Djalon, ocorrida em condies quase similares.


39    A. Bathily, 1975, pp. 57-59.
40    P. D. Curtin, 1971a, pp. 20-22.
41    A. Bathily, 1975, p. 58.
42    P. D. Curtin, 1971a, p. 22.
43    S. Diagne, 1975, p. 1.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                            343



O destino do macio montanhoso do Futa Djalon  obstculo natural que se
tornou, ao longo dos sculos, o refgio dos jallonke, dos sos e dos fulbe  foi
completamente abalado no decorrer dos sculos XVI e XVII. Com efeito, a inva-
so de Koly Tengella e, sobretudo, o avano do comrcio atlntico provocaram,
desde cedo, uma potente aculturao, acelerando simultaneamente o movimento
dos habitantes do Sudo rumo  floresta ou  costa, o que fez dos altos plats
do Fouta Djalon um lugar de trnsito privilegiado. Por outro lado, tal interseo
foi economicamente revalorizada graas  existncia de um importante rebanho
pertencente aos pastores fulbe, atrados em grande nmero depois do sculo XV
pela abundncia de pastagens nos altos plats.
    O Futa Djalon, desde ento integrado ao circuito do comrcio atlntico,
foi palco de uma profunda transformao econmica, poltica e social, a qual
deu origem  revoluo muulmana do incio do sculo XVII. Walter Rodney
explica claramente o contexto econmico, poltico e social da revoluo de 1725,
e de que modo ela possibilitou a criao, pelo partido dos marabutos, do Estado
teocrtico do Futa Djalon. Ele mostra que apresentar a revoluo meramente
como uma luta entre os infelizes Fulbe seus senhores e exploradores Jallonke 
uma simplificao.
    De fato, os fulbe tornaram-se provavelmente, ao longo do sculo XVII, o
mais rico e poderoso grupo social do pas, graas  articulao de trs fatores.
Em primeiro lugar, o considervel crescimento da populao de origem fulbe
 oriunda do Bundu, do Futa Toro, do Macina e do Sahel, em busca de novas
pastagens. Em segundo lugar, a expanso do comrcio atlntico e o correlativo
aumento do comrcio de rebanho e do couro, reforando assim a posio eco-
nmica dos fulbe, tradicionais criadores de bovinos. Enfim, o surgimento do
militantismo islmico que serviu de ideologia para a construo de uma nova
ordem econmica, poltica e social44.
    A esse respeito, a revoluo muulmana do Futa Djalon, assim como a do
Bundu, aparece cada vez mais claramente como uma reao ao contexto de
violncia e s transformaes radicais criadas pelo trfico negreiro. Os lderes da
revoluo muulmana do Futa Djalon eram no somente oriundos do Macina,
como tambm do vale do rio Senegal onde haviam estabelecido ligaes estreitas
com o movimento marabuto de Nsir al-Dn.
    Philip D. Curtin e N. Levtzion explicitaram as ligaes religiosas, polticas
e matrimoniais existentes entre as diferentes famlias de marabutos do Futa


44   W. Rodney, 1968, pp. 274-276.
344                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Toro, do Bundu e do Futa Djalon45. A estrada que ligava o vale do rio Senegal
aos altos plats do Futa Djalon atravs da Falm constitui um dado perma-
nente da histria do povoamento da Senegmbia, o que ilustra muito bem o
itinerrio de Shaykh `Umar, no sculo XIX. O Bundu era o foco de transmisso
do movimento dos marabutos, que, embora derrotado no Futa Toro do sculo
XVII, triunfou no Futa Djalon, no incio do sculo XVIII, graas  participa-
o das diversas comunidades fulbe, mande e jaxanke da regio. Neste contexto
de captura de cativos organizada em grande escala pelo poderoso Estado do
Kaabu, a revoluo muulmana do Futa Djalon representou a vitria do partido
dos marabutos, cujo maior objetivo era garantir a segurana da comunidade
muulmana.
    Em sua essncia, essa revoluo muulmana estava longe de ser uma simples
guerra tnica opondo os pastores fulbe aos cultivadores jallonke sedentrios. A
tradio mostra bem o carter multitnico dessa revoluo, dirigida no incio por
doze marabutos fulbe e dez marabutos mandes, certamente de origem jaxanke.
Por outro lado, o movimento encontrou a oposio dos chefes de Kafu e dos
jallonke, bem como dos fulbe no muulmanos que viviam em zonas longnquas
com seu rebanho. Ficou claro que os fulbe muulmanos, desejosos de abolir os
impostos sobre o rebanho, se aliaram nesta circunstncia aos jula mande ou
jaxanke  cuja vocao comercial sempre fora associada  prtica do Isl  no
intuito de criar um amplo conjunto poltico que substitusse as pequenas chefias
jallonke, doravante incapazes de garantir a segurana da populao no contexto
do trfico negreiro.
    A revoluo muulmana no foi feita por pastores errantes e sem razes, mas
sim por muulmanos de todas as origens firmemente estabelecidos nesta zona
de refgio dos altos plats do Futa Djalon. O partido dos marabutos  cujos
membros, em sua maioria, haviam sido formados no famoso centro de ensino
jaxanke de Jaxaba, no Bafing  consolidou-se, de fato, graas  participao de
um grande nmero de fulbe, capazes de explorar seu importante rebanho em
um quadro que apontava para uma progressiva sedentarizao. O comrcio de
bovinos e de couro em direo  costa deu origem a seu poder econmico, ao
passo que o Isl proporcionou-lhes a ideologia necessria  construo de uma
nova ordem poltica e social.
    Dessa forma, aps a vitria do partido dos marabutos decorrente da guerra
santa provocada contra as diferentes aristocracias jallonke no poder, os lderes


45    P. D. Curtin, 1971a, pp. 21-22; N. Levtzion, 1971a.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                                          345




Figura 10.7 Mulher fulbe no Futa Djalon. Fonte: Institut fondamental d'Afrique noire (IFAN Cheikh
Anta Diop), Dakar. Foto: G. Labitte.




muulmanos criaram a confederao do Futa Djalon, pondo  sua frente lbrahima
Sambegu, conhecido como Karamokho Alfa, chefe da linhagem sediyanke da
famlia Barry de Timbo, com o ttulo de almamy. A Confederao era dividida
em nove provncias ou diwe (singular diwal) cujos chefes gozavam do ttulo de
346                                                          frica do sculo xvi ao xviii



alfa e eram escolhidos dentre os chefes da jihad. No incio, a diviso territorial
correspondia assim ao territrio libertado por cada um dos chefes da revoluo
muulmana. Assim, Karamokho Alfa, almamy e chefe da confederao do Futa
Djalon, era, antes de mais nada, o alfa do diwal de Timbo, a capital. Desde
o incio, o poder do almamy, baseado em Timbo, encontrava-se amplamente
limitado no s pela grande autonomia concedida aos chefes das provncias
de Lab, Buriya, Timbi, Kebaali, Kollade, Koyin, Fugumba e Fode Haaji, mas
tambm pela existncia de um conselho de ancios que desempenhava o papel
de parlamento em Fugumba, a capital religiosa46.
    A teocracia muulmana do Futa Djalon emergiu assim de uma srie de cam-
panhas militares que opuseram o partido dos marabutos aos chefes jallonke de
Kafu, os quais defendiam principalmente sua soberania poltica. Mas a guerra
santa, causa da vitria do partido dos marabutos, quando da famosa batalha de
Talansan, prolongou-se em razo da tentativa de converter ao Isl as comuni-
dades no muulmanas fixadas no interior do macio do Fouta Djalon. Neste
momento, os muulmanos encontraram uma forte oposio dos pastores nma-
des fulbe, que j ocupavam a regio h sculos e eram hostis ao Isl, para eles
sinnimo de sedentarizao e de controle poltico e econmico. Tal oposio
emanava daqueles que viriam a constituir, depois, a classe dos fulbe do interior,
na base da pirmide social, explorada pela classe dos marabutos no poder. A
mera existncia desse fato deveria pr fim a qualquer interpretao racial e
esquemtica da revoluo muulmana, como sendo o resultado de uma invaso
fulbe que submeteu os autctones jallonke. Tudo isso mostra no s a amplitude
das hostilidades ao longo do tempo, mas tambm a lentido com que se con-
solidou o regime teocrtico, obrigado a criar uma nova estrutura politiza para
substituir a do Jallonke Kafu, ao longo do sculo XVIII47.
    Com morte de Karamokho Alfa, por volta de 1751, o poder do almamy foi
entregue a Ibrahim Sory, conhecido como Sory Mawdo (Sory, o Grande). O
lder religioso da jihad cedeu ento o lugar ao comandante-em-chefe do exrcito
que, em nome da jihad, implementou no Futa Djalon uma poltica agressiva
contra os pases vizinhos. Na verdade, essa poltica dissimulava a maior caa de
escravos da poca, destinada a satisfazer as necessidades internas da aristocracia
no poder e, sobretudo, a demanda crescente dos negreiros da costa.
    Como no caso do reino do Daom ou da Confederao ashanti, no se pode
compreender a evoluo da histria do Futa Djalon fora do contexto global do

46    T. Diallo, 1972, p. 28.
47    N. Levtzion, 1975, p. 208.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                           347



trfico negreiro, dominante no comrcio transatlntico. Esses reinos, constitu-
dos de incio para reagir contra as desastrosas consequncias da caa de cativos,
consolidaram-se e acabaram participando de forma proveitosa de tal comrcio,
quer porque queriam se defender contra os reinos vizinhos, quer porque esta-
vam atrados pelo lucro. O Isl era apenas uma ideologia dentre vrias outras
destinadas a manter e consolidar o poder da autocracia instalada.
    Sory Mawdo engajou-se assim numa srie de guerras contra os pases vizi-
nhos, no intuito de espoli-los e deles obter escravos, com a ajuda do chefe do
reino jallonke do Solimana. Entretanto, a coligao foi derrotada em 1762 por
Konde Burama, rei do Sankaran que, em 1762, conseguiu ocupar Timbo, graas
ao abandono do Solimana. Foi necessria uma reao nacional para conter seu
exrcito na entrada de Fugumba, e s por volta de 1776 Sory Mawdo elimi-
nou definitivamente o perigo representado por Konde Burama. A derrota do
Sankaran inaugurou um longo perodo de dominao do Futa Djalon sobre o
Solimana, no leste de Timbo. Essa vitria consolidou consideravelmente o poder
do almamy Sory Mawdo que imps, at sua morte em 1791, a autoridade da
faco militar sobre a faco religiosa.
    O desaparecimento de Sory Mawdo deu origem a um perodo poltico contur-
bado. Seu filho Sadu foi assassinado, em 1797-1798, pelos seguidores de `Abdulay
Bademba, filho do primeiro almamy, Karamokho Alfa. Foi certamente nessa poca
que surgiu o sistema de alternncia no poder das famlias Alfaya  descendentes de
Karamokho Alfa  e Soriya descendentes de Sory Mawda. Tal diviso do poder,
com estruturas polticas semelhantes s dos reinos sebbe, com duas ou mais linha-
gens reais, enfraqueceu consideravelmente o poder central, permitindo tambm
ao Conselho dos Ancios, encarregado do respeito da shari`a, controlar o poder do
almamy, e possibilitando aos chefes de provncia consolidar sua autonomia.
    Apesar da fraqueza inerente a este sistema poltico, o reino do Futa Djalon
foi capaz de salvaguardar sua independncia at a poca da conquista colonial
e, at mesmo, de se estender alm de suas fronteiras. Todavia, o novo regime
perdeu seu carter revolucionrio aos poucos, uma vez que o partido dos mara-
butos, outrora uma segurana garantida no interior do macio do Futa Djalon,
se transformou em uma aristocracia religiosa e militar, participando ativamente
do trfico negreiro. Como em qualquer outro lugar, o comrcio de escravos
tornou-se monoplio de Estado, graas ao controle das rotas comerciais e da
organizao de caravanas rumo  costa. A predominncia do trfico negreiro
 um componente constante no sculo XVIII, j que os europeus se desinte-
ressaram por produtos tais como ouro, marfim e couros, dando preferncia aos
escravos. Thomas Winterbottom, em visita a Timbo em 1794, explica bem a
348                                                          frica do sculo xvi ao xviii



dinmica desse sistema de trfico negreiro, que obrigava os almamy a entrar em
guerra para obter os escravos, que constituam o nico produto que se poderia
trocar por mercadorias europias48.
    Desde ento, a guerra santa perdeu seu carter religioso, e o Isl serviu de
pretexto para a captura de cativos dentre os infiis das fronteiras do Futa Djalon.
A predominncia dos escravos nas trocas por produtos europeus explica o cunho
opressivo do novo regime. Com efeito, os no muulmanos eram maciamente
reduzidos  condio de escravo e vendidos na costa, ou simplesmente encarce-
rados em runde (vilas de escravos). A criao desses runde constituiu, ao longo do
sculo XVIII, a mais caracterstica instituio do novo regime do Futa Djalon49.
De fato, a intensificao do processo de escravido nacional servia no somente
para sustentar as necessidades alimentcias da aristocracia poltica e religiosa,
como tambm para atender  demanda, da parte dos navios negreiros, em cereais
destinados  alimentao dos escravos. Devido  sua localizao central entre os
Estados bambara e a costa, o Futa Djalon participava das razias ou comprava
escravos para sua produo interna e, ao mesmo tempo, vendia seu excedente na
costa, a fim de obter as mercadorias europias e o sal necessrios a sua economia
pastoral. Assim, no decorrer dos sculos XVIII e XIX, esse trfico levou ao Futa
Djalon um incalculvel nmero de escravos de todas as origens: bambara, kisi,
jallonke, fulbe, bassari e koniagui.
    Esta forte presena de escravos, que no se pode explicar fora do contexto
do trfico negreiro, contribuiu para falsear o estudo da evoluo interna do Futa
Djalon. Nesse sentido, vrios historiadores consideram que a histria desse
pas  apenas resultado da invaso macia dos fulbe, vindos para sujeitar os
antigos habitantes jallonke, invaso esta que teria envenenado o conflito que
opunha as duas etnias. Ora, parece claro que toda a evoluo interna do Futa
Djalon foi dominada pela constituio de uma sociedade hierarquizada, desi-
gual por natureza, baseada no Isl como ideologia do poder. Os muulmanos
distinguiam-se dos no muulmanos pelos direitos de homem livre, dos quais
os primeiros gozavam plenamente, ao passo que os segundos eram relegados a
um estatuto servil no seio da nova sociedade, regida pela shari`a. A dominao
da lngua e da cultura fulbe no deve velar a verdadeira dinmica da evoluo
interna, caracterizada pela existncia de classes sociais bem distintas e fundadas
na ideologia muulmana.


48    T. Winterbottom, 1803.
49    W. Rodney, 1968, pp. 280-282.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                          349



    Alm da distino fundamental entre rimbe (singular dimo, homens livres)
e maccube (escravos), dentro da sociedade dominante dos homens livres existia
uma hierarquizao que refletia, antes de mais nada, relaes de desigualdade
e explorao. Dentre os rimbe, distinguiam-se, no topo da hierarquia, os las li,
ou seja, a aristocracia do sabre e da lana e aquela do livro e do tinteiro. Essa
aristocracia, composta pelos descendentes das grandes famlias de marabutos
na origem da guerra santa, exercia um poder absoluto. Tratava-se ento de uma
classe poltica e religiosa que explorava no s seus inmeros vassalos e subor-
dinados, como tambm a maior parte dos escravos concentrados nos runde.
    A sociedade fulbe do Futa Djalon compreendia tambm a grande massa
dos homens livres, cuja condio dependia de seu posicionamento em rela-
o  classe poltica dominante, ou da classe de marabutos detentora do saber.
Assim, na base da pirmide social, encontravam-se os fulbe do interior, em
sua maioria descendentes dos fulbes tardiamente convertidos ao Isl depois da
jihad. Por quase no possurem escravos, esses fulbe trabalhavam na terra, tarefa
considerada impura pelos membros da aristocracia. Submetidos  vontade do
conjunto da classe dirigente poltica dos marabutos, sua nica riqueza consistia
no rebanho. Todavia, no decorrer do sculo XVIII, o crescimento da escravido
domestica, em estreito vnculo com o trfico atlntico, constituiu o principal
fator da evoluo das sociedades senegambianas. A concentrao de escravos
nos runde do Futa Djalon e na regio dos Rios do Sul era to importante que
se assistiu, no fim do sculo XVIII, a uma srie de revoltas escavas.
    Esse tipo de escravido foi, sem dvida, a origem da revoluo cultural do
Futa Djalon, a partir da qual a classe poltica dos marabutos, dispensada dos
trabalhos agrcolas, podia dedicar-se ao ensino. De fato, segundo o testemunho
de Winterbottom, que visitou Timbo em 1794, o novo regime incentivava
fortemente a implantao de escolas alcornicas em todo pas. A slida orga-
nizao poltica e social, doravante baseada na shari`a e a proibio da venda
dos muulmanos, poupou o Futa Djalon do triste espetculo da anarquia e do
despovoamento50. Isso explica o contraste entre o superpovoamento e a rela-
tiva escassez de recursos naturais desse macio montanhoso. Por conseguinte,
o reino teocrtico experimentou uma certa estabilidade, garantida pela classe
dirigente muulmana que, em seu benefcio, zelava pela segurana e pela unidade
da comunidade muulmana. Apesar de seus limites, a revoluo muulmana
foi seguida por uma verdadeira revoluo cultural, refletida, por exemplo, na


50   T. Winterbottom, 1803, p. 8. 
350                                                              frica do sculo xvi ao xviii



urgncia dos marabutos em traduzir o Alcoro  lngua fulfulde, no intuito de
facilitar a educao religiosa da grande massa da populao. Essa revoluo cul-
tural foi, sem dvida nenhuma, acelerada por Cerno Samba Mombeya que, em
sua famosa obra Le filon du bonheur ternel (O filo da felicidade eterna), prope
um verdadeiro manifesto em prol do uso da lngua fulfulde como instrumento
de educao religiosa do povo:

        Citarei os Autnticos em lngua peul para facilitar o teu entendimento.
        Ao ouvi-los, aceita-os.
        A cada um, de fato, apenas sua lngua permite entender
        o que dizem os Autnticos.
        Muitos peul no incorporam o que lhes  ensinado
        em rabe e permanecem em dvida.
        Basear-se na incerteza, nas obras do Dever, no basta em palavras,
        no basta em ao.
        Quem procura a Clareza, de incerteza desprovida,
        que leia ento em peul aqueles versos do pequeno homem51!

    Dessa revoluo resultou no somente a emergncia de uma abundante e rica
literatura em fulfulde, como tambm uma islamizao mais profunda das massas
populares. Dessa forma, o Isl das zonas urbanas da Idade Mdia, tais como
Tombuctu e Djenn, tornou-se, graas  revoluo muulmana do Futa Toro,
um Isl popular que inspirou, em seguida, a criao de uma srie de Estados
teocrticos ao longo da frica Ocidental. Nesse sentido, o Futa Toro constitua o
terceiro elo dessa longa cadeia de revolues muulmanas vitoriosas que marcou
a Senegmbia do sculo XVIII.

      A revoluo muulmana do Futa Toro
    Depois do Bundu e do Futa Djalon, na segunda metade do sculo XVIII, o
Isl triunfou no Futa Toro, graas ao partido de marabutos torodo. Aqui, mais
do que no Bundu e no Futa Djalon, foi ntida a ligao entre o movimentos
torodo e o dos marabutos de Nsir al-Dn, uma vez que o primeiro foi o pro-
longamento direto do segundo, tanto nas suas manifestaes, quanto nos seus
objetivos fundamentais. Ao mesmo tempo, o movimento torodo, em estreita
relao com os zwiya mouros, inspirou-se amplamente no sucesso da jihad


51    A. I. Sow, 1971, p. 43.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                         351



no Bundu e no Fouta Djalon do incio do sculo XVIII. Assim, os lderes do
partido dos marabutos torodo  Sulaymn Baal e `Abd al-Kdir  eram antigos
alunos das escolas de Pir e de Kokki, no Cayor, escolas estas que haviam man-
tido estreitas relaes com os zwiya daimani de Mauritnia. Esses herdeiros
espirituais do movimento de Nsir al-Dn ento permaneceram no Futa Djalon
ou no Bundi, a fim de consolidar sua f e instaurar um regime teocrtico no
Futa Toro, regio onde a crise latente do regime denyanke favoreceu o triunfo
da revoluo torodo.
    Em razo da proximidade geogrfica entre o Futa Toro e Saint-Louis, as
fontes de documentao europia so variadas e permitem  melhor do que no
Bundu e no Futa Djalon  esclarecer as condies polticas, econmicas e sociais
do sucesso do Isl. Fica claro que a crise setecentista constatada no Waalo no
delta do Senegal se repetiu no Futa Toro, na regio especfica do vale mdio do
rio, em funo da importncia do trfico negreiro atlntico e da vizinhana dos
emirados do Brakna e do Trarza.
    A crise de sucesso, desencadeada por volta de 1716 por Bubakar Sire,
prolongou-se ao longo do sculo XVIII e mergulhou o Futa Toro na insegu-
rana e nas guerras civis. Tal situao agravou-se durante a segunda metade do
sculo XVIII, por conta da intensificao do trfico negreiro organizado pelo
novo governador ingls, O'Hara, o que favoreceu a ocupao do Futa Toro pelos
mouros brakna e trarza. Nessas condies, a revoluo torodo foi no somente
dirigida contra o regime denyanke  desde ento incapaz de garantir a segurana
no pas , mas tambm contra a dominao do Brakna e a venda de muulma-
nos como escravos. Dessa forma, o partido torodo, dirigido por Sulaymn Baal,
conseguiu de incio uma vitria militar contra os Ulad `Abdallh em Mboya, que
resultou na abolio do muudul horma, o tributo cerealfero pago anualmente aos
mouros. Aps ter imposto sua autoridade no Futa Toro central, o partido torodo
ps fim a vrios sculos de dominao denyanke e proibiu, desde julho de 1776,
qualquer comrcio ingls com o Galam, como reao aos saques organizados
por O'Hara, em 1775, a fim de conseguir escravos52.
    A vitria do partido torodo coincidiu com a morte de seu prestigioso lder,
Sulaymn Baal, cuja sucesso coube, ento, a `Abd al-Kdir Kan, escolhido, por
sua erudio religiosa, no intuito de consolidar o novo regime teocrtico. `Abd
al-Kdir, eleito almamy, emprestou vrias prticas cerimoniais ao Futa Djalon,
que mantendo, ao mesmo tempo, algumas tradies do regime denyanke 


52   O. Kane, 1973, p. 622.
352                                                        frica do sculo xvi ao xviii



alguns de seus chefes conservaram seus domnios por se terem aliado ao partido
torodo. Alm disso, procedeu a uma redistribuio dos bayti (terras desocupadas)
e confirmou ao mesmo tempo os direitos das poderosas famlias torodo, que pos-
suam a maior parte do Futa Tora central  mais especificamente os trs "Abe",
os Bosseyabe, os Yirlabe e os Hebbyabe. Desde o incio, o poder do almamy
`Abd al-Kdir foi limitado por essas trs famlias, das quais provinha a maior
parte dos grandes eleitores do Jaggorde (conselho de eleitores), os mais famosos
dentre eles sendo os Ac de Rindiaw, a famlia de `Ali Dundu, dominadora do
Bosea, e aquela de `Ali Sidi Yirlabe e de `Ali Mamadu. Entretanto, `Abd al-Kdir
consolidou o novo regime e estendeu sua influncia religiosa alm das fronteiras
do Futa Toro, regio onde seu sucesso criou fortes expectativas de mudanas
junto s comunidades muulmanas, que j constituam potentes enclaves nos
Estados wolof e serer. O exemplo do Futa Toro acentuou assim as tenses entre
os reformadores muulmanos e as classes dirigentes sebbe do Waalo, do Jolof, do
Cayor e do Bawol. Numerosos camponeses emigraram ento ao Futa Toro para
ali encontrar a segurana garantida pelo novo regime, que interditava qualquer
trfico de muulmanos. Ademais, `Abd al-Kdir incentivou a educao religiosa
em cada comunidade, assim como a construo de mesquitas, sob a direo de
um imame encarregado do respeito  lei alcornica do novo Estado teocrtico.
    O regime torodo, j consolidado no Futa Toro, lanou-se, em 1786,  con-
quista do Trarza, onde, tal como no Brakna, `Abd al-Kdir quis impor sua auto-
ridade e o pagamento de um tributo. Com a ajuda do Brakna j submetido, `Abd
al-Kdir venceu o Trarza, cujo emir, Ely Kowri, morreu no campo de batalha.
Tal vitria, celebrada em uma kasida por Mukhtar Wuld Buna  discpulo da
zwiya moura dos Daimani  concretizou o triunfo do Isl, concebido por
Nsir al-Din, um sculo antes, a fim de resistir aos guerreiros hassaniyya que
bloqueavam as rotas comerciais. `Abd al-Kdir considerou-se ento, com razo,
o lder dos crentes, legtimo herdeiro de Nsir al-Din. Teve, portanto, a ambio
de impor a lei islmica aos soberanos do Waalo, do Jolof e do Cayor, bem como
de estender sua autoridade sobre a parte superior do rio.
    Porm, a partir de 1790, o novo damel do Cayor, Amari Ngoone Ndeela,
negou a vassalagem de seus predecessores ao Futa Toro e reprimiu severamente
as veleidades de independncia dos reformadores nos enclaves muulmanos
da provncia do Njambur. No decorrer de uma batalha, ele matou o enviado
do Almamy, Tapsir Hammdi Ibra, e os sobreviventes, em particular o filho
do marabuto de Koki, recorreram a `Abd al-Kdir para salvar a causa do Isl.
O Almamy organizou ento uma grande expedio militar de quase trinta mil
pessoas, inclusive mulheres e crianas, no intuito de colonizar o Cayor.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                             353



    Essa expedio levou ao desastre de Bungoy onde a grande armada foi vencida
graas  ttica da terra queimada, brilhantemente organizada pelo damel Amari
Ngoone. Numerosos futanke foram vendidos aos negreiros e `Abd al-Kdir foi
feito prisioneiro no Cayor, antes de ser mandado de volta para o Futa. O damel
Amari Ngoone repeliu assim qualquer perigo de invaso. A tradio oral pre-
serva at hoje a memria de sua magnanimidade, uma vez que defendeu com
convico o carter laico do Estado ceddo diante do proselitismo religioso do
Estado teocrtico que `Abd al-Kdir queria impor por meio da guerra santa53.
Mas o baro Kldor sugeriu que a vitria do partido ceddo se devia ao apoio
dado pelos negreiros de Saint-Louis e de Gore ao damel Amari Ngoone, contra
o almamy `Abd al-Kdir54. Tal apoio explica-se pela objeo do Almamy  venda
de muulmanos e pelos multiplos conflitos que opuseram o Futa Toro ao Saint-
-Louis entre 1787 e 1790, impedindo os navios de subir rio acima e, sobretudo,
bloqueando o abastecimento da ilha em sorgo55.
    A derrota de Bungoy desencadeou, ento, o declnio da autoridade de `Abd
al-Kdir, contestada no Futa Toro por `Ali Sidi do Yirlabe e `Ali Dundu do Bosea,
ambos influentes membros do Jaggorde. Hostil ao rigor religioso de `Abd al-Kdir,
a poderosa famlia torodo de Thierno Molle obrigou o Almamy a deixar a capital
para Kobbilo, em suas prprias terras, enquanto os novos prncipes, `Ali Sidi e `Ali
Dundu, conquanto analfabetos, se impuseram como os nicos intermedirios
entre o poder central e as provncias ocidentais e orientais do Futa Toro.
    Essa contestao interna do poder coincidiu com a intensificao das hos-
tilidades entre o Futa Toro e a feitoria de Saint-Louis, cujo trfico fluvial foi
interrompido entre 1801 e 1803. Saint-Louis no somente se recusou a pagar as
taxas habituais, como tambm lanou uma expedio punitiva, com 12 navios,
para queimar uma dezena de vilas do Futa Toro ocidental e capturar 600 pri-
sioneiros, em sua maioria oriundos da classe dirigente torodo. Em 1805 o Futa
Toro se vingou, e, na medida em que a interrupo das atividades comerciais
prejudicava as duas partes, aceitou um novo acordo, a partir de 1806, o qual
confirmava o anterior, datado de 1785.
    `Abd al-Kdir, desprovido h alguns anos das armas e mercadorias necessrias 
consolidao de sua autoridade cada vez mais contestada, engajou-se ento numa
expedio rio acima, a fim de reprimir os saques do almamy Sega que atingiam os
marabutos do Bundu. `Abd al-Kdir mandou executar Sega e nomeou ao posto seu

53   D. Robinson, 1975, pp. 201-208.
54   L. G. Colvin, 1974, p. 601; baro R. Kldor, 1829, p. 129.
55   D. Robinson, 1975, p. 202.
354                                                         frica do sculo xvi ao xviii



prprio candidato, Hammdi Pate, propiciando assim a aliana entre Hammdi
Aissata  o infeliz porm popular chefe do Bundu  e o rei do Kaarta.
    A crescente hostilidade de Saint-Louis, assim como a oposio interna dos
membros do Jaggorde, impediram ento `Abd al-Kdir de romper tal aliana.
Destitudo do poder pelo Jaggorde, ele se aliou ao Gajaaga e ao Xaaso, mas acabou
morto, em 1807, pelas foras do Bundu e do Kaarta, que gozavam da cumplicidade
do partido torodo da segunda gerao. Sua morte abriu o caminho para o triunfo
do Jaggorde que podia, a partir de ento, impor um almamy leal a si e garantir a
seus membros uma ampla autonomia para dirigir seus respectivos domnios56.
    Assim como no Bundu, no Futa Djalon e nos reinos sebbe, os chefes do
partido dos marabutos, formado de incio por eruditos, deixaram o poder pol-
tico nas mos de uma aristocracia guerreira, sem nenhuma relao com o saber
religioso. O poder tornou-se o monoplio de linhagens hereditrias, engajadas
em uma disputa vivaz. Assistiu-se ao advento de uma nova oligarquia torodo
sem nenhuma relao com o ideal da revoluo de 1776. Todavia, a revoluo
muulmana consolidou para sempre o carter islmico dos Estados e da socie-
dade do Futa Toro, o que no foi o caso dos regimes sebbe ainda vigentes nos
reinos wolof e serer da Senegmbia Setentrional.
    O fracasso de `Abd al-Kdir em sua tentativa de impor o Isl como ideologia do
Estado nos reinos wolof e serer foi amplamente compensada por um ntido avano
dos partidos de marabutos autctones. Os muulmanos, cada vez mais numerosos,
tentaram combater no interior a violncia ceddo. No Cayor, principalmente, a der-
rota de `Abd al-Kdir em Bungoy provocou o xodo macio dos muulmanos da
provncia do Njambur em direo  pennsula de Cabo Verde, onde contriburam
para a fundao de uma teocracia liderada por Jal Joop. Os exilados do Njambur
apoiaram a oposio dos Lebu aos excessos dos alkaati do Damel, incentivando a
tendncia separatista diante do poder central do Cayor. Tal independncia, adqui-
rida aps anos de resistncia por parte do partido dos marabutos, consagrou a
primeira ruptura territorial e o triunfo do Isl no reino do Cayor57.


      Concluso
  A evoluo da Senegmbia, entre os sculos XVI e XVIII, foi profunda-
mente marcada pelo impacto do comrcio atlntico, dando incio ao processo de


56    Ibidem, pp. 209-214.
57    M. Diouf, 1980, pp. 134-139.
A Senegmbia do sculo XVI ao XVIII                                          355



dependncia da frica Negra em relao  Europa. O sistema de escambo (que
envolvia ouro, marfim, goma, couro e tambm escravos) sem ocupao territo-
rial deu origem, a partir da segunda metade do sculo XVI, ao desvio das rotas
comerciais do interior para a costa. No decorrer desse perodo, a confederao do
Jolof desmembrou-se, dando origem aos reinos do Waalo, do Cayor, do Bawol,
do Siin e do Saalum, ao passo que o reino denyanke se tornou dominante no
vale do Senegal. Por outro lado, na regio dos rios do Sul, o comrcio portugus
arruinava o comrcio inter-regional bainuk beafada, nalu e baga,  proporo
que favorecia o desenvolvimento do poderio militar do Kaabu que substituiu o
imprio do Mali, em declnio.
    Muito rapidamente a preponderncia do trfico negreiro nas trocas no sculo
XVII desembocou na partilha da costa em zonas de influncia e na construo
de feitorias de comrcio fortificadas. Ele reforou igualmente o carter violento
dos regimes sebbe que, em reao, davam origem a um movimento de marabutos
hostis s aristocracias militares. Aps o fracasso do movimento de Nsir al-Dn
(1673-1677), os seguidores do Isl militante organizaram-se no Bundu, no Futa
Djalon e no Futa Toro.
    Todavia, no fim do sculo XVIII, os Estados teocrticos, por sua vez, perde-
ram progressivamente seu carter revolucionrio, no momento em que a Europa
pretendia acabar com trfico negreiro, que findara seu papel no processo de
acumulao do capital. A Europa tentou ento integrar a Senegmbia ao sistema
capitalista existente, como fornecedor externo direto de matrias-primas desti-
nadas  indstria. A Senegmbia, j consideravelmente destruda pela profunda
crise poltica, econmica e social da era dos negreiros, no poderia mais resis-
tir de forma eficaz  conquista militar, desencadeada pela Europa na segunda
metade do sculo XIX.
O fim do Imprio Songhai                                                                         357



                                      CAPTULO 11


                   O fim do Imprio Songhai
                                             M. Abitbol




    O Desmoronamento do Imprio Songhai
    Os motivos da invaso marroquina
    Investido no poder aps a batalha de Wd al-Makhzin em 1578, Moulay
Ahmad al-Mansr no podia subir ao trono saadiano sob auspcios mais favo-
rveis. O fim vitorioso desta batalha contra Portugal o colocava entre os grandes
defensores do islamismo, enquanto as extraordinrias riquezas que lhe valeu o res-
gate dos prisioneiros cristos o elevavam ao lugar mais alto no cenrio mundial.
    Como califa, imm e prncipe dos crentes, ele aspirava reunir "num s e
mesmo pensamento" todos os muulmanos e renovar a tradio da jihad. Alm
do mais, os subsdios que pretendia obter da salina saariana de Taghza no
seriam destinados seno a reabastecer o Bayt al-ml (o Tesouro) com a previ-
so deste empreendimento, enquanto os escravos obtidos com a conquista do
Songhai no seriam utilizados seno para servir na frota que posteriormente
iria atacar os infiis. Mas essas nobres pretenses no excluam  antes, pelo
contrrio  a presena de outros fatores determinantes, alis bem tangveis, quais
sejam, o ouro e os escravos do Sudo1.


1    Esta fase da histria das relaes entre Marrocos e o Sudo Ocidental est bem documentada. Limitar-
     -nos-emos a citar as fontes principais. Do lado sudans: al Sa`d, 1964; M. Ka`ti, 1913-1914; O. Houdas,
358                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    Os escravos deviam trabalhar principalmente nos engenhos de acar do Sul
marroquino, que haviam sido duramente afetados durante os confrontos mili-
tares das dcadas precedentes2. Quanto ao ouro sudans, suas entradas tinham
diminudo significativamente desde a ascenso do imprio Songhai no Arco
do Nger. J em duas tentativas, os predecessores de al-Mansr haviam tentado
mudar essa situao, realizando operaes contra Wazzn entre 1537 e 1547
e apoderando-se de Taghza por volta de 1556-1557. Mas com um evidente
cuidado de no comprometer o escoamento do sal na friga negra, o av de
al-Mansr, al-Mahd, fizera um acordo com o askiya Dwd sobre a partilha
das rendas conseguidas in loco3.
    Entretanto o comrcio sudans do Marrocos no estava totalmente a salvo
de todas as ameaas. Do lado dos portugueses, em primeiro lugar, que, em 1565,
tinham tentado chegar a Tombuctu passando pelo rio Senegal4. Certas iniciati-
vas dos turcos, de modo especial, podiam levar a pensar que tinham inteno de
estender suas vias de abastecimento em direo ao Magreb Meridional. Citemos,
para lembrar, a expedio de Slah Ra'is a Wargla, em 1552, a conquista do
Fezzn em 1557 por Dja'far Pasha e a expedio de Hasn Veneziano ao Touat
(Twt) por volta de 15795.
    Enfim, as esperanas alimentadas pelos saadianos sobre Taghza se dissi-
pavam na medida em que se intensificava a explorao pelos songhai da nova
salina de Taghza al-Ghizln (Taoudni)6.
    Em 1582, al-Mansr passou a atacar, apoderando-se dos osis de Touat e de
Gourara, apresentado oficialmente como uma operao destinada a restabelecer
a ordem numa regio que tinha "sacudido o jugo real". O verdadeiro objetivo
deste ataque era a conquista do Sudo e a constituio de um vasto imprio nos
flancos meridionais das possesses otomanas da frica7.
    Em 1583, o rei do Bornu, May Idrs Alawoma, ofereceu a al -Mansr a
oportunidade inesperada de realizar suas ambies. Temendo provavelmente o
avano dos turcos a partir do Fezzn nos seus territrios, May Idrs implorou a


      1966. Entre as fontes marroquinas: al-Fishtli, 1964; A. al-Nasiri al-Slawi, 1936; al-Wafrani, 1888-1889.
      Dentre as fontes europeias, citemos H. de Castries, 1923, como texto completo escrito por um annimo
      espanhol sobre a invaso marroquina.
2     P. Berthier, 1966.
3     al-Sa`di, 1964, p. 163-164 ; al-Fishtli, 1964, p.55.
4     A. Teixeira da Mota, 1969.
5     E. Rossi, 1936, p. 74-75; A. G. P. Martin, 1908, p. 119-123.
6     al-Fishtli, 1964, p. 55.
7     Ibidem, p. 36-40.
                                                                                                                                    O fim do Imprio Songhai
                                                                                                                                    359
Figura 11.1   Panorama de Tombuctu visto do terrao do viajante. [H. Barths, 1857.  Royal Commonwealth Society Library, Londres.]
360                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



ajuda de al-Mansr, ao qual solicitou armas de fogo para combater as comuni-
dades no muulmanas dos "confins do Sudo". O soberano marroquino con-
sentiu aps ter obtido, do rei do Bornu, um bay`a (documento de obrigao de
fidelidade) devidamente redigido e assinado8.
    No ano seguinte, um corpo expedicionrio marroquino penetrou no Sahel
atlntico, em direo do Senegal, mas teve que retroceder por circunstncias
mal elucidadas9.
    A investida contra o Imprio Songhai teve que ser feita em 1586, mas,
diante das dificuldades da operao, al-Mansr recuou o prazo estipulado em
5 anos, lapso de tempo que ele criteriosamente estabelecera com o intuito de
preparar e equipar sua armada, reunir todos os conhecimentos disponveis sobre
o estado do imprio dos askiya e, por fim, convencer os notveis de seu prprio
reino  comerciantes, `ulam` e oficiais militares  a respeito do bem fundado e
da solidez de seu plano.

      Tondibi e as causas do desmoronamento Songhai
    A 30 de outubro de 1590, uma coluna marroquina composta de 3.000 a 4.000
soldados, acompanhados de vrias centenas de auxiliares, deixou Marrakech
sob o comando do pax Djdar. Transps o Alto-Atlas, depois desceu ao vale
do Dar`a at o pas Ktawa, donde penetrou no Saara. No fim de uma marcha
forada de sessenta dias, a armada marroquina chegou s margens do Nger a
primeiro de maro de 1591 e, onze dias depois, atingiu Tondibi, a uns 50 km
penas da capital Songhai, Gao.
    O askiya Ish II esperou at o ltimo momento para mobillizar suas tropas.
Ele pde contudo arregimentar uma fora considervel contra o invasor, mas,
frente s armas de fogo marroquinas, as tropas Songhai foram esmagadas, aps
um dia de resistncia heroica, em 12 de maro de 159110. Assim rua o ltimo
grande imprio saeliano, cujos soberanos, inteiramente absorvidos por suas que-
relas internas, no tinham prestado a ateno exigida s ameaas marroquinas.
    Desde a queda do grande askiya Muhammad al-Hdjdj, em 1529, a corte de
Gao tinha-se, com efeito, tornado palco de lutas implacveis entre os diversos
pretendentes ao trono, as quais rapidamente se transformavam em sedies a


8     Ibiem., p.61-63; A. Al-Nziri, 1954-1956.
9     al-Fishtli, 1964, p. 60-61; E. Fagnan, 1924, p. 415-416; al-Sa`di, 1964, p. 194.
10    al-Fishtli, 1964, p. 64-71; al-Wafrani, 1888-1889, p. 160-162; M. Ka`ti, 1913-1914, p. 263-275; al-Sa`di,
      1964, p. 194.
O fim do Imprio Songhai                                                       361



minarem a estrutura do imprio.  assim que, apenas cinco anos antes da inva-
so marroquina, o Imprio Songhai foi praticamente dividido em dois, depois
da revolta do balama al-Sadduk, cujo quartel-general estava em Tombuctu. A
sedio foi certamente sufocada por Ish II, mas, por falta de tempo, ele no
teve quase nenhuma possibilidade de restabelecer a unidade do pas11.
    No plano econmico, o Songhai sofria h vrios decnios os efeitos de uma
conjuntura marcada por incidncias negativas do comrcio portugus em seu
litoral. Alis, os reveses militares em Dendi, em Borgu e no pas Mossi  reservas
tradicionais de escravos do Imprio , bem como a perda de Taghza em 1585,
tornavam mais agudas as consequncias sociais dessas convulses conjunturais
que vinham agravar as calamidades naturais de toda a espcie  epidemias, seca,
carestia12.
    Em seus ltimos dias, o Imprio, vasto conjunto territorial, construdo por
Sonni `Ali e o askiya Muhammad, no dispunha de uma estrutura tnica e
sociocultural que j tivesse conferido uma unidade maior a seus grandes prede-
cessores na regio, Gana e Mali: os songhai no tinham podido constituir, na
verdade, um elo de unio entre os diferentes povos que formavam o Imprio.
Seu peso era sobremaneira fraco sob o grande askiya Muhammad, mais prximo
dos valores rabo-berberes de Tombuctu do que da tradio de Gao e de Kkya
(Koukya), da qual era estranho de nascena. Capital poltica, evidentemente,
Gao, tampouco o interior Songhai propriamente dito, no eram o motor do
Imprio, cujo centro de gravidade se encontrava paradoxalmente em territrio
conquistado, em Tombuctu e em Djenn.

     A implementao do Pashalik marroquino
   Perseguindo os remanescentes da armada Songhai, Djdar penetrou em
Gao, abandonada por seus habitantes. Ish II, que dispunha ainda do domnio
do rio, no tentou nenhuma contraofensiva e, ao contrrio, preferiu negociar
com Djdar as condies de seu retorno a Marrocos. Decepcionado com o
lamentvel aspecto de Gao e consciente do mau estado fsico de seus homens,
o pax marroquino se mostrou disposto a aceitar as ofertas do Askiya. Mas
al-Manr no o entendeu assim: destituiu Djdar imediatamente e o substi-
tuiu pelo segundo dignitrio do exrcito marroquino, Mahmud b. Zarn, ao
qual consignou um nico encargo: a conquista total do Sudo e a destruio de


11   M. Ka`ti, 1913-1914, p.230-239 e 246-254; al-Sa`di, 1964, p.197-206.
12   M. Ka`ti, 1913-1914, p.164, 174 e 230; al-Sa`di, 1964, p.151-182 e195..
362                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



diversas foras sudanesas que, numa desordem geral, tinham tentado preencher
o vazio deixado pela debandada dos soldados songhai13.
    Desde sua chegada, o pax Mahmud se ocupou em destruir completamente
o poder poltico Songhai. Assim, ao apoderar-se da capital tradicional Son-
ghai, Kkya (Koukya), forou Ish II a deixar o pas para ir at os gurmanche
onde encontrou a morte, armou uma cilada mortal a seu sucessor designado,
Muhammad-Gao, em seguida tratou de dizimar os ltimos bolses de resistn-
cia Songhai no Dendi (1592-1594)14.
    Desse modo, descartada definitivamente a ameaa Songhai, o pax voltou a
Tombuctu para desmantelar a classe dos letrados como fora poltica: dezenas
de `ulam` foram assim mortos ou exilados em Marrocos. Entre esses ltimos,
se achava o clebre Ahmad Baba, cuja fama iria se estender da "regio do Ss
(Sous) at as cidades de Bougie e de Argel"15.
    Mahmud b. Zarn foi morto numa emboscada que lhe foi armada pela
resistncia Songhai em Bandiagara, em 159416. Ele no teve sequer tempo de
acabar a ocupao efetiva da vizinha regio de Djenn, objetivo que foi confiado
de novo a Djdar, mas que muito cedo iria revelar-se irrealizvel. Os Marro-
quinos tinham que fazer frente, na verdade,  bravia oposio dos fulbe, dos
bambara e dos mande (malinke), agrupados por um tempo em volta da pessoa
do mansa Mahmud. Na sada de uma srie de escaramuas pouco decisivas, certo
modus vivendi estabeleceu-se entre os marroquinos instalados em Djenn e os
principais povos da regio que aceitaram em termos a ocupao marroquina17.
    Os soldados de al-Mansr foram forados a se limitar  ocupao de alguns
portos fluviais e instalaram aaba (guarnies permanentes) em Djenn, Wan-
diaka, Kubi, Konna, Sbi, Tendirma, Issafay, Kabara, Tombuctu, Bamba, Bou-
rem, Gao e Kkya (Koukya)18. Por razes econmicas evidentes, a maior parte
das guarnies se situou no eixo fluvial Djenn- Tombuctu, enquanto, de um
lado a outro do Nger, que representava a espinha dorsal do Pashalik, estendiam-
-se vastas reas pouco influenciadas pelo Marrocos.
    Ademais, os paxs buscaram no tocar na administrao local que manti-
nham em vigor ou que os songhai haviam deixado. Toda a nomeao de chefe


13    al-Sa`di, 1964, p.220-221; al-Fishtli, 1964, p.170-171; H. De Castries, 1923, p. 473.
14    al-Sa`di, 1964, p.230-234; M. Ka`ti, 1913-1914, p.275-276 e 287-295; al-Fishtli, 1964, p. 83-87.
15    M. Ka`ti, 1913-1914, p.300-308; al-Sa`di, 1964, p.258-266; al-Wafrani, 1888-1889, p. 170.
16    al-Sa`di, 1964, p. 268.
17    al-Fishtli, 1964, p 94; al-Sa`di, 1964, p.273-279.
18    Os Marroquinos ergueram posteriormente duas outras aaba, uma em Gundam e outra em Arawn.
O fim do Imprio Songhai                                                                            363



autctone tinha que obter o aval do pax que concedia investidura seja aos di
e aos imm das grandes cidades, seja aos ardo fulbe e aos amenokal tuareguess,
mas, fazendo isso, os representantes marroquinos no agiram de modo diferente
dos askiya e, como eles, s raramente intervieram na escolha dos candidatos.
    As guarnies marroquinas no viviam fechadas em si mesmas e no eram
nem enclaves isolados nem campos entrincheirados. Conforme a concepo de
al-Mansr, os frutos da conquista teriam sido efmeros se, na fase de pacificao,
no ocorresse uma ao de efeitos mais duradouros, a saber, a colonizao do pas
e seu povoamento por magrebinos dispostos a fazer a raiz permanente.
    Foi assim que se viu aflurem ao Sudo populaes guish do Sous e os haha
juntamente com elementos ma`kil e djusham , de quem al-Mansr queria
desembaraar-se em razo das agitaes que suscitavam em seu reino, enquanto,
a partir de 1599, os legionrios de origem crist vindos com Djdar eram repa-
triados em Marrocos19.


     O espao poltico sudans at o fim do sculo XVIII
     A experincia psimperial dos povos do Arco do Nger: traos gerais
    No clima de incerteza e insegurana que resultou da queda do Imprio Son-
ghai e da irrupo de foras etnossociais  tuaregues, fulbe, mouros etc.  que at
ento tinham sido mantidos  parte das zonas de cultura e dos centros urbanos,
o poder poltico ia ser assumido de agora em diante por todos os dirigentes que
dispunham dos meios de assegurar a defesa e a proteo efetiva de seu povo.
    Por todo Sael nigeriano, o chefe poltico era antes de tudo um guerreiro,
sem outra legitimidade seno aquela conferida pelas armas, e quase sempre, sem
grandes pretenses territoriais. s imponentes construes estatais do passado
iria suceder um mosaico de principados e reinos cujos limites raramente ultra-
passavam as margens de uma etnia, de um cl, de uma cidade ou mesmo de
uma srie de vilas20.
    Diferentemente de seus predecessores recentes, o lder poltico dos sculos
XVII e XVIII foi mais influenciado pela tradio local do que pelos valores


19   al-Fishtali,1964, p. 93 e 113-115. No preciso dizer que depois dessas iniciativas, os descendentes
     dos soldados marroquinos no se encaixavam no lugar comum largamente difundido de soldados mal
     islamizados (em razo de sua pretendida ascendncia crist ou "renegada"), mais hispanofones que
     arabofones.
20   M. Abitbol, 1979.
364                                                        frica do sculo xvi ao xviii



universais transmitidos pelos sbios mulumanos e raramente estava no centro
de uma configurao religiosa ou csmica.
   O islamismo, que at recentemente havia contribudo de modo to brilhante
para a formao dos imprios sudaneses, deixou assim por um tempo de desem-
penhar um papel poltico evidente. Porm, prosseguiu sua longa marcha pelas
pistas das savanas, levado cada vez mais longe pelos comerciantes jula a quem
repugnava servir as chefias e reinos no-muulmanos que beiravam as rotas
comerciais do Sael  floresta.

      Tombuctu, Djenn e os arma
    Deixados a sua sorte e separados de uma metrpole que deixou, desde
1618, de nomear os principais dignitrios do Pashalik e de enviar reforos, os
ltimos sobreviventes do exrcito de al-Mansr e seus descendentes, os arma,
iam continuar os senhores legtimos da regio de Tombuctu at o incio do
sculo XIX.
    Militarmente diminudo, o Estado dos paxs mostraria, com efeito, uma
considervel longevidade e se perpetuaria, com estruturas praticamente intactas,
at o advento de Shaykh Ahmadu. Entretanto, antes da fundao do imprio
fulbe do Macina, o Arco do Nger tinha foras suficientes para aniquilar os
vestgios da antiga colnia marroquina: havia, em primeiro lugar, os bambara de
Sgou, que no somente nunca estenderam seu domnio a Tombuctu, mas evi-
taram tambm de penetrar em Djenn. Havia ainda as poderosas confederaes
tuareguess dos kel-awllimiden e, sobretudo, dos ked-tadmekket que, apesar de
sua arrasadora vitria de 1737 sobre os arma, jamais sonharam em se apoderar
do poder poltico em Tombuctu. Igualmente, o grupo clerical muito influente
dos kunta, por intermdio de seus zwiya do Azawad, se limitou a oferecer sua
mediao e seus prstimos aos arma e a seus adversrios nmades. Os kunta
somente entraram em Tombuctu na vspera da conquista da cidade pelos fulbe,
por volta de 1826.
    No incio, nenhuma regra precisa parecia reger a nomeao para as diferentes
funes oficiais do Pashalik e, especialmente,  do pax. A partir de meados do
sculo XVII, no entanto, com a chegada ao poder da primeira gerao de arma
nascidos in loco, assistiu-se ao esboo de regras de transmisso do poder, fun-
dadas sobre a rotatividade das principais funes entre as trs grandes divises
a que pertenciam os arma. A diviso a que cabia momentaneamente ocupar as
funes de pax designava desse modo o candidato que devia obter o aval do
                                                                                                                                                                                                                   O fim do Imprio Songhai
                                                                                                                                                    Tombuct                              Moussa-Bangou
                   Lago Faguibine
                                                                           Bintagoungou                        BER
                                                                                                                     AB
                                                                                                                          ICH
                                                                                                                                                              Kabara                                   Rio Nger
                                                              Bouna                                                                                            Day
       Ras al-Ma'                                                                                                          RMANamtaguil
                                                                                                                      AY-A                                      Koryoum
                                                                SA                                                NGH                                         Hamadya
                                                       LI-M
                                                            U
                                                                                    ARL
                                                                                        N             Lago Tele SO KANT                                      Toya
                                                  HA                          HSH                                             SA




                                                                                                                                                                                                  ET
                                              G
                                                                          MAG                                             TAS             Douekir      A    Mankalagoungou




                                                                                                                                                                                              KK
                                                                                                          Dongoy                                      RM




                                                                                                                                                                             A



                                                                                                                                                                                             ME
                                                               AL
                                                                  A   N
                                                                                                                    Arham                           -A     Koyretao                   E




                                                                                                                                                                                             AD
                                                             UD                                                                                                                    GU




                                                                                                                                               AY




                                                                                                                                                                         M
                                                                                                          Njambourgou     U




                                                                                                                                                                                          L-T
                                                       L-O                                   Goundam                                     O            Samdyar




                                                                                                                                            GH
                                                  KE                                                                                                                              E
                                                                                                                                      SS                            AI




                                                                                                                                                                                        KE
                                                                                        DI                                          KI                                         AR




                                                                                                                                                                         R
                                                                                                                                         SON
                                                                                   N                                                               Koura        NG           TU
                                               UE                               TO                                                                            SO




                                                                                                                                                                     U
                                           REG                                                                            Kob               Kirshamba
                                        TUA Lago Oro                            Lago Fati                                                                                         Lago Garou
                                                                                             I




                                                                                                               I
                                                                                                          LL
                                                                                     OK




                                                                                                                                                                   G
                                                                                                                                   Dir




                                                                                                         KI
                                                                                                                                                            Baney
                                              TW
                                                AN                               TY
                                            KA                                      Korango                   Dongo
                                    K   EL-                                                                                     Issafay
                                                                           Bankani                                          Korongoy
                                                                                                  Kati  Tendirma
                                                                                                  Bakou-Bir                     Aouaki
                                                                                                      Banikan
                                                                                              A
                                        Niafounk                                            G
                                                                                      TU




                                                                                                                AI
                                                                     Singou         T
                                                                                 FI




                                                                                                           NG
                                                                                                         SO
        Soumpi
                                                                                                   Sarafr
                               Sbi                                                                  Djindjo
                                                                                 BARA                           Dabara
                                                                                                    Arkodia
              BE
          FUL                                 S
                                                                                                              Daba




                                                                                                                            A
                                                                                             Ngorkou


                                                                                                                          AR
                                                         LA
                 Issa-Ber




                                          a
                                        ss




                                                                                                                   MB
                                                       AL
                                    a-I




                                                                                                                 BA
                                                  MB



                                                                            i
                                                                          ol




                                                                       li-K
                                Bar




                                                                     Ko
                                              GI




                                                                                        E
                                                                                    LB
                                                                                 FU




                         ..
                        Akka                                                    Korientz

              Youvarou                            Gourao                      Lago Korientze

                                                                                                                0                               25 milhas
                                 Lago Debo
                                                                                                                0                                    50 km




                                                                                                                                                                                                                   365
figura 11.2   A regio de Tombuctu (apud M. Abitbol).
366                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



resto das tropas. Em caso contrrio, a vez passava  outra, e assim sucessivamente
at a eleio de um candidato aceito por todos. 21
    As consequncias inevitveis de tal sistema foram de duas ordens: de um
lado, a frequncia dos interregnos  passavam-se muitas vezes vrios meses antes
que as divises se pusessem de acordo sobre a escolha de um candidato; por
outro, a curta durao dos "reinos", sendo o pax obrigado a demitir-se to logo
um s dos "grandes do exrcito" o renegasse22. Nessas condies, era inevitvel
que as mesma pessoas fossem chamadas mais de uma vez ao poder. Isso devia
acarretar a cristalizao de certo nmero de grandes famlias ou linhagens a se
destacarem do resto da sociedade arma por sua potncia poltica e pelo poder
econmico acumulado em virtude do repetido acesso ao poder. Criou-se assim
uma "classe dirigente" arma ou, para retomar a linguagem das crnicas locais,
uma "classe de chefes"23.
    De 1646 a 1825, cento e quarenta e cinco paxs foram nomeados em Tom-
buctu, tendo a maior parte sado das trs linhagens dos Tazarkini, Mubarak
al-Dar'i e al-Za'ri. A esta ltima linhagem pertencia o pax Mansr b. Mas'd
al-Za'ri que, em 1716, havia tomado o poder pela fora, exilado todos os seus
oponentes e instaurado em Tombuctu um regime de terror sem igual nos anais
da cidade. Exasperada pelos seus abusos, a populao acabou por se sublevar
em 1719 e, depois de ter expulsado da cidade o pax e seus legha (capangas),
restaurou o antigo sistema poltico arma, com sua crnica instabilidade, suas
lutas internas entre as divises e seus longos interregnos24.
    Em 1766, os arma elegeram um pax, B-Hadd b. Ab-Bakr al-Dar'i, que,
fato excepcional, permaneceu em seu posto durante mais de oito anos. Mas,
com sua morte em 1775, a cidade ficou sem pax durante dezoito anos. Este
longo interregno no levou por isso ao desaparecimento definitivo das institui-
es arma: quando, em 1794, as grandes divises que, nesse entretempo, j se
tinham tornado verdadeiros cls tnicos entraram em acordo sobre a escolha
de um pax, este, al-Muaf al-Tazarkini, restabeleceu todas as antigas funes
do pashalik25.
    No reinado de seu sucessor, Ab-Bakr b. Ahmad al-Dar'i, a funo de
pax tornou-se hereditria e, com sua morte, em 1815, seus dois filhos,


21    O. Houdas, 1966, p. 21, 50-51 e 136-137.
22    No era raro que um pax fosse constrangido a demitir-se no dia mesmo de sua nomeao.
23    O. Houdas, 1966.
24    Ibidem., p. 70-85.
25    Ver a Chronique de Tombuctu, Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 5259, f.25-26 e 32r.
O fim do Imprio Songhai                                                                    367



Muhammad e `Uthmn o sucederam. O 'd `Uthmn foi o ltimo pax de
Tombuctu26.
    Dando continuidade a seu declnio militar e  instabilidade crnica do poder
central, o Pashalik iria fragmentar-se, a partir do fim do sculo XVII, em vrias
unidades mais ou menos autnomas, ao redor de cada uma das grandes aaba
de Gao, Bamba, Tombuctu e Djenn. Mesmo continuando a reconhecer a auto-
ridade formal, porm longnqua de Tombuctu, cada guarnio elegia seus pr-
prios comandantes numa total independncia. Quanto aos paxs, raramente
intervinham nos negcios de suas guarnies, s quais no apelavam seno em
caso de grave ameaa vinda de fora.
    To autnoma quanto as outras aaba arma, a guarnio de Djenn no
foi mais perturbada, ao longo do sculo XVIII, pelos bambara de Sgou. Em
1754, pouco antes da suposta morte do biton (comandante) Mamari Koulibali,
um exrcito bambara chegou at Gomitigo, a uma dezena de quilmetros de
Djenn, mas a ela foi poupada pelos assaltantes27.
    A administrao arma permaneceu intacta durante todo o perodo conside-
rado: o 'd (comandante, chefe do exrcito) de Djenn continuou a ser nome-
ado pelos seus pares arma, salvo quando da subida ao poder em Tombuctu de um
pax empreendedor: em maro de 1767, o pax B-Hadd nomeou diretamente
o novo governador de Djenn, o 'd Alfa b. Masi, que teve como sucessor o
'd Ahmad b. Shrf. Este ficou no poder at sua morte em 177228.
    Os laos comerciais e as relaes polticas entre Tombuctu e Djenn jamais
foram interrompidos: em 1773, dois mensageiros vieram a Djenn anunciar a
morte do pax B-Hadd29. Por volta de 1786, dois 'd de Tombuctu se deslo-
caram com suas tropas para Djenn para a submeter um bando de saqueadores
que se refugiara na cidade30. Em 1794, se soube em Tombuctu da morte do
governador de Djenn, o 'd Ab-Bakr b. a'd, e, no ano seguinte, o pax de
Tombuctu apelava a seu sucessor e aos comerciantes de Djenn para reabastecer
a cidade de cauris31.




26   Ibidem, f. 34; B. de Mzires, 1912, p. 36-37; R. Caill, 1828, vol. II, p. 306-308.
27   Institut de France, Fundo Gironcourt, Ms 2405, pea 5, f. 7 e 13.
28   Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 5259, f. 26v.
29   Ibidem.
30   Ibidem, f. 30r e v.
31   Ibidem, f. 32r e v.
368                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



   No entanto, em 1796, o explorador escocs Mungo Park tomava conheci-
mento em Sgou que Djenn pertencia formalmente ao Reino bambara, se bem
que de fato ela fosse governada pelos "mouros"32.
   Dever-se-ia interpretar esta informao como indicao de um "protetorado"
bambara sobre Djenn? As fontes locais de que dispomos no permitem abso-
lutamente tal hiptese: sua leitura confirma antes a afirmao de Ren Calli,
segundo o qual Djenn vivia "s e independente" at a sua conquista pelos fulbe
do Macina, por volta de 181933.

      Os Songhai do Dendi
   Expulsos de Gao e tendo perdido, no lapso de alguns meses, dois reis e
dezenas de membros da famlia imperial, os songhai agrupados  volta do askiya
Nuh conseguiram frear o avano dos marroquinos no Dendi. Aprendendo com
suas derrotas sucessivas em batalhas campais, passaram a uma guerra de embos-
cadas e, graas  ajuda que lhes forneceu o Kebbi34, eles derrotaram os soldados
do pax Mahmud b. Zarkn que encontrou a morte no Bandiagara. Mas seu
sucessor, o pax Manr b. `Abd al-Rahmn (1595-1596), os fez pagar caro
a sua vitria: derrotado e obrigado a deixar parte de seu povo nas mos dos
marroquinos, Nuh se retirou no Dendi, onde foi destitudo por seus irmos em
1599, ao passo que os marroquinos nomeavam um askiya para os songhai que
permaneceram no local35.
   Voltando progressivamente  religio tradicional africana, os songhai do
Dendi se dividiram em vrios reinos, embora at a metade do sculo XVII
tenham conseguido conservar a unidade.
   Em 1630, assinaram um acordo de paz com os marroquinos que, em seguida,
comearam a intervir em seus negcios internos e arbitrar seus conflitos de
sucesso. Em 1639, por exemplo, o pax Mas'd al-Za'ri entrou com suas tropas
em Lulami, a capital do Dendi, para a instalar um novo rei36.
   Este foi deposto logo depois da partida das tropas marroquinas. Mas esta
manifestao de recuperao no teve futuro: dilacerados e divididos em peque-
nos entes polticos insignificantes, os songhai do Dendi deixaram de ser um

32    M. Park, 1808, p.301.
33    R. Caill, 1828, vol. II, p. 206.
34    Para a carta de ameaas endereada pelo sulto do Marrocos ao kanta do Kebbi, ver A. Ganun, 1964, p.
      127-132.
35    Al-Sa'di, 1964, p. 270.
36    Ibidem, p. 394-395, 399-400 e 423.
                                                                                                     O fim do Imprio Songhai
                                                                                                     369
figura 11.3   Uma aldeia Songhai. [H. Barths, 1857. Royal Commonwealth Society Library, Londres.]
370                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



fator poltico importante na regio. Conseguiram, porm, manter sua liberdade
at o incio do sculo XIX, apesar da forte presso exercida sobre eles pelos
nmades fulbe e tuareguess do Liptako e do Ar.

      Os reinos bambara de Sgou e do Kaarta
    Depois do esfacelamento da regio fronteiria ocidental do Songhai e aps
o fracasso do Mansa do Mali diante de Djenn, em 1599, os camponeses bam-
bara do Nger encontraram-se numa situao perigosa frente s incurses fulbe
e arma.
    Divididos em vrias kafu (provncias), cujos chefes marka e muulmanos
mantinham relaes bastante corretas com Djenn e Tombuctu, os bambara,
adeptos da religio tradicional africana, apelaram para sua proteo s confra-
rias tradicionais de caadores ou a cls especializados que, como o dos samak,
assimilaram muito depressa os mtodos de combate dos marroquinos37.
    Num movimento que muito se assemelha a uma jacquerie (revolta de cam-
poneses), os bambara se sublevaram, em meados do sculo XVII, contra seus
chefes marka e  provavelmente nestas circunstncias que se distinguiu o cl dos
Koulibali, chamado a fundar o reino de Sgou e do Kaarta38.
    Em Sgou, Biton Koulibali (1712-1755) imps sua autoridade com o aux-
lio de seus ton-dyon, na maior parte prisioneiros ou antigos prisioneiros. Mal,
porm, assegurou sua posio, por volta de 1739, seu reino foi atacado pelos
jula de Kong, comandados por Famaghan Wattara. Estes ficaram no pas at
1745, quando lhes sobreveio a notcia da morte do Faama de Kong, Skou
Wattara39.
    Enfraquecido, Biton Koulibali consagrou o resto de sua vida para consolidar
seu reino, desembaraando-se da concorrncia de seus primos massassi, insta-
lados a Noroeste de Sgou, na regio de Murdia. Pelo ano de 1754, entrou em
guerra com eles, destruiu sua capital, Sunsana, e capturou seu chefe, Foulakoro,
que foi levado  morte em Sgou. Aps essa derrota, os massassi, conduzidos
por Sbamana (1754 a por volta de 1758), deslocaram-se rumo a Kaarta onde
estabeleceram sua hegemonia40.



37    Al-Sa'di, 1964, p. 276.
38    Ibidem, p. 406-420; ver tambm C. Monteil, 1924; L. Tauxier, 1942.
39    O. Houdas, 1966, p. 112-113.
40    P. Marty, 1927, p. 367-369.
O fim do Imprio Songhai                                                     371



    Com a morte de Biton Koulibali, o reino de Sgou atravessou um longo per-
odo de anarquia que s teve fim pelo ano de 1766, com a tomada do poder por
uma nova dinastia fundada por Ngolo Diarra. Restaurada a unidade do reino,
ele desencadeou operaes militares de grande porte no Macina, no Fuladugu e
at no pas Mossi e no Yatenga. As excelentes relaes que o ligaram aos kunta
do Azawad e a seu chefe, Shaykh al-Mukhtr (1789-1811), levaram-no, ao que
parece, a tratar com moderao Tombuctu.
    Ngolo foi sucedido por seu filho Monzon (1789-1808) que foi o verdadeiro
organizador do reino de Sgou. Assim como Biton Koulibali antes dele, teve
que confrontar a hostilidade dos massassi que, desde 1754, tinham estendido
seu poder ao longo do territrio compreendido entre o Kingui e o Bldougou.
Em 1792, apoderaram-se at de Nyamina, s margens do Nger, cortando assim
um dos principais eixos de abastecimento de Sgou. A reao de Monzon foi
terrvel: aps libertar Nyamina, voltou-se para o Kaarta, saqueou a capital Gu-
mou e obrigou o rei massassi, Dskoro, a fugir para o Guidimak. Monzon, em
seguida, combateu os mouros Awld M`Bark na regio de Nioro pela sua recusa
em colaborar com ele na guerra contra o Kaarta. Voltando a Sgou e seguindo o
exemplo de seu pai, colocou seus filhos no comando dos territrios conquistados,
pondo  disposio deles grandes contingentes de soldados41.
    Monzon morreu em 1808, seguido, trs anos mais tarde, na regio de Tom-
buctu, por Shaykh al-Mukhtr. O desaparecimento quase simultneo desses
dois personagens teve tudo a ver com a efervescncia que eclodiu no Arco do
Nger at a tomada do poder por Shaykh Ahmadu, tendo as foras fulbe e
tuareguess, que os dois comandantes haviam mantido sob controle, uma boa
parte da responsabilidade.

     Fulbe e tuareguess
   H que se contar a desorganizao social entre as principais consequncias
do desmoronamento do Imprio Songhai. Uma situao estabelecida, desde o
fim do sculo XVI, pelo irresistvel avano dos nmades do Saara em direo 
bacia do Nger e  zona lacustre que se estende ao Sul de Tombuctu.
   No Macina, era total a preponderncia dos fulbe. Resistindo com bravura
aos ataques dos marroquinos de Tombuctu e de Djenn, os fulbe preservaram
sua independncia, embora se acelerasse seu movimento de migrao para o
Oeste, rumo ao Futa Djalon, e para o Leste, rumo a Liptako e ao pas Haussa.


41   C. Monteil, 1924, p. 66-90 e 110-116.
372                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




figura 11.4 Touca  imagem de um antlope, utilizada pelos bambara nos ritos que representavam o nas-
cimento mtico do fundador da agricultura. [ Werner Forman Archive, Londres.]
O fim do Imprio Songhai                                                                                  373



Submetido pelas investidas das tropas bambara de Ngolo e de Monzon, tiveram,
contudo, de aceitar, ao longo da segunda metade do sculo XVIII, a suserania
de Sgou, enquanto comeava no Kourani um lento processo de sedentarizao
e de islamizao de seus pastores.
   A expanso dos tuaregues do Adrar  kel-tadmekket e kel-awllimiden  foi
tambm contempornea da ocupao marroquina. Enquanto os primeiros per-
maneceram na sombra at o fim do sculo XVII, os segundos exerceram muito
cedo uma forte influncia sobre a bacia oriental do Nger, de modo especial
entre Gao e o Dendi.
   Interceptando as comunicaes entre Tombuctu e seu posto de entrada,
Kabara, intervindo nos conflitos entre os chefes arma e saqueando os vilarejos
agrcolas do rio, iriam tornar-se um verdadeiro flagelo para Tombuctu. Durante
todo o sculo XVIII, no houve seno enfrentamentos e escaramuas entre os
tuareguess, o mais das vezes vitoriosos, e os arma, enfraquecidos, sofrendo de
derrota em derrota.
   Em maio de 1737, o amenokal Oghmor ag Alad esmagou as foras arma
em Toya, acarretando-lhes perdas considerveis: de 300 a 350 mortos, entre os
quais o pax em exerccio42. Porm, a despeito dessa derrota, os chefes de outras
faces tuaregues, dentre as quais a dos kel-awllimiden, deviam continuar a ir a
Tombuctu para a receber a investidura dos paxs43.
   Os tadmekker, em 1770, assediaram Tombuctu, levando a populao  fome,
aps o homicdio de seu amenokal Habatt44 por um grupo arma. A cidade
somente se salvou graas  interveno do shaykh dos kunta, al-Mukhtr
al-Kabr, que conseguiu reconciliar o pax B-Hadd e o sucessor de Habatt,
o amenokal Hammiyuk. Nos termos do acordo concludo entre as duas partes,
em agosto de 1771, os arma comprometeram-se a depositar uma garantia aos
tuareguess em cavalos e em p de ouro45.
   Mas, aps a violao deste pacto pelos tuaregues, o Shaykh retirou seu apoio
moral a Hammiyuk e lhe ops um rival, provocando assim o desmembramento
dos tadmekket em duas ramificaes rivais: os tingirigif e os irriganaten. Ao
mesmo tempo, ele ganhou a confiana dos awllimiden e de seu chefe, Amma
ag Ag Shaykh, o qual, aproveitando-se da falta de unio dos tadmekket, iria


42   O. Houdas, 1966, p. 168-178.
43   Ibidem,, p. 253.
44   Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 5259, f. 26v-27v.
45   Ibidem, f. 28v ; ver tambm Biblioteca Nacional, Paris, Ms 5334, o Kitab a/-Tara'if, pelo filho do shaykh
     al-Mukhtr.
374                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



tentar estender sua hegemonia aos nmades saarianos da regio de Tombuctu.
Os aellimiden tornaram-se assim a mais importante fora de apoio aos kunta.
Estes, na medida do enfraquecimento das armas, conseguiram, com grandes
xitos, preencher o vazio poltico que eles haviam deixado na regio e limitar os
efeitos da anarquia resultante disso. No entanto, at a constituio do imprio
fulbe do Macina, eles evitaram arrogar-se direitos polticos em Tombuctu ou de
fazer desaparecer os derradeiros vestgios do poder arma.  assim que, seguindo
um antigo uso, o poderoso amenokal dos kel-awlliniden, Kawa ag Amma, iria
ainda dirigir-se, em julho de 1796, a Tombuctu para a receber a investidura do
pax Ab-Bakr46.

      O Sudo Ocidental e o mundo exterior
    Apesar do desinteresse progressivo do Marrocos ps-al-Mansr, os paxs de
Tombuctu deram mostras duma fidelidade a toda prova para com os ltimos sul-
tes da dinastia saadiana. A khuba (sermo feito na mesquita) da sexta-feira foi
assim recitada toda semana em nome dos soberanos de Marrakech que tinham
o cuidado de anunciar oficialmente aos paxs de Tombuctu e aos comandantes
das guarnies de Djenn e de Gao a notcia de sua chegada ao trono.
    Quando, em 1659, foi assassinado o ltimo monarca saadiano, o bay'a (jura-
mento de fidelidade) que ligava os paxs  dinastia tornou-se imediatamente
caduco. Muito naturalmente a khuba, em 1660, deixou de ser recitada em nome
dos descendentes de Moulay Ahmad al-Mansr "em todo o Takrr, de Koukya
a Bina47". Dez anos mais tarde, depois que a dinastia alawita tomou o poder em
Marrocos, os arma renovaram, porm, seu compromisso de fidelidade ao trono
marroquino, a Moulay al-Rashd, depois a Moulay Ism'l48.
    Ao contrrio dos saadianos, no entanto, os alawitas atentaram-se muito
pouco ao Sael nigeriano. A orientao de sua poltica foi antes mauritana que
sudanesa. Enquanto os europeus disputavam Arguin e o trfico de goma, Mou-
lay Ism'l implantaria solidamente sua autoridade na Mauritnia, ao sustentar
o emir dos trarza e ao enviar pontualmente, em direo ao vale do Senegal,
tropas mais ou menos regulares, os orman, que, at 1720, iriam aterrorizar todas




46    Biblioteca Nacional,Paris, Fundo rabe, Ms 5259, f. 32r; lnstitut de France, Fundo Gironcourt, Ms 2406,
      pea 75 (Ta'rikh Fittuga).
47    O. Houdas, 1966, p. 145.
48    Ibidem, p. 185; Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 6399, f. 214-218.
O fim do Imprio Songhai                                                                          375



as regies ribeirinhas do Senegal49. Senhores do Futa Toro, onde nomeavam e
demitiam a seu bel-prazer os satigi (dirigentes), exerceram forte presso sobre
a populao do Alto Senegal, cujos cativos iriam engrossar as fileiras da famosa
armada negra dos `abid formada pelo sulto marroquino. Conduziu suas expe-
dies devastadoras at o Bondu e o Bambuk e, sobretudo, o Galam, onde ps
em perigo, vrias vezes, a feitoria francesa de Saint-Joseph.
    Os arma, apesar de tudo, continuaram a devotar um certo respeito aos monar-
cas alawitas e, se acreditarmos no ingls J. G. Jackson, o pashalik de Tombuctu
teria continuado a pagar um tributo de fidelidade aos sucessores de Moulay
Ism'l50.
    Com a chegada ao poder do sulto Sd Muhammad (1757-1790), a poltica
sudanesa do Marrocos conheceria novo comeo, graas  reativao do comrcio
transaariano.  maneira dos ltimos reis saadianos, o sulto alawita se denomi-
nava na sua correspondncia com os governos europeus como o "soberano de
Gao e da Guin", o que no passaria de pura pretenso se no houvesse teste-
munho muito confivel nesse sentido do cnsul ingls, J. Matra, que serviu em
Marrocos entre 1786 e 180651.
    Isso parece corresponder ao modo como no prprio Sudo se representava
o estatuto de Tombuctu na vspera da jihad fulbe.  pelo menos o que fazem
pensar alguns textos provindos de um letrado do Macina, Nuh b. al-Tahir, que
foi um dos principais colaboradores de Shaykh Ahmadu. Um desses textos
anuncia o advento do ltimo califa do isl, isto , de Shaykh Ahmadu. Foi
dirigido ao "sulto do Gharb e de Marrakech e de suas dependncias de Tom-
buctu, Arawn, B-Jbeiha, Taoudni, do Sous Prximo e do Sous Extremo,
assim como do Touat52".
    Esta classificao  talvez destituda de todo fundamento. Mas, recolocada
em seu contexto histrico e sociocultural, a evoluo poltica de Tombuctu, se ela
traduz bem a autonomia interna do antigo territrio marroquino das margens do
Nger,  comparvel sob muitos aspectos  evoluo das Regncias barbarescas
dos sculos XVII e XVIII, sobre as quais a soberania de Constantinopla era
apenas uma fico, mas uma fico no totalmente desprovida de sentido.




49   A. Delcourt, 1952; B. Barry, 1972.
50   J. G. Jackson, 1811, p. 296.
51   Arquivos Nacionais, Paris, Fundo dos Assuntos Exteriores, B1, 831; B. Hallet, 1964,.p. 81.
52   Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 5259, f. 74-78.
376                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



      A evoluo econmica e social
      Calamidades naturais e meio ambiente humano
    Seguramente o Sudo Ocidental no era mais, no fim do sculo XVIII,
aquele pas deslumbrante e prspero de que falava al-Mansr em 1591.
    Na virada do sculo XVII, uma srie de calamidades se abateu sobre a regio:
secas, carestia, epidemias, fome dizimaram a populao e destruram as colheitas,
tornando mais agudas as tenses entre nmades e sedentrios. A partir de 1639,
os perodos de trgua se fizeram mais breves e as crises mais longas e incisivas.
Naquele ano, a fome irrompeu inicialmente na regio de Djenn que sempre
fora o celeiro do Arco do Nger. Do delta central, ela se expandiu em seguida,
durante quatro anos consecutivos, em todo o Arco do Nger. A misria que se
seguiu provavelmente originou o movimento social que precedeu a subida ao
poder do reino bambara de Sgou53.
    Durante o sculo XVIII, os anos "normais" foram exceo. Depois de uma
primeira carestia de sete anos, entre 1711 e 1718, o Sudo Ocidental iria conhe-
cer, a partir de 1738, uma de suas maiores fomes que atingiu toda a zona saeliana,
bem como boa parte do Magreb54.
    Em 1741, o flagelo se combinou com uma epidemia de peste e tomou ampli-
tude catastrfica, a tal ponto que "pessoas comiam cadveres de animais e de
seres humanos". As guerras e as lutas que foram particularmente pesadas nesse
perodo, implicando todas as comunidades sudanesas, davam um toque apoca-
lptico a esta paisagem sombria55.
    Os efeitos da carestia comearam a se diluir a partir de 1744, mas a peste
continuou no estado endmico, irrompendo de tempos em tempos, como entre
1748 e 1749, entre 1762 e 1766 e sobretudo entre 1786 e 179656.
    Assim, tanto ou mais que as malfeitorias dos homens, o Arco do Nger veio
a sofrer violentos desequilbrios da natureza que marcaram profundamente sua
demografia e sua paisagem.
    Verdadeira confluncia tnica, o territrio compreendido entre Tombuctu,
os Grandes Lagos e o Nger transformava-se, durante boa parte do ano, num
mosaico de povos e numa zona de contato entre duas civilizaes: o mundo


53    al-Sa'di, 1964, p. 339.
54    O. Houdas, 1966, p. 14, 63, 102, 105 e 191-192; P. Marty, 1927, p. 562 e 565.
55    O. Houdas, 1966, p. 116-119.
56    Biblioteca Nacional,Paris, Fundo rabe, Ms 5259, f. 24r-v, 26r-v e 31v-32v.
O fim do Imprio Songhai                                                         377



pastoril e o mundo rural sedentrio. Ora, como as boas pastagens so tambm
as melhores terras agrcolas, este contato foi muitas vezes gerador de conflitos
tanto mais graves porque no existia na regio nenhuma fora poltica capaz
de limitar a extenso dos terrenos de pastagem em detrimento dos campos de
cultura e vice-versa.
    A estao quente tornava-se assim um perodo de insegurana e de agitaes
em toda a regio. Nessa poca do ano, os kel-tadmekket costeavam, ao Leste e
ao Sul de Tombuctu, os berabich, os kel-maghsharen, os kel-katwan, os ghl-
-ms e outros baydan (nmades) que desciam do Akl mauritano em direo
a Rs al M' e at a fronteira setentrional do Macina, onde disputavam com os
fulbe suas magras pastagens sazonais.
    A tenso atingia seu auge no fim da estao quente, quando, com a chegada
das chuvas, os camponeses se entregavam aos primeiros trabalhos agrcolas: um
refluxo desordenado ou muito lento dos nmades era suficiente para compro-
meter seriamente as colheitas.

     Produo local e trocas regionais
    No seu conjunto, a agricultura recuou nas zonas limtrofes do deserto. Para-
lelamente a este processo, porm, houve em alguns lugares uma intensificao
real da colonizao agrcola, como fica demonstrado pelas migraes bambara,
no Bara, e os princpios de sedentarizao dos fulbe do Macina, bem como a
instalao definitiva de certos agrupamentos tuaregues ou sob a influncia dos
tuaregues (kel-antasar) nos arredores de Tombuctu.
    Alm do mais, graas  incomparvel via de comunicao que  o Nger e
por fora da manuteno e at da extenso das redes de trocas tradicionais, o
comrcio inter-regional devia ajudar a diminuir as consequncias desastrosas
dos desequilbrios naturais.
    Em Djenn, a produo local de vveres crescia com os bens advindos do
interior de San, numa gama diversificada de produtos: amendoim, farinha de
baob, karit, mel, cebola seca, pimenta, feijo, fnio. A estes produtos conviria
acrescentar o algodo, o ndigo, o sene utilizado na fabricao do sabo, a l, a
cera, o ferro do Bendougou e, obviamente, os dois artigos principais importados
da zona florestal, as nozes-de-cola e o ouro57.
    Deixando Djenn na direo de Tombuctu, as embarcaes aproximavam-
-se de Koubaka, ao lado da qual se desenvolveria, no sculo XVII, o vilarejo de


57   R. Cailli, 1828, vol. II, p. 210-217; C. Monteil, d. de 1971, p. 11-14.
378                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Sofara, onde os jula de Kong instalaram uma estao de engorda de cavalos58.
Na confluncia do Nger e do Bani achava-se Isaqa, a futura Mopti, onde se
mantinha uma importante feira de comestveis e de artesanato59.
   Na sada do lago Debo, a navegao se realizava nos dois braos principais
do rio, o Issa-Bar a Oeste e o Bara-Issa ao Leste. O mais destacadoa encrave
existente no Bara-Issa, at se criar Sarafr, era S. Na regio de Tombuctu, as
melhores reas de cultivo se achavam prximas dos lagos Tl, Oro e Fati, bem
como nos leitos dos pntanos. Com a vinda dos marroquinos ao Sudo, a cultura
do trigo se espalhou nessa zona. Mas este cereal no conquistara os camponeses
da regio. Os arma e os comerciantes magrebinos das grandes cidades eram os
nicos consumidores de po60. Entre as plantas industriais, cita-se o tabaco e a
goma arbica que se recolhia em grandes quantidades nos arredores de Goun-
dam e do lago Faguibine61.
   Alm disso, a vida comercial de Tombuctu era alimentada por uma impor-
tante atividade artesanal: condicionamento das barras de sal, tecelagem e confec-
o de roupas, curtimento, ourivesaria, sapataria, olaria, fabricao de utenslios
agrcolas e de armas brancas. Cada setor do artesanato era o monoplio de uma
corporao etnoprofissional. Era desse modo que todos os tintureiros eram
originrios do Sansanding ao passo que os arma tinham a exclusividade da
fabricao de calados62.
   A bacia oriental do Nger foi certamente a mais atingida pelas calamidades
naturais, e isto desde a poca Songhai. A deteriorao gradual das condies
ecolgicas e climticas, assim como seu isolamento das rotas de trocas, aps a
queda de Gao, foraram seus habitantes a viver como nmades.

      O comrcio transaariano na era do trfico negreiro atlntico
   Apesar das mudanas polticas que afetaram a regio desde o fim do sculo
XVI, a organizao comercial do Arco do Nger continuou sedimentada sobre
bases geogrficas econmicas e sociais que sobreviveram  conquista marroquina
bem como  intensificao do trfico europeu em litoral africano. Contornando
as dificuldades de ordem poltica e militar que se seguiram ao enfraquecimento


58    R. Cailli, 1828, vol. II, p. 236; al-Sa'd, 1964, p. 303 e 488-489.
59    R. Cailli, 1828, vol. II, p. 239-240; al-Sa'd, 1964, p. 303.
60    O. Houdas, 1966, p. 117.
61    R. Cailli, 1828, p. 314-321.
62    A.Dupuis-Yacouba, 1921, p. 25-28, 38-39, 61-63 e 79-80.
O fim do Imprio Songhai                                                       379



dos poderes centrais s margens do deserto do Saara, o comrcio transaariano
se tornou a principal atividade econmica de vastas reas do Magreb e do Sael.
O que mudou inexoravelmente a partir do sculo XVI foi, no o volume das
trocas, mas o significado econmico deste comrcio para as perspectivas de
desenvolvimento dos pases e das regies envolvidas.

     As rotas
   Depois de 1591, o eixo Dar'a  Taghza  Tombuctu transformou-se na via
real das trocas entre o Marrocos saadiano e o Sudo Ocidental: era utilizado tanto
pelos comboios militares quanto pelas caravanas de comerciantes, organizados e
vigiados pelos homens do sulto. Este itinerrio se tornaria o primeiro a ser atin-
gido pelas convulses que se seguiram  morte de al-Mansr. Os comerciantes
abandonaram aos poucos o Dar'a e Taghza em proveito do Sous e do Tafillet,
onde as autoridades religiosas locais exerciam uma influncia favorvel.  dessa
maneira que, meio sculo aps a conquista marroquina, a configurao da rede
de rotas readquiria praticamente o aspecto da poca medieval. As mudanas
mais duradouras foram as que afetaram sua parte saeliano-sudanesa.

     O eixo atlntico
   Os alawitas, na dcada de 20 do sculo XVII retomaram com maior vigor
este eixo, que correspondia na sua parte saariana  antiga Tr Lamtn.
   Sob Moulay Ism'l, as caravanas que desciam de Taghawust e de Goulimine
atravessavam os territrios dos ma'il que, por diversas razes, haviam ligado
sua sorte  dinastia dos xerifes. Convm tambm insistir sobre o papel dos
Tadjukant, senhores de todo o trfico de caravanas entre o Sul marroquino e o
Adrar da Mauritnia63.
   Alm do mais, a difuso de doutrinas religiosas como a diryya e a
Tidjnyya no Saara Ocidental deu origem a uma portentosa circulao de
homens e de ideias entre os centros religiosos do Sul marroquino e do Saara
meridional: Aa, Tindf, Smra, Shinguetti e Boutlimit constituram-se em
centros notrios da diryya, bem como em importantes paradas comerciais.
De Shinguetti ou de Wadn, as caravanas alcanavam Saint-Louis do Senegal
pelo pas Trarza, o Galam pelo pas Brakna e o Hdh seguindo a rota do Dhr
que conduz a Tisht e a Walta. No Galam, a preponderncia do comrcio


63   P. Marty, 1920-1921, vol. III, p. 97-98 e 132-134.
                                                                                                                                                                                                                                   380
                                                                                                                                         Argel
                                                                                                                         Or

                                                                                                   Mekns                                             Constantina         Tnis
                                                                                                                   Tlemcen                           Biskra
                                                                                                        Fez
                                                              Mogador S                                                        Laghwat                      .
                                                                                                                                                        Gafsa
                                                                        O               USMarrakech                                                                      Gabs
                                                                                                                              G AL     Tuggurt DJAR
                                                                                                                          ER ENT MZAB
                                                                   Agadir                                   Tafilalet
                                                                                      Tatta                                                          ID
                                                          Goulimine                                                         ID          Wargla
                                                                                                                                                        Trpoli                                          Benghazi
                                                                                                                         OC A al-Golea
                                                                                   Ayas              Tabelbala
                                                                                                                                               TA L
                                                                                                   Banu `Abbas               AR              N
                                                      Rio. Sak                                                          GUR              RIE
                                                              iy                                                                      GO            Ghadames
                                                                   .
                                                                                    Tinduf                               Timimun   ER




                                                                   ya
                                                                                                                                                                                                     Awdjila




                                                                                                                 TOU
                                                                      al-Hamra'
                                                                                               I




                                                                                                        CH
                                                                                           UID                                         . .
                                                                                                                                    In-Salah




                                                                                                                    AT
                                                                                        IG                                 TIDIKELT




                                                                                                        EI
                                TIRI
                                             S                                    ERG




                                                                                                    CH
                                                                                                                  Wallen                                                                  FEZZAN




                                                                                                   G
                                             Idjil                            Taghaza




                                                                                                 ER
                                                                                                                                                                      Ghat           Murzuk
                                                                                                                                                                                          .
                                                 R




                                                                                        Taoudni          TANEZRUFT                              HOGGAR                                                           KUFRA
                                             RA




                                                      Waddan
                                                                                                                                                                  Djanet
                                        AD




                                                      Shinguetti
                                        ZA                                                                                                                                                TIB
                               AR                    TAGANT                                                                      ADRAR                                                       ES
                         TR                                                                              Mabruk                                                                                 TI
                                              Tidjikdja        Tishit                     Arawan                                  DES
                          BRAKNA                                                           ZAW     AD    Bu-Jbeiha              IFOGHAS
         So Lus                                         HODH                    Walata A                                                                                        Bilma
                     Rio Se                                                                                   al-Ma'-mun                                        AR
                           n   eg                                                         Tombouctou
                                    a                                              Bassikunu
        Dacar                                                                                                                                    Agadez
                                    l




                                          Kumbi                                                                     Gao
                        GALAM Kayes
                                    Diala                                                 Sokolo                                                                      GU
                                                                                                                    Rio                                          ER
                                                                                                      Douentza
                            BONDU                                                   Sansanding                          N                                 DAM
                    Rio G BAMBUK
                          mb
                                       Banamba                                              Djenn                       ge                                                         KANEM-              WADAI
                               ia                          Nyamina                 Sgou San Ouahigouya
                                                                                                                            r  DALLOL                                                BORNO




                                                                                                                                                                                                                                   frica do sculo xvi ao xviii
                                                                                                                                            Katsina             Zinder
                                                      Bamako                                        (Wahiguya)
                                                                                                          Uagadugu                       HAUA
                                                      BURE                              Bobo-Dioulasso    (Wagadugu)                                        Kano
                                                                                                                                                                          Lago Chade
                                                                                                                                    U
                                                                                                                                 RG         Bussa
                                                              OUR                                                           BO
                                                                                                                                                       NUPE                                     0!         250!       500 milhas
                                                                 ODO
                                                                                    UGO
                                                                                             U                                                                                                  0!         400!       800 km


figura 11.5     As rotas do comrcio transaariano do sculo XVI ao sculo XVIII (apud M. Abitbol).
O fim do Imprio Songhai                                                                             381



mouro era total apesar da presena do forte francs de Saint-Joseph64. Vrias
rotas desciam do Hdh em direo aos reinos bambara do Karta e de Sgou para
as paradas de Diara do Kingui, Goumbou, Bassikounou e Sokolo65.
    As caravanas mouras chegavam at Sgou, Banamba e mesmo at Nyamina,
mas era em Sansanding que se efetuava a maior parte do trfico com o pas
Bambara. Ponto de redirecionamento das cargas para as pirogas que subiam o
Nger desde as correntezas do Sotouba e porto de comrcio do reino de Sgou,
Sansanding deixou progressivamente de ser dependente de Djenn para seu
abastecimento com produtos do Saara. No final do sculo XVIII, estes circuitos
comerciais eram to densos quanto os da metrpole do Bani66.
    As caravanas de Walta mantinham tambm contatos diretos com Dejenn
via Rs al-M' e Tombuctu67.

     O eixo oriental
    Partindo do Tafillet marroquino, este feixe de rotas atravessava o Touat
que era tambm lugar de passagem das grandes caravanas de peregrinos mar-
roquinos. Em Timimoun, a rota do Touat, no Sudo, ligava-se s pistas do
Magreb Central: al-Gola  Mzb  Laghouat(Laghwt) e al-Golea  Wargla
 Touggourt  Tozeur  Gafa, ambas controladas pelos nmades shaamba e
ughramma, cuja nica profisso consistia em guiar e proteger as caravanas68.
    Mais ao Sul, em In-alh, dava-se a juno com a via de Ghadmes que,
disputada durante todo o sculo XVIII por Trpolis e Tnis, escoava os produtos
sudaneses nas duas capitais. Seus mercadores, entre os mais ricos negociantes
de Tombuctu, mantinham relaes permanentes com o pas Haussa por Ght e
Agads bem como com o Borno por Murzuk e Bilma69.
    Deixando Tidikelt, as caravanas costeavam a borda ocidental do Ahnet; em
seguida, depois da difcil travessia do Tanezrouft, chegavam no Azawad, onde
se encontravam os acampamentos kunta. Prestadores de servios, de saber e de
baraka (bnos), rbitros da maior parte dos conflitos entre nmades, e entre


64   Isto resulta com clareza da correspondncia dos comandantes do forte conservada nos Arquivos Nacio-
     nais, Paris, subcoleo Colnias, C6.
65   M. Park, 1980; A. Golberry, 1802, p. 287-288.
66   M. Park, 1980, pp.303-4; R. Cailli, 1828, vol. II, p. 380.
67   O. Houdas, 1966, p. 21-25, 102-104; H. Barth, 1857-1858, vol. V, p. 481-482.
68   E. Carrette, 1844, p. 91; A. Daumas-Chancel, 1848, p. 1l1-116 ; H. Duveyrier, 1859, p. 6-7,16-17 e
     19-24.
69   L. de Tassy, 1757, vol. II, p. 180-182; R. Hallet, 1964, p. 82-84; E. Carrette, 1844, p. 143.
                                                                                                                     382
                                                                                                                     frica do sculo xvi ao xviii
figura 11.6 Viajantes aproximando-se de Tombuctu. [H. Barths, 1857.  Royal Commonweath Society Library, Londres.]
O fim do Imprio Songhai                                                                                383



nmades e sedentrios, os kunta desempenharam um papel de suma importn-
cia na regio. Sua simples presena representava as melhores garantias e a mais
eficaz proteo das rotas que conduziam a Tombuctu70.
    De Arawn e de B-Jbeiha, algumas caravanas se encaminhavam direta-
mente para Bamba ou para Gao, mas obviamente era Tombuctu que atraa a
maior parte do trfico desta via71.
    Aps o oferecimento de algumas ddivas aos chefes arma da cidade, os
comerciantes magrebinos ficaram sob a proteo dos diatigui que lhes ofereciam
hospitalidade, meios de deslocamento e eventualmente uma guarda armada72.
Para um bom nmero de viajantes, o priplo no acabava em Tombuctu. Os
produtos magrebinos eram encaminhados a Djenn pelos mesmos homens.
Apenas acima de Djenn se desenhava uma nova infraestrutura de trocas, sendo
a trama essencial formada pelas redes jula.

     As redes jula
   Djenn se ligava por duas artrias principais  zona florestal e aos pases
produtores de ouro e de cola. A primeira, para Sudoeste, se dirigia rumo a Bure e
aos confins do pas do cola, o Wurodougou; a segunda ia em direo ao Sudeste,
para Kong e o Ashanti73.
   De Kong, Djenn recebia noz-de-cola e ouro do Lobi e da Costa-do-Ouro.
Os dois produtos subiam com os mesmos mercantes jula que escoavam as barras
de sal de Taoudni at Buna. Eles completavam suas cargas com tecidos de algo-
do e tambm com artigos europeus, comercializados em volta de Kumasi74.
   Paralelamente a esta via, os yarsa do grupo mossi tinham estabelecido liga-
es diretas entre Tombuctu e o pas Ashanti, contornando Djenn e o delta
interior, por Douentza, Korientze, Aouaki e Dir ou por Ouahigouya, Bandia-
gara, Konna e Korientze.
   Fora dessas rotas secundrias mossi, parece que um trfico muito fraco se
realizava entre Tombuctu e o pas Haussa, pela via fluvial at Ansongo, Dallol e
Mauri. Esta rota era aquela que os peregrinos tomavam, os quais, tendo atingido



70   Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 5334, f. 79r; P. Marty, 1920-1921, vol. I, p. 27 e 49-51.
71   H. Barth, 1857-1858, p. 457-458.
72   O. Houdas, 1966, p. 138 e 203.
73   R. Cailli, 1828, vol. II, p. 99-103; L. G. Binger, 1892, vol. II, p. 141-142.
74   L. G. Binger, 1892, vol. I, p. 316-317 e 373-374. Achavam-se tecidos vermelhos, ditos de Kumasi, em
     meados do sculo XVIII, em Tombuctu; O. Houdas, 1966, p. 96.
384                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



Kano, subiam em direo ao Fezzn, em seguida atingiam o Egito via Awdjila
e Swa75.
    As exportaes marroquinas em direo ao Sudo Ocidental eram as mais
variadas: compunham-se de produtos locais, desde cereais at artefatos religio-
sos, passando por vestimentas de seda e pelo tabaco de Mekns, bem como de
produtos do Levante (especiarias, seda) ou europeus (txteis, acar, caf, ch,
vidrilhos e miangas, armas de fogo).
    No Magreb Central, o comrcio sudans constitua a principal fonte de
atividade das provncias do Touat, do Mzb, do Souf e do Djrid (Djard). Este
inclua uma gama muito diversificada de produtos, indo do tecido ndigo e
dos turkedi de Kano s nozes- de-cola do Ashanti, consumidas em todo o Sul
magrebino em que viviam importantes comunidades negras76.
    Muito variado e ininterrupto, este comrcio proporcionava, ao que parece,
enormes benefcios77. Certamente o alcance econmico destas trocas pode pare-
cer discutvel ou mesmo insignificante na conjuntura da poca. Entretanto um
fato se impe: o comrcio transaariano no drenava apenas mercadorias. Veicu-
lava tambm ideias e valores, uma civilizao em suma.


      Os produtos de troca
   O sal pouco entrava nas trocas entre magrebinos e saelo-sudaneses. Desde
o incio do sculo XVII e apesar da presena de 'id marroquinos tanto em
Taghza, quanto em Taoudni78, as cidades do Nger tinham acesso s salinas
saarianas por redes distintas e autnomas: os azalai mouros e tuaregues. Nessas
condies, a diversificao dos produtos exportados para o Sudo se apresentava
como uma necessidade imperiosa para as caravanas vindas do Norte. Alis, ao
lado dos artigos tradicionais de exportao, que eram o ouro, os escravos e o
marfim, o Sudo devia escoar alguns produtos manufaturados (tecidos e joias),
que gradativamente aumentaram conforme diminuam ou se estagnavam as
remessas de ouro e de escravos79.


75    Biblioteca Nacional, Paris, Fundo rabe, Ms 5713, f. 30-1.
76    R. Leselle, 1957; L. Valensi, 1967.
77    Ver, entre outras, as estimativas de G. Lemprire, 1891, p. 290 ; J. Graberg, 1834, p. 146; L. Godard,
      1859, p. 117-120; Prax, 1845.
78    A presena de 'id marroquinos em Taoudni  atestada at a vspera da conquista francesa. Ver o
      relatrio Pichon sobre a regio de Arawn, Arquivos Nacionais do Senegal, IG 254.
79    R. Cailli, 1828, vol. II, p. 383-384; Prax, 1845, p. 344.
O fim do Imprio Songhai                                                      385



    Mesmo no atingindo as quantidades imensas transportadas imediatamente
aps a conquista marroquina, o ouro sudans figurava no carregamento de
todas as caravanas vindas do Sudo. No fim do sculo XVII, assistiu-se a um
claro acrscimo das exportaes de escravos, aps a constituio do exrcito dos
`abd por Moulay Ism`il e, durante a segunda metade do sculo XVIII, coube 
goma-arbica ocupar um papel importante nas exportaes sudanesas rumo ao
Marrocos. A abertura do porto de Mogador iria oferecer s caravanas sudanesas
nova sada martima, por onde escoariam, alm dos artigos j citados, grandes
quantidades de penas de avestruz e de marfim.


    Evoluo cultural e religiosa
    O isl sudans  vspera das jihad do sculo XIX.
    O perodo examinado  muitas vezes descrito como uma era de decadncia e
de estagnao cultural. Esta ideia precisa ser revista, se com isso se entende um
recuo ou uma regresso da cultura islmica. Pelo vis das trocas ininterruptas de
um lado e de outro do Saara, pelo dos zwiya, das confrarias e dos grupos de
marabutos e pelo vis das redes muito bem estruturadas dos comerciantes jula,
a influncia do isl continuou a tocar em graus diversos todas as comunidades
do vale do Nger.
    No incio do sculo XIX, Ren Cailli iria constatar que em Tombuctu e em
Djenn todos os habitantes estavam em condies de ler e de escrever o rabe.
A melhor prova da grande difuso deste poderoso meio de comunicao nos 
fornecida pela abundncia de fontes escritas de que dispe o historiador para
esta regio: as famosas crnicas de Tombuctu, as ta'rkh, foram todas redigidas
entre os sculos XVII e XIX.
    Contrariamente ao perodo medieval, o isl no era apenas um fenmeno
urbano. Ele no era mais veiculado exclusivamente pelos `ulam' da cidade nem
organicamente ligados a um grupo social exclusivo, o dos comerciantes, ou asso-
ciado a uma atividade econmica especfica. Ganhando o campo, o isl atingia
agora tanto os camponeses bambara quanto os pastores fulbe. Seus novos agen-
tes de difuso eram as tribos de marabutos berberes ou sudanesas que tinham
feito do estudo e da difuso da palavra do Profeta sua principal ocupao.
    O aparecimento dos grupos de marabutos (zuwaya ou insilimen)  um dos
aspectos mais espetaculares da estratificao etnossocial que ganhou corpo na
orla meridional do Saara ao longo do sculo XVII. Aps as convulses demo-
386                                                                    frica do sculo xvi ao xviii




figura 11. 7   Uma mesquita em Tombuctu. [ Werner Forman Archive, Londres.]



grficas ou de conflitos armados, ainda mal elucidados, a sociedade nmade
se cindiu, do Senegal ao Ar, em dois estratos bem distintos: de um lado, as
populaes "guerreiras"; de outro, tribos clericais que gozavam de um grande
prestgio religioso e devotadas inteiramente ao estudo e  prtica do bem e
da mstica islmica. Seus zwiya atraam estudantes, bem como comerciantes
das caravanas em busca de proteo. Comedidamente instalados ao longo das
rotas comerciais, muitos destes santurios se tornaram em seguida importantes
reas de descanso das caravanas. Tal foi o caso, por exemplo, das localidades
de Arawn e de B-Jbeiha (ao Norte de Tombuctu), fundadas pela tribo de
marabutos dos kel al-s, que seria depois sobrepujada em seu prprio terreno
pelos kunta, ou o caso de Mabrk e de al Ma'mn, igualmente ao de antigos
acampamentos dos kel al-s, que iriam tornar-se, no sculo XVIII, dois dos
centros mais importantes da irradiao kunta sobre o shaykh al-Mukhtr.
O fim do Imprio Songhai                                                     387



    Eclipsando os `ulam' urbanos, os shaykh do deserto tornar-se-iam os men-
tores da maioria dos promotores das jihad dos sculos XVIII e XIX: foi junto
aos At Dayman de Shinguetti que o emir `Abd al-dir do Futa Toro comeou
seus estudos, antes da jihad de 1775; foi tambm no seio da frao insilimen dos
At Awari do Ar que `Uthmn dan Fodio encontrou seu mestre, Djibrl ibn
`Umar. A influncia dos Kunta sobre Shaykh Ahmadu  to conhecida quanto
a influncia dos Ida-u-`Al de Shinguetti sobre al-Hdjdj `Umar Tall.
    Reatando de certo modo com a tradio almorvida, o isl dos marabutos
distinguia-se por seu militantismo claramente oposto ao sincretismo tolerante
que caracterizava o "isl negro" das cidades sudanesas e dos centros jula. Alm
do que, por se aparentar muito cedo com confrarias ou ordens religiosas to
universais quanto a diryya (cujos principais representantes no Sudo eram
os kunta), o isl dos marabutos oferecia a seus adeptos mais que um caminho
religioso: uma estrutura de enquadramento que ultrapassava as entidades de
identificao tradicionais  etnias, tribos, cls etc.
    Enquanto o isl tradicional sudans estava fortemente ligado ao poder e aos
chefes , o islamismo dos marabutos de antes da jihad penetrava pela base da
pirmide social, sob a ao conjugada dos confrades e pastores que, no sculo
XIX, partiriam para a conquista religiosa de todo o Sael. Elo de reunio e de
emancipao poltica e social atraiu assim a massa dos tucolores do Futa Toro
que lutava contra o poder estabelecido da dinastia dos denyanke; atraiu tambm
os fulbe do Macina, que sacudiram o jugo dos bambara e dos ardo, ou ainda os
fulbe e os cultivadores do pas Haussa contra a hegemonia dos poderes reais
estabelecidos em Gobir, Kano, Katsina e em outros lugares.
Do Nger ao Volta                                                                                389



                                      CAPTULO 12


                              Do Nger ao Volta
                                    M. Izard e J. Ki-Zerbo




    Aps a queda do imprio de Gao em 1591, na seqncia da invaso marro-
quina, os fundamentos do poder poltico reinante na regio do Arco do Nger
comearam a desmoronar. Criou-se, assim, um vazio na vida poltica que outros
poderes iriam paulatinamente preencher. O poder se descentralizou durante os
sculos seguintes, sob o efeito no somente das foras centrfugas provenientes
do corao do imprio esfacelado, mas tambm das foras de integrao que
operavam sobre esses contornos. No Arco do Nger e na bacia superior do Volta,
quatro polos constituram-se desta maneira nos sculos XVII e XVIII: os reinos
bambara de Sgou e do Kaarta, os reinos mossi, os reinos de Kong e do Gwiriko
e, por fim, os reinos gulmanceba. Obviamente, os bastidores da vida poltica
eram constitudos por um grande nmero de etnias de poder no-centralizado.
Falou-se de "tribalizao" do poder durante este perodo, particularmente sob a
influncia do trfico negreiro que, mesmo para pases to distanciados da costa,
como o Arco do Nger e pases do Volta, constitua o pano de fundo do sistema
econmico1. Mas a palavra "tribalizao" , no obstante, deslocada porque,
como veremos, os reinos africanos apoiavam-se em uma base geogrfica neces-
sariamente heterognea do ponto de vista tnico. Em outras palavras, a tradio
do Mali e de Gao ainda continuava nessa regio. Entretanto, ela era exercida

1    Os bambara estavam na lista dos negreiros e no  impossvel que seu sobressalto do sculo XVII esteja
     ligado s caas aos homens da poca.
                                                                                                                                                                                                                                         390
                                                                                                                Tombuct
              0               100             200 milhas

              0               150             300 km
                                                                                                                                                                                    Gao




                                                                                                              iger
                                                                                                        R io N




                                                                                                                                U
                                                          Mourdia
        U K




                                                                                            Dia
B A M B




                                               T   A               A            Macina                                                                                              Dori
                                          R                  R                                                                                       Waiguyo




                                                                                                                     O
                                      A                  A                                              Djenn                                 A
                              A                    B                                                                                        M                                                                             Ri
                                                                                                                                      NG          O
                         K                                                                                                                              Kuala Seba
                                               M                                                                                                    S                                                                        o
                                                                                                                                   TE                  S    I                                                                    N
                                  U




                                          A                                  Sgou                                                        Zandoma
                                  G




                                      B                                                                        SANA              YA Gursi O U A G A D O U G O U




                                                                                                                                                                                                                                 ig
                      Kita                                                                  San
                              U




                                                                         i




                                                                                                                                                                                                                                    e
                                                                                                  G




                                                                                                                                                                                                                                     r
                              D




                                                                                                                                                         Mane     Pisila

                                                                     n
                                                                  Ba
                             LA




                                                                                                                                    Yako             Tema     Kaya
                                                                                                                                                              Bussuma Bulsa
                       FU




                                                                                                                             Konkisitenga
                                                                                                                                                    Ouagadougou           Bilanga
                                                                                                                                                                                                            DOGON




                                                                                                             o
                                                             S
                                                                                                                                                                 H O




                                                                                                           gr
                                                                                                                            Koudougou                                                           Nungu
                                                                                                                                                             O G




                                                                                                         Ne
                                          Kangaba                                                                                                                                      Kupela                          A
                                                                                                                                               M                                                                  M




                                                                                                        lta
                                                                                                        Vo                           G                                                 Tenkodogo   U L
                                                                                                                                         U Sapou Rio Vo




                                                                                                                                                                            Rio V
                                                                                                  Rio
                                                                                                                         Boromo                                                                      G
                                                       Bougouni                                                                            R           lta                                BISA
                                                                         Sikasso                                                             U             Ve
                                                                                                                                                             r




                                                                                                                                                                                 olt
                                                                                                                                         Leo   N Po                                                  Pama




                                                                                                                                                                                    a Branco
                                                                                                                                                 S




                                                                                                                                                                           m
                                                                                            Bobo-Dioulasso                                          I




                                                                                                                                                                                      elh




                                                                                                                                                                                                                      U
                 er




                                                                                                                                                                                                                  RG
              Nig




                                                                                                                                                                                          o
                                                                                                                          Nako




                                                                                                                                                                                                              BO
                                                                                                                         LOBI
                                                                                                                                                                           Gambaga                    Sansanne-
                                                                                                                                                                            MAM                       Mango
                                                                                 Ba                                          Batie                                                       PRUS
                                                                                                                                                                                                 I
                                                                                     nd




                                                                                                                                                                                                                                         frica do sculo xvi ao xviii
                                                Odienne                                                                                                                          Yendi
                                                                                      ama




                                                                       Korogho                                                                      Daboya
                                                                                                         Ri




                                                                                                                                                               V. b
                                                                                            Kong

                                                                                                                                     Volta n
                                                                                                                         Bouna                                       DAG
                                                                                                             o




                                                                                                                                                                         OM




                                                                                                                                                                   lanc
                                                                                                                                                    GON
                                                                                                              Como




                                                                                                                                                          JA                        BA




                                                                                                                                                                       h
                                                                                                                                             egr




                                                                                                                                                                    e
                                                                       Boron
                                                                                                                                                                           Ri
                                                                                                                                                o
                                                                                                                                                                             o
                                                                                                                                         Begho                                   Vo
                                                   Seguda           Mankono                                               Bonduku                                                  lta




Figura 12.1            A regio do Nger-Volta do sculo XVI ao XVIII
Do Nger ao Volta                                                                                        391



doravante em uma escala mais reduzida, com outros meios e em um contexto
cada vez mais dominado por fatores exteriores, alm de choques internos que
estruturavam novos edifcios polticos. Em contrapartida, veremos como certos
fatores conjunturais, de ordem socioeconmica e religiosa, que nada tm de
"tribal", influenciaram tais processos de reestruturao antes de provocar, no
fim do sculo XVIII, as primeiras rachaduras na estrutura que anunciavam as
modificaes do sculo XIX.


    Os povos, as etnias e os reinos
    Os reinos bambara de Sgou e do Kaarta, do sculo XVI ao XIX
    A evoluo poltica
    Os reinos bambara2 possuem origens que, sem serem antigas, so obscureci-
das pela variedade de tradies orais e das crnicas. Estas ltimas, recolhidas e
estabelecidas por viajantes, oficiais e administradores europeus imediatamente
antes e aps a conquista, bem como por tradicionalistas africanos, so fixadas
por textos muito disparatados. A sucesso dos monarcas no  sempre a mesma,
a fortiori a durao dos reinados3.
    Entretanto, este estudo concerne ao desenvolvimento das sociedades que
deram origem e formaram homens ilustres, mais do que a seus prprios atos.
Este  o motivo pelo qual nos ateremos sobretudo, aps a evocao necessria do
fluxo dos acontecimentos,  organizao e s relaes de foras que motivaram
esses povos, do sculo XVI ao XIX.
    Uma outra questo polmica  a dos povos responsveis pela iniciativa his-
trica nos reinos bambara. Tauxier  categrico quanto a isso: "Definitivamente,
ele escreve, os bambara jamais foram capazes, por si s, de fundar reinos: os reis
de Sgou e do Kaarta eram de origem fulbe, e os de Sikasso e de Kong eram de
origem mande-jula. Quanto ao homem do povo bambara, era um verdadeiro
negro, muito inferior, mas relativamente trabalhador e cultivador"4. Quando
lembramos que o bambara  tambm uma lngua mande e que as mestiagens


2    Os bambara chamavam a si mesmos de Bamanaw. Todavia, manteremos aqui a ortografia oficial e atual
     de seu nome.
3    Segundo este ponto de vista, as obras que mais frequentemente apresentam-se em acordo so, por um
     lado, A. Raffenel, 1846, e L. Tauxier, 1942, e, por outro lado, M. Delafosse, 1912 e 1913, e C. Monteil,
     1924. Para a cronologia, seguiremos preferencialmente os dois primeiros.
4    L. Tauxier, 1942, p. 8.
392                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



datam dos primrdios da histria, percebemos que nossa principal preocupao,
hoje,  outra5. E isso, ainda que as alianas biolgicas e polticas (bem como as
guerras) tenham sido numerosas entre os bambara e os fulbe, por exemplo, para
expulsar o ltimo imperador do Mali, mansa Magan (1645), ou a ofensiva de
Kong. Se  certo que as origens primeiras dos bambara se perdem em trevas
insondveis, os movimentos contemporneos refletem-se nas tradies que per-
mitem afirmar que eles so autctones no Arco do Nger h muito tempo, pare-
cidos, sem dvida, pelos bozo e mesclados igualmente aos soninke e aos soso,
aos malinke, aos fulbe etc. Quando, a este respeito, Raffenel evoca uma lenda
sobre as origens que fala do pas de Toron, a uma lua de marcha de Sgou, no se
trata efetivamente aqui do Toron de Wasulu situado muito prximo ao sudoeste.
Na verdade, a existncia de uma sanankunya6 entre Koulibali (Kurubari) e Keita
ou Tour demonstra relaes muito antigas entre Bambara e Malinke7 que, por
sinal, falam dois dialetos da mesma lngua.
    Qualquer que seja, o relato da migrao dos ancestrais epnimos das dinas-
tias bambara reproduz o tema da travessia do rio que encontramos em tantas
lendas africanas sobre as origens. Dois irmos, Baramangolo e Niangolo, per-
seguidos por um inimigo e no tendo piroga, atravessaram o rio (Baoul ou
Nger) aproveitando-se dos servios de um enorme m'polio (siluro) que os salvou
in extremis8.
    O que chama ateno neste relato original  a associao rpida que se
instaura, por vezes de bom grado, e muitas vezes pela fora, com os soninke
(marka). Esses ltimos eram mercadores instalados na regio h muitos scu-
los, s vezes como negociantes de escravos, e pouco afeitos ao ofcio das armas,
contrariamente aos recm-chegados.  assim que na margem direita do Nger,
um dos dois irmos, Baramangolo, pediu asilo aos buare de Sgou, soninke, que
lhe concederam um territrio, separado do seu,  verdade, mas que permitia
aos bambara recm-chegados tomar em suas mos a defesa de todo o reino de


5     Posteriormente, L. Tauxier (1942, p. 16), a propsito da antropologia fsica, escreve: "Quatrefages e Hamy
      concluem, p. 359, que os negros mandingue e bambara que habitavam o alto vale do Nger pareciam
      pertencer s duas raas hawsa e sudaniana, esta ltima representando os negros inferiores, os verdadeiros
      negros, e a raa hawsa representando uma raa negra superior ou miscigenada com elementos etopes
      ou hamticos".
6     Tradio visando a desarmar tenses tnicas pela troca de brincadeiras.
7     R. Pageard, 1957. Certos autores explicam a marginalizao deste povo do tempo dos mansa do Mali
      pela sua recusa em se dobrar diante do poder de Mali e da religio islmica. Da seu nome, Ban m na,
      "recusa do mestre".
8     O fato de que eles atravessaram o rio sem piroga estaria na origem do patronmico Koulibali (de kulu,
      piroga, e bali, privativo), mas h outras etimologias.
Do Nger ao Volta                                                                                 393




Figura 12.2 Estatueta soninke representando um hermafrodita ajoelhado. Madeira esculpida, com a ptina
do sangue dos sacrifcios. Altura: 29 cm. [ G. Berjonneau. ART 135. Boulogne-Billancourt]
394                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Sgou. Durante este tempo, o outro irmo, Niangolo, aps ter atravessado o rio,
construiu uma tata (lugar fortificado) em Baiko. Os marka desta regio, aps
terem tentado em vo tom-la de assalto, acabaram por se acomodar em relaes
pacficas e complementares com os recm-chegados, at o momento em que
cativos, trazidos do Toron pelos jula, libertaram-se e vieram a engrossar consi-
deravelmente as foras de Niangolo, donde a passagem (gradual, sem dvida) do
estatuto de refugiados ao de protetores de seus hspedes e, depois, ao de mestres.
Este processo aparece claramente atravs da maior parte de testemunhos sobre
a origem do poder bambara.
    Um outro trao dominante nesta histria, nesse segmento mdio do Nger
(estratgico porque  a zona onde a curva do rio atinge um ponto culminante
rumo ao deserto e s rotas da frica do Norte, e que, por isso, tinha polarizado
o poder poltico h quatro sculos unificando as duas margens), residia na difi-
culdade com que o poder foi partilhado. Isso ocorreu pelo fato de os dois reinos
irmos de Sgou e do Kaarta no terem cessado de se agredir mutuamente
mobilizando para isso povos que se estendiam, em certos momentos, das mar-
gens do Senegal ao Norte do Alto-Volta (atual Burkina-Faso).
    No  fcil ligar os dois ancestrais primordiais e legendrios das dinastias
bambara aos primeiros lderes historicamente considerados. Deste modo, do
lado de Sgou,  dito que um dos descendentes de Baramangolo foi Kaladian
Koulibali, apresentado por numerosos autores como o bisav de Mamari Kou-
libali por Danfassari e Soma9. Kaladian, sobre o qual a tradio oral nada diz,
aparece como quase tendo restabelecido a grandeza de Mali no sculo XVII,
particularmente ao retomar Tombuctu dos marroquinos10.
    Durante este perodo, em Kaarta, na margem esquerda do Nger, Sunsan
(por volta de 1635), filho de Niangolo, teria, segundo a lenda de Nioro, fundado
Sunsana, prxima de Mourdia. Seu prprio filho Massa (por volta de 1666) foi
um grande cultivador e tambm um genitor prolfico que casou sistematica-
mente suas dezenas de filhas no com prncipes impossveis de serem aliados 
sua causa, mas com homens pobres, sob a condio de que eles viessem a morar
proximamente a ele e desposassem igualmente sua causa. Os saques a que ele
se lanava periodicamente atraam tambm aventureiros que s eram admiti-
dos junto a ele se tivessem dado provas anteriores no papel de agricultores11.


9     C. Monteil, 1924, p. 21 ; L. G. Binger, 1892, vol. II, p. 386.
10    L. Tauxier, 1942, p. 63.
11    Foi Massa quem deu seu nome  dinastia. Massassi significa "filhos de Massa", mas tambm "descen-
      dentes do rei".
Do Nger ao Volta                                                                                      395



O filho de Massa, Benefali (por volta de 1710-1745) continuou na mesma via
e estendeu consideravelmente o poder dos Massassi por meio de mtodos que
aliavam habilmente a vida patriarcal dos campos e a brutalidade das operaes
militares.
    Sucedendo Benefali, seu irmo Foulakoro no pde evitar o primeiro choque
grave entre os massassi e os reis de Sgou. Esses ltimos eram efetivamente mais
poderosos que os massassi porque seu territrio englobava os vales do rio e seus
principais afluentes, a populao nesta regio era mais numerosa e suas ativida-
des mais variadas, uma vez que ela era constituda por camponeses e guerreiros
bambara, por comerciantes soninke e jula, criadores fulbe e mouros, pescadores
e transportadores somono e bozo etc. Este poder de Sgou era contrabalanceado
pelo complexo de superioridade dos massassi que se ufanavam de uma nobreza
mais autntica, sobretudo aps a mudana de dinastia em Sgou.
    Ora, Foulakoro tinha diante dele, em Sgou, um monarca genial, o verdadeiro
fundador do reino, Mamari Koulibali (1712-1755). Bisneto de Baramangolo,
Mamari, que era dotado de uma fora fsica incomum e cuja me preparava
dolo (cerveja de milho mido) bem como hidromel, tornou-se rapidamente o
chefe de um ton (associao de garotos circuncidados no mesmo momento), que
lhe valeu o nome de Biton ou Tiguiton. Caa, culturas e patuscadas comuns,
sem contar as farsas montadas com seus companheiros fizeram de Mamari
rapidamente um lder social, em seguida poltico,  margem das instituies
gerontocrticas e religiosas do pas12. Um conflito devia se seguir nos planos
interno e externo ao ton. No interior, uma primeira tenso proveio do fato de
que, normalmente, as reunies se sucediam na casa dos diferentes membros da
associao. Mamari decidiu monopolizar a assembleia semanal da segunda-feira,
recebendo, desta maneira, sozinho, as contribuies de seus convidados. Mas o
principal choque ops Mamari aos comerciantes soninke cujo jovem campeo,
Kassum, foi finalmente assassinado aps vrias altercaes13. Uma vez que seu
poder crescente inquietava os ancies, Mamari rompeu com a gerontocracia
eliminando os mais velhos de Donkouna e de Banankoro para se conciliar com
os mais jovens.
    Quando os adultos destes vilarejos pediram sua ajuda, Mamari aproveitou
para consolidar suas conquistas interiores por meio de vitrias exteriores. Uma


12   O processo de formao do Estado bambara a partir da instituio social do ton ser detalhado mais
     abaixo.
13   Foi assim que, propondo regulamentar as multas relativas ao gado, Kassum, quis direcionar a associao
     rumo ao terreno dos bens mveis, que os sonunke estavam seguros de dominar.
396                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



contra Kong, que ofereceu ouro aos wattara para assegurar sua ajuda, e outra
contra os massassi.
    A primeira interveno de Kong, por volta de 1725, s foi repelida por
Mamari graas  coalizo com os fulbe do Macina que estavam em vias de
colonizar o Fouladougou (pas do alto Bakoy em torno de Kita). Na verdade,
Skou Wattara teria mesmo se lanado ao ataque contra o pas de Malinke e
teria, portanto, sido pego entre os bambara de Sgou e os fulbe de Fouladougou.
O segundo ataque de Kong foi repelido graas ao apoio dos Tyero Somono que
lanaram enxames de abelhas contra a cavalaria inimiga14. Aps ter libertado
San e rechaar os senufo, o mestre de Sgou reduziu, entretanto, as pesadas
taxas que afligiam os habitantes de Kong. Nesta poca, Foulakoro reinava no
Kaarta15. Ele estava engajado no cerco de Murdia. Esta cidade pediu ajuda a
Mamari que esperava apenas este sinal para intervir. Ele venceu e fez prisioneiro
Foulakoro que pereceu no cativeiro. Os massassi tiveram de se distanciar ainda
mais rumo ao oeste. Mamari Koulibali, chamado Biton, imps-se tambm 
totalidade do pas bambara, compreendendo Bldougou. O Macina e Djenn
foram colocados sob sua autoridade e ele se fez construir palcios por meio de
um arquiteto de Djenn. Enfim, em 1751, ele conquistou facilmente Niani, a
capital do decadente Mali, cujo chefe, Massa Maghan Keita, passou a pagar-
-lhe tributo. O mesmo ocorreu com os pax de Tombuctu quando a flotilha e a
cavalaria de Biton livraram o Arco do Nger dos tuaregues que cometiam suas
exaes na regio.
    Os sucessores de Biton foram, por sua vez, soberanos de pobre envergadura,
a comear por seu filho Denkoro (1755-1757), um orgulhoso sanguinrio que
se apoderou do machado de ouro, smbolo do poder real, e que foi rapidamente
executado pelos chefes de guerra. A mdia de durao dos reinados no passou
de trs anos. Somente Ngolo Diarra (1766-1790) reinou por tempo suficiente
para colocar em prtica uma real poltica. Mas foi-lhe necessrio, primeiramente,
livrar-se de Nankoroba Nzangue, em seguida obter um juramento dos chefes
militares sobre objetos mgicos cuja guarda lhe havia sido confiada pelo pr-
prio Mamari. Ele ps fim, assim,  agitao dos chefes ton-dyon, que tinham se
tornado mercenrios, e restaurou uma verdadeira monarquia que ele concreti-


14    L. Tauxier, 1942, p. 74. Deve-se notar que tambm os jula criavam frequentemente abelhas que podiam
      se revelar muito teis em tempos de guerra.
15    Episdio omitido pela tradio reportada por Tammoura e Monteil, mas mencionado por Robert Arnaud
      e Adam. Ademais, Foulakoro teria seduzido Bassana, uma das filhas de Mamari. Ver L. Tauxier, 1942,
      p. 75.
Do Nger ao Volta                                                           397



zou abandonando Sgou-Koro para se instalar, rio abaixo, em Sgou-Si-Koro.
Assim como Biton, fez-se construir palcios em Djenn e Tombuctu, e foi ele
que firmou o domnio dos bambara sobre o Macina e sobre Tombuctu onde,
doravante, os funcionrios civis, descendentes dos "marroquinos" (Arma), foram
controlados por chefes de guerra bambara. Sua campanha contra o chefe fulbe
Sila Makan Yero conduziu-o ao pas Dogon. Numerosos fulbe emigraram ento
rumo ao Wassalu e ao Ganadougou16. Ngolo, malgrado sua idade avanada,
partiu em expedio contra o Yatenga, fracassou e morreu no caminho de volta.
Ele havia criado em Sgou uma nova dinastia.
   Aps ele, os conflitos internos foram retomados. Somente Monson Diarra
(1792-1808) permitiu que o poderio de Sgou se manifestasse de San a Tom-
buctu e do Dogon ao Kaarta17. Mas este ltimo no havia ainda enfraquecido.
Aps Foulakoro, morto no cativeiro sob o reinado de Mamari, o Kaarta reto-
mou o vigor graas s razias e s custas do Blgoudou, do Bambuk e do pas
Khassonke. Aps Deniba Bo (1758-1761), Sira Bo Koulibali (1761-1780),
um grande guerreiro, fixou a residncia real em Guemou. Ele tomou a metade
do Bakhounou aproveitando-se do fato de que Ngolo Diarra estava ocupado
no Norte e no leste. Ele pilhou Kita, grande burgo malinke situado no Foula-
dougou e, aproveitando-se de uma querela entre dois cls diawara, os sagone e
os dabora, perseguiu estes ltimos que se refugiaram no Bundu ou em Sgou.
Entretanto os sagone, considerados livres, foram dispensados do tributo, mas
submetidos  obrigao de fornecer um contingente de guerreiros em caso de
conflito.

     A organizao sociopoltica dos reinos bambara
    O que chama ateno desde o incio na passagem dos bambara para uma
estrutura de Estado e para uma definio de instituies aptas a dirigir vastas
comunidades  a frmula muito original que eles inventaram para conciliar os
costumes tipicamente bambara com os imperativos inerentes  vida de reinos
de grande envergadura com pluralidade tnica. Com efeito, nada, aparente-
mente, foi emprestado do exterior. E o aspecto mais impressionante  partir do
funcionamento de uma banal associao de base (ton) para forjar gradualmente
as engrenagens do Estado. Essa operao, se no  excepcional na histria da



16   L. Tauxier, 1942, p. 96, citando L. G. Binger, 1892.
17   C. Monteil, 1924, p. 89.
398                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



frica, tem, aqui, a vantagem de nos mostrar, por meio de um breve e vivo exem-
plo, no intervalo de alguns decnios, a passagem dos "cls aos imprios"18.

      No reino de Sgou
    O ponto de partida do reino foi o fla-n-ton (unio de pares) conduzido por
Mamari Koulibali. Um fla-n-ton (ou ton) era uma associao de jovens que
haviam passado juntos pelo rito inicitico da circunciso19. Inicialmente, essas
promoes sucessivas estavam estruturadas em trs grupos: os jovens, os adultos
e os decanos.
    Os ton-den (membros) elegiam um ton-tigui (chefe) que podia ser tanto um
escravo domstico quanto o filho de um notvel. Com efeito, a primeira carac-
terstica do fla-n-ton residia na igualdade absoluta entre os oriundos de todos
os grupos sociais, que contrastava com a hierarquia dos cls ou a gerontocracia
do lugar.
    Os outros gestores da associao compreendiam o encarregado das partilhas
e da observao dos estatutos, o bedel que convocava as assembleias e, uma vez
que ele proclamava as decises, era chamado de ton-djeli (griot do ton), e o ton-
-masa (chefe do ton), porta-voz do ton-tigui. A ajuda mtua e a socializao dos
meios para participar da vida social constituam os objetivos do ton.
    Vimos como Mamari Koulibali havia fortificado seu grupo contra as tenta-
tivas de recuperao por parte do grupo rival dos jovens soninke de Kassum e
contra os mais velhos que se opunham a seu plano, de incio em sua qualidade
de faaya (pais), em seguida priorizando as exigncias do trabalho agrcola.
Eliminando fisicamente os ancios de Donkouna e de Banankoro, Mamari
rompia com a autoridade gerontocrtica e tomava seu lugar na condio de
faa (pai) dos ton-den. Ora, muitos outros membros da sociedade, em seguida
aos sucessos de seu lder, agregavam-se ao grupo inicial: devedores insolven-
tes, condenados agraciados, cativos banidos, jovens em busca de aventura. Os
novos recrutas foram admitidos com o status de ton-dyon (cativos do ton).
Mas, aps o massacre dos velhos, Mamari convocou os ton-den e cortou-lhes
brutalmente os cabelos  maneira dos ton-dyon20. A tradio coloca, neste
momento, uma frase capital na boca de Mamari: "Ns no comeremos mais,
juntos, os amendoins do ton, ns no beberemos mais, juntos, a cerveja do ton;


18    Ibidem, p. 290 e seguintes.
19    De fato, o fla-n-ton reunia os membros de trs promoes sucessivas de circuncidados.
20    Trs tufos de cabelos escalonados da fronte  nuca.
Do Nger ao Volta                                                                                      399



eu sou o filho de Deus!". Teria sido a ocasio em que alguns teriam exclamado:
"Como o ton atual (bi-ton)  cruel!". Razo pela qual o apelido de Biton foi
conferido a Mamari.
    Quando os membros da associao, que finalmente correspondia  fora
armada do Estado bambara, afluram, no se tratava mais de fla-n-ton, mas de
foroba-dyon (cativos do grande campo comum) ou de furuba-dyon (cativos da
Grande Unio) cujos primeiros ton-dyon constituram a aristocracia. Esta estru-
tura foi reforada ainda pela filiao dos ton-dyon aos cultos dos quais Mamari
era o grande mestre, pela atribuio dos contingentes de ton-dyon  tutela de seus
prprios pais, pela escolha do ton-masa no mais dentre os ton-dyon, mas dentre
seus escravos pessoais e, por fim, pela regra que determinava que os foroba-dyon
continuassem em sua condio por toda a vida e que seus filhos nascessem e
permanecessem foroba-dyon como os pais.
    O fim desse processo tanto de abstrao quanto de personalizao e de
acumulao do poder, e mais precisamente dos exrcitos, em torno do chefe
dessa mquina poltico-militar foi a atribuio do ttulo de faama21, isto ,
de senhor detentor do poder supremo. A confuso deste estatuto com o de
patriarca de uma comunidade familiar foi uma das graves contradies do
sistema, uma vez que, de incio, os bens acumulados pelas contribuies, pelos
saques e pelos esplios de guerra permaneciam no Tesouro pblico (foroba)
em proveito da comunidade. Mas a fico comunitria mascarou apenas por
um breve perodo a privatizao dos bens estatais, at o momento em que o
juramento coletivo, bilateral, engajando o prprio ton-tigui por ocasio de
sua eleio, foi substitudo pelo juramento unilateral imposto a seus eleitores
por Ngolo Diarra. O faama disps, a partir de ento, de um poder arbitrrio
sobre os bens do Estado que ele utilizou em favor dos militares mais valoro-
sos, dando-lhes meios para "remendarem os rasges em suas blusas". Claro, o
soberano era cercado por um senado consultivo de 40 membros (guerreiros,
religiosos etc.), mas esses notveis haviam lhe jurado fidelidade por ocasio
dos ritos ocultos organizados em uma ilha do Nger e tinham feito juramento
de fidelidade ao rei aps a investidura.
    Uma outra contradio maior do sistema foi a tentativa dos sucessores de
Mamari de transformar os foroba-dyon em servos do Estado devotados  agri-
cultura, o que provocou uma grave crise de resistncia da parte dos guerreiros.


21   Mamari Koulibali foi, deste modo, ao mesmo tempo faa (pai de uma comunidade biolgica) e faama,
     literalmente "homem de poder, autoridade". Ver C. Monteil, 1924, p. 303. Este ttulo tipicamente mande
     passaria aos soberanos jula, inclusive os samori.
400                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Mas, com o passar do tempo, certos chefes militares tentaram se retirar para suas
terras, o que levou a represlias terrveis por parte do poder central.
    Entretanto,  certo que, exceo feita a reinados de personalidades to fortes
como Mamari Koulibali e Ngolo Diarra, o esprito igualitrio e quase anr-
quico do fla-n-ton nunca desapareceu por completo. Foi esse esprito que levou
a assembleia dos ton-dyon a suprimir pura e simplesmente Denkoro, o filho e
sucessor de Mamari, "para mudar a semente". De incio, os ton-dyon mantinham
o faama  sua merc, por exemplo recusando as ordens de mobilizao e os
guias de marcha. No obstante, ainda que as assembleias gerais dos ton-dyon
de segunda e de quinta-feira permanecessem por muito tempo, com o decorrer
dos anos elas "no possuam mais um poder deliberativo, sequer consultivo,
a no ser em situaes graves"22. A assembleia geral foi substituda cada vez
mais pelo conselho dos chefes militares. Mas esse conselho se enfraqueceu 
medida que alguns de seus membros distanciaram-se de Sgou com a prpria
expanso do reino, acentuando assim o movimento rumo  autocracia do faama
doravante influenciado sobretudo por aqueles que lhe eram mais prximos. No
obstante, para reanimar a ligao das tropas com sua pessoa por meio de um
contato pessoal, o faama convocava ainda a assembleia ao menos uma vez por
ano para a reiterao dos juramentos de lealdade, a realizao de ritos religiosos
e a incorporao de jovens recrutas.

      O exrcito de Sgou
    Por ocasio da eleio do soberano, as insgnias reais eram o arco, a aljava e
o machado de ouro  smbolos inequvocos da atividade principal do Estado.
Com efeito, a tradio oral fala-nos das performances deste exrcito dos faama
de Sgou, particularmente para o cerco das cidades: utilizao de aretes para
derrubar os muros ou as paliadas e de escadas para escal-los, jatos de flechas
flamejantes para provocar incndios. A unidade de base do exrcito era o se
(literalmente o p). Vrios se constituam um bolo (brao). Quando o exrcito se
apresentava em formao de batalha, ele oferecia, no centro, seu corpo principal
composto de sofa e chamado disi (peito). O grosso da tropa era flanqueado, 
direita e  esquerda, dos bolo denominados, respectivamente kini-n-bolo (brao
direito) e numa-n-bolo (brao esquerdo), compostos por foroba-dyon enquadra-
dos por ton-dyon. Atrs dos disi, vinha um corpo de reserva formado de ton-dyon



22    C. Monteil, 1924, p. 309.
Do Nger ao Volta                                                              401



experimentados, o ton-koro-bolo. Somente o faama designava o keletigui (chefe
de uma expedio ou mestre de guerra).
    Alm deste exrcito regular, havia, claro, contingentes aliados ou voluntrios,
eles tambm equipados pelo faama ou por negociantes ligados por contrato com
o soberano.
    As armas eram machados (os dos chefes eram de metais preciosos), flechas,
lanas e fuzis dos quais os primeiros, tipo bacamarte, aparentemente eram pro-
venientes de Kong. Os tambores desempenhavam um papel importante, como
o grande tabala, ligado a cada soberano e que anunciava a guerra, ou ainda o
dunuba que, habilmente tocado, transmitia mensagens de lugar a lugar em dis-
tncias considerveis. Havia tambm trombetas e xilofones.
    O animador de todo este conjunto era o griot encarregado de animar os
coraes para os combates, por exemplo na vspera de expedies nas quais os
chefes de guerra se engajavam ento, por juramento, a realizar uma ou outra
faanha.
    O exrcito foi o lugar privilegiado de agitao "nacional". Havia nele, mis-
turadas, pessoas de toda camada social, tnica ou geogrfica. Um antigo cativo
podia comandar nobres e um fulbe podia marchar no comando de um contin-
gente bambara. Os jovens eram, ento, atrados por esse sistema, certos de que,
em caso de sobrevivncia, fariam rapidamente fortuna. Com efeito, um quarto
dos esplios de guerra era reservado ao rei, um quarto aos chefes religiosos e um
quarto aos somono que garantiam o transporte fluvial. O quarto restante ia para
as tropas, sem contar os saques individuais dos soldados ligados a um comando
autnomo do tipo "proconsular".
    A organizao do todo territorial era concntrica, como na maior parte
dos reinos africanos, partindo do ncleo original ao longo do Nger e de
Sgou-Koro, a capital, para se estender a Kirango e aos territrios anexados
no decorrer dos anos, passando pela faixa axial ao longo do rio de Kangaba
at Tombuctu. Esse espao privilegiado de ao do Estado dos reis de Sgou
recebeu um nome metafrico, o too-daga, a panela de too (massa de milho
mido que constitua o prato principal dos bambara). Para a gesto dos bens
provenientes deste territrio, o filho mais velho desempenhava um papel parti-
cular que crescia com a idade de seu pai, de modo a prepar-lo para suas futu-
ras responsabilidades. Devido  confuso crescente entre os bens do Estado
e a riqueza pessoal, os primognitos dos reis foram generosamente dotados
e suas residncias se destacavam ao longo do Nger. Em regies perifricas,
o poder era quase delegado, seja aos chefes autctones, seja aos governadores
designados por Sgou.
402                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Duas comunidades contriburam particularmente para a organizao do
exrcito e do reino: os somono e os fulbe. Com efeito, o Nger era a artria-
-mestre do reino, indispensvel para o abastecimento de peixes, para o transporte
civil e a logstica militar. Os somono, pescadores, foram ento arrolados no ser-
vio do Estado, reforados pelos foroba-dyon e requisitados para os transportes
e o fornecimento de peixes, por meio de pagamentos em prazos fixos, estando
acordado que eles se beneficiariam da proteo especial do rei e que teriam
toda a latitude para organizar do seu modo seu trabalho profissional nos planos
tcnico e ritual.
    A mesma coisa aconteceu com os fulbe graas  instituio dos foroba-fulaw
(funcionrios fulbe), que eram apenas uma pequena minoria dos fulbe, etnica-
mente falando. Homens livres, eles foram reforados por foroba-dyon e sujeita-
dos  criao do rebanho pblico. Seus filhos, tal como ocorria com aqueles do
somono, mantinham o estatuto do pai. A ambos os grupos,  preciso juntar os
numerosos foroba-dyon estabelecidos como camponeses em territrios agrcolas
para as necessidades dos soberanos de Sgou.

      No reino do Kaarta
   A organizao sociopoltica dos massassi era anloga  do reino de Sgou,
mas ela era mais autocrtica. Por ocasio da entronizao do rei, certos ritos
eram particularmente carregados de sentido. O chefe dos ton-dyon tomava a
direo da casa real e retirava todas as joias das mulheres do rei falecido para
coloc-las de volta no tesouro real. Era a um representante da famlia aliada
dos Kassi Konare que cabia fazer com que se sentasse sobre a pele de carneiro
o novo eleito, colocar-lhe sobre a cabea um barrete vermelho e passar para ele
os anis de ouro e os braceletes de prata. Em seguida ele dirigia ao novo rei um
discurso lembrando-o das orientaes polticas do predecessor e o que o cl real
esperava dele. O chefe dos ton-dyon prosternava-se, ento, para jurar fidelidade e
submisso em nome de todas as tropas. A sucesso real jamais criou problemas
junto aos massassi, pois eles controlavam firmemente o pas por intermdio dos
governadores de provncia e dos chefes dos corpos do exrcito. Alm disso, o
corpo dos sofa, diretamente ligado ao rei, era fortemente estruturado e permitia
dissuadir os chefes dos ton-dyon de qualquer inteno de revolta. Enfim, o chefe
superior dos ton-dyon era um homem do soberano e todos os chefes, todos os
corpos de tropa e os aliados do cl eram membros da confraria que venerava o
esprito protetor do cl.
Do Nger ao Volta                                                                                  403



    Em resumo, o cl dos massassi era mais homogneo que o de Sgou porque
ele no esteve restrito, em sua origem, a um quadro de uma instituio local pr-
-existente. Ele se formou e se desenvolveu livremente, sob a iniciativa da famlia
massassi que garantiu sua direo sempre de maneira ciosa23.

     No planalto central do Volta, os reinos mossi24 do sculo XVI ao XIX
     As origens25
    O fenmeno maior que se produziu durante este perodo no planalto do
Volta , de maneira incontestvel, a estruturao dos reinos mossi cujas primei-
ras formaes datam de meados do sculo XII. Se, como feito geralmente pelos
autores, considerarmos a Na Gbewa e a Na Nedega das tradies mossi como
uma mesma e nica pessoa, veremos que por intermdio de Naaba Rawa e
Naaba Zungrana (os filhos de Naaba Wedraogo, este, por sua vez, filho de Yen-
nenga, filha de Na Nedega), as dinastias mossi so ligadas aos reinos mamprusi,
nanumba e dagomba. Com Naaba Wubri  cuja chegada ao poder do futuro
reino de Ouagadougou26 data de 1495 aproximadamente  e Naaba Yadega, neto
agntico de Naaba Wubri, que fundou o reino do Yatenga por volta de 1540,
comeou o processo de estruturao poltica dos reinos mossi que se desenvol-
veria durante os dois sculos seguintes.
    Dos trs reinos fundados pelos descendentes de Na Gbewa (mamprusi,
nanumba, dagomba), somente o reino dagomba desempenhou um papel de pri-
meiro plano a partir de Na Nyaghse (1460-1500)27. Os reinados seguintes, do
comeo do sculo XVI28 a meados do sculo XVII, so muito mal conhecidos. H,
aqui, sobretudo a questo dos conflitos dinsticos internos. Ora, desde a segunda
metade do sculo XVI, o Reino gonja foi criado por um chefe mande, Naaba29.
    Na segunda metade do sculo XVII, os reis do Gonja enviaram expedies
a partir de Yagbum, a capital. Uma dessas guerras, travada contra Dagomba por


23   C. Monteil, 1924, p. 330 aproxima esta estrutura daquela do Khasso.
24   A propsito de Moose ou Mossi, convm lembrar que o singular  moaga, o pas Mogho, a lngua more.
     O verdadeiro nome de Ouagadougou em more  Wogodogo, mas, em conformidade com a ortografia
     atual, utilizaremos Ouagadougou.
25   Para as origens, ver UNESCO, Histria geral da frica, vol. IV, captulo 9.
26   Ibidem.
27   A respeito do grupo de reinos mamprusi-nanumba-dagomba, ver H. A. Blair e A. Duncan-Johnstone,
     1932; S. J, Eyre-Smith, 1933; E. F. Tamakloe, 1931, p. 193.
28   N. Levtzion, 1964c.
29   J. Goody, 1967.
404                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



Lata-Jakpa (por volta de 1623-1667) conduziu-os  vitria. Na Dariziegu do
Dagomba foi morto e o Gonja tomou posse de Daboya, centro de produo de
sal. Mas, em 1713, o Dagomba, sob o reinado de Na Zangina convertido ao Isl,
repeliu uma nova invaso do Gonja, arrasado na batalha de Tunuma (Tuma).
A paz assinada na ocasio ps fim s agresses do Gonja que, sob o reinado de
Lata-Jakpa, assediava, por sinal, tambm o reino nanumba.
    Ora, por volta de 1740, estoura no prprio seio do Dagomba um grave conflito
relativo  sucesso que opunha Na Garba, novamente nomeado, a um prncipe,
infeliz candidato ao trono. Tirando vantagem das turbulncias pelas quais passava
o Dagomba, o soberano dos ashanti, Opoku Ware, lanou em 1744 uma expe-
dio contra Yendi a fim de ajudar o partido hostil ao novo rei. Na Garba, feito
prisioneiro, foi liberado apenas com o compromisso de enviar a Kumasi um tributo
anual de 2000 cativos, nmero enorme, mesmo que se leve em conta a cota-parte
do Gonja Oriental30. Este tratado iria pesar duramente no futuro do Dagomba
condenado doravante a encontrar incessantemente novas fontes de proviso de
cativos. Os guerreiros dagomba tinham assim como principal funo a caa aos
membros de etnias menos estruturadas no plano poltico e militar. Mercenrios
foram recrutados para tanto. No fim do sculo XVIII, o Dagomba apenas propa-
gava influncia de Ashanti, sentida at os confins do Mogho (pas mossi).

      O reino de Ouagadougou
    Na histria do Mogho Central e Meridional, contam-se, entre 1500 e 1800,
23 sucessores de Naaba Wubri. Os nanamse (prncipes) tinham, at ento, esten-
dido consideravelmente seu domnio territorial, uma vez que ele atingia a regio
de Yako e Gursi, e tinham pretenso com relao  herana de Naaba Rawa cuja
autoridade tinha coberto uma grande parte da bacia do Volta branco31. O reinado
de Naaba Kumdumye32, filho de Naaba Nyingnemdo que tinha estabelecido o
poder moaga na antiga localidade de Ouagadougou (Wogodogo), comeou por
um conflito dinstico de conseqncias muito graves. Com efeito, uma concor-
rncia pelo trono estabelecera-se com um outro candidato, Naaba yadega. Este
ltimo, rejeitado, beneficiou-se, no obstante, da ajuda da mais velha de suas irms,
Pabre33, que desviou em favor de seu irmo as prerrogativas reais de Naaba Wubri.


30    Ver o captulo 14.
31    UNESCO, Histria geral da frica, vol. IV, captulo 9.
32    M. Izard, 1970, vol. I, p. 150-170.
33    A regncia entre o anncio da morte do rei e a nomeao de seu sucessor era assegurada pela filha mais
      velha do rei falecido, chamada napoko. Pabre era uma napoko.
Do Nger ao Volta                                                                                         405



Com essas insgnias da legitimidade real, Naaba Yadega ganhou Gursi e, aps se
livrar brutalmente de seu antigo tutor Naaba Swida, conquistou a regio que leva,
desde ento seu nome, o Yatenga (de Yadega-tenga: terra de Yadega)34.
    Naaba Kumdumye instalou seus filhos em Yako e Tma, futuros comandos
independentes. Com efeito, a implantao moaga nos territrios ocupados ou
reivindicados era ainda muito fraca. Casando prncipes cuja lealdade no estava
acima de qualquer suspeita, o rei matava dois coelhos com uma s cajadada: ocu-
pava o terreno politicamente e temperava a impacincia dos virtuais candidatos 
coroa. Mas, contraditoriamente,  por esta via que certos comandos perifricos se
transformaram em reinos ou principados independentes. No se tratava de um
processo mecnico e geral. No obstante, certas dinastias solidrias ao soberano
que as tinha criado iam progressivamente deixando de s-lo  medida que se
afastavam genealogicamente e territorialmente da linhagem real.
    Outros filhos do monarca foram enviados a Mane, a Konkistenga (nome
derivado de Naaba Konkise), bem como a Busuma (Boussouma). Seus sucesso-
res continuaram esta poltica que era destinada a criar, aparentemente, entre eles
e o Yatenga uma tela protetora constituda por esses degraus setentrionais.
    No fim do sculo XVI, Naaba Kuda deslocou a residncia real para se ins-
talar em Sapone, o que denotava um desenvolvimento ainda embrionrio do
aparelho de estado. Ele instalou tambm seus filhos em regies como Laale,
Zorgo e Riziam.
    Aps um sculo quase vazio de informaes sobre o reino Ouagadougou, o
sculo XVIII comeou com o reinado de um usurpador fulbe, Naaba Moatiba
(1729-1737)35. Seu gosto pela guerra explica-se pelo fato de ter de se defender
contra a coalizo dos prncipes mossi. Ele teria sido morto envenenado e seu nome,
bem como o de seus descendentes, suprimido da genealogia oficial da corte.
    Naaba Warga (1737-1744) teve um reinado muito curto, mas rico em
iniciativas visando a estruturar fortemente a monarquia36. As guerras se suce-
deram, talvez para recolocar sob o poder de Ouagadougou os comandos regio-
nais que, como Yako, Mane e Tatenga (Riziam), procuravam se liberar de sua
tutela. O Tatenga tinha praticamente conquistado sua independncia, e seu


34   Talvez seja a partir de Naaba Kumdumye que os soberanos descendentes de Naaba Wubri tomaram o
     ttulo de mogho naaba (naaba do pas mossi), como que para afirmar sua soberania sobre a totalidade do
     territrio, malgrado a secesso de Yadega.
35   Esse nome seria uma deformao do nome muulmano Modibo. Esta usurpao lana sem dvida uma
     luz sobre a obscuridade do sculo precedente, para indicar que ele deve ter sido muito tumultuado.
36   Y. Tiendrebeogo, 1964, p. 25-32.  possvel que este rei no esteja na origem de todas as iniciativas que
     o autor lhe atribui, pois se trata de uma figura mais controversa do que aparece em sua obra.
406                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



chefe, Naaba Manzi, chegou a tornar-se expansionista. Mas Naaba Warga foi
tambm um grande legislador. Segundo Yamba Tiendrebeogo, ele codificou o
anncio ritual dos zabyuya por ocasio da cerimnia de investidura dos chefes,
as trs declaraes solenes que so feitas na ocasio. A primeira consistia em
um agradecimento aos grandes eleitores; a segunda indicava o programa de
ao do novo chefe, frequentemente com uma velada preveno face aos adver-
srios; a terceira, por fim, era uma manifestao do carter do chefe. Paralela-
mente, Naaba Warga organizou a corte real criando dois corpos de servidores,
um formado por mossi, outro por cativos, cada um deles compreendendo os
sorondamba (jovens servidores) e os bilbalse (servidores adultos). Alm disso,
certos cargos foram confiados a eunucos, ao passo que Naaba Warga punha
em ao o sistema do pogsyure (napogsyure) real, sistema de capitalizao e de
distribuio das mulheres, assegurando ao grupo de servidores reais as condi-
es de sua reproduo. Com efeito, as meninas recebidas ou adquiridas eram
atribudas em casamento a servidores, e os primognitos dessas unies eram
destinados seja ao servio real no caso dos meninos, seja  capitalizao em
vista do napogsyure para as meninas.
    Em matria de direito criminal, Naaba Warga instituiu, talvez, o castigo da
castrao. Ele teria codificado o direito costumeiro tal como existia no perodo
pr-colonial, sem que todas suas iniciativas possam ser descritas com preciso.
Em resumo, o fim do sculo XVII e a primeira metade do sculo XVIII viram
o assentamento definitivo do sistema poltico moaga, tanto no Yatenga quanto
no Mogho Central e Meridional. Aps o longo reinado pacfico de Naaba
Zombre (por volta de 1744-1784) e o de Naaba Kom (por volta de 1784-1791)
que foi o primeiro a permitir que a influncia islmica se expandisse, o reinado
de Naaba Saaga (1791-1796) foi marcado por problemas internos anunciadores
das grandes modificaes do sculo XIX37.

      Os pequenos reinos do Mogho Central
   Os pequenos reinos e as tribos do Mogho Meridional no so ainda
bem conhecidos, apesar de um aporte notvel de dados devido aos tra-
balhos de Jonzo Kawada. Tal  o caso do enigmtico reino de Tankudgo
(Tenkodogo)38.

37    L. Frobenius, 1911-1913 e 1924.
38    J. Kawada, 1979. Notemos que Tankudgo significa "a velha montanha" e, portanto, que a transcrio
      administrativa atual Tenkodogo no vem de teng kudgo "a velha terra", como j foi frequentemente
      dito.
Do Nger ao Volta                                                                                         407



    A Leste e a nordeste, por outro lado, trs reinos se destacam: Bulsa, Busuma39
e Tatenga, o ltimo dominando a regio no sculo XVII e o segundo (Busuma)
no sculo XVIII. O principado de Bulsa remonta sem dvida ao comeo do
sculo XVI com a instalao de Naaba Namende, filho e kurita40 de Naaba
Wubri.
    O reino de Busuma integrou sucessivamente tribos que, no comeo do sculo
XVII, estavam ainda dispersas nessa regio: o Naamtenga (regio de Luda) no
comeo do sculo XVIII, depois a tribo de Pisila e, por fim, o Salmatenga (regio
de Kaya). Mas a sorte do futuro reino foi lanada na segunda metade do sculo
XVIII, quando o Estado vizinho do Tatenga, fundado por um filho de Naaba
Kuda, viu subir ao trono um temvel e ambicioso guerreiro, Naaba Manzi. No
obstante, no fim do sculo XVII, Naaba Ruubo do Busuma, com a ajuda de
Mg e de Salogo, inverteu a situao e conseguiu eliminar em uma batalha o
terrvel Manzi, cujo filho Wema pde apenas se refugiar nos limites do macio
de Riziam, que seria amputado no sculo XIX em proveito do Yatenga.

     O Yatenga41
    Os sucessores de Naaba Yadega, do qual falamos em que condies foi exi-
lado de Ouagadougou, no exerceram sua autoridade seno sobre uma zona
pouco extensa, transferindo pouco a pouco, a partir de Gursi e de Lago, suas
residncias reais rumo ao Norte, ao longo do sculo XVI. Ora, o Norte estava
ocupado pelo reino de Zandoma, sob a autoridade dos descendentes de Naaba
Rawa. A ao poltica e militar de Naaba Lambwega consistiu justamente em
desmantelar a herana de Naaba Rawa, ao passo que a Leste ele integrou as
antigas tribos kurumba do Lurum42.
    No fim do sculo XVII e no comeo do XVIII, os descendentes de Naaba
Lambwenga puseram-se a investir o espao do reino consideravelmente aumen-
tado, implantando ali tribos mossi reservadas a prncipes, colonizando o Lurum,
e contendo os fulbe do Macina e do Jelgoji, mas tambm mantendo o status


39   Sobre Busuma e Bulsa bem como sobre Mane e Tma, ver G. Chron, 1924; M. Izard, 1970, vol. II, p.
     230-252.
40   O kurita do rei  seu representante na terra aps sua morte. Kurita significa "morto-reinante". Escolhido
     dentre os filhos que tem pouca chance de vir a reinar, ele  excludo da sucesso ao trono; ele  exilado
     longe da corte pois ele  proibido de encontrar o sucessor de seu pai.
41   L. Tauxier, 1917; M. Izard, 1970, 1980 e 1981, vol. II, p. 275-381.
42   Os kurumba (fulse em more) ocupavam uma vasta regio indo do Norte de Gulma a Yatenga; eles teriam
     criado o "reino" de Lurum que ocupava uma parte do atual Jelgoji (regio de Jibo). O rei, residindo em
     Mengao, portava o ttulo de ayo ou de lurum'ayo, ou ainda de lurun'yo.
408                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



quo territorial interno no pas Moaga43. Foi assim que, por volta da metade do
sculo XVIII, comearam com Yako44 uma srie de confrontos que durariam at
o comeo do sculo XIX e que visavam tomar o controle das pequenas tribos de
Busu-darigma e de Nyesga. Naaba Nabasere morreu nesta tarefa.

      O reinado de Naaba Kango
    Com a morte do filho de Naaba Nabasere, Naaba Piiyo (1754), a quem
se deve sem dvida a introduo dos primeiros fuzis no Yatenga, seu irmo
caula, Naaba Kango, chegou ao poder. Assim que foi eleito, ele foi violenta-
mente contestado por prncipes conduzidos por Naaba Wobgo. Constrangido
a renunciar ao trono e a se exilar com um punhado de fiis companheiros, ele
ganhou Kong e aps Sgou, onde obteve o apoio dos koulibali para reconquistar
seu trono. Em 1757, no comando de um exrcito de mercenrios composto por
fuzileiros bambara e arqueiros bwaba e samo, ele voltou ao Yatenga. Mas sua
permanncia em centros renomados por suas trocas econmicas e seu pluralismo
poltico haviam-no mudado e no era mais o mesmo prncipe que voltava ao seu
pas. Sua poltica deu provas marcantes nesse sentido. Tendo derrotado Naaba
Wobgo, que se exilou, Naaba Kango comeou seu reinado por meio de um ato
espetacular: ele se recusou a fazer a viagem de entronizao do ringu que, por si
s, conferia ao soberano do Yatenga, simples naaba (chefe) por sua nomeao,
a dignidade de rima (rei)45. Esta recusa de fazer legitimar seu poder foi uma
ruptura decisiva com o passado.
    Da mesma maneira, ele fundou sua capital, Waiguyo (Ouahigouya), por
volta de 1780, no distante da antiga residncia real de Biisigi. Era uma nova
cidade ao redor de um vasto palcio construdo no estilo do Mali e agrupando
tambm seus companheiros de exlio. At ento, as residncias reais eram loca-
lidades ordinrias. Pela primeira vez, uma capital era composta apenas por
representantes do aparelho de Estado, pela sociedade poltica e por pessoas
da casa do rei, livres e cativos. Mais uma vez, Naaba Kango, reforava sua
vontade de romper com o costume e de organizar soberanamente um poder
que ele devia apenas a si mesmo, no sentido da centralizao, pelo reforo do


43     assim que o naaba de Zitenga (capital, Tikare), no sudeste do Yatenga, era considerado como um
      kombere do Yatenga, Um kombere  um chefe regional dispondo de uma larga autonomia marcada princi-
      palmente pelo direito de nomeao dos chefes locais. De fato, o Zitenga era independente do yatenga.
44    D. Nacanabo, 1982.
45    Rima e ringu tem como radical comum o verbo ri que significa absorver, comer um alimento que no
      se mastiga.
Do Nger ao Volta                                                             409



corpo de servidores reais46. O nome da nova capital, Waiguyo, , por sinal, algo
programtico: "venha saudar, fazer um ato de submisso". Esta intimao era
endereada sobretudo aos membros da linhagem real, nakombse reais (prncipes
de sangue) at aqui preponderantes, que tinham ajudado Wobgo, o usurpador, e
que era agora preciso reduzir  merc do rei pela ao dos servidores reais. Era
uma mudana radical nas relaes das foras polticas no seio da monarquia
moaga. Mas, at a colonizao, os prncipes no se deram por vencidos e o
polo do poder oscilou perigosamente entre eles e a autoridade do Palcio, que,
por sinal, foi reorganizado. O mestre de guerra de Ula tornou-se chefe militar
supremo, com integrao de sua funo no cursus honorum da corte, de tal forma
que ela deixou de ser hereditria para permitir recompensar os mritos pessoais
de valentes guerreiros.
    Para impor a ordem, gravemente prejudicada pelos anos de instabilidade,
Naaba Kango reprimiu sem piedade o banditismo. Ladres e assassinos foram
queimados vivos; o mesmo destino foi reservado aos mercenrios bambara de
Sgou utilizados contra Yako, em seguida acusados de terem se tornado agita-
dores. A indisciplina dos chefes foi rigorosamente castigada, bem como toda
magnificncia ostentatria interpretada como uma maneira ultrajante de riva-
lizar com o modo de vida real.
    O massacre dos guerreiros bambara levou a uma expedio de Sgou contra
o Yatenga? Nenhuma tradio moaga faz meno a isso, embora relatos bambara
existam nesse sentido47. De qualquer modo, Naaba Kango, que pretendia colocar
os cativos reais em um lugar escolhido no sistema de governo, precisava aumen-
tar consideravelmente seu nmero. Alguns foram pegos dentre os prisioneiros
de guerra, mas a maior parte era capturada no decorrer dos saques em vilarejos
dogon da plancie do Gondo e em vilarejos kurumba do Leste e do nordeste.
    A guerra de Naaba Kango contra Yako foi um sucesso poltico-militar, mas
no duradouro, uma vez que as hostilidades foram retomadas no incio do sculo
XIX.
    Quando Naaba Kango morreu em 1787, ele foi enterrado em sua capital e
no no cemitrio real. Seu fim foi um alvio para muitos, pois ele era impiedoso.
O rancor dos prncipes era tal que eles sufocaram a nica filha do rei falecido.
Mas a aristocracia da corte, ainda fiel, conseguiu designar como sucessor um de
seus companheiros de longa data, Naaba Saagha (1797-1803).


46   M. Izard, 1975.
47   M. Izard, 1970, vol. II p. 320-328.
410                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



      As estruturas sociopolticas do Mogho
   Quando se fala de reinos mossi,  preciso entender por isso no Estados
correspondentes a uma sociedade homognea, que seria a "etnia" moaga, mas
formaes sociopolticas compsitas nascidas da conquista, por guerreiros cha-
mados mossi, da bacia do Volta branco, ainda que seja preciso no fazer dessa
conquista uma ideia rudimentar e romntica, imaginando cavaleiros rompendo
onda aps onda. O processo de intercasamentos48 e de infiltrao por coloni-
zao lenta operado por camponeses mossi, que continua at nossos dias, foi
incontestavelmente muito mais determinante. Mas cada vez que um espao era
conquistado, ele era organizado segundo o "modelo" sociopoltico dos mossi.
No sentido estrito do termo, os mossi eram os detentores do poder poltico nos
reinos mossi; eles admitiam pertencer  descendncia da linhagem agntica de
Naaba Wedraogo. Se tomarmos o caso do Yatenga, constataremos que a popula-
o, no fim do sculo XIX, correspondia a trs sociedades distintas: a sociedade
moaga, a sociedade silmiga (fulbe) e a sociedade silmi-moaga. Somente a pri-
meira correspondia  populao do reino na medida em que ela estava submissa
 autoridade do rei, o Yatenga naaba. Os fulbe e os silmiise possuam, de qualquer
modo, o estatuto de hspedes, sobre a base de contratos de estabelecimentos
que reservavam a esses pastores uma larga faixa territorial na parte Norte do
pas. Instalados desde o sculo XVII no Yatenga, os fulbe criaram vilarejos
permanentes a partir dos quais era organizada a transumncia dos animais. Era
nesses lugares fixos que viviam os rimaibe (cativos), restritos ao trabalho na terra.
Talvez seja exagero falar em sociedade silmi-moaga, mas  preciso fazer uma
considerao a esses pequenos criadores de animais sedentrios, bastante nume-
rosos no Sudeste do Yatenga. Seu nome composto, silmi-mossi, indica que eles
eram originrios da mestiagem, por sinal proibida, de homens fulbe (silmiise)
com mulheres mossi. Vindos da tribo de Tema no sculo XVIII, estabelecidos
nas aldeias contguas aos terrenos campesinos mossi, eles no dependiam da
autoridade moaga e passaram finalmente para a tutela muito distante do centro
poltico-religioso fulbe de Todyam, no Leste do reino.
   Mas o que ocorria com a sociedade moaga propriamente dita? Suas cliva-
gens internas estavam ligadas  distino que faziam os mossi entre o naaba
(chefe), os naabiise (filhos de chefes) e os nakombse, singular nakomgba (filhos
ou descendentes de filhos de prncipes que no se tornaram chefes). Essa dis-


48    Lembremo-nos de que o primeiro rei de Ouagadougou, Wubri, era ele prprio fruto de um casamento
      entre um prncipe moaga e uma autctone.
Do Nger ao Volta                                                                                  411




Figura 12.3 Estatueta mossi comemorativa de um antepassado feminino. Madeira esculpida, ptina natural.
Altura: 47 cm. [H. Dubois, Bruxelas.]
412                                                         frica do sculo xvi ao xviii



tino se baseava em uma das regras de acesso a uma funo de chefe, segundo
a qual os filhos de chefe no podiam se tornar chefes. Assim, um nakomgba no
podia esperar deter o naam (poder). Ento, de um ponto de vista estrito, fora
da minoria dos chefes e filhos de chefes, todos os outros mossi que se diziam
descendentes de Wedraogo podiam ser considerados nakombse. Disso decorre
uma definio restrita do estatuto de nakomgba que distinguia essa classe da dos
talse ou homens comuns.  assim que, no Yatenga, eram nakombse apenas os
descendentes em linhagem agntica do dcimo segundo Yatenga naaba, sendo
todos os outros mossi, salvo os chefes e filhos de chefes, considerados como
talse. O makomgba real (linhagem real) era dividido em cinco ramos correspon-
dendo cada um, a princpio, a uma gerao de prncipes. Muito cedo, foi dada
 linhagem real, aparentemente, essa profundidade geracional constante (cinco
geraes), com o acesso de uma gerao nova significando a sada da gerao
mais antiga e sua passagem para o grupo dos talse. Esse sistema estava ligado 
necessidade, por parte de todo novo rei, de prover seus filhos com o comando de
alguns vilarejos, que existiam em nmero limitado. Disso decorria, nos vilarejos,
a substituio regular das dinastias locais antigas pelas novas.
    Dispondo do comando dos vilarejos, os nakombse correspondiam a uma
categoria de detentores do poder abaixo dos chefes. Havia duas outras: os taso-
bnamba (mestres de guerra) e as pessoas da casa real. Os mestres de guerra eram
escolhidos entre as mais antigas camadas genealgicas de nakombse, isto , nas
linhagens dinsticas anteriores  formao do Yatenga e nas duas primeiras
geraes dinsticas deste ltimo. Os mestres de guerra, que nem sempre tinham
funes militares, eram ento autoridades locais de tronco antigo, uma vez que o
poder local dos nakombse era sempre de origem recente. Alm disso, com Naaba
Kango, servidores reais livres ou originalmente cativos eram investidos de um
poder de comando local a ttulo individual, e isso em ruptura com a norma
tradicional de incompatibilidade entre as funes de autoridade e as funes
de servio. Tratava-se, para o poder central, de criar uma frente de colonizao
moaga em direo ao pas fulbe a leste. No que concerne aos ofcios da corte,
 preciso que se diga que a estrutura que prevalecia na cpula da hierarquia
poltica ao redor do rei era a mesma que se encontrava ao redor de um chefe
local. Trs dignatrios davam assistncia ao chefe: o togo-naaba, porta-voz do
chefe que se ocupava das cerimnias rituais; o balum-naaba, responsvel pelos
problemas de intendncia e de gesto domstica; o weranga-naaba, que cuidava
dos cavalos. Eram os nesomba (os homens de bem) do chefe. Tais postos eram
proibidos aos no-mossi bem como aos nakombse e aos homens de casta como
os ferreiros.
Do Nger ao Volta                                                                                    413



    No nvel da corte real, encontrava-se o mesmo ncleo de dignatrios, mas
a esses se juntava um quarto, o bin-naaba ou rasam-naaba (chefe dos cativos
reais), cada um dentre eles estando no comando de importantes grupos de
servidores49. Assim, portanto, os membros da linhagem real muito diretamente
ligados s lutas cujo objetivo era o acesso  funo real no podiam servir
ao rei. Finalmente, os detentores institucionais do poder eram, na realidade,
divididos em dois subconjuntos de interesses opostos, os mestres de guerra
e os servidores reais  sobre os quais o rei se apoiava para governar  e os
nakombse  contra os quais ele governava. E essa diviso era ainda mais acen-
tuada junto aos mossi, uma vez que homens oriundos da comunidade, que
ocupavam grandes cargos do estado, eram ao mesmo tempo grandes eleitores
do novo mogho-naaba e eram por vezes investidos de comandos territoriais.
Ora, conflitos internos tinham marcado a histria de todos os reinos mossi.
Eles diziam respeito, de modo quase sistemtico,  transmisso do poder, do
que decorriam os choques dos interesses rivais dos nobres e da experincia
poltica dos ministros do rei, homens comuns, mas investidos do poder de
designar dentre aqueles que tinham direito, aquele que lhes parecia o melhor.
Geralmente, a rivalidade principal opunha os irmos mais novos e os filhos
do soberano da ocasio.
     Ao mundo do poder, do qual faziam parte os cativos reais, opunha-se o
mundo da terra. As pessoas ou os filhos da terra eram a princpio descendentes
dos povos autctones, ferreiros excludos. Desprovidos de todo poder poltico,
eles tinham a obrigao dos rituais da terra que concerniam tanto  fertilidade
do solo e s colheitas quanto ao controle social e a perenidade do grupo local.
Ao naaba se opunha o tengsoba, o sacerdote da terra e detentor do sagrado. Essa
dualidade se projetava at o domnio cosmognico com o casal divino: Naaba
Wende, o rei-Deus, e Napaga Tenga, a rainha-Terra, ainda que o rei-Deus
Wende no dispusesse de nenhum altar nem de nenhum culto ritual.
    Mas a definio do grupo de pessoas da terra foi sensivelmente modificada
no decorrer dos sculos devido ao fato de que os mossi autnticos acabaram por
integrar o grupo dos autctones e por se valerem desse estatuto para se tornarem
chefes de terra. Cerca de um tero dos sacerdotes da terra do Yatenga era de
origem moaga. Certos mossi tornaram-se, por sinal, ferreiros e yarse.


49   Na corte do rei de Ouagadougou, em torno do mogho-naaba se encontrava o widi-naaba, porta-voz
     poltico, o gounga-naaba, que tinha competncia militar, o larhe-naaba que, alm de suas atribuies
     militares, era preposto aos ritos, o balum-naaba e o kamsaogo-naaba, eunuco encarregado do harm. A
     eles se juntava o tasoba, chefe de guerra.
414                                                           frica do sculo xvi ao xviii



     preciso notar tambm, ao lado do sacerdote da terra, a existncia do bugo
(sacerdote da fertilidade) dotado de seu prprio altar, o tiido. Essa funo, aberta
at mesmo aos nakombse e aos ferreiros, parecia ser de origem dogon.
    A integrao do mundo do poder e do mundo da terra em um sistema unit-
rio no qual o rei era o elemento central deu-se pelo vis de grandes rituais anuais
que associavam o soberano aos detentores do poder, aos sacerdotes da terra e
aos sacerdotes da fertilidade. Os mossi do Yatenga, como os kurumba, tinham
um calendrio anual solar dividido em meses lunares, com o atraso do ano lunar
com relao ao solar sendo compensado por meio de um desdobramento de um
ms a cada trs anos. Aps a filiiga (festa de agradecimento do incio do ano),
ocorriam as cerimnias da napusum (saudao ao rei), por ocasio das quais,
em trs manifestaes distintas, os servidores reais, os mestres da guerra e os
nakombse prestavam homenagem ao rei e lhe ofereciam presentes. Este incio de
ano correspondia aproximadamente ao solstcio de inverno. O perodo seguinte,
que ia do segundo ao sexto ms, era ocupado por um grande ciclo cerimonial
chamado bega, que associava o rei e todos os dignatrios da terra nos sacrifcios
destinados a assegurar uma boa colheita. As festas do bega acabavam no incio
da estao das chuvas. A atividade ritual era retomada no perodo das colhei-
tas, com duas festas de primcias, uma para os mestres da guerra, outra para os
sacerdotes da fertilidade.
    Esse sistema poltico-religioso muito complexo deu coerncia a uma socie-
dade estatal constituda por grupos de diversas origens e que tinham, no caso
dos mais importantes dentre eles, conservado geralmente vrios traos cultu-
rais provenientes de seu passado pr-estatal, a comear por sua estratificao
sociopoltica prpria. Assim, a diviso da sociedade em quatro grandes grupos
funcionais  pessoas do poder, pessoas da terra, ferreiros e artesos, comercian-
tes  era encontrada, com algumas diferenas, junto aos kurumba ou fulse, a
ponto de parecer ter sido junto aos kurumba que os mossi do Yatenga tomaram
emprestadas suas representaes relativas aos ferreiros que formavam aqui um
grupo endgeno, o que no era o caso no resto do Mogho.
    Em se tratando da sociedade em seu todo, todos os grupos tnicos se divi-
diam em dois: as comunidades de descendncia e as comunidades locais.
    Nesta sociedade compsita, patrilinear e patrilocal, o termo budu designava
qualquer grupo de descendncia desde a mais larga e mais antiga at a mais
restrita no quadro da unidade exgama de referncia. Este ltimo sentido
era o mais usual. A sociedade era ento composta por budu tal qual o dos
nakombse reais. Detentor de uma histria prpria, marcado pelo nome de um
fundador e de um lugar de fundao, o budu definia sua identidade particular
Do Nger ao Volta                                                                                      415



pela existncia de um bud-kasma (chefe), de um kiims'rogo (santurio dos ances-
trais) e de seu prprio bairro onde residia o bud-kasma e onde se encontrava
o kiims'rogo, bem como pela posse, em geral no exclusiva, de um ou de vrios
sonda (nomes coletivos) que eram divisas das quais uma palavra-chave servia
de nome patronmico.
    A patrilinhagem s existia territorialmente em seu primeiro nvel de seg-
mentao, a saka (seo). Ela era dividida em yiiya (singular yiiri, casa), que
eram as unidades de produo e de consumo, elas prprias divididas em unida-
des menores, as zakse, que, nos nossos dias, correspondem as famlias restritas,
economicamente falando. Privilegiava-se o trabalho nos campos comuns da
casa, em benefcio do yiir-kasma (chefe do yiiri), sendo as reservas do chefe de
famlia objeto de uma redistribuio em ltima instncia aps o esgotamento
dos celeiros dos chefes de famlia.
    As sees pertencentes a uma mesma linhagem eram geralmente dispersas
e se ligavam, assim, a vrias entidades do vilarejo. Em outros termos, o vilarejo
moaga50 era plural quanto  linhagem uma vez que, correlativamente, a linhagem
era plural quanto ao vilarejo, sendo a seo a unidade de linhagem local mais
larga.

     O Gulma e o Borgu
   Durante muito tempo, a margem gulma (ou gurma) do Nger, isto , a mar-
gem direita  jusante do arco, foi muito mal conhecida do ponto de vista his-
trico. Essa situao mudou graas s pesquisas conduzidas pelo historiador
do Volta Georges Mandiega na parte Norte do pas gulmance. Atualmente 
possvel fornecer informaes ainda lacunares, mas cientificamente fundamen-
tadas sobre o Gulma.
   Os dogon (kumbetieba em gulmancina) formavam uma das mais antigas
populaes do Norte de Gulma. Aps eles, vieram os atualmente conhecidos
como tindamba (pessoas da terra51), que seriam originrios do pas moaga atual,
mas pertenceriam ao tronco pr-moaga da populao, e os woba, vindos do sul.
O Norte-Gulma foi igualmente uma zona de povoamento kurumba.  possvel

50   J se discutiu a pertinncia do emprego do termo "vilarejo" para designar a mais larga unidade habita-
     cional junto aos mossi. Ora, se o emparelhamento das sees no constitui comunidades campesinas
     como no oeste do Volta, tampouco se deixa de estar em presena de entidades pertinentes do ponto de
     vista das relaes econmicas e sociais, ainda que apenas pelo cruzamento de um sistema de unidades de
     comando, encarnado por um chefe local, e unidades de controle da terra representadas por um sacerdote
     da terra.
51   Y. G. Madiega, 1982.
416                                                        frica do sculo xvi ao xviii



que o termo koarima, pelo qual os gulmanceba do Sul designam os do Norte,
seja uma deformao do termo kurumba. No Sul-Gulma, sobre o qual nossas
informaes so muito insuficientes, encontra-se, dentre os antigos ocupantes,
os tindamba e os woba. Estes ltimos certamente ocuparam um territrio muito
vasto antes de serem submersos e parcialmente assimilados pelos gulmaceba e
outros povos fundadores de Estados. Assim, os woba do Gulma e os waba do
Borgu (Norte-Bnin atual) formavam um nico e mesmo grupo.
    Sobre essas populaes antigas estabelecer-se-ia um poder estrangeiro, o dos
bemba ou buricimba (singular buricima), que iam dar origem s formaes de
Estado gulmanceba. No dispomos ainda de um quadro cronolgico satisfatrio
para a alta histria gulmance, mas podemos mencionar duas hipteses maiores
de Georges Madiega: primeiramente, os ancestrais dos mamprusi atravessaram o
Gulma antes da chegada dos buricimba; em segundo lugar, as primeiras dinastias
gulmanceba so contemporneas das primeiras dinastias mossi. Parece ento
razovel, no estado atual de nossos conhecimentos, situar o incio da histria
estatal gulmance por volta do sculo XV, no mnimo no fim do XIV.  origem
dos Estados gulmanceba est associada  figura de um ancestral histrico-
-mtico, Jaba. Seria um chefe guerreiro como Naaba Wedraogo da histria
moaga? Aparentemente no, pois os poderes a ele atribudos eram normalmente
mais associados  magia que s aptides militares. O que parece certo  que as
ligaes genealgicas estabelecidas pelos mossi entre os descendentes de Na
Gbewa e de Jaba (chamado Jaba Lompo pelos mossi, ao passo que Jaba e Lompo
seriam dois personagens distintos, o segundo sendo o filho do primeiro) so
apenas elaboraes tardias imaginadas na corte do mogho-naaba para justificar
uma quase assimilao do poder gulmance ao poder moaga durante o perodo
colonial, a menos que seja o inverso e que a organizao administrativa colonial
das antigas tribos de Estado, dando uma espcie de proeminncia absoluta
ao mogho-naaba, tenha conduzido alguns a lhe encontrar um fundamento na
histria. Tudo indica que seja preciso tratar de modo independente tanto umas
como as outras, do ponto de vista da origem das dinastias, as hegemonias mossi
e gulmanceba.
    De onde vinham os buricimba? Como em muitas outras zonas do Oeste
africano central, encontramos no Gulma conquistadores originrios do Borno.
Mas, na verdade, nada permite saber de quais migraes guerreiras o imprio
gulmance nasceu. Sabe-se ao menos que o primeiro centro poltico gulmance
foi Lompotangu ou sangbantangu no Sudeste de Nungu (Fada N'Gourma). De
Lompotangu, os buricimba se deslocaram rumo a Kujuabongu, no Sul de Pama.
As runas que marcam esta segunda etapa da penetrao buricimba indicam
Do Nger ao Volta                                                            417



que temos l vestgios de uma antiga capital, a da primeira formao poltica
gulmance, que devia ser o centro de onde partiram os conquistadores para dar
origem s dinastias atuais. Esclareamos que os buricimba no foram, na poca,
os nicos fundadores de reinos nesta regio. A dinastia de Jakpangu  de origem
berba, a de Gobnangu  de origem haussa. Conta-se tambm dinastias cujos
fundadores vinham do Yanga, zona de contato entre os mossi e os gulmanceba,
e cujos chefes atuais podem ser ligados  descendncia de Naaba Wedraogo.
As dinastias gulmanceba do Yanga so as de Boarigu, Komin-Yanga, Sudugo,
Kamseongo, Dogtenga e Yutenga.
    A expanso buricimba prosseguiu de modo contnuo no decorrer dos sculos
XVI e XVII e podemos situar por volta de meados do sculo XVIII o apogeu
da dominao gulmance. Neste momento, os gulmanceba controlavam um vasto
territrio, sem dvida muito pouco povoado, limitado ao Sul pelo reino mam-
prusi e o Borgu, a Leste pelo Torodi e os ltimos vestgios do imprio songhai,
ao Norte pelas zonas do Sahel de povoamento kurumba, songhai e fulbe, e a
Oeste pelas tribos mossi de Tuguri, Bulsa, Kupela e Tankudgo. Os futuros emi-
rados fulbe do Liptako (regio de Dori) e do Yaga (regio de Seba) estavam na
ocasio sob o domnio gulmance, e apenas no comeo do sculo XIX os fulbe
repeliram os gulmanceba para o sul.
    Em meados do sculo XVIII, dois grandes reinos dividiam entre si o essen-
cial do territrio do Norte-Gulma: Bilanga e Kuala, aos quais se juntaram trs
pequenos Estados: Piala, Bongandini e Com, que eram mais recentes. A partir
do vilarejo de We, no Nordeste de Nungu, que os buricimba tinham atingido
por volta da metade do sculo XVI, ocorreu uma verdadeira exploso do poder
gulmance em direo ao Norte, do que derivou uma grande disperso das tribos
regionais e locais que chefes hbeis trataram em seguida de unir sob a forma
de reinos.
    Se, graas s pesquisas de Georges Madiega, conhecemos doravante a his-
tria do Norte-Gulma, a do Gulma Central e Meridional permanece das mais
obscuras. Situao tanto mais prejudicial a uma viso de conjunto da histria do
Gulma deriva do fato de termos, no sul, onze reinos dentre os quais um, o de
Nungu, reveste-se de uma importncia particular em funo do estatuto de seu
soberano, o nunbado (o chefe de Nungu52). Nungu tinha sido fundado por Yen-
badri, descendente de Jaba, por volta de meados do sculo XVIII. Era a poca
em que o Gulma Meridional tinha sido invadido pelos tyokosi, mercenrios


52   Bado  o equivalente de naaba dos mossi.
418                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



mande pertencentes ao grupo dos wattara (que eram encontrados em Kong e
em Bobo-Dioulasso), originalmente a servio de reis mamprusi e conduzidos
por um chefe oriundo do Gonja. Os tyokosi fixaram-se, de incio, no Norte
do atual Togo, em seguida, lanaram expedies contra os reinos gulmanceba,
dando continuidade  sua carreira de mercenrios. Assim, o chefe de Pama
pediu apoio dos tyokosi contra o chefe de Kujuabongu. Yendabri, soberano de
Nungu, tomou rapidamente a dianteira de uma coalizo de reinos para expulsar
os tyokosi do Gulma. Em torno dele, agruparam-se os reis de Pama, Macakoali,
Boarigu e Botu, assim como os chefes mossi de Bulsa, Kupela e Tankudgo. Sob
a ofensiva de seus adversrios, os tyokosi bateram em retirada para sua capital,
Sansane-Mango, que os aliados cercaram53. Vencedor, Yendabri aproveitou-
-se de seu sucesso para afirmar sua autoridade no comando da liga que tinha
constitudo? O que  certo  que, no sculo XVIII, o nunbado tornou-se uma
espcie de soberano superior de uma parte do Gulma, embora sua autoridade
fora dos limites de seu prprio reino fosse mais espiritual que poltica. "O nun-
bado, escreve Georges Madiega, exercia uma autoridade direta sobre Nungu [...].
Ele exercia igualmente um distante domnio sobre os diema (reinos ou tribos
regionais) dos batieba (reis ou chefes regionais) que no eram da linhagem de
Lompo. As dinastias que daqui saam o consideravam simplesmente como o
nikpelo (primognito) da linhagem". Neste texto, Lompo  considerado como
o filho de Jaba54. Progressivamente, o nunbado assumiu a figura de principal
soberano do Gulma, ao passo em que sua residncia real tornava-se a principal
localidade do pas, sobretudo em funo do papel econmico que l desempe-
nhavam os comerciantes haussa (estes ltimos se chamavam Nungu Rojo ou
Fada N'Gourma). Continua difcil, hoje, interpretar as relaes estabelecidas
entre o nunbado e os soberanos gulmanceba. A existncia de uma confederao
gulmance  pouco provvel e a autoridade real do nunbado era sem dvida to
territorialmente limitada quanto  de outros reis, dos quais muitos eram, por
sinal, mais poderosos que ele. Mas o nunbado gozava de um prestgio moral e
ritual excepcional, na medida em que ele foi  tardiamente  considerado como
herdeiro direto de Lompo e, portanto, de seu "pai", Jaba. O comrcio haussa
fez o resto: Nungu tornou-se um importante centro de trnsito de caravanas
leste-oeste.


53    R. Cornevin, 1964; D. Rey-Hulman, 1975. Seguimos tambm as consideraes de Y. G. Madiega,
      1978.
54    Ver acima: o personagem nico das tradies mossi (sem dvida tardias), Jaba Lompo,  substitudo nas
      tradies gulmanceba por dois personagens: Jaba e seu filho Lompo.
Do Nger ao Volta                                                                                      419



    O Borgu55 se estende ao Sudeste do Gulma. Sua histria  bastante confusa,
com vrias formaes de Estado cuja mais antiga parece ter sido a de Busa,
ponto de disperso dos guerreiros wasangari. Ainda aqui, os chefes afirmavam
que as dinastias reais eram originrias de Borno. A aristocracia militar wasangari
imps seu poder a povos instalados h muito tempo  alguns de origem pr-
-gulmance  que, nos sculo XVI e XVII, acolheram grupos mande (o busa 
uma lngua do grupo dos mande do sul), os quais asseguraram a juno comer-
cial entre o Norte do Gana e o pas Haussa. Busa atingiu seu apogeu no sculo
XVI, antes de declinar. Os outros reinos, como Nikki, so originrios em maior
ou menor escala de Busa. No sculo XVIII, Nikki estava em guerra com o reino
de Nupe. De Nikki saram as pequenas formaes de Kaiama, Paraku, Kuande
e Kandi. Lembremos que se d s formaes de Estado do Borgu o nome de
reinos bariba, nome de um dos principais povos autctones da regio.

     Os povos de poder descentralizado
    Esses povos so assim designados por falta de uma melhor qualificao56.
Tratando-se aqui daqueles que estavam situados em torno das altas bacias do
Volta,  preciso lembrar a antiguidade de sua formao, seja em seu stio atual,
seja alhures57. Ainda que esses povos, ao contrrio das sociedades centralizadas,
no tenham dominado a cena poltica nem o fluxo dos acontecimentos,  pre-
ciso no minimizar sua contribuio. De incio, eles constituam as camadas
humanas sobre as quais se inscreveram biologicamente os aportes exteriores.
Com efeito, os povos ditos "conquistadores" raramente chegaram por meio de
ondas que rompiam engolindo e aniquilando tudo diante deles. Os mossi, por
exemplo, so o resultado da unio de grupos tnicos diversos reunidos por um
conjunto de chefes tribais, sob a autoridade de um rei aparentemente absolutista,
mas governados por um rigoroso costume. Ora, neste processo de expanso, a
progresso tenaz dos camponeses mossi foi incontestavelmente mais importante
que o estabelecimento dos contingentes de cavaleiros. Essa impregnao lenta
do tecido humano pr-existente foi um fenmeno de duplo sentido, graas aos
casamentos mistos bem como s trocas culturais e econmicas.


55   M. Izard, 1975.
56   As expresses "sociedade sem Estado" ou "sociedades acfalas" devem ser rejeitadas. Mas mesmo a
     expresso "povo de poder descentralizado"  passvel de crticas porque  negativa e se refere somente
     ao poder poltico. Sem contar que um povo de tal tipo pode se tornar, por seu turno, centralizado (os
     bambara) e depois deixar de s-lo.
57   UNESCO, Histria geral da frica, vol. IV, captulo 9.
420                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    Os aportes biolgicos foram to importantes que Dim Delobsom declarou
que o prprio termo moaga (plural, mossi) significa misturado, mestio58. No
seria demais insistir neste ponto a respeito do papel dos nioniosse muito cedo
assinalado por numerosos autores59. Esta mistura biolgica foi tal que as pessoas
do Yatenga tratavam os mossi do Mogho Central por gurunsi, ao passo que em
Ouagadougou, este qualificativo era atribudo somente aos mossi de Koudou-
gou, que eram vizinhos dos gurunsi. Mas os prprios habitantes do Yatenga
no escaparam dos aportes de povos mande do Arco do Nger que tiveram uma
influncia militar decisiva na histria do Yatenga quando Naaba Kango recorreu
s foras de Sgou. Ora, esses mesmos povos mande mesclaram-se h muito
tempo com a populao pelo vis de seus comerciantes, ancestrais profissionais
e mesmo biolgicos do grupo importante dos yarse. Tais misturas biolgicas
esto, provavelmente, na base dos rakire60entre os mossi e os samo (sana). No
plano cultural e econmico, aqui como em outro lugar, por exemplo na regio
dos Grandes Lagos, o aporte dos povos autctones frequentemente foi mini-
mizado, at mesmo ocultado. Vimos como, no domnio da estruturao poltica
e religiosa, os dogon (em particular para o sacerdote da terra) e os kurumba
tinham contribudo para o sistema de poder dinstico no Yatenga. Apenas pela
gesto dos ritos agrrios, graas ao ministrio dos sacerdotes da terra que eram
geralmente provenientes do povo autctone, eles influenciaram consideravel-
mente e de modo permanente a vida cotidiana de todos os camponeses, sem
exceo. Mas no mais alto nvel poltico, tambm o descendente do chefe dos
autctones, que se tornou naaba de Ouagadougou61, desempenhou um papel
muito importante na entronizao do mogho-naaba.
    Se a escravido intensificou-se no decorrer desse perodo, geralmente s cus-
tas dos povos autctones, particularmente os gurunsi e os fulse (ou kurumba),
ela ganhou amplitude sobretudo com o impulso do trfico na costa da Guin e
suas repercusses foram sentidas at no imprio ashanti e nos pases do Norte
que dependiam de tal trfico.
    Os povos autctones, que eram de cultura mande ou da regio do Volta,
aceitavam as trocas, mas recusavam a dominao, estratgia que foi muito eficaz


58    A. D. Delobsom, 1929. Obviamente, o autor acrescenta que este julgamento um tanto quanto desfavor-
      vel partia dos nobres com relao s pessoas comuns; mas a tradio (ver Y. Tiendrebeogo, 1964) relata
      que a prpria me de Wubi, primeiro rei de Ouagadougou, era uma autctone.
59    Ibidem; R. Pageard, 1969.
60    Entre os mossi, tradio visando a desarmar tenses tnicas pela troca de brincadeiras (ver nota 6).
61    Ouagadougou (Wogodogo) no sentido restrito,  o bairro em que mora o chefe autctone.
Do Nger ao Volta                                                                                    421



at o perodo colonial. Naaba Kumdumye morreu em uma das primeiras expe-
dies para Boromo. Pode-se supor que ele tentava fazer passar para o controle
moaga a zona compreendida entre os Volta vermelho e negro. Este grande plano
fracassou e o Volta vermelho, com algumas excees locais, tornou-se a fronteira
ocidental natural do Mogho.
    Os gurunsi62 e os bwaba que povoavam esta regio desenvolveram, apesar da
ausncia de Estado centralizado, uma personalidade muito forte. Os gurunsi,
cujos principais centros eram P, Leo, Sapouy e Rep, ultrapassaram o Gana
atual. Vivendo em famlias em cabanas de arquitetura notvel, eles eram feroz-
mente opostos a toda forma de hierarquia poltica complexa. Frequentemente,
o sacerdote da terra ou as sociedades de mscara constituam um elo entre
as famlias. Rumo ao leste, entretanto, havia uma estrutura mais organizada,
dirigida por um chefe de canto cercado por uma corte e por um conselheiro
religioso preposto ao culto de seu kwara (smbolo mgico).
    Os bwaba63 constituram-se, ao que tudo indica, como entidade especfica
entre o sculo X e o XV. Eles no reconheciam autoridade poltica acima daquela
do vilarejo. A religio do Do constitua tambm um cimento entre os iniciados
de um mesmo vilarejo e entre os de vilarejos vizinhos.
    Prximos do Yatenga viviam os samo64 do Norte cujo local de morada se
distinguia por silos de gros gigantes. Sua organizao poltica consistia em
confederaes bastante estveis de dezenas de vilarejos ao redor de alguns polos
polticos correspondentes ao canto mande (kafu). O sistema san baseava-se ao
mesmo tempo em alianas de cls, como no caso dos chefes zerbo e dos fer-
reiros, e em coalizes territoriais. Antes de subir ao trono, Naaba Kumdumye
e outros prncipes, dentre os quais Naaba Yadega, haviam guerreado contra os
saa. Em seguida, Naaba Kango tentou arregimentar o pas san do Nordeste
ao Yatenga, mas no conseguiu. Guerreiros experimentados, camponeses feroz-
mente agarrados  sua liberdade, os saa resistiram de novo s presses do
Yatenga, como haviam feito antes, no tempo de Naaba Yadega e sob o reinado
de Naaba Lambwega notadamente, e como viriam a fazer ao longo do sculo
XIX. Durante este ltimo perodo, por sinal, seu pas serviu de base de recuo
para os prncipes do Yatenga que reuniram l mercenrios para fazer ou desfa-

62   De fato, no h povo que se chame de gurunsi (singular Gurunga, em more), mas nunuma, lela, sisala,
     k, kasena etc.
63   J. Capron, 1973. Os bwaba tm parentesco no lingustico, mas cultural, com os bobo. Ver A. Le Moal,
     1976.
64   O termo samo vem do chamamento mande samogo. Mas este povo chama a si mesmo de saa (singular
     San).
                                                                                                               422
                                                                                                               frica do sculo xvi ao xviii
Figura 12.4 Vista geral de Kong. [Fonte: L. G. Binger, 1892.  Royal Commonwealth Society Library, Londres.]
Do Nger ao Volta                                                           423



zer os reis de Waiyugo. Quanto aos bisa aparentados aos saa e separados deles
aps uma querela de cls, ficavam ao Sudeste do Mogho. Eles tambm deram
mostras de uma resistncia notvel malgrado as trocas culturais mtuas e um
tributo em cativos no fim do sculo XVIII. Mas parecem ter estado em expanso
at o perodo colonial.
    O Sudoeste do atual Burkina-Faso era, por assim dizer, vazio de habitantes,
 parte os bwaba que l iam caar at as margens do Buguriba. Por volta de
1730, os kulango expandiram sobre as terras onde, dez anos mais tarde, os pwa
(puguli) iriam se estabelecer com a autorizao dos bwaba. Eles foram seguidos,
no espao de cinquenta anos, pelos dorobe e pelos gan, que se instalaram de
incio em Nako, bem como pelos primeiros dyan, os lobi e os wiile e, por fim,
os birifor, que ocuparam a regio de Batie abandonada pelos lobi.

    Kong e Gwiriko
     preciso no esquecer que os comerciantes jula, chamados wangara, atua-
vam nas rotas da floresta, onde se encontravam ouro e cola (de onde o nome de
worodugu), desde a poca dos imprios do Sudo (do sculo X ao XV). Mas, a
partir do sculo XVI, um fato novo surgiu na costa do golfo de Guin: o trfico
negreiro e o comrcio de armas de fogo. Este nico acontecimento basta para
que se entenda porque os grupos de jula, tanto mercadores quanto militares ou
missionrios muulmanos embrenharam-se cada vez mais em zonas de savanas
onde grassavam as trocas de gneros alimentcios cuja demanda acentuava-se
sob a presso do novo curso dos acontecimentos. Foram os jula que contriburam
para o estabelecimento do grande centro de trocas de Begho. A rota de Begho
foi logo ligada  que atravessava a atual Costa do Marfim, do pas de Assnia
a Bobo e Bamako por Yassako. Ao passo que os diomande se instalavam no
Centro-Oeste, os wattara fizeram de Boron e Mankono centros comerciais.
No fim do sculo XVI, foi criado o reino de Gonja e, no fim do sculo XVII,
aps a destruio de Begho, refugiados jula foram para o reino abron (bron) e
criaram Bondoukou.
    Certas circunstncias importantes deram um vigoroso impulso s atividades
dos jula a partir do sculo XVII: de incio, a queda do imprio de Gao; em
seguida, a criao do imprio ashanti que constitua um polo considervel de
abastecimento em ouro, armas, sal e produtos manufaturados; por fim, o fato
de que as savanas do Volta eram zonas de povoamento relativamente denso no
quadro de sociedades, em sua maior parte sem poder poltico centralizado, que
por isso, podiam fornecer a "madeira de bano", sem contar os animais e o ouro,
424                                                            frica do sculo xvi ao xviii



que os pases costeiros esperavam. Entende-se ento que os dagomba tenham
organizado, a partir de seu prprio modelo poltico, o reino kulango65 de Bouna,
no pas Lorhon. Era um reino muito centralizado que se apoiava em distritos
militares administrados por prncipes. As jazidas de ouro do lobi foram explo-
radas por eles, talvez em concorrncia com o reino abron, o que explica as lutas
sangrentas durante os sculos XVII e XVIII.
    Com efeito, os abron do grupo akan, aps se imporem aos koulango meri-
dionais, disputavam em Bouna o controle da rota do Norte por Como. Foi a
consolidao de seu poder por dois grandes chefes, Tan Date (sculo XVII) e
Kousounou (incio do sculo XVIII), que atraiu os jula a Bondoukou. Mas os
baoul decidiram rapidamente fechar o rio Bandama ao comrcio do Norte.
Os jula, repelidos rumo a oeste, quiseram abrir a rota de Como em direo a
Bassam, a fim de atingir, com esse desvio, os fortes dos pases Nzima e Fanti.
     neste contexto geral que iria se criar um novo conjunto de estabelecimentos
ao mesmo tempo comerciais, polticos, militares e religiosos por iniciativa dos jula.
Em meados do sculo XVIII, bandos armados vindos de Sgou, os diarrasouba,
colocaram de lado os senufo e criaram um reino mande (Nafana) em Odienne.
    Os senufo pertenciam ao grupo lingstico do Volta. Reagrupados por cls
em torno de Korogho, Seguela, Odienne e Kong, a queda do Mali pareceu ter-
-lhes aberto possibilidades de expanso territorial rumo ao Norte at Sikasso e
Bougouni, onde eles adotaram, entretanto, o bambara, e rumo ao Sul at a regio
de Bouak onde foram absorvidos no bloco baoul. A leste, deram origem a
grupos isolados como os nafana que foram extratores de ouro em Begho, antes
de ficar sob o domnio dos abron. Quanto aos pallaka, caram sob o domnio
de Kong. Os senufo, com efeito, eram antes de tudo excelentes camponeses que
exploravam com eficincia o terreno de seus vilarejos compactos. Igualitrios e
independentes, eles conheciam apenas uma coletividade de grande envergadura
que contribua para regulamentar sua hierarquia social, o poron, de caracters-
ticas religiosas. Alm disso, eles tinham artistas consumados que, desde tem-
pos antigos, produziam algumas das grandes obras-primas do estilo simbolista
negro-africano. Foi apenas no sculo XIX que os senufo comearam a erguer
alguns reinos centralizados, por exemplo com a dinastia Traor do Kenedougou
(Sikasso), talvez por mimetismo face aos mande.
    Estes, no incio do sculo XVIII, anexaram um centro prestigioso  srie de
estabelecimentos jula: Kong. Esta regio parece ter sido antigamente ocupada,


65    Kulango: "os que no temem a morte".
Do Nger ao Volta                                                                                         425



se no organizada, pelos tiefo, como sugere o grupo de vilarejos tiefo que ainda
liga Noumoudara a Kong. Foi l que os mande-keita e koulibali, tornados em
seguida wattara, impuseram-se como autctones. Um dentre eles, Skou Wat-
tara, eliminou, no comeo do sculo XVIII, outros grupos jula e reinou em
Nafana e em Kong graas a um poderoso exrcito no qual serviam os senufo
sob as ordens de oficiais jula. Esta fora militar permitiu-lhe conquistar uma
parte do Oeste do alto Volta at Dafina (Arco do Volta negro).
    Em seguida, as foras de Kong impuseram-se ao pas Turka, no Folona,
saquearam a regio de Sikasso, uma parte do Minianka e do Macina, e che-
garam a Sofara, frente a Djenn, na outra margem do Bani. Vimos como esta
expedio foi finalmente repelida por Biton Koulibali. Com efeito, aps a morte
de Skou Wattara (1740), o imprio foi profundamente abalado em funo
de sua vastido, de sua heterogeneidade e da ausncia de um sistema slido
de gesto. Por fim, uma ciso ocorreu: a casta dos guerreiros no muulmanos
jula e senufo, os sohondji, separou-se dos jula chamados "salama", dados ao
comrcio e  religio muulmana, pois Kong tinha se tornado metrpole do
saber islmico. Mas sua tentativa de controlar Djenn evidenciou que o grande
plano dos wattara era antes de tudo econmico: tratava-se de controlar a maior
distncia possvel das rotas comerciais que uniam a floresta ao arco do Nger.
Aps o fracasso desse projeto grandioso, os grupos jula passaram a empreitadas
mais limitadas. Uma das mais audaciosas foi a criao do reino de Gwiriko66. L
foi fundada por Famaghan Wattara, ao redor de Sya (Bobo-Dioulasso)67, uma
rplica do reino de Kong, em uma regio situada em torno da linha de partilha
das guas do Banifin, subafluente do Nger, do Como e do Volta negro. Quando
lembramos que esses dois ltimos cursos d'gua possuam jazidas de ouro em
seu curso mdio ou inferior e que o primeiro riacho leva ao Bani pela regio
de Djenn, entendemos o carter estratgico da deciso de Famaghan que, por
sinal, recusava-se a demonstrar submisso a seus jovens sobrinhos de Kong, os
filhos de Skou. Ele tomou o controle mais ou menos completo e durvel dos
pases Tiefo e Dafin, bem como do Bwamu (pas dos bwaba). Em Bobo, ele
submeteu e se aliou aos bobo jula chegados de Djenn aps os bobo fing, por
volta do sculo XI. Seus sucessores, Kere Massa Wattara (1742-1749) e Magan
Oule Wattara (1749-1809), no puderam seno conter por meio de represses


66   Gwiriko: "ao fim de uma longa etapa", em jula.
67   N. Levtzion, 1971b; E. Bernus, 1960; D. Traor, 1937. Sobre a Crnica de Gonja a partir da qual pde
     ser estabelecida uma cronologia confivel para os acontecimentos relatados neste pargrafo, ver J. Goody,
     1967 e N. Levtzion, 1971b.
426                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



(como em 1754 contra o grande gurgo bwa de San) as revoltas dos povos sub-
missos  dominao jula. Esta era antes de tudo econmica, mesmo quando ela
se apresentava sob as cores do proselitismo.


      A vida econmica do Nger na bacia dos Volta
     tambm em meados do sculo XVIII, com a chegada dos bobo jula, que
J. B. Kietegha fixa o perodo de grande produo de ouro do Volta negro. Os
recm-chegados monopolizaram a extrao de ouro de Poura, trazendo melho-
rias tcnicas. Mas Kietegha prope a hiptese de que os exploradores do pri-
meiro perodo (do sculo XV a meados do sculo XVIII) eram j os mande-jula
vistos pelos gurunsi de Poura como mossi68.
    Os comerciantes eram cada vez mais ativos e as rotas comerciais extrema-
mente frequentadas nas metades Oeste e Norte das regies situadas entre o
Nger e a bacia dos Volta. Mas, no curso dos sculos XVII e XVIII, mesmo
nos reinos mossi e junto a povos com poder poltico descentralizado como os
gurunsi, a um sistema econmico de base essencialmente agrcola, veio se juntar
uma rede de trocas de mercadorias baseada em produtos exticos e que mobi-
lizava cada vez mais os comerciantes profissionais.
    No pas moaga, em uma zona de chuvas irregulares e de quase monocultura
do milho mido em um solo esgotado, cada decnio compreendia em mdia dois
ou trs anos ruins; carestias, por vezes mesmo fome, no eram raras no Yatenga,
como no reinado de Naaba Zana no fim do sculo XVII e no comeo do
sculo XVIII, bem como na dcada 183069. Ao milho mido, alimento de base,
juntavam-se o milho normal, planta que satisfazia a demanda dos consumidores
enquanto novos produtos ainda no estavam no mercado, o amendoim (ou ervi-
lha), o feijo, o gergelim e algumas hortalias. Principal planta de uso artesanal,
o algodo aparentemente era cultivado h muito tempo. Os yarse muulmanos
associaram-se  tecelagem desde o incio da histria moaga e os rolos de tecido
de algodo que eles fabricavam engrossavam as cargas das caravanas do eixo
Norte-Sul, rota comercial da qual eles controlavam quase de modo exclusivo o
trfego. Os marase (songhai), especializados em tinturaria, utilizavam o ndigo.
Muitas plantas eram colhidas, quer se tratasse de hortalias ou de alimentos de
substituio utilizados em perodos de carestia, sendo os principais o "nr" cujo


68    J. B. Kietegha, 1983, p. 158.
69    O inventrio dos casos de fome do Mogho ainda no foi feito.
                                                                                                                                                          Do Nger ao Volta
                                                                                                                                                          427
Figura 12.5   Mercadores oferecendo seus produtos  sombra de uma figueira. [Fonte: L. G. Binger, 1892.  Royal Commonwealth Society Library, Londres.]
428                                                          frica do sculo xvi ao xviii



fruto possui mltiplos usos e a noz de karit, a partir da qual fabrica-se gordura
vegetal utilizada na cozinha.
   Na poca pr-moaga do Lurum (at o sculo XV-XVI), os kurumba tinham
junto a eles os marase que faziam o comrcio do sal do Saara. A formao dos
Estados mossi do Norte, dentre os quais o Yatenga, teve um duplo efeito sobre
o comrcio das caravanas. De um lado, os marase foram suplantados pelos yarse,
de outro, estes ltimos juntaram ao comrcio de sal do Saara o de noz-de-cola,
comprada nos seus lugares de produo, na periferia setentrional do mundo
ashanti. O reinado de Naaba Kango deu um impulso novo ao comrcio como
o prova, dentre outras coisas, a prosperidade do burgo de Yuba, prximo de
Waiguyo, que remonta a esta poca.
   O sculo XVIII presidiu a formao de grandes aglomeraes de comer-
ciantes nas quais os marase se juntaram aos yarse. Estes no tinham meios de
manter um sistema comercial autnomo, pois os kurumba tinham perdido sua
independncia e at mesmo sua identidade, na seqncia da dominao do pas
pelos mossi (yatenga) e pelos fulbe (jelgoji). Os grandes mercados do reino
(Yuba, Gursi etc.) eram o ponto final das caravanas que transportavam sal e
cola. Os yarse do Yatenga formavam um grupo de comerciantes dinmico que
era encontrado no somente em Tombuctu, ponto de partida das caravanas que
transportavam sal, mas tambm no vale do Bani e em todo o Macina.  possvel
que a estratgia de Naaba Kango em direo de Sgou tenha visado assegurar
a implantao desses yarse nos pases vizinhos do Yatenga. Com efeito, no pas
moaga, esses comerciantes avisados viviam em simbiose com os dirigentes, mas
com compromissos: em troca de certos privilgios (direito de graa, dispensa
de prestaes, escoltas armadas), eles se engajavam em no favorecer nenhuma
subverso, a vender prioritariamente ao naaba, a abeno-lo e a apoi-lo por
meio de rituais apropriados e mesmo, em algumas ocasies, a servir de agentes
de informaes70.
   Se a unidade de conta para os comerciantes era o caurim, outras unidades
faziam parte do universo das caravanas como nas trocas correntes  o cvado
de faixa de algodo notadamente  e diversos sistemas de equivalncia eram
aplicados entre o caurim, o cvado, a placa de sal, o cativo e o cavalo.
   Do lado dos yarse, que juntavam ao artesanato de algodo o comrcio a
longa distncia, os ferreiros associavam a metalurgia pesada, metalurgia de afi-
nao, a cermica (para as mulheres) e o comrcio de explorao no sentido do


70    A. Kouanda, 1984, p. 248.
Do Nger ao Volta                                                           429



Mogho Central, pobre em minrio de ferro. O Yatenga era , com enfeito, uma
das grandes regies metalrgicas do centro do Oeste africano e o comrcio de
produtos acabados (metais, armas e ferramentas) dava aos ferreiros uma renda
no negligencivel.
    A prpria escolha do stio de Waiguyo certamente no se deu sem considera-
es de ordem econmica. Frobenius71 relata uma tradio segundo a qual Naaba
Kango queria fazer de sua capital um depsito de sal.  possvel tambm que
date do reinado de Naaba Kango a criao de um corpo de chefes de mercado
de origem cativa, encarregados do recolhimento de uma taxa real sobre as mer-
cadorias importadas. J Naab Zombre havia criado, no reino de Ouagadougou,
um corpo de chefes de mercado cujos titulares, recrutados dentre os cativos,
eram encarregados de recolher uma taxa real sobre os produtos importados.
Obviamente, tratava-se de fornecer  corte rendimentos suplementares, mas isso
visava tambm reduzir os direitos de taxao dos chefes locais, frequentemente
severos demais com os comerciantes.
     preciso sempre lembrar a terrvel lgica que o trfico negreiro, durante
esse perodo em que ele era mais intenso em quase todas as costas da frica
negra, introduzia na mecnica dos fluxos comerciais como no contedo das
relaes sociopolticas, desde o instante em que se juntaram as armas, os
escravos e o poder poltico. Constatamos isso junto aos maiores reis da poca:
os Massassi de Sgou, Naaba Kango do Yatenga, os Wattara de Kong e de
Bobo, sem contar os soberanos do Dagomba e do Ashanti. Mas a atividade
escravagista dos reis era multiplicada e alimentada pela multido de chefes
locais que, de bom grado ou  fora, entravam no jogo poltico por esse gnero
de negcios.
    Vimos como, no sistema bambara, o estatuto de cativo tinha sido genialmente
institucionalizado recuperando pura e simplesmente a instituio pr-existente
dos ton-den para criar os ton-dyon. Mas, se essa ideia ocorreu a Mamari Kouli-
bali, foi porque ela era corriqueira e existia na prtica social h sculos.
    Um passo suplementar foi dado com os foroba-dyon propriamente ditos
(escravos da coroa). Eram prisioneiros de guerra juntados em contingentes que
se distinguiam entre si pelos faama que os havia constitudo. Eles eram geral-
mente destinados a serem vendidos como mercadorias fabricadas pela guerra:
em bambara, san'dyon (escravos do comrcio). Adquirida por uma comunidade,
a mulher obtinha a condio de woloso (literalmente, nascido (a) na casa) desde


71   L. Frobenius, 1924, p. 281.
430                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



que ela tivesse dado  luz a uma criana, e o homem podia adquirir o mesmo
estatuto desde que seu mestre confiasse nele para tanto. Em seguida, o woloso
tornava-se dyon goron quando era substitudo por seus filhos e pagava uma inde-
nizao anual a seu mestre. Mas desde o instante em que obtinha a qualidade
de woloso, o escravo tornava-se membro de uma casta. Ele no podia mais ser
vendido e gozava do direito  propriedade e de transmitir sua herana a seus
filhos, de modo que suas condies de vida, se no seu estatuto, eram preferveis
s de um homem livre porm pobre que era suscetvel de cair no cativeiro do dia
para a noite. Entende-se assim porque tantas pessoas preferiam se acomodar sob
a proteo de um mestre neste sculo XVIII to atribulado, exatamente como na
Alta Idade Mdia europeia. Obviamente, a condio de woloso era imposta aos
descendentes de modo perptuo, mesmo se, como ocorria nas cortes reais, uma
minoria dos homens de castas se elevasse a dignidades maiores. Ainda que sua
posio impedisse que as pessoas comuns fizessem aluso a seu estatuto anterior,
essa marca perdurava na opinio coletiva, indelvel72.
    Foi assim que os Diarra, da famlia do grande rei Ngolo Diarra, no chega-
ram a apagar a lembrana da condio servil de seu ancestral, que suscitava o
sarcasmo dos massassi do Kaarta. O caso de Ngolo mostra-nos, entretanto, que
as portas no estavam fechadas para os mais hbeis dos cativos. A princpio,
eles estavam submissos ao arbtrio do mestre, mas, na prtica, recorrendo aos
bons ofcios de personalidades em evidncia, eles podiam interferir em decises
superiores73. Mesmo no sistema moaga, to rgido, onde cada um nascia e morria
mantendo a mesma condio, sem mudanas ou interrupes possveis74, um
eunuco, o kamsaogo-naaba, era investido de pesadas responsabilidades.  verdade
que outros eunucos destinados ao mesmo encargo eram vendidos para o Fezzn,
para a frica de Norte e para o Oriente Prximo75.


      O isl e as religies tradicionais africanas
   Era um lugar comum muito difundido antes e aps a conquista colonial76
dizer que os bambara e os mossi tinham elevado barreiras considerveis contra

72    A. Raffenel, 1846, vol. I, p. 371.
73    C. Monteil, 1924, p. 301.
74    O rei no podia destituir ou degradar um nobre. O chefe que ele quisesse suprimir recebia dele uma
      flecha envenenada com a qual ele deveria se suicidar, ou, do contrrio, havia guerra.
75    Y. Tiendrebeogo, 1964.
76    C. Monteil, 1924, p. 23 e seg.
Do Nger ao Volta                                                             431



o isl na frica Ocidental. Trata-se de uma afirmao simplista que deve ser
revista. Com efeito, o isl, atuante desde o sculo VIII pelo menos, acentuou
sua influncia nos grandes imprios desde o de Gana at o de Gao. Mas houve,
nesses contextos, obstculos e resistncias. Ainda no sculo XVIII, os fulbe
jelgoobe e feroobe, que tinham deixado o Macina rumo ao Nordeste do Volta,
eram frequentemente adeptos de religies tradicionais77.
    Mas justamente, durante um milnio, do sculo VIII ao XIX, o isl no
deixou de se difundir nessa regio de diversas e numerosas maneiras: pelo vis
dos comerciantes, de pregadores, pela violncia se necessrio, sempre sabendo
contornar os obstculos e se adaptar aos contextos especficos apresentados pela
multiplicidade de povos, particularmente no caso daqueles que pareciam ser
um pouco refratrios. Na realidade, os povos do interior do Oeste africano no
lanavam sobre o isl e, mais tarde, sobre o cristianismo, o mesmo olhar que os
adeptos dessas religies quando julgavam as religies tradicionais do continente.
 por meio de um esprito sincrtico que os bambara abordaram, de incio, o isl
cuja presena os incitava a honrar o deus supremo, Maa Ngala, o soberano acima
dos espritos, honrado por cultos particulares. Tendo assim assimilado o isl, os
reis de Sgou e de Kaarta viram que nada os impedia de consultar os ministros
deste grande deus, os marabutos, permanecendo fiis a seus prprios cultos dos
quais eram quase sistematicamente os sacerdotes, bem como ao mago. Este era
instado a invocar a Energia universal e invisvel provocando assim uma espcie
de materializao de seu desejo. O mago "nomeava" e, portanto, criava o que ele
chamava por meio de seus votos78.
    Ainda que praticassem tais ritos, os Koulibali, inclusive os chefes mais emi-
nentes, participavam das festas religiosas muulmanas, ao menos por meio de sua
presena e oferecendo ricos presentes aos marabutos sarakol. A festa da tabaski
(sacrifcio) coincidia, por sinal, segundo Raffenel, com os estados gerais do cl
dos massassi que implicavam ritos ocultos  como os de Komo e de Makon-
goba  e juramentos de fidelidade. Ora, esses mesmos bambara reproduziam de
qualquer modo os gestos daqueles que oficiavam os ritos no decurso da prece
muulmana e alguns chegavam a sacrificar um carneiro. Tais sincretismos que,
simultaneamente, desenvolviam-se com o cristianismo no culto afro-americano
no Brasil, no Haiti e em Cuba, so uma das caractersticas do esprito religioso
negro-africano.  assim que, se o clamor aos espritos no havia fornecido uma
resposta clara e satisfatria, a interveno do marabuto era ento solicitada

77   I. P. Diallo, 1981.
78   UNESCO, Histria geral da frica, vol. I, captulo 8.
432                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



e acolhida piedosamente, tanto por Mamari Koulibali quanto por Tonmasa,
Ngolo e outros Koulibali. Biton pagava a zakat aos marabutos de Djenn e
mantinha um grupo de 40 adivinhos, dentre os quais os kamite, que, ainda que
fossem muulmanos, eram tambm sacerdotes de um faro (literalmente, esprito
do rio Nger, culto religioso). Denkoro, o sanguinrio, no momento em que foi
capturado e assassinado por Tonmasa, disps-se a fazer suas ablues, acompa-
nhado por seu fiel ferreiro portador de uma satala (chaleira).
    Os ferreiros-magos no encontraram dificuldades em adotar a adivinha-
o geomntica importada pelos muulmanos79. Certamente, o sucessor de `Ali
Bakary, convertido ao isl em Tombuctu e tendo aprendido o rabe com um
shaykh da famlia dos bekkai, foi rapidamente assassinado com todos os mem-
bros de sua famlia, e atribui-se tal ato ao fato de que ele pretendia proibir o
consumo de dolo (cerveja de milho mido) e o culto dos gnios ou dos ances-
trais. De fato, nada  menos seguro, uma vez que o ambicioso Tonmasa, que
comandou todos esses massacres, devia em breve eliminar tambm Dion Kolo,
o ltimo filho de Mamari.
    O que  certo  que o isl apresentava-se aos bambara com instituies que
no negavam necessariamente as suas, como, por exemplo, a poligamia, o divr-
cio, o repdio  escravido. Alm disso, os prprios marabutos no faziam nada
que pudesse afastar os nefitos bambara. Foi assim que em Dia80, sem dvida
uma das metrpoles mais antigas do isl no Sudo Ocidental, o ensino se aco-
modava largamente aos costumes autctones e dava grande espao  magia81.
Os marabutos mais numerosos no meio bambara eram os marka, os bozo e os
somono, que se proclamavam grandes mestres do isl mouro ou fulbe e, para
eles, provinham de uma ou outra confraria. Com efeito, certas etnias como os
soninke, os marka, os fulbe e torodbe, convertidas ao isl de longa data e tendo
o benefcio da tolerncia religiosa, serviam de permanente fermento e modelo.
O mesmo vale para os pescadores bozo e somono que a tradio mescla aos
primeiros passos do cl dos koulibali de Sgou.
    Resumindo, esta abertura recproca beneficiava largamente as duas partes
envolvidas: ela associava os dirigentes muulmanos ao poder, tomava vias end-
genas para conduzir esses povos rumo  f islmica, mas tambm contribua para


79    Um dos termos para designar o adivinho turndala (adivinho por meio da areia)  derivado do rabe
      al-tareb (a terra), ao passo que os outros so especificamente sudaneses  buguridala e kyekyedala, de
      buguri (poeira) e kyekye (areia).
80    Dia  situada na margem esquerda do Nger, em Macina.
81    P. Marty, 1920-1921, vol. IV.
Do Nger ao Volta                                                             433



reforar o poder dos monarcas que, face  heterogeneidade tnica e social de seus
Estados, no podiam se dar ao luxo de dissenses religiosas. Ou seja, "o pago
aproveitando-se do isl seguindo seus prprios conceitos, d-lhe um carter
sudans, de tal forma que entre esses dois polos, islamismo e paganismo, existe
uma infinidade de estados intermedirios que os ligam um ao outro e que, de
acordo com o ngulo pelo qual so observados, parece ser tanto uma islamizao
do sudans quanto uma sudanizao do isl"82.
    Assim eram as coisas no Arco do Nger antes das jihad, to diferentes por
sinal, de Sekou Ahmadu Barry e de al-Hdjdj `Umar. No pas mossi,  provavel-
mente na poca do reinado de Naaba Kom, filho de Naaba Zombre (por volta de
1744-1784) que se inicia a influncia muulmana na corte de Ouagadougou.
    O isl do Volta no nasceu sobretudo por meio de uma penetrao pelo
Norte, ao contrrio do que a expanso histrica do isl atravs do Saara pode-
ria fazer crer. Ao contrrio, o Yatenga, at o perodo colonial, permaneceu um
pas praticamente fechado para o isl, a despeito ou por causa da presena, em
seu territrio, de duas importantes minorias muulmanas: os fulbe e os comer-
ciantes yarse. Pesquisas mostraram que o isl se disseminou na bacia dos Volta
em funo dos comerciantes e dos guerreiros jula, segundo um eixo Norte-Sul
a Oeste da zona do Volta, ao longo do vale do Volta negro, e que a cidade de
Bobo-Dioulasso foi uma das principais plataformas do proselitismo muulmano.
Outrossim, o dafing (cl) marka dos sanogho foi um dos vetores mais ativos do
isl por intermdio de seus letrados e marabutos.
    Os fundadores do Gonja eram mande muulmanos. De Gonja, o isl passou
para o pas Dagomba. Levtzion situa a penetrao do isl junto aos dagomba em
meados do sculo XVII, no momento em que, por razes de segurana, a capital
de seu reino foi transferida de Yendi Dabari para a atual localizao de Yendi,
mais a leste83. Nessas regies, os centros comerciais tornaram-se rapidamente
centros religiosos marcados pela presena de malam (sbios muulmanos). Foi
por trs das caravanas da noz-de-cola que os propagandistas da f penetraram
na bacia do Volta branco. O primeiro soberano dagomba convertido foi Na Zan-
gina, que reinou no incio do sculo XVIII.  possvel que a converso do rei dos
dagomba tenha facilitado o estabelecimento de uma paz durvel com o Gonja.
    O isl penetrou no pas mamprusi paulatinamente na mesma poca. Gam-
baga, a principal praa econmica tornou-se rapidamente um centro muul-
mano, foi assim que o isl introduziu-se pelo sul, no fim do sculo XVIII, no

82   C. Monteil, 1924, p. 332.
83   N. Levtzion, 1968, p. 194-203.
434                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Mogho, sob o reinado do mogho-naaba Zombre. O soberano de Ouagadougou
tinha uma me muulmana; o isl era-lhe, portanto, familiar. Ele, entretanto,
no se converteu, mas adotou o hbito de fazer as preces cotidianas e se mostrou
favorvel aos muulmanos, proselitistas includos. Foi sob o reinado de Naaba
Dulugu (por volta de 1796-1825) que o passo decisivo foi dado. O Mogho-
-Naaba converteu-se oficialmente, mandou construir a primeira mesquita de
Ouagadougou e fez do imame desta cidade um dos primeiros dignatrios da
corte. Este primeiro isl moaga, como o que se via nos reinos mamprusi e
dagomba, era um isl aristocrtico cuja prtica no significava, para o Mogho-
-Naaba assim como para todos os outros chefes e dignatrios, excluir a religio
tradicional. Eles estavam longe de tentar impor a nova religio a seus sditos.
Foi assim que, muulmano convicto, Naaba Dulugu parece ter temido que o
isl fizesse progressos rpidos demais em seu reino. Ele afastou seu filho mais
velho, o futuro Naaba Sawadogo, e destituiu o chefe de Kombisiri, tanto um
quanto outro muulmanos muito fervorosos, talvez demasiado inclinados a fazer
proselitismo ao redor deles. V-se ento que no reino bambara assim como no
seio do Mogho, ainda que houvesse uma abertura real face ao isl, a religio
tradicional permaneceu presente malgrado tudo e buscava, esperando, frmulas
de compromisso. Para os dois outros polos polticos dessa poca, o imprio de
Kong e do Gwiriko, de um lado, e os reinos gulmance, do outro, a atitude geral
era claramente diferente. Em Kong, assim como junto aos bobo-jula, a religio
islmica era ao mesmo tempo uma razo e um meio de vida, de tal forma que
sua poltica imbuda de f militante preludiava as jihad e as conquistas do sculo
XIX, por Samori em particular. Por outro lado, os gulmanceba eram adeptos
resolutos da religio tradicional.


      Concluso
   Para os pases do Arco do Nger e da alta bacia dos Volta, o perodo do sculo
XVI ao XVIII  incontestavelmente uma fase de estruturao do Estado.
   Os Estados jula, mossi, gulmanceba e bambara foram todos, conforme uma
antiga tradio na regio, conjuntos pluritnicos. Mesmo se a etnia dominante
se outorgava certos privilgios, ela prpria era a resultante e o motor de uma
mistura intertnica. No se tratava, portanto, de Estados tnicos. Os aparelhos
polticos s vezes muito sofisticados aqui edificados eram no obstante vulne-
rveis, principalmente devido  ausncia quase geral de textos escritos que os
regessem.
Do Nger ao Volta                                                              435



    Alm disso, contradies internas minavam os Estados em questo. Em pri-
meiro lugar, a devoluo do poder frequentemente suscitou graves problemas.
Quando Naaba Kumdumye de Ouagadougou colocava os candidatos descon-
tentes na chefia de uma tribo para acalm-los e coloc-los  parte, mas tambm
para disseminar no espao o poder dinstico, ele no previa que seu sucessor,
Naaba Warga, teria de guerrear contra os descendentes desses chefes. Do mesmo
modo, os "companheiros" de Biton Koulibali instalados por ele tornavam-se,
s vezes, governadores incontrolveis. Essa dificuldade poltica desdobrava-se
em um problema social, pois os prncipes no integrados ao sistema do poder
voltavam-se sobre os camponeses que, deste modo, viam-se superexplorados
sem piedade.
    Essas primeiras contradies mascaravam uma outra to temvel quanto: a
que opunha aqueles que eram prximos do rei, que eram homens comuns, aos
parentes do rei, controlados por uma srie de medidas dentre as quais a mais
caracterstica foi a poltica conduzida por Naaba Kango de Wayguyo. Em meio
aos bambara, a rapidez da passagem para o Estado permitiu que se colocasse em
evidncia o confronto entre as trs instncias que se opunham, o cl, a associao
poltica (ton) e o Estado territorial, conflitos que se atenuaram somente sob a
regncia de soberanos de estatura excepcional.
    Por fim,  preciso no minimizar a questo religiosa. Evidentemente, at o
fim do sculo XVIII, os Estados mossi e bambara tiveram sucesso em manter
com os grupos muulmanos (soninke, jula, yarse) um modus vivendi, uma espcie
de compromisso fundado na tolerncia, no sincretismo, uma troca de servios
que consagrava a colaborao entre as classes dirigentes. Com efeito, como
mostra sobretudo o caso dos yarse, os muulmanos, nessa regio, eram fre-
quentemente comerciantes indispensveis ao Estado. Mas  preciso notar uma
diferena entre os Estados mossi e bambara, de um lado, e o imprio de Kong
e os reinos gulmanceba, de outro. Em Kong, em Bobo e em Kenedougou, era o
modelo do isl militante que se exprimia, ao passo que junto ao yarse do Mogho
e os soninke de Sgou e do Kaarta, havia uma postura de se abster de fazer
poltica e at, no incio para os yarse, de evitar o proselitismo, tendo a religio
tradicional um estatuto oficial. Mas no se trataria de um simples descompasso,
devido ao fato de a relao de foras estar ainda longe do limiar da ruptura? O
caso limite , aqui, o dos gulmanceba que passaram brutalmente de um poder
inspirado pela religio tradicional  submisso aos fulbe muulmanos, aps a
jihad do Liptako, desde o incio do sculo XIX.
    De qualquer forma, a formao do Estado nesta regio inscrevia-se em um
quadro econmico global que ameaava por fim essas experincias polticas.
436                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Com efeito, todos esses pases estavam situados entre o limite Sul do Saara e a
costa atlntica controlada cada vez mais pelos europeus cuja poltica comercial
reelaborava para sua prpria vantagem os circuitos comerciais, a estrutura e os
termos de troca: a oferta e a demanda foram, ento, progressivamente abaladas.
No circuito econmico que cada dirigente tentava controlar em sua regio, o
peso relativo das mercadorias ligadas  conquista e  conservao do poder
(cavalos, armas, cativos) no parava de aumentar. Disso decorreu a sobra da
escravido que se projetava por trs desses processos aos quais os povos de poder
poltico descentralizado estavam longe de assistir passivamente.
    Certamente, com relao aos dirigentes africanos da costa confrontados dire-
tamente aos europeus e que no tinham outra escolha alm da submisso ou da
guerra, os pases do interior se beneficiavam de um sursis e pareciam conduzir
livremente seu destino. Mas este destino j estava escrito em um processo que
dependia cada vez mais do exterior. Eis porque as hegemonias dessa regio no
dispuseram frequentemente do tempo necessrio para estabelecer um Estado
de direito criando a estabilidade e a ordem das quais nos falam os cronistas com
relao aos imprios precedentes. No obstante, o fato primordial aqui  que,
em circunstncias difceis, foi colocada  prova a capacidade das pessoas em
construir o Estado a partir de recursos especificamente africanos.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                                437



                                       CAPTULO 13


                   Os Estados e as culturas da
                      costa da Alta Guin
                                                  C. Wondji




    Introduo
    De Casamansa  Costa do Marfim estende-se uma vasta regio de costei-
ras e florestas, habitada por povos to numerosos quanto diversos. Tal regio
ultrapassa largamente o quadro que, na tradio historiogrfica, chamamos de
Alta Guin1. O objetivo do presente captulo consiste em definir o sentido da
evoluo da regio supracitada, entre 1500 e 1800.

    As sociedades
   Em relao s grandes massas tnicas do Sudo onde predominam as socie-
dades organizadas em Estados, a regio aqui examinada caracteriza-se pelas
mltiplas e pequenas unidades socioculturais fundamentalmente organizadas
na base das linhagens, dos cls e dos povoados. De fato, a populao dos pases
guineenses impressiona, primeiramente, pelo desmembramento em numerosas


1    A zona costeira oeste-atlntica (Guin) foi dividida em Guin Superior ou Alta Guin (Upper Guinea),
     indo do Senegal ao Cabo de Palmas, e Guin Inferior ou Baixa Guin (Lower Guinea), indo do Cabo de
     Palmas ao delta do Nger, na baa do Biafra. No sentido empregado por W. Rodney, a expresso "Upper
     Guinea Coast" designa a costa compreendida entre a Gmbia e o Cabo Mount. Portanto, a Costa do
     Marfim no faz parte da Alta Guin como delimita a tradio historiogrfica, ainda que, de um ponto
     de vista estritamente antropolgico, o Oeste do pas pertena a essa regio.
438                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



etnias. De Casamansa a Tano, mais de uma centena de etnias e de subgrupos
tnicos ocupam o espao compreendido, de um lado, entre a savana ao Norte e
o litoral ao Sul e, de outro, entre os macios montanhosos do Futa Djalon, da
Dorsal guineense, e a costa situada ao Oeste e ao Sudeste.
    Esta multiplicidade de grupos humanos explica as numerosas diferenas
lingusticas que afetam a paisagem cultural onde cada etnia, falante de uma ln-
gua distinta daquela de suas vizinhas, tem conscincia de sua originalidade. s
vezes, as variantes dialetais multiplicam-se numa mesma lngua, limitando, de
forma estranha, a intercompreenso lingustica no interior de uma mesma etnia.
Assim, cada etnia torna-se o centro de notveis diversidades: os joola (diola)
diferenciam-se dos floup (felupe), baiote, blis-kaniara, kassa e foonin; os we da
Costa do Marfim, situados ao Norte (facobli) e ao centro (dukou), compre-
endem muito mal seus parentes nidrou do Sul (toulepleu); os baga dividem-se
em baga-sitmou, baga-for e baga-kakissa2.
    No obstante a diversidade das etnias e das lnguas, existem entidades lin-
gusticas mais vastas devido ao cruzamento constante dos fluxos migratrios.
De fato, trs grandes famlias de lnguas, subdivididas em grupos e subgrupos,
partilham entre si o espao compreendido entre Casamansa e Tano. Na famlia
das lnguas mande, o subgrupo mande-Sul  preponderante; aqui o mande-
-Norte apenas aparece sob a forma do mandingo falado na Gmbia, Casamansa,
Guin-Bissau, Serra Leoa e na Libria. Ao Sul das lnguas mande e ao longo
do litoral, de Casamansa  Libria, as lnguas ditas oeste-atlnticas tambm se
dividem em grupos Norte e Sul . Menos homogneas do que as precedentes,
elas oferecem uma variedade interna refletindo a complexidade tnica anterior-
mente descrita. Por fim, ao Leste e a Sudeste, as lnguas ditas kwa englobam os
falantes kru-bt e akan, apresentando a mesma heterogeneidade das lnguas
oeste-atlnticas3.

      As dificuldades de uma sntese histrica
   Traar a evoluo dos pases da costa Oeste africana, de Casamansa  Costa
do Marfim, entre os sculos XV e XIX,  uma das mais difceis e ingratas
tarefas dos historiadores da frica. No se trata apenas de povos e de socie-
dades que, em sua maioria, vm sendo recentemente integrados a Estados
cuja histria nacional encontra-se em vias de reconstituio, mas tambm de


2     Para os joola, ver C. Roche, 1976, p. 28-46; para os we e os baga, ver D. T. Niane e C. Wondji, s. d.
3     J. H. Greenberg, 1980.
                                                                                                                                             Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin
                                                                                                                0              200 millhas
                                                                                                                0             300 km




                                                                                                               740 mm

                                                 Rio Gm
                                                          bia                                        er
                          man sa                                                                  g
                R io Casa                                                                   io
                                                                                                 N
                                                                                           R




                                                                                                                         mm
                                                                                                                    00
                                                                                                                15




                                                                                                                               Rio
                                                                                                                                 Vo
                                                                                                                                    lt
              Mande ou Mande do Norte




                                                                                                                                     a
              Voltaico                                                                                          1 800 mm
              Akan
                                                                                           + 1 80
              Oeste-Atlntico                                                                          0 mm




                                                                                                              Rio
              Mande ou Mande do Sul




                                                                                                               Co
                                                                                                                mo
              Kru




                                                                                                                    
     Precipitaes       ZONAS CLIMTICAS
     + 1 800 mm : clima guineense (floresta densa de tipo equatorial)
      1 800 mm : clima guineense (zona mista de floresta e de savana)
       1 500 mm : clima sudans (savana arborizada)




                                                                                                                                             439
         740 mm : clima saeliano (savana herbosa)


Figura 13.1    Os principais grupos de populao da frica do Oeste (segundo C. Wondji).
440                                                          frica do sculo xvi ao xviii



territrios que, no tendo pertencido s grandes entidades polticas do pas-
sado pr-colonial africano, apresentam ao historiador uma srie de delicados
problemas metodolgicos.
    Primeiramente, as dificuldades esto ligadas s fontes desta histria. Aps
o sculo XV, as fontes escritas europeias, cada vez mais numerosas e precisas, 
medida que o comrcio se intensificou, forneceram materiais para o conheci-
mento da costa atlntica africana. Relacionando-se aos interesses mercantis das
naes da Europa, elas inegavelmente dividiram-se de acordo com os perodos e
as regies: abundantes no que tange a Senegmbia,  Costa dos Rios e ao setor
indo da Costa do Ouro ao delta do Nger, tais fontes foram menos numerosas
em relao  costa que se estende entre a Libria e a Costa do Marfim atuais.
Antes do sculo XV e mesmo no sculo XVI, elas eram praticamente inexisten-
tes em relao a certos setores da costa. Se estas fontes refletem os preconceitos
dos europeus em funo de sua nacionalidade e das ideias de seu tempo, ofe-
recem, entretanto, um bom conhecimento da zona costeira: quadro geogrfico,
atividades econmicas e sistemas de governo dos povos visitados, usos e costu-
mes. Porm, a costa era mais conhecida do que o interior, e, para conhec-lo foi
preciso esperar as misses de penetrao do sculo XIX.
    Insuficientes ou inexistentes, tais fontes escritas precisam ser completadas
ou suplementadas pela arqueologia, pelas tradies orais e por outros tipos de
fontes. Importa dizer que neste domnio, as possibilidades, ainda muito limi-
tadas, sofrem de uma repartio bastante desigual. Se a arqueologia da zona
seca sudano-saheliana est se desenvolvendo, aquela da zona mida guineense
ainda se encontra balbuciante, apesar das escavaes, reveladoras dos traos
de ocupao humana que remontam ao terceiro milnio a. C., realizadas em
Casamansa, Guin Conacri, Serra Leoa e Costa do Marfim. As pesquisas no
mbito da tradio oral tm feito progressos decisivos nos setores mande e
fulbe, mas, em outra parte, ainda no apresentaram resultados plenos, pois que
o conhecimento indispensvel das lnguas ou de seus numerosos dialetos, tal
como a anlise prvia das sociedades e das culturas, supe a aplicao de ml-
tiplos e pacientes inquritos cujos frutos apenas surgiro  custa de grandes
esforos. No mais,  luz de alguns resultados j registrados, parece que a tra-
dio oral raramente remonta para alm do sculo XVII. Por fim, excetuando
os grupos mandefonos, em que a homogeneidade das lnguas mande facilita
sugestivos e fecundos encaixes, neste campo de complexidade e de desconti-
nuidade lingusticas surpreendentes, a lingustica histrica encontra-se ainda
no estgio de promessas.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                 441



   As dificuldades, em seguida, esto ligadas ao desmembramento sociopoltico
caracterstico de tal regio. Por um lado, os historiadores dos Estados oriundos
da diviso colonial ocupam-se, mais frequentemente, dos povos das partes suda-
nesas do que daqueles do litoral, simplesmente evocados quando so tratados os
desenvolvimentos concernentes aos primeiros. Por outro lado, nenhum estudo
histrico do conjunto de tais povos, costeiros e florestais,  possvel no momento
atual sem o exato conhecimento da histria de cada um deles. Deste modo, os
soso da Guin, grupo mande, so mais conhecidos do que seus compatriotas
bagas, assim como os agni, do Sudeste da Costa do Marfim, grupo akan, so mais
compreensveis do que seus concidados das lagunas e kru, situados ao Oeste.
   As aluses feitas pelos viajantes europeus da poca mercantilista, as observa-
es dos etnlogos atuais e os estudos dos historiadores permitir-nos-o superar
as dificuldades do desmembramento a fim de talharmos uma sntese histrica
cronologicamente estruturada? Tropeamos aqui no problema da linha geral da
evoluo ou do ponto de partida das dinmicas histricas, cujas chaves no nos
poderiam ser fornecidas pelas narrativas de uma tradio oral to esfacelada
quanto heterclita.
   Aderir  realidade histrica vivida pelos prprios povos, restaurar o tempo da
frica Ocidental em sua parte mais dinmica (o Sudo), porm, nunca perder
de vista o trem da histria do mundo, tais so as consideraes que guiaro a
organizao de nosso estudo. De qualquer maneira, entre os impulsos histricos
do Sudo e aqueles do comrcio europeu, a costa Oeste africana desempenha
um papel primordial de articulao e, de acordo com os sculos, esta ou aquela
de suas partes se anima, se reanima e se estabiliza.


    Os movimentos de populao
    As iniciativas mande
    Na regio compreendida entre a Gmbia e os rios da Guin e de Serra Leoa,
torna-se necessrio remontar ao sculo XII para constatar os traos de um pri-
meiro avano dos mande (malink) em direo ao oceano Atlntico. Recolhidas
na Gmbia, em Casamansa e na Guin-Bissau, as tradies orais referem-se a
uma colonizao agrcola malink entre o fim do sculo XII e o comeo do XIII.
Destacam-se povoados de camponeses entre os autctones bainuk, balante e
outros. No interior de tais esparsos grupos dominam os cls fati (muulmanos)
e sane, adeptos da religio dos ancestrais, ncleos originais das famlias reinantes
do futuro imprio do Kaabu (Gabu).
442                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    A esta pacfica migrao camponesa sucedeu a migrao conquistadora dos
soldados de Tiramaghan Traore, um dos generais emritos de Sundiata. A con-
quista dos territrios atlnticos dos joola, balante e bainuk, facilitada pela cum-
plicidade dos primeiros colonos, permitiu ao Mali a posse de uma larga abertura
no mar, no fim do sculo XV, e o domnio dos territrios compreendidos entre a
Gmbia e Serra Leoa4. Se analisarmos mais adiante as tradies que se reportam
a tal expanso para o Oeste, percebemos que talvez ela tenha sido a consequncia
de certas caractersticas sociais e econmicas da sociedade mande. Em razo da
existncia da regra da sucesso colateral  os irmos sucedendo-se uns aos outros
at a morte do ltimo irmo da gerao mais antiga , era difcil para os filhos
de dirigentes sucederem ao seu pai. Muitos dentre eles, aps terem reunido os
membros de sua famlia que desejavam acompanh-los como guerreiros e escravos,
partiram em direo ao Oeste para l fundarem seus prprios Estados. Grande
parte destes grupos migrantes era tambm animada pelo desejo de participar das
trocas comerciais, cada vez mais numerosas na regio da fronteira ocidental, e de
ter parte na riqueza que estava aumentando. No saberamos, portanto, ver tais
movimentos unicamente como conquistas militares, apenas colocando os guer-
reiros em causa: outros membros da sociedade mande, tais como comerciantes,
caadores, arrendatrios desejosos em tirar proveito do comrcio com o Ocidente
ou em encontrar regies onde pudessem se fixar, da mesma forma que artesos e
escravos, participaram ativamente da expanso rumo ao Oeste. Os movimentos
migratrios so igualmente percebidos pelas mltiplas trocas entre os diversos
grupos tnicos e lingusticos, os quais conferiram espao s novas misturas.

      As populaes do litoral e do interior em 1500
   A histria do povoamento do litoral e da floresta antes das navegaes euro-
peias dos sculos XV e XVI asseguradamente  uma das partes mais desconhe-
cidas da histria Oeste africana. Sem dvida, algumas fontes escritas, relativas
aos imprios sudaneses e ao comrcio do ouro, podem esclarecer-nos sobre os
povos da Senegmbia, dos Rios do Sul e da Costa do Ouro, ou seja, sobre os
setores Noroeste e Sudeste dessa regio. Entre esses dois setores, perdemo-nos
em conjeturas face s rpidas anotaes dos viajantes portugueses e s tradies
orais, por vezes desorientadoras em relao a certos povos do interior que afir-
mam "terem sempre estado ali".



4     S. M. Cissoko, 1972, p. 1-3; B. K. Sidib, 1972, p. 5-13; W. F. Galloway, 1974.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                             443



    Nos Rios do Sul, entre a Gmbia e o Cabo Mount
    Na Senegmbia Meridional: Casamansa e GuinBissau
   A maioria dos povos que viviam neste setor j estava no lugar quando da
chegada dos portugueses, como o atesta A. C da Mosto e V. Fernandes5. Trs
principais grupos ocupavam os esturios e os vales baixos dos rios: os bainuk
ou banyun, povo de origem mande vindo do Leste no sculo XIV; os joola, sem
dvida, vindos do Sul (Rio Cachu) antes do sculo XV; os balante, originrios
do Leste e que se impuseram aos bainuk antes do sculo XV. A esses grandes
grupos atrelam-se os pequenos povos, seus aparentados entre eles, do litoral e da
hinterlndia imediata: kassanga, papel, biafada, bijago. Atrs de tais grupos lito-
rneos, nas bacias mdias e superiores dos rios situados entre a Gmbia e o Rio
Grande, encontravam-se os mande que, vindos do Leste a partir do sculo XII e
XIII, impeliram os outros povos para o Oeste, em direo ao mar. Aps a vinda
de tais mande, no sculo XV, chegavam os fulbe, originrios do Macina6.

    Na Guin Conacri e em Serra Leoa
    C. Fyfe e W. Rodney estudaram o povoamento desta regio. As descobertas
arqueolgicas de Yengema no pas Kono (Serra Leoa), confirmadas pelas pesqui-
sas lingusticas, permitiu C. Fyfe afirmar, contrariamente a uma opinio muito
difundida, que a Windward Coast era povoada desde tempos remotos, ou seja,
desde o terceiro milnio antes da era crist. Os habitantes mais antigos teriam
sido os limba de Serra Leoa, falantes de uma lngua diferente das outras da vizi-
nhana; eles ocupavam os Scarcies. Em seguida, chegaram os timne e os baga,
cujas lnguas aparentavam-se. Vindos do Norte, os timne passaram do Senegal
ao Futa Djalon; depois dessa montanha eles ganharam a plancie costeira. Por
ltimo, houve o percurso dos kissi e dos bulom, dois grupos aparentados que
novamente subiram o vale do Nger at a fonte. Outrora unidos, os kissi e os
bulom separaram-se: os primeiros ficaram no interior, ao passo que os segundos
continuaram at o mar7.
    No fim do sculo XII, movimentos consecutivos  queda de Gana e do Soso
levaram os soso ao Futa Djalon, onde j se encontravam os jalonke, baga, nalu,
landuman, tyapi. Seguiu-se uma mistura de povos tendendo a alguns movimen-


5    Ver por exemplo: A. da C da Mosto, 1937; V. Fernandes, 1951.
6    C. Roche, 1976, p. 21-66; W. Rodney, 1970b, p. 6-8; J. Richard-Molard, 1949, p. 108.
7    C. Fyfe, 1964, p. 149-165.
444                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



tos migratrios rumo ao Oeste. Fraes desses povos foram para a costa e suas
imediaes: os nalu instalaram-se na rea compreendida entre o Rio Tomboli e o
Rio Nunez; os baga, entre o Rio Nunez e o Rio Componi; os landuma-tyapi, na
hinterlndia imediata dos nalu e dos baga. Enfim, os timne ficaram no interior
at o incio do sculo XVI, apenas atingindo o mar no final desse mesmo sculo.
Quanto aos bassari e os koniagui do grupo tenda, vindos da Mdia Gmbia at
o Futa Djalon, ficaram l at a chegada dos fulbe, no sculo XV8.
    No fim deste sculo, a presso dos fulbe sobre os soso-jalonke-baga e os
timne desencadeou, mais uma vez, movimentos migratrios que permitiram aos
baga se estender pela costa, do Norte ao Sul , entrando, assim, em contato com
os bulom. Atrs dos baga e dos nalu, algumas fraes soso-jalonke j buscavam
alcanar o mar. A maior parte dos povos mais antigos pertenciam ao grupo
chamado oeste-atlntico.

      Do Cabo Mount ao Bandama  a Libria e a Costa do Marfim
      Ocidental
    Esta regio  de domnio dos kru, povos de lngua kwa. Tal subsetor costeiro
 aquele do comrcio da malagueta ou "gro do paraso". O interior  dominado
pela grande floresta e pelas alturas orientais da Dorsal guineense, da sua aber-
tura assaz fraca sobre o mundo das savanas sudanesas.
    Os navegadores europeus do fim do sculo XV encontraram povos nesta costa,
do Cabo Mesurado at o Cabo Lehou. As descries de D. Pacheco Pereira e de E.
de la Fosse fazem aluses aos kru, aos bassa e aos grebo9. Pode-se concluir que um
antigo povoamento kru j existia nesta costa no sculo XV? Apoiando-se sobre o
sickle-cell trait ou "taxa de siclemia10", C. Fyfe constata que ela  muito insignificante
entre os kru e admite que por muito tempo eles conseguiram viver isolados sem
se misturarem aos outros povos. Y. Person infere uma velha implantao dos kru
no litoral florestal11. Portanto,  preciso supor que o movimento destes povos, do
interior at a costa, comeou antes das navegaes europeias, ou seja, antes do sculo
XV, pois certos autores assinalam a presena de grupos kru nas montanhas altas do


8     W. Rodney, 1970b, p. 1-15.
9     D. Pacheco Pereira, 1937, p. 99-115; E. de la Fosse, 1897, p. 180-190.
10    Para os especialistas em medicina tropical, a taxa de siclemia indica a presena de hemoglobina S, gene da
      drepanocytose, que seria o resultado de uma mutao provocada pela presena da malria. Sua ausncia
      entre os kru da floresta da frica Ocidental mostra que eles ocuparam a floresta em uma poca muito
      antiga, quando ela estava isenta da malria. Ver A. Schwartz, 1993.
11    C. Fyfe, 1964, p. 152-153; Y. Person, 1970.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                      445



Nordeste da Libria12. A arqueologia e as pesquisas no campo da tradio oral mos-
tram tambm a antiguidade do povoamento desta regio. Ao Oeste do Bandama
encontramos ferramentas pr-histricas nos vales aluviais da bacia do Sassandra
e das cavernas muito antigas do interflvio Bandama-Sassandra, testemunho de
uma ocupao humana que remonta ao mesoltico. Um historiador da tradio oral,
o costa-marfinense A. L. T. Gauze, revelou a existncia de um antigo povo vindo
do Norte, os magwe, os quais seguiram o rio Bandama at a sua desembocadura.
Tal povo, ancestral dos bete-dida, propagou-se pela floresta ocidental, entre os rios
Sassandra e Bandama, durante o primeiro milnio da era crist13.
    Enfim,  preciso supor que as savanas pr-florestais, ao Norte da floresta da
Costa do Marfim, da Libria e da Guin Conacri atuais, estavam ocupadas na
mesma poca pelos grupos mande do Sul : guerze, mano, toma, d, guro, tura e
gagou. Estes, no sculo XV, sem dvida comearam a se aprofundar na floresta
meridional, sobre a presso dos mande do Norte (mandingo) vindos do alto
Nger. A dinmica de tal impulso Norte-Sul deve ter conduzido numerosos
ilhus kru  franja martima da floresta.

     Os movimentos de populao de Serra Leoa  Costa do Marfim
    Novamente, no sculo XVI, povos vindos do interior juntaram-se queles
encontrados pelos portugueses na segunda metade do sculo XV. Tratava-se
basicamente dos mande, impelidos a deslocarem-se em direo ao Sul , pelas
rotas que os conduziram  floresta e ao litoral, em razo das dificuldades polticas
e econmicas do Mali no sculo XVI. Tal expanso para a zona pr-florestal foi
feita pelos guerreiros, mas tambm pelos mercadores:
        "sitiados em direo ao Norte, os guerreiros da savana aprofundaram -se no
     Sul, por meio de galerias florestais to distanciadas que seus cavalos sobreviveram.
     Seguiam a marcha apressada dos mascates em busca de cola, levando, at as franjas
     da grande selva, a lngua e a civilizao mandingo, dos confins de Serra Leoa e das
     fontes do Nger, no Oeste, at as margens do Bandama14."
   O primeiro movimento mande foi aquele dos kono-vai, vindos do alto Nger
na virada dos sculos XV e XVI, sob a direo do cl mande dos camara. Eles
alcanaram Bopolu, no Noroeste da atual Libria, e ganharam a costa seguindo


12   C. Behrens, 1974, p. 19-38.
13   A. L. Y. Gauze, 1969 e 1982.
14   Y. Person, 1981, p. 624.
446                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



os rios Mano e Moa que correm em Serra Leoa e na Libria. Segundo Holsoe
et al., os vai, desejosos de encontrar sal e de abrir rotas comerciais em direo ao
interior, migraram para o litoral entre 1500 e 1550. No incio do sculo XVII,
eles ocupavam as desembocaduras destes rios, ao passo que seus parentes kono
localizavam-se na hinterlndia imediata15.
    Na metade do sculo XVI, os mane-sumba, um grupo de invasores mande
vindos do alto Nger, chegaram s costas de Serra Leoa e da Libria. A origem
desta migrao ainda  imprecisa, mas Y. Person v nisso um aspecto notvel
do movimento dos mande para o Sul e afirma que os mane seguiram o Nger
at Kouroussa, ganharam o Konyan e depois a Libria. Enfim, em 1545, os
mane atingiram a costa em Cabo Mount, aps terem seguido os rios Mona e
Moa. Do Cabo Mount, seguiram a costa rumo ao Norte, esmagaram os povos
autctones de Serra Leoa e fizeram uma incurso rumo ao Futa Djalon atravs
dos Scarcies. Impelidos pelos soso, aliados dos fulbe, tiveram que retornar para
o litoral, que fora ocupado por eles, da Libria s ilhas de Los, onde se fundiram
aos primeiros habitantes.
    A composio exata dos grupos que animaram esta corrente migratria
no foi ainda esclarecida: quem so os mane? Quem so os sumba? Para J. D.
Fage, os guerreiros mande (os mane) teriam recrutado auxiliares ou sumba
dentre os povos kru e os povos oeste-atlnticos. Porm, Y. Person pensa que
a invaso teria sido dirigida por uma aristocracia malink, que havia engajado
guerreiros mande do Sul , em particular, dos toma; esses ltimos seriam os
sumba. De qualquer modo, esta invaso teve importantssimas consequncias
sociais e culturais para todos os povos desta zona e desta poca  mandes do
Sul , kru e "oeste-atlnticos" , com a destruio do famoso reino dos sape,
seguida da instaurao de uma nova sociedade poltica dirigida pelos mande.
Os povos desta costa foram divididos em quatro reinos, subdivididos, por sua
vez, em chefias ou principados: o reino de Bulom (das ilhas de Los ao Cabo
Tagrin); o reino de Loco (em torno de Port Loko); o reino de Bour (do canal
de Serra Leoa  ilha Sherbo) e o reino de Sherbo. Em seguida, houve a inte-
grao sociocultural de tais povos: tendo utilizado, ao longo de sua conquista,
os bulom e os timne contra os limba, os soso e os fulbe, tal como os povos
kru da Costa da Pimenta, contra os kissi e os bulom, os mane desencadearam
um processo de cruzamento de raas que permitiu a instalao da influn-
cia mande nessa regio; os loco, uma frao dos timne, adotaram a lngua


15    C. Fyfe, 1964, p. 159; S. E. Holsoe, 1967; S. E. Holsoe, W. L. d'Azevedo e Gay, 1974.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin
   0               100             200 milhas                                                                                                                                                                                  m
                                                                                                                                                                                                                       740 m




                                                                                                                                                                                                                                                              V
   0               150            300 km                                                                                                                                                                                        V
                                                                                                                                                                                                                        c. X




                                                                                                                                                                                                                                                            c. X
                                                                                                                                          V                                                                       Pr s
                                                                                                                                     c.X




                                                                                                                                                              I
                                                                                                                                  s




                                                                                                                                                                                                                                                          Pr s
                                                                                                                                                             XV
                                                                                                                                                        c.




                                                                                                                                                                                                                       r
                                                                                                                                                    s




                                                                                                                                                                                                                    ge
                                                                                                                                                                                                                  N
                                                                                                                                                                                                                                                   V
                                                                                                                                                                                                                                                 .X




                                                                                                                                                                                                              o
                                                                                                                                                                                                                                   sc




                                                                                                                                                                                                             Ri
                                                                                                            VI
                                                                                         sc
                                                                                             .X                                                                                                                           Pr

                                                                    II                        io G bi




                                                                                                                  a
                                                                                         R
                                                             . XV                                 m
                                                        sc




                                                                                                                                                                                                                                   Pr sc. XV
                                                               asamansa                                                                                             sc.
                                                                                                                                                                           XV
                                                         R io C




                                                                                                                                                                                                                                                                      . XV
                                                  III
                                                XV




                                                                                                                                                                                                                  s
                                            .
                                        sc




                                                                                                                                                                                                                   c.




                                                                                                                                                                                                                                                                    sc
                                                              s




                                                                                                                                                                                                                      XV




                                                                                                                                                                                                                                                                                         Pr sc. XV
                                                                c.
                                                                                                                                              XV




                                                                                                                                                                                                                        -X




                                                                                                                                                                                                                                                              Pr
                                                                     XV
                                                                                                                                         c.

                                                        s




                                                                                                                                                                                                                          VI
                                                                         III                                                         s




                                                                                                                                                                                         VI
                                                                                                   II        I

                                                         c.
                                                                                                XV




                                                                                                                                                                                     sc. XV-X
                                                          XV
                                                                                           .
                                                                                        sc                                   I
                                                              III
                                                                                                                            VI
                                                                                                                    c  .X
                                                                                    I                            s
                                                                                  VI                                                                                                                                                                                1 500 mm




                                                                                               sc. XVIII
                                                                             .X
                                                                          sc




                                                                                                                 sc. XVI




                                                                                                                                                                     II
                                                                                                                                                                    -XV



                                                                                                                                                                                     I
                                                                                                                                                                                XV
                                                                                                                                                                  XVI




                                                                                                                                                                                                                  I
                                                                                                                                                                                c.




                                                                                                                                                                                                              XV
                 Centro de disperso




                                                                                                                                                                            s




                                                                                                                                                                                                             c.




                                                                                                                                                                                                                                                           sc
                                                                                                                                                              sc.




                                                                                                                                                                                                        s
                 Povo mande e fulbe                                                                                                                                                                                                                                                                          mm
                                                                                                                                                                                                                                                                                                       800




                                                                                                                                                                                      sc.




                                                                                                                                                                                                                                                             . XV
                 Povo oeste-atlntico                                                                                                                                                                                                                                                            1




                                                                                                                                                                                                        II
                                                                                                                                                   s




                                                                                                                                                                                                     II V




                                                                                                                                                                                                                                                                  I
                                                                                                                                                                                                                               + 1 80




                                                                                                                                                                                         XVI
                                                                                                                                                        c.




                                                                                                                                                                                                 . XV c. X
                 Povo mande do Sul                                                                                                                           XV                                                                                  0 mm
                                                                                                                                                               II




                                                                                                                                                                                                     s
                 Povo kru-magwe                                                                                                          s                                                                                                                               s
                                                                                                                                              c.                                                                  sc. XV                                                      c.
                 Povo Voltaico                                                                                                                     XV                                                                                                                               XV




                                                                                                                                                                                                  sc
                                                                                                                                                     II                                                                                                                                  III
                 Ncleo de agrupamento
                 de povoamentos muito antigos
                 Fronteira dos Estados modernos
                                                                                                                                                                                                                                                                  VII




                                                                                                                                                                                                                                                                                    s
                                                                                                                                                                                                     sc. XV                                            sc. X




                                                                                                                                                                                                                                                                                     c.
                                                                                                                                                                                                                                                                                         XV
       Precipitaes     ZONAS CLIMTICAS




                                                                                                                                                                                                                                                                                                 III
       + 1 800 mm : clima guineense (floresta densa de tipo equatorial)                                                                                                                                                                                                   II
        1 800 mm : clima guineense (zona mista de floresta e de savana)                                                                                                                                                                                          . XV
                                                                                                                                                                                                                                                          sc
         1 500 mm : clima sudans (savana arborizada)
           740 mm : clima saeliano (savana herbosa)




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  447
Figura 13.2     Os movimentos migratrios dos povos da frica do Oeste, do sculo XV ao XVIII (segundo C. Wondji).
448                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



mande; os timne preservaram sua cultura oeste-atlntica, porm, tiveram che-
fes mande; os kru conservaram sua lngua kwa e sofreram a influncia poltica
dos mande. Enfim, os mane trouxeram inovaes para o campo militar: armas,
tticas, stios e fortificaes aumentaram o vigor guerreiro dos povos do litoral
pelo aperfeioamento da arte da ofensiva e da defesa. No final do sculo XVI,
os invasores pareciam ter sido naturalizados e, no comeo do sculo XVII ,
no havia mais autnticos mane16.
    No sculo XVI, um grupo de mande do Sul , os malink do cl camara do
alto Nger, estabeleceu-se na Libria e na parte ocidental da Costa de Marfim,
e suscitou no s o avano dos kono e dos vai, rumo s costas de Serra Leoa e
da Libria, mas tambm aquela dos toma, dos guerze e de grupos aparentados
(galla, mano) para as florestas das atuais Repblicas da Guin e da Libria.
Ao mesmo tempo, os diomande, irmos dos camara, rumaram para o Leste,
instalaram-se em Touba (Costa do Marfim) e expulsaram de l os dan-toura
que ocupariam o setor de Man (Costa do Marfim), mais ao Sul . Avanando
ainda mais ao Leste, os malink penetraram no Worodougou (setor de Sgula-
-Mankono, na Costa de Marfim) e provocaram o deslocamento dos guro para
o Sul e Sudeste, at a floresta17.
    Tal avano Norte-Sul e Noroeste-Sudeste dos mande do Sul exerceu uma
presso sobre os kru que penetraram mais profundamente na floresta, em dire-
o  costa. Estudando o povoamento kru na Libria, C. Berhens afirma que,
na metade do sculo XVI, o movimento Norte-Sul j havia terminado, os kru
tinham abandonado o Nordeste liberiano para se instalarem na costa. No setor
costa-marfinense, os movimentos pareceram mais tardios. Notemos, entre os we,
o exemplo dos nidrou de Toulepleu: primeiramente, eles viviam na savana, mas
foram expulsos e entraram na floresta na metade do sculo XVI18. Na mesma
poca, os dida zehiri tiveram que deixar Divo pela desembocadura do Bandama,
no atual pas dos avikam (Grand Lahou)19.

      Os movimentos de populao nos sculos XVII e XVIII
   Em relao quele dos sculos precedentes, o movimento dos povos que
caracteriza os sculos XVII e XVIII afetou toda a zona costeira e subcosteira


16    J. D. Fage, 1969b, p. 37-39; Y. Person, 1964; C. Fyfe, 1964, p. 158-159.
17    Y. Person, 1964, p. 325-328.
18    A. Swartz, 1971.
19    M. Skou-Bamba, 1978, p. 167-168.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                              449



e exprimiu-se em fluxos migratrios em vrias direes: eles no s foram
orientados do Norte para o Sul ou do interior para a costa, mas tambm Sul-
-Norte, Leste-Oeste e Oeste-Leste. O setor indo da Libria a Tano foi o mais
afetado. Segundo Warren L. d'Azevedo, tais movimentos de populao foram,
em grande parte, suscitados pelo desejo de controlar o trfico de escravos que,
por sua vez, provocou conflitos e, portanto, a formao de alianas militares
e comerciais entre as etnias e no interior delas. Esta situao culminou no
estabelecimento de estreitas ligaes culturais entre diversos grupos tnicos
da regio20.

     Da Gmbia  Serra Leoa
     Em Casamansa e na GuinBissau
   Os sculos XVII e XVIII no presenciaram a chegada de novas comuni-
dades nesta regio, porm, com o avano do trfico negreiro, assistiu-se a uma
mistura de povos, particularmente, em razo dos ataques devastadores dos
mande, sustentados pela expanso do Kaabu (Gabu), ento, em seu apogeu.
O gosto pelas mercadorias europeias estimulava as razias de escravos que,
por sua vez, suscitavam a resistncia dos grupos agredidos. Da as guerras
interminveis das quais nenhum povo escapou. No Rio Cachu, no sculo
XVIII, os bainuk, kassanga, papel, joola e os balante engajaram-se em tais
guerras.
   Certos grupos mostraram-se particularmente agressivos, tais como os bijago
e os biafada das ilhas, que atacaram os nalu e os balante, povos de terra firme.
Porm, os mande e seus vassalos kassanga, os mais ativos nas razias de escra-
vos, perseguiram constantemente os bijago, os joola, os balante e os bainuk.
Para escapar da presso escravagista, numerosos povos procuraram refgio nos
inacessveis pntanos da costa, deixando aos mande o domnio dos rios que
conduziam ao interior21.

     Na GuinConacri e em Serra Leoa
   A crescente influncia do comrcio atlntico sobre os habitantes da zona
sudanesa e a expanso do isl, que provocou a revoluo fulbe do Futa Djalon



20   W. L. d'Azevedo, 1959 e 1962.
21   W. Rodney, 1970b, p. 1-15; J. Suret-Canale, ed. de 1976, p. 456-511.
450                                                       frica do sculo xvi ao xviii



no sculo XVIII, foram os fenmenos que constituram o pano de fundo do
movimento dos povos nesta rea, nos sculos XVII e XVIII.
    Os fulbe da guerra santa muulmana desencadearam, no primeiro tero do
sculo XVIII, o movimento dos povos do grupo tyapi para as costas da atual
Repblica da Guin. Trata-se aqui da acentuao de um movimento muito
antigo. De fato, j nos sculos XV e XVI, sob a presso dos mande e dos fulbe,
fraes dos baga, nalu e landuma, provenientes do Futa Djalon, haviam ocupado
a zona litornea e foram encontrados pelos portugueses nas desembocaduras
dos rios Nunez e Pongo. Porm, a revoluo islamo-fulbe, ocorrida entre 1720 e
1730, expulsou-os definitivamente de seu antigo local de residncia. Recusando
a autoridade dos senhores da nova religio, perdendo duras batalhas para os
baga, como aquela de Talansam (1725-1730), os ltimos grupos deixaram o Futa
Djalon para a costa: os landuma abandonaram o Mali pela bacia superiora do
Nunez e os baga vieram de Lab, a fim de ocupar o litoral entre o Rio Pongo
e os Scarciers22.
    Outro grande movimento foi aquele que trouxe  costa, atravs de sucessivas
ondas, os soso-jalonke. Impelidos do Futa Djalon, os soso avanaram lentamente
rumo ao litoral j ocupado pelos nalu e pelos baga. Contudo, o movimento
atingiu sua maior amplitude em 1760, quando, sob a conduo de Soumba
Toumane, os soso invadiram os baga e criaram a chefia de Toumania, na hin-
terlndia imediata do cabo de Kaloum. Eles acolheram seus parentes jalonke,
tambm expulsos da montanha do Futa pelos fulbe, e, no fim do sculo XVIII,
dominaram o litoral entre o Rio Pondo e Serra Leoa23.
    Mas, nem todos os habitantes do Futa Djalon foram expulsos. Os povos do
grupo tenda, situados nos contrafortes Noroeste do pas, resistiram aos fulbe
muulmanos. Da mesma forma ocorreu com os koniagui e os bassari que escapa-
ram  autoridade dos invasores desde o sculo XV, mesmo que alguns dentre eles
tenham participado das incurses de Koly Tenguela no sculo XVI. Entretanto,
operaram-se simbioses: os badiarank resultavam de uma mistura de tenda e de
malink-sarakol, ao passo que os fulbe conseguiram islamizar alguns grupos
que se tornariam os tenda-boeni24.
    Outros agentes motores deste movimento dos povos, na Guin e em Serra
Leoa, foram os mandes do Norte, os quais deram origem s migraes toma,
guerze e mano na Guin florestal, quelas dos mende, em Serra Leoa, e dos

22    Dr Mo, 1919.
23    J. Suret-Canale, ed. de 1976, p. 504-510.
24    A. Delacour, 1912; F. de Coutouly, 1912.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                                        451



quoja, em Serra Leoa e na Libria.  preciso distinguir aqui os movimentos
ligados ao j antigo processo da descida dos malink, em direo ao Sul e ao
mar, daqueles provindos da expanso do isl, dos quais os malink, tal como os
fulbe, foram os agentes.
    No primeiro caso, assinalamos que, no sculo XVII, o movimento dos malink
do Konyan, fez com que os toma (loma), os guerze (kpelle) e os mano (mani)
passassem das savanas pr-florestais, no Norte de Beyla (setores de kerouane
e bissandougou), para a floresta guineo-liberiana, continuando a penetr-la ao
longo desse sculo. Na mesma poca, vindo do Leste, outros mande seguiram
o mesmo itinerrio que os mane, e penetraram Serra Leoa onde se misturavam
aos kissi, aos bulom, aos loko, e aos timne, gerando assim, no fim do sculo
XVII e no incio do XVIII, o povo mende25. Este, por muito tempo, ficaria no
interior das terras, s atingindo o mar no sculo XIX. No terceiro decnio do
sculo XVII, outros mande, vindos do interior e misturados aos kru liberianos,
engendrariam a hegemonia dos quoja e dos karou que dominaram o litoral desde
o Cabo Verga at o Cabo Mesurado26.
    No segundo caso, os mande agiram como propagadores da religio. Domi-
nando o comrcio e o isl, criaram escolas cornicas (notadamente entre os
bena-soso e os kouranko) e viveram em grupos, at o sculo XVIII, reunindo
exclusivamente letrados e comerciantes no interior da populao agrcola
costeira. Porm, com o advento da revoluo muulmana no Futa Djalon,
associaram-se aos fulbe para converter ou sujeitar os soso, os baga, os bulom
e os timne. Tambm ocuparam a Mellacore, no sculo XVIII, organiza-
ram chefias mande muulmanas e estiveram presentes em toda a costa da
ilha de Matacong at o rio Saint Paul. Entretanto, no fim do sculo XVIII,
houve resistncia  islamizao entre os soso e os povos "oeste-atlnticos",
quando, atravs da aliana religiosa pullo-mandingo, o almamy do Futa Dja-
lon esforou-se em impor sua autoridade a toda regio. Os baga, os bulom,
e os timne recusaram-se a reconhecer tal autoridade, assim como o reino de
Falaba, a Nordeste de Port Loko, dirigido por um grupo soso ferozmente
oposto ao isl. Todavia, a sociedade dos rios da Guin e de Serra Leoa no



25   K. Little, 1951; A. P. Kup (1961b) sugere que os mende so os descendentes dos guerreiros sumba e
     mane, os quais chegaram  hinterlndia da Serra Leoa no sculo XVI, pouco tempo depois da migrao
     dos vai.
26   A propsito dos toma, guerze e manon, ver J. Suret-Canale, 1970, p. 169 e seg., e S. S. Bouet e L. Y.
     Bouet, 1911. A propsito dos mende, quoja e karou, ver C. Fyfe, 1965, p. 159 e O. Dapper, ed. de 1686,
     p. 256-274.
452                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



escaparia  influncia do Futa Djalon nem quela, mais poltica e cultural, dos
comerciantes-marabutos mande27.

      Da Libria ao Bandama
    As migraes que contriburam com a implantao dos povos deste setor, nos
sculos XVII e XVIII, em primeiro lugar,  o prosseguimento dos movimentos
Norte-Sul, ou seja, da savana para a floresta e para o litoral, iniciados nos scu-
los XV e XVI. Em seguida, elas so explicadas pelas perturbaes do mundo
akan, na virada dos sculos XVII e XVIII, bem como, pelo contexto, ao mesmo
tempo atrativo e repulsivo, da costa nessa mesma poca. Disso resultaram os
fluxos migratrios de orientao diversa (Norte-Sul, Leste-Oeste, Sul-Norte,
Oeste-Leste) que, por vezes, no meio florestal, deslocaram-se claramente de
forma circular.

      Os mande e os we
    A invaso dos quoja-karou que se abateu sobre as costas de Serra Leoa e da
Libria mostra que o avano mande ainda continuava, no sculo XVIII, agindo
sobre os povos da floresta e do litoral. Os mande do Norte no haviam cessado
sua progresso em direo ao Sul e ao Sudeste e, atravessando o rio Sassandra,
atingiram o Bandama. Seu movimento acelerou aquele dos mande do Sul : os d
continuavam sua descida Sul-Sudeste, na Costa do Marfim (para Touba-Man), e
Sul-Sudoeste (para Danan, na Costa do Marfim e na floresta liberiana); os guro
e os gagou iam sempre em direo Sul-Sudeste, para o Bandama e mesmo para
alm (rumo a Bouak, pelos guro, e para Tiassal e Dabou, pelos gagou)28.
    Tal presso mande para o Sul no ocorreu sem consequncias para o movi-
mento dos we que continuavam a sua progresso em direo  floresta, nota-
damente, dos we de Toulepleu na Costa do Marfim (para Nidru e Bewa), que
se juntaram aos guilo na floresta, na metade do sculo XVII, e atingiram o rio
Cavally entre o fim do sculo XVII e o comeo sculo do XVIII. Atreladas 
presso akan e aos remanejamentos do mundo kru liberiano, outras migraes
ocorreriam, no sculo XVIII, provenientes do Sudoeste (Zibiao), do Nordeste
(Zarabaon) e do Norte (Smien)29.


27    Sobre o isl e os povos "oeste-atlnticos", ver W. Rodney, 1970b, p. 229-239; C. Fyfe, 1964, p. 162-164;
      J. Suret-Canale, ed. de 1976, p. 509-510.
28    A. Clrici, 1962, reed. de 1963, p. 24.
29    A. Swartz, 1971.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                  453



     Os magwekru
    Em se tratando do povoamento kru liberiano, C. Berhens pensa que os kru
ocuparam a costa de Leste ao Oeste. Durante o sculo XVI, eles se subdividiram
em bassa, krahn, grebo etc., depois, na metade do sculo XVII, ocuparam o ter-
ritrio atual do Grande Bassa, aps terem lutado contra os berkoma e os quoja
na regio do Cabo Mount. A hegemonia karou exprime, segundo C. Behrens, a
vontade dos kru em controlar toda a Costa dos Gros, da Libria a Serra Leoa.
Assim, os kru de Grande Cess, situados ao Oeste do Cabo Palmas, vieram do
pas Grebo, no fim do sculo XVII e no comeo do XVIII. Um movimento
Leste-oeste sucedeu, portanto, ao movimento Norte-Sul original30.
    No que tange ao povoamento kru da Costa do Marfim, parece que um
movimento Oeste-Leste seguiu-se ao movimento Norte-Sul. Deste modo, os
kru do Grand Brby vieram da Libria para a Costa do Marfim, aps uma
fragmentao de grupos guerr (we) vindos do Norte. Do Oeste (floresta de
Tai-Grabo, vale do Cavally) proveio tambm  maioria dos bakwe e dos neyo,
provavelmente, pertencentes  mesma corrente migratria.
    Esta grande onda migratria conduziu importantes fraes do grupo magwe
(os bete, os godie e os dida) da bacia do Cavally, ao Oeste, para a bacia de Sassan-
dra e para alm, rumo ao Bandama. Ela alimentou o povoamento do interflvio
Sassandra-Bandama at o fim do sculo XVIII.


     As mutaes polticas e as mudanas socioeconmicas
     A criao das rotas martimas (fim do sculo XV  comeo do XVII)
    Aberto ao trnsito e ao comrcio, o litoral desta regio tornar-se-ia, do fim do
sculo XV ao incio do XVII, um polo de atrao para os habitantes da costa ou
do interior, bem como para os comerciantes sudaneses do interior. Tal abertura
comeou bem antes do sculo XV e da chegada das caravelas portuguesas, quando
a expanso mande ligou o Sudo nigeriano  costa atlntica, da Senegmbia at a
Costa do Ouro. Iniciativas particularmente africanas, como o sabemos, precede-
ram a descoberta portuguesa e explicam que, longe de ser uma verdadeira rua sem
sada, a franja martima da zona guineense apresentava, no fim do sculo XV, uma
dupla abertura: para o interior e para o exterior do continente africano.



30   C. Behrens, 1974, p. 19-38.
454                                                          frica do sculo xvi ao xviii



      Os fatores internos da abertura martima
    Colonizao agrcola espontnea, conquista militar e poltica em direo ao
Oeste, assim o Mali criava as condies para uma expanso comercial dos mande
na zona costeira, nos sculos XIV e XV. A partir de 1312, de Casamansa at
Serra Leoa, corporaes de joola ligavam os pases litorneos ao eixo do Nger.
De fato, transformados em provncias ocidentais do Mali, da Gmbia e de
Casamansa, trocavam seus produtos agrcolas (arroz, sorgo) e artesanais (tecidos
de algodo) pelo ferro e outros metais, provenientes do interior do continente.
Os centros comerciais de Kantor eram o ncleo destas trocas que utilizavam as
vias de gua, em particular, Gmbia e Casamansa, cujas desembocaduras uniam-
-se em razo da intensa cabotagem. Do mesmo modo, um outro trfico ia do
eixo do Nger  regio da floresta, onde os jula trocavam sal, cobre, tecidos de
algodo e peixe pelas nozes-de-cola e, s vezes, pelo azeite de dend. No sculo
XV, a economia desta zona do Noroeste estava, pois, voltada para o interior e,
os pases kissi e timne j haviam sentido a influncia malink a partir do alto
Nger (em Doma e Hamana)31.
    Alm de Serra Leoa, entre a Libria e a Costa do Ouro,  difcil precisar nesta
poca os pontos de ligao do comrcio jula, mesmo se os nomes Monrovia e
Grand Lahou so s vezes citados. Entretanto,  certo que, no sculo XVI, os
jula traziam mercadorias a Elmina provindas do Arco do Nger, pois j foram
assinalados em Begho desde a primeira metade desse sculo.
    O espao comercial dos mande apoiava-se em uma rede de rotas e paradas-
-mercado, cuja zona pr-florestal era abundantemente provida e prolongava-
-se rumo  costa pelos vales aluviais e pelos grandes eixos fluviais.  o que
nota um observador portugus, V. Fernandes: "Eles (os malink) traficam
suas mercadorias muito longe para o interior e vo to longe quanto nenhum
outro povo desta regio, e vo mesmo at o castelo de Mina passando pelo
interior32."

      Os fatores externos: as exploraes portuguesas
   Agora est fora de questo o fato de os portugueses serem os primeiros euro-
peus a explorar as costas oeste-africanas no sculo XV, j que o desenvolvimento
da caravela lhes permitiu dobrar o Cabo Bojador, em 1434. Eles estavam na ilha
de Arguin, em 1443, no Senegal e na Gmbia, entre 1445 e 1456, em Serra

31    D. Y. Niane, 1975a, p. 67-88.
32    Citado por D. Y. Niane, 1975a, p. 83.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                               455



Leoa e na Libria, em 1460-1462. Entre 1462 e 1480, eles exploraram todo o
Golfo da Guin, atingindo a atual Costa do Marfim, em 1469-1470, e a Costa
do Ouro, em 1470-147133.
    De 1481 a 1560, as costas da frica Ocidental sofreram, pois, a influn-
cia portuguesa. Os lusitanos, em busca de ouro e de especiarias, articularam
seu imprio martimo, que tomava corpo, com o espao comercial mande, em
pleno avano graas  expanso do Mali, desde o sculo XIV. No queriam eles
ter acesso ao ouro do Galam, do Bambuk, do Bure, do Lobi e do Ashanti? A
lenda deste ouro assombrara a Europa e a posse dele era necessria para a com-
pra de especiarias e dos produtos do Oriente, muito valorizados nos mercados
europeus.
    Os documentos portugueses da poca, tais como os registros meticulo-
samente retidos pelo tesoureiro da Casa da Guin, fornecem-nos uma lista
instrutiva das mercadorias que, salvo o ouro, constituam a carga transportada
para Lisboa pelas caravelas que voltavam de novos stios descobertos na costa
ocidental da frica. Sobre tais mercadorias eram cobradas taxas alfandegrias.
Dentre tais mercadorias, encontram-se o arroz, o copal, a civeta, esteiras e bol-
sas em fibra de palma, assim como objetos esculpidos de marfim, colheres, vasos
e de olifante, notadamente. Este ltimo grupo de artigos  particularmente
interessante, pois que os espcimes que tm sido conservados  hoje, tratados
como raros objetos pelos museus que os detm em trs continentes  e cujos
exemplares mais belos so atribudos, sem contestao, aos bulom da ilha de
Sherbro, testemunham o alto grau artstico e a habilidade tcnica atingidos
pelos povos do litoral antes de terem entrado em contato com os europeus.
Ademais, representam os primeiros espcimes conhecidos da escultura africana
a terem sido introduzidos na Europa, fortemente apreciados pelos coleciona-
dores ocidentais admirativos34.
    Durante todo o sculo XVI, os portugueses exerceram a supremacia mar-
tima e comercial na costa oeste-africana, desde Arguin at Angola. Na Guin
Superior, eles utilizaram as vias fluviais para procurar o ouro do Sudo, nota-
damente, na Gmbia, em Casamansa e na Guin-Bissau. Praticaram comrcio
na costa e nas desembocaduras dos rios sem almejar a ocupao territorial. Na
zona que constitua nesta poca a porta ocenica do Mali, eles contriburam com
a intensificao das relaes entre, de um lado, a Costa dos Rios e, de outro, a
Alta Gmbia, o alto Senegal e o alto Nger. As bacias aurferas do Bambuk e

33   R. Mauny, 1970; A. F. C. Ryder, 1964; A. Teixeira da Mota, 1975.
34   A. F. C. Ryder, 1964; A. Teixeira da Mota, 1975.
456                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




Figura 13.3 Saleiros esculpidos em marfim, do sculo XVI, provenientes da ilha Sherbro (bulom), Serra
Leoa. Altura: 43 cm. [Museu Luigi Pigori, Roma. Fotos: ( esquerda) Pelligrini, ( direita) Rossini.]



do Bure estavam tambm progressivamente desconectadas da bacia do Nger e
do Saara, em proveito da franja martima atlntica35.
    Assim, nos principais setores desta costa da Guin, do Noroeste ao Sudeste,
as rotas comerciais continentais jula conduziam, no sculo XVI, s posies ocu-
padas pelos portugueses no litoral. Portanto, o ouro sudans ganhava Lisboa ao
mesmo tempo em que a "pimenta falsa" ou malagueta, vendida a baixo preo nos



35    B. Barry, 1981.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                               457




Figura 13.4 Corno de caa esculpido em marfim, do sculo XVI, proveniente da ilha Sherbro (bulom),
Serra Leoa. Altura: 43 cm. [ Museu Luigi Pigorini, Roma. Foto: Rossini.]
458                                                        frica do sculo xvi ao xviii



mercados de Anturpia, concorria com a verdadeira pimenta das ilhas36. Desta
forma realizava-se a articulao dos espaos comerciais mandingo e europeu e
encetava-se a preponderncia econmica do trfico saariano.

      A navegao europeia e a abertura comercial
    Entretanto, os portugueses passaram por dificuldades devido aos piratas
franceses e ingleses que navegavam ao longo da costa da Guin, a partir de
1530. Sua supremacia foi igualmente ameaada pela concorrncia dos Pases
Baixos. Senhores de Goreia (1621), de Elmina (1637) e de Arguin (1638), os
holandeses arrancaram o monoplio da Guin de um Portugal j enfraquecido
pela anexao  Espanha, em 1580. No ltimo decnio do sculo XVI, os barcos
holandeses comearam a frequentar a frica Ocidental e, dez anos mais tarde, os
Pases Baixos comerciaram mais do que a maioria das naes europeias reunidas:
totalizando duzentas viagens entre 1593 e 1607, um pouco mais tarde, passaram
a vinte viagens por ano. Em 1614, por exemplo, havia, simultaneamente, trinta
e seis embarcaes holandesas ao longo da costa de Elmina37 soando a salva da
supremacia portuguesa.
    Porm, de uma supremacia a outra, a costa atlntica transformava-se em um
novo tipo de fronte comercial oeste-africano e, no sculo XVIII, tornar-se-ia
o lugar de um trfico martimo intenso. No incio deste sculo, os portugueses
tinham, entretanto, concludo a abertura comercial e implementado a estratgia
que prevaleceria ao longo dos sculos seguintes.

      As antigas formaes sociais e o "Reino dos sape"
   A civilizao oeste-africana que se estendia de Casamansa, com os joola,
a Serra Leoa, com os temne, se caracteriza pela sua adaptao ao meio ecol-
gico das terras baixas e das guas estagnadas, da a agricultura dos pntanos,
a extrao do sal, a rizicultura inundada e a utilizao das vias de gua para o
transporte e as comunicaes, nas embarcaes chamadas almadies. Organiza-
dos em sociedades camponesas, sem escravos e nem castas, porm com classes
de idade e associaes de trabalho, os joola j tinham atingido a Idade do
Ferro quando entraram em contato com os mande. Recusando o qualificativo




36    F. Braudel, 1946.
37    A. F. C. Ryder, 1965b, p. 217-236.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                                          459



primitivo atribudo aos povos "oeste-atlnticos", W. Rodney38 insiste sobre a
engenhosa adaptao desses povos ao meio natural, mostra as relaes de trocas
existentes entre eles, percebe sua homogeneidade social e cultural atravs das
lnguas, das vestes e dos costumes. No possuam um Estado estruturado origi-
nal, mas tinham uma unidade de civilizao e de cultura. Rizicultura inundada e
"Reino dos sape" so as expresses histricas desta unidade? O fato de saber se a
cultura de arroz submerso  uma das invenes deles ou se fora emprestada dos
mande  o centro de uma controvrsia entre certos historiadores, notadamente
entre P. Plissier e B. Davidson39.
    A organizao social e poltica apresentam menos problemas do que a rizi-
cultura inundada. Todos os autores reconhecem, de fato, que o regime das cas-
tas, a sucesso patrilinear e a estrutura de Estado so instituies de origem
estrangeira. Assim, sob a influncia mande veiculada pela expanso do imprio
do Mali para o Oeste, os diferentes povos da costa estavam organizados em
chefias e principados submissos  suserania do mandi-mansa, o imperador do
Mali. No sculo XV, os portugueses observaram a existncia destas "provn-
cias ocidentais" (reino de Fogni, de Casa etc.), mas assinalaram a presena, em
direo ao Sul , do "Reino dos sape". Este levanta um outro problema: ele era
uma grande confederao englobando os povos baga, nalu, landuma, limba e
timne, como pensa D. T. Niane? Seria um reino formado entre o Cabo Verga
e o Cabo Sainte Anne, aps o deslizamento, para o Sul , dos tyapi, landuma,
baga e nalu, conduzidos por chefes mande, como o supe J. Suret-Canale? No
atual estado dos conhecimentos  difcil escolher entre essas duas hipteses40.
Mais importante ainda: abstenhamo-nos de aceitar cegamente o que parece ser
uma explicao difusionista do conjunto das instituies e dos sistemas sociais
e polticos da regio, sobretudo no que concerne  sucesso patrilinear e s
estruturas de Estado.

     O Kaabu: da emancipao  hegemonia (do sculo XVI ao XVII)
    Se a difuso das influncias mande tivesse permitido a emergncia das che-
fias e proto-reinados na Senegmbia Meridional, o estabelecimento do comr-
cio atlntico favoreceria, no sculo XVI, o nascimento de novos Estados sobre

38   W. Rodney, 1970b.
39   Para esta discusso, ver P. Plissier, 1966, p. 42-44; B. Davidson, 1965, p. 132-135. O Oryza glaberrima
      o arroz vermelho ou arroz africano, oposto ao Oryza sativa, ou arroz branco, de origem asitica.
40   Para esta outra discusso, ver F. Mahoney e H. O. Idowu, 1965, p. 141; D. Y. Niane, 1975b, p. 51; J.
     Suret-Canale, ed. de 1976, p. 507.
                                                                                                                                                       460
                                                                                                                          0               200 milhas

                                                                                                                          0           300 km



                                                PROVNCIA                  IMPRIO                                       740 mm
                                                DE KAABU                   DO MALI
                                                 Rio G                                                  r
                                                       mbia                                         ge
                           amansa                                                                  N
                    Rio Cas                                                                    o
                                                                                             Ri




                                                REINO
                                               DOS SAPE                                                                       0m
                                                                                                                                  m
                                                                                                                             0
                                                                                                                          15




                                                                                                                                        Ri
                                                                                                                                         oV
              Mande ou




                                                                                                                                           olt
                                                                                                                                             a
              Mande do Norte
                                                                                                                        1 800 mm
              Voltaico
              Akan                                                                                                       m
                                                                                                                   00m




                                                                                                                                                       frica do sculo xvi ao xviii
              Oeste-Atlntico                                                                               +   18
              Mande ou Mande do Sul                                                                                 PREMIER
                                                                                                                   REINO AKAN
              Kru
     Precipitaes       ZONAS CLIMTICAS
     + 1 800 mm : clima guineense (floresta densa de tipo equatorial)
      1 800 mm : clima guineense (zona mista de floresta e de savana)
       1 500 mm : clima sudans (savana arborizada)
         740 mm : clima saeliano (savana herbosa)


Figura 13.5    Os principais Estados da frica do Oeste, antes do sculo XVI (segundo C. Wondji).
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                461



as runas da hegemonia maliana. De fato, a expanso do Mali para o oceano
Atlntico, atravs da bacia da Gmbia, no sculo XV, levou  implementao de
estruturas poltico-militares situadas na margem ocidental do Imprio mande,
tais como os pequenos reinos da Gmbia, de Casamansa e da Guin-Bissau.
Seus soberanos pagavam um tributo ao mansa do Mali, por intermdio de seus
farba ou farim. Porm, no sculo XV, era o farim do Gabu, situado ao Leste do
rio Geba, que recebia o tributo dos chefes mande de toda a Gmbia.
    Situada entre a mdia Gmbia, o Rio Grande e o Futa Djalon, a provncia
maliana do Kaabu controlava o comrcio do Kantor que negociava o ouro da
Falm e do Bambuk. No sculo XVI, o Kaabu anexou a provncia de Sankola,
situada um pouco ao Sul da Alta Casamansa, e tornou-se uma provncia potente,
ainda que dependente do Mali. Entretanto, o velho imprio enfraqueceu-se
sob os golpes do Songhai, alm disso, a maioria de suas provncias ocidentais
livrou-se de sua tutela e os farim erigiram-se em reis independentes. Tal era o
Kaabu em 1537.
    Aps sua emancipao, o Kaabu unificou todos os pases mande situados
entre a Gmbia, a Alta Casamansa e o alto Geba, e ocupou o lugar do mansa
do Mali nessa regio. Em seguida, estendeu sua dominao aos povos kassanga,
balante, joola (os flup) e biafada. Seu farim "era, entre eles, como um imperador",
que exercia sua autoridade sobre toda a Senegmbia Meridional e controlava o
comrcio dessa regio, at os confins da Guin e de Serra Leoa41.

     O comrcio atlntico e os povos dos Rios do Sul
    Enquanto os comerciantes lusitanos enfrentavam a concorrncia e a oposi-
o dos mande, atraam para seus estabelecimentos do litoral os povos "oeste-
-atlnticos", e tambm estavam em contato direto com os joola, os balante, os
papel e os kassanga.
    Em Serra Leoa, os bulom, os timne e as comunidades vizinhas participavam
ativamente deste comrcio. Os bulom, que trocavam sal marinho pelo ouro
vindo do Mali, agora vendiam esse ouro aos portugueses em troca dos tecidos
de algodo, de sinetas de cobre e diversos utenslios metlicos. No fim do sculo
XVI, os timne, desejosos de aproveitar do trfico martimo, atingiram o esturio
de Serra Leoa, dividindo em dois o povo bulom.
    No sculo XVI, tal regio da Alta Guin tinha se tornado irreconhecvel.
No apenas os portugueses l haviam instalado numerosas colnias mercantes,


41   S. M. Cissoko, 1972, p. 3-8; D. Y. Niane, 1975b, p. 49-51.
462                                                          frica do sculo xvi ao xviii



mas tambm cobriam totalmente os povos dessa costa graas aos pontos de
contato que eles estabeleceram com os mande, nas bacias mdias e superioras
dos rios. Se as ligaes com o interior encontravam-se to intensificadas, aquelas
entre o Norte e o Sul estavam consideravelmente reforadas: os cabo-verdianos
iam diretamente em direo aos rios de Serra Leoa, vendendo, pelo trajeto, seu
algodo aos teceles bainuk e kassanga; entre o Cachu e o Nunez circulavam
tecidos impressos; enfim, os produtos do artesanato costeiro chegavam at os
Scarcies, seguindo a rota inversa do antigo comrcio da cola42.

      A zona costeira: nova frente comercial oesteafricano
      (sculo XVII ao XVIII)
    Ao abrir a costa oeste-africana ao comrcio mundial, as grandes exploraes
europeias engajaram os pases guineenses em um processo de desenvolvimento
histrico sem precedentes: intensificao das trocas, movimentos da populao do
interior para a costa, surgimento de novas sociedades, tais foram, nos sculos XVII
e XVIII, as principais mudanas. Estas provocaram a marginalizao progressiva
da zona sudanesa que, para sobreviver, teve que se ligar ao comrcio atlntico
conferindo uma nova impulso s rotas que conduziam  floresta e ao mar.

      A implantao e a consolidao do comrcio europeu
   Trs traos caracterizam a evoluo do comrcio europeu nas costas oeste-
-africanas, nos sculos XVII e XVIII: a implantao definitiva, via a consolida-
o, deste comrcio graas a uma organizao sistemtica das trocas; a crescente
importncia do trfico negreiro que, no sculo XVIII, teve uma amplitude sem
precedentes no conjunto das transaes; a rdua concorrncia,  qual se lanaram
as naes europeias pela posse das bases na frica do Oeste.
   No sculo XVII, o comrcio europeu estabeleceu-se definitivamente na
regio, com o desenvolvimento da potncia martima dos holandeses, os quais
arremataram a organizao do sistema mercantilista mundial pela instaurao
das companhias de carta. Ao passarem da condio de pequenas sociedades
comerciais a uma organizao de grande estilo, os holandeses criaram, em 1621,
a Companhia das ndias Ocidentais. Dotada de uma carta que lhe assegurava
durante vinte e quatro anos o monoplio sobre o comrcio da Amrica e da
frica, do trpico de Cncer ao Cabo da Boa Esperana, a Companhia dispu-


42    W. Rodney, 1970b, p. 71-94.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                               463



nha da garantia militar e naval do Estado e, por todo o sculo, continuou sua
expanso comercial e colonial. Apoiando sua ao sobre os fortes, que serviam
para proteger os abastecimentos, e as feitorias destinadas a trocar os produtos, a
Companhia contribuiu com o avano comercial da Holanda na primeira metade
do sculo XVII. Trilhadores dos mares, os holandeses redistribuam na Europa
os produtos, importados por eles, da sia, da frica e da Amrica, em particular,
grandes quantidades de ouro e de marfim, e tambm realizavam enormes lucros.
Senhores dos oceanos, proviam de escravos s colnias americanas das outras
naes europeias (Espanha, Portugal, Frana e Inglaterra), que lhes outorgaram,
em 1641, o monoplio em toda a costa da Guin.
    A supremacia holandesa seria podada entre 1650 e 1672. Trs fatores contri-
buram para isso: o avano das plantaes americanas, dando um forte impulso 
economia aucareira, exigia um abastecimento negreiro que se beneficiava com a
escalada concomitante da indstria manufatureira na Europa Ocidental (armas
de fogo, em particular); neste contexto, as naes europeias queriam extirpar-se
da dependncia holandesa. Assim a Frana e a Inglaterra engajaram-se na luta
acirrada contra o monoplio da Holanda. Adotaram, portanto, neste perodo
em que o comrcio negreiro tornara-se altamente competitivo, os mesmos ins-
trumentos de domnio de sua grande rival. Foi, ento, o perodo de sucesso de
suas companhias de carta, entre os ingleses, a Company of Royal Adventurers
(1660), depois, a Royal African Company (1672) e, entre os franceses, a Com-
panhia francesa das ndias Ocidentais (1664), em seguida, a Companhia da
Guin (1685). Houve tambm companhias suecas, dinamarquesas, portuguesas
e brandeburguesas.
    Todas as naes europeias imitaram, ento, o sistema de organizao inven-
tado pelos holandeses, visto que mercadores isolados no podiam se lanar no
comrcio com a frica Ocidental sem que fossem membros ou tivessem o apoio
de uma companhia nacional. Somente poderosas companhias eram capazes de
suportar os encargos da construo e da manuteno dos fortes. Entre 1640 e
1750, numerosos fortes e feitorias foram edificados nas costas africanas, mas
mudaram constantemente de proprietrios, de acordo com as lutas, nas quais
se engajavam as naes escravagistas. Havia fortes e feitorias na Senegmbia
e, sobretudo, na Costa do Marfim, mas no entre as duas localidades. A luta
contra a Holanda terminou por meio do Tratado de Utrecht, o qual, em 1713,
concedeu o privilgio do asiento  Inglaterra.
    Ao abrigo destes fortes e em torno das feitorias, os europeus empreenderam
a explorao comercial da zona atlntica costeira. De Goreia  ilha Sherbro,
em Serra Leoa, o comrcio florescia, mas nenhuma companhia francesa ou
464                                                          frica do sculo xvi ao xviii



inglesa pde l impor seu monoplio por causa das numerosas ilhotas costeiras
e ilhas do alto mar, onde todo e qualquer barco que desejava comerciar com os
mercadores mulatos desse setor podia ancorar. Esta parte da costa foi, portanto,
um terreno de livre caa para os negreiros de todas as naes que no estavam
ligados s grandes companhias. No sculo XVIII, no havia nenhum sistema de
fortes neste setor reivindicado por Portugal, cuja autoridade apenas era exercida
nos arredores da feitoria de Cachu. As companhias de carta no dispensaram
nenhuma ateno  Costa dos Gros e  Costa do Marfim nos sculos XVII
e XVIII, pois a malagueta havia perdido seu prestgio no mercado mundial, o
marfim passava igualmente por um perodo de declnio e as dificuldades na
acostagem mantinham os barcos afastados da costa. Um forte francs foi cons-
trudo em Assinie, no Sudeste da Costa do Marfim, no fim do sculo XVII, e,
alguns anos mais tarde, foi abandonado. Todavia, por volta de 1700, a crescente
demanda por escravos na Amrica encorajou os mercadores individuais a se
interessar por esse setor costeiro43.

      As mudanas no Sudo
    Paralelamente  implantao do comrcio europeu, as regies do interior suda-
ns passavam por importantes mudanas que tiveram consequncias decisivas na
evoluo da zona costeira compreendida entre Casamansa e a Bandama.
    No Sudo, e em particular no mundo mande, o comrcio atlntico dominado
pelo escravagismo teve vrios efeitos. No plano socioeconmico, as relaes
com a costa tiveram uma importncia crescente e a influncia do comrcio era
acompanhada da difuso das armas de fogo atravs dos mercadores jula. No
plano sociocultural, tendo o isl perdido sua fora com a queda dos grandes
imprios, a classe dirigente cindiu-se em duas fraes rivais: uma, praticando a
religio tradicional e poltica e, a outra, constituda por marabutos e mercadores.
Apoiando-se na cavalaria e nos fuzis que haviam comprado, a primeira se cons-
tituiu como aristocracia militar; sustentando os progressos do isl em direo
aos pases do Sul, a segunda, fomentou revolues poltico-religiosas. Realezas
militares bambara, no primeiro caso, revolues islamo-fulbe, no segundo, ten-
tariam resolver a crise social nascida do desmembramento dos imprios e da
generalizao do trfico negreiro.
    Aps o esfacelamento poltico consecutivo ao declnio dos grandes conjuntos,
hegemonias de substituio tentaram reestruturar, no sculo XVIII, as diferentes


43    J. D. Fage, 1969b, p. 65-73.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                            465



regies do interior. No Norte e no Noroeste, o imprio do Grand Foul nasceu
no sculo XVII sobre os escombros de Songhai, porm, cedeu o lugar ao imprio
do Kaarta, na segunda metade do sculo XVIII. Ao longo do Atlntico, os pases
oriundos do desmembramento do Mali foram unificados pelo Kaabu (sculos
XVII-XVIII), depois, pelo Futa Djalon (sculos XVIII-XIX). No centro, ao
longo do Nger, o domnio ocorreu sob a gide dos bambara de Segu, no incio
do sculo XVIII, com Biton Koulibali. Porm, em direo ao Sul , do alto Nger
ao Bandama e at o Leste, na zona voltaico-senufo, os jula aumentaram sua
influncia graas  sua riqueza e superioridade numrica: organizaram o imp-
rio de Kong, no sculo XVIII, para garantir a circulao nas rotas comerciais
que iam do mdio Nger  floresta e  Costa do Ouro; ao Oeste do Bandama,
criaram metrpoles mercantes, a fim de controlarem as vias que conduziam ao
mar e  zona da floresta, onde cresciam as reas de cola44.
    Do mesmo modo que o comrcio transaariano havia, em uma larga medida,
encorajado a hegemonia poltica sudanesa ao longo da faixa do Sahel, entre o
sculo VII e o XVI, a intensificao do comrcio com a Europa favoreceu a
emergncia de hegemonias polticas no litoral e no interior, no sculo XVII e
XVIII. Paralelamente a tais mutaes polticas, mudanas socioeconmicas (que
foram o objeto de diversas interpretaes) afetaram os povos das regies do
litoral de onde saam as principais rotas comerciais conduzindo ao interior.

     As hegemonias sublitorneas do Noroeste: do Kaabu ao Futa Djalon
    No sculo XVII, o Kaabu se afirmou como a grande potncia do setor dos
Rios do Sul, da Gmbia at Serra Leoa. Organizado em doze provncias mande
confederadas que recobriam encraves fulbe, tal como agrupamentos bainuk,
balante e joola, o Kaabu era dirigido por um mansa supremo (residente em
Kansala), que se apoiava na aristocracia de funcionrios-soldados e na cavala-
ria permanente. Este reino, tornado imprio, controlou o comrcio do vale da
Gmbia e dos rios da Guin (Casamansa, Rio Cachu, Rio Geba), s margens
dos quais se encontravam as feitorias europeias (Cachu, Farim, Zinguinchor,
Bissau, Geba, Alfreda e Saint James). No fim do sculo XVII, Mansa Biram
vendia 600 escravos por ano, comprava mercadorias variadas e recebia direitos
alfandegrios pelo intermdio de seus arrecadadores patenteados, os alcali45.



44   Y. Person, 1981, p. 47-55.
45   S. M. Cissoko, 1972, p. 10.
                                                                                                                                  0                      200 milhas




                                                                                                                                                                      466
                                                                                                                                  0                  300 km




                                                                                                                               740 mm
                                                                                                                 r
                                                                                                              ge
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                                                                                                     Ri
                 Rio Casamansa
                                                  IMPRIO
                                                 DO KAABU



                                                                                                                                                 m
                                                                                                                                                m
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                                                                                                                                  1 5




                                                                                                                                  Rio Co mo




                                                                                                                                                       Ri
                                                                                                                                                       oV
              Mande ou




                                                                                                                                                         olt
              Mande do Norte                                  CO




                                                                                                                                                          a
                                                                                                                               - 1 800 mm
              Voltaico                                             NF
                                                                        ED                                                       m
              Akan                                                           ER                                             0 m
                                                                                  A                                   1 
                                                                                                                          80




                                                                                                                                                                      frica do sculo xvi ao xviii
              Oeste-Atlntico
                                                                                       O                            +
                                                                                                                           IMPRIO DE
              Mande ou Mande do Sul                                                         KA                              DENKYIRA
              Kru
                                                                                             RO



     Precipitaes       ZONAS CLIMTICAS
                                                                                                 U



     + 1 800 mm : clima guineense (floresta densa de tipo equatorial)
      1 800 mm : clima guineense (zona mista de floresta e de savana)                                                         PROVNCIA
       1 500 mm : clima sudans (savana arborizada)                                                                            DE ASSINIE
         740 mm : clima saeliano (savana herbosa)


Figura 13.6    Os principais Estados da frica do Oeste, no sculo XVII (segundo C. Wondji).
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                                467



   Paralelamente  hegemonia do Kaabu, afirmava-se, na segunda metade do
sculo XVIII, a da confederao islamo-fulbe do Futa Djalon. Oriunda da revo-
luo muulmana que agitou o macio guineo-sudans por volta de 1725-1730,
progressivamente, tal confederao tornou-se o centro das relaes entre a Costa
dos Rios e o interior. Situado na confluncia dos rios do alto Nger que seguem
em direo ao mar, o Futa Djalon travaria uma sria concorrncia com os mande
do Kaabu, combatidos por ele at a sua derrocada, no sculo XIX. Porm, antes
de tal data, uma diviso das influncias foi delineada lentamente entre estas duas
hegemonias, no conjunto dos pases costeiros e interiores, compreendidos entre
a Gmbia e Serra Leoa46.

     A hegemonia costeira dos Karou em Serra Leoa e na Libria
   A histria dos karou foi escrita por O. Dapper. No princpio, o reino Quoja
encontrava-se situado em torno do Cabo Mount que foi conquistado pelos
povos vindos do interior: os karou e os folgia. Ora, os quoja tinham colocado
seus povos de Serra Leoa (bulom, quiliga e carrodoboe) sob seu protetorado
e haviam nomeado governadores de provncia que reinavam como vice-reis.
O reino Quoja tambm exercia autoridade sobre os povos do Rio Sestos, dos
galla do Leste e do Cabo Mesurado. Os karou, tendo conquistado o reino
Quoja, dividiram-no em duas grandes partes: o Quojabercoma (pas dos quoja)
e o Veybercoma (pas dos vai). Os dirigentes karou, aos quais diretamente
estava submetido o territrio que se estende do Cabo Verga, ao Norte, ao
Cabo Mesurado, ao Sul , eram chefes de guerra, cujos soldados endureci-
dos pelas guerras, armados de flechas envenenadas, frequentemente estavam
acima dos povos da regio. Reis absolutos, defensores e mantenedores do
reino, sucediam-se de pai para filho. Eles tiveram que reduzir as revoltas das
provncias conquistadas, repelir as agresses dos povos vizinhos (dago, gebbe,
manou) e defender constantemente a integridade do imprio. Porm, no se
furtavam  aliana com os folgia e os manou do interior, com os quais man-
tinham relaes de vassalagem.
   De fato, no interior de Serra Leoa e da Libria, nas bacias superiores dos rios
Moa, Mano e Saint-Paul, encontrava-se uma nebulosa de povos, provavelmente
de origem mande, submetidos  suserania dos manou: folgia, karou, hondo,
galla e quoja possuam as mesmas estruturas e costumes, obedeciam s mesmas
sociedades secretas e estavam ligados por uma crescente cadeia de vassalagem


46   J. Suret-Canale, ed. de 1976, p. 486-504; W. Rodney, 1970b, p. 223-239.
468                                                          frica do sculo xvi ao xviii



que subia da costa para o interior, at o mandi-mani, o senhor dos manou, o
maior suserano de toda a regio. E apesar de sua potncia militar, os karou
dependiam dos folgia que, por sua vez, dependiam dos manou, pois os povos
costeiros descendiam de povos do interior, porm, dependiam da boa vontade
deles para realizarem as trocas comerciais47.
    A hegemonia karou tinha por funo a regularizao de tais trocas entre
os homens da costa e aqueles do interior. Seu sistema econmico baseando-se
principalmente no comrcio com os europeus, os karou realizavam importantes
benefcios, pois que eram os nicos intermedirios de trocas. Ademais, eles rei-
vindicavam as mercadorias europeias para os seus vassalos e, para os europeus,
aquelas de seus vassalos. Nestas condies, a dominao poltica e militar era
necessria para a manuteno de tal sistema e a esfera karou surgia, antes de
qualquer coisa, como um espao comercial indispensvel ao funcionamento do
sistema negreiro mercantilista desta regio, nos sculos XVII e XVIII.

      O comrcio europeu e os povos compradores do litoral
    O avano do comrcio, nos sculos XVII e XVIII, suscitou entre os povos
do litoral a formao de grupos mercantes, que desempenharam o papel de
intermedirios, entre os navios europeus e as sociedades africanas do interior. Tal
foi o caso dos mestizos (mestios) e dos crioulos (creoles) dos rios de Casamansa,
Guin e Serra Leoa.

      Dos lanados portugueses aos mestios e crioulos dos rios da Guin
      e de Serra Leoa
   Afro-portugueses, descendentes dos colonos portugueses dos sculos XV e
XVI, ou anglo-africanos, descendentes dos mercadores britnicos dos sculos
XVII e XVIII, os grupos mulatos constituram uma populao muito particular
cuja influncia foi determinante para a evoluo histrica do litoral compreen-
dido entre a Gmbia e Serra Leoa.

      Lanados e afroportugueses
   No princpio da influncia portuguesa na frica do Oeste, houve as migra-
es voluntrias, mas, sobretudo, os numerosos exilados que povoaram os Rios
do Sul e as ilhas do Atlntico (principalmente Cabo Verde), a partir do sculo

47    O. Dapper, ed. de 1686, p. 252-274.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                              469



XV. Dentre eles, mercadores aventureiros e agentes das companhias comerciais:
os lanados. W. Rodney definiu estes ltimos como pessoas que se lanavam
entre os negros a fim de fazer comrcio. Quase sempre portugueses, os lana-
dos, podiam tambm ser gregos, espanhis, at mesmo indianos. Recrutavam
grumetes africanos (auxiliares) e frequentavam os vales do Senegal, da Gmbia,
de Casamansa e dos pequenos rios da Guin. Muito numerosos nos setores de
Cachu e de Geba (uma parte da atual Guin-Bissau), encontravam-se tam-
bm em Serra Leoa (Port Loko). No fim do sculo XVI e no comeo do XVII,
eles haviam penetrado o pas Soso e operado uma juno com os comerciantes
mande do interior.
    Muito rapidamente, os lanados estabeleceram as bases de uma comunidade
afro-portuguesa: estabelecidos nas cidades, viviam muito perto dos negros, espo-
savam mulheres ou possuam amantes africanas. A lngua portuguesa tornou-se
uma lngua franca local, quase to falada quanto o mande. Os lanados tam-
bm iriam assegurar a perenidade da presena portuguesa ao longo dos sculos
seguintes, no obstante o declnio da metrpole.
    Nos sculos XVII e XVIII, os lanados e seus descendentes dirigiam o
comrcio local na Alta Guin. Mas a composio racial do grupo mudou de
forma notvel: sendo menos importante, no sculo XVII, a vaga de migran-
tes, o nmero dos portugueses de origem metropolitana tornou-se inferior
quele dos mulatos; a massa dos lanados foi cada vez mais compreendida por
crianas de sangue misturado; esses filhos da terra dominaram, na metade do
sculo XVII, o pas Biafada e Port Loko.  preciso notar que a proporo dos
africanos tendia a aumentar, apesar da alada natural dos mestios, que, cada
vez mais, se tornavam negros e, muito pouco, se distinguiam dos africanos de
origem.
    No fim do sculo XVIII, a comunidade dos afro-portugueses era compre-
endida, portanto, por poucos brancos e muitos negros, porm, era dirigida pelos
mestios que lhe haviam imprimido seus principais caracteres socioculturais.
    Nas costas africanas, os lanados originaram um novo grupo sociocultural.
Falando a lngua portuguesa, vestiam-se  moda europeia, moravam em casas
retangulares de paredes brancas e com varandas, entretanto, aceitavam os cos-
tumes africanos, at mesmo as tatuagens e as marcas tnicas. Praticavam um
catolicismo pouco autntico: em que o porte da cruz se misturava  crena
fervorosa nos gris-gris e a celebrao dos santos cristos no impedia a home-
nagem aos ancestrais.
    Primeiramente, laos de amizade uniram os lanados aos povos da costa:
Bibiana Vaz de Cacheu, por exemplo, cooperou estreitamente com os papel e
470                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



os bainuk e possua uma propriedade em Farim, entre os mande. Ligaes de
parentesco integraram alguns deles  vida social, poltica e cultural dos povos
africanos: neto de um rei mane de Serra Leoa, Jos Lopez de Moura frequen-
temente interveio na vida poltica desse setor. De fato, ele foi o maior fazedor
de reis na segunda metade do sculo XVIII. Enfim, outros lanados eram sim-
plesmente africanos europeizados, tal como Francisco Correia, mande do Geba,
que falava muito bem o portugus, era muito instrudo e elegantemente vestia-se
 europeia48.
    Contudo, tal grupo afro-portugus extraia a sua potncia da sua funo
de classe, ou seja, da condio de compradores. Seus membros no possuam
atividades produtivas, mas eram fornecedores de bens para as embarcaes euro-
peias e participavam de atividades comerciais sazonais, em relao s atividades
agrcolas dos africanos autctones. Tambm realizavam importantes benef-
cios, suportando os ataques das companhias comerciais europeias que tentavam
ultrapass-los.
    Porm, ainda que a maioria deles dependesse dos navios europeus, alguns
eram suficientemente ricos para no recorrer a tais embarcaes. Tais eram
as grandes famlias mulatas desta poca: os Vaz, do Rio Cacheu e do Nunez;
os Tomba Mendez e a famlia de Antonio Vaz, na Gmbia; a de Sittel Fer-
nando, do Rio Pongo e do Nunez, e a de Jos Lopez de Moura, em Serra
Leoa. A famlia Bibiana Vaz era ilustre no setor de Cacheu, no sculo XVII:
estabelecida em Cacheu, entre os papel, Bibiana possua uma casa entre os
bainuk e outra em Farim, entre os mande: ela tinha uma naveta, ou seja, um
navio de dois mastros; seu irmo, Ambrosio, residia em Cacheu e seu sobri-
nho Francisco mantinha um comrcio importante no Rio Nunez. Aquele que
equivalia  "senhora" Bibiana Vaz era o "senhor" Jos Lopez de Moura, senhor
de Serra Leoa e, na primeira metade do sculo XVIII, o homem mais rico
dessa regio.
    Existiam mltiplas contradies entre esses ricos comerciantes mulatos e
as companhias comerciais, em particular, aquela que ops adeptos do comrcio
livre e sem entraves queles da regulamentao e dos monoplios. Estes inter-
medirios tiveram de lutar contra as pretenses das companhias comerciais
para desvencilhar-se de seus servios, portanto, para diminuir seus lucros. Foi
assim que de 1684 a 1685, Bibiana Vaz ops-se ao capito Jos Gonalves
Doliveira, major da Companhia de Cacheu, que recusava aos barcos estran-


48    Para todos os detalhes sobre os afro-portugueses, ver W. Rodney, 1970b, p. 200-222.
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                             471



geiros a permisso de comerciar no setor, mesmo se eles tivessem pagado os
direitos de ancoragem. Conduzidos por Bibiana Vaz, os mercadores afro-
-portugueses opuseram-se a esta medida, fizeram peties e entraram em
acordo com os papel que obrigaram Doliveira a autorizar o comrcio com os
ingleses.
    A vontade dos grupos de mercadores intermedirios de se encarregar do
destino econmico e poltico do litoral, preconizando a liberdade do comr-
cio, em detrimento do monoplio das grandes companhias europeias, tambm
manifestou-se em Serra Leoa, na luta conduzida por Jos Lopez de Moura
contra a Royal African Company. Tal companhia britnica procurava, sobretudo,
romper a aliana dos soberanos africanos com os mulatos, ou seja, suprimir o
papel desses ltimos como intermedirios. Conduzidos por Lopez de Moura,
os mulatos reagiram contra esse perigo que ameaava sua existncia e, no cl-
max da luta, destruram a feitoria da companhia que jamais pde retomar suas
atividades em Serra Leoa.

    Dos mercadores ingleses aventureiros aos angloafricanos
    de Serra Leoa
    Nesta regio, um outro grupo de mulatos, aquele dos anglo-africanos de
Serra Leoa, constituiu-se no sculo XVIII. Por volta de 1800, tal grupo reunia
cerca de 12.000 pessoas, dentre as quais os Tucker, os Rogers, os Corker e os
Cleveland eram as principais famlias.
    Vindos da Inglaterra no sculo XVII, os Tuckers, os Rogers e os Caulker
(em seguida tornados os Corker) primeiramente envolveram-se com o comrcio
das companhias inglesas. Casaram-se com mulheres africanas e penetraram
na sociedade autctone, no seio da qual, ligaram-se particularmente  classe
dirigente. Os Rogers e os Corker encontravam-se aparentados  famlia real da
ilha de Sherbro. A me de James Cleveland era kissi, o que gerou, como entre
os afro-portugueses, a constituio de um grupo social e culturalmente hbrido,
em que um homem como James Cleveland ocuparia uma posio eminente na
sociedade secreta poro.
    Servidores da companhia comercial, os ancestrais dos anglo-africanos pri-
meiro efetuaram pequenos trabalhos nas feitorias: almoxarifados, carpinteiros
e serralheiros. Porm, muito rpido tornaram-se intermedirios comerciais e
enriqueceram-se consideravelmente. Por volta de 1690, os Tucker dominavam
a ilha de Sherbro e, na metade do sculo XVIII, Henry Tucker era o mais
472                                                         frica do sculo xvi ao xviii



importante representante da famlia. Na segunda metade do sculo XVIII, James
Cleveland assentou sua influncia em Serra Leoa49.
    Afro-portugueses e Anglo-africanos constituam, portanto, no sculo XVII
e no XVIII, um grupo social de funes econmicas precisas, um meio cultu-
ral em que os europeus e os africanos, os brancos e os negros se encontravam.
Conscientes deste papel, eles conseguiram impor-se aos brancos e aos negros.
Mais conscientes de seus interesses, exploravam os africanos, dos quais extraam
enormes lucros, sendo tambm agentes ao servio do capitalismo mercantil
europeu, ainda que tenham se revoltado contra o rgido monoplio das com-
panhias comerciais.

      O comrcio e os povos da Costa dos Gros  Costa dos Dentes
    Para alm do Cabo Mesurado e at o Cabo Lahou, o avano do comrcio
europeu nos sculos XVII e XVIII no originou grupos mercadores muito
dinmicos no seio da populao kru. Mal ligado ao interior sudans, entretanto,
tal setor costeiro constitua-se de numerosos vilarejos estabelecidos nas emboca-
duras dos rios e era abundante em produtos muito variados. Os barcos ingleses
e holandeses aprovisionavam-se com malagueta no rio Sestos, no Cabo Palmas
e em Cavally, com escravos em Bassa, Drewin e Saint-Andr. Compravam
marfim em toda a parte.
    Apesar de sua riqueza neste mbito, o fraco dinamismo econmico da regio
explica-se, sem dvida, pela crise da malagueta e pela mentalidade de seus
habitantes, pobres e mais preocupados em receber presentes do que organizar
relaes comerciais com os europeus. Todavia, o pas do rio Saint-Andr era uma
exceo, oferecendo ouro, escravos e "dentes de elefantes", que pesavam mais de
duzentas libras, aos barcos. Seus chefes "benvolos e dignos" eram cobertos pelas
tangas como seus homlogos da costa dos quaqua.


      Concluso
   Apesar das dificuldades inerentes  elaborao de uma sntese histrica digna
desse nome, podemos contudo afirmar que os povos e os pases desta regio
conheceram globalmente uma unidade de evoluo entre 1500 e 1800. Eles
passaram de um relativo isolamento a uma integrao progressiva nos circuitos


49    Ibidem
Os Estados e as culturas da costa da Alta Guin                              473



de um mercado mundial, implementado pelas navegaes europeias atlnticas
desde as grandes descobertas; tal integrao foi acompanhada de um movimento
migratrio do interior para a costa e de decisivas mutaes sociais e polticas,
ocorridas em toda parte e onde a populao procurou tirar partido das oportu-
nidades oferecidas pelo comrcio europeu.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                      475



                                        CAPTULO 14


         Os Estados e as culturas da costa da
                  Guin Inferior
                                                 A. Boahen




    Para os povos da costa da Guin Inferior, ou seja, aqueles que vivem no
territrio entre o Sul dos atuais Costa do Marfim e Benin, ou entre os rios
Bandama e Mono, e, mais particularmente, para os akan, os ga e os ewe, o
perodo de 1500 a 1800 provavelmente foi um dos mais revolucionrios de sua
histria. Tal perodo assistiu, primeiramente, ao trmino das migraes desses
povos, desde suas diversas terras de origem at as regies onde atualmente esto
estabelecidos, bem como assistiu  formao da maioria dos grupos etnolin-
gusticos que ainda hoje perduram. Em segundo lugar, essa poca presidiu, por
um lado,  intensificao das trocas comerciais e culturais entre esses povos e
os do Sudo Ocidental, do Saara e do Magreb e, por outro,  abertura atln-
tica de uma via de comunicao e de comrcio, inteiramente nova, primeiro,
com a Europa e, depois, com as Amricas. Em terceiro, foi nessa poca que se
manifestaram a tendncia para uma centralizao, cada vez maior, dos Estados
e a evoluo para entidades polticas  reinados e imprios  cada vez mais
vastas. Verdadeiramente, pouco precisava para que toda a regio acabasse, por
ser organizada em torno de um s imprio sob o reinado de uma nica dinas-
tia. Por fim, este foi um perodo de transformao social e cultural radical e de
formao de novas classes e novas religies. Esses quatro temas constituem o
assunto do presente captulo.
                                                                                                                                                                                                           476
                                                                                                                                                        0     70             140 milhas

                                                                                                                                                        0     100            200 km


                                                                                                                                                            Akan
                                                                                                                                                            Centro do territrio akan
                                                                                Bouna                                                                       Ga
                                                                                                                                                            Centro do territrio ga
                                                   Kong
                                                                                                                                                            Ewe
                                                                                                                                                            Centro do territrio ewe

                                                                                                                                         Ri o




                                                                                                                                                                               o
                                                                                                                                                Vo




                                                                                                                                                                              Mon
                              a                                                                                                                    lt
                          m                                  BR                       Bonduku                          GUA                              a
                                                                  ON                                                          N
                     a




                                                                                                                                                                             Rio
                   nd




                                                                          GYAAMAN
                 Rio Ba




                                          Bouak                        (BRON, ABRON)
                              BA
                                OU                                                                  BONO                                                                                            Ketu
                                                                  o
                                     L




                                                                                                             ra
                                                              om




                                                                                                        ob
                                                                                                            k                                                                              Abomei
                                                                                                         An
                                                             oC




                                                                                                     Rio
                                                                                                                                                                                    Tado
                                                           Ri




                                                                                                o
                                                                                                         Kumasi                 I

                                                                                            Tan
                                                                                                                              NT AKYEM
                                                                                                                                                                    Notsie
                                                                                                                  HA
                                                                                        R io
                                                                                                                                                               Ho
                                                   ATTIE
                                                                                SEFW                           AC
                                                                                        I
                                                    ABE                                                                            AKWAMU                                                      AVOS
                                                                   AN                                                                                                                  ES CR
                                                                        Y                                                                                                        OS


                                                                                                                  ra




                                                                                                                                                                                                           frica do sculo xvi ao xviii
                                            LAGUNOSOS                       I                                                                                                 AD

                                                                                                           R io P
                                                                                                                       ASSI        Ayawaso                                  ST
                                                                                AOW                                           N                                         O
                                                                                    I   N




                                                                                                                                                                    C
                                                                            Aboisse                 WASSA
                                                                                                                              TE
                                                                                                                                                 Acra
                                  AVIKAM             EBRIE
                                                                                                                       FAN
                                                                                  NZIM                                                        RO
                                                                                      A                                El Cap
                                                                                                                         mi e C O        OU
                                                                                                                           na Da
                                                                                                                               o
                     COSTA DO MARFIM                                                                                     A       s
                                                                                                                       ST            t
                                                                                                             CO
Figura 14.1   Os povos akan, ga e ewe (segundo A. A. Boahen)
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                            477



    As migraes e a formao de novos grupos
    etnolingusticos
    Por volta do ano de 1500, segundo as fontes orais e escritas das quais dispo-
mos, pode-se dizer que se alguns destes povos tinham penetrado certas regies
onde hoje os encontramos e, se l j estavam estabelecidos, a maioria deles ainda
vivia concentrada em seus diversos beros. Alguns akan, por exemplo, aprofun-
daram rumo ao Sul, at a costa, nas regies situadas a Sudeste da atual Costa do
Marfim e a Sudoeste de Gana1. Mas, a grande maioria deles ainda vivia em sua
regio de origem, a da bacia Ofin-Pra, notadamente nas atuais regies Adansi
e Amanse, onde se dividiram em oito grupos de cls matrilineares: os ada, os
osudoku, os shai, os la, os ningo, os kpone, os gbugbla e os krobo.
    Os ga-mashi, os nungua e os tema h muito tempo tinham rompido ligaes
com os adangbe, estabelecidos na bacia inferior do Volta, em torno das colinas
de Lolorvor, e haviam fundado um grande nmero de comunidades nas plancies
de Accra, ao Norte da regio costeira onde vivem hoje2. Segundo o arquelogo
Ozanne, Ayawaso, considerado como o ltimo desses estabelecimentos, foi fun-
dado por volta do fim do sculo XVI3.
    Alm disso, os ewe, dos atuais Togo e Gana, nem mesmo tinham comeado
suas migraes e estavam todos concentrados em seu terceiro foco ancestral
de Nuatsie ou Notsie, no territrio atual do Togo, sendo os dois primeiros dos
tado e dos queto4.
    A fase final de disperso desses povos pelas regies onde se encontram atu-
almente estendeu-se entre 1500 e 1800, em particular, no sculo XVII e nos
primeiros decnios do XVIII. Por um lado, por razes econmicas (para explo-
rar as regies aurferas e ricas em cola, recentemente descobertas), por outro,
por razes sociais (presso demogrfica), mas, sobretudo, por razes polticas, os
povos akan, ga-adangbe e ewe comearam a se dispersar em todas as direes,
em pequenos grupos de uma mesma linhagem e em cls. Os akan, por exemplo,
emigraram, no sculo XVI, primeiro para o Norte e para o Leste, nas atuais regies
de Kumasi, Mampong e Akyem, e para o Sul e Sudoeste, nas regies de Wassa,
Igwira, Sanwi e Assinie. No sculo XVII, mais akan deslocaram-se, em diferentes
grupos constitudos de cls matrilineares, para o Norte, nas atuais regies ashanti

1    A. A. Boahen, 1977.
2    C. C. Reindorf, 1898, p. 6-12.
3    P. Ozanne, 1962, p. 69.
4    N. L. Gayibor, 1977, p. 11-15; H. W. Debrunner, 1965, p. 3-10; C. M. K. Mamattah, 1979.
478                                                           frica do sculo xvi ao xviii



e ashanti-akyem, e de Kwahu para o Noroeste, nas regies de Kulango, e ainda,
para o Sudoeste, nas regies de Wassa, Sefwi e nas zonas das lagunas da Costa
do Marfim. No espao de meio sculo, de 1680 a 1730, houve, por razes basica-
mente polticas, uma considervel e persistente migrao dos akan das regies de
Kumasi, de Anwianwia e de Denkyira em direo s atuais regies nzima, aowin,
sefwin, ahafo e bono do Norte, tal como para as regies anyi e baoul da Costa do
Marfim. Aproximadamente na metade do sculo XVIII, parecia que o fluxo dos
akan, emigrados de suas terras de origem e das regies vizinhas, havia acabado.
    Enquanto os akan propagavam-se para fora do bero de sua civilizao, os
ga continuavam a se dispersar rumo  costa, a partir das regies do interior,
atrados, sobretudo, pela presena dos europeus e pelas perspectivas econmicas
que tal presena inaugurava no litoral. Os ga-mashi, os nungua e os tema foram
os primeiros a migrarem no sculo XVI. Foram seguidos, no sculo XVII, pelos
povos osu e teshi. Seus parentes, os adangbe, tambm comearam a se propa-
gar pelo Sul e pelo Norte, nas plancies de Accra, ao longo dos sculos XVI e
XVII. Dentre estes, os que migraram para as regies montanhosas do Nordeste
tornaram-se os manya krobo de hoje. Outros, no sculo XVII, partiram rumo 
costa e fundaram estabelecimentos como Ningo, Prampram e Ada.
    Entretanto, as mais movimentadas de todas essas migraes foram, sem dvida
alguma, aquelas empreendidas pelos ewe. Por volta do final do sculo XVI ou
durante a primeira metade do XVII, principalmente por razes polticas, em espe-
cial para escapar da tirania de seu rei Agokoli, eles deixaram Notsie cindidos em
dois grupos, os ewe do Sul (dagboawo ou dzieheawo) e os ewe do Norte ou ewe
do interior (demeawo ou numeawo) 5. O grupo do Sul, tal como suas ramificaes,
que se dirigiu  costa era formado pelos anlo e pelos tongu, ao passo que os grupos
do Norte que ocuparam a parte central e o Norte da atual regio do Volta Meri-
dional eram constitudos pelos asogli, hopke, akpini e awudome. Quando da sua
chegada na regio de destino, subgrupos e pequenos grupos apartaram-se e foram
se estabelecer um pouco mais distante. Tal processo de fuso e difuso prosseguiu
ao longo do sculo XVII e do XVIII, se bem que, por volta do final do perodo,
o grupo anlo era composto por subgrupos anlo, afife, ave, xevi, veta, some, kliko,
flawu (ou aflao), dodze e avenori; os tongu, por sua vez, compreendiam subgrupos
agave, bakpa, bato, dofo, fievie, fodzoku, mofi, mefa, sokpoe, tefle, togome, volo e
vume; por ltimo, os asogli estavam subdivididos em ho, akoefe, hodzo, kpenoe,
takla, adaklu, abutia, agotime, akoviefe etc.6

5     C. M. K. Mamattah, 1979, p. 121-122.
6     Ibidem, p. 147 e 155-158.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           479



    Contudo, os povos no apenas se dispersaram e migraram, mas tambm
sofreram certas transformaes etnolingusticas. No que concerne aos povos ewe
e ga-adangbe  que migraram para regies que eram ou praticamente desabita-
das ou povoadas de forma esparsa por comunidades antigas, tais como os grupos
ditos togo remanescente, togo central e os guan , tiveram a possibilidade de
conservar sua pureza tnica e lingustica. Por exemplo, a principal influncia das
comunidades guan sobre os ga foi a religiosa. Por outro lado, foram muitos os
akan emigrados para as zonas que parecem terem sido muito densamente povo-
adas pelos habitantes falantes de diferentes lnguas e possuidores de culturas e
instituies distintas. Os anais portugueses dos anos 1480 a 1500 indicam que
havia sete vilarejos na Costa do Marfim, a Leste do rio Bandama, e, por volta
de 1500, Pacheco Pereira precisava: "No sabemos nada das trocas comerciais
que podem acontecer neste pas, mas o que sabemos  que ele  densamente
povoado7." Tais habitantes deviam ser os adisi, a Oeste, e os ewotre, os agwa, os
kwompa e os mono, a Leste, e foi da mistura dos dois grupos e dos akan, vindos
mais uma vez, que provieram os grupos mbalo, alladian, ebrie, eotile, avikam etc.,
conhecidos coletivamente pelo nome de grupos lagunares. De forma anloga, foi
a mistura dos ltimos migrantes akan e de certos povos preexistentes que origi-
nou os anyi, os baoul e os sefwi. Em seguida, os akan cindiram-se para formar
os dois grandes grupos, at hoje constitudos por eles, a saber, os akan do Leste
e os akan do Oeste, entre os quais Diabate insiste que "no h inteligibilidade
lingustica imediata". Em funo de tendncias principalmente polticas, cada
um desses grupos se subdividiu novamente em um certo nmero de subgrupos.
Assim, os akan do Leste encontram-se hoje subdivididos em ashanti, akuapem,
akyem, akwamu, bron (abron) ou gyaaman, wassa, kwahu, fnti, assin, denkyira e
gomua, e todos falam praticamente a mesma lngua, o twi, ao passo que os akan
do Oeste so os anyi, os baoul, os nzima, os ahanta, os sanwi (afema), os aowin
e os sefwi, falantes de dialetos, permitindo-lhes uma compreenso mtua.
    As instituies sociopolticas de todos esses grupos em seus novos focos, no
sculo XVI, fizeram surgir similitudes e diferenas. Os ga-adangbe e os ewe
viviam em colnias independentes, dispersas em grupos oriundos de cls e de
patrilinhagens maiores e menores. Os adangbe, por exemplo, estavam subdivi-
didos em nove cls: asinodze, blaka, kpoku, la, lekpodze, lenodze, nangla, sepote
e shalom. Em cada grupo, cada linhagem tinha seu prprio deus principal,
cujos sacerdotes eram os chefes do grupo. Entretanto, aproximadamente no


7    Citado por T. F. Garrard, 1980, p. 48.
480                                                          frica do sculo xvi ao xviii



fim do sculo XV, os ga-mashi adotaram um rei cuja corte encontrava-se em
Ayawaso.
    Quanto aos akan, viviam em cidades governadas por um rei ou uma rainha e
em vilarejos dirigidos por chefes, todos constitudos de famlias pertencentes aos
oito cls matrilineares, nos quais se subdividiam, a saber, os ekoona (asanwule,
entre os nzima), os oyoko (anona, entre os fnti, ou alonroba ou nvavile, entre
os nzima e anyi, e dwum ou dwimina, entre os fnti), os asenee, os agona e os
bretuo (twidan, entre os fnti), os asakyiri, os aduana ou os atwea (aberadze,
entre os fnti e asamangama ou akwea, entre os nzima) 8. Cada famlia tinha um
abusuapanin (chefe), da mesma forma que cada cl. Cada famlia ou cl tinha
um ou mais deuses que lhes eram prprios, como em cada vilarejo ou centro de
colonizao; seus sacerdotes eram investidos de considerveis poderes e, entre
os ga e os ewe, agiam como chefes, no s religiosos mas tambm polticos.
Em outras palavras, a sociedade j estava dividida em trs grandes classes: uma
aristocracia dirigente composta de sacerdotes e de reis, a massa dos cidados
ordinrios e os escravos domsticos, relativamente pouco numerosos. Todavia,
aps acontecimentos polticos e econmicos ocorridos entre os sculos XVI e
XVIII, esse quadro social foi profundamente transformado.


      As mudanas econmicas na costa da Guin Inferior
   No plano econmico, profundas mudanas, tanto internas quanto externas,
sobrevieram entre 1500 e 1800 nos territrios da Guin Inferior. No interior
da regio, as atividades econmicas j existentes continuaram e alcanaram uma
amplitude considervel. Elas compreendiam a colheita, a agricultura, a criao de
animais domsticos, a caa, a pesca, a extrao do sal e a explorao das jazidas
de ouro9. A colheita era uma atividade quase geral, concentrava-se na recolha das
nozes-de-cola cujas rvores cresciam em estado selvagem nas regies florestais
da Costa do Ouro, em particular, naquelas que cobrem agora Ashanti, Ahafo
e Akyem, ptria do povo akan do Leste. Essas nozes participavam da maioria
das trocas entre os akan, os gur, bem como entre os povos de lnguas mande e
haussa da savana e das regies ocidentais do Sudo.
   Entretanto, enquanto a colheita prosseguia, a agricultura propriamente dita
tornava-se cada vez mais importante, notadamente, com a cultura de tipos


8     A. A. Boahen, 1966b, p. 4.
9     K. B. Dickson, 1969, p.72-89.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                                   481



variados de bananas, do inhame e do arroz. A essas culturas tradicionais vieram
se juntar, nos sculos XVI e XVII, toda uma srie de novas culturas introduzi-
das na costa da Guin pelos europeus que as haviam importado da sia e das
Amricas: o milho, a mandioca, algumas espcies de inhame, o tomate, a cebola,
a berinjela, o abacate, a batata-doce, os ctricos e o amendoim10. A rpida adoo
dessas culturas pelos pequenos exploradores, evidentemente, teve como efeito a
diversificao da economia agrcola das regies da costa da Guin e, certamente,
muito contribuiu com o crescimento da populao.
    A criao de aves, carneiros, cabras e de porcos, tal como a pesca e a caa,
faziam parte das atividades econmicas do pas. A pesca era a principal fonte
dos ewe, dos ga e de outros povos do litoral como os fnti, os ahanta, os nzima
e os grupos lagunares. Quanto  caa, todos participavam dela, primeiramente,
armados de azagaias, de cacheiras, de arcos e flechas, e mais tarde, de fuzis.
    Sem dvida alguma, foi entre 1500 e 1800 que duas destas atividades do setor
primrio, a extrao do sal e do ouro, adquiriram uma extrema importncia. O
sal era produzido quase exclusivamente pelos habitantes do litoral11. Da mesma
forma, a explorao aurfera era o domnio reservado da populao das zonas
florestais do interior, em particular, dos akan que viviam na regio de Wassa e nas
regies mencionadas nos anais europeus dos sculos XVI e XVII sob os nomes
Arcanie ou Akannie, ou ainda, Arcania, ou seja, as atuais regies ashanti, kwahu
e akyem12, tal como as regies brong, ahafo, abron ou gyaaman e baoul. Eram
as mesmas regies produtoras da noz-de-cola, artigo principal do comrcio com
o Sudo Ocidental e Setentrional. A extrao de ouro nessas regies era feita
de duas maneiras: de um lado, a peneirao dos solos aluviais retirados do leito
dos rios ou do fundo de antigos vales aluviais e, do outro, o nkoron (extrao em
profundidade). Parece que a peneira era empregada desde tempos remotos, ao
passo que a mina de fundo provavelmente foi introduzida entre os akan pelos
mande por volta do sculo XIII ou XIV13.
    A explorao das minas de ouro era uma atividade submetida a um rigo-
roso controle do Estado e constitua a principal fonte de renda de seus
dirigentes. Essa atividade atingiu o seu apogeu durante a segunda metade
do sculo XVII, durante a qual foram produzidos cerca de 2 milhes de


10   J. P. Murdock, 1959, p. 21-24; D. G. Coursey, 1966.
11   Encontraremos uma impressionante descrio das diferentes maneiras pelas quais o sal era recolhido na
     costa da Guin em W. Bosman, 1967, p. 308-309.
12   A. A. Boahen, 1973.
13   T. F. Garrard, 1980, p. 24-25; I. G. Wilks, 1962c, p. 166.
482                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



onas de ouro14. O monoplio da indstria aurfera, ao longo dos trs sculos
estudados, permaneceu sendo exclusivo dos akan e todos os esforos feitos
pelos europeus, em particular pelos holandeses, para participar diretamente
dessa indstria, chocou-se com uma indmita resistncia15.
    Simultaneamente, e isto sempre mais com o passar dos anos, uma outra ati-
vidade econmica se desenvolveu, ou seja, o comrcio, no qual os escravos iriam
desempenhar um papel de primeira importncia na condio de carregadores.
Convm aqui fazer uma distino entre o comrcio interior e comrcio exterior.
O comrcio entre os ewe, os ga e os akan  bem anterior ao sculo XVI. O peixe
e o sal que os ewe, os ga e os fnti retiravam do mar, tal como as cermicas
produzidas pelos adangbe, eram trocados pelo ouro, pelo tweapea (basto para
mastigar), pelo marfim e por outros artigos de ferro ou por outro metal fabricado
pelos akan do interior. As tradies orais afinam-se s narrativas europeias da
poca ao indicar que tais atividades de comrcio interno continuaram, durante
o perodo estudado, alcanando uma amplitude e um volume crescentes, e que
aconteciam nos mercados ou ao longo de itinerrios locais e regionais. Bosman,
falando sobre o comrcio do sal entre a costa e o interior, escreveu:
          " difcil imaginar as vastas riquezas que os negros obtiveram fervendo o sal e
      se eles (os fnti) estavam sempre, ou ao menos na maior parte do tempo, em paz;
      aqueles que se lanavam nessa atividade acumulariam em pouco tempo somas feno-
      menais, pois todos os negros do interior so obrigados a fazer vir seu sal do litoral,
      da  fcil deduzir que tal produto deveria lhes custar muito caro16."
    Ainda mais importante foi a evoluo do comrcio exterior. Este se dividia
em dois setores: o mais antigo, voltado para as regies da savana e do Sudo
Ocidental, e o transatlntico, que, primeiramente, estabeleceu relaes com
a Europa e, depois, com as Amricas. Esse comrcio exterior destaca-se cla-
ramente nas fontes rabes, como a Crnica de Kano, nos anais portugueses,
datando dos trs ltimos decnios do sculo XVI, mas tambm nas tradies
orais, mostrando que, por volta de 1500, os ga, os ewe e os akan trocavam o
ouro, nozes-de-cola, tecidos, escravos e sal com os guan e os gur, ao Norte
de seus territrios, com os haussa, do Norte da Nigria ao Nordeste, e com
os mande, do Arco do Nger ao Nordeste. Entre o sculo XVI e XVIII, essas
ligaes foram reforadas, notadamente graas aos akan que se lanaram em


14    T. F. Garrard, 1980, p. 166.
15    W. Bosman, 1967, p. 80.
16    Ibidem, p. 308.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                                483



um comrcio ininterrupto com os mande e os haussa, ao longo do sculo XVI
e do XVII17. Com a emergncia e a expanso do Songhai, nos sculos XV e
XVI, e com a ordem e a paz que se seguiram, o comrcio entre os akan e os
mande prosperou. Assim, foi para organizar o seu controle de forma eficaz que
os jula estabeleceram um certo nmero de postos de comrcio ou de etapas,
tais como Bobo Dioulasso, Kong, Bondoukou, Buna e Begho entre o Arco
do Nger e os pases do Sul produtores de ouro. Um indcio suplementar da
vitalidade desse comrcio foi a opulncia, atestada por fontes escritas e vest-
gios arqueolgicos, que as cidades Djenn e Begho, principais entrepostos do
comrcio do Noroeste, conheceram no sculo XVI. Nesses mercados, os akan
trocavam sobretudo o ouro, nozes-de-cola e, mais tarde, artigos importados
da Europa, por tecidos, cobertores, tapetes turcos, seda azul e riscada, marro-
quinaria, artigos de ferro e de lato, e sal18.
    Acreditou-se durante um tempo que a queda do Songhai, aproximadamente
no final do sculo XVI, e a insegurana provinda da tinham provocado a runa
do comrcio nas rotas do Noroeste. Porm, mostrou-se de forma convincente
que isso no ocorreu e que, ao contrrio, o volume das trocas tinha mesmo
aumentado ao longo do sculo XVIII19. Certamente foi com a inteno de tirar
proveito disso que os ashanti dirigiram sua expanso neste sentido e conquis-
taram Gyaaman (ou Abron), Banda e Bono, ao longo dos primeiros decnios
do sculo XVIII. Essas trocas continuaram nos novos mercados, tais como
Ateboubou e Kintampo, at o sculo XIX.
    O comrcio dos akan com o pas Haussa e o Borno continuou tambm
durante estes trs sculos. Ele j era ativo e relativamente importante no comeo
do sculo XVI, como atestam os dizeres de uma testemunha ocular, Leo, o
Africano, que visitou Songhai e o pas Haussa nessa poca20. Tal comrcio
aumentou em volume e intensidade, sobretudo no sculo XVII e XVIII, com
o progresso dos Estados mole-dagbane de Mamprusi, Dagomba, Namumba e
Mossi, bem como do Estado Haussa. A melhor testemunha de seu xito foi
a prosperidade encontrada pelos exploradores e viajantes europeus do sculo
XVIII e do XIX, em cidades como Kano e Katsina, no pas Haussa, e, sobre-
tudo, Salanga, ao Norte da Costa do Ouro, que era ento o principal entreposto
meridional do comrcio do Nordeste.


17   Para detalhes precisos, ver A. A. Boahen, 1977.
18   V. Lamb, 1975, p. 86-92.
19   E. W. Bovill, 1968, p. 195; J. R. Willis, 1971; E. A. McDougall, 1980; C. C. Stewart, 1976.
20   Leo, o Africano 1956; N. Levtzion, 1968, p. 14-22.
484                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



    Se o ouro dos akan era exportado no pas Haussa ao longo do sculo XVI,
parece que essa exportao particular cessou durante o sculo XVIII, provavelmente
em razo da forte concorrncia exercida nesse domnio pelos europeus. Porm, a
noz-de- cola provinda dos territrios dos akan continuou sendo o principal artigo
do comrcio com o Nordeste ao longo dos trs sculos. As nozes-de-cola eram
reexportadas do pas Haussa e de Borno at o Saara e os Estados berberes. Lucas
encontrou em Trpoli, por volta de 1780, um xerife que lhe descreveu o comr-
cio entre Trpoli e o Imprio Ashanti21. Estas nozes-de-cola eram transportadas
por caravanas de bois, asnos, cavalos e escravos. Em troca, os akan importavam
tecidos de algodo, cobertores, tapetes turcos, blusas, sandlias e outros artigos
de couro, natro, artigos de lato e prolas de vidro vermelho. Entretanto,  certo
que, durante trs sculos, alm dessa, uma outra corrente de trocas muito mais
importante e muito mais volumosa se desenvolveu: o comrcio entre os povos
da costa da Guin Inferior e os da Europa e das Amricas, em outras palavras,
o comrcio transatlntico. Tal ramo nasceu quando os portugueses ancoraram
diante da costa do atual Gana, em 1471. No sculo XVI, foram seguidos pelos
franceses, ingleses e holandeses e, no sculo XVII, pelos dinamarqueses, suecos
e brandeburgueses. Todavia, os representantes dessas ltimas nacionalidades eva-
cuaram a costa guineense, respectivamente, em 1661 e 1732. O comrcio direto
com as Antilhas comeou em 1518 quando a primeira carga de escravos para l
foi enviada, diretamente da frica do Oeste, a bordo de um navio espanhol. No
que se refere ao continente norte-americano, tal comrcio teve incio em 1619,
com o desembarque do primeiro carregamento de escravos oeste-africanos de uma
fragata holandesa em Jamestown, no Estado da Virgnia22. E, aproximadamente
na metade do sculo XVII, o comrcio triangular, ligando a costa da Guin, a
Europa e as Amricas, encontrava-se em pleno avano.
    Os artigos vendidos pelos povos da costa da Guin Inferior aos europeus
que vinham v-los variaram de acordo com as regies, bem como de um sculo
a outro. At por volta do fim do sculo XVII, os akan da regio compreendida
entre os rios Bandama e Ankobra vendiam-lhes, sobretudo, o marfim, ao passo
que os akan e os ga que viviam entre o Ankobra e o Volta se especializavam
no ouro. Parece que durante todo o sculo XVI, no houve, por assim dizer,
nenhum comrcio entre os ewe e os europeus na parte da costa compreendida
entre o Volta e o Mono. Os portugueses evitavam esta zona na maior parte do
tempo e velejavam diretamente da regio de Accra para Uid, no Daom, e para

21    J. Beecham, 1841, p. 149-155.
22    A. A. Boahen, 1971, p. 315; ver tambm UNESCO, 1979, documento 12.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                                 485




Figura 14.2 O forte de So Jorge, em Elmina, tal como era nos tempos dos portugueses. [Fonte: O. Dapper,
ed. de 1686.  Fondation Dapper, Paris.]



Benin, na Nigria23. Foi preciso esperar quase a metade do sculo XVII para ver
os holandeses e os dinamarqueses estabelecerem ligaes comerciais com esta
regio, sendo os escravos a principal mercadoria que a era comprada.
     Foi aps essa especializao que a costa da Guin Inferior foi dividida em
trs pelos comerciantes europeus dos sculos XVI e XVII: a Costa do Marfim, a
Costa do Ouro e a Costa dos Escravos. Contudo, no h dvida de que at o final
do sculo XVII o comrcio do ouro foi muito mais importante do que aquele do
conjunto de todas as outras mercadorias da costa da Guin Inferior e tinha uma
importncia capital tanto para os europeus quanto para os africanos. Todas as
naes europeias, sem exceo, se esforaram para estabelecerem-se na Costa do
Ouro, da o inacreditvel nmero de fortes e de castelos construdos no litoral entre
o Ankobra e o Volta, ao longo dos trs sculos estudados. Segundo Lawrence, no
total foram 42 fortes e castelos construdos na frica do Oeste, do Senegal at os
Camares, e no menos de 32 encontravam-se no litoral da nica Costa do Ouro,
ao passo que nenhum foi construdo em toda a costa da Nigria24.



23   H. W. Debrunner, 1965, p. 21-23.
24   A. W. Lawrence, 1969, p. 12-13.
486                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



    Contudo, durante a segunda metade do sculo XVII e durante todo o XVIII,
o comrcio de exportao dos ga e dos akan do Leste para a Europa conheceu
uma profunda mutao. Os documentos do sculo XV e dos primeiros dec-
nios do XVI mostram, de forma clara, que escravos eram ento importados do
Benin, de So Tom e de Uid, na Costa do Ouro, para serem utilizados nas
minas de ouro. Em abril de 1529, 2.060 escravos foram importados do Benin,
na Costa do Ouro e, em 1535, outros 80 de So Tom para Elmina25. Mas, a
partir da metade do sculo XVII, os ga e os akan da Costa do Ouro comearam
a exportar escravos, e isso em nmero crescente, a tal ponto que, por volta de
1710, o comrcio de escravos tomava o lugar daquele do ouro. Desde 1704, o
representante dos Pases Baixos em Elmina, William de la Palma, declarava que
"os negros [...] agora se interessam mais pelo trfico de escravos do que pelo
comrcio de ouro, pois o trfico lhes rende mais26". William Smith, um ingls
que visitava a costa fnti em 1726, destacava com desgosto: "Eu no sei por que
essa regio se chama Costa do Ouro27". O nmero de escravos da exportados
continuou aumentando com o passar da primeira metade do sculo XVIII.
Segundo Daaku, no fim do sculo XVII, de 5.000 a 6.000 escravos eram expor-
tados a cada ano dessa regio, e o nmero passou de 6.000 a 7.000 no sculo
XVIII. Se seguirmos P. D. Curtin, 474.000 escravos, no total28, saram da Costa
do Ouro no sculo XVIII. Importa destacar que os nmeros de P. D. Curtin
suscitaram uma apaixonada controvrsia quanto a sua exatido, mas em todo
caso, todos reconhecem que ele certamente subestimou o nmero de escravos
exportados da frica do Oeste, sobretudo ao longo do sculo XVIII29, em uma
proporo situada entre 7,3 e 18,4%. Os territrios ewe tambm exportaram
elevados nmeros de escravos ao longo desse mesmo sculo, notadamente aps
1730, poca em que os akwamu chegaram  regio.
    Desde ento, a questo que se coloca  saber por que, no sculo XVIII, o trfico
de escravos suplantou o comrcio de ouro. Trs grandes respostas podem ser dadas
a essa questo. A primeira  que houve um crescimento considervel da demanda
por escravos, aps a introduo do sistema de plantations na cultura da cana-de-
-acar nas ilhas do Caribe e no continente americano, a partir de 1640, demanda

25    W. Rodney, 1969a.
26    Colees Furley [F. C.], ver W. de la Palma, X, 31/08/1704. Ver tambm K. Y. Daaku, 1970a, p.
      46-47.
27    W. Smith em T. Astley, 1745, vol. II, p. 138.
28    P. D. Curtin, 1969, p. 221.
29    J. E. Inikori, 1976; P. D. Curtin, R. Anstey e J. E. Inikori, 1976; R. Stein, 1978. Ver tambm o captulo
      3 acima.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           487



essa que persistiu durante todo o sculo XVII e o XVIII30. A segunda razo no
s reside na intensificao das guerras, mas tambm na crescente utilizao das
armas de fogo, a partir de 1650, gerando um aumento considervel do nmero de
prisioneiros de guerra que, no podendo ser mantidos no lugar, eram, portanto,
exportados. No foi por mera coincidncia que os trinta ltimos anos do sculo
XVII e a primeira metade do XVIII, os quais presenciaram o apogeu do trfico
de escravos, precisamente constituram a poca da emergncia e da expanso dos
imprios denkyira e akwamu e, depois, do imprio ashanti. No menos signifi-
cativo  o fato de que a maioria desses escravos eram prisioneiros de guerra ou
cativos das razias31. A terceira razo, uma consequncia da segunda,  o pagamento
de um tributo em escravos aos trs novos imprios, efetuado pelos Estados vas-
salos. Sabe-se que a maioria dos Estados vassalos dos denkyira, dos akwamu e,
sobretudo, dos ashanti pagava seu tributo dessa forma.  preciso acrescentar que
exatamente como a indstria do ouro, o fornecimento de escravos aos europeus,
na Costa do Ouro, era um monoplio exclusivo dos prprios africanos.
    Se os ewe, os ga e os akan do Leste comearam a exportar mais escravos do
que o ouro a partir do fim do sculo XVII, os akan do Oeste, os quais viviam
na Costa do Marfim, por sua vez, continuaram a exportar, em primeiro lugar, o
marfim e o ouro, durante todo o sculo XVII e o XVIII.
    Na Guin Inferior, no decorrer do perodo estudado, as importaes tam-
bm sofreram transformaes radicais, tanto no volume quanto na qualidade.
Por volta do final do sculo XV e durante todo o XVI, tais importaes com-
portavam principalmente artigos de vesturio, cuja maioria no era fabricada
na Europa, mas, antes, nos Estados berberes, tal como na frica do Oeste, no
Benin e na Costa do Marfim32. As vestimentas dos Estados berberes, mencio-
nadas nas primeiras fontes portuguesas escritas sob o nome de lanbens, halla-
bens e aljaravais, os estofos do Benin, tal como os tecidos quaqua da Costa do
Marfim, j eram muito populares ao longo da costa do Ouro antes da chegada
dos portugueses, que aproveitaram a existncia dessa demanda para lanarem-
-se ao comrcio de vestimenta. As exportaes dos tecidos quaqua e do Benin
certamente prosseguiram no sculo XVII. Alm dos tecidos, os outros produtos
de importao, segundo a lista dada por Pacheco Pereira, aproximadamente em
1500, eram compostos por braceletes de lato, lenos, corais e certas "conchas



30   J. E. Inikori, 1976, p. 4-5.
31   P. E. H. Hair, 1965; P. D. Curtin, 1969.
32   V. Lamb, 1975, p. 84-85.
488                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



vermelhas, s quais eles conferem um preo comparvel quele que damos s
pedras preciosas; vinho branco e prolas azuis, chamadas por eles de coris33."
   No sculo XVII, a lista de produtos de importao aumentou consideravel-
mente. No comeo desse sculo, podemos ler, pela pluma de Pieter de Marees,
a descrio seguinte das mercadorias levadas pelos nicos holandeses:
          "Grandes quantidades de tecidos de linho leve so muito consumidos, pois eles se
      servem disso para se vestirem, em seguida, grandes quantidades de bacias de todos os
      tamanhos, utilizadas para a bebida, para a lavagem de roupas, como tambm, urnas
      funerrias; jarros, potes de couro vermelho, caldeires; ferro para pontas de azagaia,
      faces; grandes quantidades de estofo de chita indiana vermelha, azul, amarela e
      verde, que eles carregam atados  cintura em torno do corpo para suspender suas
      facas, suas bolsas etc. Sarjas espanholas, facas holandesas, grandes quantidades de
      prolas de Veneza de todos os tipos e de todas as cores, que eles quebram e do
      polimento, depois, as enfiam nos cordes de cortia para vend-las, alfinetes trans-
      formados por eles em anzis de pesca, lupas e pequenos potes de cobre para o leite.
      Porm, os artigos mais solicitados e utilizados entre eles so o tecido de linho, os
      objetos de cobre e de lato, as bacias, os caldeires, as facas e os corais34".
    De acordo com essa lista,  evidente que, a partir de ento, as importaes pro-
vinham sobretudo da Europa, notadamente os tecidos e as prolas. Em seguida, 
preciso observar que tal lista no menciona armas de fogo, sem dvida porque as
importaes de fuzis e de plvora para canho, verdadeiramente, no comearam
antes de 1640, data em que os ingleses e os comerciantes contrabandistas foram
vistos vendendo armas na costa35. As armas alcanaram tamanho sucesso que em
1658, os holandeses declaravam que "somente os mosquetes vendem bem" e que
"os nativos partem em campanha com milhares dessas armas36". A partir de 1660,
os holandeses suprimiram o veto que haviam aplicado  exportao de armas de
fogo e comearam a vend-las em grandes quantidades na frica do Oeste. Entre
1673 e 1704, a Companhia Real Africana expediu sozinha aproximadamente
66.000 armas de fogo e mais de 9.000 barris de plvora de canho na costa da
frica do Oeste, cuja maior parte foi vendida na Costa do Ouro. O volume do
comrcio de armas de fogo continuou em ascenso durante todo o sculo XVIII,
ao longo do qual tal produto continuou sendo o mais requisitado na Costa do


33    D. P. Pereira, 1937.
34    P. de Marees, 1605, vol. VI. Edio inglesa, nota 34: P. de Marees, in S. Purchas, 1905, Vol.VI, pp 281-2.
35    R. A. Kea, 1971; K. Y. Daaku, 1970a, p. 148-152.
36    Colees Fureley [F. C.]. Relatrio de Valkenburgh XIV, junho de 1658.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           489



Ouro e acabou constituindo a ossatura do comrcio ingls com a frica do Oeste.
Segundo Inikori, de 1750 a 1807, um volume total de 49.130.368 libras de plvora
de canho foi exportado da Gr Bretanha para a frica do Oeste, a mdia anual
sendo de 847.075 libras37.
    Calculou-se que o valor das exportaes da frica do Oeste para a Ingla-
terra, excludo o trfico de escravos, entre 1750 e 1807 foi de 5.443.682 libras
esterlinas (900.000 libras em valor ouro), ao passo que, sozinho, aquele referente
aos escravos exportados pelos mercadores ingleses elevava-se a 53.669.184 libras
esterlinas. Levando em conta que a parte da Inglaterra nesse ltimo comrcio
era de 45%, o valor total das exportaes da frica do Oeste, ao longo da
segunda metade do sculo XVIII, foi estimado em 131.361.920 libras esterlinas,
sendo em mdia de 2.264.861 libras esterlinas por ano38.


     Os efeitos da evoluo econmica
   As condies econmicas na costa da Guin Inferior mudaram completa-
mente entre 1500 e 1800 e essas mudanas tiveram vrias consequncias. Uma
delas caracterizou-se pela apario de uma complexa rede de rotas comerciais
principais e secundrias que, primeiramente, reuniu os povos da regio entre si;
depois, os colocaram em contato com os mole-dagbane e os haussa do Nordeste,
os mande do Noroeste, os Estados berberes e com o mundo muulmano, atravs
do Saara. Por fim, pelo Atlntico, tal rede estendeu-se primeiro  Europa, em
seguida, a partir do sculo XVI, s Amricas. No centro dessa rede encontrava-
-se a cidade de Kumasi.
   Tal multiplicao das rotas favoreceu a emergncia de um certo nmero de
centros urbanos, geralmente situados ao longo dos grandes eixos e servindo de
entrepostos, de feiras ou de terminais, tais como Kong, Bobo Dioulasso, Buna,
Begho e Bondoukou, a Noroeste; Salaga, Yendi e Sansanne-Mango, a Nor-
deste; Tiassal, Sakasso, Yakasso, Krinjabo, Kumasi, Kete-Krachi e Akwamufie,
a Sul.
   Mesmo na costa, a presena dos europeus teve por consequncia o cresci-
mento das cidades do litoral em detrimento das do interior, as quais tinham
sido, at ento, as capitais dos Estados costeiros. No fim do perodo estudado,
as primeiras haviam rompido com as segundas e transformaram-se em Estados


37   J. E. Inikori, 1977.
38   J. D. Fage, 1969a; W. Rodney, 1969a.
490                                                          frica do sculo xvi ao xviii



urbanos independentes. Assim, Mouri estava separada de Asebu; Cape Coast
de Fetu; Elmina de Aguafo, e Anomabo de Mankesim.
    Estas relaes especiais mantidas com a Europa tiveram outra repercusso: a
integrao econmica da costa da Guin Inferior, de um lado, no mais vasto sis-
tema econmico formado pelos pases da Europa Ocidental e da Amrica, e, de
outro, a integrao no mundo mande-haussa-muulmano. Entretanto, importa
destacar que esse ltimo lao enfraqueceu-se progressivamente, ao passo que
iam se reforando as relaes com a Europa e as Amricas.
    Tal integrao freou ou impediu o desenvolvimento econmico e industrial
na Guin Inferior. O mais destruidor, o mais ignbil e inumano de todos os
comrcios, o trfico de escravos, no s progressivamente ocupou o lugar do
comrcio de produtos naturais, mas tambm esvaziou a regio da mo de obra
necessria, assim como de seus artesos e artistas de valor. Ademais, em vez de
exportar mercadorias brutas para facilitar o crescimento das indstrias existentes
e estimular os esforos criativos dos ewe, dos akan e dos ga, a Europa exportou
quantidades de artigos de grande consumo a baixo custo, desmanchando, assim, o
tecido industrial da regio ou impedindo-o de se consolidar. Em suma, ao longo
dos trs sculos que nos ocupam, ainda que tivesse existido um crescimento da
economia na Guin Inferior, no houve nenhum desenvolvimento econmico e,
pior ainda, como a Europa reinava com autoridade no domnio das importaes
e exportaes, foi ela quem da extraiu todos os benefcios. Tocamos aqui nas
razes do processo de subdesenvolvimento que, no sculo seguinte, iriam acentuar
a abolio do trfico de escravos e o advento do colonialismo na frica.


      A evoluo poltica na costa da Guin Inferior
   As mudanas polticas sobrevindas entre 1500 e 1800 foram ainda mais
radicais do que as mutaes econmicas.
   O processo de formao do Estado tinha comeado desde o incio do perodo
e um certo nmero de Estados j se encontravam constitudos, tanto na costa
quanto mais ao Norte, nas regies da savana. Quando chegaram, os portugueses
certamente encontraram os Estados costeiros de Ahanta, Shama Aguafo, Fetu,
Asebu, Agona e Accra, bem como o aglomerado de Estados mole-dagbane 
Mamprusi, Dagomba, Nanumba e Ouagadougou  e o Estado akan de Bono,
na zona da savana39. Foi em meados do sculo XVI e no comeo do XVII que

39    A. A. Boahen, 1966b e 1977.
                                                                                                                 Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior
                                                                                                                 491
Figura 14.3   As principais rotas comerciais das bacias do Bandama, do Volta e do Mono (segundo A. A. Boahen).
492                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Bono, o primeiro reino akan emergido na metade do sculo XV, atingiu o pice
de sua potncia e glria, graas ao lucrativo comrcio entre os mande e os akan,
o qual tinha Begho como centro40.
    Ao longo do sculo XVI, os labadi e os osu juntaram-se aos ga-mashi, os
nungua e aos tema nas plancies de Accra, e juntos fundaram um nmero cres-
cente de centros de povoamento. Antes de 1300, os ga ignoravam os reis, mas
tinham os sacerdotes como chefes. Por volta de 1600, entretanto, eles adotaram
a funo secular do rei, provavelmente emprestada de seus vizinhos akan e adan-
gbe. Durante os primeiros decnios do sculo XVII, alguns ga abandonaram o
interior para se estabelecerem na costa, atrados, evidentemente, pela presena dos
europeus. Os ga-mashi, os nungua e os osudoku foram os primeiros a emigrarem.
Foram seguidos pelos la, os quais fundaram Labadi nas terras confiscadas dos
nungua, ao passo que os osu conquistaram seu territrio s custas dos osudoku. O
ltimo principado ga a ser fundado na costa foi Teshi, construdo em um territrio
ofertado pelos nungua a um grupo que havia emigrado de Labadi. Contudo, todas
estas cidades da costa reconheciam a suserania do mantse (rei) ga, que permanecia
em Ayawaso, capital do reino at 1680, ano em que fora transferida para a costa.
    Parecia que no plano poltico, ao longo do sculo XVI, formavam-se entre os
akan um certo nmero de pequenas comunidades e de cidades-Estado ou che-
fias na bacia Pra-Ofin, interligadas no pela fidelidade a um mesmo soberano,
mas por parentesco, ligaes agnatcias e de cl, alis, todas elas encontravam-se
imbricadas  rede das rotas comerciais j mencionadas. Entretanto, segundo
a tradio oral de Adansi, houvera, na metade deste sculo, uma operao de
centralizao conduzida, sob a influncia do cl e dos Estados urbanos agru-
pados em torno de Fomena e de Akrokyere, pelo chefe Awurade Basa, rei de
Fomena41. Se essa ao deu origem  confederao dos Estados adansi na regio,
tambm precipitou a emigrao, precedentemente evocada, de certos povos
akan rumo a Norte e a Sul. Todos esses emigrantes, por sua vez, nessas regi-
es, fundaram chefias, cidades-Estado e principados tais como Kwahu, Akyem
Abuakwa, Akyem Kotoku e Akwamu; ou Wassa, Twifo, Igwira e Adom, mais
a Sul e, enfim, Tafo, Suntreso, Kaasa e Amakom, que agora fazem parte da
municipalidade de Kumasi42.
    O processo de formao do Estado parece ter-se acelerado entre 1580 e 1630.
Ao menos  isso o que sobressai em um dos mapas mais reveladores dos Estados

40    C. K. Effah-Gyamfi, 1978.
41    K. Y. Daaku, 1969, p. iii.
42    K. Y. Daaku, 1966, p. 10-13.
                                                                                                                                                                                                                               Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior
   MAPA DA COSTA DO OURO, 1629
   Mapa da regio da Costa do Ouro em Guin,
   estabelecido de acordo com informaes obtidas
   junto aos negros mais informados em diversos locais
   dessas costas e com nossa prpria experincia nas                                                Inosco. No h ouro nem comrcio que
   regies que nossas naes visitam habitualmente.                                            provem de l, porm possuem excelentes artigos.
   Essas informaes assim reunidas pela primeira vez                                        Roupas tecidas como carpetes que so vestidas pelos
   ficam ao interesse de quem quiser utiliz-las, na espera                                  Akans. Possuem tambm cavalos. Vivem em recintos
   de um melhor traado a ser feito por outro.                                                       fortificados, mas sem armas de fogo.


   Realizado em 25 de dezembro de 1629, em Moure, Guin
                                                                                   Nada                                  Nada                           Nada


                                                            Wanquie.
                                                           Tem ouro
                                             Incassa                                                    Inta
                                                             e so
                                              Igwijra     comerciantes        Bonnoe.                                                     Akan
                                                                            Povo simples e                                                                          Tafoe. Ricos em ouro
                                                                                                                                                                                                            Quahoe.
                                                                             sem floresta
                                                                                                                                                                                                         Ricos em ouro
                         Grande Inkassa
                                                                                                                                                                       Quahoe.
                                                                                                                                                                   Povo de travessos
                                                                                       Acanij. Aqui vivem os maiores                                                                                              Arcarady -
                                                     Wassa, muito
                                                                         Kuiforo      mercadores que negociam ouro                 Akim ou Grande Acanij.                                                         muito ouro
                                                     ricos em ouro
                                                                                                  conosco                           Povo muito delicado e
                                                                                                                                      rico em escravos
                   Igwijra.                                                                                                                                                                              Kammana
                Ricos em ouro
                                                                                                                                                                   Aquemboe.                   Aboera
                                                  Adom,                                                                                                          Povo de ladres              tem ouro
                                                                                                                           Aqua
                                               comerciantes
                                                                         Abramboe
                                Mampa.                                                                 A [?]
                                                                                                                                                                                      A, B, C,
                             Ricos em ouro
                                                                                                                                                                                    o Mercado                       Latabij
                                                                                                                                        Sonquaij                                                         Boenoe
                                                    Commendo ou Gualfo                                                                                                               de Acara
                                                                                                                  Fantjim (Costa                           Agwano ou pas de                             Equea
                                                     (Costa Oeste-Leste;                                          Oeste-Leste: mato,               Janconcomo, muito predisposto 
                                                                                Futu (Costa       Sat [?]
         Cabo de                                    Cocoberij, Aborbij boa                                        aldeia de Don Perdo,            guerra. (Costa Oeste-Leste; recanto
                                                                                Oeste-Leste,      (Costa,                                                                                  Grande Acara
        Trs Pontas                                 aldeia de pescadores,                                         aldeia de salineiros,          selvagem, (cabo coberto de rochas),
                        Anta. (Costa                                            lugarejos,        Oeste-Leste;                                                                          (Costa Oeste-Leste;       Ningo
                                                     Aytaque ou Pequeno                                           Anamabo, aldeia de               pescadores mijna, Baa de Polder,
                   Oeste-Leste; lugarejos,                                      aldeia salineira, aldeia                                                                                      Socho,
                                                      Comendo, Ampea,                                             plantadores, (cachalotes        Montanha do Diabo, Novo Bijamba,
                   aldeias de Pescadores,                                         Cabocors)       salineira M[?],                                                                           Momborijbij,
                                                  aldeia de salineiros, Mijna)                                    de Potter ?) aldeia de              Velho Bijamba, Barcu, Jaco,
                    Beturij, Papompando,                                                          aldeias                                                                                  Acara, Orsou)
                                                                                                                  salineiros, Cormantijn,              Cox broot, Pequeno Barcu)
                   Aioba, Tacorarij ou Anta,                                                      salineiras)
                                                                                                                  pescadores mijna, Rio Amijsa,                                                            Labade
                  Maquesanquie? Saconde,                                     ELMINA                               Rio Amijsa, aldeias salineiras,
                        Boarij, ama.)                                                                            pescadores mijna, Rio Indaco,                                              ACRA
                                                                                                                  aldeia de salineiros, aldeias de
 CABO DE TRS PONTOS                                                                                              salineiros)




                                                                                                                                                                                                                               493
Figura 14.4
   14-4         Reconstituio de um mapa da Costa do Ouro datando de 1629.
494                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



do Sul da Costa do Ouro, entre o Tano e o Volta, traado por um cartgrafo
holands, aos 25 de dezembro de 1629, o qual mostra alguns 38 Estados e reinos.
Todos, salvo dois deles, o Grande Incassa e Incassa Igwira43, foram identificados
depois e ainda existem nas mesmas regies.
    Tais Estados foram fundados pelos grupos de Ga e de Akan j mencionados.
Dado que tamanho nmero de Estados nasceu em um espao to restrito,  evi-
dente que eles s poderiam ser de pequeno porte. Na verdade, parecia que muitos
deles tinham sido ou simples cidades-Estados ou pequenas chefias. Todavia,
embora fossem de diversos tamanhos, provavelmente todos estavam organizados
do mesmo modo. Cada um deles tinha a sua frente um nico dirigente, ou um
rei e uma rainha. Em certos Estados, como a Confederao adansi, as famlias
reais dos diferentes Estados assumiam, alternadamente, o poder. Nos Estados
unitrios, conforme o princpio matrilinear, no caso dos akan, o rei era escolhido
na famlia real do Estado, geralmente a primeira famlia ou o primeiro cl a ter
chegado nestes lugares. Ele era cercado por um Conselho composto dos chefes
das famlias ou dos cls que constituam o Estado e era, antes que um ditador,
o primeiro dentre seus pares. Cada Estado tinha seus prprios deuses, dentre
os quais alguns eram elementos naturais, como rios, lagos ou rochedos, e cujos
sacerdotes exerciam uma considervel influncia na sociedade.
    O perodo que se estende de 1630 at por volta de 1670 foi marcado sobre-
tudo por duas categorias de acontecimentos polticos nas regies povoadas por
Ga e por Akan. A primeira foi a consolidao e o crescimento regulares dos Esta-
dos constantes do mapa de 1629 e, a segunda, foi a emergncia de novos Estados.
De todo modo,  claro, segundo as fontes orais, que reinos como os de Akwamu,
Denkyira, Accra ou Ga, Fnti, Wassa e Adom estenderam-se consideravelmente
e, na maior parte dos casos, de forma pacfica. Os ga, por exemplo, expandiram
seu reino a partir da costa e das plancies adjacentes para o Norte at incluir os
principados guan situados abaixo das colinas de Akuapem, onde estabeleceram
sua importante cidade-feira, Abonse (A, B, C, no mapa de 1629); e, para o Oeste,
onde absorveram os principados guan de Awatu e de Senya.  certo que o reino
alcanou a sua maior extenso territorial e o apogeu de sua potncia sob o reinado
de Okai Akwei, cuja durao aproximadamente foi de 1640 at 1677.




43    O Grande Incassa e o Incassa Igwira foram identificados por certos eruditos, como Fynn e Porter, como
      sendo os Estados sefwi, cuja emergncia ser estudada em seguida. Todavia, a hiptese  duvidosa, pois
      as tradies orais no fazem nenhuma meno a eles, nem fazem referncia  mnima relao com tais
      Estados. Ver R. Porter, 1974, p. 37; J. K. Fynn, 1971.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           495



    Tambm foi durante esse perodo que o Estado aduana de Akwamu se
transformou em um potente reino, ocupando as regies hoje correspondentes a
Asamankese, Kade e Nsawam, bem como a regio de Akuapem, ao passo que
o Denkyira, rompendo com a Confederao adansi aps uma srie de guerras
ocorridas entre 1650 e 1670, implantava-se solidamente na regio da confluncia
do Ofin e do Pra44. Os fnti da costa tambm expandiram seu territrio para
o interior e as narrativas europeias da poca esto cheias de aluses s guerras
ocorridas entre eles e os povos etsi, mais a Norte45. Os territrios wassa e adom,
a Sul e a Oeste, da mesma forma, alargaram suas fronteiras nessa poca.
    A guerra denkyira-adansi da metade do sculo (1650-1670) e a guerra bono
aceleraram enormemente o andamento das migraes, para o Sul e para o Oeste,
nas regies florestais habitadas por povos mais antigos como os adisi, ewotre,
agwa, kompa e os lagunares. Esses novos grupos foram os fundadores no s do
Aowin, na regio da atual Wassa Amanfi, tendo por capital Enyini Nsu, situada
perto do vilarejo de Anwianwia46, mas tambm fundaram os trs Estados sefwi
de Anwhiaso, de Bekwai e de Wiawso, no Sul, alm de Estados como Assini,
Abripiquem e Ankobra e numerosas cidades ao longo do litoral. Estabelecido
em uma das mais ricas regies aurferas e na borda da principal rota comercial
que ligava as feiras do Norte, Begho e Bondoukou,  costa, Aowin tinha se
tornando, por volta de 1670, um reino muito rico e potente47.
    Alguns dos migrantes das regies denkyira-adansi partiram tambm para
o Norte e foram eles os fundadores dos Estados oyoko de Kumasi, Kokofu,
Dwaben, Nsuta e, mais tarde, de Bekwai, assim como dos Estados bretuo de
Mampong e Afigyaase, todos em um raio de mais ou menos cinquenta quilme-
tros em torno de Kumasi. Outros fundaram ainda o Estado aduana de Gyaaman
ou Abron, mais ao Norte, entre os gbin, os nkoran, os nafana, os fantara e os
kulango que ocupavam essa regio48.
    Segundo as indicaes das quais dispomos, parece certo que todos os novos
Estados nascidos durante esse perodo possuam as mesmas estruturas daquelas
j existentes. No caso dos Estados sefwi e aowin, por exemplo, companhias de
asafo (guerreiros) reagrupadas em torno dos bairros de habitao sobrepuseram



44   I. G. Wilks, 1957; K. Y. Daaku, 1970b, p. 144-161.
45   A. A. Boahen, 1965, p. 175-180.
46   Comunicao pessoal de H. Diabat (1977).
47   K. Y. Daaku, s. d.
48   E. A. Agyeman, 1965, p. 36-39; A. Clrici, 1962, p. 27-28.
496                                                         frica do sculo xvi ao xviii



 estrutura sociopoltica preexistente, o sistema de cls muito evoludo dos akan
e as instituies da realeza fundadas nas eleies matrilineares.
    Contudo, entre 1570 e 1600, houve, nessas regies, uma autntica revoluo
poltica marcada no pelo nascimento de novos Estados, mas pela centralizao
daqueles que j existiam, o Aowin e o Denkyira, esses sendo, ao que parece,
os primeiros a se engajarem nesse sentido. Entre 1670 e 1690, no somente o
Aowin conquistou os Estados sefwi do Norte e do Oeste, mas tambm se esten-
deu muito longe para o Oeste, anexando cidades como Keteso, Yawu, Brako e
Sikasso, todas na atual Costa do Marfim49.
    Justamente quando o Aowin estava em plena expanso para o Norte e o
Oeste, o Denkyira lanava-se tambm nas conquistas territoriais, praticamente
em todas as direes a partir de sua capital, Abankieso, situada na confluncia
do Ofin e do Pra. Por meio de uma srie de brilhantes campanhas militares, os
chefes agona do Denkyira conquistaram, a Norte, todos os Estados adansi bem
como os Estados pr-ashanti da regio de Kumasi e, ao Sul, Assin e Twifo. Entre
1686 e 1690, o Denkyira venceu o Aowin, alm dos Estados sefwi e os Wassa, a
Sudoeste, bem como os reinos costeiros de Adom e de Fetu50. Em 1690, domi-
nava o Sudoeste da Costa do Ouro e certas partes da Costa do Marfim51.
    Na mesma poca, o Akwamu impunha-se igualmente nas regies do Sudeste.
A partir de sua nova capital, Nyanoase, situada perto da atual Nsawan, os chefes
akwamu laaram seu primeiro ataque contra o Reino Ga, concluindo a con-
quista desse em 1681. A partir da, voltaram-se para o Oeste e conquistaram o
reino costeiro de Agona, em 1689. Suas ltimas campanhas, entre 1702 e 1710,
permitiram-lhes tornarem-se os senhores no apenas dos Estados adangbe, a
Leste, e de Kwahu, a Norte, mas tambm submeter os Estados ewe de Peki, Ho
e Kpandu, aps terem atravessado o Volta52.
    Os dispositivos administrativos implementados pelos denkyira e pelos
akwamu para governarem seus imprios eram praticamente os mesmos. O
imprio dividia-se em dois: a regio metropolitana e a regio provincial. A
primeira era constituda pelo territrio em torno da capital onde amanhene
(rei) residia, reinando sobre todo o imprio. Sob sua autoridade havia toda uma
srie de dignitrios ou de reis que desempenhavam um certo nmero de funes
na corte, tais como o batahene (ministro do comrcio), o sanaahene (ministro


49    K. Y. Daaku, s. d.
50    Ibidem, p. 156-160.
51    W. Bosman, 1967, p. 72-73.
52    I. G. Wilks, 1957; K. Y. Daaku, 1970b, p. 153-156.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           497



das finanas), o gyaasehene (ministro do interior), o akyeamehene (ministro das
relaes exteriores e linguista-chefe) e o sumankwaahene (ministro dos assuntos
religiosos). Para fins poltico-militares, cada Estado estava subdividido em asas:
trs, no caso do Denkyira, e cinco, no de Akwamu. As subdivises denkyira eram
o akumatire (asa direita), o kyeremfem (asa esquerda) e o agona adontendom (van-
guarda) 53. As asas akwamu eram o bankum (asa esquerda), o nifa (asa direita),
o adonten ou krontire (vanguarda), o kyidom (retaguarda) e o gyaase.  frente
de cada uma das asas encontrava-se o rei de uma cidade ou de um Estado da
regio metropolitana, at mesmo aquele da prpria capital. Ele exercia o poder
poltico nessa asa em tempos de paz e tornava-se o osafohene (chefe de guerra),
em tempos de guerra. Todos os chefes de asa eram membros do conselho que
instrua o omanhene. A parte provincial do imprio era formada por todos os
Estados que haviam sido conquistados e anexados. Cada um deles continuava
a ser governado por seu prprio rei, mas ou era colocado diretamente sob a
autoridade do omanhene, ou sob a de um chefe de asa. Cada Estado devia pagar
um tributo anual e combater na asa de seu chefe, em caso de guerra.
    Dado que o Denkyira foi o primeiro Estado a formar um imprio e que pos-
sua trs asas, enquanto o Akwamu tinha cinco (das quais trs eram idnticas s
do primeiro),  evidente que o Akwamu emprestou do Denkyira o novo sistema
poltico-militar imperial e limitou-se em melhor-lo acrescentando mais duas
asas, o kyidom e o gyaase.
    Muitos historiadores remeteram a histria poltica da Costa do Ouro quase
exclusivamente quela da ascenso do Imprio Ashanti. Porm, o curso dos
acontecimentos polticos foi muito mais complexo que isso. Em primeiro lugar,
o sculo XVIII assistiu ao nascimento e a imposio de um certo nmero de
Estados diferentes do Imprio Ashanti. Em seguida, viu, de um lado, o renasci-
mento, ainda que de curta durao, do Aowin e, de outro lado, a derrubada do
Denkyira e do Akwamu, respectivamente pelo Ashanti e pelo Akyem. Depois,
esse mesmo sculo testemunhou o apogeu do Reino Fnti em sua amplitude
territorial e, por fim, a ascenso do Imprio Ashanti, notadamente reconhecido
como o acontecimento mais brilhante de todos.
    Tais so os Estados que se formaram no sculo XVIII: Nzima, os Estados
aowin ou anyi de Sanwi, Ndenye, Diabe, Moronou e Bettie e os numerosos
principados baoul. Aps terem sido derrotados pelos denkyira pouco depois
de 1680, os aowin ou anyi abandonaram a regio de Anwianwia sob a direo


53   J. K. Kumah, 1966, p. 33-35; K. Y. Daaku, 1970b, p. viii.
                                                                                                                                                                                  498
                                                                                                                                    0               70               140 milhas
                                                                                                                                    0              100               200 km


                                                                                                                                                                 Denkyira
                                                                                                                 MAMPRU
                                                                                                                        SI                                       Akwamu

                                                                                    GONJA




                                               Ri
                                                 o Co 
                                                                                                                                DAG




                                                     mo
                                                                                                                                    OM   BA
                                                                                                                         Rio
                                                                                                                               Vo
                                                                                                                                 l ta

                                                                       GYAAMAN                                                                  NANUM
                                                                                            BONO                                                       BA
                   B




                                                                                                                                                                 Ri
                       A




                                                                                                                                                                   o Mo
                                                                                                                                              DANYI
                            O                                                                                                                  AVATIME




                                                                                                                                                                     no
                                U                                                      Mampong
                                       L                  DIAB
                                                                                                         Nsuta
                                           
                           Ri




                                                                                                         Dwaben                                             Notsie
                             oB




                                                                                  Offinso                      KWAHU
                                                                                                      Kumasi                             PEKI
                               an




                                                                                                                   AKYEM                          Ho
                                                              NDEN                                     Bekwai
                                da




                                                                  YE                                                                            AGOTIME        BE
                                                                                       ASHANTI
                                  ma




                                                                                                                                              ADAKLU
                                                                  SEFWI
                                                                                 Abankieso ASSIN




                                                                                                                                                    LO
                                                              AOW




                                                                                                                                                   AN
                                                                                                                  Nyanoase              GA




                                                                                                                                                                                  frica do sculo xvi ao xviii
                                                                    IN                                TWIFO
                                                                                            Rio Pra                  ONA
                                                                                                                                 Acra
                                                          SANWI                                                   AG
                                                                                                             E
                                                                                                        FANT
                                                                           NZI
                                                                              MA




Figura 14.5   Os Estados da costa da Guin Inferior em 1700 (segundo A. A. Boahen).
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                               499



de seu chefe Amo Aseman e atravessaram o Tano, reconstituram seu reino em
torno de Enchi, aps a conquista do Estado preexistente de Agwa (Sohi e
Anabula). Ainda no o haviam consolidado plenamente quando foram atacados
pelos ashanti, em 1715, os quais obrigaram alguns deles a emigrarem para o
Oeste onde, conquistando os aqua, os aboisse, os abakulo e os ekuebo, depois
os eotile, fundaram o reino Sanwi54. Tendo estabelecido sua capital em Krinjabo
no tardaram a se apossarem de Assin, garantindo, deste modo, o controle das
trocas entre o interior e a laguna de Aby.
    No Norte de Sanwi surgiram os outros Estados anyi de Ndenye e Diabe, fun-
dados, no mesmo momento que Sanwi, pela coluna de refugiados de Anwianwia,
que se dirigiu para o Noroeste55, at a regio ocupada anteriormente pelos agwa,
os abure e outros grupos lagunares. At aproximadamente 1715, os anyi de
Ndenye juraram fidelidade a Aowin, porm uma parte deles rebelou-se contra
tal situao e fundaram o reino de Bettie. Uma frao dos anyi, os monfwe,
atravessou o Camo para criar o reino Moronou56. Se nada sabemos das relaes
existentes entre esses dois Estados, por outro lado, sabemos que Ndenye defini-
tivamente submeteu-se  autoridade dos ashanti. Perrot e Gross concordam ao
pensarem que Ndenye servia ao ashantihene por intermdio do Estado sefwi de
Wiawso, porm estudos mais recentes confirmam que, como alega Daaku, esse
intermedirio era, de fato, o bantamahene de Kumasi57.
    No Noroeste dos anyi, entre os rios Como e Bandama, ao longo da pri-
meira metade do sculo XVIII, tambm nasceu uma poro de principados
e chefias baoul. Destaca-se nas tradies orais sobre os fundadores desses
Estados que eles chegaram atravs de duas levas distintas da Costa do Ouro58.
A primeira trouxe os baoul alaguira quase no mesmo momento que os anyi,
aproximadamente em 1700, vindos do Denkyira que, em 1700-1701, havia
sido vencido pelos ashanti. Primeiramente, estabeleceram-se na regio do atual
canto de Agba e, a partir da, alguns foram viver entre os guro e os koro, no
Oeste.
    A segunda leva, composta de Assabu, muito mais expressiva do que a pri-
meira, chegou de Kumasi aps o conflito de sucesso que estourou na morte


54   Comunicao pessoal de H. Diabat, 1977. Ver tambm R. A. Horowitz, 1974, p. 330-379; H. Diabat,
     1977; A. Clrici, 1962, p. 27-31.
55   C. H. Perrot, 1970 e 1974.
56   A. Clrici, 1962, p. 27-31.
57   C. H. Perrot, 1970 e 1974; K. Y. Daaku, 1971.
58   J. P. Chauveau, 1979, p. 24-25; A. Clrici, 1962, p. 28-29; T. C. Weiskel, 1980, p. 5-8.
500                                                          frica do sculo xvi ao xviii



de Osei Tutu, em 1717. Segundo suas tradies orais, eles foram conduzidos
por sua rainha Abla Poku, que sacrificou seu filho ao esprito do rio Camo
para permitir-lhes atravess-lo, da seu nome Baol, que significa "a criancinha
morreu". Depois disso, alguns foram direto para o Norte a fim de formarem o
Ando, ao passo que outro grupo se dirigiu para o Sul e se estabeleceu em Grande
Mori, entre os attie e os abe. O restante, sempre sob o comando de Abla Poku,
rumou para o Sul, atravessando o Bandama, depois, continuou na mesma direo
e se estabeleceu na regio de Bouak. O grupo que a se fixou dividia-se em oito
grandes famlias ou cls: os faafuwe, os nzipri, os aitu, os nanafowe, os warebo,
os saafowe, os agba e os ngan59. Tudo indica que Akwa Boni, que sucedeu Abla
Poku soube impor sua autoridade aos baoul, aos mande e aos malink, os quais
ocupavam a regio de Warebo, mas, aps sua morte, o reino retalhou-se em
chefias independentes. Todos os novos invasores misturaram-se rapidamente aos
guro, aos malink, aos senufo e aos goli, para formarem o povo baoul de hoje.
    Foi nessa poca que nasceu, na mesma regio, o Reino Nzima, criado pelos
trs irmos, Annor Blay Ackah, Bua Kpanyili e Amihere II. Estes conseguiram
impor sua autoridade aos trs Estados j constitudos, Jamoro, Abripiquem e
Ankobra, graas  fortuna que haviam acumulado comerciando com os europeus.
O mais clebre dos trs irmos, Amihere II, tornou-se extremamente rico nos
anos 1760. Conseguiu expandir as fronteiras do novo reino, bem como aumen-
tar a populao favorecendo, deliberadamente, a implantao de estrangeiros.
Conhecido nos anais europeus pelo nome de Apollonia, esse novo Estado domi-
nou a extremidade Sudoeste da Costa do Ouro durante todo o sculo XVIII.
    Alguns Estados preexistentes, tais como o Abron, o Sefwi, o Wiawso, o Aowin
e o Fnti, aumentaram sua potncia e sua influncia. O Aowin, por exemplo,
parece ter restabelecido sua independncia do Denkyira durante o ltimo dec-
nio do sculo XVII e, consideravelmente reforado pelo afluxo dos refugiados
que fugiam das guerras ashanti-denkyira, foi capaz de estender sua dominao
sobre os Estados sefwi e empreendeu a conquista das regies do Norte produ-
toras de ouro e de marfim durante os dez primeiros anos do sculo XVIII. Tal
Estado havia se tornado to potente e conquistador que, sob o comando, de Ebri
Moro, seus homens invadiram o Ashanti, em 1718-1719, atacaram e pilharam
a capital Kumasi, retornando com um rico esplio de guerra e alguns cativos,
dentre os quais havia alguns membros da famlia real ashanti60.


59    A. C. Clrici, 1962, p. 28-29; J. P. Chauveau, 1974.
60    K. Y. Daaku, s. d.; J. K. Fynn, 1971, p. 43.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                                       501



    Igualmente, no princpio do sculo XVIII, os chefes do Estado de Abron
conquistaram o Kulango, ao Sul, e uma parte do Nafana, ao Norte; estenderam
sua autoridade ao Oeste at a margem do Camo e, assim, tornaram-se senhores
das rotas comerciais ligando Bondoukou a Kumasi e a Krinjabo. Ao mesmo
tempo, o Abron transformou-se em um Estado muito particular, na verdade,
nico em seu gnero, pois era formado de elementos akan, kulango, nafana e
mande. A posio poltica dominante era ocupada pelos invasores akan, que
conservavam seus cls e seu sistema matrilinear de herana, bem como seu sis-
tema judicirio e certos aspectos de sua religio tradicional. Contudo, adotaram
uma parte do folclore, dos cantos e das danas dos kulango e dos nafana, alis,
sem tocar nas estruturas sociais e na organizao poltica deles, no nvel rural e
campestre. Ademais, alguns dentre esses trs grupos adotaram a religio islmica,
introduzida pelos mande-jula, os quais tambm exerceram uma forte influncia
no sistema econmico do reino61.
    Foi tambm durante o primeiro decnio do sculo que os Akwamu empur-
raram os limites territoriais de seu imprio at a outra margem do Volta62. E em
parte foi para replicar a essa expanso akwamu e, mais tarde,  de Ashanti e  de
Akyem, das quais falaremos agora, que os fnti conquistaram tambm, por volta
de 1730, os Estados costeiros vizinhos, Aguafo e Fetu, a Oeste, e o Estado de
Agona, a Leste63. Tais conquistas conferiram-lhes o poder sobre a banda costeira,
entre a desembocadura do Pra e a fronteira do Reino ga.
    As mudanas polticas que sobrevieram nas regies da floresta central, entre
o Camo e o Volta, entre 1500 e 1800, foram ainda mais surpreendentes. O
primeiro desses acontecimentos polticos foi a derrota e a queda do Imprio
Denkyira, pela jovem confederao de Estados ashanti, ocorrida no fim de
uma srie de guerras, entre 1699 e 1701. Tal derrota foi seguida da conquista
de todos os Estados vassalos do Denkyira: os Estados sefwi (1701-1702), twifo
(1712-1713) e wassa (1713-1726). Os ashanti no pararam por a e conquista-
ram o Aowin (1715-1721), o Nzima (1715) e o Estado anyi de Ndenye (1715),
a Sudoeste, bem como o Wendi (1711-1714), o Bono (1723-1724), o Estado
abron (1731-1740) e o Gonja (1732), a Noroeste64. Assim, em 1730, a totalidade



61   M. Toure, 1974, p. 463-478.
62   I. G. Wilks, 1957.
63   A. A. Boahen, 1965, p. 180-182.
64   Para os detalhes sobre tais campanhas militares e conquistas, ver J. K. Fynn, 1971, p. 40-83; K. Y. Daaku,
     1970, p. 173-181; I. G. Wilks, 1975, p. 18-29.
                                                                                                                                                                                              502
                                                                                                                                                0          70               140 milhas
                                                                                                                                                0         100               200 km


                                                                                                                                                                            Imprio Achanti
                                                                                                                                                                            e sua rea de
                                                                                                                                                                            influncia


                                                                                                          GONJA
                                                                                                                                DAGOMBA




                                                                                                                                                                 Rio Mono
                                                                                                                                      Rio
                                                                                                                                            V




                                                                                                                                            ol
                      ma




                                                                                                                                              ta
                                                                                  GYAAMAN
                  Rio Banda




                                                                                                           BONO
                                Bouak
                                                                          DIAB

                                          BA
                                            OU                                                                                                         DANYI
                                               L                                                                                                               Notsie
                                                                                                                                                     AVATIME
                                                                     NDENYE
                                                                                                                                                      AGOTIME
                                                    ANYI                      SEFWI                              Kumasi                             PEKI
                                           MORO                                                                                   AKYEM               AKWAMU          BE
                                                   NOU                                                                                                 ADAKLU
                                         AB                 TIE                                      DE
                                           E             AT                 AOWIN                      NK                                                ANLO
                                                                      




                                                                                                         YIR
                                                                   mo




                                                                                          Rio Tano

                                          ABIDJI                                                             A




                                                                                                                                                                                              frica do sculo xvi ao xviii
                              Tiassal
                                                                Co




                                                                                                                   ra
                                     ADIOUKROU
                                                                                                                     P
                                                            Rio




                                                    EBRIE                                                        Rio         TE
                                                                                                                          FAN
                                          AM     ALLADIAN          SANWI                                                                    Acra
                                     AVIK
                                                                                  NZI
                                                                                     MA




Figura 14.6   Os Estados da costa da Guin Inferior em 1750 (segundo A. A. Boahen).
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                            503



da regio compreendida entre o Camo e o Volta encontrava-se sob o controle
ashanti.
    O segundo acontecimento poltico da poca foi a derrota do Akwamu pelos
akyem abuakwa e seus aliados, os ga, os kotoku e os agona, em 173165. Essa derrota
ocasionou no s a expulso dos chefes akwamu de seus territrios de origem  e
foi do outro lado do Volta que eles fundaram sua capital atual, Akwamufie , mas
tambm a anexao da totalidade da bacia de Birim-Densu pelos akyem abuakwa.
Desta forma, em 1733, toda a regio compreendida entre o Camo, a Oeste, e o
Volta, a Leste, tinha sido partilhada entre os ashanti, os akyem e os fnti.
    O ltimo passo a ser dado para concluir o processo de centralizao foi exe-
cutado entre 1731 e 1750, quando os ashanti conquistaram no apenas os akyem
kotoku e os akyem abuakwa (1742), e o Estado ga (1744-1745), ao Sul, mas tam-
bm o Gonja oriental e o Estado dagomba (1744), a Norte do Volta, bem como
os Estados krakye e bassa (1744-1745), a Nordeste66. Portanto, na metade do
sculo XVIII, o Imprio Ashanti ocupava uma zona compreendida entre a metade
interna do Camo, a Oeste, e o Volta, a Leste, bem como para alm do Volta, ao
Norte, at o mar, ao Sul, salvo apenas o Estado fnti, situado diretamente no Sul
de Kumasi. Os fnti mantiveram sua soberania ao longo do sculo XVIII, graas,
notadamente, a sua habilidade diplomtica, e, tambm, ao firme apoio, do qual se
beneficiavam, da parte dos britnicos da costa, cuja poltica constitua em impedir
os ashanti de estabelecerem sua dominao sobre o conjunto do litoral67.
    A estrutura e o governo desse imprio no eram fundamentalmente diferen-
tes daqueles do Akwamu e do Denkyira. Como esses, dividia-se em duas partes:
o Ashanti metropolitano e o Ashanti provincial ou, segundo os termos de Arhin,
o Grande Ashanti. O Ashanti metropolitano no consistia simplesmente em
uma cidade ou um Estado, como no caso do Denkyira ou do Akwamu, mas  e
a reside uma das diferenas mais marcantes entre esses dois imprios e ele  era
formado por todos os Estados preexistentes em um raio de uns cinquenta qui-
lmetros em torno de Kumasi, a saber, Dwaben, Kokofu, Bekwai, Nsuta, Mam-
pong, Offinso, Asumenya, Denyasi, Adansi e Kuwamu. Todos eles reconheciam
o ohene (rei) do Estado de Kumasi como seu ashantihene (rei supremo) e Kumasi
como sua capital; viam no Asomfo (Tamborete de Ouro) a alma e o smbolo
sagrado da unidade e da permanncia da nao ashanti, e eram representados
pelo seu prprio omanhene no Conselho do asanteman, rgo do governo, da

65   F. Addo-Fening, 1980.
66   I. G. Wilks, 1975, p. 18-29; J. K. Fynn, 1971, p. 57-80.
67   Para mais detalhes ver A. A. Boahen, 1965, p. 182-185, e 1974.
504                                                         frica do sculo xvi ao xviii



federao e de todo o Imprio. Por razes polticas e militares, o Ashanti metro-
politano estava dividido, como o Akwamu, em cinco asas portando exatamente
os mesmos nomes: benkum, nifa, adontem, kyidom e gyaase. Cada um dos Estados
que o compunha organizava-se segundo o mesmo modelo.
    A segunda parte do Imprio, o Grande Ashanti, era formada por todos os
Estados conquistados e reduzidos pelos ashanti  condio de vassalos ou de
dependentes. Esses Estados no possuam representantes diretos no Conse-
lho do asanteman, nem qualquer acesso direto junto ao ashantihene, mas cada
um deles se submetia a esse ltimo por meio de um intermedirio, o adamfo
("Estado cliente"), se ele j no fosse um, representado por um dos reis ou um
dos Estados membros da confederao, ou ainda por um dos chefes de asa do
Estado de Kumasi, residindo habitualmente em Kumasi. Assim, o Krakye e o
Bassa juraram fidelidade a Kumasi por intermdio do dwabenhene; o Gonja,
do mamponghene; o Atpebubu e o Denkyira, respectivamente, do adontehene
e do akwamuhene de Kumasi68. Salvo a sujeio a um desses reis, os Estados
encontravam-se essencialmente livres para disporem deles mesmos e tudo aquilo
que se esperava de sua parte era o pagamento do tributo anual e a participao
nas guerras dos ashanti. Foi para reforar esse sistema  alis, muito liberal 
da administrao provincial que, durante os quarenta ltimos anos do sculo,
representantes ashanti foram chamados a permanecerem em certos Estados
provinciais na qualidade de comissrios regionais de distrito69.
    Portanto, as regies florestais e costeiras da Guin Inferior, entre 1670 e
1750, conheceram uma verdadeira revoluo poltica, simultaneamente, fsica e
estrutural. Os trinta e oito Estados constantes do mapa de 1629, primeiramente,
cederam espao aos trs grandes imprios de Aowin, Denkyira e Akwamu que,
desde 1750, encontravam-se reunidos em um nico imprio, o dos ashanti.
    A primeira razo do avano desses imprios e da centralizao dos Estados
foi que os quatro imprios em questo tinham, ao mesmo tempo, a vontade de se
expandir e o dinheiro necessrio para comprar armas e munies: a produo de
ouro estava concentrada em seu territrio e as nozes-de-cola, gneros principais
do comrcio com o Norte, provinham principalmente do Akwamu e do Ashanti.
Ademais, de acordo com sua situao geogrfica, tais Estados desempenhavam
o papel de intermedirios comerciais entre as regies da costa e as da savana.
    Estendendo-se para o Norte e para o Sul, esperavam assegurar o domnio
das principais rotas comerciais, mas tambm de outras regies produtoras de

68    I. G. Wilks, 1975, p. 39 e 151.
69    A. A. Boahen, 1965, p. 342-344.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           505



ouro e de noz-de-cola. A presena dos europeus na costa tambm os estimulou
nesse processo. Na metade do sculo XVII, o comrcio com os europeus de fato
tornara-se muito mais lucrativo do que as trocas com as regies da savana, e era
irresistvel o desejo de cada um dos pases do interior de se estender at a costa
para, assim, comerciar diretamente com os europeus e se enriquecer o quanto
fosse possvel. No h nada de surpreendente nisso, pois mais cedo ou mais tarde,
uns e outros, abriram um caminho, com o uso de armas, at a costa; o Aowin
absorvendo as regies constituintes do Apollonia; o Denkira empurrando suas
fronteiras at o Ahanta e o Fetu; o Akwamu conquistando os reinos agona e
ga do litoral e, os Ashanti, tornando-se finalmente os senhores do conjunto e
entrando em contato direto com os europeus.
    Os Estados que constituram o Ashanti Metropolitano obedeciam a uma
motivao no apenas econmica, mas tambm poltica. Alm de todos terem
sido conquistados pelo Denkyira, tambm foram submetidos a um tratamento
to tirnico e opressivo da parte de seus conquistadores, que somente espera-
vam pelos chefes que saberiam reunir suas foras e reverter o jugo denkyira.
O fato de que os denkyira governaram os pases conquistados como opresso-
res  atestado no apenas pelas tradies orais dos Estados pr-ashanti, mas,
tambm pelas fontes europeias da poca. Deste modo, em 1701, o diretor
geral da Feitoria holandesa de Elmina, J. Van Sevenhuysen, notava que: "Os
denkyira, de longa data, mostraram-se muito belicosos, orgulhosos de suas
vitrias e insuportveis para com seus vizinhos." Bosman, outro observador
contemporneo, por sua vez assinalava: "O Denkyira, impelido por suas gran-
des riquezas e potncias, adquiriu tanta arrogncia que comeou a ver todos os
outros negros com um olhar de desprezo, estimando-os apenas como escravos;
o que fez dele objeto do dio comum, cada um desejava impacientemente a
sua queda70." Faltava a estes Estados a possibilidade de se reagruparem atrs
de um ou de vrios chefes, encarnados por Osei Tutu e Opoku Ware, os fun-
dadores do Imprio Ashanti.
    Por outro lado, tais Estados encontravam-se, no princpio de sua empreitada
expansionista, livres de toda ingerncia em seus negcios interiores. Eis um
fator essencial, pois explica porque os Estados akyem e aqueles do litoral, ainda
que no desprovidos de dinheiro e de motivao, no conseguiram se constituir
como imprios: os primeiros pressionados entre os Estados em expanso  o
Denkyira, depois, o Ashanti, a Oeste, e o Akwamu, a Leste  permaneceram na


70   W. Bosnman, 1967, p. 74-75.
506                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



defensiva durante os sculos XVII e XVIII. Do mesmo modo, os Estados cos-
teiros constantemente eram expostos s intervenes das naes europeias rivais
presentes na costa, intervenes que, de tempos em tempos, desencadearam
conflitos armados como aquele que ops os komenda aos holandeses, aps 1690.
Na verdade, durante esses dois sculos, a linha de conduta poltica dos europeus
foi principalmente a de impedir que um s Estado impusesse sua autoridade 
costa. Eis a um problema com o qual no sofreram os Estados de Aowin, do
Denkyira, de Akwamu e do Imprio Ashanti; situados ao longe, no interior das
terras, inicialmente poupados da ingerncia direta dos europeus, conseguiram
estabelecer suficientemente sua potncia antes de entrar em contato com eles.
    Todavia, para compreender o avano dos trs imprios  preciso levar em conta
dois outros fatores: a adoo de uma nova tcnica e o modo notvel da gesto
de seu governo. A partir da segunda metade do sculo XVII, os fuzis e a plvora
tornaram-se os gneros europeus mais estimados; o ouro e as outras riquezas,
das quais dispunham os dirigentes desses Estados, lhes permitiam comprar todas
as munies de que havia necessidade. A aquisio de armas de fogo teve por
efeito a acelerao considervel do processo de expanso. A forma tradicional de
guerrear consistia, para os dois campos inimigos, em se alinhar frente a frente,
em fileiras apertadas e combater com lanas, espadas, machados, facas, arcos e
flechas e at mesmo, corpo a corpo. Esse modo de afrontamento foi modificado
pela utilizao dos fuzis: o corpo da tropa foi dividido primeiramente em trs asas
combatentes (Denkyira), depois, em cinco (Akwamu e Ashanti). Em seguida, tal
nova formao militar sobreps-se  estrutura poltica tradicional, centrada no rei
governando em torno do conselho dos chefes de cl e de linhagem. Se no fosse
a qualidade dos seus chefes, esses Estados no teriam podido adaptar sua forma
tradicional de combate e suas velhas estruturas polticas  nova tcnica.
    Atualmente, no sabemos muito a respeito dos reis aowin, mas tanto as
fontes orais quanto os documentos europeus so unnimes em reconhecer que
os soberanos do Denkyira, do Akwamu e do Ashanti eram excepcionalmente
corajosos, sutis e competentes. Os reis denkyira em questo eram Werempi
Ampem, Boadu Akafu Brempon e, em ltimo lugar, o mais ilustre de todos,
Boa Amponsem, ao passo que os Akwamu tinham  sua frente Ansa Saskrakru,
Basua e Akwono, e os Ashanti, Osei Tutu e Opoku Ware71. Foram esses reis
que, por meio de uma srie brilhante de campanhas militares, empreendidas no



71    Encontraremos um estudo detalhado sobre o papel desempenhado pelos soberanos em J. K. Fynn, 1975;
      A. A. Boahen, 1965; K. Y. Daaku, 1970b; J. K. Kumah, 1966; I. G. Wilks, 1957.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                  507



momento oportuno e cuidadosamente coordenadas, converteram seus pequenos
reinos nestes enormes imprios.
   Numerosos historiadores acreditam que o crescimento da potncia desses
imprios resultou do trfico de escravos. Fage, por exemplo, sustentou que
         "no conjunto,  provavelmente justo dizer que o trfico de escravos, em seu fun-
     cionamento, tendeu a integrar, a reforar e a desenvolver uma autoridade territorial
     militar, enfraquecendo, por outro lado, sociedades mais segmentares. Certamente,
     podemos discutir a fim de saber se isso foi bom ou ruim, porm do ponto de vista
     histrico, tal fato pode parecer como um movimento repleto de sentidos e, talvez,
     mais ou menos inevitvel" 72.
    Clrici e outros so da opinio de que "podemos at mesmo dizer que esses
reinos (o Daom e o Ashanti), que antes no existiam, nasceram do trfico" 73.
Se isso  verdade em relao s outras partes da frica do Oeste, no o  para
a regio que aqui nos interessa. Vimos que o trfico de escravos na Costa do
Ouro no se tornou verdadeiramente uma atividade econmica notvel antes
dos primeiros anos do sculo XVIII. Ora, os empreendimentos expansionistas
dos quais falamos comearam entre 1670 e 1690. Em outras palavras, ao menos
na Costa do Ouro, o trfico de escravos foi a consequncia e no a causa do
processo de edificao dos Estados.
    Nada comparvel aos transtornos polticos que acabaram de ser evocados
produziu-se nos territrios akan, a Oeste do Tano, nem nas regies ewe, a Leste
do Volta, foco dos grupos lagunares, dos anyi e dos baoul. Nessa regio, a situ-
ao poltica em 1800 era sensivelmente a mesma daquela de cinquenta ou cem
anos antes, com uma organizao em pequenos reinos ou principados, sendo
que cada um era constitudo de uma associao de grupos familiares, de ligaes
relativamente tnues, pertencentes a diversos cls, cujas origens remontavam a
um ancestral comum.
    Em 1800, o territrio ewe encontrava-se ainda dividido em uma poro de
dukowo independentes (divises territoriais, ou aquilo que Amenumey chama
de "chefias ou senhorias") de tamanhos variados, indo de Wodze, consistindo
em uma s cidade, at Anlo, composto de 36 cidades e vilarejos, todos com-
pletamente independentes uns dos outros e dispersos em grandes superfcies74.
Por volta de 1900, no havia menos de 120 dukowo no pas Ewe. Cada um


72   J. D. Fage, 1969a.
73   A. Clrici, 1962, p. 67.
74   D. E. K. Amenumey, 1969; C. K. Nukunya, 1969.
508                                                         frica do sculo xvi ao xviii



deles era governado por um fia (rei) que era eleito patrilinearmente em uma
ou duas linhagens das famlias fundadoras. Ele era assistido por um conselho
de ancios que devia ser consultado sobre cada deciso a ser tomada. Sob sua
autoridade encontravam-se os chefes das aldeias do dukowo e cada uma delas
era tambm composta de linhagens que, por sua vez, possuam seu prprio
chefe. No mbito da aldeia ou da cidade, cada adulto do sexo masculino e de
corpo sadio participava das reunies pblicas durante as quais eram discutidos
os problemas que interessavam  aldeia ou  cidade, antes que uma deciso
fosse tomada pelo chefe e pelos ancies. Vrias razes explicam porque os akan
do Oeste, da bacia do Tano-Bandama, e os ewe da bacia do Volta-Mono no
reforaram suas estruturas sociopolticas. Primeiramente, as duas zonas conti-
nuaram acolhendo migraes do exterior ao longo dos sculos XVII e XVIII,
ao passo que prosseguia tambm, at o sculo XIX, a tendncia  diviso e 
implantao de focos de povoamento cada vez menores. Aproximadamente
em 1800, por conseguinte, tais povos ewe e akan do Oeste no se encontra-
vam suficientemente fixados para se arriscarem nas guerras de expanso. Em
segundo lugar, esses migrantes fugiam das hegemonias centralizadoras ou da
conduta tirnica de seus antigos senhores. Portanto, verdadeiramente, eles no
tinham pressa em recriar estruturas sociopolticas das quais eles prprios haviam
escapado. Em terceiro, no caso dos ewe, faltava uma motivao econmica para
edificar um Estado. Para retomar os termos de Amenumey, "ao pas ewe faltava
um estimulante econmico que  o pr-requisito indispensvel  evoluo para
entidades polticas centralizadas.  a produo de excedentes econmicos que
fornece o primeiro motivo para a centralizao" 75.
    Sem ouro, sem marfim ou sem noz-de-cola, os ewe no podiam participar
ativamente do antigo e lucrativo comrcio atlntico Norte-Sul. Nos sculos
XVII e XVIII, a principal exportao da regio era a de escravos. Ora, vimos
que esse comrcio no era daqueles que garantiam a paz, a estabilidade e um
governo ordenado, e tambm no podia estimular uma expanso poltica ou
uma centralizao.
    Os akan do Oeste, por sua vez, possuam ouro, marfim e noz-de-cola, mas,
como as rotas comerciais para o Norte estavam nas mos dos mande, dos senufo,
dos kulango e dos akan do Leste, em particular, dos ashanti, extraam um benef-
cio reduzido do comrcio desses produtos. Tampouco tomavam parte do comr-
cio lucrativo efetuado no Nordeste com o pas Haussa e o Borno. Na verdade,


75    D. E. K. Amenumey, 1969.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                            509



eles no dispunham de meios suficientes para se lanarem em uma aventura
expansionista de grande envergadura.
    Se no surgiu nessas regies nenhum Estado ou Imprio centralizado de
importncia, foi tambm em razo de um outro fator, de ordem ecolgica76.
Primeiramente, durante os sculos que aqui nos ocupam, os europeus, repelidos
pelas cercanias das zonas costeiras, notadamente, pelas lagunas, os evitaram e,
consequentemente, os ewe e os akan do Oeste estabelecidos no interior das
terras no tinham os mesmos motivos econmicos que os ga e os akan do Leste
para se expandirem rumo Sul , at a costa.
    Uma ltima razo, provavelmente a mais importante, foi a constante inge-
rncia em seus negcios polticos, da parte de vizinhos mais potentes, a qual os
habitantes dessas regies tiveram de suportar. Os akan do Oeste tiveram que
enfrentar as ameaas dos sefwi e, mais especialmente, dos ashanti, ao longo do
sculo XVIII. De maneira anloga, os ewe sofreram constantemente, a partir
de 1680, com a ingerncia ativa em seus negcios internos, primeiro, dos reis do
Grande e do Pequeno Popo, depois, dos akwamu e, no sculo XVIII, do Daom,
a Leste, e de todos os conquistadores ashanti, a Oeste.


     Transformaes sociais e culturais na Guin Inferior
    A mudana mais evidente gerada por estes trs sculos no domnio social e cul-
tural foi de ordem demogrfica. A populao da costa da Guin Inferior aumentou
consideravelmente nos sculos XVI e XVII, em razo da introduo de um grande
nmero de culturas de subsistncia  milho e certas variedades de inhame  origi-
nrias do Novo Mundo e da sia. Eis um fato incontestvel que atestam as fontes
europeias da poca. Todavia, a partir da, concordamos que, no sculo XVIII, espe-
cialmente em razo do trfico de escravos, essa populao permaneceu estacionria
ou at mesmo diminuiu, como mostrou Inikori77, e que atualmente ela seria bem
superior ao que ela  se o trfico transatlntico no tivesse existido.
    Alis, a estrutura social tornara-se mais complexa. Em, 1500, a sociedade
comportava trs classes: uma aristocracia dirigente composta de uma elite reli-
giosa (os sacerdotes) e de uma elite poltica (os reis e as rainhas), os cidados
ordinrios e os escravos domsticos. No entanto, a elite religiosa que, no princ-
pio, ocupava o cume da pirmide social, no final do perodo considerado, tinha


76   C. Wondji, comunicao pessoal.
77   J. E. Inikori, 1979, p. 68-71.
510                                                           frica do sculo xvi ao xviii



cedido lugar  elite poltica, salvo entre os ga-adangbe e os ewe. Ademais, o
fenomenal crescimento da atividade econmica, notadamente da explorao das
jazidas aurferas e do comrcio longnquo, bem como as numerosas guerras de
expanso territorial e de dominao poltica, haviam ocasionado um aumento
do nmero de escravos domsticos. Aqueles da Guin Inferior tinham, nesta
poca, o direito de possuir bens e de esposar cidados livres. Alguns at foram
nomeados para cargos de responsabilidade e podiam herdar bens de seus senho-
res. Na verdade, eles eram considerados membros da famlia. No momento em
que se finda o perodo examinado, a maioria deles encontrava-se perfeitamente
integrada  sociedade na qual viviam e no divulgar a sua origem era, notada-
mente entre os akan, uma regra sagrada.
    Por fim, vimos se constituir, em particular, na costa entre o Tano e o Volta,
sobretudo em razo do avano do comrcio e da presena europeia, trs classes
desconhecidas da sociedade tradicional: uma classe de assalariados; uma outra
independente, de ricos comerciantes e de prncipes mercadores e um grupo
mulato78. A primeira era composta de indivduos empregados pelos europeus da
costa, como operrios, carpinteiros, pedreiros, intrpretes, escrives, secretrios,
corretores de ouro, funcionrios, embaixadores ou agentes de relaes pblicas.
So abundantes as referncias a respeito deles nos anais europeus da poca.
Alguns dentre eles eram instrudos e serviam de intermedirios entre os euro-
peus e os detentores do poder tradicional, bem como seus sditos.
    A segunda classe era constituda por grupos ou indivduos africanos que,
atravs de seu trabalho na agricultura ou no comrcio, granjearam riquezas feno-
menais e um poder superior quele dos dirigentes tradicionais. Classificam-se
nessa categoria pessoas como John Ahenakwa e John Claessen, de Fetu; Aso-
mani, de Akwamu; John Kabes, de Komenda; John Konny, de Ahanta e John
Currantee, de Anomabo (tambm conhecido na tradio oral sob o nome de
Eno Baisie Kurentsi), todos instalados no litoral da Costa do Ouro. No litoral
oriental da Costa do Marfim, surgiram tambm, por um lado, os kosehirange e
os essouma, que ocuparam as funes de intermedirios ou de corretores entre
os europeus e, por outro, os avikam, os eotile, os abour, os sanwi, os aowin
e os sefwi do interior. Na aurora do sculo XIX, os kosehirange, em particu-
lar, tornaram-se extremamente poderosos e, graas a sua riqueza e prestgio,
desempenharam um papel determinante na escolha dos chefes de linhagem79.
O comrcio entre a costa e o interior era ativo e todos, tanto o povo quanto os

78    K. Y. Daaku, 1970b, p. 96-143.
79    Dados extrados de uma comunicao de C. Wondji.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                           511



dirigentes tradicionais, podiam participar dele. Por fim, sobretudo os habitan-
tes das zonas das florestas encontravam-se particularmente em uma situao
lucrativa, pois, ao mesmo tempo, eram os intermedirios das trocas Norte-Sul
e produtores dos principais bens de exportao. Nessas condies, no  um
despropsito supor que se no houve a formao de uma classe de assalariados
ao menos deveria ter-se assistido  emergncia de um grupo formado no s
de chefes tradicionais afortunados, mas tambm de ricos prncipes mercadores
independentes. Infelizmente, tanto as fontes europeias quanto as tradies orais
nada dizem a esse respeito.
    Quanto ao terceiro novo grupo, aquele dos mulatos, era o fruto de unies entre
negociantes europeus e mulheres africanas. Era disseminado ao longo da costa
da Guin Inferior. Ainda que alguns homens da poca, como Bosman, tivessem
traado um retrato nada agradvel dos mulatos, tratando-os de "malta de bastar-
dos [...] feita de uma corja de celerados de maus modos, infiis tanto aos negros
quanto a ns80", alguns deles, como Geenlendonck, Bosman, Barter, Gordon e,
sobretudo, os descendentes de Richard Brew, desempenharam um papel muito
importante na vida comercial e poltica da regio, nos sculos XVII e XVIII81.
    Outro fator modificaria consideravelmente a configurao social da Guin
Inferior: por um lado, a introduo do cristianismo e da educao ocidental
e, por outro, do isl, respectivamente, devido aos europeus e aos comerciantes
mande e haussa. Os holandeses e os ingleses criaram escolas primrias em seus
castelos de Cape Coast, de Elmina e de Accra, ao passo que a Society for the
Propagation of the Gospel enviou missionrios a Cape Coast, por volta de 1750.
Alm do mais, alguns dentre os mulatos e filhos dos chefes tradicionais foram
enviados ao estrangeiro para estudarem e alguns, como Christian Pedersen,
Svane, Capitein e Philip Quacoe, retornaram ao pas transformados em profes-
sores ou em missionrios. Assim, aproximadamente em 1800, em certas cidades
da costa, como Accra e Cape Coast, havia uma elite  restrita,  verdade  de
pessoas instrudas e algumas convertidas ao cristianismo.
    Bem antes do cristianismo, o isl e a cultura muulmana foram difundidos ao
longo dos itinerrios comerciais do Norte, primeiramente, na parte setentrional,
no Gana, no sculo XIV, depois, nos territrios ashanti e baoul, em meados
do sculo XVIII. No fim desse sculo, certamente existia em Kumasi um bairro
muulmano muito prspero, dotado de uma escola cornica e, segundo Wilks,


80   W. Bosman, 1967, p. 141-142.
81   M. A. Priestley, 1969.
512                                                          frica do sculo xvi ao xviii



o ltimo ashantihene desse sculo, Osei Kwame (1777-1801), foi deposto em
razo de sua adeso  religio muulmana82.
    Todavia, importa destacar que no fim do perodo considerado, tanto a influ-
ncia do cristianismo quanto  do isl, entre os povos da costa da Guin Inferior,
permaneceram, de forma geral, assaz limitadas, embora a leitura e a escrita do
rabe e das lnguas europeias houvessem sido firmemente implantadas.
    As descobertas arqueolgicas, que no cessaram de se acumular83, mostram
que, por volta de 1800, as sociedades da costa guineense dominavam perfei-
tamente as artes e os ofcios da cermica, da escultura (de madeira, marfim e
argila), da tecelagem, da ourivesaria e da fundio de objetos (de bronze, cobre e
ouro); sendo certos grupos especializados em domnios particulares. Sua msica,
a utilizao do tambor e as danas no eram menos elaboradas.
    A arte da cermica, sobre a qual se pode dizer que era uma das mais antigas
praticadas pelo homem e que, no Gana, remonta ao neoltico superior (desde
 3.000 a.C) 84, tinha atingido um alto nvel de aperfeioamento no princpio
do sculo XVIII, notadamente entre os adangbe, que exportavam seus produtos
at Bondoukou, na Costa do Marfim. Segundo Anquandah, foram os ashanti
que elevaram tal arte ao mais alto nvel, produzindo "algumas das mais belas
peas polimorfas, ornamentadas com motivos extremamente complexos, como o
abusua kuruwa (vaso clnico) e a jarra ritual para o vinho, mogyemogye, utilizada
para as libaes no Tamborete de Ouro85".
    Durante este perodo, a gravura e a escultura de madeira, marfim e argila
conheceram igualmente um avano considervel, notadamente entre os akan
que confeccionavam banquetas de madeira, tambores, cabos de sombrinha e
cetros de linguista. Tal arte da escultura em madeira atingiu o mais alto nvel de
perfeio no sculo XVI, poca em que, para citar Anquandah, os reis denkyira
"elaboraram a ideologia poltica e cultural ligada ao tamborete adanse86". Os
europeus que, como Bosman, visitaram a costa de Gana nos sculos XVII e
XVIII, impressionaram-se com a beleza dos trompetes de marfim com abertura
lateral, a encontrados. Dentre os objetos mais conhecidos dessa arte figuram
as akuaba (bonecas da fecundidade) de madeira e argila e os retratos esculpidos
em argila, notadamente, de reis e rainhas falecidos.


82    I. G. Wilks, 1961 e 1966a.
83    J. Anquandah, 1982.
84    Ibidem, p. 53.
85    Ibidem, p. 40.
86    Ibidem
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                              513



    A arte da tecelagem tambm foi conduzida a um altssimo grau durante esse
perodo. Segundo um estudo, a tecelagem, notadamente nos teares horizontais
e estreitos, provavelmente teria nascido no vale do Nilo, antes que no Magreb
Ocidental, e a partir da, estendera-se ao Sudo Ocidental, depois, s regies
povoadas pelos akan, ewe e ga87. Se  ignorado o perodo exato em que essa
arte foi introduzida nas regies florestais e costeiras da Guin Inferior,  quase
certo que isso foi antes da chegada dos portugueses. Nos sculos XVI e XVII,
a tecelagem das roupas expandiu-se por toda a regio. Brun e Barbot assinalam
que peas de tecidos de seis faixas, confeccionadas na Costa do Marfim, eram
exportadas para a Costa do Ouro. Segundo o mapa de 1629, Nsoko, o atual
Begho, tornara-se um importante centro de tecelagem "onde so fabricados da
mesma maneira que os tapetes, estofos vestidos pelos akan88". Os teceles da
regio tambm fabricavam cobertores  chamados de kassa, bomo, e nsaa pelos
akan , ainda hoje muito estimados por eles. Mas, incontestavelmente, como
Lamb muito claro o tem mostrado, foi no sculo XVIII que a arte da tecelagem
atingiu entre os akan e os ewe a plena perfeio;  o que testemunham os tecidos
multicoloridos kente dos akan, atualmente reputados, bem como os suntuosos
estofos adanudo dos ewe, cuja origem remonta a essa poca89. Os estofos adinkra,
largos tecidos imprimidos de motivos e smbolos akan tradicionais, alcanaram
renome na regio de Brong e foram posteriormente copiados pelos ashanti.
    Todavia, sem dvida era no domnio da ourivesaria e da fundio, notada-
mente de objetos de ouro e lato, que os povos da costa da Guin Inferior, em
geral, exceliam de forma particular, sobretudo os akan. Os ourives, utilizando
basicamente o mtodo da cera perdida, produziam objetos de uma delicada
fineza: cabos de sabres, anis, berloques, correntes e diademas de ouro e prata,
em especial. Convm assinalar que sua arte florescera desde antes da chegada
dos europeus. No entanto, foi nos sculos XVII e XVIII que, aproveitando da
habilidade de seus artesos muulmanos, primeiro os brong, depois os denkyira,
e, mais particularmente, os ashanti, levaram essa arte a um grau de perfeio
desde ento inigualvel. Os ourives akan fabricavam tambm milhares de pesos
de ouro  para ser mais preciso, de lato , geomtricos e figurativos, que atraem
em particular os turistas europeus e doravante encontrados em todos os grandes
museus de arte do mundo90. Os fundidores tambm eram muito hbeis e fabri-


87   V. Lamb, 1975, p. 219.
88   S. Brun, 1624; J. Barbout, 1732.
89   V. Lamb, 1975, p. 91-99.
90   Encontraremos um estudo interessante sobre os pesos akan de ouro em T. F. Garrard, 1980, p. 171-
     -363.
514                                                                            frica do sculo xvi ao xviii




Figura 14.7 Tecelagem da frica do Oeste. No alto, tecidos kente, sedas ashanti; embaixo, tecidos adanudo,
sedas ewe. [Fonte: V. Lamb, 1975. Fotos: A. Lamb.]
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                                      515




figura 14.8 Peso de lato akan servindo para pesar o ouro em p. As formas geomtricas (acima) estiveram
em uso a partir do sculo XV; as figurativas (a seguir), em uso a partir do sculo XVII, serviam tambm para
ilustrar mximas e provrbios populares. [Fonte: T. F. Garrard, 1980, p. 280. Fotos utilizadas com a estimada
autorizao de T. F. Garrard.]
516                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



cavam objetos de grande refinamento, sobretudo de lato: cofre para o ouro em
p e recipientes para a manteiga de karit, por exemplo.
    Todos os especialistas reconhecem que, no sculo XVIII, com a emergncia do
Imprio Ashanti, as artes e o artesanato da costa da Guin Inferior atingiram o
seu apogeu. Os reis ashanti dessa poca no se limitaram em estender seu poder
territorial e poltico, porm esforaram-se por todos os meios para encorajar as
artes e o artesanato. Aps a derrota do Denkira, do Tekyiman e do Akyem, eles
congregaram os melhores artesos e ourives desses Estados e os enviaram para
Kumasi91. Alm disso, como sublinhou Anquandah "quando criaram a confede-
rao ashanti, eles agruparam todas as artes e artesanatos na vizinhana da capital
Kumasi92". Assim foi criado um certo nmero de centros especializados: Ahwiaa,
para a fabricao de banquetas; Bonwire, para a tecelagem de estofos kente; Tafo,
para a cermica; Fumesua, para o trabalho do ferro e Krofofrom, para a fundio
do lato. Ademais, o ashantihene instalou, em Apagyafie, um grupo de ourives e
de outros artesos trazido de Denkyira e que tinha por tarefa talhar os adereos
reais. Ele tambm instituiu o Asomfo (Tamborete de Ouro), cujo primeiro ocu-
pante, Nana Tabiri, era o filho de um chefe denkyira93.
    Foi esta mistura de experincias, conhecimentos e tradies artsticas dife-
rentes que permitiu, aos reis do sculo XVIII  essencialmente cuidadosos em
fazer com que seu poder e majestade fossem "refletidos nas formas artsticas
da mais alta qualidade" , conduzir o desenvolvimento cultural do povo akan
ao seu mais alto nvel de excelncia. Criaram aquilo que podemos descrever
como uma cultura e uma civilizao douradas, simbolizadas pelos adereos
reais de grande refinamento, pelos suntuosos estofos kente multicoloridos, o
protocolo assaz elaborado usado em sua corte e os pesos para pesar o ouro
em p, verdadeiros objetos de arte que fascinavam os europeus em visita a
Kumasi, sua capital, no sculo XVIII e nos primeiros decnios do XIX. 94 No
obstante os avanos do colonialismo e os antemas dos missionrios cristos
iconoclastas, nos sculos XIX e XX, a arte dos ourives tem constantemente
sobrevivido e os artesos, sobretudo ashanti, continuam a fabricar esplndidos
adereos de ouro e prata.




91    Ibidem, p. 198.
92    J. Anquandah, 1982, p. 40.
93    T. F. Garrard, 1980, p. 299.
94    Ibidem, 1980, p. 47-48; M. D. McLeod, 1981, p. 72-76; J. Anquandah, 1982, p. 39-44, 100- 112.
Os Estados e as culturas da costa da Guin Inferior                                                517




figura 14.9 Nana Otuo Siriboe II, omanhene do Estado dwaben, vestido com um rico tecido kente e
portando algumas das insgnias reais de ouro. [Com a estimada autorizao do rei Nana Otuo Siriboe II.]
518                                                          frica do sculo xvi ao xviii



      Concluso
    O perodo que vai de 1500 a 1800 trouxe mudanas verdadeiramente revo-
lucionrias na vida dos Estados e dos povos da costa da Guin Inferior. Assistiu
 evoluo completa do processo poltico resultando em uma centralizao cada
vez maior. No plano econmico, viu-se produzir o eclipse do comrcio do ouro
e do marfim, suplantados pelo abominvel trfico de escravos, e o deslocamento
dos centros de gravidade comercial e econmica do interior para as regies situa-
das mais a Sul e no litoral, ao passo que foram forjadas ligaes comerciais muito
slidas entre a costa da Guin Inferior, as Amricas e a Europa: tais foram os
princpios da integrao da economia local no sistema econmico internacional.
Porm, esse foi, sobretudo, um perodo de mudanas sociais, caracterizado pela
emergncia de novas classes (ainda que, seguramente, o fenmeno estivesse
muito limitado e localizado, sobretudo na costa); pela fase inicial da alfabetiza-
o; pela introduo da educao ocidental e do cristianismo; pelos progressos
da religio muulmana e pelo florescimento de culturas autctones exprimindo-
-se, sobretudo, por meio da tecelagem e do trabalho em metais. Estes foram,
incontestavelmente, sculos de um grande dinamismo para os povos da costa
da Guin Inferior, tanto que, ao se findarem, deixaram tais povos inteiramente
senhores de seu prprio destino.
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                        519



                                       CAPTULO 15


           Do delta do Nger aos Camares:
                  os fon e os ioruba
                                             E. J. Alagoa




    Este captulo tem como tema a regio que se estende do vale da Volta, a
Oeste, ao rio Camares, a Leste. Em sua maior parte, ela  recoberta por flo-
restas tropicais, costeadas pela savana e pela mata, ao Norte. Sua parte ocidental
 igualmente coberta por savanas, da fronteira da Nigria at Volta. Pode-se
tambm definir esta zona como o territrio compreendido entre a costa do
Golfo do Benin e a Baa do Bonny (outrora, Biafra), no Golfo da Guin. Os
povos que viviam nesta parte da floresta guineense e na savana circundante eram
os fon, ou aja, da atual Repblica do Benin, os iorubas, as ij, do delta do Nger
ao centro, os ibo, a Nordeste do delta, os ibbio e, diversas etnias dos Camares
Meridional.
    Todas as lnguas desta regio pertenciam  famlia do ngero-congo, a maio-
ria delas sadas da subfamlia kwa. O efik/ibbio e as outras lnguas da regio da
Nigria, situada na fronteira dos Camares, tais como aquelas desse pas, so
estreitamente aparentadas ao banto da frica Central, Oriental e Meridional.
A parte oriental desta regio  portanto, sob vrios aspecto, uma extenso do
grande conjunto lingustico-cultural banto da frica Ocidental. Os povos e as
culturas desta zona fronteiria formam uma ligao entre a frica Ocidental e
a frica banta. Dentre os grupos kwa, os iorubas e os ibo so os mais impor-
tantes do ponto de vista demogrfico e da diviso geogrfica, pois contam entre
8 e 12 milhes de indivduos. O edo forma igualmente um vasto grupo que
                                                                                                                                                                                              520
                                                                                                      0                                                   200 milhas

                             R GU                                                                     0                                                  300 km
                          BO
                                                   Igboho


                          AJA                                                      A             Ri
                                                                                                    o
                         DAOM                                              B             I




                                                                                                      N
                                                                                                                                                           e
                                           . .                                     EKIT
                                           OYO                                                                                                           nu




                                                                                                        ge
                                                                     U                                                                                Be
                                                                                                                                                  Rio




                                                                                                          r
                                                        Iwo         Ede
                                                              R

                                        EGBA
                                 Kotu                         IFE
                                                                                  Oba
                                                                                                          IGALA
                                                    O
                                                                                    OWO




                                                                                                                 a
                                                                                                 Idah
                                               I




                                                                                                              br
                        Abomei




                                                                                                          na m
                         ALLADA                     IJEBU                                                                  Nsukka




                                                                                                        R io A
                                         Lagos
                                                                           Benim
                                                                                         BENIM                       IGBO                        Ogoja

   Rio V
        o                                                                                     Onitsha               Awka                 s
                           Uid                                             URHOBO                                                    os
                                                                                                                                    Cr
        lta




                                                                                                Abo                            o
                                                                               ISOKO                                  Afikpo Ri




                                                                                                                                                                                      m
                                                                                                           Oguta         Abam




                                                                                                                                                                                    Rio Mba
                                                                                  ITSEKIRI                                      IBBIO
                            BAA DO BNIN                                                                          Abiriba
                                                     Esturio dos Forcados          IJO               Arochuku,                     EFIK
                                                                                                 IGBO Aro-Okigbo
                                                                                                       Elem                                  Calabar
                                                                          DELTA         Nembe
                                                                                                      Kalabari
                                                                           DO
                                                                          NGER
                                                                                                                                                   KPE




                                                                                                                                                                                              frica do sculo xvi ao xviii
                                                                                                Okrika              Bonny           BAA DO
                                                                                                                                                                Duala
                                                                                                                                    BONNY                               LIMBA
                                                                                                                                                                               ga
                                                                                                                                                                          na
                                                                                                                                                                        Sa
                         GOLFO DA GUIN                                                                          (Ilha de) Fernando P                            Rio
                                                                                                                      (atual: Bioko)              Esturio de
                                                                                                                                                  Camares




figura 15.1   O delta do Nger e os Camares, do sculo XVI ao XVIII.
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                                521



compreende numerosos povos, estendendo-se do interior das terras ao delta e
 sua periferia ocidental. Tal grupo inclui, entre outros, os isoko e os urhobo,
da mesma forma que, ao Norte, etnias como os ishan (esan). Dentre as lnguas
kwa, o ij  a lngua que mais difere das vizinhas, a saber, ibo, edo e ioruba, no
delta do Nger1.
    Tal diferena, relativamente grande, entre, de um lado, o ij, e, de outro, o ibo,
o edo e o ioruba,  em parte o resultado do longo perodo, ao longo do qual, ele
foi uma lngua totalmente independente das outras. Estimativas glotocronolgicas
mostraram que o ij permaneceu por mais de 5.000 anos, sinal da estabilidade
das comunidades lingusticas da regio. O tempo necessrio para a evoluo de
diversos dialetos, no ncleo do grupo ij, entre o delta central e o oriental, por
exemplo,  estimado em 1.000 ou 2.000 anos. A mesma estimativa de 2.000 anos
foi feita para o ioruba e uma lngua que lhe  aparentada, qual seja, o igala.
    Esta longa continuidade na histria da regio deve ser considerada ao procu-
rarmos avaliar as mudanas que foram produzidas com a chegada dos europeus
na costa, no final do sculo XV. Pode-se notar que os desenvolvimentos pre-
dominantes, ocorridos na savana e no interior, impregnaram-se, durante muito
tempo, nas comunidades dessa regio e apenas foram suplantados h relativa-
mente pouco tempo, atravs da influncia europeia vinda da costa atlntica.
    No sculo XVI, as atividades europeias comearam a adquirir uma certa
importncia nas baas do Benin e do Bonny. Os portugueses alcanaram o Benin
em 1486 e estabeleceram relaes com os oba. Tambm comercializaram com
a populao, em diversos pontos da costa. Ao longo dos sculos, a atividade
comercial europeia orientou-se, pouco a pouco, do Norte ao Sul, e, assim, a costa
tornou-se o cadinho de todas as mudanas.
    Evidentemente, o trfico negreiro constituiu o centro da atividade europeia
do sculo XVI ao XVIII. A regio aqui estudada constituiu, ento, um dos prin-
cipais mercados de escravos da costa da frica Ocidental. Certos Estados, como
o reino do Daom, deveram grande parte de sua formao e de seu crescimento
a este comrcio. O desenvolvimento dos outros Estados, do delta do Nger aos
Camares, foi influenciado pelos benefcios da retirados. Outras comunidades,
notadamente as que estavam organizadas sob formas que no aquelas do Estado,
foram as primeiras vtimas e constituram reservas de escravos. De uma forma
ou de outra, cada comunidade era marcada pelos tumultos, pelo despovoamento
e pelas mudanas resultantes do trfico negreiro.


1    K. Williamson, 1971.
522                                                          frica do sculo xvi ao xviii



   Portanto, durante tal perodo, o trfico negreiro teve como principal consequ-
ncia a integrao das comunidades africanas  economia mundial, como reser-
vas de escravos destinados a trabalhar nas plantaes americanas. O aumento
do trfico local ocasionou transformaes sociais e polticas no seio das comu-
nidades. A chegada dos africanos forados tambm esteve na origem de uma
importante evoluo no Novo Mundo. Mas aquilo que transparece por meio
das tradicionais narrativas orais das comunidades,  o efeito que o trfico teve
no destino das linhagens, dos grupos e das dinastias.


      O Reino Fon do Daom
    O desenvolvimento poltico do reino do Daom e dos Estados vizinhos de
Allada, de Uid, de Popo e de Jakin, em grande parte, esteve ligado s atividades,
na costa, dos europeus  negociantes de escravos , e  influncia do reino Ioruba
de Oyo, situado no Nordeste desses Estados.  luz do estudo de Akinjogbin2
sobre esta regio, percebe-se que os acontecimentos que l se desenrolaram,
antes do incio do sculo XIX, remetem diretamente aos efeitos provocados pelo
trfico e s tentativas feitas pelo reino de Oyo, a fim de impor a sua autoridade.
    Assim, as instituies tradicionais das pequenas comunidades e dos Estados
desta zona foram enfraquecidas pela introduo do trfico negreiro e, no final
do sculo XVII, constatava-se um esvaziamento poltico. Foi em tais circuns-
tncias que os fundadores do reino do Daom restabeleceram a ordem, criando
uma nova forma de organizao poltica a partir dos diversos grupos dos povos
aja, compreendendo os egun (gun), os fon, os arada e outros povos da parte
meridional da atual Repblica do Benin. No incio do sculo XVIII, o Daom
havia se tornado uma potncia central da regio. Entre 1724 e 1727, seu chefe
Agaja, empreendeu a conquista dos pequenos Estados mais antigos que cerca-
vam Abom. Isto provocou uma interveno do Oyo, que, entretanto, no quis
impor seu prprio sistema. Aps 1730, o Daom submeteu-se  tutela poltica
do Oyo e aceitou integrar-se  economia do trfico, em cooperao com os
negociantes europeus da costa. Porm, o estudo ao qual fazemos aluso concluiu
que "a insuficincia desta economia" colocou um termo neste curto perodo de
prosperidade. A crise que comeou em 1767 culminou com a queda da dinastia
agaja, em 1818, e com o advento da nova dinastia de Gezo.



2     I. A. Akinjogbin, 1967, p. IX, e 1976.
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                                                  523




figura 15.2 Cabea comemorativa, do sculo XV ou do XVI, proveniente do Benin (Nigria); bronze fun-
dido com incrustaes de ferro. Altura: 22 cm. [National Museum of African Art. Eliot Elisofon Archives,
Smithsonian Institution, Washington, D. C. Photo: B. Fleisher.]



   Esta se adaptou plenamente ao trfico negreiro e a partir disso construiu
os fundamentos de sua potncia. Beneficiou-se da runa do reino de Oyo e
das guerras que dilaceraram o pas Ioruba, no sculo XIX. Duas influncias
predominaram, ento, no pas Aja: os iorubas, notadamente os oyo, e o trfico
de escravos na costa.
   Antigas e estreitas eram as relaes entre as comunidades aja e os iorubas do
Leste e do Nordeste. Mesmo as comunidades que haviam recentemente chegado
524                                                          frica do sculo xvi ao xviii



do Oeste, a tradio conta que eram oriundas de territrios situados no pas
Ioruba. A tradio de outras comunidades evoca uma migrao direta a partir
dos territrios Ioruba. Tais tradies orais no nasceram aps as desavenas oyo-
ioruba, tanto militares quanto poltica, que se desenrolaram do sculo XVII ao
XIX. Na verdade, h nesta zona Estados de origem e cultura ioruba, e so fortes
as suas afinidades culturais. Os diferentes reinos aja esto, por exemplo, ligados
aos ketu, uma comunidade migrante de ioruba de Il-If.
    Os estados da regio, em sua maioria, estavam organizados segundo um
sistema semelhante quele do ioruba. O reino "pai", nesse caso, era Allada, fun-
dado por volta de 1575, que desempenhava o papel de Il-If no pas Ioruba.
O progresso do Daom, na condio de Estado centralizado, anexador de todos
os outros e que se organizara de uma nova maneira, chocou-se com a tradio
e provocou intervenes do Oyo. Tais intervenes romperam, at certo ponto,
com as tradies militares. Se elas destinavam-se a limitar a potncia guerreira
do Daom, no tiveram apenas efeitos negativos. A paz imposta pelo Oyo
impediu o jovem Daom de dissipar toda a sua energia nas aventuras militares,
permitindo-lhe, por isso, reforar sua estrutura poltica. Certos aspectos da
organizao oyo foram retomados, por exemplo, o sistema do ilari, introduzido
por Tegbesu, o ltimo membro da dinastia fundadora. Finalmente, foi a esta-
bilidade deste regime interno que permitiu ao Daom liberar-se da tutela do
Oyo, no sculo XIX.
    Quais foram os efeitos da chegada dos europeus e do trfico na vida dos
povos do pas Aja? Importa destacar aqui que os Estados desta regio ainda
eram fracos no incio do sculo XVI, momento em que o trfico iniciava. Os
sequestros e raptos dos mais fracos pelos mais fortes mostravam-se extrema-
mente destruidores;  provvel que eles tenham reduzido consideravelmente a
fora de trabalho agrcola e artesanal. A economia do pas foi estrangulada e as
regras sociais destrudas. A insegurana e a fora prevaleceram sobre o respeito
para com as autoridades, os ancies e a famlia.
    As rivalidades provocadas pelo desejo de que junto a eles se implantassem
centros comerciais europeus destruram tambm o tipo de relaes tradicionais
existente entre os Estados. Desde o incio do sculo XVII, os holandeses instala-
ram agentes em Assin, a capital de Allada, o estado "pai". Os franceses, que no
puderam estabelecer misses crists nesse pas, criaram um centro de comrcio
concorrente em Uid, em 1671. Instaurou-se a rivalidade econmica entre os
dois reinos e as ligaes tradicionais, j enfraquecidas, alteraram-se ainda mais.
 nessa atmosfera de cinismo face aos valores da sociedade, de insegurana e
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                                          525



de competio poltica e comercial que emigrantes vindos do Norte de Allada
criaram o reino do Daom.
    Tais emigrantes instalaram-se em Abom, fora do alcance dos europeus, apro-
ximadamente em 1625, e tentaram implementar um novo sistema poltico capaz
de escapar s tormentas da poca. Rejeitaram a concepo tradicional do Estado,
que era considerado como uma verso estendida da famlia, e a compararam, de
preferncia, a um pote perfurado, simbolizado pelo rei. Para que o pote perfurado
pudesse conter a gua, cada cidado devia estancar um buraco com seu dedo,
ou seja, devia fundir-se inteiramente em um Estado absoluto. Foi o obstinado
desenvolvimento dessa ideia de um Estado forte e centralizado, com um monarca
absoluto, ao qual se devia uma fidelidade igualmente absoluta, que distinguiu o
Daom dos outros Estados. E foi assim que tal reino pde sobreviver ao trfico,
aos ataques do Oyo e, pouco a pouco, dominar os Estados vizinhos.
    Importa observar aqui que o papel predominante atribudo ao trfico negreiro
na histria do Daom, tal como foi apresentado acima, foi colocado em questo
por certas pesquisas modernas. Peukert3 critica diretamente os dois pontos prin-
cipais: que a histria do Daom tenha sido determinada pelo trfico negreiro e
que sua economia tivesse sido arcaica, na medida em que seu comrcio exterior
era monopolizado pela monarquia e que as trocas internas eram realizadas
mais pela redistribuio do que pela lei do mercado. Em vez dessas duas velhas
hipteses, afirma-se que: o Estado daomeano no participava alm de 20% do
comrcio exterior do reino, os 80% restantes estavam nas mos dos pequenos
negociantes; o comrcio atlntico apenas representava um pouco mais de 2,5%
da economia daomeana; mesmo em matria de comrcio exterior, os escravos e
os fuzis no eram os principais artigos. Por exemplo, as importaes de tabaco
brasileiro eram mais importantes do que as dos fuzis.
    Eis que tudo isso convida a uma reviso dos antigos esquemas e forma novas
bases de pesquisas.


    Os reinos iorubas
   A histria das comunidades ioruba do Sudoeste da Nigria pode ser breve-
mente resumida.
   Primeiramente surgiu o problema da concordncia entre as tradies orais
e os dados arqueolgicos sobre as origens dessas comunidades. Tal problema

3    W. Peukert, 1978. Ver os relatos de P. Manning, R. A. Austen e A. van Dantzig, 1980.
526                                                                               frica do sculo xvi ao xviii




figura 15.3 Cabea comemorativa, de lato, de um oba do Benin (Nigria). Segundo relatos populares, o
ltimo rei da dinastia mtica dos ogiso, que reinava sobre o Benin antes da chegada do ioruba, foi destronado
na ocasio de uma revolta. Ele foi substitudo por um prncipe de If, chamado Oranmiyan, filho do oni
Oduduwa. Desde tal poca, rezava o costume que o Oba do Benin fosse decapitado aps sua morte, que
seu crnio fosse enviado a If, para l ser enterrado no recinto sagrado (orun oba ado) e que, em troca, uma
cabea comemorativa de lato fosse enviada ao Benin e colocada sobre o altar dos ancestrais reais. No final
do sculo XIV, o sexto oba, Oguola, teria proposto a vinda, ao Benin, de um fundidor de metal de If para a
ensinar a sua arte. Dizem que o oni lhe enviou Ighehae. Tal mestre, que talvez seja mtico, hoje  venerado
como o fundador do igun eromwon, a corporao dos fundidores, sendo-lhe dedicado um santurio. O sexo
masculino desta cabea comemorativa  indicado pelas trs riscas verticais acima de cada olho (uma mulher
teria quatro dessas ricas). O oba data da poca chamada mdia, situada entre a metade do sculo XVI e o
fim do sculo XVII. Desapareceram as incrustaes verticais em ferro, caractersticas da poca anterior; o
pescoo e o queixo esto cobertos por vinte anis de coral e o tratamento do rosto foi, a partir de ento, mais
desprovido de qualquer realismo. A maior espessura do metal deveu-se, talvez,  tcnica de fundio tornada
menos rigorosa, embora tambm possusse uma justificao prtica, pois o peso tornava a cabea mais apta
a portar as agulhas esculpidas em marfim que, segundo o costume, eram inseridas na abertura circular da
abbada do crnio. Altura: 23 cm. [Foto: J. Ploskonka.]
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                           527



remete principalmente s tradies que fizeram de Il-If o centro da forma-
o e a origem de todos os reinos ioruba, o lugar onde chefes recebiam a coroa
ornada de prolas. If, claro, mereceu uma ateno extrema por causa de sua
incomparvel arte naturalista (bronze e terracota), mundialmente conhecida
desde que Frobenius declarou que ela atestava a existncia de uma colnia
grega no corao da frica. Em seguida,  preciso ater-se ao avano militar e
poltico do Oyo, sobre o qual alguns estimam a coexistncia com a autoridade
espiritual dos oni de If, sobre o conjunto do pas Ioruba. O Oyo tornou-se o
porta-estandarte do poder ioruba nas zonas setentrionais e ocidentais da regio.
 bem conhecido o seu papel principal nos negcios dos fon e de seu vizinho.
O Oyo tambm manteve relaes estreitas e diretas com os nupe e os borgu,
respectivamente chamados pelos iorubas de tapa e ibariba, e, ao que parece,
tambm mantinha relaes com os haussas e, atravs desses, com o comrcio
transaariano. Enfim,  preciso considerar a natureza do desenvolvimento pol-
tico, cultural e social das outras comunidades e reinos ioruba.
    A primazia de If na histria ioruba vem de vrios fatores. Seu fundador,
Oduduwa, veio, dizem, do cu ou de Meca; seus filhos e netos criaram todos
o outro Estado ioruba. Interpretaes dessas tradies indicam que Oduduwa,
ou um grupo de emigrantes, chegou  regio h cerca de 1000 anos, mas que as
terras j estavam ocupadas - talvez pelos ibo das tradies if4. Alguns nomes
de lugares nas tradies orais indicam tambm a existncia de mini-Estados e
os nomes de algumas 400 divindades podem referir-se queles dos chefes desses
Estados, antes de serem unificados. Ademais, a migrao oriunda de If no
aconteceu uma nica vez, mas em diferentes perodos. Alis, sabe-se que nem
todas as coroas foram obtidas diretamente em If.
    Os clebres bronzes de If tm contribudo para confirmar as tradies que
evocam as relaes entre esse lugar (ou o pas Ioruba) e o reino Edo do Benin, a
Leste de If. Porm, eles igualmente ligam If a Nupe e s regies circundantes
do Nger. Evidentes semelhanas foram encontradas entre os grandes bronzes
fundidos em Nupe e aqueles de If. Da mesma forma parece que a "Meca" das
tradies orais no remete a nenhum lugar do Oriente Mdio, do Egito ou
de Mero, mas s regies situadas alm do Nger, ao Norte do atual territrio
ioruba. Alm disso, a arte de If foi comparada s terracotas nok da Nigria
Central, apesar do intervalo de tempo que separa as duas culturas (de 900 a.C.
a aproximadamente 200 d.C. para Nok, e de cerca de 900 a.C 1.300 d.C. para
o apogeu da arte if).


4    A. Obayemi, 1976.
528                                                        frica do sculo xvi ao xviii



    O Oyo no s se tornou o mais importante dos reinos ioruba, como tam-
bm apresentou caractersticas particulares. Algumas dentre elas esto ligadas 
proximidade geogrfica do Nupe e do Borgu. Por exemplo, para a organizao
militar e social, o Estado apoiava-se mais nos funcionrios de origem servil, o
que no era comum nos outro Estado ioruba. No campo das foras armadas, a
supremacia do Oyo devia-se, provavelmente, ao emprego de cavaleiros e arquei-
ros, inspirados pelos contatos muito precoces com o comrcio trans-saariano
e com os Estados do Norte, mais ou menos contemporneos ao avano de
Songhai, no sculo XIV. O Oyo pde, sem dvida, conseguir cavalos, potassa
(kanun), sal em pedra (obuotoyo), dentre outros produtos do Norte, exportando
nozes-de-cola, manteiga de karit e outros produtos extrados das palmeiras5.
Tais contatos exteriores, da mesma forma que o fato de estar situado na savana,
lhes permitiram modificar os conceitos partilhados com os outros reinos iorubas.
Por exemplo, a instaurao do Xang (ou culto ao trovo), no seio do sistema
religioso,  uma inovao que lhes  prpria.
    O nascimento do Oyo est ligado ao If e ao Benin, pois que seu fundador,
o legendrio Oranyan (Oranmiyan) teria reinado simultaneamente no If e no
Benin antes de se voltar a Oyo. Porm, outros Estados j existiam nesta zona,
tais como Iwo, Owo e Oba, na regio ibomina, Ira, na regio ibolo, Oyoko, Ikoyi
e outros. Muitos deles foram Estados vassalos do Oyo, compreendendo Owu,
ao Sul, e Ede, a Sudeste. A expanso de Oyo foi detida pelos ijesha, habitantes
da floresta, pois a cavalaria no podia intervir em regies cobertas pela mata.
Os ijebu dos pases escarpados dos ekiti (efik) escaparam tambm ao controle
direto do Oyo. O Reino do Benin, a Leste, constituiu tambm uma barreira 
expanso do Oyo e, segundo a tradio oral, os dois Estados estabeleceram uma
fronteira de rvores, na cidade de Otun. O Oyo criou uma rota comercial at a
costa, atravs do territrio dos egba e dos egbado, a Sudoeste do pas ioruba e,
por esta via, o domnio do Oyo se imps ao Daom.
    Este poder se desenvolveu em condies difceis: no sculo XV, os chefes do
Oyo foram expulsos do antigo Oyo (Oyo Il ou Katunga). Refugiaram-se em
Kasu, entre os borgu, depois em Igboho. No se deixando abater em razo disso,
o regime reorganizou seu exrcito e se lanou em uma nova poltica militarista.
A cidade de Ikoyi tornou-se a residncia destes guerreiros eso, que se consagra-
vam ao "treinamento para o combate". No incio do sculo XVI, o Oyo havia
reconquistado seu territrio e rechaado os nupe. A amizade inicial entre os oyo
e os borgu deteriorou-se e os primeiros tentaram invadir os segundos.


5     I. A. Akinjogbin, 1976, p. 380.
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                                                   529




figura 15.4 Estatueta feminina ioruba consagrada ao culto de Obatal, o orix da criatividade. Ela 
comumente vestida por um tecido branco, tal como os padres e os adoradores deste deus; porta uma pulseira
de ferro e, aqui, um colar de prolas brancas com um pingente. O recipiente que ela segura  destinado a
receber a oferenda do sangue branco do caramujo, smbolo da paz e da calma. Representa o elemento femi-
nino do orix, e o masculino  figurado por uma estatueta segurando um leque e um enxota-moscas. No se
deve confundir esta portadora de vaso com o olumeye, ou vaso de noz-de-cola, representado por uma figura
maternal muito maior, segurando um recipiente frequentemente dotado de uma tampa. Altura: 49 cm. [H.
Dubois, Bruxelas.]
530                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    O Oyo permaneceu fora da esfera de influncia europeia direta at o sculo
XIX, podendo, assim, consolidar suas principais instituies e conduzir sua expan-
so de forma independente. Sua aventura no Daom, talvez, tenha algo a ver com
a participao do comrcio da costa. Porm, segundo outras tradies orais, ele
teria ficado  parte do trato escravocrata e teria evitado qualquer contato com os
europeus, por causa da precoce experincia que havia tido com a duplicidade dos
europeus: 800 mensageiros enviados  costa para saldar aqueles que se diziam
amigos nunca retornaram. Em todo caso, uma das mercadorias europeias mais
consumidas - os fuzis - s apareceram neste Estado no sculo XIX.
    As zonas do pas Ioruba, situadas fora da expanso de Oyo, a Leste e ao Norte,
eram constitudas por pequenos Estados, na regio de Ekiti, e por outros con-
juntos, como aquele dos igala, que tinham tendncia a ligar aquilo que acontecia
no pas Ioruba aos processos que se desenrolavam no vale do Nger-Benu.
    Outros Estados, como aqueles dos owo e dos ijebu, parecem ter estado muito
mais ligados ao reino edo do Benin do que ao Oyo. As obras de arte exuma-
das em Owo mostram que, no sculo XV, as formas plsticas dessa regio j
remetiam aos estilos de If e do Benin, mas tambm apontam a existncia de
um terceiro estilo independente, formador, talvez, do prottipo das outras duas
mais conhecidas.


      O delta do Nger
    A histria do delta do Nger est ligada quela de certas partes da regio
costeira, a Leste dos Camares e ao Oeste das lagunas de Lagos. Assim, as
rotas comerciais atravessavam a regio de Norte a Sul e de Leste a Oeste, at
o sculo XIX, at que as importaes europeias, em diversos pontos da costa,
vieram interromp-las. Os tecidos fabricados na regio de Ijebu (zona ioruba)
eram vendidos no delta ocidental e parecem ter sido revendidos at Nembe, no
delta oriental. O Reino Itsekiri (delta ocidental), por exemplo, atrelava-se aos
Ijebu, como o mostra a semelhana de suas lnguas, embora os itsekiri afirmas-
sem igualmente que seus chefes tinham vindo do Reino do Benin e seu sistema
poltico fosse, de fato, parecido com aquele do Reino Edo. Os itsekiri tambm
tomaram emprestados alguns dos valores culturais dos ij do delta ocidental,
dentre os quais viviam e comerciavam (cermica, sal, tecido) com os Estados do
delta oriental, particularmente, com Nembe.
    Na parte ocidental do delta do Nger, o centro do poder poltico era Ode
Itsekiri, a capital desse reino. Quando os portugueses chegaram nesta zona, entra-
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                            531



ram em contato principalmente com os itsekiri e, simultaneamente, tentaram
difundir o cristianismo em seu meio e estabelecer relaes comerciais com eles. J
existia um outro centro de comrcio no esturio dos Forcados, mas os portugueses,
atravessando o delta ocidental, alcanaram terra firme em Ughoton; eles a utiliza-
riam como base de contato com Benin, a capital do Reino Edo. No sculo XVIII,
os itsekiri abandonaram, em parte, Ode Itsikiri para se estabelecerem no esturio
do Benin, onde era possvel e mais fcil dedicar-se ao comrcio transatlntico6.
Especialmente, era a partir destes novos centros, como Bobi, que eles serviam de
agentes do reino do Benin e de intermedirios para a exportao dos produtos dos
povos do interior, como os urhobo, os isoko e os ibo do Oeste.
    Os ij da parte ocidental do delta do Nger estavam organizados, principal-
mente, em comunidades no estruturadas em torno do Estado e participavam
do comrcio do alm-mar atravs de atos de pirataria. Os gbaramatu, do esturio
dos Escravos, os ugulagha e os idwini, do esturio dos Forcados, parecem ter
aproveitado deste sistema comercial. Os bronzes encontrados entre tais grupos,
tal como entre os mei e os kabowei, podem ter sido sinais da prosperidade tra-
zida pelo comrcio interior e exterior, bem como pelos contatos com o Benin e
outros centros do interior.
    Os ij do centro do delta formavam o ncleo grupo. As tradies orais
evocam migraes desta zona para o Leste e o Oeste do delta, tal como destas
ltimas regies para as periferias do delta.
    Segundo as estimativas lexico-estatsticas da distncia que separa o ij e as
lnguas ioruba, edo e ibo, pode-se afirmar que os primeiros povoamentos do
delta foram estabelecidos h cerca de 5.000 anos. Os estudos paleontolgicos
de um ncleo de povoamento encontrado perto de Nembe, no delta oriental,
mostram que, h 3.000 anos, a vida humana era possvel nesse lugar7. Entre-
tanto, de acordo com as estimativas lingusticas e as tradies orais, as atuais
comunidades do delta oriental estariam instaladas nestas zonas h, no mnimo,
1.000 anos. A datao com carbono 14 de objetos encontrados nos stios de
Ke e Saikiripogu (Ewoama) apenas permite afirmar que a regio era habitada
antes de 800 d.C.
    As escavaes feitas pelos doutores Anozie e Nzewunwa, na parte oriental
do delta do Nger, que sucederam  pesquisa sobre as tradies orais efetuadas
pelo professor Alagoa, abriram novas perspectivas sobre a histria do delta do


6    P. C. Lloyd, 1963.
7    M. A. Sowunmi, 1978.
532                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




figura 15.5 Mscara de bronze do sculo XVII, usada na cintura, proveniente do Benin (Nigria). Altura:
9,3 cm. [H. Dubois, Bruxelas.]
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                              533



Nger8. Tais escavaes mostraram que os primeiros habitantes sabiam explorar
os crustceos de gua salgada do delta e que tambm criavam certos animais. A
abundncia de cermicas encontradas em stios, como Onyoma, indica a existn-
cia de uma complexa economia, por um lado, agrcola  as tradies orais falam
de tmaras, de pimenta e de bananas  e, por outro, comercial, pois a maior parte
dos produtos agrcolas provinha do interior. As escavaes tambm descobriram
traos de forjas, o que tambm permite inferir a existncia dos contatos com o
interior, em primeiro lugar, pelas matrias-primas, mas tambm pelos produtos
finais. Encontramos numerosos objetos de lato ou de bronze, a cu aberto,
nas inmeras regies do delta, porm um nico objeto encontrado in situ, em
Onyoma, foi uma oferenda funerria.
    Os objetos artsticos do delta do Nger so, basicamente, constitudos por
altares ou mscaras de dana, de madeira, sobre as quais so esculpidos os esp-
ritos das guas ou dos ancestrais. As escavaes revelaram um nmero restrito,
mas significativo, de mscaras em terracota de Ke e de figurinhas antropomr-
ficas de Onyoma. Dentre as terracotas nigerianas, estas so as nicas represen-
taes do gnero, porm uma das cabeas humanas de Onyoma tem traos que
lembram as terracotas de Nok e de If, pela modelagem dos olhos.
    O trfico negreiro e, anteriormente, o comrcio interior de longa distncia,
desempenharam um papel importante na formao dos estados do delta oriental
do Nger, como Bonny, Elem Kalabari (Novo Calabar), Okrika e Nembe. Segundo
as tradies orais, parece que seus fundadores teriam vindo de zonas situadas nas
regies de gua doce do delta central e teriam se adaptado  vida no delta oriental,
cujas guas so salgadas, ou seja, que eles tivessem, entre outros, passado de um
sistema econmico fundado na pesca e na agricultura para um outro, fundado na
pesca, na explorao salina (por ebulio) e no comrcio. Houve tambm toda
uma adaptao sociopoltica e, a partir do sculo XVIII, instituies reais foram
erigidas. O trfico transatlntico acelerou o ritmo destas transformaes e tem-se
chamado esse tipo de Estado constitudo no sculo XVIII de Estado-cidade ou
Estado comerciante9. O trfico de escravos trouxe a prosperidade em que se baseou
o poder do amanyamabo (rei) e da elite dirigente tambm ocasionou a criao de
um sistema de recrutamento de mo-de-obra e de aumento da populao desti-
nado a fornecer homens s foras armadas desses Estados.




8    E. J. Alagoa, 1972 e 1976; F. N. Anozie, 1976.
9    K. O. Dike, 1956; G. I. Jones, 1963.
534                                                                           frica do sculo xvi ao xviii




figura 15.6 Placa de bronze do sculo XVII, proveniente do Benin (Nigria), que mostra um guerreiro
portando uma vestimenta de coral matelass e segurando uma lana e uma espada. Os dois guerreiros que
o escoltam de cada lado carregam um escudo. Todos os trs portam colares de dentes de leopardo e seus
peitos so ornados com sinos. Encontram-se, entre eles, dois pequenos msicos. Altura: 39 cm. [H. Dubois,
Bruxelas.]




      O pas Igbo
   Um certo nmero de stios remonta  Idade da Pedra, no corao do pas
Igbo, levando-nos a pensar que essa regio foi povoada h muito mais tempo
do que indica a sua cultura. Um abrigo rochoso, em Afikpo, revelou ins-
trumentos de pedra e velhas cermicas de 5.000 anos. Stios semelhantes
foram descobertos na regio de Nsukka. O doutor Anozie, da Universidade
da Nigria, estuda atualmente uma pedreira, tambm descoberta na regio de
Nsukka. Parece evidente que a agricultura existia nesta regio h no mnimo
3.000 anos e, particularmente, a cultura de inhame. As outras culturas locais
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                              535



compreendiam o leo de dend, o okro, o egusi e algumas variedades de noz-
de- cola. Algumas culturas importantes, como a mandioca, o arroz, a taioba,
a banana e a banana-da-terra, foram introduzidas por intermdio do trato
transatlntico, tal como outras plantas originrias das Amricas. A mandioca
fez sua apario no delta do Nger (primeiro em sua zona ocidental e em
seguida rumo ao Leste) no sculo XVII, mas apenas foi introduzida no pas
Igbo dois ou trs sculos mais tarde.
    As tradies orais em lugares como Nri ligam a origem da agricultura aos
pais fundadores. O artesanato do ferro tambm foi implantado muito cedo e a
arte do bronze dessa regio tornou-se mundialmente clebre graas s escavaes
de Igbo-Ukwu10. Os bronzes desta zona so oriundos de uma tradio diferente
daquela de If e do Benin. Sua beleza e sua qualidade no so menos excepcio-
nais. Eles esto ligados  realeza divina e ao centro ritual de Nri. Os sacerdotes
de Nri exerciam sua autoridade em vastas pores do pas Igbo, tinham o poder
de nomear os titulares dos cargos de ozo e de eze, e de lutar contra os sacrilgios.
O eze Nri controlava tambm o ifeijoku (a "fora do inhame"). Talvez seja o
rendimento proveniente dos sacerdotes itinerantes que trouxe a prosperidade,
permitindo, assim, assentar os fundamentos de tal arte do bronze.
    Os sacerdotes de Nri desempenharam um papel vital no pas Igbo, por causa
da organizao das comunidades em pequena escala, fundada no sistema dos
ttulos. Porm, alguns grupos igbo, a Oeste do Nger e na margem oriental do
rio, adotaram as instituies reais e entraram em contato com comunidades
detentoras de instituies similares. Assim, os reinos de Aboh, de Onitsha e de
Oguta, com seu obi, aparentemente tomaram emprestado esse ttulo ao oba real
do Benin. Tais Estados eram formados por emigrantes vindos de zonas sub-
metidas  influncia do Benin, nos sculos XVI e XVII. Segundo as tradies
orais desses grupos, parece que tais migraes foram produzidas sob o reinado
do oba Esigie (por volta de 1517-1550), no Benin. Supe-se que guerras ou
tumultos, ocorridos nas regies orientais do reino do Benin, obrigaram certos
grupos a emigrar para o Leste e l criarem Estados segundo o modelo daquele
que haviam abandonado.
    Outros Estados situados s margens do Nger, como Osomari, afirmam que
seus ancestrais vieram do reino igala de Idah, no Norte. Porm, a influncia
igala provavelmente era mais pronunciada entre os igbo setentrionais do vale de
Anambra e na regio de Nsukka. Sabemos que houve ataques igala nessa zona,


10   T. Shaw, 1970.
536                                                         frica do sculo xvi ao xviii



ao passo que os nri afirmam ter um ancestral comum com os igala. Os Estados
igbo situados nas margens do Nger foram os primeiros a participarem do trfico
negreiro, depois, no sculo XIX, do comrcio de leo de dend, em colaborao
com os Estados do delta do Nger. Os grupos igbo do Norte comerciavam com
os igala e com outros grupos setentrionais.
    O sistema sociopoltico igbo era concebido para regulamentar unidades mais
vastas do que os vilarejos e as cidades. Um de seus mecanismos de controle
consistia na sano religiosa de um orculo. Os orculos estavam estabeleci-
dos em diferentes lugares e em diferentes pocas, no pas Igbo, como Kamalu
(Etche), Igwe Kala (umunoha), Agbala (Awka), Ibini Okpube ou Long Juju
(Arochukwu). Os dois ltimos alcanaram uma maior influncia porque outros
setores da comunidade demonstraram sua crena neles. Deste modo, os ferreiros
awka que trabalhavam nas feiras e estavam espalhados por todo o pas Igbo e
pelo delta do Nger, favoreceram a reputao do orculo Agbala. Mas aquele de
Arochukwu tornou-se ainda mais importante graas aos negociantes aro, os mais
importantes traficantes de escravos, que falaram em alto e bom som sobre ele. A
rede comercial aro se desenvolveu simultaneamente ao trfico de escravos que
passava pelo esturio do Cross River e pelo porto de Calabar. Os aro tambm
conseguiram comercializar com os Estados do delta que se encontravam em
pleno avano desde o sculo XVII. Os mercados aro fundaram estabelecimentos
comerciais e feiras em todo o pas Igbo e utilizaram o orculo para obterem
escravos. Ao contrrio dos sacerdotes de Nri, os aro eram inclinados  violncia.
Eles engajavam guerreiros de Abam, Edda, Ohafia, Abiriba e outras cidades com
as quais partilhavam seu esplio.
    As zonas do pas Igbo, privadas de governos fortes e centralizados, prova-
velmente sofreram mais ataques destinados a capturar escravos. Sabe-se que, no
sculo XVIII e no incio do XIX, os portos do delta oriental do Nger eram os
principais centros de exportao de escravos da frica Ocidental. A maior parte
dos escravos vinha do interior do pas Igbo. Reinava, igualmente nessa zona, um
clima de considervel insegurana, e a agitao encontrava-se, por sua vez, no
seu auge entre as comunidades e as instituies.


      O vale do Cross River e os Camares
   Os povos habitantes desta regio possuem lnguas e origens histricas seme-
lhantes. Grande parte de suas lnguas pertencem  famlia bantu e formam uma
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                                                        537




figura 15.7 Placa de bronze ornamental do sculo XVI, proveniente do Benin (Nigria), que mostra um
chefe portando suas insgnias: um enfeite de coral sobre o pescoo, um colar de dentes de leopardo, braceletes
e anis de tornozelo. No se trata de um oba, pois ele sustenta sobre seus ombros um sino protetor de guerra,
acessrio no utilizado pelo rei. A cabea de leopardo que decora a vestimenta de guerra serve para aterrorizar
o inimigo. Ele est acompanhado por dois guerreiros tocadores, um, de uma trombeta e, o outro, de um sino
duplo, alm do servo que carrega sua espada cerimonial. Embora estejam prximas, essas trs personagens
so menores, sinal de um posto inferior. A representao dos portugueses, com seus chapus de plumas, seus
cabelos longos, suas barbas e seus gibes abotoados, permitem datar esta placa da poca do oba Esigie. Em
1515, de fato, ele recebeu o reforo militar dos portugueses na guerra com o Ata dos igala. O motivo qua-
drifoliado gravado no fundo  conhecido sob o nome de owen iba ede ku [o sol no esquece um s dia]; ele
 associado a Olokun, o deus da gua. Centenas destas placas decoravam os grandes pilares retangulares que
sustentavam as tendas estendidas em cima dos mltiplos ptios do palcio do Oba do Benin. Sua disposio
era um reflexo da complexidade dos temas ilustrados. Altura: 45,7 cm. [Foto: J. Ploskonka.]
538                                                          frica do sculo xvi ao xviii



extenso, no Noroeste da frica Ocidental, das grandes lnguas bantu da frica
Central, Oriental e Meridional.
    O maior grupo tnico do vale do Cross River, aquele dos ibbio, est h
tanto tempo estabelecido na regio, que no mais possui tradies orais que
evocam uma migrao do exterior. Nas partes setentrionais do vale, a regio
de Ogoja est ocupada por uma vasta gama de povos cujas tradies orais evo-
cam as migraes do vale do Benu, mais ao Norte, ou dos Camares. Certas
comunidades do grupo ibbio, ou que lhe so estreitamente aparentadas, como
os Andoni (na franja da parte oriental do delta do Nger) e os ibeno (ibuno),
afirmam, igualmente, terem vindo dos Camares. Ademais, as comunidades dos
Camares, como os isangele, so de origem ibbio.
    As comunidades desta regio estavam, em grande parte, organizadas em
sistema polticos descentralizados de uma complexidade extrema. As organiza-
es por grupos etrios, tal como as sociedades secretas, permitiam um eficaz
controle social e poltico. Dentre os ibbio, a sociedade Ekpo era largamente
difundida. Porm, os Mgbe (Sociedade secreta do leopardo) do Norte do vale do
Cross River e dos Camares tornaram-se os Ekpe do Estado efik do esturio
do Cross River. Tornaram-se, portanto, a sociedade secreta mais conhecida e a
mais organizada dentre todas aquelas da regio.
    Os efik so estreitamente aparentados aos ibbio, em funo da proximidade de
seu territrio, Uruan Ibbio, na margem ocidental do Cross River. Segundo algumas
tradies orais, anteriormente, eles teriam vivido em Ibom, perto de Arochukwu,
no pas Igbo. Teriam abandonado tal lugar por causa das guerras, das quais par-
ticipavam grupos chamados akpa, talvez ligados s comunidades conhecidas sob
esse nome no vale do Benu, como os jacum. Estes primeiros contatos dos efik so
importantes porque seu estabelecimento definitivo em Ikot Etunko (Creek Town),
Obutong (Old Town) e Atakpa (Duke Town), no incio do sculo XVII, fez desses
lugares os mais importantes centros do trfico negreiro da regio.
    O Estado efik, situado na parte inferior do Cross River e agora conhecido sob
o nome Calabar, exportava escravos do interior igbo a partir do centro de convi-
vncia de Arochukwu, que os capturava graas aos seus orculos e aos seus mer-
cenrios. A maior parte dos escravos vendidos em Calabar eram ibbio e membros
de grupos do vale do Cross River, bem como de regies vizinhas dos Camares.
    O problema colocado pelo trato, em parte, foi responsvel pela reestruturao
do Ekpo ibbio e do Mghe ekoi em uma nica sociedade, o Ekpe, em Calabar.
Da resultou uma sociedade organizada em classes, unificadora dos elementos
aristocrticos livres e detentora do controle sobre os escravos e os pobres. Houve
tambm um reforo das regras polticas e sociais, uma maior manuteno da
Do delta do Nger aos Camares: os fon e os ioruba                               539



ordem e um sistema de impostos. Em razo das influncias comuns do trfico
negreiro e das ligaes transatlnticas, Calabar estruturou-se segundo organi-
zaes fundadas nas linhagens semelhantes s "cmaras" dos Estados do delta
oriental. Porm, diferenciava-se desses, pois que possua empresas agrcolas em
terras arrendadas, nas quais a maioria dos escravos estava concentrada e isolada.
Outro trao distinguia Calabar dos outros Estados: os escravos eram mantidos
 parte de tudo, ao passo que, nos Estados do delta, eles eram integrados a uma
sociedade de danarinos mascarados, Ekine ou Sekiapu.
    Os mais importantes grupos da costa dos Camares constituram-se pelas
comunidades bantu do Nordeste: os kpe-mboko, os duala, os limba e os tanga-
yasa. Tratava-se de pescadores, cultivadores e caadores. A maioria deles estava
organizada em pequenas unidades aldes, porm, no sculo XVIII, os Bubi, os
Duala e os Isuwu criaram conjuntos polticos mais vastos, ou envolveram-se
com o trfico negreiro, ou extraiam benefcios dele. O rio Camares tornou-se,
portanto, um centro menor do trfico dos escravos, em relao ao esturio do
Cross River. Alis, estreitaram-se as relaes entre os dois centros.
    A sociedade secreta constitua igualmente um eficaz meio de controle social
e poltico. Entre os duala, os isuwu e os grupos vizinhos, o Jengu, baseado na
adorao dos espritos das guas, tornou-se a sociedade mais prestigiosa da
regio costeira do Camares.


    Concluso
    Do sculo XV ao XVIII, o trfico negreiro foi o elemento exterior predomi-
nante na histria desta regio de pntanos costeiros e de florestas equatoriais.
Porm, torna-se difcil estimar a influncia que ele teve sobre os fatores de mudana
interna que presidiram  evoluo da regio, bem antes de seu surgimento.
    Nas tradies orais de numerosos povos, o trfico  apresentado como uma
atividade que trouxe prosperidade e crescimento demogrfico.  o caso das
comunidades costeiras, que desempenham, aqui, o papel de intermedirios: elas
no se lanavam  guerra ou  caa aos escravos a fim de captur-los, porm
compravam-nos de outros grupos para vend-los aos negreiros ou para ficarem
com alguns. Os Estados do delta do Nger e o Estado efik de Calabar pertence-
ram a esta categoria. O trato era, sobretudo, um fator de transformao econ-
mica, social (integrao e controle dos escravos) e poltica (modificaes da base
do poder em razo das diferenas no domnio da riqueza e da mo-de-obra).
540                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    O reino fon do Daom ilustra um outro tipo de participao do trato, que
consistia no ativo fornecimento de escravos aos negreiros. Os aro e seus alia-
dos mercenrios desempenharam um papel semelhante no pas Igbo. Pode-
mos caracteriz-los como caadores de homens. Parece que tais comunidades
beneficiaram-se com o trato, contudo, em detrimento de um desenvolvimento
normal de seu sistema social, poltico e moral, arruinado face  violncia provo-
cada pelo trfico dos escravos.
    A terceira categoria de comunidades marcadas pelo trato constitui-se por
suas vtimas. Trata-se daquelas comunidades, situadas em diversas regies do
pas Ioruba, Igbo, Ibbio, entre outros, de onde provinha a maior parte dos
escravos vendidos na costa. Os ataques, os sequestros, as guerras, a generalizao
do desprezo pelo valor humano, tudo isso destruiu o sistema social e econmico
dessas comunidades. Povoados foram destrudos ou dispersos, propriedades
rurais abandonadas, as pessoas viviam no terror.
    Diante deste quadro sinistro, tem-se, s vezes, sustentado que o trfico
negreiro tirou do isolamento tais regies da frica tropical. De uma existn-
cia obscura e distanciada dos centros civilizados do Norte, elas tornar-se-iam
a vanguarda da cultura e entrariam em contato com o resto do mundo. Em
uma s palavra, o trfico negreiro teria integrado tais comunidades  economia
internacional. Ademais, a introduo de culturas alimentcias como o milho, a
mandioca, o arroz, etc., talvez tivesse restabelecido o equilbrio, suscitando um
ressurgimento da vitalidade demogrfica. Trata-se apenas de hipteses abstratas.
Para os povos africanos da regio, a poca do trato  um pesadelo, geralmente
oculto nos recantos mais obscuros de suas memrias.
Os Estados Haussas                                                                                 541



                                      CAPTULO 16


                           Os Estados Haussas
                                                D. Laya




    A regio em foco no presente captulo est espontaneamente associada,
hoje,  ideia de riqueza. s potencialidades resumidas no precedente volume,
estima um autor que se devem acrescentar dois elementos: a complementa-
ridade entre as outras regies e o pas haussa, em sua qualidade de produtor
(cereais, couro, ferro) e de consumidor (ouro, cola); a integrao da economia
oeste-africana com os wangara, os haussas e os kanuri, na savana, e com os
fante, os bini, os ijaw e os arochukwu, na floresta1.
    A documentao a respeito do desenvolvimento da regio, entre 1500 e 1800,
 muito desigual. No que concerne aos Estados haussas, as fontes encontram-se
muito variadas. Em uma primeira categoria, podem-se classificar os testemu-
nhos, as pesquisas e as obras de referncia, ainda que os testemunhos estejam to
contestados quanto as pesquisas2. A essas publicaes de carter geral, facilmente
acessveis, devem ser acrescentadas as teses: embora sejam de nvel acadmico
desigual, foram em sua maioria realizadas por pesquisadores oriundos da regio3.


1   UNESCO, Histoire gnrale de l'Afrique, vol. IV, pp. 324-325; M. Adamu (org.) s. d.c. 
2   J. Tilho, 1911; Y. F. Urvoy, 1936; J. Lon l'Africain, 1956; al-Sa`di, 1964; E. Sr de Rivires, 1965; B.
    Hama, 1966; H. E. S. Fisher, 1975 e 1977; J. F. A. Ajayi e M. Crowder, 1971, 2a ed., 1976; J. Ki-Zerbo,
    1978; T. H. Hodgkin, 1979; O. Ikime, 1980; M. Ka`ti, 1913-1914; M. Hiskett, 1984.
3   B. Hama, 1966, 1967a e 1967b; M. Adamu, 1968; M. B. Alkali, 1969; M. H. Piault, 1970; A. Salifou,
    1971; G. Nicolas, 1975; D. M. Hamani, 1975; N. Echard, 1975, pp. 34-97; M. Karimou, 1977; G.
    Na-Dama, 1977; M. Adamu, 1978; Y. B. Usmas, 1981; M. Saley, 1982.
542                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



Uma outra srie de documentos  constituda pelos anais, quase sistematica-
mente publicados, dos seminrios regularmente organizados, notadamente nas
reas da histria e da arqueologia, e dos quais participam especialistas oriundos
de diferentes pases4. Por fim, o ponto de vista dos interessados5 encontra-se
exposto em documentos publicados em ingls ou em haussa. No que concerne
por exemplo  Crnica de Kano, a verso inglesa, publicada h muito, foi corrigida
pela verso haussa que, por sua vez, ainda comporta interpretaes errneas em
relao ao texto original, assim como erros de impresso. Uma reedio de todas
essas fontes nos mais curtos prazos  desejvel. Porm, os debates em torno de
tais fontes atestam sua excepcional qualidade. Eis uma prova da vitalidade e do
rigor das pesquisas em curso: o permanente questionamento constitui a garantia
de que as insuficincias atuais sero progressivamente corrigidas.
    Encontram-se informaes indiretas sobre o Nupe e o Kwararafa em algu-
mas das publicaes supracitadas. No que diz respeito ao Borgu, ainda no se
pode fornecer muitos elementos novos, pelo menos at a publicao da tese do
falecido Musa Idris6.
    O estado da documentao impe um tratamento parcial das diversas enti-
dades polticas, resultando do desenvolvimento desigual da pesquisa e, talvez, da
posio relativamente perifrica do Borgu, do Kwararafa e do Nupe no decorrer
do perodo aqui considerado.


      Os Estados haussas
      A evoluo poltica
   Ao tratar da histria do Sudo Central a partir do sculo XVI, costuma-se
evocar o peso especfico do Sudo Ocidental, ou seja, do Mali, do Songhai e do
Imprio do Kanem-Borno, fato este legitimado em funo da existncia das in-
meras incertezas, particularmente em torno do sculo XIV7. O sculo XVI abre-

4     Y. B. Usman, 1979b; Y. B. Usman e M. Alkali, 1983; B. O. Barkindo, 1983; M. Amadu (org.) s. d.c; H.
      W. El-Hasnawi, 1982.
5     H. R. Palmer, 1967; M. A. al-Hajj, 1968; A. A. Dokaji, 1978; Y. F. Urvoy, 1978; R. M. East, 1979. Para
      os debates, ver M. Last, 1983 e M. Adamu (org.), s. d.c; M. G. Smith, 1983.
6     J. Lombard, 1965; O. Bagodo, 1978; D. M. Debourou, 1979. Quanto  tese de M. Idris, as expectativas
      so grandes, pois que a sua publicao foi colocada sob a responsabilidade de especialistas eminentemente
      renomados; ver M. Adamu, 1979, nota 89.
7     A extenso da autoridade do Mali sobre Tdmekka ou Takedda, defendida por Ibn Khaldn, foi descar-
      tada por H. S. Fisher (1977, p. 265). Trata-se do lugar onde morreu o mansa Sakura, quando de sua volta
      de peregrinao; ver D. Lange, 1977, p. 73, nota 19(4). Da mesma forma, o nome Zaghai designa, de
                                                                                                                                                                                                                                     Os Estados Haussas
                                                                                                           Argel
                                                                                                                                  Tnis
                                                                                              Tlemcen
      OCEANO ATLNTICO
                                                                              Fez                          I                                              Mar Mediterrneo
                                                      Marrakesh                                                 M
                                                                                                                            P                    Trpoli
                                                                           158                                                      
                                                        'a   ra                  3
                                                     iD                                                                                      R
                                                ad                                                                                                        I                                        Cairo                         O
                                                                                                                                                                   O

                                            U
                                                                         S                         OASIS DO GURARA                                                             O                                             N
                                                              N                                                                                                                     T       T    O      M                A
                                                      E
                                                 I




                                                                                                                                                              1576 ?
                                            D                                                          OASIS DO TOUAT
                                        A
                                   A
                         4
                     158




                                                                    Tghaza
                                                                                                                                                                                                                   ilo
                         S




                                                                                                                        15
                                                                                                                                                                                                               N




                                                                                                                         83




                                                                                                                                                                                                           o
                              Uaddan




                                                                                                                                                                                                        Ri
                                                                                                                             (B
                                                                159




                                                                                                                               ay
                                                                                                                                  'a
                                                                     1




                                                                                                                                     )
                                                Tombouct                       Bamba
           Rio                                                                                                          Agadez
               S   en                   Ras AL-M
                     e                                                                                 R
                                                                              1591 Gao            A                                              O          Birmin Gazargamu
                     ga




                              1591-1592
                                                                                                                        GOBIR                    v. 1578
                        l




                                                                                                                                           N
        Rio Gm                                                                                                                                               KANEM
                                                                                             SO




                                                                                                                         KATSINA




                                                                                                                                         R
                                                                                                                I
               bia                                         Djenn                                                                                      Njimi
                                                                                                               BB
                                                                                                                                  A
                                                                                              NG




                                                         ni                                                                    UR                               Lago Chade




                                                                                                                                     B O
                                                     a                                                                       DA                      Yo
                                                                                                           KE



                                                Rio B
                                                                                                  AI




                                   er                           S                      nc
                                                                                         o                                                     Rio                     Lago Fitri
                                g                           DO
                                                                                  a




                              oN                          TA SI                                           ARA
                                                                                Br




                         Ri                             ES MOS                                         MPF
                                                                                                                                                                                        0                          500 milhas
                                                                                                                        O
                                                                               lta




                                                                                               ZA
                                                                                                                     N
                                                                             Vo




                                                                                                                    A




                                                                                             BORGU                                       AFA
                                                             Rio Volta




                                                                                                                K




                                                                                                                                                                                        0                          800 km
                                                                                                                          A     AR
                                                                                                                        RI KUAR
                                                                         Rio




                                                                                                                     ZA                                                                     Limites aproximados do povoado
                                                                              Rio Vo




                                                                   Ne
                                                                                                                Nger




                                                                          gro                                        Rio B nu
                                                                                                                          e
                                                                                                                                                                                            Direo das campanhas militares
                                                                                lta




                                                                                                                                                                                            (aquelas que no esto datadas
                                                                                                               Rio




                                                                                                                                                                                            aconteceram por volta do incio
                                                                                     Golfo do Benin                                                                                         do sculo)




                                                                                                                                                                                                                                     543
Figura 16.1 A frica do Norte e o Sudo Central em 1600. [Fonte: segundo J. F. A. Ajayi e M. Crowder, 1976, vol. I, p.286. Mapa adaptado com a amvel
autorizao de Longman Group UK Ltd.]
544                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



-se com a campanha do askiya Muhammad em Azbin: as pesquisas em curso8
podero explicar o fato de a regio ter sido to cobiada em diversas ocasies.
Muhammad era tambm movido por um sentimento de nostalgia a respeito dos
imperadores sarakunan noma (mestres das culturas)9, ou seja, do Mai do Kanem,
experimentando a cultura da cana de acar, e do Mansa do Mali, mandando
cortar a cabea do ladro de kafi. De fato, a guerra revestiria uma outra dimenso
e transformar-se-ia em uma empreitada cujo principal objetivo consistiria em
"comer" o que o trabalho dos produtores permitiu acumular. Por fim, a ltima
razo reside no fato da pouca ateno prestada, at ento, s transformaes
do Sudo Central, principalmente em funo de o Oeste e o Leste serem mais
conhecidos. Ora, o Sudo Central seria rapidamente integrado  rede comercial
e ideolgica que unia as sociedades do Sudo Ocidental ao mundo muulmano.
Sua evoluo poltica ser aqui estudada atravs das relaes com os Estados
vizinhos, dos conflitos entre o Kano e o Katsina, assim como dos intermdios
do Kebbi, do Zamfara e do Gobir.
    O quadro cronolgico aqui usado basea-se fundamentalmente em trabalhos
que oferecem uma viso global muito sugestiva, apesar de algumas dificuldades
e diferenas pontuais10. Podem-se distinguir os trs perodos a seguir.
    De 1500 a 1620, os Estados consolidaram-se, apesar dos fortes conflitos entre
o Kano e o Katsina, permanecendo o Kebbi a potncia dominante do Haussa
Ocidental. Em suas relaes com seus vizinhos, o Songhai foi definitivamente
eliminado e o Mai do Borno s pde indignar-se com o comportamento to
pouco aristocrtico do Sarkin do Kano Muhammad Kisoki (1509-1565).
    Entre 1620 e 1730, o Kano caminhava rumo  formao de um verdadeiro
califado11, no momento em que o Zamfara e o Gobir se reforavam aps o
declnio do Kebbi. O Kwararafa, por sua vez, acentuava seus traos de Estado
predador.
    O perodo de 1730 a 1808 marcaria o desmoronamento do Zamfara e o
apogeu do Gobir.



      acordo com um informante de Ibn Khaldn, o Takrr. Tratando-se do nome do pas onde se exportava,
      segundo Ibn Battta, o cobre de Tdmekka, podemos identific-lo com Songhai, Zaghwa ou Zaghai,
      nome original de Birnin Katsina; ver J. M. Cuoq, 1975, pp. 319 e 343; M. Last, 1983, p. 73.
8     D. M. Hamani, 1975.
9     J. M. Cuoq, 1975, p. 209 (Kanem) e pp. 266-267 (Mali).
10    H. R. Palmer, 1967; M. B. Alkali, 1969; G. Na-Dama, 1977; D. Lange, 1977; Y. B. Usman, 1978 e 1981;
      I. Makassoua, 1982.
11    M. Last, 1983, pp. 67-91.
Os Estados Haussas                                                                                       545



     As relaes com as regies circundantes
    Embora as relaes do pas haussa com seus vizinhos estejam cada vez mais
conhecidas, controvrsias persistem quanto a sua interpretao pelos diferentes
autores.
    No que concerne ao Songhai12, deu-se uma importncia exagerada  potncia
do askiya Muhammad. Suas caractersticas econmicas e polticas podem ser
analisadas  luz das fontes provenientes do Kano: `Abdullh Barja (1438-1452)
abriu a rota Gwanja-Kano-Borno, ao passo que os sunni organizavam a parte
ocidental de seu imprio. Por conseguinte, pode-se admitir facilmente o ponto
de vista de Kubbel, segundo o qual o askiya "apenas conhecia um meio" de se
opor  intensificao das trocas pela rota oriental: control-la graas  conquista
militar. A principal consequncia de sua campanha em Azbin foi a emergncia
do Kebbi como Estado independente em 1516. O Songhai tentaria reconquistar
seu domnio perdido sobre esse Estado13. O askiya Muhammad Benkan Kiriai
(1531-1537) dirigiu uma expedio contra o Kebbi por volta de 1533: "O Kanta
infligiu uma vergonhosa derrota a seu adversrio que fugiu com todo seu exrcito
[...]. O prncipe chegou a Kagho e, desde aquela poca, nenhum iskaya organi-
zou outra expedio contra o Kanta." Na verdade, outra incurso foi organizada
em 1552 sob o reinado do askiya Dwd (1549-1583): um tratado de paz ps
fim ao conflito em 1553. Em seguida, o kanta Dwd (aproximadamente 1589-
-1613) acolheria e ajudaria a resistncia songhai: apesar das ameaas do sulto
do Marrocos, no cederia, confiando em sua potncia militar e talvez desejoso
de poupar o gulma, um dignitrio de alto escalo que representava os elementos
songhai partidrios do primeiro kanta14.
    O Azbin15 deu o pretexto ao enfrentamento entre o Kebbi e o Borno. Este
ltimo estendera sua influncia graas  conquista de Agades por volta de 1532,
 assinatura de tratados com diversos grupos tuaregues e  nomeao de um
delegado. Em funo das inmeras incurses do Kebbi, a ajuda do Borno foi
solicitada em 1561. De incio vitorioso em Surame, o exrcito do Borno, com-
posto por 100.000 combatentes, foi obrigado a se retirar: o Kanta venceu-o em


12   UNESCO, Histoire gnrale de l'Afrique, vol. IV, cap. 2, pp. 308-317; L. E. Kubbel, 1974, p. 97.
13   al-Sa`di, 1964, pp. 146-147 e 168; J. O. Hunwick, 1971, p. 285. Sobre o contexto poltico por volta de
     1590, ver Z. Dramani-Issifou, 1982, p. 186, 207, 218-219. A cronologia do Kebbi est sujeita a questio-
     namentos; M. Alkali fixa em 1554 e al-Sa`di em 1561 a data da morte de Kanta I; o autor do presente
     captulo mantm essa primeira data.
14   M. B. Alkali, 1969, pp. 62-63.
15   J. O. Hunwick, 1971, pp. 283-284; H. S. Fisher, 1977a, p. 266; ver tambm o captulo 17 a seguir.
546                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



Nguru, porm, no caminho de volta, morreu em um povoado do Katsina16. Em
seguida, no fim do sculo, eclodiu uma crise dinstica em Azbin. Deposto por
Muhammad ben al-Mubrak (por volta de 1601), Ysuf solicitou o apoio do
kanta Dwd que, por desejar ali manter sua influncia, foi obrigado a ajud-lo
em duas ocasies para que pudesse derrotar seu rival apoiado pelo Borno: tal
sucesso ps fim aos projetos de dominao do Azbin por parte dos mai17. O
Azbin atingiu seu apogeu sob o reinado de Muhammad al-Mubrak (aproxima-
damente 1653-1687). Aproveitando-se dos incessantes conflitos entre o Gobir e
o Haussa Oriental (Kano e Katsina), e entre o Zamfara e o Kebbi, Muhammad
enviou, em 1674, uma expedio dirigida por seu filho Agabba, que conquistou
o Adar, o que acelerou o declnio do Kebbi18. Desde ento, coube ao Zamfara e
ao Gobir reduzir a influncia do Azbin na zona de Kwanni. Em 1675, o exrcito
do Zamfara massacrou por volta de 700 tuaregues kel owi em uma emboscada.
O Azbin vingou-se no mesmo ano, pois o Zamfara deixou mais de mil mortos
no campo de batalha. Por volta de 1689, O Azbin atacou e derrotou o Gobir, que
saqueava a mesma rea. Por fim, em 1721, Agabba, ao se tornar sulto, marchou
sobre Surame e matou o kanta Ahmadu. Em 1722, a corte do Kebbi recuou
rumo ao Oeste. Contudo, o Azbin entrava em um perodo de crises dinsticas
e de catstrofes, permitindo assim ao Zamfara e ao Gobir ocupar uma posio
dominante.
   At 1561 estava em uma forte posio o Borno. O Sarkin do Kano, `Abdullhi
(1499-1509), ao ser atacado pelo Mai, adotou uma atitude de humildade que
levou o agressor a se retirar.  difcil descrever o contexto poltico do Kano.
Pode-se apenas dizer que a rainha me Auwa conseguira conter uma rebelio
instigada por um dagaci que ocupava funes importantes na corte. As razes
que o levaram a agir no ficaram claras. Porm, seu sucessor, Muhammad
Kisoki (1509-1565) investiu contra a cidade Nguru em Borno e ordenou que
apenas se levassem cavalos e roupas. Surpreendido por tal ataque, o Mai deci-
diu atacar o Borno no ano seguinte, mas teve que se retirar mais uma vez19.
Tais fatos foram comentados por dois historiadores20. Ao avaliarmos a situao


16    Y. B. Usman, 1981, pp. 31-32; ver captulo 17 a seguir.
17    M. B. Alkali, 1969, p. 76; J. O. Hunwick, 1971, p. 283.
18    M. B. Alkali, 1969, pp. 78-84; R. A. Adeleye, 1971, pp. 585-586; D. M. Hamani, 1975, p. 91; G.
      Na-Dama, 1977, pp. 217-225.
19    H. R. Palmer, 1967, pp. 112-113. H uma diferena entre o texto ingls e a verso haussa que deixa a enten-
      der, se no houver erro de impresso, que o dagaci estava prestes a se dirigir a Kagara (uma localidade).
20    Y. B. Usman, 1983, pp. 181-184; M. Last, 1983, pp. 68-74. A respeito da situao no Borno, ver D.
      Lange, 1977, pp. 79-81 e o captulo 17 a seguir.
Os Estados Haussas                                                                                      547



interna de ambos Estados, descobrimos que o Kano venceu um longo conflito
com o Katsina, enquanto Idris Katakarmabe (aproximadamente 1497-1519)
consolidava os frutos de sua vitria. A humilhao infligida por Kisoki foi o
sinal da potncia do Kano no momento em que o Borno sofria uma dissenso
interna e sucessivos anos de fome: de qualquer modo, o segundo ataque contra
o Kano teria acontecido antes de Idris Alawoma (1564-1594).
   No tardou o Kano a sofrer os ataques repetidos do Kwararafa: entre 1582 e
1618, seus habitantes foram obrigados a buscar refgio em Daura. O soberano
do Kano foi de novo expulso em 1653 e, em 1671, a populao refugiou-se mais
uma vez em Daura. De acordo com Palmer, o tratado de paz assinado entre o
Kano e o Katsina (entre 1649 e 1651) foi inspirado pelo medo do Kwararafa,
que seria derrotado pelo Borno em 168021.
   Para ser objetivo, haver de se levar em conta a situao poltica de cada um
dos Estados implicados, j que no se encontravam na mesma fase de evoluo.
Esses conflitos sugerem, alm da rentabilidade das atividades de saque, um
equilbrio instvel entre potentes vizinhos.

     A luta pela hegemonia
   Leo, o Africano, apresenta Kano como uma cidade cujos "habitantes so
artesos civilizados e ricos mercadores". Por outro lado, o Katsina aparece como
um reino rural e pobre. Vale lembrar aqui que a rota Gwanja-Kano-Borno foi
aberta entre 1438 e 1452. Outrossim, no sculo XV, Agades suplantara Takedda
como principal centro de caravanas, permitindo assim ao Katsina se tornar um
ponto final da rota de caravanas trans-saarianas, bem como um entreposto para
todo o pas haussa22.
   De acordo com um artigo recente,  preciso reconsiderar a explicao dos
conflitos militares entre os dois Estados  luz da concorrncia pelo controle
do ponto final transaariano, pois se ignora tudo da natureza e da amplitude
dessas guerras, assim como do pano de fundo poltico e geral a elas subjacentes.
Convm ento se debruar de novo sobre esses conflitos no intuito de informar,
quando possvel, as razes de seu surgimento, o nome do agressor e o lugar de
encontro, sem esquecer de precisar a situao poltica interna e externa ento
prevalecente.


21   H. R. Palmer, 1967, pp. 83, 116 e 121-122.
22   J. Lon l'Africain, 1956, p. 2 e 476-477; H. R. Palmer, 1967, p. 109; J. O. Hunwick, 1971, pp. 275-276;
     R. Adeleye, 1971, pp. 562-563.
548                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    O primeiro conflito23 estourou portanto sob o reinado de Rumfa (aproxi-
madamente 1463-1499). Esse soberano acumulara tantas riquezas que ele foi
o primeiro a ser escoltado por eunucos  em seus mais belos trajes quando da
guerra contra o Katsina  e a confiar-lhes cargos oficiais. No se conhecem as
razes do conflito, porm, no Katsina, sucederam-se Korau, Ibrhim Sura e
Aliyu Murbit: diante de tais soberanos, no  de se surpreender que a guerra
tenha durado onze anos, sem desenlace decisivo.
   O segundo conflito ocorreu na poca de Ab Bakr Kado (aproximadamente
1565-1573), quando do reinado de Ibrhim Badankari (aproximadamente 1565-
-1573) no Katsina. Os katsinawa chegaram ento s portas de Kano e acampa-
ram em Salanta, venceram a batalha e retornaram a seus lares.
   Certamente no intuito de vingar essa derrota, Muhammad Shshiri (apro-
ximadamente 1573-1582) organizou uma expedio contra o Katsina onde
reinava Muhammad Wari (aproximadamente 1575-1587). A batalha ocorreu
em Kankiya, no muito longe do Katsina. Diz-se que "os katsinawa venceram a
batalha graas a sua superioridade numrica". Ento estourou a guerra civil em
Kano: aps ter escapado da morte, o soberano foi deposto.
   Esses trs primeiros conflitos teriam tido causas polticas marcadas: sem que
ainda se saiba por que, o Kano atacou sem lograr xito; os katsinawa chegaram
s portas de Kano para vencer a batalha, e em seguida, o Kano seria derrotado
perto do Katsina. Desse ponto de vista, ao menos uma fonte do Katsina24 afirma
que este foi, em algum momento, dominado pelo Kano.
   O conflito seguinte estourou25 no decorrer do reinado de Muhammad Zaki
do Kano (aproximadamente 1582-1618). No Katsina sucederam-se Muhammad
Wari (aproximadamente 1575-1587), Sulaymn (aproximadamente 1587-1600)
e `Uthmn Nayinawa (aproximadamente 1600-1618). H uma certa confuso
sobre o que aconteceu em seguida. Como a cronologia  imprecisa, talvez tenha
havido uma mudana de dinastia. Apesar de tudo isso, o Katsina era to poderoso
que o Kano temia eventuais ataques. Um autor destaca que antes de lanar o ata-
que, os guerreiros, seguindo os conselhos dos dignitrios, adotavam cokana e dirki
como talisms, a fim de se proteger do inimigo. Entretanto, tal precauo no
impediu a invaso do Kano pelo Kwararafa. Isso acarretou o enfraquecimento do
Kano onde, pouco depois, Muhammad Zaki consultaria os `ulam' e conseguiria


23    H. R. Palmer, 1967, pp. 111-112 e 115-116. A tese de `Abdullhi Mahadi sobre Kano no pde ser
      consultada.
24    I. Dankoussou, 1970, p. 28.
25    H. R. Palmer, 1967, pp. 81 e 116-117; I. Dankoussou, 1970, p. 30; R. Adeleye, 1971, p. 580; Y. B. Usman,
      1978 e 1981, p. 63.
Os Estados Haussas                                                             549



um talism a um preo muito elevado. Convenientemente protegido, o Kano
atacou os acampamentos militares do Katsina. O agressor venceu essa batalha.
    Assim que chegou ao poder, Muhammad Nazaki (aproximadamente 1618-
-1623) fez uma proposta de paz ao Katsina que, em vez de aceit-la, lanou
uma nova ofensiva: o encontro ocorreu em Karaye, no muito longe de Kano, e
o Katsina foi derrotado. O wambai de Kano foi transferido em Karaye, de onde
lanou contnuos ataques contra o Katsina26.
    Sob o reinado de Kutumbi (aproximadamente 1623-1648), o prncipe do
Kano, Bako dan Kutumbi, continuou pressionando o Katsina: saqueou uma cidade
com 90 cavaleiros vestidos com cotas de malha e seus 600 cavalos. Depois estourou
outro conflito cujo pretexto foi o assassinato no Katsina de um escravo pertencente
a uma representante do Kano ento em misso. Kutumbi instalou um acampa-
mento militar em Dugazawa, impondo assim ao Katsina um stio prolongado.
Organizou tambm uma segunda expedio, mas seu exrcito, surpreendido, foi
derrotado e o prprio Kutumbi foi morto em Rumarawa, na fronteira entre o Kat-
sina e o Kano. Seu sucessor, al-Hdjdji, foi destitudo aps oito meses de reinado
e substitudo por Shekarau (aproximadamente 1649-1651) que conseguiu firmar
a paz depois de negociaes com os `ulam'. A potncia do Katsina consolidou-se
ainda com Muhammad Wari (aproximadamente 1631-1641), Muhammad Uban
Yara (aproximadamente 1641-1671) e Muhammad Jan Hazo (aproximadamente
1671-1684), sem que houvesse ruptura do tratado de paz27.
    Houve portanto uma longa luta de carter poltico pela hegemonia no pas
Haussa Oriental. O Borno e o Kwararafa, como j vimos, tiveram de se apoiar
em seus vizinhos, mas a situao que prevalecia no Haussa Ocidental dependia
de um outro dado cujo papel no pde ser negligenciado.

     Os intermdios
   At o fim do sculo XVI, o Kebbi no temia nenhum inimigo, nem mesmo o
Marrocos. Dentre as condies particulares da consolidao desse Estado, certo
autor citou a heterogeneidade de seu povoamento, a polarizao dos protestos
contra a dominao songhai e o interesse dos chefes militares em manter a
independncia. Todavia, nada comprova que o Kebbi tenha invadido a regio
ou tenha tido pretenses sobre o Songhai28.



26   R. A. Adeleye, 1971, p. 581; Y. B. Usman, 1981, p. 33.
27   H. R. Palmer, 1967, pp. 118-119; R. A. Adeleye, 1971, p. 581.
28   M. B. Alkali, 1969, pp. 58-67.
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    Foi justamente a independncia do Kebbi que modificou a situao poltica
na bacia do Rima: integrou-se a seu territrio o nordeste do Zarma, reduzindo
assim a zona de saques do Zamfara29. Da decorreram enfrentamentos: depois de
Taritu (por volta de 1531), foi a vez de Zartai de conduzir, em meados do sculo,
uma srie de ataques de desenlace incerto, levando  assinatura de um tratado
de paz. O Kebbi desfrutou assim de mais tranquilidade e, aps ter derrotado o
Borno em 1561, ocupou um lugar central na vida poltica do Haussa: "Tornou-
-se rapidamente a mais formidvel potncia militar do mundo haussa30." No
se conhece a exata natureza de suas ligaes polticas com os outros Estados.
Para alguns autores, a maioria desses Estados pagava um tributo ao kanta, o que
 contestado por outros: o Zamfara, por exemplo, foi atacado uma s vez pelo
Kebbi, e nada permite afirmar que o primeiro tenha sido o vassalo do segundo.
De qualquer maneira, ambos tiveram razo para temes o Gobir31.
    A capital do Gobir foi transferida do Azbin para o pas haussa, precisamente
em Birnin Lalle, no centro de uma zona bem irrigada e muito povoada, o Gulbin
Tarka. Teria sido fundada por volta de 1450. O poder ali permaneceu at apro-
ximadamente 1600, data em que um ataque lanado pelos tuaregues degenerou
em massacre. Os gobirawa foram obrigados a prosseguir suas peregrinaes mais
ao Sul, rumo ao Kufan Kuturu e a Hisatau, no Gulbi Maradi (ali foi morto o
ltimo soberano do Hisatau32, Muhammad Mai Gici, pelo soberano do Katsina,
preocupado com os adentramentos em seu territrio e com a conservao do
controle da rota Katsina-Tessawa-Azbin). Os gobirawa dirigiram-se ento rumo
ao Noroeste e fundaram a "nova" Gwazan Rama (entre 1685 e 1690). A partir
dessa cidade, Uban Doro lanou ataques no somente contra o Kebbi, como
tambm contra o pas ioruba e o Gurma. Soba, seu sucessor, atacou o Adar, o



29    Os dados sobre o Zamfara foram extrados de G. Na-Dama, 1977; a respeito de suas relaes com o
      Kebbi, ver pp. 220-228.
30    D. M. Hamani, 1975, p. 83.
31    Encontram-se precises sobre o sistema da sarauta do Gobir, dadas por Ibn Battta, em J. M. Cuoq,
      1975, p. 323. Citando uma testemunha ocular, o autor afirma que o soberano foi sepultado com alguns
      membros de seu entorno, escravos e 30 filhos e filhas de autoridades.  flagrante o carter religioso de
      tal tradio, embora seu alcance poltico seja, contudo, evidente. As pesquisas arqueolgicas encontraro
      certamente o stio da capital do Gobir. Os novos fatos, assim como a cronologia anterior a 1700, foram
      extrados dos trabalhos de Makassoua. Esperam-se com maior interesse os resultados de suas pesquisas,
      j que o Gobir representa um caso intrigante para os pesquisadores, por exemplo J. E. G. Sutton, 1979,
      pp. 192-195, e G. Nicolas, em M. Amadu (org.), s. d.c.
32    I. Makassoua, 1982, pp. 39-45. As descobertas de J. Tilho (1911) e Y. B. Usman (1978 e 1981) sugerem
      que tais acontecimentos teriam ocorrido entre o incio do reinado de Sulaymn (por volta de 1587-1600)
      e o fim do de `Uthmn Tsagarana, o soberano do Katsina (aproximadamente 1600-1618).
                                                                                                                                                                                                                        Os Estados Haussas
                                                                                        AIR                      Agadez
                                                                                                                                                                0                 100        200 milhas

                                                                                                                                                                0                 150        300 km
               Menaca                                                                                          KEL OUI
                                                                                                             KEL TEGAMA
                                                             AZAUAD

                                                                                                 KEL GERES
          AWLLIMIDEN
          (KEL ATARAM)                                      AWLLIMIDEN                            ITESAN
                                                            (KEL DINNIK)                                                                                              Em direo a Bilma
                                                                                             Birmin Adar
      I




                                                                ADAR
                  ZABERMA
    A


            Rio




                                                                                     GOBIR
    N G




                                                              Birmin Konni                                                  Zinder
              N




                                                                                    Alkalaua                                                                                                     Lago Chade
                     Dallol Bosso




                                     Matancari
                 ger




                                                                           a
                                    Dosso AREWA Leka                    im
S O




                                                                  Birmin

                                                                    R
                                                                  Zamfara            Katsina
                                            i




                                                                               Zurmi
                                          ur




                                                         Surane                                                                                      Nguru                     Birmin
                                       Ma




                                                                        ZAM                 Daura
                                              KEB BI    Gungu                 FA                    Gumel                                                                      Gazarganu
                                                                   Rio     Ga RA
                                     Dallol




                                                   Birmin Kebbi        So     ge Kiaua                      jia                                   Garun       BORNO
                                                          Zamfara         ko                             de
                                                    ebb i




                                                                                re
                                                                            t                         Ha                                          Gabas                                                   R
                                                                                         Kano     Rio                                                     a




                                                                                                             A
                                                              Gummi




                                                                                                                                                                                                          io
                                                                                               o
                                              Ri o K




                                                                                                                                                      n
                                                                       Yandoto




                                                                                                         IN
                                                      Rio Ka




                                                                                                                                                    Ga




                                                                                                                                                                                                             C
           GURMA



                                                                                                      TS




                                                                                                                                                                                                              hari
                                                                                                                                          a

                                                                                                                                                   ug u
                                                                                                                                       ang
                                                                                                    KA
                                      Illo                                                                                Rano
                                                                                                                                                                                           MANDARA




                                                                                                                                               ad
                                                                                                                                       B

                                                                                                                                              m
                                                                                                                                   Rio
                                                                Birmin Yawuri




                                                                                                                                            Ko
                                                                                               Birmin    Zaria                                o
                                                                                        ga




                                                                                                                                           Ri
                                                                                    ari




                                                                                               Gwari
                                                                                                                 na
                                                                                                               du
                                                                               Rio M




                                                                                                                                                                                                          Ri
                                                                                                             Ka




                                                                                                                                                                Ri




                                                                                                                                                                                                             o
                                    BORGU                                                               io




                                                                                                                                                                  o




                                                                                                                                                                                                              La
                                                                                                                                                                                                                 on




                                                                                                                                                                    Go




                                                                                                                                                                                                                g
                                                                                                   R




                                                                                                                                                                                                                    e




                                                                                                                                                                      ng
                                                                                                                     a
                                                                                                                 rar




                                                                                                                                                                         ola
                                                                      NUPE                                     Gu
                                                                                                         Rio
                                                                                   Gbara


                                                                                                                                         nu
                                                                                                                                                         KUARARAFA
                                                                IORUBA                                                                 Be
                                       Oyo                                                                                       Rio




                                                                                                                                                                                                                        551
Figura 16.2 O pas haussa antes de 1800. [Fonte: de acordo com J. F. A. Ajayi e M. Crowder, 1976, vol. I, p. 286. Mapa adaptado com a amvel autorizao de
Longman Group UK Ltd.]
552                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Kebbi e o Maradi. Ademais, atou relaes amigveis com o Zamfara, abrindo
assim as portas de Alkalawa aos camponeses e comerciantes do Gobir.
    Essa expanso progressiva do Gobir rumo ao Sul provocou uma nova modi-
ficao da situao poltica. O Kebbi, mantendo suas posies, enriqueceu-se e
prosperou a ponto de "a velha aristocracia militar[...] (ser) substituda por uma
nova aristocracia econmica33". Seu declnio iniciou-se no momento em que
se confirmava a potncia do Zamfara. Em meados do sculo XVII, este era
dirigido por enrgicos soberanos apoiando-se no isl. O lugar por ele ocupado
pode ser medido  partir de suas relaes com o Katsina34, alis excelente at
o dia em que um prncipe do Zamfara foi morto por Muhammad Uban Yara
(aproximadamente 1641-1671). O sarkin zamfara Zaudai planejou vingar esse
assassinato, porm enfrentou a oposio dos dignitrios, em nome das boas
relaes entre os dois Estados. De qualquer forma, sua morte ps fim ao pro-
jeto. Os grandes eleitores deram-lhe como sucessor seu irmo Aliyu, o primeiro
soberano muulmano do Zamfara. Sua poltica era, sem dvida nenhuma,
ligada ao desenvolvimento do isl no Katsina, j que ergueu mesquitas nas
cidades. Desde ento, Zamfara, deixando de lado suas incurses espordicas,
concentrou suas foras nas grandes cidades do Kebbi. Em 1674, Sulaymn
organizou um grande ataque: o exrcito do Kebbi, composto por 6 000 com-
batentes e apoiado por um contingente do Adar, foi derrotado, e inmeros
soldados foram capturados. No mesmo ano, o Kebbi perdeu o Adar que, como
vimos, lhe foi arrancado pelo prncipe Agabba. Estvamos diante de uma srie
de derrotas e no de uma ao concertada do Azbin, do Gobir e do Zamfara35.
Aps tal vitria, o Zamfara tornou-se a principal potncia da zona; sua fora 
atestada pela vitria, em Yargana, do comandante de sua cavalaria, Yakubu dan
Mazuru, contra o exrcito do Kano de Muhammad Shrif (aproximadamente
1703-1731); foi depois dessa derrota que este ltimo mandou cercar vrias de
suas cidades com baluartes36.
    Ento se reerguera o Zamfara aps da derrota sofrida contra o Azbin. Porm,
a potncia militar do Gobir tambm crescia: "Sob seu reinado [o de Kumbari,
por volta de 1731-1743], houve uma guerra feroz entre o Kano e o Gobir. O
sarkin do Gobir chamava-se Soba. Toda vez que os gobirawa infligiam uma
derrota aos kanawa, estes vingavam-se no ano seguinte. Tal situao prevaleceu


33    D. M. Hamani, 1975, p. 85.
34    G. Na-Dama, 1977, pp. 231-234; Y. B. Usman, 1981, p. 30-31.
35    M. B. Alkali, 1969, p. 78-79; D. M. Hamani, 1975, p. 91; G. Na-Dama, 1977, pp. 224-225.
36    H. R. Palmer, 1967, p. 123; G. Na-Dama, 1977, pp. 224-225.
Os Estados Haussas                                                                                    553



por muito tempo37." Com efeito, o sucessor de Soba, Ibrhim Babri (aproxi-
madamente 1741-1770), enviou uma delegao encarregada da assinatura da
paz junto a al-Hdjdji Kabi (aproximadamente 1743-1753), mas este recusou.
Um ano depois, Babri tomou a iniciativa de atacar, e o encontro de Dumi
transformou-se em total derrota para o Kano, "em razo do poder mgico de
Babri". Os massacres, de todas as partes, s findariam com a morte de Kabi. Em
pouco tempo, o Gobir sofreu diversas restries impostas pelo sarkin zamfara,
preocupado com esse turbulento vizinho. Contentou-se em retrucar, de incio
com algumas operaes de assdio, e em seguida, aproveitando-se de uma crise
dinstica, destruiu Birnin Zamfara por volta de 176238.
    Essa evoluo houve importantes repercusses sobre a situao poltica das
regies perifricas. No Leste39, o Sultanato de Damagaram foi criado por volta
do incio do sculo XVIII, ao passo que os Estados tsotsebaki se reforavam
para, em seguida, se dividir. Essa zona fronteiria entre o Borno e o pas haussa
era extremamente sensvel s evolues polticas e culturais.
    No Noroeste40, conhece-se melhor a histria do Adar. Porm, suas ligaes com
o Kurfay permanecem obscuras, este ltimo sendo nos relatos associado quer ao
Adar, quer ao Borno, ainda que a proximidade com o Arewa favorecesse o Borno.
A data de criao de um poder poltico nesta zona est sujeita a vrias controvrsias,
mas as diversas dinastias eram ligadas tanto ao Borno quanto a Daura.
    Segundo as tradies dos zarma e dos gobirawa, as ligaes do Zarma  ou
seja, a regio mais oriental do Imprio Songhai  com o pas haussa datam da
poca em que o Gobir fazia parte do Azbin41. Na poca, essa zona constituiu
um elemento central das lutas entre o Kebbi, o Zamfara e o Gobir. Pensa-
-se que o Kebbi dali foi eliminado em 1722. Antes disso, contudo, seu papel
poltico demonstrou-se determinante no Zarmatarey, onde o nome Kebbi est
associado  cavalaria protegida pelos lifidi (caparazo) que alastravam o terror
e a desolao.
    A Oeste, enfim, e na margem gurma (direita) do Rio Nger, algumas dinastias
gulmanceba reivindicaram uma origem sudano-central, bornoana ou haussa, e as


37   H. R. Palmer, 1967, pp. 124-125; G. Na-Dama, 1977, pp. 240-245.
38   G. Na-Dama, 1977, pp. 378-386.
39   A respeito do Damagaran, consultar A. Salifou, 1971, pp. 31-42. No que diz respeito aos Estados tsot-
     sebaki, ver M. Saley, 1982, pp. 24-58.
40   No que concerne ao Adar, ver D. M. Hamani, 1975, pp. 25-125; N. chard, 1975, pp. 34-97. No que
     tange ao Arewa, consultar M. H. Piault, 1970, pp. 49-124; M. Karimou, 1977.
41   Sobre as relaes entre gobirawa e zarma, ver B. Hama, 1967a,1967b e 1968; B. Gado, 1980; I. Makas-
     soua, 1982. Sobre a influncia do Kebbi no Zarmatarey, ver M. B. Alkali, 1969, pp. 90-96.
554                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



pesquisas arqueolgicas confirmariam essa tese, pelo menos no que diz respeito
s zonas prximas  margem haussa  esquerda do Rio Nger42.
    No extremo Sul, na zona ocupada pelos kebbi, yawuri, nupe e borgo, o
desenvolvimento e a implantao real dos zarma-songhai no foram claramente
demonstrados: na mitologia desse povo, dentre as mais poderosas divindades
encontram-se Manda Hausakoy, um forjador-pescador de Yawuri, e Dongo,
um caador do Borgu cujos atributos so exatamente os mesmos que aqueles
de Xang na cultura ioruba43.
    Entretanto, a situao havia se tornado muito mais estvel aps a derrota do
Zamfara em 1762. Apesar de uma crise interna, o Katsina conseguiu derrotar
o Gobir, ao passo que no Kano44, Babba Zaki (aproximadamente 1768-1776)
sentiu-se obrigado a aterrorizar seus colaboradores.


      A organizao poltica e administrativa
   Dessa forma, apesar dos conflitos militares que tinham atingido uma intensi-
dade preocupante, essa multido de Estados conseguiu se manter. Aps as severas
derrotas que haviam sofrido, os soberanos do Kebbi e do Zamfara recolheram-se
em um territrio de tamanho reduzido a fim de preservar seu poder. O processo
de instaurao e de transformao45 do sistema da sarauta, tal como se desenvol-
veu no Sudo Central, pode, em grande parte, explicar esse fenmeno.

      O sarki
    frente do Estado, que era, antes de mais nada um kasa (territrio),
encontrava-se o sarki46 cujo ancestral se apossara do poder poltico: no Kano, no
Katsina e no Zamfara, havia sido arrancado das mos de um grande sacerdote,
ao passo que no Kebbi, foi um magaji (guerreiro) quem chegou ao posto de sarki.

42    G. Y. Madiega, pp. 30-41 (origem bornoana dos bemba) e pp. 50-54 (dinastias do Gobnangu e de Jabo).
      No que tange s pesquisas arqueolgicas, ver B. Gado, 1980, pp. 35-119.
43    Ver Seminrio da Fundao SCOA, 1981, p. 45-109.
44    H. R. Palmer, 1967, p. 126; R. A. Adeleye, 1971, pp. 588-593; Y. B. Usman, 1981, pp. 92-93.
45    Uma sntese foi realizada por A. Mahadi em M. Adamu (org.), s. d.c; consultar tambm M. B. Alkali,
      1969, pp. 43-62; G. Na-Dama, 1977, pp. 80-89; Y. B. Usman, 1981, pp. 5-19; o ponto de vista sociolgico
      foi abordado por N. Perchonock em M. Adamu (org.), s. d.c. O esquema geral lembra as informaes
      fornecidas pelas fontes escritas relativas ao Sudo Ocidental; ver J.M. Cuoq, 1975, p. 99 (floresta sagrada
      do Gana), p. 108 (refeio do Kanda em Kw-Kw), p. 122 (pedra mgica dos amima), etc.
46    As discusses sobre o significado do termo continuam; deve-se notar que a irm do soberano carrega,
      no Zamfara, o ttulo de asarki; ver G. Na-Dama, 1977, p. 345.
Os Estados Haussas                                                                                         555



    Cabia a um colgio eleitoral a designao, dentre os prncipes, do sucessor
ao trono. No Katsina, tal colgio comportava quatro membros47. Para o Kebbi,
fica difcil afirmar ou negar sua existncia na poca, porm apareceu mais tarde.
No Zamfara, no Gobir e em Kano, tomou o nome de Tara (os Nove48), seguido
pelo nome do Estado. Os ttulos e funes dentro desses colgios eleitorais eram
variveis, mas se pode, contudo, distinguir uma autoridade de funo muito
antiga, que caiu no esquecimento, o basace, no Zamfara; governadores de cidades
e regies importantes, cinco no Zamfara e sete no Gobir, a diferena resultando
do fato de que esse ltimo acrescentara dois adjuntos  lista do Zamfara; altos
funcionrios, trs no Zamfara, dois no Gobir e nove em Kano.
    O colgio eleitoral comportava representantes de dinastias depostas, tais
como os Durbi em Katsina, ou no poder (os Ubandoma no Gobir).
    A escolha de um sucessor devia contar com a aprovao unnime dos grandes
eleitores. Uma vez designado, realizava-se o ritual de entronizao. O colgio
eleitoral era tambm o Conselho do sarki, e era corriqueiro que, por uma ou outra
razo, o Conselho se opusesse ao sarki ou este exclusse um dos membros49.

     O governo
   O sarki exercia sua autoridade por intermdio de trs grupos de respons-
veis: os membros da dinastia, os funcionrios e os governadores de cidades e
regies. Os membros da dinastia eram encarregados de funes importantes.
Tratando-se de diferentes geraes de homens, os irmos e filhos do soberano
portavam, na maioria dos casos, ttulos atestando de seu cargo administrativo.
A variedade no nmero e na funo dos ttulos no facilita o estabelecimento
de uma lista nica50.
   A irm do soberano desempenhava um papel poltico de primeiro plano,
ainda que por meio do culto tradicional. No Zamfara, chamava-se asarki ou

47   Galadima, kaura, durbi e yandaka; ver Y. B. Usman, 1981, p. 78.
48   No Zamfara: danau, basace, sarkin rafi, sarkin tudu, sarkin bazai, sarkin kaya, magajin gari, ubandawaki
     e galadima; ver G. Na-Dama, 1977, pp. 86-87. No Gobir: ubandawaki, ubandoma, sarkin rafi babba e
     karama, sarkin tudu babba e karama, magajin kukuta, sarkin bazai, sarkin kaya; ver I. Makassoua, 1982, pp.
     47-48. Para Kano, os dicionrios do a seguinte lista: galadima, madaiki (madawaki?), wambai, makama,
     sarkin dawaki maituta, sarkin D. tsakanin gida, sarkin bai, giroma e dan iya. Embora todos pertencessem
      nobreza, cumpriam algumas funes administrativas e/ou militares, mas tal composio parece muito
     recente, pois que personagem to importante quanto o dagaci, o barde e o santuraki no aparecem.
49   Ver abaixo o que aconteceu em Zaudai, no Zamfara. No Kano, Kisoki nomeou seu irmo Dabkare dan
     Iya no Conselho dos Nove, no lugar do barde; ver H. R. Palmer, 1967, pp. 112-113.
50   Sobre Maradi, ver P. H. David, 1969, pp. 657 e 665-666. Sobre o Damagaram do sculo XIX, ver A.
     Salifou, 1971, pp. 117-133. Sobre o Zamfara, ver G. Na-Dama, 1977, p. 348.Hhh
556                                                                                                               frica do sculo xvi ao xviii




                                      TOUAREG                                                                0             30 milhas
                                                             TOUAREG
                                      KEL-GERES               ITESAN                                         0              45 km

                                                 a
                                             m        Alkalaua
                                           Ri
                                                     GOBIR




                                       o
                                    Ri
                                                                      Ri
                                                                         o
                                                                                                                 Katsina




                                                                         Bu
                                                                                                       KATSINA




                                                                            n
              to




                                                                                r




                                                                             su
           o
        ok




          S                                                                                  Zurmi
 KEBBI

     Birmin Kebbi                                     Mafara                                 Rio
                                                                                                   G
                                                           ZAMFARA




                                                                                                   ag
                           Rio Zamfara                                       Rio




                                                                                                       er
                                                                                                         e
                                                                                    So                                                 Kano
                                                                                       k   ot
                                                               Anka                           o
                                                                                                                                       KANO
                           Rio Ka




Rio
      N
         ge                                                                                                         Zaria
           r
                   Birmin Yauri                                                                              ZARIA


Figura 16.3          Os Estados haussas no sculo XVIII. [Fonte: de acordo com P. E. Lovejoy, 1980, p. 55.]



inna51, este ltimo nome sendo tambm usado no Gobir. A histria de Kano
foi marcada pela presena de princesas clebres; sem a interveno enrgica da
madaki (rainha me), Auwa `Abdullhi (1499-1509) teria provavelmente sido
expulso por um levante. Seu filho Kisoki governou a cidade com o apoio de
madaki Auwa, sua av, de Iya Lamis, sua me e de Gulli, o irmo de Auwa. Sob
o reinado de Shrif (aproximadamente 1703-1731), um dignitrio de Kano
mandou trazer instrumentos musicais de Yawuri. Conservou-os trs meses e
entregou-os a madaki Maryama "porque foi at o limite do poder: no havia
nada igual nos sete Estados haussas52".
    O que se pode considerar como o governo central comportava diferentes
categorias de funcionrios.
    Em primeiro lugar, os dignitrios da corte cuidavam dos assuntos ligados
ao palcio e  cidade. Seu nmero e suas tarefas variavam de um Estado ao


51     G. Na-Dama, 1977, pp. 345-348.
52     H. R. Palmer, 1967, pp. 112-113 e 123; R. M. East, 1979, p. 38.
Os Estados Haussas                                                            557



outro, mas cumpriam antes de mais nada funes administrativas. No Katsina
destacavam-se principalmente o galadima (que representava o sarki), o ajiya
(tesoureiro), o turaki e o shantali (chefes do protocolo) e o madawaki (oficial
encarregado dos estbulos reais)53. Eles podiam desempenhar o papel de inter-
medirios entre o sarki e os governos regionais. No Kebbi, a segurana interna
incumbia ao magajin gari, ao galadiman gari e ao doka; o magajin baberi parecia
encarregado dos assuntos externos, e o maishanu juntava o rebanho devido ao
Estado54.
    Em segundo lugar, os representantes das corporaes eram nomeados no
seio de cada profisso, tais como os forjadores, os teceles, os tintureiros, os
curtidores, os pedreiros, os aougueiros e os caadores. Cabiam a eles as relaes
com as diferentes categorias socioprofessionais, e mais especificamente, a arre-
cadao das taxas destinadas ao Estado. Por vezes, os forjadores e os caadores,
por exemplo, forneciam contingentes ao exrcito.
    Em terceiro lugar, os grupos autctones tinham seus prprios representan-
tes. O povoado de Sarkin Naya e a regio de Sarkin Mazum conservaram seus
ttulos depois do estabelecimento pelo Gobir de sua capital em Hisatau55. Os
maguzawa do Kano foram dispersos mediante uma ordem de Bugaya (apro-
ximadamente 1385-1390), mas foram chamados de volta por Kukuna (apro-
ximadamente 1652-1660) que os deixou praticar, durante trs semanas, seu
esporte favorito, os cobriu de riquezas e confirmou em seu posto o patriarca
deles, Zanko, de quem esperava todo ano um tributo em jornadas de trabalho56.
Podemos nos perguntar se alguns Estados no teriam imposto o estatuto de
escravo ou de tributrio a alguns dos autctones.
    Em quarto lugar, os inmeros imigrantes podiam ter seus prprios repre-
sentantes. No Gobir, o sarkin azbin ocupava-se das relaes com os tuaregues
vivendo no territrio, da mesma forma que o sarkin fullani dos fulbe (Gobir,
Zamfara, Katsina, Kano) e o sarkin sillubawa dos sillube (Kano, Katsina). Desse
ponto de vista, a situao dos fulbe no Kebbi  rica em ensinamentos57. Os ttulos
de galoji e magajin sangeldu apenas podiam ser conferidos a um fulbe em contato
com os pastores; por outro lado, o ttulo de dikko, criado no sculo XVIII, foi
usado pela primeira vez por um fulbe cuja me era a filha do soberano.


53   Y. B. Usman, 1981, p. 80.
54   M. B. Alkali, 1969, pp. 73-107.
55   I. Makassoua, 1982, p. 48.
56   H. R. Palmer, 1967, pp. 107 e 120-121.
57   M. B. Alkali, 1969, pp. 34-35 e 113.
558                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



   Em quinto lugar, a comunidade islmica estava presente em todo lugar com
seus mallamai (eruditos). Tratando-se do governo regional ou, mais precisa-
mente, do controle territorial, existiam quatro categorias de funcionrios:
              os governadores de algumas cidades gozavam de uma legitimidade inde-
               pendente da dinastia; era o caso de Rano, Gaya, Dutse, Karaye (no Kano),
               Maska, Samri, Dugui (no Katsina) e Zurmi, Kiawa, Tunfafi, Bakura (no
               Zamfara). Suas relaes com o soberano podiam ser muito difceis pois,
               afinal de contas, tinham um estatuto de vassalo. Aqueles de Kano estavam
               prestes a se levantar, e Dadi (aproximadamente 1670-1703) foi obrigado a
               matar Farin Dutse, o governador de Gaya58;
              os governadores de outras cidades e regies eram ou nobres  cujos ancestrais
               haviam se aliado  dinastia sem perder sua prpria legitimidade  ou fun-
               cionrios. O Zamfara ilustrava o primeiro caso: o danau devia seu ttulo ao
               nome de sua cidade de residncia, um importante centro comercial de onde
               vigiava as estradas que levavam ao Sul e ao Oeste do Kebbi59; o governador de
               Bazai residia no Norte, ao passo que o do Kaya passara de Kayatau, no Norte,
               a Maradun, no centro do territrio. No Kebbi, o inname vigiava a fronteira
               ocidental60. No Katsina61, o marisa (literalmente o "demolidor") residia em
               Gwiwa  de onde vigiava a fronteira oriental  ao passo que o gatari (literal-
               mente "o machado") de Ruma, zelava a fronteira do Noroeste. Existiam no
               Zamfara dois ttulos singulares: o sarkin tudu (o governador das colinas) que
               controlava a parte oriental do territrio, e o sarkin rafi (o governador dos vales)
               que cuidava dos povoados situados na confluncia dos rios Bunsuru e Gagare.
               Seria a prpria topografia que deu origem a tais ttulos?
              os outros governadores transformaram-se em meras engrenagens adminis-
               trativas. Os imigrantes mantinham uma hierarquia local, o ardo ou o rugga
               junto aos fulbe, por exemplo;
               alguns ttulos, enfim, decorrem da evoluo histrica da regio. No Kebbi,
               o kokani foi encarregado das relaes com a populao depois da conquista
               de Kwanni; por volta de 1650, criou-se o cargo de sabaru a fim de garantir
               a segurana das estradas de Kwanni e do Azbin, frequentemente atacadas
               pelo Zamfara e pelo Gobir62.


58    H. R. Palmer, 1967, p. 122.
59    G. Na-Dama, 1977, pp. 86-87.
60    M. B. Alkali, 1969, p. 108; inicialmente, o ttulo era conferido a um dignitrio de origem servil.
61    Y. B. Usman, 1981, p. 80.
62    M. B. Alkali, 1969, pp. 73-74 e 108-109; no se sabe onde residia o kokani.
Os Estados Haussas                                                                                      559



   Todos esses dignitrios, nobres, plebeus ou escravos, exerciam funes civis,
mas, quando necessrio, transformavam-se em valentes guerreiros e recrutavam
seu prprio exrcito.

     A organizao militar
    A fundao do Kebbi resultou do crescente papel dos chefes militares na
conduo dos assuntos do Estado63. Os primeiros companheiros do Kanta64
eram oriundos das grandes famlias do pas. Em seguida, porm, os elementos
que haviam participado da luta pela independncia obtiveram o direito a dois
representantes, um deles, o kunduda, sendo o chefe militar do Kebbi. No sudo-
este do Katsina, a proximidade do Zamfara, do Kebbi e do Katsina atrapalhava a
formao de um grande Estado em torno de Kwiambani, Birnin Gwari, Koriga
etc. Os numerosos imigrantes katsinawa queriam que a zona prxima ao Kat-
sina fizesse parte dele, mas, por ser constantemente cobiada por seus vizinhos,
aconteceu de se contentar com uma dependncia em relao ao Katsina65.
    Como vimos, a necessidade de se proteger contra os vizinhos, ainda que
longnquos como o Azbin, o Borno e o Kwararafa, de zelar pela segurana das
fronteiras e das estradas reforou o papel dos chefes militares cujo nmero
aumentou, ao passo que se instaurava uma hierarquia, tornando-os assim mais
eficientes. O ttulo mais elevado variava de acordo com os Estados: kunduda (no
Kebbi), kaura (no Katsina), ubandawaki (no Zamfara e no Gobir); no Kano, tudo
indica que tenha se tratado do galadima.
    A estratgia e a ttica modificavam-se  medida que as armas se aperfei-
oavam. Em caso de mobilizao, recrutavam-se diferentes categorias socio-
profissionais, tais como os caadores e os forjadores. Os homens combatiam
com sabres, lanas e facas. Usavam tambm arcos e flechas e protegiam-se com
escudos (feitos com pele de oryx no Zamfara). O exrcito compreendia dois
grandes corpos, a infantaria, dividida em arqueiros e lanadores, e a cavalaria.
Ademais, o Kebbi dispunha de uma frota fluvial66.

63   Ver J. P. Smaldone, 1977, para um estudo geral. M. B. Alkali, 1969, G. Na-Dama, 1977, Y. B. Usman,
     1981, e A. Salifou, 1971, do informaes sobre o Kebbi, o Zamfara, o Katsina e o Damagaram do
     sculo XIX.
64   UNESCO, Histoire gnrale de lAfrique, vol. IV, pp. 305-306. O Kanta estava cercado pelo Magajin
     Kulalo, o Magajin Leka, o Galandu, o Mayalo, o Lelaba e o Takwamba (nomes de pessoas); juntaram-
     -se a eles o gulma (para o elemento songhai) e o kunduda (para o elemento kwararafa); ver M. B. Alkali,
     1969, pp. 59, 61, 72 e 114.
65   Y. B. Usman, 1981, pp. 83-84.
66   M. B. Alkali, 1969, p. 11. No se sabe a relao que possa existir entre "a pequena canoa feita de um
     s tronco cavado", usada por Ibn Battuta para ir a Tombuctu, e as "pequenas barcas estreitas, feitas
560                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



   O cavalo, essencialmente proveniente do Azbin e do Borno, era objeto de
cuidados especiais. O soberano importava-os e construa estbulos, como os
do Kanta do Kebbi, em trs localidades diferentes. O papel militar do cavalo
transparece tambm no nmero e no posto dos ttulos a ele referentes: uban-
dawaki67, madaki/madawaki (comandante da cavalaria e/ou comandante-em-
-chefe do exrcito), sarkin dawaki (general da diviso de cavalaria). Tal papel
tambm se explica pela inovao que constitua a aquisio de sulke (cotas de
malha) e a fabricao do lifidi (caparazo): sarkin lif idi (general da cavalaria
pesada) e lifidi (comandante-em-chefe) constituam as mais elevadas patentes.
   O fuzil fora introduzido no Kano68 por um prncipe bornoano, sob o reinado
de Dauda (1421-1438), mas haveria de esperar trs sculos, ou seja, o reinado
de Kumbari (aproximadamente 1731-1743) para que ele fosse importado de
Nupe: Babba Zaki (aproximadamente 1768-1776) seria o primeiro soberano
a constituir um corpo de fuzileiros para sua guarda pessoal. O Borno adotou
o fuzil enquanto o Songhai69, que pudera avaliar a eficcia de tal arma em seu
detrimento, no se preocupou em resgatar os fuzis abandonados durante meio
sculo (de 1591 a 1640) pelos soldados marroquinos. O Haussa parece ter
ignorado deliberadamente uma arma que suas riquezas lhe permitiam adquirir,
embora, como sugerimos, o Borno tenha tentado se opor a tais aquisies. Ora,
o Songhai e o Haussa no podiam orgulhar-se de ter venerado o cavalo mais do
que o Borno, tampouco de ter usado o trabalho servil e participado do trfico
negreiro mais do que o Borno e os mande.
   A ttica militar utilizada consistia em realizar ataques surpresas, organizar
emboscadas, combater corpo a corpo e sitiar o inimigo. Justificava-se tambm a
crescente fortificao das cidades pelo uso corriqueiro do stio e do incndio. As



      com a metade de um tronco de rvore oco", observadas por Leo, o Africano, em Djenn. Com
      tais embarcaes, podemos duvidar da eficincia da frota de Sonni `Ali Ber, e o sulto do Marrocos
      certamente no pediu ao kanta do Kebbi para lhe a enviar. L. E. Kubbel (1974, p. 87) pergunta com
      razo se os abara, pirogas monxilas do Haussa (Kebbi e Nupe), no teriam chegado at a regio de
      Tombuctu-Djenn.
67    Convm evitar confundir o significado do ttulo com as funes correlatas; ver A. Salifou, 1971, p.
      124; encontra-se um glossrio dos ttulos militares em J. P. Smaldone, 1977, pp. 216-219. A. Salifou
      cita, por ordem de seus qualificativos, nove raas de cavalos, conhecidas no Damagaram do sculo
      XIX, pp. 153-154.
68    H. R. Palmer, 1967, pp. 109, 124, 126
69    No decorrer de uma emboscada, Ibnou Bentsi massacrou 400 fuzileiros marroquinos, mas tudo
      indica que ele descartou seus fuzis no rio; M. Ka`ti, 1981, pp. 294-295. At 1640, os songhai do
      Dendi tiveram a oportunidade de recuperar os fuzis, mas no h meno disso nas tradies at
      hoje recolhidas.
Os Estados Haussas                                                                              561



campanhas militares eram minuciosamente preparadas, e os eruditos frequen-
temente rezavam pela vitria do exrcito.
    Nesta regio de rpido desenvolvimento econmico, o aperfeioamento da
arte militar levou a uma intensificao da pilhagem. No  fcil diferenciar a
guerra de conquista ou de consolidao, a represso de uma rebelio, a guerra
de intimidao e o esplio. O Gobir, em sua qualidade de Estado, foi obrigado
a lutar constantemente para assegurar sua sobrevivncia: sua durao, depois da
aquisio de um territrio relativamente rico e povoado, merece que se continue
a indagar o significado de sua existncia. Assim como o mostra claramente a
Crnica de Kano, a aristocracia poltica, administrativa e militar praticava o esp-
lio. Assim sendo, ela enriqueceu e comeou a fazer doaes aos soberanos e aos
eruditos. No Kano, em dois sculos, ou seja, entre 1573 e 1768, tal aristocracia
tornou-se muito poderosa. Incentivava a guerra, participava de compls, exibia
suas riquezas e sua generosidade e acabou por preocupar o soberano: Kukuna
obrigou Madawaki Kuma a dar a volta da cidade em cima de um burro condu-
zido por duas domsticas; Babba Zaki divertia-se constantemente s custas de
seus colaboradores, aterrorizando-os e humilhando70.
    O nmero total de dignitrios variava de um Estado a outro: 22 no Gobir
(13 nobres e 9 plebeus) e 46 no Katsina (16 nobres e 30 plebeus)71.

     Os recursos
    O Estado haussa tinha desenvolvido um sistema muito criativo de cobertura
territorial e de taxao, provendo assim as finanas pblicas dos recursos neces-
srios a seu funcionamento. Havia quatro fontes de renda.

     Impostos, taxas e direitos alfandegrios
   Os impostos, taxas e direitos alfandegrios constituam a mais regular fonte
de renda e comportavam:
             o kudin kasa (contribuio fundiria), pago pelos cultivadores. Tudo indica
              que a unidade considerada era o gandum gida (campo familiar). No Kano,
              Naguji (aproximadamente 1197-1247) foi o primeiro a ter fixado o valor
              do imposto devido por cada agricultor em 1/8 da safra. Incidiam taxas


70   H. R. Palmer, 1967, pp. 120 e 126.
71   J. Tilho, 1911, pp. 519-521. Para o Damagaram do sculo XIX, uma lista detalhada de comprimento
     impressionante (mais de 50 titulares) nos  fornecida por A. Salifou, 1971, pp. 117-136.
562                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



               tanto nas culturas de plancie quanto nas outras, tais como o indigo e o
               amendoim72;
              o kudin sana'a (contribuio profissional), pago pelos artesos e os comerciantes.
               No Kebbi, cada salineiro dava ao Kanta um pote de sal por ano73. Com o avano
               do artesanato e do comrcio, mas tambm graas  criao de corporaes, essas
               contribuies podiam constituir uma renda substancial para o Estado;
              o kudin hito (direito alfandegrio), cobrado sobre alguns produtos entrando no
               territrio. No Kebbi, alm desse direito de entrada, as caravanas circulando do
               Dallol Fogha ao Haussa e ao Nupe-Gwamja deviam pagar outra taxa, assim
               como aquelas que iam do Haussa ao Gwanja; ademais, o sal exportado para
               o Zarmatare e o Arewa era submetido a uma taxa especfica;
              o jangali (imposto sobre o rebanho)74, pago pelos criadores de rebanho,
               notadamente pelos fulbe. No Kano, foi cobrado pela primeira vez por
               Kutumbi (aproximadamente 1623-1648): 280 animais fornecidos por 4
               agrupamentos, certamente em funo da importncia de seu rebanho.
               Foi nesta ocasio que foi criado o cargo de sarkin shanu (arrecadador do
               imposto sobre o rebanho). No Kebbi, os nmades fulbe pagavam o kudin
               haki (direito de pastagem), ao passo que um dignitrio, o nono, recolhia o
               leite e a manteiga destinados ao soberano.


      As doaes
   Governadores, dignitrios e outras autoridades mandavam um gaizuwa
(presente feito a um superior) ao soberano. Qualquer seja o aspecto consi-
derado, tratava-se de um ato poltico pelo qual o interessado homenageava o
sarki, no intuito de atrair as boas graas deste ltimo. O valor do presente era
proporcional ao posto de quem o fazia e, em contrapartida, o soberano75 no
perdia a ocasio de manifestar quer sua satisfao, quer seu descontentamento.
O esplio constitua um meio corriqueiro para conseguir o que comporia o
gaizuwa. Aqueles que eram nomeados a cargos elevados tambm precisavam
presentear o sarki.


72    Y. B. Usman, 1981, p. 83; H. R. Palmer, 1967, p. 101.
73    M. B. Alkali, 1969, pp. 103-106.
74    O autor pensa que esse substantivo se formou a partir de jaba, pegar, arrancar, e subentende a ideia de
      extorso. Porm, a forma correta  jab(u) ngal, janngal. Sobre o Kano, ver H. R. Palmer, 1967, pp. 118-
      -120 e 123-124; a primeira meno do sarkin fullani surgiu sob Shrif, um sculo mais tarde, mas nada
      nos permite pensar que o ttulo no existia antes disso.
75    Nazaki ficou muito satisfeito com o presente de Wambai Giwa, ao passo que Kutumbi, seu sucessor, no
      gostou do gesto do sarkin Dawaki Mar. Ver H. R. Palmer, 1967, pp. 117-118.
Os Estados Haussas                                                              563



     O esplio
    O saque permitia conseguir escravos, cavalos, rebanho e bens diversos. Estes
ltimos eram rapidamente consumidos enquanto os cavalos e seus equipamen-
tos aumentavam a capacidade de combate. A Crnica do Kano76 destaca o valor
dado ao cavalo entre 1582 e 1623. Vencedores dos katsinawa em Garaya, "os
kanawa apoderaram-se de 400 cavalos e 60 caparazes; no se sabe nada do
nmero de mortos e prisioneiros". Pouco depois, o wambai constituiu para si,
certamente em detrimento do Katsina, uma equipe de cem cavaleiros vestidos
de cotas de malha, assim como uma reserva de mil cavalos. Os escravos, por sua
vez, eram vendidos ou divididos entre os grandes domnios reais, dos quais o
Kano oferecia o mais perfeito exemplo: com cimes do sarkin Dawaki Magari,
Kutumbi realizou uma incurso que lhe permitiria deixar, quando de sua volta,
500 escravos em Indabo, domnio a ele reservado.

     Os outros recursos
   O sarki tinha a seu dispor uma infinidade de medidas para encher os cofres
do Estado, Em quase todo lugar, quando o soberano perdoava uma ofensa, o
beneficirio devia pagar o kudin laifi (taxa de perdo). Graas  Crnica do Kano,
podemos acompanhar o processo de criao dos impostos, taxas e outras contri-
buies em proveito do Estado. Shrif (aproximadamente 1703-1731) instau-
rou sete taxas, consideradas opressivas, dentre as quais uma contribuio sobre
o casamento de qualquer menina. Seu sucessor, Kumbari (aproximadamente
1731-1743), aumentou de tal forma a taxa paga pelos negociantes da feira de
Kasuwa Kurmi que esta pereceu. O ano seguinte, exigiu uma taxa dos eruditos:
os rabes deslocaram-se para o Katsina e os talakawa espalharam-se pelo pas.

     Consideraes gerais
   Em funo das necessidades de edificao e de administrao do Estado, o
desenvolvimento do sistema da sarauta levou os plebeus e os escravos que goza-
vam da maior confiana a ocuparem os mais altos cargos. Assim, na regio, os
escravos reais, e principalmente os eunucos, chegaram a constituir um elemento
imprescindvel do Estado.
   Criou-se assim uma oposio entre o mai sarauta (dirigente) e os talakawa (diri-
gidos). Tal oposio acentuou-se a ponto de se dizer do sarkin Kano Kumbari (apro-
ximadamente 1731-1743) que ele "amava seus conselheiros e odiava o povo".

76   Ibidem, pp. 117 e 123; R. M. East, 1979, p. 28.
564                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Os governadores de cidades e regies tambm constituam potenciais opo-
nentes ainda que em menor grau. As frequentes rebelies fomentadas pelos
governadores de Gaya e de Dutse exemplificam as inmeras rixas entre soberano
e vassalos na histria do Kano.
    A aristocracia poltica, administrativa e militar formava um grupo homog-
neo que enriqueceu graas a diversos mtodos de explorao que iam da taxao
das rendas do esplio ao presente poltico, quase obrigatrio. Essa aristocracia
adotou um estilo de vida  altura de seus meios, cercou-se de uma pompa indis-
pensvel a seu prestgio, ao mesmo tempo em que se tornou de difcil controle,
em razo da venalidade e da corrupo. Tal mistura permitiu o advento de
uma ideologia que queria negar sua essncia aristocrata, sem poder dissimular
a capacidade de opresso do sistema, admiravelmente traduzida pelas diversas
acepes da palavra iko (o poder).
    Diagne77 considera esse sistema como uma monarquia oligrquica, caracte-
rizada por uma estreita interdependncia entre o monarca e os oligarcas. Por
sua vez, ao criticar a noo de cidade-Estado, Usman afirma que a principal
caracterstica do Estado haussa consiste na "existncia de vrios centros urbanos,
constituindo os componentes de uma comunidade poltica  qual os imigrantes
de diversas origens eram integrados para tornarem-se katsinawa, kebbawa ou
kanawa, cada centro mantendo sua personalidade jurdica e certo grau de auto-
nomia diante da capital e dos outros78".

      As relaes econmicas
   Um rpido panorama de algumas reas da produo e da distribuio mostra-
-se indispensvel para um melhor entendimento das relaes sociais.

      A agricultura e a pecuria
   No decorrer do perodo considerado, o pas haussa permaneceu antes de
mais nada uma regio de manoma (camponeses). Estes exploravam de forma
judiciosa as potencialidades agrcolas do pas graas a diferentes tcnicas
(adubo, rotao e associao das culturas). Suas ferramentas eram to numero-
sas quanto em qualquer outro lugar da frica, com uma grande variedade de
enxadas adaptadas  natureza do solo e ao uso delas feito. A maior parte da mo


77    P. Diagne, 1967, pp. 244-252.
78    Y. B. Usman, 1981, p. 53.
Os Estados Haussas                                                                                   565



de obra provinha da gida (famlia extensa) e do gayya (sistema de ajuda mtua).
Convm destacar aqui a tradio do bukin duku (a festa dos Mil): tratava-se de
comprovar que se podia alcanar uma produo de mil maos de milhete ou
de sorgo. Era feita uma cuidadosa preparao tcnica, material e psicolgica
para a tentativa. Quem conseguia atingir tal meta era nomeado sarkin poma
(mestre das culturas)79.
    O campons cultivava milhete, sorgo, arroz, milho, amendoim, feijo, mas
tambm algodo, ndigo, hena, tabaco e cebola. Tambm se produzia karit,
tamarindo, nere e mel. A pesca e a caa constituam atividades amplamente
difundidas. O almscar de civeta (jibda), por sua vez, era usado em perfumaria.
    No se pode subestimar a criao de animais em escala domstica: ao passo
que se degolavam as cabras na ocasio de algumas cerimnias, os burros eram
usados como meio de transporte, principalmente pelos comerciantes. Porm, o
pas haussa h sculos atraa inmeros fulbe80, azbinawa e rabes shuwa, pasto-
res. Tuaregues kel-geres, itesan e kel-tegama transumavam rumo ao Norte e ao
centro do Zamfara para que seus rebanhos de camelos, de cabras e de carneiros
pudessem pastar durante a estao seca, e alguns dentre eles ali fixaram sua
residncia. Os fulbe implantaram-se, com seus bovinos e ovinos, em algumas
regies do Katsina (na confluncia do Karaduwa e do Bunsuru), do Kebbi (em
Gulbin Kebbi, Dallol Boso, Fogha, Mauri) e do Zamfara (regio banhada pelos
rios Bunsuru, Cagare e Sokoto). Criou-se um forte vnculo entre a agricultura
e a pecuria, e encontravam-se verdadeiros centros de economia agro-pastoral,
por exemplo na regio de Ingawa, no Katsina81.

     O artesanato
    Na poca de Leo, o Africano82, a variedade e o nvel tcnico do artesanato
j haviam alcanado um notvel grau de desenvolvimento, notadamente no que
diz respeito ao trabalho da madeira, do ferro e do couro,  cestaria e  olaria.


79   A respeito dessa tradio, ver G. Nicolas, 1975, pp. 114-117 e 297-299; G. Na-Dama, 1977, pp.
     91-101.
80   No que concerne s migraes de uma parte dos fulbe para o Borno e o Haussa, ver M. Idrissou, 1979.
     Entretanto, B. Hama (1968, pp. 92-96) afirma que alguns fulbe vieram diretamente do Saara ao Sudo
     Ocidental e ao mdio Nger, passando pelo Azawad. As pesquisas arqueolgicas realizadas na regio de
     In Gall-Tegiddan Tesemt trouxeram  luz esqueletos de bovinos; apenas se dispe de uma data, 1435
     (ver F. Paris, 1984, pp. 1-75). A discusso permanece portanto aberta.
81   M. B. Alkali, 1969, pp. 34-35, 73 e 113-114; G. Na-Dama, 1977, pp. 110-120, 169-184 e 197-199; Y.
     B. Usman, 1981, pp. 64-67 e 73-75.
82   Y. B. Usman, 1981, pp. 472-479.
566                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



Quanto  tecelagem e  tinturaria, houve um desenvolvimento espetacular. Era
abundante a matria prima  principalmente o ferro e o algodo  e uma forte
demanda acarretou o melhoramento da qualidade dos produtos artesanais. A
especializao reforou-se de forma notvel: tudo indica que a marroquinaria
teria se diferenciado da sapataria, ao passo que a fiao, a tecelagem, a tintura-
ria, a costura e o bordado tornaram-se completamente distintos. Criou-se um
sistema de corporaes83, cada uma delas tendo um representante encarregado
da defesa de seus interesses e das relaes com o Estado.
    Nota-se tambm uma tendncia para a especializao dos grupos. No Kebbi,
a tecelagem e a tinturaria estavam nas mos dos kebbawa; o Zamfara atraiu tece-
les e tintureiros do Kano. Porm, no Kebbi e no Zamfara, os zoromawa84, vin-
dos do Macina no sculo XVI, eram especializados na joalheria de prata, assim
como na olaria; no Kano, esta ltima permaneceria nas mos dos bambadawa.
    Havia uma grande variedade de objetos fabricados. Exportavam-se couro,
sandlias, arreios e selas. As jas, consideradas produto de luxo, eram compradas
pelos ricos. A qualidade das roupas (tnicas e cangas) gozava de uma excelente
reputao. No que tange  tecelagem e  tinturaria, o pas haussa encontrava-se
entre as melhores regies de produo.

      O comrcio
    O esteretipo do bahaushe (negociante)85 impora-se e no se pode minimizar
sua integrao s redes comerciais da frica Ocidental e  classe dos comer-
ciantes internacionais (wangara, jula, mossi, kanuri) da savana. Todavia, foram
os abundantes excedentes agrcolas e um artesanato florescente, oferecendo
um leque variado de objetos, que deram origem  atividade comercial do pas
haussa.
    A zona de influncia das feiras era bastante varivel. Algumas, de importn-
cia local, ofereciam caracterstica tanto sociais como econmicas: os dias de feira
traziam, alm das trocas, uma intensa vida social feita de trocas de informaes,
de jogos etc. O mercado regional era mais importante: ali se vendiam os pro-

83    As mais citadas so as corporaes de pedreiros, forjadores, teceles, tintureiros, tanoeiros, curtidores e
      sapateiros; os barbeiros e os aougueiros no so de fcil classificao. O representante dos tanoeiros do
      Kebbi, nomeado pelo soberano, chamava-se sakke, nome este muito difundido em toda savana do Sudo
      Ocidental.
84    Trata-se dos jawambe (um grupo dos fulbe) que os malinke chamavam de jogorame; ver P. J. Shea, 1983,
      p. 111.
85    Ver H. E. S. Fisher, 1975, pp. 84-92 e 1977, pp. 269-287; e, sobretudo, M. Adamu, 1978 e 1979, pp.
      60-104.
Os Estados Haussas                                                                               567




figura 16.4   Canga haussa chamada goranka da nono, literalmente "h leite na tua cabaa". [Foto: M.
Addo.]




figura 16.5 Vestido haussa, usado pelos homens, que manifesta uma forte influncia islmica. Feito de
algodo azul tingido com ndigo e ornado de bordados de seda. [ Werner Forman Archive, Londres,
Coleo Wallace.]
                                                                                                                                                                                                                          568
                                                                   Tombouct                                                                                                             Agadez          Em direo a
                     Rotas comerciais
                                                                                                                                                                                                            frica do
                                                                                                                                                                                                           Norte e ao
  0           100       200       300 milhas                                                                                                                                                                    Saara

  0            200            400 km




                                                                                                                R io
                                                                                                                  N
                                                                                                                       er




                                                                                                                     g
                                               Djenn                                                                                                             Alkalaua




                                                                                                                                                                            Rio
                                                                                                                                             Kalambaina                                            Tessaua
                                                                                                                                              (Sokoto)




                                                                                                                                                                             Keb
                                                                                                                                       Birmin
                                                                                                                                        Kebbi




                                                                                                                                                                                 bi
                                                                                                                                                                                   Ruma
                                                                                                                                                                                             Katsina Em direo
                                                                                                                                                                Moriki
                                                                           Ouagadougou                                                                                                              e em provenincia
                                Sikasso                                                                                                                  Jega
                                                                                                                                                                                                            do Borno




                                                                            co
                                                    Bobo-                                                    Fada N'Gurma           Kamba




                                                                        bran
                                                                                                                                                                           Yandoto
                                                    Dioulasso                                                                                                Gummi                                   Kano
                                                                                                         i                                                                Bena




                                                                                   a
                                                                                                                                    Birmin Yawuri




                                                                              Volt



                                                                                                   Rio Ott
                                                                                                                                       Bussa           Kumbashi
                                                            Gambaga                                                                                Ngaski          Birmin                  Zaria




                                                                          Rio
                                                                                                                                    Uaua                           Guari
                                                              Wa
                                            Kong                                                                                                  Kulfo   Ragadawa
                                                                  Yendi          Sansanne-                                                                                                                 Em direo
                                                    Bouna                         Mango                                     Nikki                                                 Bida                   ao vale do rio
                                                                Bole                                                                                 Rakka   Rabba
                                                                          Kintampo                                                                                                                               Benu
                                                                Buipe                                                                                                    Gbara
                                         Dabakala                                                                   Djougou                            Ancienne Oyo
                                                                                                                                                                                                   nu
                                                                            Salaga
                                                                                                   Ketare                                   llorin                                             e
                       Marahadiassa                           Bonduku                                                                                                                     Rio B
                                                                                       Rio Volta
                                        Bouak
                                                                    Kumashi




                                                                                                                                                                                                                          frica do sculo xvi ao xviii
                                                            Em direo  costa
                                                                                                                  GOLFO DO BENIN




figura 16.6    As rotas comerciais entre o pas haussa e a bacia do Volta. [Fonte: segundo M. Adamu, 1978, p. 58.]
Os Estados Haussas                                                                                      569



dutos locais e se compravam os objetos importados de primeira necessidade.
Localizava-se por vezes numa rota comercial, na qual ocupava uma posio
privilegiada: por exemplo, o Kebbi zelava pelo Kwanni, e o Katsina pelo Tessawa.
No interior do Zamfara, as feiras do Norte e do Nordeste (Baje, Fahai, Birnin,
Zamfara etc.) forneciam algodo, ndigo, tabaco, cebola e rebanho, enquanto as
do Sul (Kiawa, Jata, Tsohuwar, Barrago etc.) eram ricas em gros. O alto Kebbi
exportava fios, tecidos e escravos para o baixo Kebbi que, por sua vez, entregava
redes, arpes, peles e abara (grandes pirogas monxilas)86.
    No recebeu a devida ateno o crescimento do comrcio interno como
consequncia e fator de desenvolvimento do pas haussa. Contudo, o desenvol-
vimento comercial aumentou os recursos do Estado em funo da arrecadao
de diversas taxas e dos inmeros gaisuwa devidos pelos comerciantes.
    O comrcio externo permanecia nas mos do pas haussa, mas alguns azbi-
nawa, rabes, kanuri e wangara nele tomavam parte. Ao evoc-lo se impe a
imagem das caravanas. Fosse o azalai do Kawr a Gao, o ayari do Azbin ao
pas haussa ou ainda o fatake do Kano ao Gwanja, a primeira preocupao
deles consistia em tomar as disposies necessrias  realizao de sua mis-
so87. J foram evocadas as medidas de segurana que cada soberano devia
tomar em seu territrio para proteger as caravanas que pagavam taxas ao
Estado atravessado.
    Antes de apresentar a situao global dos Estados haussa, convm assinalar
algumas variantes regionais88. No Zamfara, o karfi juntava toda a arrecadao
efetuada pelos sarakunan rafi (arrecadador do imposto sobre as pastagens). Nesse
Estado, o sal e o natro de Nguru, recolhidos nas margens do Lago Chade,
haviam sido comercializados antes do sal de Bilma e o do Dallol Fogha. Da
mesma maneira, o cavalo dan Bahar, procedente do Bahr al Ghazal e muito
apreciado em todo pas haussa, era usado na cavalaria e para o acasalamento com
as espcies locais. Quanto ao Kebbi, exportava sal para Nupe, Ilorin e Gwanja,
de onde recebiam em troca tnicas e nozes-de-cola.
    Vrias feiras internacionais localizavam-se no interior e na periferia da regio.
No Norte, Agades e Bilma permaneciam os centros de ligao com a frica do
Norte; no centro, o Katsina e o Kano serviam como elo nas relaes Norte-Sul
e Leste-Oeste; no Sul, Zaria, Birnin Gwari e Birnin Yawuri permitiam s dife-
rentes redes comerciais estender-se at o Ioruba, o Nupe, o Borgu e o Gwanja

86   G. Na-Dama, 1977, pp. 137-142; M. B. Alkali, 1969, pp. 41-42.
87   Para mais detalhes, consultar H. E. S. Fisher, 1977, pp. 267-269; G. Na-Dama, 1977, pp. 149-151.
88   G. Na-Dama, 1977, pp. 253-254; M. B. Alkali, 1969, p. 42.
570                                                         frica do sculo xvi ao xviii



(e at Tombuctu para Yawuri). A quantidade de mercadoria que transitava pelo
pas haussa era impressionante.
    O Saara e o Azbin para ali enviavam produtos rabes e europeus, nota-
damente espelhos, papel, mas sobretudo cavalos (da raa dan Azbin, tambm
chamada bagazam, do Azbin), camelos, tmara, hena, sal (balma, da o nome
da cidade de Bilma), espadas etc. Parte do sal e das espadas apenas transitava
rumo ao Sul. Em contrapartida, o pas haussa abastecia essas duas regies em
escravos, roupas, tecidos, milhete, couros e peles, ferro, p de ouro e nozes-de-
-cola do Gwanja.
    O Borno oferecia cavalos (dan Bahar ou Bhargazal), natro e sal. Recebia em
troca objetos metlicos, p de ouro e nozes-de-cola do Gwanja.
    Com destino ao Gwanja, ao Borgu, ao Nupe e ao Ioruba, o pas haussa
exportava sal, espadas, condimentos, couros, peles, roupas e tecidos, escravos e
cavalos; recebia deles diversos produtos europeus, ferro produzido localmente,
antimnio, escravos e eunucos, fuzis de Nupe (no Kano) e nozes-de-cola do
Gwanja para todos.

      As relaes sociais
    No pas haussa, apesar da forte imigrao, o critrio tnico perdera seu sig-
nificado. O prprio critrio religioso estava to pouco firme que a derrota de
Muhammad Alwli foi atribuda  profanao do dirki89. Por isso distinguiremos
trs categorias sociais fundamentais.

      Os produtores de bens materiais
   Dentre eles, os camponeses, constituam a mais importante categoria social.
Notveis mudanas seriam introduzidas pela intensificao e pelo melhora-
mento relativos  explorao das terras, fenmenos estes dissimulados pela
importncia dos ritos agrrios, porm bem sublinhados pela celebrao da festa
dos Mil. At o sculo XV, a mo de obra era principalmente constituda pela
famlia extensa. Ora, fica claro que algumas populaes foram submetidas a um
estatuto parecido com o dos hilotas: os mazumawa perderam sua independncia
quando da chegada do Gobir na regio de Birnin Lalle. Ademais, a disperso
dos magazuwa, por ordem de Bugaya, e sua reunio por Kukuna90 parecem


89    H. R. Palmer, 1967, p. 127.
90    Ibidem, pp. 107 e 121.
Os Estados Haussas                                                                                                                    571




                                                                    Tnis


                              Fez
                                                                               Trpoli                  CIRENAICA


               Mogadoe                                                                                                      EGITO
                                                                  Ghadames                         Audjila

                                                                                          Zauila       d
                                        Touat
                                                          e                     Murzuk
                                                                                     .                 Kufra
                                                    a                  Ghat
                              Taoudni
                                                                                                                    f
             Ualdan                                 Mabruk         e                               d
                                            a
                                                                               Bilma
                               Arauan                                    e
                                                                Agadez
                                        a                                         e
                    Ualata
                                Tombouct
                                                                              BORNO                                          VALE
SENEGAMBIA




                                                                                                UADAI                       DO NILO
                               Djenn
                                                                                                           e            e
               Bakel
                                                                                            e
                                                         PAIS HAUSSA                                           DARFUR
                              c REGIO DE                                                BAGIRMI

                 Kankan          Sansanne                     b
                                  Mango
                        c                               Yauri
                                                b
                       Cong
                                    b
                                            Djougou


                               Salaga        DA VOLTA




             Rota a : tornou-se importante depois do sculo XVIII

             Rota b : a rota da kola, que ligava o pas HAUSSA e a regio do Volta. Esta rota cresceu aps o surgimento
             de Salaga como um centro de comrcio de kola no sculo VXIII

             Rota c : ligava Kankan, fundada no final do sculo XVII graas  rota da kola, com Jenne no Arco do Nger

             Rota d : a antiga rota de Cirenaica ao Kufra, se estendeu at o Wadai no final do sculo VXIII, ligada assim
             a estrada do Sudo

             Rota e : Estrada do Sudo, uma rota leste-oeste que ligava o vale no Nilo com os reinos da savana de Darfur,
             Wadai e Bagirmi e atravs de Borno e Ar ao Marrocos

             Rota f : a partir do Cairo atravs de Dunkula na Nbia a Darfur




figura 16.7 Representao esquemtica das principais ligaes comerciais e rotas de caravanas atravs do
Saara e do Sudo Ocidental e Central, por volta de 1215. [Fonte: segundo M. Hiskett, 1984, p. 321. Adaptado
com a amvel autorizao de Longman Group UK Ltd.]
572                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



mostrar uma mudana de estatuto, j que Zanku, seu patriarca, no era eleitor,
ao passo que o sarkin Mazum devia ser consultado, nem que seja de maneira
apenas formal; os maguzawa de Fankui eram coletivamente dependentes, por-
tanto submetidos, mas suas relaes com o Estado diferenciavam-se daquelas
que ligavam o soberano, o sarkin Kano, ao seu vassalo, o sarkin Gaya. A ltima
categoria de mo de obra era constituda por escravos.
    Do lado dos camponeses havia a grande variedade dos artesos. Sua especia-
lizao permitira alcanar os nveis de qualidade acima mencionados. Inmeros
escravos exerciam profisses artesanais, a pedido e em proveito de seus senhores,
pelo menos no incio.
    Grande parte dos criadores de animais sedentarizara-se e empregava escra-
vos tanto na produo de cereais quanto para cuidar do rebanho. Esse processo
acelerou sua integrao  comunidade poltica.
    Independente de os produtores serem livres, dependentes ou escravos, eles
faziam parte de uma comunidade poltica e suas relaes com o Estado eram
codificadas. Apareceu progressivamente uma diferenciao em funo da riqueza
e da proximidade com o aparelho do Estado.

      Os comerciantes
   No sculo XV, o Gwanja ligava-se ao Borno pelo Kano; alguns anos mais
tarde, os azbinawa levavam sal at o Gobir, ao passo que os comerciantes do
Gwanja iam at o Katsina, onde se instalavam kanuri e rabes. Mais tarde
ainda, os kambarin barebari, oriundos do Borno, iriam se destacar no comr-
cio de longa distncia, mas a documentao atual no evidencia especializa-
es relativas a cada grupo tnico. Contudo, os comerciantes dividiam-se em
vrias categorias, do atacadista engajado no fatauci (comrcio de distncias
mdias e grandes) at o revendedor que organizava o kasuwanci (comrcio
de varejo)91.
   Constitura-se um grupo de attajirai (comerciantes ricos) dentre os quais
figuravam certamente os mercadores de escravos, de cavalos, de noz-de-cola e
de roupas. No Zamfara92, aristocratas e comerciantes valorizavam seus gandaye
graas ao trabalho de seus escravos. Faltam-nos informaes sobre a produo
de cereais e as culturas industriais (como o algodo). Por outro lado, as ligaes
entre comerciantes e eruditos sempre pareceram muito estreitas.


91    Ibidem, pp. 109-111; M. Adamu (org.), s. d.c; UNESCO, Histoire gnrale de l'Afrique, vol. IV, p. 323.
92    G. Na-Dama, 1977, pp. 147-148.
Os Estados Haussas                                                                                    573



    Os interesses comuns conseguiam o principal fator de unidade entre os
comerciantes. Uma eventual especializao baseada no fator tnico apenas podia
se instaurar se permitisse aumentar os lucros. Os comerciantes ofereciam pro-
dutos de luxo  aristocracia e no hesitavam em emigrar quando se achavam
tributados em excesso. Alguns rabes deixaram o Kano para o Katsina, pois o
Kumbari aumentara a presso fiscal93.
    Segundo Ki-Zerbo94, entre 1500 e 1800, os diferentes subgrupos wangara e
os haussa conseguiram ligar entre eles as redes comerciais de toda frica Oci-
dental e formar a burguesia das principais cidades. Os comerciantes continuaram
a afirmar-se como classe, ao mesmo tempo em que aperfeioavam suas tcnicas
e propagavam a f islmica em seu proveito.

     A aristocracia
    A classe dirigente reunia os masu sarauta, ou seja, todos aqueles que exerciam,
a qualquer ttulo que fosse, uma parcela do poder poltico. Subdividia-se em
vrias categorias.
    O sarki encontrava-se  frente da nobreza. Esta compreendia as famlias
principescas, as famlias controladoras das cidades semi-autnomas e das pro-
vncias vassalas, assim como os representantes das diversas nacionalidades, par-
ticularmente dos azbinawa, dos rabes shuwa e dos fulbe. Ao exercer diversas
funes no aparelho do Estado, a nobreza tendia a se tornar um grupo homog-
neo cujos laos matrimoniais reforavam a coeso: `Abdullh Barja (1438-1452)
foi o primeiro soberano do Kano a casar com uma filha do sarkin Dutse, uma
do sarkin Shira, uma do sarkin Kano e uma do galadima95.
    Todos os dignitrios nomeados pelo sarki para garantir o funcionamento do
Estado formavam a segunda categoria. De origem pleb ou servil, sua posio
dava-lhes acesso  riqueza e  considerao, em razo dos presentes que rece-
biam, mas sobretudo graas a incurses de saque. Por vezes, cumpriam funes
militares essenciais96. O wambai Giwa, quando ampliou a cidade de Kano a fim
de agradar Nazaki (aproximadamente 1618-1625), "vinha todo dia visitar as
obras com mil pratos de comida e cinquenta bois at a concluso da construo",
mas foi destitudo pelo prximo sarki. Essa categoria da aristocracia acabou


93   H. R. Palmer, 1967, p. 124.
94   J. Ki-Zerbo, 1978, p. 175.
95   H. R. Palmer, 1967, p. 110.
96   Ibidem, p. 117 (Kano); D. M. Hamani, 1975, p. 85 (Kebbi); G. Na-Dama, 1977, p. 351 (excessos).
574                                                              frica do sculo xvi ao xviii



controlando o Estado. Levou, por exemplo, Muhammad Nazaki a se rebelar
contra o Katsina e opor-se ao ataque contra o Katsina planejado por Zaudai. O
declnio do Kebbi iniciou-se quando os dignitrios exercendo funes militares,
por terem enriquecido demais, desinteressaram-se dos assuntos do Estado.
    A aristocracia  em primeiro lugar os prncipes e os escravos reais  confiscava os
bens dos talakawa, principalmente quando o soberano mostrava sinais de fraqueza.
    Dois aspectos parecem-nos dominar a questo das relaes sociais: a venda
de negros por parte de alguns soberanos e a participao do Kawr e do Zawila
no trfico de escravos, j destacadas por al-Ya`kbi em 891. Ademais, pode-se
ler a respeito do mai do Kanem, Arku (aproximadamente 1023-1067): "Certo
dia, ao pensar na abundncia de escravos, instalou 300 deles em Dirkou, 300 na
mesquita de Saguedine e 300 em Zaylan." So os primeiros indcios97 da expor-
tao e do uso interno de escravos na regio. No Kano98, Tsamia (aproximada-
mente 1307-1343) recusou 200 escravos que os adeptos da religio tradicional
lhe ofereceram, mas o Kwararafa foi obrigado a entregar cativos a Yaji (aproxi-
madamente 1349-1385) e a seu filho Kanajeji (aproximadamente 1390-1410).
O galadima Dawuda pediu a `Abdullh Burja (aproximadamente 1438-1452),
prestes a partir para a guerra, para combater em seu lugar: "cada dois meses ele
enviava um milhar de escravos ao sarkin de Kano que, por sua vez, mandava-
-lhe diariamente cavalos, roupas e caparazes". No fim da campanha, ele juntara
21.000 escravos divididos em 21 vilas, todas batizadas indabo. Ao contrrio da
opinio de um especialista99 que interpretou tal fato como um deslocamento de
populao, estamos aqui diante de uma verdadeira expedio, bem organizada
e rentvel. Comprova essa assertiva o surgimento da categoria dos indabawa
(Rumfa sequestraria suas filhas), distinta dos maguzawa: deve-se mesmo dizer
que o termo indabo assemelha-se ao soninke debe, o fulfude debeere e o songhai
dabey. Os indabo dedicaram-se a atividades de produo artesanal e sobretudo
agrcola. No Katsina, a cidade de Tsagero constitua um domnio real onde se
mantinha um grande nmero de escravos. At prncipes foram enviados em
Tsagero100. As cidades da zona de Gozaki, no Sul, intensificaram suas relaes
com Kano e Zazzau (Zaria): a cultura do algodo nos grandes domnios da
regio acabaram por depender dos escravos importados de Zazzau, e parte do
algodo era exportada para o Kano.


97    J. M. Cuoq, 1975, p. 49; D. Lange, 1977, p. 67.
98    H. R. Palmer, 1967, pp. 103-112.
99    M. Hiskett, 1984, pp. 101-102.
100 Y. B. Usman, 1981, pp. 43-49; P. E. Lovejoy, 1983, p. 113.
Os Estados Haussas                                                                                575



    Fosse ele mercadoria, servente, alto funcionrio ou produtor dependente, o
escravo desempenhou um papel importante no desenvolvimento da economia e na
edificao do Estado na regio. Entretanto, a questo da exportao deve ser estu-
dada em funo da origem da demanda na Europa, e tambm no Oriente, antes de
o comrcio atlntico comear a reinvindicar sua parte. Compreender-se- melhor a
contribuio da escravido para a prosperidade da regio se discriminarmos todas
as outras formas de dependncias. Desse ponto de vista, a passagem do estatuto de
bawa (cativo) ao de bacucane (escravo nascido em casa) encontra-se em outras regi-
es da savana: o woloso (mandinga), o forso (songhai) e o dimaajo (fulfude) corres-
pondiam ao segundo termo haussa. A pesquisa deveria interessar-se pela evoluo
da escravido no decorrer deste perodo em que o desenvolvimento das relaes
mercantis simplificou a estratificao social. J existem alguns elementos de resposta
e pode-se dizer que o destino do escravo era melhor do que o do talaka101.
    Pode-se considerar que os masu sarauta (aristocratas) opunham-se aos
talakawa  produtores livres mas sem nenhum poder poltico.  medida que a
aristocracia, os letrados e os comerciantes se enriqueceram, a distino tornou -se
de cunho econmico, entre os masu arziki, ou attajirai (os ricos) e os talakawa
(os pobres). O bawan sarki (escravo real) cessou de ser um talaka tanto no plano
poltico quanto no econmico. Disso resultou uma clarificao da situao, j
que as diferenas tnicas e religiosas, doravante no segundo plano, deixavam
frente a frente os detentores do poder e os cidados de segunda categoria.

    A cultura e a religio
   A evoluo poltica e econmica acarretou inmeras transformaes no
mbito da cultura. No plano material, por exemplo, a arquitetura aprimorou-
-se, e as cidades demonstram at hoje uma grande variedade de estilos. Na
rea da msica, alguns instrumentos impuseram-se (kakaki, algaita), ao passo
que as orquestras eram integradas ao cerimonial real: s se pode agradecer
aos letrados por haverem mencionado alguns kirari (cantos de louvor) dedi-
cados a soberanos e personalidades do Kano. Neste domnio, o pas haussa
caracterizava-se por sua riqueza e sua unidade culturais, procedentes de uma

101 F. Cooper, 1979. Ver tambm a bibliografia indicada por P. E. Lovejoy, 1983. Uma ateno especial
    foi dedicada ao Imprio Songhai por L. E. Kubbel, 1974; suas reflexes dizem respeito a toda
    savana. Convm assinalar a presena do termo talaka em vrias lnguas africanas (tamajak, kanuri,
    haussa, fulfulde, songhai, gulmanceba, moore, etc.). Corresponde mais ou menos ao badolo do Takrr.
    Ademais, tanto no Takrur quanto no Kebbi, duas expresses sublinham o lugar da agricultura na
    economia da savana: os samba remooru e os bakabban kumbu so todos camponeses voltado para a
    terra.
576                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



homogeneizao que fez do guber, sob o nome de hawsa, uma das maiores
lnguas francas africanas102.
    No que diz respeito  religio, no incio do sculo XVI, a islamizao
limitava-se aos comerciantes e  elite poltica que a usava para consolidar o
poder central. No entanto, o fim do perodo seria marcado por uma acentuao
da luta aberta entre a aristocracia poltica e os eruditos103: a Crnica de Kano
e a Crnica dos Wangarawa permitem acompanhar por dentro, a evoluo de
suas relaes.
    Houve uma forte e regular afluncia de sbios no Kano104. Sob o reinado de
Kisoki (1509-1565) chegaram muitos eruditos. O primeiro, Shaihu Ba-Tunashe,
trouxe o livro Ashafa e acolheu no ano seguinte um estudante do Zazzau que se
tornaria seu principal discpulo. Outrossim, pediu e obteve a construo, pelo
soberano, de uma mesquita destinada ao sermo da sexta-feira para os rumawa.
O segundo, Dan Gwarandume, instalou-se onde Ab Bakr Kado, o sucessor de
Kisoki, lera o livro supracitado. O terceiro, Shaihu Abdussalami, introduziu trs
livros. Ab Bakr foi o primeiro a ler o Alcoro e obrigou os prncipes a estud-lo.
Em seguida chegou um grupo de trs irmos vindo do Borno: Shaihu Kursiki
recusou o cargo de kdi que seu irmo Magume aceitou, permanecendo Kabi,
por sua vez, um simples erudito. Trs outros, Watasanu, Buduru e Kudu chega-
ram depois. Sob o reinado de Ab Bakr Kado (aproximadamente 1565-1573)
imigrou um segundo grupo de eruditos composto por Tama, Malam Shrif,
Gesto e Wuri; vinham do Baguirmi (ou, segundo outras fontes, de Lagumi) e
residiram de incio no Katsina, antes de instalarem-se em Godiya onde Tama,
o lder, se casou. Muhammad Zaki (aproximadamente 1582-1618) casou com
uma das filhas de Tama e instaurou o culto do cokana e do dirki antes de atacar
o Katsina. Foi graas aos eruditos que os katsinama no destruram o Kano.
Entretanto, este ltimo atacou de repente, numa manh em que se comemorava
a festa de Ramdn e saiu vitorioso. Finalmente, entre 1648 e 1651, os eruditos
negociaram a paz entre o Kano e o Katsina. O Kano ocupava portanto um lugar
privilegiado na poca e atraa inmeros eruditos, dos quais pelo menos um tero
vinha do Borno. Muitas vezes, esses letrados haviam viajado bastante e traziam
livros consigo. Um deles, Kursiki, manteve-se afastado do poder, ao passo que
outro, Tama, se tornou o sogro do soberano.


102 J. Lon l'Africain, 1956, vol. I, p. 16.
103 H. E. S. Fisher, 1975, pp. 92-97; R. A. Adeleye, 1971, pp. 596-601; S. A. Balogun, 1980; M. Hiskett,
    1984, pp. 68-109.
104 H. R. Palmer, 1967, pp. 112-116 e 120-122.
Os Estados Haussas                                                                                           577




figura 16.8    Fachada decorada de uma casa de birni em Zinder.


Significado da decorao "falante" segundo as explicaes do mestre arteso de Zinder, Dandibi, recolhidas
por seu sobrinho, Cheffou Malam.
O vestbulo: zaure.
As cantoneiras: zanco (crista do galo)  o nome de um tipo de trana feito de cabelos de mulher.
O fronto: tsoro, a trana do lutador ( qual se amarra seu talism) que assusta o inimigo.
O entrelao da fachada: dagui  o termo usado para designar os bordados das vestimentas masculinas haussa  o
rastro do leo , marca das esperanas de grandeza.
A cruz de Agades: talhatina, essa j dos ourives haussa a servio dos mestres tuaregues seria interpretada como um
smbolo de fecundidade por Jean Gabus.
O sinal colocado abaixo de cada janela: kura (a hiena) representa a argola  qual se suspende um recipiente.
A lmina da espada, ashasha, de cada lado da entrada,  colocada sobre pilares chamados dogari, os guardas do
prncipe.
Kubi: smbolos procedentes dos jogos de baralho  contribuio pessoal de Dandibi.
Padro de bordado conhecido sob o nome de sarka, um dos principais temas da decorao tradicional (como
se pode ver no palcio do sulto em Daura, bero do povo haussa). Chama-se tambm durgusum taguwa,
ou tiras de fios.




   Em Birnin Katsina105, podia-se distinguir diferentes grupos descendentes
de Wli Ab `Abdullhi b. Masni, de Malam Buhri (que recusara um convite
para se instalar na capital), de Malam `Uthmn (vindo do Borno) etc. Em outras
cidades viviam inmeros letrados que se diferenciavam por seus antecedentes,
sua etnia e sua origem geogrfica. Tal intelligentsia, espalhada em um territrio


105 Y. B. Usman, 1981, pp. 71-76.
578                                                                       frica do sculo xvi ao xviii



cuja populao e dirigentes se consideravam islamizados, no assumia nenhum
cargo de alta responsabilidade no governo: consciente de constituir um grupo a
parte, mantinha distncia do poder.
    A peculiaridade do Zamfara106 residia no fato de o isl ter ali se implantado
tardiamente, provavelmente porque a maioria de seus centros urbanos era afas-
tada das grandes cidades e das rotas de caravanas do Sudo Central. Todavia, 
provvel que os eruditos kanuri tenham participado da converso do soberano ao
isl. Ao contrrio dos outros Estados, o imame de Anka possua um verdadeiro
feudo; sua residncia era um santurio e um lugar de refgio para qualquer um
que se encontrasse ameaado pelos dirigentes. Aos eruditos cabiam trs outras




figura 16.9 Pginas decoradas de um Alcoro haussa em miniatura, fim do sculo XVII-incio do XVIII.
[ Werner Forman Archive, Londres, coleo particular.]




funes: o limanin ciki era responsvel pela educao da famlia real, ao passo
que o dan kodo e o dan dubal eram conselheiros para os assuntos religiosos, guar-
dies da histria do Zamfara e encarregados de orar para a vitria do exrcito.
O primeiro soberano muulmano reinou a partir de 1670, e Babba (por volta
de 1715) ordenou uma orao coletiva de 100 letrados no intuito de garantir a
vitria do Zamfara sobre o Kebbi.


106 G. Na-Dama, 1977, pp. 185-187 e 320-326.
Os Estados Haussas                                                                            579



    No que diz respeito a seus rendimentos, os eruditos contavam com a gene-
rosidade da aristocracia que participava de seu conforto material e certamente
lhes ofereciam dinheiro. Contudo,  difcil contestar a objetividade dos letra-
dos, mesmo se tratando de sua prpria situao. Dessa forma, o shaykh `Abd
al-Rahmn Zagaiti107 rezou para que seus descendentes fossem poos de cincia
e pudessem se tornar os conselheiros do soberano; Rumfa deu a cada um dos
dois filhos do shaykh dois domnios, ao passo que o wambai, residente em Karaye,
gratificou Habibullhi, o terceiro filho, com um feudo, a fim de recompens-lo
por suas bnos. Disso pode-se concluir que, ao menos no Kano, os eruditos
podiam usufruir os rendimentos de grandes domnios.
    Seu esprito crtico reflete-se tambm na Crnica do Kano108. Muhammad
Shrif (aproximadamente 1703-1731) instaurara sete medidas ligadas ao zalunci
(injustia), dentre as quais o aumento constante da taxa de imposio, o imposto
sobre o casamento das meninas etc. Seu sucessor, Kumbari (aproximadamente
1731-1743), exigiu dos eruditos que pagassem um imposto. Em funo disso,
os rabes foram para o Katsina (onde reinava paz e prosperidade) e os talakawa
abandonaram a cidade.
    Os frequentes deslocamentos dos eruditos e a introduo dos livros j foram
invocados para explicar o despertar intelectual da regio. Porm,  forosamente
 existncia de centros de ensino e, sobretudo, ao uso do ajami em Kano e no
Katsina, no sculo XVI, que se deve tal despertar. De fato, uma madrasa fora
criada em Katsina aps a vinda de al-Balbali109, e  provvel que o uso do
ajami no tivesse ainda vigorado no incio do sculo XVI, embora tivesse sido
introduzido, segundo alguns, sob o reinado de Rumfa. Os eruditos escreviam
em rabe, fulfulde e haussa. Ora, entre 1500 e 1800, o pertencimento  mesma
comunidade poltica, a urbanizao, o desenvolvimento econmico, os movi-
mentos populacionais e o avano do ensino e da literatura aceleraram a sim-
plificao das relaes sociais. Os exemplos do Kano, do Katsina e do Zamfara
demonstram que o lugar de origem dos eruditos  de mais fcil determinao
do que seu grupo tnico: o Leste (Borno) ocupava o primeiro lugar no Kano e
no Zamfara, ao passo que o Oeste (Malle lato sensu) predominava no Katsina.
Quer rezando pela vitria militar ou consultados a respeito de questes jurdicas,
quer  margem do poder ou conselheiros respeitados, os eruditos comearam a


107 M. A. al-Hajj, 1968, pp. 11 e 14. O Professor Hunwick foi o nico a tentar encontrar o Wangara
    (Diakhite?) do qual o cronista queria transcrever o nome; ver J. O. Hunwick, 1971, p. 278.
108 H. R. Palmer, 1967, pp. 123-125. A verso haussa traz importantes correes.
109 M. Hiskett, 1984, pp. 80-83.
580                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



influir de modo determinante na vida social, notadamente atravs dos wa'azi
(sermes). Alguns nomes merecem destaque. No Zamfara110, dentre os mais
famosos, citaremos Ramadn b. Ahmadu (de Fezzan), Hashimu Bazanfane (um
dos mestres de Shehu `Uthmn), Maman Tukur dan Binta e al-Mustafa Gwani,
um kanuri que enfrentou `Uthmn, de passagem pelo Zamfara, a respeito da
presena simultnea de homens e mulheres durante os sermes.
    No Katsina destacam-se dois nomes111: Ab `Abdullhi b. Masni b. Muham-
mad al-Barnwi al-Kashinawi (aproximadamente 1595-1667), nascido em Kat-
sina de pais bornoanos, e aquele que as tradies locais consideram como seu
aluno, Muhammad al-Sabbgh al-Kashinawi, mais conhecido sob o nome de
Dan Marina, muito ativo em torno de 1650. Ambos deram origem a um ver-
dadeiro renascimento intelectual que se expressaria no poema composto por
Dan Marina em homenagem ao mai `Ali, vencedor do Kwararafa por volta de
1680. Deve-se mencionar tambm Muhammad al-Kashinawi (falecido por
volta de 1741) de quem subsistem vrias obras, assim como Muhammad b. `Abd
al-Mahman al-Barnwi (falecido por volta de 1755) cujos trabalhos inspiraram
`Uthmn.
    Entretanto, foi incontestavelmente Malam Djibril dan `Umaru que mais se
destacou no conjunto112. Nascido e falecido no Adar, vrias vezes peregrino em
Meca, esse erudito de saber enciclopdico estava preocupado com a reforma
do isl no Sudo: aps um fracasso junto aos tuaregues do Adar, dirigiu-se aos
prncipes haussa e atraiu para si a hostilidade deles. Teve como alunos `Uthmn
(`Usmn) e `Abdullhi dan Fodio. Apesar de suas crticas relativas a alguns
posicionamentos de Djibril, `Uthmn considerava-se seu discpulo e continua-
dor. A segunda metade do sculo XVIII foi marcada por borbulhante atividade
intelectual e discusses entre eruditos, como forma de contestao da ordem
estabelecida pelos masu sarauta.


      Concluso
   s vsperas da jihd, as relaes entre Estados haviam se apaziguado con-
sideravelmente. O Kebbi e o Zamfara haviam sido derrotados, mas os outros


110 G. Na-Dama, 1977, pp. 252 e 325.
111 I. Dankoussou, 1970, pp. 38-52; Y. B. Usman, 1981, pp. 71-72 e 1983, pp. 199-200; M. Hiskett, 1984,
    pp. 81-82; A. M. Kani, em M. Adamu (org.), s. d.c.
112 D. M. Hamani, 1975, pp. 136-141; A. M. Kani, em M. Adamu (org.), s. d.c.
Os Estados Haussas                                                                                   581



se viram tambm confrontados com graves dificuldades. No Kano, a paz e a
estabilidade alternaram com duas graves disputas entre o sarki e os dignitrios:
estes ltimos proibiram Babba Zaki (aproximadamente 1768-1776) de residir
em Takai, ao passo que Muhammadu Alwli (aproximadamente 1781-1807)
se recusou a dar-lhes os 40 bovinos destinados ao dirki, a quem mandou matar
a machadadas. No Gobir, Bawa (aproximadamente 1777-1789) instaurou pela
primeira vez um imposto sobre determinada variedade de milho, e alguns criado-
res de animais desse Estado tiveram que pagar o jangali vrias vezes no mesmo
ano. Duas crises dinsticas abalaram o Katsina em 1767 e 1796. Observam-se
portanto em todo lugar riscos de instabilidade procedentes da resistncia dos
dignitrios, uma tirania amplificada e uma oposio latente dos talakawa. O
poder poltico atingira um grau de opresso que no poupava os eruditos; porm,
estes eram os nicos a ousar desafiar abertamente a ordem estabelecida113.
    A historiografia do Sudo Central pouco a pouco se afasta da apologia da
jihd a fim de se interessar pelas transformaes ocorridas no decorrer dos
perodos anteriores.
    No plano econmico, exagerou-se o aparente imobilismo que teria caracte-
rizado o perodo de 1600 a 1790.  notrio que a roda e o moinho de vento
no eram usados e que os fuzis eram desprezados. Porm, j por volta de 1582-
-1586, os "takrurianos" de Gao brigavam com os "sudaneses" que alegavam
que Kano era mais importante e maior do que Gao114. E, apesar das inmeras
catstrofes naturais115, a regio passou por um desenvolvimento impressionante,
muitas vezes explicado apenas pelo comrcio. Porm, este se intensificou graas
 interveno do Estado sob diversas formas. No se deve tampouco subestimar
os progressos realizados nas reas da produo e da transformao. Em funo
de tais progressos, a reputao da regio despertou o interesse dos europeus que
enviaram para ali vrias misses, sob o pretexto da pesquisa cientfica (problemas
do curso do Nilo e do Nger, por exemplo).
    No plano poltico, apesar dos conflitos armados, nenhum Estado desapareceu
no decorrer do perodo. O Gana, o Mali e o Songhai enfraqueceram, talvez pelo
fato de serem imprios; o Kanem-Borno, tambm um imprio, conheceu, por sua
vez, uma notvel longevidade. Por sua vez, o sucesso econmico do pas haussa

113 H. R. Palmer, 1967, pp. 126-127; R. M. East, 1979, pp. 42-43; G. Na-Dama, 1977, pp. 396-402; M. A.
    al-Hajj, 1979; Y. B. Usman, 1981, pp. 84-99.
114 Acerca do imobilismo, ver H. E. S. Fisher, 1975, pp. 66-67. A respeito da discusso relativa a Kano e
    Gao, ver M. Ka`ti, 1981, p. 262.
115 Entre 1539 e 1564, 1639 e 1688, 1697 e 1715, 1729 e 1750, por exemplo; ver J. Maley, 1981, pp. 57-81;
    P. E. Lovejoy, 1983, pp. 69-70.
582                                                            frica do sculo xvi ao xviii



ocultou a grande estabilidade do Estado como instituio. Seu carter burocr-
tico e opressivo destacou-se pelas medidas introduzidas por Shrif em Kano.
Uma delas foi chamada kwaro, e muitos ignoram a traduo dessa palavra. Se a
ortografia for correta e a leitura boa, trata-se de um termo antigo significando
"trocar moedas por cauris": estes ltimos foram introduzidos no pas haussa sob
o reinado de Shrif que teria imposto seu uso. Certo autor interpretou errone-
amente a palavra kwaro (certamente em razo de um erro de impresso): ele
pensou que se tratava de um imposto sobre os produtos da colheita, pago no
Damagaram, por exemplo. Qualquer seja a interpretao escolhida, destaca-se
a meticulosidade da gesto do Estado haussa.  o que atesta a clarividncia de
Muhammadu Alwli que acumulara em seu palcio reservas alimentcias em
previso das turbulncias e das fomes, no podendo ele impedir estas ltimas116.
Na verdade, o aparelho do Estado era eficiente, e poucas modificaes foram
feitas pelos regimes a seguir.




116 H. R. Palmer, 1967, p. 125; R. M. East, 1979, pp. 37-38.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade 583



                                      CAPTULO 17


      O Kanem-Bornu: suas relaes com o
      Mediterrneo, o Baguirmi e os outros
          Estados da bacia do Chade
                                         B. M. Barkindo*




    No sculo XIII, o Estado muulmano do Kanem era um dos mais extensos
do Bild al-Sdn. O poder dos mai (reis) sefuwa abrangia um vasto territrio
compreendido, do Norte ao Sul, entre as margens orientais do Lago Chade e
os osis do Fezzn, mas tal expanso no foi acompanhada por medidas eco-
nmicas e polticas adequadas. A formao, por diferentes grupos tnicos, de
entidades mais ou menos autnomas e distintas da principal dinastia sefuwa no
poder impediu a instaurao de um sistema poltico centralizado. Ademais, o
Kanem, em maior parte desrtico ou semidesrtico, carecia das matrias primas
indispensveis  viabilidade de um conjunto to grande.
    Uma grave crise levaria, no fim do sculo XIV, ao desmoronamento do
Estado do Kanem. O mai `Umar b. Idris (1382-1387) partiu,  frente dos
magumi (cuja famlia real constitua uma linhagem) e de seus partidrios, para
o Borno, a Oeste do Lago Chade, regio com abundantes riquezas naturais e
onde a dinastia j estabelecera vassalos. Na realidade, um grande nmero de
imigrantes do Kanem havia precedido os sefuwa e ali haviam se instalado, par-
ticularmente no Sul e no Oeste1.


*    Eu gostaria de agradecer ao Professor Philip Shea e John Lavers por seus teis comentrios e sugestes
     a respeito da primeira verso do presente captulo.
1    Consultar a esse respeito B. M. Barkindo, 1971.
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    Quando de sua chegada no Borno, os sefuwa parecem ter almejado, antes
de mais nada, a criao de uma forte economia regional, capaz de sustentar um
sistema poltico bem organizado, do qual eles seriam o elemento dominante.
Todavia, no decorrer do sculo que seguiu a sua implantao, enfrentaram vrias
dificuldades, colocando por vezes sua prpria existncia em perigo: incessan-
tes disputas internas, crises dinsticas, ataques regulares dos bulala e potncia
excessiva de alguns dignitrios2.


      O mai `Ali Gaji e a fundao do Califado de Borno
      (por volta de 14651497)
    O advento de `Ali ibn Dunma, mais conhecido como `Ali Gaji, colocou fim
s dissenses internas, o que lhe permitiu consolidar seu poder no seio do ramo
da dinastia no poder a que pertencia. Quando, por volta de 1471, os bulala vie-
ram pilhar de novo o Borno, `Ali Gaji enfrentou-os e venceu-os, sem contudo
buscar aproveitar-se de tal vitria.
    Por volta de 1472, `Ali Gaji mandou edificar a fortaleza de Birnin Gazar-
gamu no confluente do Yobe e do Gana3. Ela tornou-se a capital dos sefuwa e
o permaneceria quando da dominao do Borno por estes. Outros estabeleci-
mentos fortificados foram provavelmente fundados na mesma poca em vrios
outros lugares4.
    `Ali Gaji  considerado um renovador do isl, pois que tentou eliminar,
pelo menos no seio do grupo dominante, as tendncias sincretistas cada vez
mais afirmadas dos sefuwa. Esforou-se tambm para implantar um autn-
tico Estado islmico. Conforme a tradio instaurada por seus predecesso-
res e de acordo com o fervor islmico de sua poca, cercou-se de `ulam'
(letrados muulmanos) junto aos quais pedia conselhos antes de qualquer
deciso importante. Convm citar, dentre esses conselheiros, Ahmad b. `Abd
al-Kuwwata, o kdi al-kabir (supremo juiz), e Masbarma `Umar b. `Uthmn,
wasir e primeiro imame do reino5.
    Vrios dignitrios perderam parte de suas prerrogativas, principalmente
aqueles que gozavam de um poder excessivo e, mais especificamente, o kai-


2     Ibidem.
3     Brief Diwn.
4     O panegrico de `Ali Gaji apresenta-o como "aquele que detm as altas cidades e as longas lminas".
5     H. R. Palmer, 1936, pp. 21-22 e 23-28.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade   585



gama e o yerima que, em situao de crise, faziam e desfaziam os mai a seu
bel-prazer6. Foi talvez na poca de `Ali Gaji que se implementou o harm real,
com as quatro esposas e um certo nmero de concubinas tituladas7. Outrossim,
o cargo do chiroma (herdeiro presuntivo) foi provavelmente criado na mesma
poca.
    No decorrer de sua peregrinao a Meca, aproximadamente em 1484, `Ali
Gaji teria sido investido na funo de khalifa do Takrr pelo pretendente abs-
sida `Abd al-Azis b. Ya`kb8. Desde ento, os soberanos do Borno proclamaram-
-se khalifa, ttulo este que lhes reconheceram finalmente numerosos letrados e
dirigentes do Bild al-Sdn9.


     Fatores propcios ou desfavorveis  expanso do Califado
     de Borno (14971564)
     A poltica de `Ali Gaji prosseguiu com seu filho e sucessor Idris b. `Ali
(aproximadamente 1497-1519), conhecido como Katakarmabe, que consolidou
o regime e tentou expandir o reino. Entretanto, durante uma boa metade do
sculo, Katakarmabe e seus sucessores tiveram de enfrentar vrias ameaas que
os desviaram dos objetivos por eles fixados.
   O primeiro problema com o qual se defrontaram os sefuwa foi a retomada,
aps a morte de `Ali Gaji, dos ataques dos bulala, aparentemente decididos a
atrapalhar as mudanas econmicas e polticas em curso no Borno10. Logo aps
sua ascenso ao poder, Katakarmabe j teve que repelir uma de suas ofensi-
vas. No somente conseguiu derrot-los como tambm retornou vitorioso para
Ndjimi, antiga capital dos sefuwa, que todavia nunca foi reocupada. Aps a
concluso de um acordo com os bulala, Idris voltou ao Borno, mas a trgua foi
curta, pois as hostilidades retomaram intermitentemente e prosseguiram at o
reinado de Idris Alawoma (1564-1596).
   Os mai sefuwa enfrentaram igualmente outra dificuldade: o advento, nesta
poca, de vrios Estados na bacia do Chade e em outras partes do Sudo, o que
os obrigou mudar ou modificar seus objetivos, a fim de solucionar seus proble-
mas com cada um dos novos Estados.

6    H. Barth, 1965, vol. II, p. 589.
7    H. R. Palmer, 1967, p. 158.
8    Brief Diwn, pp. 5-9.
9    J. E. Lavers, 1971, p. 32.
10   B. M. Barkindo, 1971.
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    No incio do sculo XVI, a bacia do Chade abrigava uma constelao de
jovens e pequenos reinos estabelecidos ao longo das fronteiras meridionais do
Borno  Baguirmi, Mandara, Estados de Kotoko, Bolewa do Norte de Daniski,
Yamta e Margi, entre outros11. Os perigos de tal situao no escaparam aos
mai. Alguns desses Estados foram atacados e obrigados a reconhecer, de uma
forma ou outra, a hegemonia dos sefuwa. Porm, de forma geral, estes tentaram
criar relaes pacficas com vrios desses novos Estados. Desde cedo, todos
aqueles acima citados cooperaram com os sefuwa. Os mai buscavam, sem dvida,
aproveitar-se desses jovens principados no intuito de implantar uma econo-
mia regional, j que incentivaram-nos a desenvolver a economia local em suas
respectivas zonas, bem como a estabelecer relaes comerciais regulares com o
Borno. Graas a tal associao, os jovens principados adotaram inmeros traos
culturais do Borno, o que permitiu favorecer seu avano12.
    Vrios outros Estados tambm surgiram na mesma poca no pas haussa.
Katsina e Kano tornar-se-iam logo os pontos finais da pista trans-saariana,
assim como entrepostos na estrada Oeste-Leste pela qual transitavam rumo a
Borno o ouro e a noz-de-cola provenientes do pas dos akan13. Mais ao Norte,
a rota trans-saariana foi ligeiramente desviada, na poca em que Agades se
desenvolveu e suplantou Takedda como entreposto.
    O Borno foi certamente obrigado a reagir diante dessas mudanas. A nova
rota comercial que o ligava ao pas haussa se tornaria logo pouco segura para os
viajantes, em funo das razias praticadas pelos ngizim, bedde e bulalas. Sem
dvida, considerveis esforos foram feitos para proteger tal rota, porm foi pre-
ciso esperar o advento de Idris Alawoma para que esse problema comeasse a ser
solucionado. A insegurana da rota comercial, assim como a luta pelo controle
dos novos estabelecimentos implantados ao longo da estrada, provavelmente
avivaram os conflitos que opuseram o mai Idris Katakarmabe a dois soberanos
do Kano, `Abdullhi (aproximadamente 1499-1509) e Muhammad Kisoki (por
volta de 1509-1564)14.
    Ao que tudo indica, o Borno foi tambm obrigado a se adaptar ao novo
traado da rota trans-saariana. No somente mantinha com Takedda relaes
de longa data, como tambm devia almejar o controle do novo entreposto de
Agades. A empreitada tornava-se cada vez mais urgente, pois, na mesma poca,


11    Para obter mais detalhes a esse respeito, consultar B. M. Barkindo, 1980, pp. 204-241.
12    Ibidem.
13    H. R. Palmer, 1967, p. 109; P. E. Lovejoy, 1978, pp. 185-186; Y. B. Usman, 1981, p. 16.
14    H. R. Palmer, 1967, p. 113.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade    587



o Songhai estava tambm no auge de sua potncia e, em 1501 e 1515, o askiya
Muhammad (aproximadamente 1493-1528) lanara campanhas militares con-
tra Agades, no intuito de incluir a regio na esfera de influncia do Imprio15.
Faltam informaes sobre os detalhes de tais lutas: por volta de 1532, o Borno
teria realizado uma campanha militar e conquistado a cidade16. Todavia, o for-
talecimento do Kebbi sob o domnio Muhammadu Kanta (aproximadamente
1516-1554) arruinou os esforos do Songhai, bem como os do Borno. Agades
permaneceu uma fonte de preocupao para os mai sefuwa durante quase todo
o perodo em que assumiram o poder.
    Entre 1480 e 1520, aproximadamente, o Bild al-Sdn passou por um per-
odo de intensa islamizao. Ao Leste, o sultanato funj, fundado por volta de
1504, converter-se-ia logo ao isl. A Oeste, inmeros letrados oriundo do Mali,
da frica do Norte, do Egito e dos osis saarianos, vieram ao pas haussa e con-
triburam em islamiz-lo. Mais a Oeste, o Imprio Songhai atingiu seu auge na
poca do askiya Muhammad, cujo reinado foi marcado por um forte desenvol-
vimento do fervor muulmano na regio. Vale destacar que no decorrer de sua
peregrinao a Meca (por volta de 1496-1498), esse soberano foi investido na
funo de califa do Takrr17, exatamente da mesma forma que o mai `Ali Gaji,
dez anos mais cedo.
    O fervor islmico caracterstico da poca ofereceu novas possibilidades aos
mai do Borno. Os soberanos sefuwa eram muulmanos desde o sculo XI; `Ali
Gaji fora elevado  dignidade de califa dez anos antes do Askiya que, ao que
tudo indica, foi o nico a contestar abertamente o ttulo de `Ali Gaji; por fim, os
dirigentes do Borno cercavam-se tradicionalmente de `ulam' respeitados: todos
esses elementos contriburam em proporcionar aos mai uma vantagem sobre
os outros soberanos. As crnicas redigidas por Masbarma `Umar b. `Uthmn a
pedido de Idris Katakarmabe e a do imame Ahmad b. Fartwa, consagrada ao
reinado de Idris Alawoma, surgiram como tentativas de legitimao das pre-
tenses dos mai ao ttulo de califa. Finalmente, o declnio e a queda do Imprio
Songhai, no fim do sculo XVI, permitiu-lhes obter tal primazia.
    O Borno tornou-se tambm um grande centro intelectual, frequentado
por letrados do Bild al-Sdn e de outras partes do mundo muulmano18. O


15   J. O. Hunwick, 1971, p. 221.
16   Ibidem.
17   J. O. Hunwick, 1962. O askiya buscava certamente reforar sua posio no Imprio e desafiar o Borno,
     a nica grande potncia da regio.
18   J. E. Lavers, 1971.
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reconhecimento, por parte de vrios `ulam', das pretenses dos mai do Borno
contribuiu muito em assentar a influncia cultural do Borno sobre uma grande
parte desses Estados. No pas haussa, tal evoluo contribuiu certamente na
instaurao de um tributo (gaisuwa ou tsare em haussa) regularmente pago pelos
dirigentes muulmanos dessa regio ao califa do Borno19.
    A partir do reinado de Idris Katakarmabe, documentos comearam a ates-
tar as relaes diplomticas e comerciais entre os sefuwa e as diferentes enti-
dades do litoral norte-africano. Por volta de 1512, Idris enviou uma misso
diplomtica e comercial aos espanhis, recm ocupantes de Trpoli, a fim de
reatar os laos comerciais com essa regio. Essas relaes foram mantidas
por seus sucessores, quaisquer que fossem os detentores do poder em Tripo-
litnia20. Quando do estabelecimento dos otomanos no Magreb, Dunma b.
Muhammad enviou-lhes, por volta de 1555-1556, uma embaixada que firmou
com Tighrt Pasha um tratado "de amizade e de comrcio", renovado por
seus respectivos sucessores21.  provvel que laos firmes tenham tambm
sido atados com o Egito. De fato, alm de encontrar-se na rota da peregrina-
o a Meca, tudo indica que o Egito mantinha tambm relaes comerciais
com o Borno22, ainda que apenas disponhamos a esse respeito de indicaes
fragmentrias.
    Os descendentes de Idris Katakarmabe deram continuidade a sua poltica
diante das incurses dos bulala e dos problemas colocados pelo surgimento de
novos Estados. Ademais, por volta de 1561, uma guerra ops o Kebbi ao Borno
para o controle de Agades, conflito este que o Borno parece ter perdido.


      A implementao de uma forte economia regional e de
      um sistema poltico centralizado. A ascenso dos kanuri
      (por volta de 15641677)
   A maioria dos especialistas concorda em situar o apogeu do Borno durante
o reinado de Idris b. `Ali (1564-1596), conhecido aps sua morte como Ala-
woma. Os doze primeiros anos de seu reinado so relatados no panegrico a


19    H. R. Palmer, 1967, pp. 9-10 e 83; A. Hassan e A. S. Naibi, 1952.
20    D. Girard, L'histoire chronologique du royaume de Tripoli, Bibliothque nationale, Paris, ms franais (ancien
      fonds) 12219, 12220.
21    Ibidem.
22    J. E. Lavers, 1982.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade   589



ele consagrado por seu imame, Ahmad ibn Furtwa23. No que tange  poltica
interna, Idris b. `Ali era considerado um inovador nos planos militar e admi-
nistrativo, assim como um propagador do isl. Em termos de poltica externa,
ele demonstrou ser um diplomata to eficaz quanto os principais soberanos
muulmanos da poca.
    Ao chegar ao poder, seu principal objetivo pareceu ser a realizao do sonho
de seus ancestrais: prover seu pas de um potente sistema econmico e poltico.
Foi o primeiro mai a tentar consolidar seu poder no conjunto da provncia
metropolitana. A cavalaria, pea-chave de seu exrcito, foi reorganizada. Esta
integrava tambm um corpo de mosqueteiros turcos, cujo efetivo j fora refor-
ado por seus predecessores. Tudo indica que embarcaes de dimenses acres-
cidas foram construdas, no intuito de atravessar os rios com mais facilidade. Tal
exrcito levou Idris a lanar-se em novas conquistas.
    A maioria dos grupos hostis que os mai no conseguiram assujeitar de um
outro modo foram atacados sem trgua at a sua rendio. Foi notadamente
o caso dos ngafata, dos talata, dos dugurti, dos maya, dos ngizim e dos bedde.
Alguns, tais como os mukhulum, aps terem sido derrotados, foram obrigados
a pagar um tributo em trigo a fim de poder conservar seus lares24. Outros, tais
como os ngafata, os talata e os dugurti, considerados irredutveis, foram expulsos
para fora da metrpole25.
    Para substitu-los, outros grupos, oriundos na sua maioria, assim como o
veremos, do Kanem, vieram se instalar no Borno. De fato, a ampla transfor-
mao demogrfica assim provocada por Idris Alawoma na metrpole foi
uma de suas maiores contribuies  histria do Borno. Esse mtodo, assim
como os inmeros casamentos mistos com mulheres cativas presas durante as
hostilidades ou trocadas com Estados satlites, como o Mandara e o Baguirmi,
contriburam de forma substancial ao avano e  propagao do grupo kanuri
na metrpole.
    No Sul do pas, vrios ribt (postos avanados fortificados) foram constru-
dos a fim de conter os ataques de grupos insubmissos, tais como os gamergu,
e o Borno firmou, com os soberanos dos Estados satlites, acordos solenes
relativos  organizao conjunta de expedies militares contra esses elementos
rebeldes26.

23   A. ibn Furtwa, 1862.
24   Ibidem, p. 238.
25   Ibidem, p. 219. Os dugurti emigraram para o Kanem.
26   B. M. Barkindo, 1980, captulo 5.
590                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



      A resoluo definitiva dos problemas colocados pelo Kanem
    Aps a pacificao e a integrao da maior parte da metrpole, Idris Ala-
woma concentrou sua ateno no Kanem com vistas a acabar, uma vez por
todas, com a ameaa que este representava para o Borno. Fixaram-se aparente-
mente trs objetivos: o total aniquilamento da fora militar e do poder poltico
dos bulala, a mais completa possvel destruio das estruturas econmicas do
Estado do Kanem e a transferncia para o Borno do maior nmero possvel de
comunidades.
    Alawoma liderou algumas expedies no Kanem onde derrotou os bulala,
perseguindo-os sem trgua27. Com a mesma falta de piedade, atacou outros
grupos  como os kananiya que apoiavam os bulala  at conseguir enfraquec-
-los28. No decorrer de uma dessas expedies, trs dos mais fertis vales do
Kanem foram devastados, algumas de suas mais importantes cidades, tais
como Ikima, Aghafi e Ago, foram destrudas e sua populao veio se instalar
no Borno29.
    Os tubu, os koyam, os kulu e os rabes shuwa (choa) faziam parte desses
grupos oriundos do Kanem e obrigados a estabelecerem-se no Borno. Os dois
ltimos grupos, donos de rebanho, foram disseminados ao longo da margem
meridional do Lago Chade, assim como nos territrios situados a Oeste da
metrpole30. Incentivaram-se os tubu e os koyam a lanarem-se no comr-
cio, tanto no prprio Borno, quanto nas regies vizinhas do pas haussa e do
Fombina31. Quanto aos koyam que eram cameleiros, uma parte dentre eles foi
servir na camelaria criada como unidade de transporte do exrcito32. Inmeros
grupos foram igualmente instalados na regio situada ao Norte do lago, por
onde os bulala costumavam passar para atacar o Borno. Outros, particular-
mente os tubu, foram estabelecidos  beira do deserto, no somente por razes
estratgicas, mas tambm para participar da produo e da venda do sal de
Bilma e de Muniyo. Certamente houve outros grupos tambm empregados
para fins econmicos ou militares e sobre os quais ainda no dispomos de
nenhuma informao.


27    H. R. Palmer (1967, p. 14) sugere que essas expedies tenham ocorrido por volta de 1571-1575.
28    Ibidem, pp. 64-66.
29    Ibidem, p. 49.
30    No que concerne os kulu, ibidem, p. 49. No que tange aos Shuwa, consultar J. C. Zeltner, 1979, p. 22.
31    H. Barth, 1965, vol. II, p. 31; G. Nachtigal, 1881, vol. II, p. 148; B. M. Barkindo, 1980, pp. 164 e 286-
      -290.
32    H. R. Palmer, 1967, p. 55.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade          591



   Durante os vinte ltimos anos do sculo XVI, Idris Alawoma j atingira a
maior parte dos objetivos por ele fixados, e o Kanem foi partilhado, de comum
acordo, entre o Borno e os bulala que aceitaram uma tutela bastante flexvel do
Borno33.

     As reformas internas
    Foi provavelmente por volta de 1571 que Idris Alawoma realizou sua pere-
grinao para Meca34. Em sua volta, ele tentou introduzir um certo nmero de
reformas visando alinhar seu pas aos outros pases islmicos. No plano poltico,
esforou-se, aparentemente sem sucesso, para separar o poder judicirio do
poder executivo35. Todavia, teria conseguido instituir uma corte de apelao na
qual "letrados e imames debatiam frente ao emir `Ali dos pontos litigiosos da
lei e do dogma36".
    O mai Idris teria construdo mesquitas de tijolos no lugar dos antigos edif-
cios de junco. A corte atraiu um grande nmero de letrados da frica do Norte,
conferindo-lhe assim um carter cosmopolita.

     A ascenso de uma potente economia regional
    As conquistas de Idris Alawoma, as mudanas demogrficas por ele pro-
vocadas, assim como suas outras reformas levaram  criao de uma potente
economia regional, tendo como base os 20.000 km2 da metrpole. Tudo indica
a emergncia de trs grandes centros de comrcio, o primeiro completamente
ao Leste, o segundo no extremo oposto e o terceiro a meio caminho entre os
dois primeiros, nos arredores de Birnin Gazargamu37.
    No Leste, os buduma e os knembu38 pescavam de forma quase indus-
trial nas margens do Lago Chade, ao passo que as ricas pastagens atraam um
grande nmero de criadores de animais nmades knembu, shuwa e fulbe39. Os
knembu e os buduma sedentrios produziam tambm kilbu (natro) e manda


33   J. E. Lavers, 1980, p. 199.
34   H. Barth (1965, p. 596) acredita que a peregrinao de Idris teria ocorrido durante o nono ano de seu rei-
     nado, ou seja, em 1571, o que coincide com a data informada por H. R. Palmer para o incio das expedies
     no Kanem (ver nota 27). Tais datas corroboram a cronologia de D. Lange (1977) que seguimos aqui.
35   J. E. Lavers, 1971, p. 37.
36   H. R. Palmers, 1936, pp. 33-36. Elsami devia, 170 anos mais tarde, dar-lhe o nome de burguram; ver S.
     W. Koelle, 1968, p. 276.
37   M. N. Alkali, 1983, pp. 64-69.
38   P. M. Redmond, em M. Adamu (Org.) s. d.c.
39   M. N. Alkali, 1978, p. 158.
592                                                          frica do sculo xvi ao xviii



(sal)40. O crescimento demogrfico e o desenvolvimento econmico permitiram
o rpido crescimento de importantes centros urbanos na regio, dentre os quais
Munguno, Kauwa, Burwa e Ngurno.
    A extremidade ocidental do pas era tambm rica em amplos jazidos de
natro explorados pelos manga e pelos tubu41, enquanto no Sul, importantes
comunidades de agricultores, tais como os ngizim e os bedde, reagrupavam-se.
Consequentemente  poltica conduzida por Idris Alawoma e seus sucessores
diretos, a populao imigrada dessa zona foi mais heterognea que aquela da
zona oriental. Uma grande parte dos centros urbanos que ali se criaram na
poca  Nguru Ngilewa, Mashina Kabshari e Maja Kawuri  tiveram de fato
um carter cosmopolita mais acentuado do que as cidades do Leste.
    Birnin Gazargamu e seus arredores formavam o terceiro grande centro de
atividades. Situado na rota comercial que atravessava o pas de Leste ao Oeste,
tal centro gozava de um acesso direto e fcil s duas outras regies. Duas vias
navegveis, o Yobe e o Gana, serviam particularmente ao transporte do peixe,
e o rebanho era encaminhado do Leste para o Oeste ao longo de suas mar-
gens. Ademais, Birnin Gazargamu encontrava-se no final da pista de caravanas
Borno-Kawar-Trpoli, assim como da principal estrada ligando a regio ao pas
haussa. A cidade constitua assim o verdadeiro centro nervoso da economia do
pas e sua imensa feira acolhia inmeros negociantes estrangeiros42. O frtil vale
do Yobe  que se beneficiou de obras de irrigao  abrigava um grande nmero
de kanuri, grupo em plena expanso que se estabelecera em Birnin Gazargamu,
bem como em vrios outros centros urbanos. Sob o reinado de Idris Alawoma,
os kanuri comearam a espalhar-se, atingindo e ultrapassando as margens do
Gana, no Sul, e do Garu Kime, no Norte.
    O Borno buscou tambm reforar o controle exercido sobre o Estados sat-
lites. Obteve assim do Mandara o fornecimento regular de ferro e escravos, ao
passo que o Kotoko e o Baguirmi abasteciam-no em peles, marfim e escravos.
    O surgimento das indstrias de base acarretou o desenvolvimento de ati-
vidades auxiliares, tais como a cermica, a tecelagem, o trabalho do couro, o
tingimento e os transportes43.
    O comrcio do natro e do sal estendeu-se at a costa atlntica, o pas haussa,
a bacia da Volta e, rumo ao Norte, at Azbin e Adrar. O peixe desidratado cons-


40    P. E. Lovejoy, em M. Adamu (Org.) s. d.c.
41    Ibidem.
42    M. S. Ibn Ishku, 1929, pp. 544-547.
43    M. N. Alkali, 1978, p. 152.
                                                                                                                                                                                                                                              O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade
                                                                                                        Em direo a Trpoli

                                                                                                                                                                                                        Barak
                                                                                                                                                                                 Sandu
                                                                                                                                          TUBU
                                                                                                                    Goyawa
                                                                                                                                                                                                             z




                                                                                                                                                                                                        al
                                                                                                                                                  Kagusti
                                                                                                         Furtu                                                    Mih
                                                                                                                                                                                      Kawal
                                                                                                                                                                                                        ha
                                                                                                                                   Ruru
                                                                                                                                                                                                   -G
                                                                                                                                                                                                 al
                                                                                            Garoumele         Gu         Ba
                                                                                                                           ri                                           Mao
                                                                                                                                                                                             .
                                                                                              Gatiga                gu                    Muli Fuli
                                                                                                                      ti




                                                                                                                                                                                        hr
                                                                             Belbelec
                    Zinder




                                                                                                                                                                                     Ba
                                                 Gour                                                                                     KANEM            Ngala

                                                                       MANGA                                                                            Madan      Dagalu
  DAMAGARAM                                MUNIYO                                                                                                     Bol           Bari
                                                                                                              Yo                                                              Auno
                                                                                        Zamtam
 Em direo a frica do Norte
                                            Mashina
                                                                             Gambaru            MOBBER                             Lago Chade
                                                                                          Birnin
                                                     Nguru             Geidam             Gazargamu                        O                                                                      Malfe                       Yao
                                                                                                         N          Monguno                             Gamtila                                                  Lac Fitri
                                      a                                                         R
                                   Hau                               Gumsa                                     E
                                                                                                          NS
                                                                                                                                                                        Balagi
                             as           Hadejia                                                                                         KOTOKO                                                                            Em direo ao
                        op                                                                               A
                                                                                                     N'G
                     a
             dire
                 o                                                                      O                          Yedi
                                                                                                                                  Ngala        Afade
                                                                                                                                                                                                                               vale do Nilo
        Em                                                                                                                                                  Kussiri
                                                                 a


                             ejia
                                                             an



                         Had
                                                                                                                              Dikwa     Kaza



                                                                               B
                                                                                                                                                                                                                         WADAI
                                                             G




 Kano                                                                                                                               Gawa
                                                                                                                                            Sangaya         LOGONE
         NO
                                                                                                                                                                Lagon Birni
                                                                                                      GAMERGU                                                                                BAGUIRMI
     KA




                                                                                                                                                                      C ha
                                                                         Gujba




                                                                                                                                                                         ri
                                                                                                                                                                                             Massenya




                                                                                                         Yedseram
                                                                     BOLEWA                                                            Doulo
                                                                                                                         MANDARA




                                                                                                                                                             Lo g o
                                                                                              MARGI                  MAFA
                                                                                                                                                                              MUZGUN




                                                                                                                                                                  ne
                                                                                                                                                                                                                             SARA
                                                                                                                                                                                     MASSA


                                                                                                                                 ara
                                                                                                                                               GIZIGA

                                                                                                                                nd
                                                                                                         FALI
                      Principais estradas                                               BABUR                                 Ma
                                                                                                                           de
                                                                                                                                                                                                                             Em direo ao
                      Capital do Estado                                                       KILBA                                                                                                                            vale do Nilo
                                                                                                                     as


                                                                                                                                                                                         0                       60 milhas
                                                                                                                    nh




                      Pntanos e zonas inundveis
                                                                                                               nta




                                                                                                                                                                                         0                        100 km
                                                                                                             Mo




                                                                                          BATA




                                                                                                                                                                                                                                              593
figura 17.1 O Borno, o Kanem e seus vizinhos, no sculo XVIII. [Fonte: adaptao de um mapa desenhado por John F. Antwi, Departamento de Geografia,
Universidade Bayero, Kano, segundo B. M. Barkindo.]
594                                                                                frica do sculo xvi ao xviii




figura 17.2 Tecelo do Borno fabricando faixas de algodo (gabaga) que serviam para a elaborao de
roupas. [ A. von Duisburg, Im Lande des Chegbu von Borno, Berlim, D. Reimer Verlag, 1942.]



titua um dos principais produtos no quadro do comrcio interno da metrpole e
das trocas com o Mandara, o pas haussa e os osis saariano. Escravos, eunucos,
peles, marfim, perfumes, couros e ouro faziam parte das mercadorias encami-
nhadas atravs do Saara at a frica do Norte e o Egito, de onde chegavam,
em troca, cavalos, arreios, armaduras, cobre, bronze e diversos outros produtos
enviados da Europa e da frica do Norte para serem redistribudos no Borno,
assim como em outras partes do Bild al-Sdn.
    A partir do reinado de Idris, tudo indica que os sefuwa incentivaram
diferentes etnias das margens da bacia do Chade a praticarem atividades
comerciais. Vimos a situao dos tubu e dos koyam. Os kotoko e os mandara,
por sua vez, parecem ter ido at Kano44, comerciantes komboli do Baguirmi
estabeleceram-se no vale de Zamfara45, ao passo que os tubu se instalaram
em Zaria sob o kadella46.  notvel que todos esses povos eram considerados


44    Annimo, 1967, pp. 112-114.
45    P. E. Lovejoy, 1973b. Komboli  a forma kanuri da palavra baguirmi umboli significando comerciante.
46    A. Smith, 1970, pp. 88-89. No que diz respeito ao ttulo de kadella e a sua difuso no Borno e na regies
      vizinhas, ver B. M. Barkindo, 1980, p. 179.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade   595



oriundos do Borno47, do qual, sem dvida, haviam contribudo a difundir a
cultura nascente no pas haussa e outras regies. Graas a sua economia regio-
nal, ao controle exercido sobre as trocas comerciais e a sua posio de lder
do isl na regio, o Borno desempenhou um papel preponderante no Bild
al-Sdn desta poca.
    Os mai pouco intervieram nas atividades comerciais propriamente ditas,
limitando-se a garantir a segurana ao proteger as estradas dos rapinantes, tais
como os ngizim e os tuaregues, e fechar acordos com os regimes no poder
do Saara e da frica do Norte, no intuito de assegurar a livre circulao das
mercadorias entre os Estados, assim como entre as pessoas48. Os dirigentes
sefuwa preocuparam-se mais com a organizao de feiras, afim de incentivar o
afluxo de comerciantes e, naturalmente, arrecadar as taxas correlatas. Na capi-
tal e em outros grandes centros, os wasili (comerciantes da frica do Norte)
eram considerados os convidados das autoridades. Um wasiliram (bairro espe-
cial) lhes era reservado e o zanna arjindama (um dignitrio) zelava por seus
interesses49. Nas feiras, o mala kasuube controlava as operaes ao verificar
a equidade e idoneidade das mais importantes transaes. Cada profisso,
cada ramo do artesanato nomeava a sua frente um representante, reconhecido
pelas autoridades, para auxiliar o mala kasuube na administrao da feira e na
arrecadao das taxas.

     As relaes diplomticas de Idris Alawoma com os sultes da Turquia
     e do Marrocos
    A descoberta de alguns documentos chamou a ateno de vrios especialis-
tas sobre as relaes diplomticas mantidas por Idris Alawoma com os oto-
     50

manos e os saadianos. Nosso entendimento dessas relaes permanece todavia
limitado. De fato, apenas dispomos de documentos unilaterais, essencialmente
relativos s respostas feitas s cartas enviadas por Idris. A mais comum hiptese,
segundo a qual o maior objetivo de Idris consistia em conseguir armas para
conduzir suas guerras, no parece mais fundada.
    Vale lembrar que o Borno atara relaes com os otomanos desde a chegada
destes no Magreb. De aproximadamente 1549, data em que tomaram o Fezzn,


47    Annimo, 1967, pp. 112-114.
48    J. E. Lavers, 1980, p. 206.
49    M. N. Alkali, 1983, p. 72.
50    Ver por exemplo B. G. Martin, 1972, e M. A. al-Hajj, 1983.
596                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



at por volta de 1570, tais relaes apareceram cordiais. A situao mudou em
1571, quando as autoridades otomanas aumentaram repentinamente o tributo
anual do Fezzn de 1140 a 3000 mithkal de ouro51. Essa deciso autoritria
coincidiu com um perodo de fome, e uma boa parte da populao teve que
emigrar no pas haussa e no Borno. As autoridades otomanas do Fezzn obriga-
ram aqueles que haviam permanecido, dentre os quais inmeros idosos, a pagar
a diferena. Lanaram expedies contra vrias fortalezas dos osis saarianos,
sob o pretexto de prender aqueles que se subtraam ao imposto, mas tratava-se
na realidade de mera rapinagem. At os peregrinos vindos do pas haussa e do
Borno foram retidos e submetidos ao imposto, e se morressem durante a viagem,
seus bens eram confiscados52.
    Foi provavelmente durante esse perodo que Idris fez a peregrinao de
Meca, permitindo-lhe assim tomar pessoalmente conhecimento da situao.
Teria ento se dirigido ao Kawr para receber a submisso e as queixas do povo
de Jado, decerto outra vtima dos otomanos53.
    Os interesses do Borno no Fezzn54, assim como a necessidade de uma
rota segura, quer para as peregrinaes, quer para o comrcio, foram sem
dvida os motivos que levaram ao envio por Idris, por volta de 1574, de uma
embaixada de seis membros a Istambul. A estes incumbiam a entrega de
trs requerimentos precisos: a garantia da segurana das pessoas e dos bens
de todos os viajantes provenientes do Borno que atravessavam o territrio
otomano; a boa gesto ou, em caso contrrio, a cesso ao Borno de todas as
fortalezas recm-adquiridas no Sul do Fezzn, inclusive Guran; a cooperao
entre as duas potncias contra as aes dos tuaregues e de qualquer outro
povo que ameaaria a paz nesta zona. Aparentemente, no foram pedidas nem
mencionadas armas55.
    Em sua resposta datada do dia 5 de maio de 1577, o sulto Murd III
atendeu a todos esses pedidos, salvo aquele relativo a cesso da fortaleza de
Guran, para a qual todavia prometeu uma boa gesto no futuro56. Missivas foram
enviadas aos governadores gerais da Tripolitnia e do Egito, assim como ao


51    C. Orhanlu, 1969. Agradeo John Lavers por ter me fornecido a traduo em ingls deste documento.
52    Ibidem.
53    A. ibn Furtwa, 1862, p. 203.
54    Sobre os interesses do Borno no Fezzn, ver B. G. Martin, 1969; J. E. Lavers, em M. Adamu (org.), s. d.b.
55    Encontra-se uma reproduo do projeto de resposta de Murd a Idris em C. Orhanlu, 1969, e em M.
      A. al-Hajj, 1983.
56    C. Orhanlu, 1969.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade       597



administrador do distrito do Fezzn, informando-os dos requerimentos de Idris
e exigindo deles que fossem atendidos57. Em seguida, as relaes comerciais e
diplomticas entre as duas potncias prosseguiram, sob o signo do entendimento
cordial e da vantagem mtua.
    Quanto  embaixada enviada, aproximadamente em 1583, por Idris ao sulto
al-Mansr do Marrocos, talvez no tivesse como nico objetivo pedir-lhe armas,
como foi muitas vezes sustentado.
    A vitria do Marrocos em Kasr al-Kabir (Ksar al-Kbir) em 1578 foi geral-
mente saudada como uma vitria ideolgica do isl sobre a cristandade58. No
somente o Borno, como tambm as principais potncias muulmanas  Argel, os
otomanos e o Songhai  enviaram delegaes para parabenizar o sulto do Mar-
rocos59. Alm da postura diplomtica corriqueira, Idris tambm se preocupava
com os projetos de expedio conjunta dos otomanos e dos saadianos visando
os osis saariano e talvez at o Sudo60. Com um sentido agudo da diplomacia,
ele tentou aparentemente descartar essa possibilidade ao propor, em seu lugar,
uma interveno conjunta do Borno e do Marrocos na mesma regio, pouco
segura na poca. Segundo fontes marroquinas, tal embaixada levou a aceitao
dos pedidos do Borno que, em contrapartida, devia reconhecer al-Mansr como
sendo o califa da poca61.
    Ao contrrio da opinio de alguns autores, as negociaes foram provavel-
mente extremamente satisfatrias para as duas partes. No que tange ao Marro-
cos, o reconhecimento de seu califado por uma das grandes potncias do Sudo
representava uma vitria ideolgica e reforava sua posio diante do Songhai62.
Para Idris, o preo a pagar no era to elevado, j que se livrava do perigo de
uma ao conjunta  suposta ou real  do Marrocos e dos turcos contra o Borno
ou qualquer outra regio onde mantinha interesses.
    Os acontecimentos que marcaram os quinze ltimos anos do reinado de Idris
Alawoma permanecem mal conhecidos. O mai teria se empenhado para conso-
lidar suas reformas e suas inovaes no Borno. No fim de seu reinado, uma de
suas principais preocupaes foi certamente o crescimento rpido dos Estados

57   Ibidem.
58   D. Yahya, 1981, p. 105.
59   Ibidem.
60   Ibidem, p. 112. Em 1581, os otomanos propuseram ao Marrocos uma ao conjunta "para melhorar a
     situao".
61   Ibidem, p. 150-151. Yahya recomenda a prudncia no que diz respeito a aceitao, por parte de Idris, do
     pagamento do bay`a a al-Mansr.
62   Na poca, al-Mansr j pensava em invadir o Songhai, o que ele acabou fazendo em 1591.
598                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



do Mandara e do Baguirmi. No somente o Mandara desistiu de participar
das expedies conjuntas contra o Gamergu, apesar de ter se engajado nesse
sentido junto a Idris, como tambm favoreceu a criao de zonas tampes entre
suas fronteiras e o Borno. Idris foi forado a enviar ali algumas expedies, mas
sobretudo sofreu derrotas63. No Baguirmi, `Abdullh b. Lubetko (aproximada-
mente 1561-1602)  que provavelmente deveu sua ascenso ao trono  ajuda do
Borno  comeou a criar dificuldades. Idris acabara de lanar uma campanha
contra `Abdullh quando teria sido morto por um gamergu.
   Ao contrrio da opinio de alguns autores, a morte de Idris Alawoma no
acarretou a queda do Imprio do Borno. De fato, foi mais provavelmente sob o
reinado de seus quatro sucessores diretos (por volta de 1596-1677) que as con-
quistas de Idris foram consolidadas e que o aparelho administrativo do Imprio
tomou sua forma definitiva. Foi tambm nesta poca que os kanuri se afirmaram
enfim como uma etnia dotada de uma cultura prpria.

      A sociedade e a cultura kanuri
    A palavra kanuri comeou a ser empregada provavelmente no comeo do
sculo XVII64. Designava a etnia dominante do Borno, na qual se apoiaram os
mai sefuwa para assentar seu poder. Os kanuri so o produto da mestiagem
dos magumi, vindos do Knem, com autctones de lngua chadiana do Borno,
assim como da fuso de suas respectivas culturas, processo este que, como o
vimos, acelerou-se sob o impulso da poltica de Idris Alawoma. O prprio grupo
ramificou-se em vrios distintos subgrupos, os quais no cabe estudar aqui em
detalhes. A cultura kanuri formava a base da civilizao do Borno, tal como foi
difundida alm das fronteiras da metrpole graas s viagens dos kanuri, ou por
ter sido adotada por outros grupos a eles politicamente ou economicamente
submetidos ou associados, ou ainda por eles islamizados.
    A maioria dos kanuri vivia em povoados. Suas casas redondas, feitas de uma
estrutura de madeira ou de muros de barro cobertos de um telhado cnico de
sap, eram agrupadas dentro de vrios cercados, frequentemente rodeados por
sugedi (caniado). Nas aglomeraes mais importantes, casas e mesquitas eram
geralmente construdas com barro, e as habitaes dos mais ricos habitualmente
protegidas por altos muros, eles tambm de barro65.


63    B. M. Barkindo, 1980, captulo 5.
64    Apareceu pela primeira vez em um poema satrico de Muhammad al-Tahir b. Ibrhim al-Fallati (falecido
      em 1776), retomado por M. Bello, s. d.
65    A. von Duisburg, 1942, pp. 92-95.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade            599



                                                0              0,5                  milha

                                                0                  1
                                                                                                     1 Palcio
                                                                                                     2 Mesquita
                                                                                                     3 Dandal



                                CIDADE
                       3              1                                                               1
                            3   2                                                            3   2

Grande                          DO OESTE                                         CIDADE DO LESTE
Mercado
                                 NU




                                                                       ES
     N                                              Casas rurais




                                                                        TR
                               OR




                                                                           A
                                                     e fazendas
                            NG




                                                                            DA
                           RA




                                                                               PA
                                                                                 RA
                       PA




                                                                                    M
                       A
                     AD




                                                                                    AD
                                                                                        UA
                  TR




                                                                                         RI
                ES




figura 17.3 Mapa de Kukawa, capital do Borno no sculo XIX, construda segundo uma planta dobrando a
forma tradicional das cidades kanuri. [Fonte: segundo H. Barth, 1857, vol. II, pp. 50-51. Adaptao realizada
com a amvel autorizao de Longman Group UK Ltd.]



    A maioria das cidades e dos povoados kanuri seguia uma planta em forma de
U no centro da qual corria o dandal, a rua principal, orientado ao Oeste e levando
at o palcio do governador local no qual se encostava a mesquita principal.
    Em Birnin Gazargamu e algumas cidades grandes como Nguru, Mashina e
Gambaru, as habitaes eram geralmente retangulares com espessos muros de
barro e um telhado plano. Os palcios reais, notadamente aqueles de Birnin e
de Gambaru, as grandes mesquitas dessas duas cidades e as residncias dos mais
altos dignitrios, assim como aquelas do galadima de Nguru e do mashinama de
Mashina, eram cercados por impressionantes muralhas de tijolos cozidos66 que,
da segunda metade do sculo XVI at o incio do sculo XVIII, permaneceriam,
ao que tudo indica, um dos traos mais caractersticos da cultura kanuri67. O
uso de tais muros foi certamente introduzido na poca em que as conquistas e a


66   A. D. H. Bivar e P. L. Shinnie, 1960.
67   H. R. Palmer (1936, p. 253) menciona um palcio construdo com tijolos por Muhammad b. Hamdn
     (aproximadamente 1729-1744)
600                                                                                frica do sculo xvi ao xviii




figura 17.4 Muro do palcio de vero do mai em Gambaru, construdo entre 1570-1580. [Fonte: H. R.
Palmer, 1967. Com a amvel autorizao da Royal Geographical Society, Londres.]



insegurana tornaram necessria a edificao de fortificaes. Birnin Gazargamu
e todas as cidades de alguma importncia encontravam-se igualmente cercadas
por um garu (baluarte de terra) e por um belaga (trincheira) que reforavam seu
sistema de defesa.
    Os kanuri distinguiam-se por sua lngua e por sua aparncia fsica. Homens
e mulheres apresentavam marcas verticais caractersticas sobre cada bochecha.
Os cabelos das meninas eram dispostos em uma kela yasku, ao passo que os das
mulheres casadas eram penteados em jurungul (coroa)68.
    As mulheres mastigavam nozes-de-cola e tingiam seus dentes com a gorongo
ou fure (flor de tabaco)69, coloriam suas mos e seus ps com o nale (hena) e
ornavam uma de suas narinas com uma prola de coral ou um prego de metal.
Vestiam habitualmente gimaje (longos vestidos de algodo tingido), e as das
classes superiores cobriam suas cabeas com um kalaram (turbante).
    Os homens vestiam o tobe (amplas tnicas abertas de algodo cru ou tingido
de azul). Os membros das classes superiores possuam um grande nmero dessas
tnicas, fabricadas com custosos tecidos importados, e no fim do sculo XVIII,


68    D. Denham, 1826, vol. II, nota da pgina 144; G. Rohlfs, 1875, vol. II, p. 7; R. E. Ellison, 1936, p. 529;
      I. Imam, 1969, p. 514. No Borno, os arranjos dos cabelos mudaram algumas vezes de estilo, por isso se
      torna difcil determinar o estilo das pocas mais longnquas (Usman Geidam, Amina e Jakingi Mala,
      comunicao pessoal).
69    O tabaco foi introduzido no Borno no sculo XVII. Tal costume vem provavelmente dessa poca.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade   601



passaram a usar enormes turbantes incmodos, costume que teriam herdado dos
otomanos do sculo anterior70.
    Os ritos nupciais kanuri apresentavam traos culturais especficos cuja anlise
adequada traria  luz as inmeras fontes de inspirao: ritos islmicos, elementos
de cultura magumi e de diferentes culturas pr-islmicas do Borno71. O nyia
(contrato de casamento) conformava-se ao rito islmico, mas vrios outros ritu-
ais que o precediam ou o seguiam denotavam influncias mltiplas, tal como o
kalimbo barata no decorrer do qual as amigas da noiva iam  mata para cortar
os ramos espinhosos de kalimbo, usados para bater no noivo e em seu padrinho.
Vale citar tambm o kalaba, a cerimnia final do casamento que comportava
uma leitura do Alcoro e cujos alguns elementos pareciam ter retomado ritos
iniciticos pr-islmicos72.
    A sociedade kanuri era altamente hierarquizada e formada por duas gran-
des classes por sua vez divididas em subclasses: a kontuowa (classe dirigente ou
nobre) e o tala'a (os plebeus). Cada classe e subclasse diferenciava-se por sua
linguagem, seus trajes, sua moradia, seu estilo arquitetnico e sua moblia. A
posio social dependia do pertencimento a tal ou tal etnia, das atividades exer-
cidas, do nascimento, da idade e do lugar de residncia. Existiam possibilidades
de elevao na escala social, tais como o enriquecimento, as relaes mantidas
com a classe dirigente ou o exerccio de uma profisso prestigiosa73.
    Um dos mais notveis aspectos do sistema sociopoltico kanuri consiste na
importncia dessa hierarquia entre as duas classes. Em pblico, o indivduo de
classe inferior devia sempre mostrar sinais de respeito s pessoas de condio
mais elevada. Era tambm obrigado a efetuar as nona (visitas de cortesia) junto
a seu pai social que podia encarreg-lo, nesta ocasio, de qualquer misso74. Em
contrapartida, o pai social zelava a satisfao de suas necessidades bsicas e
defendia seus interesses na sociedade. Segundo Cohen, o mais precioso trunfo
de que podia dispor um kanuri no plano socioeconmico e poltico era talvez
o fato de ele ter um grande nmero de pessoas dependendo dele ou sendo-lhe
subordinado75.


70   D. Denham, 1826, vol. I, ilustrao em frente  pgina 230.
71   R. E. Ellison, 1936, pp. 531-532; I. Imam, 1969, p. 515.
72   O kalimbo barate e alguns elementos do kalaba teriam sofrido a influncia do povo sao que os magumi
     teriam encontrado quando de sua chegada no Borno e com os quais teriam se mesclado.
73   R. Cohen, 1970.
74   Idem, 1965, p. 363.
75   Ibidem, p. 364.
602                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



    Vale lembrar que o isl constitua um dos fundamentos da cultura kanuri.
Profundamente enraizado na vida quotidiana do homem comum, impregnava
tambm as tradies populares. Inmeros termos prprios do isl foram assi-
milados pelos kanuri, a ponto de perder seu sentido original. Foi assim que a
palavra kasalla que designava qualquer operao de lavagem, aplicando-se at
aos animais, derivou do termo rabe sallah que significa oraes76.
    Nesta poca, o Borno tornou-se um centro intelectual e atraa numerosos
estudantes e letrados do Bild al-Sdn, da frica do Norte e do Oriente Mdio.
Havia se especializado na prtica do tafsir (comentrio do Alcoro) redigido em
knembu77. De fato, tudo indica que o costume de escrever a lngua do Borno
em caracteres rabes se estabeleceu no sculo XVII78.
    Dois tipos de letrados coexistiam. Os primeiros ocupavam funes religiosas
oficiais: os imames, os kdi, o mainin kinendi (conselheiro religioso e jurdico
do mai), o talba (chefe da polcia e magistrado), o khazin (tesoureiro) e o wazir
eram os grandes `ulam' que ajudavam o mai a governar segundo os preceitos
islmicos. Seus cargos eram hereditrios e reservados a algumas grandes famlias
de letrados. Tudo mostra que eles eram eruditos e, em sua maioria, espritos
piedosos, porm o carter institucional de seus cargos, ao associ-los ao poder
temporal, afastou-os cada vez mais dos letrados independentes da corte que cri-
ticavam a propenso a aprovar as bid`a (inovaes religiosas) e as ada (tradies
nacionais) em funo de um mero oportunismo poltico79.
    Os mais austeros letrados viviam longe da corte e das cidades, nas malamti
(famlias de eruditos) estabelecidas em zonas rurais onde ensinavam e propa-
gavam a religio. Ao longo da histria dos sefuwa, a maioria desses letrados
gozou do apoio e da proteo dos mai que outorgaram os mahram80 a vrios
dentre eles. Tal classe de letrados contribuiu na expanso do isl nas regies
rurais da metrpole, assim como nos Estados vizinhos. Porm, foi tambm
ela que deu origem ao primeiro movimento de contestao contra o regime
dos sefuwa.
    Vale acrescentar que os mai, em sua maioria, esforaram-se para aumentar
seu poder no somente ao protegerem os `ulam', mas tambm ao mostrarem

76    S. W. Koelle, 1968, p. 114. Para obter mais detalhes, consultar J. E. Lavers,1971
77    A. D. H. Bivar e P. L. Shinnie, 1960, pp. 199-205.
78    Ibidem.
79    M. Bello, s. d.
80    Os mahram so documentos com os quais os mai outorgavam privilgios a algumas famlias de letrados
      e a alguns grupos de comerciantes, isentando-os de imposto e de servio militar. Os diferentes tipos de
      mahram so descritos em H. R. Palmer, 1936 e 1967.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade     603



sua piedade de forma ostentatria e ao tornarem-se, por sua vez, letrados. Esse
mtodo, que parecia destinado a reforar as crenas pr-islmicas atribuindo
poderes sobrenaturais81 aos dirigentes  o detentor do saber tinha a reputao
de ter acesso a foras ocultas , foi adotado por soberanos de vrios Estados
vizinhos cujo sistema religioso e poltico usava o do Borno como modelo82.

     A organizao poltica
    O mai era o chefe da casa real, o chefe supremo do Estado e o larde kangema
(proprietrio nominal do conjunto das terras). Ele simbolizava a unidade e a
continuidade do Estado. Em sua qualidade de amir al-mu`minin (comandante
dos crentes), liderava todos os muulmanos e exercia a funo de juiz supremo
para todos os litgios, quer de direito privado, quer de direito pblico83.
    Uma grande parte dos atributos sagrados dos mai da poca pr-islmica, tais
como foram brilhantemente descritos por al-Muhallabi no sculo X84, parecem
ter sobrevivido  islamizao. O mai continuava recluso, apenas aparecendo em
pblico no fanadir (gaiola), e no se podia a ele dirigir a palavra diretamente85.
Os letrados muulmanos teriam acentuado, sob vrios aspectos, a aura sagrada
do mai. Por isso o autor de Idara proclamou que Deus "escolheu alguns como
reis e aperfeioou as qualidades dos escolhidos [...]86".
    No sculo XVI, Ibn Furtwa ecoou as convices professadas por vrios
muulmanos em outras partes do mundo quando afirmou que "h de preferir
um pas onde reina um mau sulto a um pas que no tenha sulto87".
    O mai era escolhido entre os maina (prncipes) cujo pai reinara, mas a suces-
so nem sempre acontecia sem conflitos.  oposio manifestada, no interior do
pas, por outros ramos da dinastia real acrescentavam-se, no exterior, as rebelies
de Estados vassalos para os quais o interregno podia aparecer como um perodo
propcio a um levante. Por isso sempre foi necessrio nomear o novo mai nos
mais curtos prazos. Entretanto, a instituio do chiroma, criada, como vimos,



81   `Ali b. `Umar era assim considerado um homem instrudo, pio e dotado de poderes miraculosos. Realizou
     o hadjdj cinco vezes e morreu prximo do Cairo ao voltar de sua quinta peregrinao.
82   No que tange, por exemplo, ao Mandara, ver B. M. Barkindo, 1979, p. 44.
83   M. N. Alkali, 1985.
84   J. F. P. Hopkins e N. Levtzion, 1981, p. 171.
85   R. Cohen, 1970.
86   Muhammadu Yanbu, em J. F. A. Ajayi e B. Ikara, 1985.
87   A. ibn Furtwa, 1862.
604                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



nos primeiros tempos da dinastia, no parece ter funcionado corretamente88. Na
verdade, desde o mai Idris b. `Ali (aproximadamente 1677-1696), e talvez ainda
mais cedo, os mai s chegavam ao trono depois de ter eliminado os pretendentes
rivais, prtica aparentemente emprestada  cultura otomana89.
    Os outros membros da casa real  as quatro esposas oficiais do mai, cuja pri-
meira tinha o ttulo de gumsu, as concubinas, assim como os prncipes e as mairam
(princesas), aos quais se juntavam a magira (rainha me) e a magram (irm oficial do
rei)  eram submissos ao rei. A gumsu era encarregada da administrao do palcio.
A magira, por sua vez, possua a maioria dos feudos do reino e podia neles conceder
o asilo. A magram controlava habitualmente a preparao das refeies do mai.
    As esposas reais eram geralmente escolhidas nas famlias dos principais
representantes do Estado90, ao passo que as princesas eram dadas em casamento
aos grandes dignitrios religiosos e a alguns torwe (detentores de ttulos expres-
samente designados)91. Os prncipes residiam em geral fora do palcio, e suas
atividades eram estreitamente controladas. Alguns, porm, recebiam feudos. O
chiroma (herdeiro presuntivo) e o yerima (governador das provncias do Norte)
eram os mais importantes dentre eles. O yerima, por ser sempre neto de um mai
anterior, no podia pretender ao trono.
    No topo do aparelho do Estado, o majlis, habitualmente presidido pelo mai,
compunha-se das principais autoridades militares e religiosas do reino, que
teriam sido doze, ainda que esse nmero varie com as fontes. A maioria dos
conselheiros muulmanos j mencionados tambm participava do majlis, assim
como os principais chefes militares: o yerima, o kaigama e o galadima. Outras
fontes mencionam tambm a participao dos escravos influentes do mai, sendo
alguns dentre eles eunucos. A noguna (corte do mai), composta por todas as
autoridades presentes na capital, reunia-se a cada dia.
    As cidades, aldeias e comunidades tnicas encontravam-se agrupadas em
chidi (feudos), controladas por grandes dignitrios do Estado, em qualidade
de chima (feudatrio). Tinham ali a responsabilidade da ordem e da segurana
de seu domnio, assim como da arrecadao de impostos e da mobilizao de
tropas para o exrcito. Todos, exceo feita do galadima, residiam na capital e
delegavam seus poderes a seu chima gana (sub-vassalo). O mai podia confiscar,



88    Dessa forma, o chiroma do prprio Idris Alawoma, Biri, no foi seu sucessor imediato.
89    B. M. Barkindo, 1979, pp. 41-42.
90    G. C. Lethem, 1919.
91    J. C. Petterson, 1920.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade   605




figura 17.5 Recepo da misso Denham-Clapperton pelo mai do Borno, entre 1820 e 1830. [Fonte: D.
Denham, 1826.  Royal Geographical Society, Londres.]
606                                                          frica do sculo xvi ao xviii



submeter ou redistribuir os feudos a seu bel-prazer. Em nvel local, o povo tinha
seus prprios dirigentes, os mbarma ou bulala.
   Durante o perodo estudado, os sefuwa conseguiam notadamente seus
recursos atravs do zakt (esmolas), do dibalram (pedgios rodovirios), dos
kultingo (tributos), assim como dos esplios de guerra. Todas as pessoas envol-
vidas na arrecadao de impostos separavam um certo montante para eles, e
os grandes feudatrios guardavam um boa parte do valor arrecadado, enca-
minhando o resto como tributo ao mai. Todavia, esperava-se do soberano e
de seus vassalos a redistribuio da maior parte de sua renda sob a forma de
presentes para seus subordinados que, por sua vez, deviam agir da mesma
forma.

      A idade de ouro do Borno
     no sculo XVII, e no no sculo precedente, tal como o dizia a tradio, que
 preciso situar a idade de ouro do Borno. As conquistas de Idris prosseguiram
e consolidaram-se, ao passo que novas reformas eram implantadas para facilitar
a administrao de um imprio sempre mais vasto. Sob o reinado de `Umar b.
Idris (entre 1619-1639) foram institudos o galadima de Nguru e o alifa de Mao
no Knem. Eram vassalos, gozando de uma relativa autonomia, encarregados
respectivamente da administrao das extremidades ocidentais e orientais do
territrio92. Foram criados Estados tampes em Muniyo e Mashina (depois, no
sculo seguinte, em Gaskeru, Tunbi e Damagaram) nos limites do deserto, no
intuito de defender a metrpole dos ataques tuaregues93.
    Nesse perodo, `Abd al-Karim b. Jame (aproximadamente 1616-1639) que
estudara no Borno fundou o Wadai, sem dvida com o aval do Borno. Com
efeito, o surgimento desse Estado permitiu conter durante certo tempo o expan-
sionismo do Baguirmi no que era considerado um territrio borno. Da mesma
forma que outros Estados vizinhos, o Wadai encontrava-se na rbita poltica,
cultural e comercial do Borno94.
    As relaes diplomticas e comerciais com o litoral mediterrneo entra-
ram ento em uma fase particularmente dinmica. As trocas comerciais
desenvolveriam-se com uma amplitude tal que, por volta de 1636, Muhammad
Sakizli (aproximadamente 1633-1649), o pax de Trpoli, escreveu ao mai `Umar


92    A. Benisheikh, 1983, p. 41; J. E. Lavers, 1980.
93    J. E. Lavers, 1980, p. 209.
94    G. Nachtigal, 1874, p. 50.
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade        607



para propor-lhe que os dois pases partilhassem o monoplio de tal comrcio
com o sulto do Fezzn95  projeto este que, depois de alguns anos, se revelou
irrealizvel. Tambm as relaes com o Egito pareciam boas, no somente pelo
fato da existncia de trocas comerciais, como tambm em funo da situao
de tal pas na rota de Meca. Foi provavelmente nessa poca que novas culturas
provenientes da bacia mediterrnea, e em particular do Egito, tais como o milho,
o tomate e a melancia, foram introduzidas no Borno96.
    No sculo XVII, mais especificamente durante o reinado de `Ali b. `Umar
(aproximadamente 1639-1677), o Borno tornou-se a primeira potncia do Bild
al-Sdn, no somente como centro intelectual e cultural, como tambm em sua
qualidade de detentor de todas as minas de sal facilmente explorveis de Muniyo,
de Bilma e das margens do Lago Chade. Suas ligaes comerciais estreitas com
o litoral mediterrneo permitiram-lhe desempenhar um papel preponderante na
redistribuio dos produtos importados de tal regio para os Estados de Sudo
Central97. O Borno gozava, dentro de suas fronteiras, de uma prspera economia
local. Reconhecia-se ao mai o papel de chefe incontestvel dos Estados islmicos
da regio, sendo o Borno considerado o quarto sultanato do isl98. A maioria desses
Estados teria se subordinado por vontade prpria ao califa, no intuito de obter
sua baraka (beno) e sua proteo, alm dos produtos de que necessitavam. Foi o
abalo desse equilbrio que acarretou o declnio e a queda dos sefuwa.
    Os mai que se sucederam durante o fim do sculo XVII e a primeira metade
do sculo XVIII esforaram-se para preservar, aparentemente com xito, o sis-
tema herdado. O Borno da idade considerada clssica pelas tradies orais
confunde-se essencialmente com a organizao implementada pelos sefuwa, tal
como existia no sculo XVIII.


     As crises do final do sculo XVIII
   A partir do reinado de `Ali ibn Dunma (aproximadamente 1742-1792),
pode-se dizer que o Borno sofreu um perodo de crises que atingiria seu auge
com a jihad do sculo XIX.


95   D. Girard, op. cit., ms 12219.
96   Os termos usados em kanuri, assim como nas outras lnguas das margens do Lago Chade e dos Estados
     haussa, para designar o milho (masara, ou seja, egpcio) e a melancia (bambus massarabe, ou seja, melo
     do Egito) deixam poucas dvidas quanto  origem egpcia de tais culturas.
97   P. E. Lovejoy, 1978.
98   M. Ka`ti, 1913-1914, p. 65. Pelo fato do Ta'rikh ter sido remanejado em vrias ocasies, o trecho citado
     pde ter sido redigido em qualquer momento entre 1591 e 1655.
                                                                                                                                                                                               608
                                      Argel
                                                                 Tunsia                                                                                        0           250   500 milhas

                                                                                  MA R           MEDI                                                           0        400      800 km
          Fez                                 El Oued                                                     TER
                                                                       Trpoli                                 R
                                                                                                      Derna          NE
                                                                                                 Benghazi   Alexandria
                                                                                                                        O
                                               Ghadames               Bu-Njem                                                        Cairo
                                                                                  Sokna                       Jagbub
                                                                                                  Djalu
                                                                                        Zayla                            Asyut
                        .
                       In-Salah  .                                           Murzuk
                                                                                                                              .
                                                                                  .                                     Kharga
                                                          Ghat                    Gatron                                 Oasis
                                     Agably
                                                                                                             El Giof




                                                                                                                                                       M
                                                                                                                                                        A
                                                                                                                                                            R
                                                                       Yat                                              Salirna
                                                                                                                                                  lo
                                                                                                                                             Ni




                                                                                                                                                             V
                                                                                                                                                                E
                                                                                                                                        o          Sawakin
                                                                                                                                      Ri
                                                  Iferuan                     Bilma       Yeri




                                                                                                                                                                R
                                                                                                                                                                    M
                ger




                                                                                                                                                                    E
                                              In Gall
           oN
                        Gao




                                                                                                                                                                    LH
                                                            Agadz        Ege
         Ri
                                                                  Birnin




                                                                                                                                                                        O
                                                                Gazargamu
                                                Tanut         Gumel        Lago Chade                       El Fasher                              Sennar
                                                    Zinder
                                               Katsina                                    Wara     Abeche
                                                                                                                                  El Obeid
                                                   Kano               BORNO                                                                                     Lago Tana
                                                                                                 Donas
                                                                                      Massenya
                                Nikki         Bussa Zaria         Bauchi




                                                                                                                                                                                               frica do sculo xvi ao xviii
                                                        Rio Benue
                                     Sokode
                 Salaga
                          Rio V a
                               olt




                GOLFO DA GUIN


figura 17.6 Rotas das caravanas ligando, no sculo XVIII, o Borno  frica do Norte e ao vale do Nilo. [Fonte: Adaptao de um mapa estabelecido por John
F. Antwi, Departamento de geografia, Universidade Bayero, Kano, segundo B. M. Barkindo.]
O Kanem-Bornu: suas relaes com o Mediterrneo, o Baguirmi e os outros Estados da bacia do Chade   609



    No Oeste, os bedde intensificaram seus ataques nas rotas comerciais que con-
duziam ao pas haussa, ao passo que no Norte se multiplicaram as incurses dos
tuaregues de Agades, levando finalmente, por volta de 1759,  perda das impor-
tantes minas de sal de Bilma e, em seguida, ao abandono de vrias cidades nas
margens do deserto99. Tais acontecimentos precipitaram a emigrao rumo ao
Sul do grupo manga que se estabeleceu no pas haussa, nos Estados sosebaki e na
provncia de Ngazir.
    No Baguirmi, Muhammad al-Amin (aproximadamente 1751-1785) rejeitou a
suserania do Borno e deu incio a uma srie de ataques contra suas fronteiras orientais,
ao passo que, por seu lado, o Wadai liderado por Jawda (aproximadamente 1747-
-1795) prosseguia sua poltica expansionista em direo ao Bahr al Ghazal100. Esses
ataques desencadearam as migraes dos tubu, dos knembu e dos rabes shuwa no
Knem e no interior do Borno metropolitano101, grupos estes que disputaram ento
as pastagens no decorrer de conflitos exacerbados por longos perodos de fome.
    Por volta de 1781, o Mandara se revoltou, e aps vrias batalhas, derrotou
severamente as foras do Borno102. Levantaram-se em seguida os Estados sose-
baki103, e por volta de 1785, os do Gobir104.
    Diante da insegurana, da fome e da dificuldade em encontrar pastagens,
inmeros nmades fulbe abandonaram o Borno metropolitano para o pas
haussa, o Mandara e o Fombina, sem contudo encontrar em lugar nenhum a
paz e a segurana que almejavam105, o que provavelmente explica em parte o
papel preponderante por eles desempenhado na jihad.
    Os `ulam' independentes da corte e os simples muulmanos atriburam a
crise  crescente corrupo dos dirigentes sefuwa e  impotncia dos mai diante
do desenvolvimento do sincretismo entre o povo. Os `ulam' da corte foram tam-
bm censurados por terem tolerado a religio cada vez mais degenerada de seus
dirigentes. Outros letrados, tais como os karabiwa mallam, tentaram afastar-se
totalmente da sociedade que consideravam corrupta. Quando a jihad estourou,
os Estados vassalos haussa pediram ao mai o cumprimento de suas obrigaes


99   J. E. Lavers, 1980, p. 208.
100 G. Nachtigal, 1874, pp. 100-101; J. E. Lavers, 1980, p. 208.
101 Annimo, s. d.
102 B. M. Barkindo, 1980, pp. 390-391.
103 I. Landorein, 1910-1911, pp. 427 e 429.
104 A. ibn Mustaf, em particular ms 49, f. 46 e 76.
105 No que diz respeito ao pas haussa, consultar Y. B. Usman, 1981; no que tange ao Mandara, ver B. M.
    Barkindo, 1980; quanto ao Fombina, ver A. Sa`ad, 1977.
610                                                           frica do sculo xvi ao xviii



de califa e de protetor, para que os ajudasse. O fato de no t-lo conseguido e de
ter sido expulso de sua prpria capital marcou o fim da hegemonia dos mai.
    Cabe, entretanto, ressaltar que, apesar da jihad ter acarretado para os sefuwa a
perda de seus Estados vassalos e o fim de sua dominao, o sistema administrativo
e socioeconmico edificado pelos mai, mais especificamente no Borno metropo-
litano, subsistiu, ainda que modificado, bem alm do incio do sculo XX.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                    611



                                       CAPTULO 18


     Das savanas de Camares ao alto Nilo
                                         E. M'Bokolo




    Essa parte da frica correria o risco de sofrer muito ao ser comparada com
as outras regies cujos conhecimentos histricos das pocas consideradas aqui
so mais abundantes, mais coerentes e mais seguros. Essa particularidade no
decorre apenas do fato de a pesquisa ter se interessado tardiamente por essa
rea e de maneira pouco sistemtica. Isso se explica tambm pelo fato de, para
os perodos anteriores ao sculo XIX, os prprios meios da pesquisa parece-
rem ser muito limitados. Onde as organizaes polticas tomaram a forma de
Estados, estes se constituram, na maior parte dos casos, bastante tardiamente,
nos sculos XVIII e XIX. As tradies histricas orais dessas populaes, fraca-
mente hierarquizadas, tambm parecem pouco explcitas e raramente excedem
a algumas geraes, cinco a seis, no melhor dos casos. Quando elas existem,
elas se referem frequentemente  histria individual dessa ou daquela linhagem
e provocam, alm dos difceis problemas habituais de interpretao, o de sua
articulao e o de sua integrao a uma viso global da evoluo do conjunto
da regio. Qualquer sntese fundamentada nesse primeiro tipo de fontes  ento
necessariamente provisria. Mas as outras fontes tampouco so abundantes.
Alguns relatos de viagem existem a partir do sculo XVI sobre as reas mais
frequentadas pelos estrangeiros, tal como a costa atlntica, relativamente bem
descrita, enquanto faltam no que diz respeito  margem setentrional prxima
ao mundo muulmano, explorada de fato por viajantes muulmanos apenas no
612                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



sculo XIX. Enfim, as pesquisas da arqueologia, da lingustica histrica e da
etnolingustica esto apenas no incio.
    Alm do mais, no existe elemento algum ligando entre si as diferentes partes
dessa regio. A floresta  certamente o elemento fsico preponderante, principal-
mente porque, do sculo XVI ao XVIII, ela devia cobrir uma maior superfcie do
que hoje, porm a savana j dominava amplamente a regio h muito tempo. A
fraca densidade populacional parece constituir um outro trao comum, contudo,
ontem como hoje, ela no teria como mascarar a existncia de alguns ncleos de
densidade relativamente elevada, particularmente na savana e ao longo dos cursos
de gua. Quanto aos diferentes povos, suas lnguas, seus modos de vida e suas
formas de organizao so muito heterogneos. Essas diversidades e as inevitveis
desigualdades no conhecimento levam a privilegiar a abordagem por regies.


      A margem setentrional
    A parte setentrional dessa regio, dos planaltos do Camares Central, a
Oeste, at o Nilo, a Leste,  a rea da qual mais faltam conhecimentos histri-
cos.  significativo, por exemplo, as melhores cronologias das quais dispomos
atualmente proporem muito poucos fatos alm de 18001. Antes do incio do
sculo XIX, o historiador se encontra, segundo a bela frmula de E. M. Chil-
ver, "no domnio da conjectura razovel", com essas conjecturas s podendo ser
formuladas no interior de quadros geogrficos relativamente restritos. Com
efeito, a tendncia tomada pelos trabalhos etnolgicos e histricos de se fechar
a princpio nos quadros muito estreitos das etnias, e mais recentemente, nos dos
Estados contemporneos, torna mais difcil e muito aleatria toda sntese ao
nvel da rea. Parece ento, mais razovel tentar definir microreas apresentando
uma relativa homogeneidade cultural ou, na pior das hipteses, uma relativa
comunidade de destino no perodo que nos interessa.

      Os planaltos do Camares Central
   Essas pradarias relativamente frteis tiveram provavelmente um povoamento
muito antigo, em todo caso anterior aos movimentos de populao cujas conse-
quncias so ainda visveis e que remontam aos sculos XVI e XVII2. Ao menos


1     Ver, por exemplo, P. Kalck, 1980; E. M. Chilver, 1981.
2     C. Tardits, 1981, p. 14 e 459-484; T. Eyongetah e R. Brain, 1974, p. 34.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                         613



dois indcios testemunham essa antiguidade. Em primeiro lugar, a vegetao,
composta hoje de savana arborizada, era outrora uma floresta densa. Contudo,
essa modificao ecolgica, cuja cronologia no  estabelecida e cujos meca-
nismos parecem muito complexos, poderia tanto ser atribuda  ao lenta e
progressiva de comunidades humanas compactas quanto  ao, brutal, de uma
populao pouco numerosa de imigrantes, ou at mesmo a influncias climti-
cas. O outro indcio  constitudo pela presena de numerosas ferramentas de
pedra atestando uma ocupao humana duradoura anteriormente  difuso da
metalurgia do ferro, que teria ocorrido nesta rea provavelmente na segunda
metade do primeiro milnio. Continua entretanto impossvel identificar esses
antigos habitantes. Trataria-se de caadores pigmeus dos quais subsistem alguns
descendentes nas margens do Mbam? Estaramos lidando com povos falan-
tes das lnguas protobantas ainda no dominantes da metalurgia? Tampouco
poderamos descartar a hiptese de movimentos e misturas antigas de povos
bastante diferentes.
    Os fatos comeam a se apurar apenas a partir do sculo XVI. Os movimentos
de populao aos quais se referem s tradies mobilizaram massas de homens
muito heterogneas: grupos de parentes ou aliados, comunidades compactas
e imponentes, mas tambm indivduos isolados. Tudo parece indicar que os
migrantes eram pouco numerosos: se conseguiram dominar politicamente os
povos encontrados no local (demonstrao de superioridade tcnica), abando-
naram sistematicamente sua lngua de origem para adotar a do pas de chegada.
No se exclui que um mesmo fenmeno tenha ocorrido com as instituies
polticas. As tradies revelam igualmente as inmeras razes desses movimen-
tos: querelas internas; busca de minrio de ferro e de madeira para trabalh-la;
procura de novas terras, provocada talvez pela introduo do milho ou o impulso
da cultura da palmeira de leo; comrcio do sal e presso de invasores do Norte.
O fator nortista, particularmente as incurses de invasores fulbe, bem conhecido
no sculo XIX, comeou a ocorrer mais cedo, desde meados do sculo XVIII,
talvez mesmo antes: o clebre livro preparado sob a demanda e o controle de
Njoya, rei do Bamum, Histrias e costumes dos Bamum, refere-se a invasores a
cavalo numa poca correspondente ao sculo XVIII. Alm disso, a lngua mbum
falada nos planaltos do Camares Central comporta, em seu vocabulrio e em
sua sintaxe, numerosos emprstimos do fulbe (variante do adamaua). Tudo
indica que os fulbe empurraram os mbum para o Sul, provocando consequen-
temente a migrao dos beti e dos fang.
    Essa incessante oscilao, mantida durante vrios sculos, acompanhada de
constantes misturas e de emprstimos em todos os sentidos, foi um dos prin-
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cipais fatores a dar conta de uma notvel homogeneidade da populao do
Camares Central3. Todos os seus povos componentes falam lnguas bantoi-
des ou semibantas. As instituies polticas e sociais apresentam numerosas
semelhanas: as comunidades so organizadas em chefias, s vezes em reinos,
nos quais o chefe goza de um poder sagrado e dirige um corpo mais ou menos
considervel de funcionrios, com a ajuda de uma princesa de alto escalo (a
rainha me ou a irm do rei) e a metade masculina da sociedade se divide entre
as numerosas associaes  sociedades secretas e/ou grupos militares  tendo
funes rituais ou de manuteno da ordem. As tcnicas so frequentemente
comparveis, principalmente na metalurgia do ferro e do cobre. Em todas essas
sociedades, o forjador deteria, alm de sua habilidade, poderes mgicos e figura
em boa posio nas narrativas mitolgicas e nas tradies histricas. Essa homo-
geneidade, bem estabelecida por volta de 1800, constitura-se progressivamente
no decorrer dos sculos anteriores.
    Dentre esses mltiplos povos, trs merecem receber uma ateno particu-
lar. O primeiro  o dos tikar, cuja importncia se destaca pelo fato de vrios
outros povos dos planaltos camaroneses acreditarem ser seus descendentes ou
haver sofrido fortes influncias deles4. Esses tikar teriam tido por ancestral um
comerciante oriundo do Borno, tendo se estabelecido e fincado razes entre os
mbum. As diferentes tradies dos tikar fixam seu ponto de partida no Nor-
deste de Camares (Tibati, Bnio, Kimi, Ndobo). O termo tikar era no incio
o apelido do primeiro grupo dos mbum a trocar seu pas pela regio dos pla-
naltos: ele acabou por ser aplicado a todos os mbum imigrados e aos povos
conquistados por eles. O essencial dessa grande migrao situar-se-ia no sculo
XVII e teria sido provocado por presses fulbe, cismas internos e a busca de
novas terras. Ao chegar na regio de Bamenda, os tikar encontraram os tumu,
acabando por domin-los aps se aliarem a eles. Mas, em contraparte da vitria,
adotaram a lngua dos vencidos e suas instituies, particularmente os ttulos
polticos e as sociedades secretas. Vrios grupos dentre os vencidos, por sua vez,
preferiram emigrar rumo ao Oeste e ao Noroeste. Os tikar fundaram vrios
Estados, notadamente o reino de Nso, cujas caractersticas se transmitiriam s
outras monarquias da regio: realeza sagrada; culto dos reis defuntos; hierarquia
poltico-social rgida; deteno exclusiva de determinados ttulos ou funes
pelos prncipes e princesas; existncia de uma importante nobreza palaciana;
organizao, no nvel de cada vila, de sociedades secretas masculinas.

3     T. Eyongetah e R. Brain, 1974, p. 36-38; M. McCulloch e al., 1954, p. 11 e seguintes.
4     C. Tardits, 1980, p. 80-89; T. Eyongetah e R. Brain, 1974, p. 38-41.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                            615



    A fundao do Reino bamum resulta de um grupo de emigrantes aparenta-
dos  dinastia real dos tikar de Nso5. A cronologia precisa desses eventos  de
difcil reconstituio. Notemos apenas que em Histria e costumes dos bamum,
enumeram-se dez reis desde o fundador Ntchare at Kuotu, cujo reinado pre-
cedeu imediatamente ao de Mbuembue, datando da primeira metade do sculo
XIX. Ntchare foi, de acordo com algumas tradies, expulso de Rifum e, de
acordo com outras, emigrou voluntariamente com vrios companheiros para
ir se instalar onde vivem atualmente os bamum. Foi no incio um conquista-
dor que esmagou cerca de dezoito soberanos de cujos povos, alguns fugiram,
enquanto outros se aliaram a Ntchare. Os bamum devem a ele a fundao de
sua capital, Fumban, na poca chamada Mfomben (de fom, runas, e mben, os
antigos moradores vencidos). Ntchare se encarregou tambm de dotar o reino
de instituies polticas inspiradas, em sua maioria, nas dos tikar: ele criou um
importante grupo de dignitrios, dentre os quais os kom ngu (conselheiros do
reino) com os quais ele partilhou as terras ento disponveis; ele formou duas
sociedades secretas das quais uma, o ngiri, reunia apenas os prncipes, e outra,
o mitngu, era aberta ao resto da populao sem distino de nvel social (des-
cendentes dos povos conquistados, grandes servidores do Estado, conselheiros
do reino etc.). Contudo, os bamum abandonaram o tikar para adotar a lngua
dos vencidos, o mben. Os nove reis sucessores de Ntchare foram muito pouco
valorizados pela tradio codificada dos bamum, dizendo de cada um deles
que "viveu muito tempo sem nada fazer, vivendo dos que as mos de Ntchare
fizeram". De fato, no foram conquistadores: a expanso territorial comearia
apenas no incio do sculo XIX, sob o reinado de Mbuembue. O reino at
mesmo sofreu, alm das cises internas, a sria ameaa de invasores vindos do
Norte (chamba e fulbe), principalmente no sculo XVIII. Contudo, esse perodo
foi marcado por uma evoluo significativa. A forte extenso da poligamia real
contribuiu para a multiplicao das linhagens principescas (sessenta e uma no
fim do sculo XVIII). A nobreza palaciana tambm cresceu sensivelmente (vinte
e sete linhagens de grandes servidores formadas nessa poca); o rei recrutava
seus servidores preferencialmente entre os gmeos e os filhos de princesas. A
evoluo material e social permanece pouco conhecida. No fim do sculo XVIII,
o reino comportava talvez de 10.000 a 12.000 habitantes, dentre os quais os
escravos  reduzidos a essa condio por infraes ou dvidas  eram pouco
numerosos. A economia, essencialmente agrcola, era aberta a trocas externas,


5    Essa histria foi completamente revista por C. Tardits, 1981, p. 83-126.
616                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



visto que os Bamum importavam, desde muito cedo, sal, ferro, prolas, peas de
algodo e objetos em cobre.
    Quanto aos bamileke, sua histria antiga  muito estreitamente ligada  dos
dois grupos precedentes6. O termo em si, cuja origem e significado sempre so
discutidos, foi incorretamente aplicado a vrios grupos (uma centena de che-
fias) compartilhando certamente uma cultura comum, mas no se qualificando
eles prprios de bamileke. Todos vinham do Norte, da regio hoje ocupada
pelos tikar. Sua migrao rumo ao Sul teria comeado no sculo XVII e deve-
ria ser colocada em relao aos movimentos de populao tikar e as presses
fulbe. Constante na poca e tendo ocorrido em vrias ondas sucessivas, ela foi a
razo de vrias categorias da populao. Esses migrantes ocuparam o atual pas
bamum, onde eles tiveram o tempo de fundar vrias vilas antes de serem, em sua
maior parte, expulsos pelos bamum e estes assimilaram os que ficaram. Dentre
os diferentes grupos bamileke, os baleng foram os primeiros a atravessar o Num,
sem dvida no incio do sculo XVIII, seguidos logo depois pelos bandeng,
os bapi e os bafussam. O estabelecimento desses grupos em seu habitat atual
continuaria at o sculo XIX. As diferentes chefias apresentavam traos comuns
com as sociedades polticas dos planaltos camaroneses (existncia de um chefe,
importncia dos conselhos, papel das associaes). Distinguiam-se delas de um
lado, por sua enorme independncia de umas para com as outras bem como pela
existncia de numerosas subchefias relativamente autnomas e, de outro lado,
pela enorme mobilidade de seus habitantes, aparentemente antiga, parecendo
ter sido ligada a um crescimento demogrfico bom o bastante e ao sistema de
heranas que transferia a totalidade dos bens a um nico herdeiro, obrigando os
outros filhos a obter uma terra da parte do chefe ou ir se estabelecer alhures.

      As regies do Uele e do Ubangui
   Olhando de perto as hipteses e as concluses presentes, provamos do sen-
timento persistente de o conhecimento das regies do Uele e do Ubangui, ao
menos nos perodos anteriores ao sculo XIX, no ter progredido desde os
trabalhos dos primeiros antroplogos, particularmente os de Hutereaux, de
Calonne-Beaufaict e Lagae7. Entre os pesquisadores contemporneos, voltam
constantemente as mesmas expresses traduzindo o carter muito aproximativo
tanto dos conhecimentos ("verossimilhanas", "cincia conjetural", "concluses


6     T. Eyongetah e R. Brain, 1974, p. 43-46; C. Tardits, 1981.
7     A. de Calonne-Beaufaict, 1921; A. Hutereaux, 1922; C. R. Lagae, 1926.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                                                     617



provisrias") quanto da extrema complexidade dos fenmenos estudados ("con-
fuso", "miscelnea de raas", "quebra-cabeas").
    A questo mais rdua  indiscutivelmente a do povoamento dessas regies.
Apesar das divergncias menores, relativas aos qualificativos mais adequados
para designar os grupos humanos, todos os trabalhos concordam em reconhecer
trs tipos de povoamento: as populaes neolticas, os bantos e os sudaneses. As
principais dificuldades aparecem quando se quer compreender rigorosamente as
peripcias e as modalidades do povoamento, bem como o contedo e as formas
sucessivas das relaes entre esses diferentes povos.
    Tradicionalmente, mais por comodidade do que por escolha, distinguiam-
-se dois subconjuntos, o do Ubangui e o do Uele8. A regio do Ubangui, hoje
povoada essencialmente por sudaneses  os banda, os ngbaka e os ngbandi,
falantes das lnguas da famlia do adamaua oriental  teria sido ocupado at o
sculo XVII por bantos que tomaram eles mesmos sua posse s custas de popu-
laes pouco conhecidas das quais restam hoje apenas ferramentas neolticas.
Esses bantos no so de forma alguma mais conhecidos na medida em que a
maioria dentre eles se aculturaram com os sudaneses. Estes teriam comeado a
se introduzir na regio no sculo XVII ou no incio do XVIII, procedendo do
Darfur e do Cordofo, primeiramente com os que formariam o grupo ngbandi,
seguidos pelos banda e os ngbaka. A sucesso de povoamentos na regio do
Uele, hoje dominada pelos povos zande e "zandeizados" e pelos mangbetu,
parece sensivelmente diferente. At o sculo XVI, e at mesmo no incio do
sculo XVII, as bacias do Uele, do Mbomu e do Aruwimi teriam sido ocupadas
por comunidades neolticas cujos sobreviventes atuais seriam os momvu, os
logo e os makere. Esses habitantes, de tamanho pequeno, usariam ferramentas
de madeira, osso e, principalmente, de pedra polida (machados, ms, pedras de
funda). Nesse cenrio vieram se instalar dois grupos de populaes tradicional-
mente representados como invasores. Essas migraes originais aconteceram
do sculo XVI ao XVIII. Houve, de um lado, os sudaneses a partir dos quais se
constituiriam os povos mangbeto, ngbandi e zande: um primeiro movimento
levou-os no sentido Norte-Sul at o Ubangui e ao Mbomu e, da, seguiram no
sentido Oeste-Leste. O sculo XVII viu, por outro lado, a chegada dos bantos,
vindos do Sul e subindo os cursos de gua. Os grupamentos tnicos-polticos
se formaram nessa poca (do sculo XVII ao incio do XVIII).




8    J. Vansina, 1966b, p. 27-52; A. de Calonne-Beau-Faict, 1921, p. 135-149 ; E. de Dampierre, 1968, p. 156.
618                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




figura 18.1 Cabea em tufo vulcnico, Uele, data desconhecida [Museu Rietberg, Zurique.  Foto: Wet-
tstein e Kauf (Coleo Von der Heydt)].
                                                                                                                                                                                                                                                                             Das savanas de Camares ao alto Nilo
   Panorama dos movimentos migratrios presumidos na frica central                                                                                                     Distribuio da populao nos sculos XVII e XVIII
                                                                                                                                                NILOTES                                                                                             SUDO

                                                CHADE                                                        SUDO                                                                CHADE
                                                                                                                                                                                                                                          SERE
  CAMARES                                                                                                                   L ol                                                                           BANDA




                                                                                                                                                                                                                                                               Rio
                                                                                                                                                                  CAMARES
                                                                                                                                                         l
                                                                                                                                                    za
     UB ANG U                                                                                                                                           ha




                                                                                                                                                                                                                                                                Nil
                   I - an t                                                                                                             B ahr a l - G




                                                                                                                                                                                                                                                                 o br
                              es da                                                                               NGBAKA-SERE-             .                                         REPBLICA CENTRO-AFRICANA
                                      e ra
                                             c r is t
                                                                                                                                                                                  GBAYA-




                                                                                                                                                                                                                                                                     an co
                                                        
                                                                                                                   NGBANDI                                                        MANGA




                                                                                                                                              Rio
                                                                  REPBLICA                                                                                                                                              ZANDE-NZAKARA




                                                                                                                                                Nil
                                  GBAYA-                                                                                                                                                                                                            GBANZILI




                                                                                                                                                  ob
                                  MANGA                      CENTRO-AFRICANA                                                                                                                           NGBANDI                                      DO LESTE




                                                                                                                                                    ra n
     M                                GM                                                                 B
                                                                                      BANDA                                                                                                                             Ri o




                                                                                                                                                         co
                                                                G BA                                                                   ZN                                                                                                     Lago Alberto
                                                                       NZ B                                                                                  ZN                                                                Co




                                                                                                                                                                                         a ng ui
                                       Sc. XVIIXIX                                                                            ZANDE-                                                                                              ng
                                                                Ri o     IL I                                                                                                                                                            o BANTU
                                                                       Ou                     R io Mbomou                       NZAKARA
                                                                                                                                                                             CONGO                              UGANDA




                                                                                                                                                                                     Oub
                                                                            ba
        NGBAKA                                                                   ng
                                                                  GM B ui                         R io




                                                                                                                                                                                     io
                                                                                                         Ue l e                                                                      R
                                                            B                                                                                                                                GBANZILI
                                                 MO




        R io Sa      BOMASA                                                      N G B A N DI                                                                                                DO OESTE                          Fronteiras dos Estados atuais
                  ng a                                                                                   ABA               AMADI
                                                                             on go                                            Lago Alberto
                                                                 Ri o C                                                                                                 Distribuio da populao nos sculos XVIII e XIX
  BANTU
                                                                    REPPLICA
                                                               DEMOCRTICA DO                                                                                                                                                                        SUDO
        CONGO                                                Sc. XVI CONGO                                                                      UGANDA
                                                            Lagos                                                           Lago Eduardo                                          CHADE                                                      SERE




                                                                                                                                                                  CAMARES
                                                                                                                                                                                                            BANDA
                                       BANTU
                                                                                                                                                                                                           REPBLICA
                                                                                                                                                                                  GBAYA-                CENTRO-AFRICANA
                                                        Migrao at  1000 da era crist                                                                                         MANGA
                                                                       Oubangui
                                                                                                                                                                                                                         ZANDE-NZAKARA
                                                                                                                                                                                                   2                                                GBANZILI
                                                                                                                                    1 Ngbaka, Bomasa                                                        4       3                               DO LESTE
   Grupos tnicos                                       Migrao depois de  1000 da era crist
                                                                                                                                    2 Ngbaka-Monzomba                                                   3
                                                                 Oubangui                    Nilote
   B      Banda                                                                                                                     3 Ngbandi
   GM     Gbaya-Manga                                                                                                                                                                                                                      BANTU
                                                                  Ngbandi e                                        Bantu                                                      1   BANTU
   MO     Monzomba                                                                                                                  4 Gbaya-Manga-Ngbaka                                                  REPBLICA
                                                                  sub-grupos                                                                                                      CONGO                  DEMOCRTICA
   N      Ngbaka                                                  gbanzili-sere
   ZN     Zande-Nzakara                                                                                                                                                                                   DO CONGO
                                                                  Fronteiras dos Estados atuais                                                                                                                     Fronteiras dos Estados atuais




                                                                                                                                                                                                                                                                             619
figura 18.2          Migraes de populao nas regies do Uele e do Ubangui [Fonte: de acordo com L. Bouquiaux e L. Hyman, 1980, p. 811 e 821].
620                                                         frica do sculo xvi ao xviii



   Outros pesquisadores propuseram uma sntese cobrindo o conjunto das
regies do Ubangui e do Uele9. Sua argumentao apoia-se essencialmente em
dados lingusticos e etnolingusticos, e distingue trs grandes fases de povoa-
mento. Teria havido, inicialmente, no decorrer do primeiro milnio a.C., um
movimento de grande amplitude, orientado de Oeste a Leste e levando os
protoubanguianos at o Nilo: os gbaya-manga estabeleceram-se a Oeste, os
banda no centro, os ngbaka-sere-ngbandi no tringulo formado pelo Bahr al
Ghazal e o Nilo branco e os zande-nzakara no Sul entre o Uele e o Nilo. Essas
populaes encontravam-se ainda nessa distribuio por volta do ano 1000 d.C.
quando se produziu um impulso niltico vindo do Norte que teve a princpio
por efeito o desmembramento do grupo ngbaka-sere-ngbandi e o deslocamento
de vrios de seus elementos para o Sul, notadamente os ngbandi no interflvio
Ubangui-Zaire, onde eles encontraram os pigmeus e os bantos. Essa investida
niltica , repeliu os zande-nzakara tambm para o Oeste, nas regies irrigadas
pelo Uele e o Mbomu. A terceira fase de povoamento, comeado no sculo
XVIII, corresponde ao empurro dos bantos, vindos do Sul, fugindo dos efeitos
do comrcio negreiro.
   Essa sntese  sedutora, ainda que levante duas ressalvas fundamentais. Por
um lado, parece difcil falar de migraes, se essa noo tiver de corresponder a
grandes massas de populao em movimento: nos casos mais bem conhecidos,
o dos zande e dos mangbetos, os processos em ao so mais de ordem poltica
do que demogrfica, visto que os invasores representavam uma elite, notoria-
mente organizada nos planos tcnico e poltico, contentando-se em agrupar as
populaes locais em chefias e em reinos. Por outro lado, seria falacioso sugerir
que os Estados e os grupos tnicos, cuja histria conhecemos no sculo XIX,
tenham desde sempre existido. Ora, todas as tradies, particularmente as gene-
alogias dos cls maiores, mostram que foi somente no decorrer do sculo XVII
que "conglomerados de povos" (de acordo com E. de Dampierre) se formaram
a partir de diferentes ondas de migraes: os nzakara, de lngua aparentada ao
zande, os baza de lngua ngbandi e os mbomu de lngua zande. Na mesma poca,
alguns cls comearam a emergir: os vu-kpata entre os nzakara, os bandia entre
os bangbandi (singular: mongbandi), os bakunde e os vungara entre os mbomu.
Os desenvolvimentos posteriores, datando provavelmente do sculo VXIII,
permitiram a dois cls, os vungara e os bandia, de se imporem s custas dos
outros. Instalados a princpio no Shinko, um dos afluentes do Mbomu, os vun-


9     L. Bouquiaux e L. Hyamn, 1980.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                                         621



gara fizeram-se reconhecer como os nicos chefes dos mbomu, eliminando os
bakunde. Comeou ento sua longa migrao para o Leste e o Sul, que duraria
at o fim do sculo XIX e no decorrer da qual eles venceriam, se subordinariam,
assimilariam ou se aliariam aos povos mais heterogneos. Foi principalmente
sua habilidade em organizar politicamente essas populaes que constituiu o
cimento da sociedade zande: esta se assemelhava, mais na poca do que hoje,
com "um extraordinrio quebra-cabea de cls e de linhagens desenraizadas"
(de acordo com E. de Dampierre) ligados por sua comum lealdade  aristocra-
cia dirigente dos vungara. Quanto aos bandia, seu ponto de partida foi o alto
Ubangui, na parte inferior dos confluentes do Mbomu e do Uele. Sua expanso
teve um forte momento no sculo XVIII graas a Ngubenge que conquistou o
pas nzakara e contribuiu para empurrar os vungara para o Leste10.
    A civilizao material desses povos  pouco conhecida. As informaes bas-
tante numerosas disponveis sobre o sculo XIX s podem ser aplicadas com
muita cautela aos sculos anteriores11. Parece contudo provvel as aristocracias
conquistadoras terem praticado a caa de longa data e de forma eficiente. Entre
os zande, foi uma atividade nobre: ainda que eles tenham adquirido suas per-
cias de agricultores junto s populaes conquistadas seja l qual tenha sido o
interesse de seus prncipes na agricultura, os trabalhos no campo permaneceram
o apangio das mulheres, subordinados e escravos. O trabalho do ferro era man-
tido em alta estima e, em alguns grupos, como o dos ngbandi, os forjadores se
reuniam no seio de associaes profissionais muito fechadas. A importante rede
fluvial formada pelo Ubangui, o Uele e o Mbomu, o Aruwimi e seus mltiplos
afluentes esteve na base de um comrcio ativo: as feiras regulares aconteciam
a cada cinco ou sete dias e trocavam-se a principalmente produtos artesa-
nais (facas e lanas de ferro), vveres e animais (peixes, cabras, ces) bem como
escravos. Esse comrcio receberia um espetacular impulso na medida em que as
trocas realizadas pelos europeus na costa do Atlntico provocavam efeitos cada
vez mais longe, rumo ao interior das terras.


     As sociedades costeiras e o comrcio transatlntico
   Os sculos XVI, XVII e XVIII correspondem, para os pases florestais da
frica Central,  implementao e ao desenvolvimento numa grande escala


10   E. de Dampierre, 1968, p. 156-173; E. E. Evans-Pritchard, 1971, p. 267-278 e 414-435.
11   Alm dos autores anteriormente citados, ver P. Denis, 1961, p. 7-20.
622                                                          frica do sculo xvi ao xviii



do comrcio costeiro, restringindo-se muito cedo ao trfico negreiro. A faixa
costeira, que testemunhou todas as formas de reviravolta suscitadas por essas
trocas de um tipo novo, constituiu apenas o ltimo elo de uma cadeia comercial
que avanou cada vez mais longe no interior do continente. Assim, no fim do
sculo XVIII, essa cadeia chegava at o alto Mungo, nos grasslands (terras ricas)
do Camares, no alto Ogw e ganhava, pelo rio Congo (Zaire), o Ubangui.

      Os povos
   O estado da populao e das sociedades na rea costeira no incio do sculo
XVI permanece pouco conhecido e continua alimentando controvrsias entre
os especialistas.  provvel que, por situar-se imediatamente ao Sul do ponto de
partida original da disperso dos povos bantfonos e a meio caminho entre os
dois centros de ecloso de sistemas estatais, tais como a costa da Guin e o reino
do Congo, essa regio tenha passado por uma evoluo complexa tanto em seu
povoamento quanto em sua organizao poltica, social e cultural cujas maiores
fases permanecem obscuras. Assim, por exemplo, as tradies relativas s origens
e migraes se revelam bem poucas: para as populaes Douala e aparentadas,
s  possvel retraar as rotas precisas das migraes a partir do vale do Sanaga;
para os mpongwe do Gabo, bem como para os mitsongo e os okanda, o nico
ponto de partida identificado  o alto Ivindo. Os escritos dos navegadores e dos
comerciantes europeus no trazem maiores detalhes. Provenientes de homens
preocupados com a utilidade e a rentabilidade dos pases frequentados por eles,
esses textos nomeiam lugares , descrevem recursos, indicam os modos de povo-
amento, mas no detalham a identidade dos grupos humanos. Eles mostram
contudo que o conjunto da regio era ocupado, mesmo no sabendo ainda por
quem. Assim, segundo o Esmeraldo de Situ Orbis, escrito por volta de 1505 por
D. Pacheco Pereira, "todo o litoral, desde (a) Serra de Fernam do Poo at o
cabo de Lopo Gonalves, possui uma densa populao. [...] Esse pas fica muito
perto do Equador, que os antigos declararam como inabitvel, mas a experi-
ncia mostrou o contrrio12". A Relao do Reino do Congo e dos pases vizinhos,
publicada em Roma em 1591, confirma esse antigo povoamento: "A ilha de So
Toms mantm um comrcio com as pessoas que moram no continente, as quais
comumente se renem nas fozes de seus rios13."



12    D. P. Pereira, 1937.
13    F. de Pigafetta, 1591.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                                             623




figura 18.3 Vista de face e vis de uma estatueta real kuba, sentada diante de uma prancha de mscara
[British Museum, Londres. Reproduzido com a amvel autorizao de The Trustees].
624                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



    Quem eram essas pessoas? Para a prpria costa, dispomos de dois tipos de
fontes complementares. As relaes de viagem e, particularmente, a Descrio da
frica, de O. Dapper, contendo uma lista dos nmeros usados pela populao
da costa, permitem afirmar que, por volta de 1660, esta era indiscutivelmente
de lngua banta14. Essas mesmas fontes escritas permitem datar o reinado de
vrios soberanos citados nas tradies orais. Assim, o apogeu do reinado de
Mulobe, terceiro rei histrico dos Douala, pode ser situado por volta de 1650:
essa preciso autoriza a empurrar para o sculo XVI os feitos e gestos de seu av
Mbedi e alm do sculo XVI os do legendrio Mbongo, aos quais se referem os
Douala e os povos aparentados15.
    Se podemos ento admitir um povoamento banto da costa desde o incio do
sculo XVI, estamos ainda reduzidos a conjecturas para as regies vizinhas do
interior. Assim, para a regio de Minlaaba e o pas Beti, pudemos estabelecer,
sem indicao cronolgica, seis nveis de povoamento dos quais o mais antigo
seria constitudo pelos pigmeus, seguidos pelos caadores-coletores, como os
ola, depois por diferentes grupos bantos  maka, muumbo, beti, basa  cujas
migraes se prolongaram at o sculo XIX16. Mais ao Sul, no atual Gabo, o
quadro  muito mais preciso. No fim do sculo XV, os portugueses encontraram,
na regio do esturio, populaes mpongwe que haviam chegado  costa numa
data desconhecida e encontraram a os pigmeus. Ao redor desses mpongwe
talvez j vivessem os akele e os seke. Os territrios do baixo Ogw (cabo Lopez
e laguna Fernn Vaz) no comportavam ainda populaes bantas cujo estabeleci-
mento na regio foi posterior ao desenvolvimento do comrcio com os europeus:
o povoamento era a sem dvida dominantemente negroide. O nico Estado
organizado se encontrava no esturio do Gabo. De acordo com a descrio
tardia dela deixada por Dapper no sculo XVII, o rei portava o ttulo de mani
pongo: a palavra mani, de origem congo, pode sugerir uma influncia direta ou
indireta do modelo poltico do Reino do Congo, a menos que ele fosse aplicado
por comodidade a essa monarquia pelos comerciantes europeus habituados ao
Congo17. No extremo Sul, o Reino do Loango estava bem estabelecido por volta
de 1500, visto que todos os relatos de navegao do incio do sculo XVI se refe-
rem nominalmente ao Mani Loango e a Mbanza Loango. As nicas incertezas,
difceis de remover, concernem a sua fundao e sua extenso. Algumas tradies


14    O. Dapper, 1668.
15    E. Ardener, 1956 e 1968; Mdoumbe-Moulongo, 1968; H. Ngoa, 1969.
16    P. Laburthe-Tolra, 1977, p. 77-413.
17    J. A. Avaro, 1981, p. 23-30 e 39-59; E. Mbokolo, 1981, p. 11-28; K. D. Patterson, 1975, p. 1-25.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                            625



fazem do Loango um Estado derivado do reino do Congo, cujo fundador teria
sido um parente do primeiro rei do Loango. De acordo com outras tradies, a
fundao do Reino de Loango decorreu de processos internos da sociedade vili.
 possvel que o Loango tenha mantido relaes estreitas com o Congo, talvez
de vassalagem, at por volta do fim do sculo XV. Quanto a sua extenso, o
Loango fez sentir sua influncia, de uma maneira geralmente descontnua, at
o cabo Santa Catarina e, talvez, at o cabo Lopez. Como em muitos Estados
da frica Central, o rei tinha principalmente funes rituais. Fundada por uma
famlia de ferreiros, a instituio da realeza era ligada ao culto do fogo: em sua
coroao, cada maloango acendia o ntufia (fogo sagrado) que devia queimar at
sua morte; vrios castiais acesos nesse fogo eram transportados religiosamente
para as capitais de provncia e, de l, para os lares das linhagens. Um outro ritual
importante pelo qual o rei era responsvel diz respeito  chuva. Todo ano, no
incio da estao das chuvas, um grande festival acontecia na capital. O povo,
aps ter agradecido ao rei por sua proteo, suplicava-lhe para fazer chover. Uma
vez as festividades terminadas, o rei, erguido em seu trono, atirava uma flecha
para o cu e, relata um testemunho, "havia neste dia um grande regozijo, porque
frequentemente chovia". O mais notvel nessa sociedade era sem dvida a orga-
nizao muito complexa da economia. A agricultura de subsistncia era muito
dinmica, juntamente com um artesanato muito diversificado: fabricao de
tecidos de rfia destinados  vestimenta e a servir de moeda; trabalho do marfim,
do cobre e da madeira de tintura; produo de sal. Escoados nos mercados locais,
notadamente o de Buali, a capital do reino, esses produtos ganhavam tambm
mercados externos ao reino. Uma rede comercial, fundamentada na aliana entre
os chefes vili de Loango e os dos povos vizinhos, permitia atingir o esturio
do Gabo, o pas Kunyi e o Pool Malebo, dominado pelos teke18. O comrcio
atlntico no foi ento criador nessa regio, ele deu apenas uma intensidade e
uma amplido novas a um sistema de trocas j bem estabelecido.

     O comrcio atlntico
   A histria local do comrcio atlntico nessa parte da frica  ainda pouco
conhecido: os livros de conta dos comerciantes europeus, dos quais muitos no
foram encontrados, so frequentemente fragmentrios. Nos sculos XVII e
XVIII, vrias descries da frica Central se apresentam como originais e algu-



18   P. M. Martin, 1972, p. 1-32; R. Gray e D. Birmingham, 1970, p. 141-146.
626                                                              frica do sculo xvi ao xviii



mas das informaes so de segunda, qui de terceira mo.  possvel contudo
adiantar desde j alguns fatos apurados.
    O comrcio foi a princpio monoplio de Portugal, cujos navegadores Fer-
no do P e Lope Gonalves chegaram respectivamente  ilha de Formosa e
ao Gabo em 1472 e em 1473. Ele s comeou a ganhar corpo depois de 1500,
quando os portugueses se estabeleceram definitivamente na ilha de So Tom:
esta precisava de escravos para suas prprias plantaes de cana-de-acar e
servia tambm de entreposto para os carregamentos com destino s Amricas.
As ilhas de Prncipe e de Annobom, desertas antes da chegada dos portugue-
ses, foram igualmente povoadas por escravos capturados em costas vizinhas.
O comrcio parece ter sido relativamente muito pouco importante. No fim
do sculo XVI, revoltas de escravos, das quais as mais importantes ocorreram
em So Tom em 1574 e 1586, arruinaram o comrcio portugus na regio.
Os holandeses entraram em cena depois de 1598: eles criaram novos centros
de trocas na foz do Wuri (Douala), no esturio do Gabo e no cabo Lopez, e
eliminaram os portugueses do Loango. Uma nova etapa foi vencida por volta
de 1660: o comrcio negreiro teve desde ento um desenvolvimento macio a se
prolongar at meados do sculo XIX. A Frana e a Gr-Bretanha tornaram-se
as principais potncias mercantis na regio, mas a atividade dos portugueses, dos
holandeses e dos dinamarqueses conseguiu manter uma situao de concorrn-
cia, tendo por efeito o aumento regular do preo dos escravos e a multiplicao
dos pontos de venda na costa.
    A importncia dessas trocas  difcil de medir. At um certo ponto, a posi-
o desses pases, no fundo do golfo da Guin, constitua um obstculo a seu
impulso. Com efeito, os barcos negreiros seguiam frequentemente a "pequena
rota", obrigando-os a parar em diferentes estaes negreiras da costa atlntica,
da Senegmbia a Calabar, antes de atingir Camares, Gabo e Loango: esses
trs pontos se situavam assim no fim do caminho, quando o carregamento dos
barcos j estava quase completo. A outra rota, a "grande rota", permitia evitar
essas paradas intermedirias e, tirando delas o melhor partido dos ventos e
das correntes marinhas, chegar diretamente ao Sul do cabo Lopez e comear
o trfico em Loango ou nos portos vizinhos. Os capites negreiros preferiam
tambm os escravos comprados em Loango e mais ao Sul, "a flor do trfico,
dceis e tranquilos, habituados  servido [...], sempre contentes de sua sorte",
enquanto os do Gabo e de Camares tinham a reputao de no aguentar os
efeitos fsicos e as privaes da escravido19.


19    L. Degrandpr, 1801, citado por E. Mbokolo, 1981, p. 17.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                          627



    Assim chegamos a estas nuanas. Na costa de Camares, as trocas entraram
em sua fase mais ativa por volta de 175020. O esturio do Wuri e, mais particular-
mente, Douala, eram seus principais centros. A vinham essencialmente navios
holandeses, ainda que de 1732 a 1759, das 153 expedies comerciais organi-
zadas pela Middleburgshe Comercie Company para a frica, 10% apenas dentre
elas tenham sido destinadas a Camares21. Mas ignora-se sempre o nmero de
navios holandeses pertencentes a outras companhias e o dos barcos ingleses que
tudo indica serem numerosos na regio. Douala abastecia-se essencialmente no
Norte e no Nordeste; nenhuma relao mercantil foi atestada nessa poca com
o Sul. Rumo ao Norte, o Mungo dava acesso aos grasslands, onde as guerras
chamba forneceram, a partir de 1759, numerosos escravos. Rumo ao Nordeste,
o Wuri conduzia ao pas Nun-Mbam. No estado atual dos conhecimentos, toda
estimativa numrica desse trfico seria arriscada.
    Essa incerteza conduziu alguns historiadores a minimizar as exportaes
de escravos em favor de outros produtos, particularmente o marfim, do qual os
holandeses levaram grandes quantidades no sculo XVIII. No Gabo, o princi-
pal centro de trocas foi a regio do esturio, o Cabo Lopez comeou a participar
ativamente do comrcio atlntico somente sob o reinado de Reombi-Mpolo
(por volta de 1790-1810). Aqui ainda, apesar da raridade dos dados numricos,
o comrcio negreiro foi de alguma importncia se a julgarmos pela gravidade
do conflito que ops os portugueses aos holandeses acerca da posse do Gabo
no incio do sculo XVIII e pelo nmero de navios enviados a essa regio pelo
porto francs de Honfleur: aos escravos vinham se juntar grandes quantidades
de marfim, cera e madeira de sndalo.
    Esses ltimos produtos eram fornecidos pelos caadores e coletores kele e
fang da regio vizinha. Os escravos vinham do mdio Ogw, fornecedor tam-
bm do cabo Lopez. O comrcio do Loango , hoje, definitivamente o mais
conhecido. O comrcio negreiro propriamente dito durou relativamente pouco
tempo em relao  Costa dos Escravos ou de Angola: comeado em uma larga
escala por volta de 1670, era quase inexistente em 1780. At meados do sculo
XVII, o Loango fornecia principalmente marfim, madeiras de tintura e tecidos
de rfia, muito procurados em toda frica Central como moeda: assim, dois ou
trs navios portugueses de Luanda vinham anualmente buscar de 6000 a 7000
peas de tecido com os quais os portugueses pagavam seus soldados. O nmero
de escravos exportados pela costa do Loango (Loango, Malemba, Cabinda),

20   E. Ardener, 1968; J. Bouchaud, 1952, p. 79-104.
21   R. A. Austen e K. Jacobs, 1974, p. 7.
628                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




figura 18.4 Mscara fang usada por um membro da sociedade Ngil, associao de homens organizada em
funo de determinadas iniciaes e cujos membros mantinham a ordem na comunidade e a protegiam contra
diversos males. Altura: 70 cm [Coleo Museu do Homem, Paris.  Foto: D. Destable].
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                         629



passou de 100 por ano por volta de 1639 a 12.500 por ano para o perodo de
1762-1778 e a 13.000-14.000 por ano entre 1780 e 179022. Os livros de contas
dos capites negreiros deixaram indicaes preciosas sobre a origem tnica dos
escravos comprados pelos europeus em Loango. Os vili de Loango figuravam
muito raramente dentre esses escravos destinados aos mercados exteriores. Trs
grupos dominavam: os mayombe, vizinhos imediatos dos vili, os monteque (teke
do Pool Malebo) e os quimbangue (bubanguis e "povos da gua" dos rios Congo
e Ubangui). Esse ltimo nome mostra que, em sua mxima extenso, o trfico
atlntico atingira o corao do continente. Por volta de 1780, Loango perdeu
sua importncia em proveito de Apomanda no cabo Lopez e de Malemba
e Cabinda, portos respectivos de dois pequenos Estados, Kacongo e Ngoyo,
outrora vassalos do maloango.

     Dinamismos complexos
   Para uma regio to restrita, a anlise dos efeitos desse sistema de trocas
intensas e prolongadas deve ser conduzido com rigor e fineza. Uma das ten-
dncias (relativamente antiga) da pesquisa privilegia os efeitos destruidores
do comrcio atlntico23. As perdas demogrficas, resultantes das exportaes
de escravos mas tambm das guerras para captur-los e das doenas vindas da
Europa e das Amricas, ganham, nessa perspectiva, uma importncia crucial.
Walter Rodney, apoiado no exemplo do Loango, esclareceu a estagnao tcnica
provocada pelas importaes macias de mercadorias europeias e americanas
e a runa dos artesanatos metalrgicos e txteis locais24. Uma outra tendncia
(mais recente) da pesquisa seria antes levada a atenuar as perdas mensurveis
sofridas pelas sociedades africanas. Assim, para Philip Curtin, as "trs migra-
es transatlnticas" (exportao dos escravos da frica para as Amricas e, em
outro sentido, disseminao de doenas desconhecidas e de novas plantas ali-
mentcias) talvez tenham visto seus efeitos se equilibrarem25. O debate continua
aberto. Contentar-nos-emos aqui em sublinhar, com relao a essas trocas, os
dinamismos de todas as ordens e as mutaes de longa durao que afetaram
tanto a organizao social e as estruturas polticas quanto o povoamento e as
mentalidades.


22   R. Gray e D. Birmingham, 1970, p. 149.
23   R. F. D. Rinchon, 1929; W. Rodney, 1972.
24   W. Rodney, 1972, p. 103-123.
25   P. D. Curtin, 1969, p. 270-271.
630                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Em importncia, uma das primeirssimas mutaes foi a introduo de cul-
turas alimentcias originrias das Amricas: milho, mandioca, amendoim, feijo,
tabaco26. A partir de mais ou menos 1600, bastaro dois sculos e meio para ver
essas culturas substiturem e, s vezes, eliminarem antigas plantas, como bananas,
sorgo, milho-paino, inhames. A difuso dessas culturas no se limitou  rea
costeira, ganhando rapidamente o interior das terras, s vezes margeando as rotas
mercantis, s vezes independentemente delas. A mandioca obteve o sucesso mais
fulgurante. Presente na costa do Loango desde 1608, ela j era cultivado em pa-
ses teke no fim do sculo XVII. Esse impulso se explica por vrios fatores. Seu
rendimento era nitidamente superior ao dos inhames. Ela oferecia tambm uma
grande segurana contra os imprevistos climticos e as desordens sociais porque
sua raiz podia ficar na terra, sem sofrer danos, por no mnimo dois anos. Planta
de usos mltiplos, suas folhas eram comestveis, enquanto sua raiz se prestava a
vrias tcnicas de transformao e de conservao: uma delas permitia fabricar
um po famoso (chikwangue entre os congos) conservvel durante cerca de seis
meses. No decorrer do sculo XVIII, a mandioca se expandiu por toda a bacia
congolesa seguindo o curso do rio Congo (Zaire) e de seus mltiplos afluentes.
Mais lentamente sem dvida e de maneira menos espetacular, o milho, cuja
presena na costa  atestada antes de 1600, substituiu o sorgo. As outras cultu-
ras foram progressivamente integradas nos diferentes sistemas de afolhamento.
A amplido e a rapidez dessas mutaes foram tamanhas que J. Vansina falou,
acertadamente, de uma verdadeira "revoluo agrcola". Elas testemunham a
princpio uma enorme capacidade de inovao tcnica das comunidades campe-
sinas da frica Central. Continua contudo difcil interpretar seus efeitos. Teriam
elas contribudo, como frequentemente se sublinha, para uma alimentao mais
segura e mais diversificada, para uma maior resistncia fsica da populao e para
um crescimento demogrfico mais forte? Nada  menos certo. O valor nutritivo
da mandioca  medocre, e constam, ao menos no sculo XIX, sinais graves de
desnutrio entre os povos que mais a utilizaram, como os tio e os mboshi. De
uma maneira mais geral, os vastos desmatamentos necessitados por essas cultu-
ras tenham talvez facilitado a multiplicao dos mosquitos e a disseminao da
malria e da febre amarela. No nvel social, essa revoluo agrcola contribuiu,
assim como o prprio comrcio, para a criao de uma nova diviso do trabalho:
as numerosas tarefas agrcolas  desmatamentos, culturas, condicionamento
dos produtos  foram progressivamente abandonadas pelos homens, pois eles


26    J. Vansina, 1978b.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                                                     631



preferiam se consagrar ao comrcio, mais rentvel, e confiadas s mulheres e
aos escravos. A intensificao da escravido domstica e de outras formas de
dependncia foi uma consequncia direta dessas mutaes agrcolas.
    Nas regies mais prximas da costa, submetidas aos contatos diretos com o
comrcio estrangeiro, as transformaes revestiram-se de uma enorme comple-
xidade. Nos sculos XVII e XVIII o povoamento se estabilizou e comeou um
processo de redistribuio que s terminaria no sculo XIX. Esses movimentos
de populao foram particularmente complexos em Camares e no Gabo: o
sculo XVII viu a ocupao do esturio do Gabo por novos cls mpongwe e
o sculo XVIII, a chegada dos orungu ao cabo Lopez e dos nkomi em Fernn
Vaz27. No decorrer do sculo XVIII, comeou a lenta disperso dos fang em
algum lugar a partir da margem direita da Sanaga e em direo ao mar28. Quanto
s estruturas polticas, o comrcio costeiro teve incidncias bastante contradit-
rias29. Em apenas um caso, dentre os orungu do cabo Lopez, ele determinou a
constituio de um Estado forte, centralizado, cujo cl real  Abolia ou Alombe
 detinha o monoplio exclusivo do comrcio com os europeus. A formao
ou o reforo desse Estado aconteceu bastante tarde, na poca em que o trfico
atingia seu pico, sob o reinado de Rwombi-Mpolo (por volta de 1790-1810).
Em todas as outras partes da costa, operou um mecanismo inverso, ou seja, o
espalhamento dos centros de autoridade e o esfacelamento do poder poltico.
Nesse caso, a organizao do comrcio, do lado africano, no foi monoplio
do Estado: a concorrncia beneficiou alguns indivduos, prncipes, plebeus, at
mesmo ex-escravos, formadores de uma nova aristocracia, ciumenta de seus pri-
vilgios e vida por poder poltico. Em Douala, a rivalidade se cristalizou entre
a famlia de Bela ("King Bell") e a de Ngando ("King Akwa") para chegar a
uma ruptura definitiva no incio do sculo XIX. No Gabo, a margem direita do
esturio era controlada pelos dois ramos do cl aguezaka e a margem esquerda
pelos cls asiga e agulamba. No Loango, homens novos  plebeus, comerciantes,
caravaneiros e demais intermedirios  obtiveram a maior fortuna, tendo os
meios de comprar a terra junto ao rei e de trazer para sua assessoria numerosos
subordinados livres ou servis: cita-se, no fim do sculo XVIII, o exemplo de
plebeus possuindo a bagatela de 700 subordinados a guerrear ou cultivar a terra
por conta prpria.


27   H. Bucher, 1977, p. 149-170; J. A. Avaro, 1981, p. 97-146 e 175-193.
28   P. Alexandre e J. Binet, 1958, p. 13-17; P. Laburthe-Tolra, 1977, p. 410-411.
29   J. A. Avaro, 1981, p. 143-146; J. R. Brutsch, 1950, p. 213-216; P. M. Martin, 1972, p. 158-174; E. M'Bo-
     kolo, 1981, p. 19-28.
632                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




figura 18.5 Mscara de estilo nguni do Gabo. Usada por um danarino sobre pernas-de-pau, representa
o esprito de uma bela moa de volta  terra aps sua morte para tomar parte de uma cerimnia fnebre
como membro da comunidade dos vivos. Altura: 26 cm [Coleo Museu do Homem, Paris.  Foto: M.
Delaplanche].
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                                633



   Em funo disso, o Maloango teve de vender altos cargos do Estado a esses
novos ricos.  certo que em Douala, no Gabo, assim como no Loango, a con-
dio do povo se degradava. Um fato social significativo  o vocabulrio antigo
dessas sociedades ser assustadoramente rico em termos para designar as nume-
rosas formas de dependncia e os diferentes graus de servido. As mentalidades
coletivas sofreram tambm inflexes maiores, ainda que, nessa rea ainda negli-
genciada pela pesquisa, seja necessrio avanar com cautela. Vem-se aparecer
ou se desenvolver no sculo XVIII novas prticas mgicas e novas concepes
da doena cujo centro  o indivduo, e no mais o grupo familiar, e o objetivo
principal  assegurar a proteo contra mltiplas agresses30. Essa evoluo est
sem dvida ligada a uma insegurana maior como mostra muito nitidamente o
caso do Loango: no reino tradicional, qualquer pessoa podia recorrer  justia
real; bastava que ela fosse  capital, tomando estradas especiais, nzila si nzambi
(caminhos de deus) ou nzila ivanga nzambi (caminhos criados por deus), asse-
gurando uma completa imunidade; ora, no sculo XVIII, as tradies abundam
de exemplos de violao flagrante dessa imunidade.


     O eixo do rio Congo e o grande comrcio congols
   Evocando o rio Congo (Zaire) como "uma linha de partida", o gegrafo Gilles
Sautter sublinhou notavelmente o papel do majestoso rio da frica Central:
         "O Congo no  apenas, por seus canais e suas grandes ilhas, um mundo original
     justaposto s reas [vizinhas]. Ele representa tambm, para essas ltimas, um fator
     de coordenao e de integrao regional. Sua influncia  ao mesmo tempo direta,
     como fonte reguladora de gua, e indireta, como grande via navegvel, oferecida s
     iniciativas humanas31."
   Com efeito, at a colonizao, o rio serviu como poderoso trao de unio
entre os diferentes povos da imensa bacia congolesa. Esse papel no concerne
apenas ao rio em si, em sua parte navegvel, rio acima do Pool Malebo;  igual-
mente devido a seus mltiplos afluentes, particularmente o Alima, o Likuala, o
Sangha, o Ubangui, na margem direita e o Kwa, o Ruka, o Ikelemba e o Lulonga
na margem esquerda. Desde tempos visivelmente muito antigos, organizou-se
um notvel sistema de trocas, sem parar de aumentar em tamanho e complexi-


30   J. M. Janzen, 1979; E. M'Bokolo, 1983.
31   G. Sautter, 1966, p. 231.
634                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



dade e de moldar a maioria das sociedades humanas ribeirinhas do rio Congo
e de seus afluentes.

      Uma antiga economia de trocas
    Numerosos indcios testemunham essa antiguidade. Certamente, por razes
evidentes, as tradies no chegam sequer alm de cerca de quinze geraes, e
o povoamento da regio continua difcil de ser retraado em suas etapas crono-
lgicas e no detalhe de suas orientaes.  contudo possvel, com o auxlio da
lingustica, distinguir dois movimentos principais. O primeiro e mais antigo  um
movimento de grande amplitude que conduziu esses povos de lngua banto a essa
regio a partir de seu lar original de disperso: esse movimento parece ter sido
orientado do Noroeste para o Sudeste. Com efeito, a maior parte desses povos
pertence, na classificao de Guthrie,  rea C. Algumas lnguas apresentam
hoje ainda fortssimos parentescos com certas lnguas nigero-camaronesas:  o
que ocorre com o bobangui, com o tunen e o jawara32. Esses elementos levam a
pensar que uma migrao tenha ocorrido diretamente da rea original nigero-
-camaronesa rumo ao habitat atual seguindo os cursos de gua, particularmente o
Sangha, constituindo as rotas mais cmodas nessa regio pantanosa e de floresta
densa. Desde o fim do sculo XV e o incio do XVI, os escritos portugueses citam
vrios povos, notadamente os bolia, os boma e os tio, em sua localizao atual33.
 preciso notar, ao lado desse primeiro movimento, movimentos de fraca ampli-
tude, provavelmente mais tardios e orientados de Leste para Oeste, conduzindo
progressivamente  estabilizao e  individualizao de alguns grupos. Assim,
no "pas dos rios", atravessado pelo Likuala-Massaka e seus afluentes, todos os
povos situam sua origem no Leste, do outro lado do rio34.
    Esses ltimos movimentos contriburam indubitavelmente para criar as con-
dies ou para ampliar as bases de uma economia de trocas, repartindo a popu-
lao em reas ecolgicas complementares, frentes de gua, terras inundveis e,
mais raramente, terras secas. Com efeito, as atividades agrcolas e a pesca eram
praticadas concomitantemente durante a estao seca, que era tambm a estao
das estiagens do rio e de seus afluentes. A populao teve ento de escolher,
os povos da gua privilegiaram a pesca, cujos produtos eram tradicionalmente



32    J. H. Greenberg, 1963, p. 35-38; J. D. Fage e R. A. Oliver, 1970, p. 131-140.
33    J. Vansina, 1965, p. 78, 80, 81, e 1973b, p. 439-446; G. Sautter, 1966, p. 363.
34    G. Sautter, 1966, p. 212, 243-247.
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dotados de um grande valor e no havia problemas em troc-los por vveres ou
produtos do artesanato.
    Felizmente a arqueologia vem em apoio a essas assertivas. A princpio, 
perceptvel que todos os estratos conhecidos da pr-histria zairo-congolesa se
encontram ao redor do Pool Malebo, testemunhando assim uma rara continui-
dade tanto na densidade do povoamento quanto na diversidade das atividades
humanas. Tratando-se mais particularmente das trocas, dois stios so muito
reveladores. No primeiro, situado em Kingabwa, perto de Kinshasa,  margem
direita do Pool Malebo, exumaram vrios tipos de cermica dos quais um, de
decorao muito refinada, foi encontrado em outros stios menores da regio
de Kinshasa e ao longo do rio, at o lago Mai Ndombe. Datadas de 1450 a
1640, essas cermicas so os melhores indcios de relaes comerciais muito
antigas ao longo do Congo (Zaire) e de seus afluentes. No segundo stio, em
Mafamba, perto do confluente do Kwa e do Congo, foram descobertos vrios
cachimbos de argila, de estilos muito variados, cuja maior parte no foi usada,
sugerindo ser Mafamba um centro de produo ou um entreposto distribuidor
dessa mercadoria na regio.
    As cermicas e os cachimbos esto longe de esgotar a gama das mercadorias
trocadas. Tudo indica que dois produtos devem ter dominado as trocas de longa
distncia: o camwood, ou p vermelho, como cosmtico, e o cobre extrado de
jazidas do Baixo Congo. Em contrapartida, seu fraco valor de troca e os custos
elevados de transporte restringiam a trocas locais, num raio restrito, os produtos
de matria-prima relativamente fcil de encontrar e de tcnica de produo
bastante rudimentar, tais como o sal, os tecidos, as esteiras e os cestos35. Essas
trocas, j florescentes antes do sculo XV, seriam particularmente ativadas pelo
desenvolvimento do comrcio na costa atlntica.

     A implantao do comrcio atlntico e suas consequncias
    Essa implantao se deu em vrias fases36. Num primeiro momento, do fim
do sculo XV at por volta de 1560, o Reino do Congo desempenhou o papel
essencial. A partir de 1529, os documentos de origem portuguesa indicam ter
sido a regio do Pool Malebo um dos principais fornecedores de escravos, graas
s rotas ligando-a a Mbanza Congo (So Salvador) e a Mpinda. Em meados do
sculo XVI, os anziques (tio, teke do Pool) formavam importantes contingentes


35   P. de Maret, F. van Noten e D. Cahen, 1977, p. 495, 497-498 ; R. Harms, 1981, p. 20-23.
36   R. Harms, 1981, p. 24-28.
636                                                         frica do sculo xvi ao xviii



da populao servil do Peru, da Colmbia e do Brasil. Esses escravos eram ento
encaminhados junto com as cargas de marfim, de tecidos de rfia e de madeira
vermelha. Em sentido inverso, o Pool passou a receber nzimbus (conchas ser-
vindo de moeda no Reino do Congo), prolas, tecidos e lcoois europeus. O
perodo 1560-1750 corresponde a um declnio do comrcio do Congo, sem isso
acarretar, no Pool e em seus anexos, uma reduo das trocas dos produtos desti-
nados  exportao. Com efeito, enquanto o Congo sofria com a concorrncia
crescente de Angola e com as turbulncias internas provocadas notadamente
pelos jaga, esses mesmos jaga se instalaram nas regies compreendidas entre o
Pool e a costa, controlando o reino de Bungu, a provncia Congo de Nsundi e as
minas de cobre de Minduli. Consequentemente, o declnio das rotas ligando o
Pool  costa pelo Congo foi amplamente compensado pelo dinamismo novo do
eixo Pool-Loango. Uma terceira fase foi aberta por volta de 1750, prolongando-
-se at meados do sculo XIX: a bacia do Congo e de seus afluentes tornou-se
ento o principal provedor de escravos para as Amricas, uma rede de rotas de
caravanas particularmente densa ligava-a a uma multido de portos situados de
uma parte e de outra da foz do rio, fosse Loango, Cabinda, Boma, Ambrizette,
Ambriz e Luanda.
    Ao longo dessas trs fases, o Pool Malebo, lugar de ruptura da carga entre as
pistas e as rotas terrestres contornando as corredeiras no navegveis do Congo e
as vias fluviais situadas rio acima, foi tambm o ponto de juno entre o grande
comrcio congols e o comrcio atlntico. O efeito de acarretamento dele sobre
a economia regional repousa em mecanismos fceis de entender: o comrcio
de exportao mobilizava mercadorias de altssimo valor, o que teve por efeito
rentabilizar os transportes de longa distncia pelo Congo e seus afluentes. Ime-
diatamente o comrcio dos produtos de uso local, mesmo transportados por
longas distncias, tornou-se por sua vez rentvel, estimulando as especializaes
regionais. O grande comrcio no foi ento uma simples sobreposio, mas uma
articulao complexa de um sistema de trocas voltado para o mundo exterior e
de um outro sistema voltado para a satisfao das necessidades regionais. Cada
um repousava contudo em produtos, regras e estruturas especficas.
    A rea geogrfica correspondente a esses nveis de trocas no parou de se
expandir a partir de 1500 aproximadamente. Por volta de 1690, o Pool Malebo
mantinha relaes comerciais permanentes e ativas com o Baixo Kasa e os pa-
ses do Alima. Um sculo mais tarde, o Ubangui estava perfeitamente integrado
a esse espao comercial assim como todos os outros rios intermedirios e seus
afluentes, Alima, Likuala, Sangha na margem direita, Lulonga, Ruki, Mfimi,
lago Mai-Ndombe, Kasa e Kwango na margem esquerda. A nica incerteza diz
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                         637



respeito  profundeza da penetrao comercial ao longo desses diferentes cursos
de gua. Foi apenas no sculo XIX que a fronteira comercial teria alcanado o
confluente do Ubangui e do Uele.
   Ao longo dessas vias aquticas e, notadamente, de seus confluentes, exis-
tiam numerosos mercados cuja contagem completa deveria ser permitida pela
arqueologia. Os mais volumosos se encontravam evidentemente no cruzamento
dos caminhos mais importantes, ou seja, o Pool Malebo onde se contavam qua-
tro deles desde o sculo XVIII e talvez antes: Ntamo e Kinshasa, na margem
esquerda, Mpila e Mfwa, na margem direita. De acordo com as estimativas
dos observadores do sculo XIX, cada uma dessas quatro feiras abrigava per-
manentemente de 3000 a 5000 habitantes, aos quais  preciso acrescentar as
pessoas passageiras, numerosas principalmente durante a estao comercial.
Esta correspondia  estao seca, de abril/maio a setembro, com uma fortssima
concentrao dos negcios em agosto. Durante a estao das chuvas, assistia-se
a uma desacelerao das atividades, mas as mercadorias destinadas ao estrangeiro
continuavam a ser exportadas e as pequenas feiras situadas rio acima do Pool
continuavam abertas.
   Por falta de estatsticas,  muito difcil ter uma ideia exata do volume de
trocas. Raros indcios esto contudo disponveis. No sculo XIX, a piroga padro,
cujas dimenses no pareciam ter mudado desde meados do sculo anterior,
media 15 metros de comprimento por 80 a 90 centmetros de largura e podia
transportar de 1,5 a 3 toneladas de mercadorias. A capacidade mdia de um
remador era da ordem de 65 a 90 quilos, transportados por aproximadamente
80 quilmetros dirios descendo o rio e 50 quilmetros subindo. No sculo XIX,
enquanto o comrcio dos escravos desaparecera, estimava-se passarem pelo Pool
no mnimo uma tonelada de mercadorias por dia e at 40 toneladas no pico da
estao comercial37.
   O sistema de trocas voltado para o mundo exterior baseava-se principalmente
em duas mercadorias: os escravos e o marfim. Os escravos, cujo comrcio teve
um verdadeiro boom aps 1750, provinham principalmente de quatro regies: a
bacia do Lulonga, os pases do Alima, o pas Boma, situado entre a confluncia
do Congo e do Kwa e o lago Mai-Ndombe, e a bacia do Ubangui. A ttulo de
exemplo, o trfico negreiro no vale do Lulonga revela a extrema complexidade
dessas trocas: ao redor da principal feira, Basankusu, existiam numerosas vilas
onde os escravos se dedicavam  agricultura enquanto no eram vendidos; uma


37   J. Vansina, 1978 a, p. 255-258.
638                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




figura 18.6   Estatueta kuba em ferro forjado, por volta de 1515. Altura: 18,7 cm [Etnografisch Museum,
Anturpia].
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                         639



parte dos escravos vendidos seguia o curso do rio para ser exportada; outra parte
subia o curso do Ubangui para ser vendida aos loi em troca de marfim destinado
aos mercados do Pool e da costa atlntica38. Isto : os escravos, mercadoria de
exportao por excelncia, tambm serviam localmente. Essa situao era devida
no apenas s mutaes da agricultura, j assinaladas, mas tambm s neces-
sidades de trocas e s transformaes das estruturas sociais e polticas. Assim,
os povos ribeirinhos do Kwa compravam dos bomas escravos encarregados de
transportar suas mercadorias at o Pool e vice-versa.
    Entre os tio, a escravido domstica era to desenvolvida que a palavra mboma
(homem da etnia boma) veio designar toda pessoa estpida ou de condio infe-
rior. Com o impulso do comrcio negreiro, viu-se multiplicarem os mecanismos
de servido. Entre os bobangui, o principal povo comerciante da bacia do Congo,
fazia-se uma distino entre montonge, escravo capturado, e montamba, escravo
vendido por seus pais, indicando a que ponto os valores sociais foram revirados
pelo comrcio negreiro. Ele era visto em toda a regio como um comrcio de
luxo e um trfico vergonhoso: comrcio de luxo porque beneficiava apenas a uma
nfima minoria, os chefes de linhagem e de vila, bem como os intermedirios
bobangui; trfico vergonhoso porque, nas negociaes, repugnavam-se ao usar a
palavra "escravo", preferindo a ele o eufemismo alusivo de "cachorro".
    A segunda mercadoria de exportao, o marfim, aparece nos textos portu-
gueses desde o sculo XVI como um dos produtos mais rentveis. O uso local
do marfim era antigo porque faziam dele braceletes e alfinetes de cabelo. Mas
parece que, comparado ao cobre, usado tambm para fabricar jias e enfeites,
seu valor de troca tenha permanecido bastante fraco na regio.
    A densidade das manadas de elefantes era alta em rea florestal, particular-
mente na bacia do Sangha e no vale do Lulonga e de seus afluentes, o Lopori
e o Maringa. A caa ao elefante era um quase monoplio dos pigmeus, mas a
rede dos direitos sobre os animais abatidos era to complexa que os caadores
definitivamente tiraram pouco proveito dela: entre os likuba, os chefes ficavam
com as duas presas, deixando para o caador apenas a carne; entre os tio e
os mboshi, os chefes pegavam por direito o marfim que havia tocado o cho
quando da queda do elefante; alm disso, entre os tio, o resto do marfim era
dividido em trs partes: a primeira para o caador, a segunda para o senhor da
terra e a terceira para o chefe poltico. At o fim do sculo XVIII, o marfim
seguiu as mesmas rotas e passou pelas mesmas mos que os escravos, estes repre-


38   R. Harms, 1981, p. 30-31.
640                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



sentando, em valor, o essencial das trocas. A relao entre as duas mercadorias s
se inverteria aps 1830. A gama de produtos recebidos em troca e procedentes
da costa, limitada a princpio ao sal, s conchas nzimbu de Luanda, aos tecidos




figura 18.7   Bigorna kuba. Altura: 28 cm [Instituto dos museus nacionais da Repblica Democrtica do
Congo.]
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                          641



e prolas, ampliou-se em meados do sculo XVII com a introduo de objetos
metlicos, particularmente facas, e de espelhos. O sculo XVIII viu um aumento
espetacular dos fuzis e da plvora, dos produtos  base de cobre e de estanho, e
das bebidas alcolicas.
    A circulao desses objetos na bacia do Congo  pouco conhecida. A prpria
organizao das trocas, o valor relativo dos produtos de acordo com os lugares
e a diversidade dos gostos teriam impedido sua igual distribuio. At cerca de
1750, estivemos diante de um "comrcio fracionado", cada grupo tnico contro-
lando uma poro do rio ou de seus afluentes: esse sistema facilitou o confisco de
alguns produtos fortemente valorizados, tais como os espelhos e a porcelana. A
velocidade de circulao dessas mercadorias  tambm o objeto de especulaes
desde que Stanley estimou, por volta de 1880, que a mdia de tempo levada para
transportar um artigo europeu da costa at o Ubangui era de cinco anos.
    O comrcio dos produtos de uso estritamente local cobria a mesma rea,
ou uma rea apenas maior, do que o comrcio das mercadorias de exportao.
Assim, os pases do alto Ogw produziam objetos de ferro com destino  rea do
rio por intermdio dos kukuya e dos tio. No era raro ver indivduos ou grupos
engajarem-se nos dois comrcios ao mesmo tempo: ao longo do Kasa e de seus
afluentes, os nunu e os ntomba produziam, desde o sculo XVIII, cermicas, sal e
lcool de cana de acar para a feira do rio Congo ao mesmo tempo que marfim
e goma, destinados  costa; o mesmo ocorria com os bobangui, intermedirios
privilegiados em toda a regio, que fabricavam produtos diversos, essencialmente
de origem artesanal, destinados s feiras locais.
    Esse comrcio local se relacionava a dois tipos principais de mercadorias.
Os produtos alimentcios se beneficiavam de um enorme mercado porque, a
partir do sculo XVIII, o nvel elevado e incessantemente crescente da demanda
exterior levou vrias vilas a se especializarem no comrcio. Era particularmente o
caso do Pool, nos vales do Alima, do Likuala-Massaka e do Shanga bem como
nos centros comerciais da rea florestal no mais capazes de autossuficincia
alimentar. A mandioca, cultivada e transformada pelas mulheres era um dos
produtos mais procurados. A palmeira de leo fornecia produtos variados: o
leo de consumo, cujos proveitos da venda eram partilhados entre o proprietrio
da rvore, o homem que a escalara para cortar o cacho e a mulher que extrara
seu leo e o vinho de palmeira, produzido exclusivamente pelos homens. O sal
representava um outro produto de importncia vital, fosse o sal-gema vindo do
pas Mboshi ou sal vegetal fabricado principalmente pelos povos ribeirinhos das
vias aquticas. Esses mesmos povos forneciam vrias espcies de peixes, frescos
642                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



ou defumados, de acordo com tcnicas muito finas. Por fim, encontravam-se
tabaco e lcoois locais.
    O artesanato contribuiu igualmente para alimentar esse comrcio. Ele era
obra de especialistas: nas sociedades de agricultores, as mulheres se encarrega-
vam da produo agrcola enquanto o artesanato era o apangio dos homens;
em contrapartida, nas sociedades pesqueiras, a captura dos peixes cabia aos
homens, liberando as mulheres para trabalhos de artesanato. As fabricaes mais
procuradas eram as seguintes: as esteiras, uma especialidade dos "povos da terra",
em oposio aos "povos da gua"; o camwood, ou p vermelho, produzido pelas
mulheres; os tecidos de rfia pelos quais os tio eram muito famosos; as ferra-
mentas de ferro; a cermica, fabricada na maioria das vilas, mas de acordo com
tcnicas e decoraes diferentes, o que estimulava sua troca; as pirogas enfim, de
todos os tamanhos, as grandes, destinadas ao comrcio medindo at 20 metros
ou mais, enquanto as pequenas, da ordem de 3 metros de comprimento, serviam
para deslocamentos em curtas distncias entre as vilas de pescadores39.
    As diferenas eram ento grandes entre os dois tipos de trocas. O comrcio
orientado para o estrangeiro baseava-se em uma economia de destruio  migra-
es foradas e caa  pouco preocupada com a reproduo das riquezas sobre as
quais ele se baseava: s beneficiavam uma minscula minoria. O comrcio dos pro-
dutos locais era fundamentado numa economia de produo, que no parou de cres-
cer no decorrer dos sculos e contribuiu seja para a manuteno seja para a melhoria
das tcnicas rurais: os beneficiados com isso foram as pessoas simples, tanto homens
quanto mulheres, cada um de acordo com o volume de sua produo.


      Sociedades muito diversificadas
    Essas trocas, de longa durao, agiram como um fator de unificao progres-
siva dos diferentes povos da bacia do Congo, apesar dos obstculos tendendo
a preservao de particularismos. Dentre esses obstculos figurava a prpria
organizao do comrcio  o comrcio fracionado  e permanecendo assim
at meados do sculo XIX: o rio e seus afluentes eram divididos em esferas de
influncia, controladas cada uma por um grupo tnico, por exemplo, os sakata
e os nunu no Kwa e no Mfimi, os likuba no Alima e os loi no baixo Ubangui.
Foi apenas no decorrer do sculo XVIII que os bobangui passaram a reinar no
conjunto do eixo Congo-Ubangui. A desconfiana reinou por muito tempo

39    G. Sautter, 1966, p. 272-278; J. Vansina, 1973b, p. 276-281; R. Harms, 1981, p. 51-69.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                                                                  643



nas relaes entre os diferentes parceiros e as pilhagens no eram raras. Para se
preservar delas, as expedies comerciais eram imponentes, reunindo 10 grandes
pirogas ou mais, movidas cada uma por 30 a 60 remadores. Os conflitos de inte-



                                                                                               ULA
                                                                                          A- AK
                                                                                       EK
                                                                                     B ala
                                                                                   MOMong
                                                                                                         crtica do Congo


                                                           LOI
                                                                                          Repblica Demo
                                                     Ouba
                                                               BON
                                                    ngui




                                                                     s
                                                                  tro
                                                      DJO

                                                                ou
                                                              e          Lulonga
                                                        O
                                     BON a




                                                      OK
                                               I
                                    Sang




                                                    IB
                         LIK


                                        GA

                                               G
                        Lik
                          WA la
                         wa




                                                   IREBU
                                               N
                            LA




              LIK                                  Lago Tumba
                   UB
                                           A




               Alim A
                    a
                                           B
                        Zare


                                     O
                                B




                              NUNU-SAKATA
                                       Kwa
              O
            TI




             Pool



figura 18.8 Povos e reas de influncia ao longo do eixo Congo-Zaire [Fonte: de acordo com R. Harms,
1981, p. 76.]



resses desembocavam s vezes em verdadeiras guerras: foi o caso entre os dois
grupos mais engajados nas trocas, os bobangui e os tio, que s alcanaram um
acordo durvel no incio do sculo XIX. Dentre os vrios fatores de unificao,
 preciso que nos detenhamos nas tcnicas comerciais em si. Assim, a partir do
sculo XVIII, o conjunto da regio passou a adotar as mesmas moedas para as
transaes  tecidos de rfia, nzimbu, cauris, moedas de cobre , moedas estas em
concorrncia local com moedas de uso mais restrito. Da mesma forma, a prtica
muito expandida do crdito criou longas cadeias de solidariedade em toda a rea
comercial. A conduta lucrativa do comrcio exigia tambm o desdobramento
de estratgias de amplas alianas: alianas matrimoniais e, principalmente, fra-
644                                                           frica do sculo xvi ao xviii



ternidades de sangue a criarem entre os parceiros vrias obrigaes (proteo
e hospedagem, solidariedade financeira em caso de dvida, ajuda militar, apoio
moral e financeiro quando do luto). O comrcio do rio funcionou assim como
um caldeiro, misturando os povos, difundindo as mesmas prticas e crenas,
facilitando o acesso  hegemonia do bobangui, lngua das trocas por excelncia.
Essa comunidade de civilizao, cuja formao acelerou-se no sculo XVIII,
desabrocharia entre 1850 e 1880.
    Essa unidade progressiva se conjugava com uma certa diversidade, ligada
em parte s mltiplas formas de insero e de adaptao dos povos ao grande
comrcio congols.
    Com efeito, nem todos exerciam o comrcio. Nessa regio dominada pela
onipresena da gua, a pesca, uma das mais antigas atividades da populao
banta da bacia congolesa, permaneceu sendo a base de vrios grupos. As socie-
dades de pescadores caracterizavam-se a princpio por sua enorme mobilidade
no espao, determinada pelas variaes da altura das guas e os deslocamentos
regulares dos cardumes de peixes: os homens moravam, de acordo com a esta-
o, em vilas fixas ou acampamentos de pesca construdos durante a estiagem
e abandonados quando da cheia do rio. No plano social e poltico, existia uma
defasagem muito ntida entre as unidades polticas e as unidades econmicas.
A unidade poltica de base continuava sendo a vila: a autoridade do chefe, de
essncia mais ritual e religiosa, era exercida exclusivamente nesse quadro estreito;
vrios aspectos na vida das vilas fugiam ao seu controle, particularmente o vai
e vem incessante dos pescadores entre a vila e os acampamentos de pesca e a
atividade das efmeras equipes de pescadores. As unidades econmicas de base
eram precisamente essas equipes de estruturas extremamente flexveis: elas se
pareciam com associaes voluntrias, baseadas na iniciativa de um pescador
famoso, agrupando alguns de seus parentes aos quais se acrescentavam indi-
vduos voluntariamente engajados durante a campanha de pesca. Assim, as
clulas familiares nas quais eram baseadas as vilas desfaziam-se em funo das
necessidades da pesca. Se esse sistema encorajava um certo individualismo, ele
garantia tambm um alimento regular em cada famlia, pois o azar eventual de
alguns familiares era sempre compensado pelo sucesso dos que participavam de
equipes mais afortunadas40.
    Os exemplos so vrios dessas sociedades da bacia do Congo, integradas cer-
tamente  economia de troca, mas aproveitando dessa nova situao econmica


40    R. Harms, 1981, p. 111-125.
Das savanas de Camares ao alto Nilo                                             645



para desenvolver suas atividades produtoras. Esse particularismo econmico
explica sem dvida, ao menos em parte, a permanncia de estruturas polticas
originais dos numerosos grupos mongo, cuja histria continua ainda muito
pouco conhecida41.
    Quanto aos povos que se especializaram em atividades mercantis, sua evolu-
o se revelou muito heterognea como mostra aquela, contrastada, dos boban-
gui e dos tio. Os detalhes da longa migrao dos bobangui desde o mdio ou o
baixo Ubangui at o Pool Malebo so muito difceis de reconstituir. De acordo
com os primeiros administradores coloniais, escrevendo por volta de 1885,
seu estabelecimento no rio Congo datava de duas ou quatro geraes, ou seja,
somente do incio do sculo XIX. Ora, as fontes europeias citam vrios escravos
quimbangue na costa no sculo XVIII, enquanto o Dirio Congols 1690-1701,
de Fra Luca da Caltanisetta, evoca a chegada de imigrantes no identificados
no Pool no decorrer do sculo XVII42. Certamente, essa sociedade inicialmente
de pescadores se converteu muito rapidamente ao comrcio, que se tornou o
fundamento exclusivo de toda a vida social. Houve doravante confuso entre
unidade poltica e unidade econmica. A sociedade bobangui baseou-se em fir-
mas comerciais pertencentes a ricos comerciantes que no se apoiavam nos laos
de parentesco, pois cada um deles esforava-se mais para adquirir subordinados,
mulheres e escravos, sobre os quais sua autoridade era maior do que sobre paren-
tes e privilegiados. Era uma sociedade amplamente aberta, apresentando uma
grande mobilidade social: bastava ser ativo e feliz nos negcios para enriquecer
e obter assim o meio de aumentar o nmero de subordinados, chegar ao poder
e pretender ttulos polticos, dos quais o mais elevado, o de mokondzi (chefe),
reforava a posio de seu detentor  frente de sua empresa, facilitando-lhe a
concluso de alianas em toda a regio e o fazia participar dos conselhos encar-
regados de regular os diferentes problemas ligados ao comrcio.
    Quanto aos tio, eles tinham a sorte nica de estarem instalados no mais impor-
tante cruzamento de rotas comerciais e no principal ponto de ruptura de carga
da rede comercial congolesa. Aparentemente, o comrcio no tinha conseguido
revirar as estruturas polticas do Reino. Este, apesar do sentimento de origem
comum e de uma identidade cultural, era muito amplamente descentralizado.
Na base do edifcio se encontravam chefias bastante autnomas: o chefe detinha
prerrogativas rituais importantes, mas atribuies polticas limitadas; ele no podia
proibir a instalao de recm-chegados em seu territrio nem se opor, em caso de

41   G. Van der Kerken, 1944; G. Hulstaert, 1972.
42   G. Sautter, 1966, p. 243-245; P. M. Martin, 1972, p. 124.
646                                                          frica do sculo xvi ao xviii



dissenso grave,  partida definitiva de seus sditos descontentes. Essa situao
encontrava-se tambm no nvel mais alto da hierarquia: o koo (o rei, deformado
pelos europeus em makoko), tinha principalmente um papel espiritual; a realidade
do poder temporal pertencia a alguns altos dignitrios como o ngaailiino, encarre-
gado de receber o tributo e de dirigir a administrao, e o muidzu, juiz supremo do
pas. Contrariamente s chefias, a dignidade do koo no era hereditria: o rei era
eleito dentre os chefes mais importantes do Reino e por seus pares, reunidos em
um colgio de onze eleitores presidido pelo ngaailiino. Essa estrutura muito antiga
conservou o essencial de suas caractersticas at a colonizao. No nvel social se
manifestaram insidiosamente as modificaes mais durveis. Houve a princpio
uma dissociao cada vez mais ntida entre os ribeirinhos, pois reservaram para si
as atividades comerciais, e os tio do interior, especializados na produo agrcola
para o mercado do rio (mandioca e tabaco). Esses trabalhos agrcolas intensivos
exigiam uma mo de obra sempre mais numerosa, contribuindo para o acmulo
de mulheres e a aquisio de escravos em nmero crescente. Dentre os ribeirinhos,
os que mais aproveitaram o comrcio foram os chefes, notadamente no Pool, pois
souberam bem explorar seu direito exclusivo de vender os homens e o marfim.
Por outro lado, os chefes e dignitrios estabelecidos longe do Pool, como o rei,
residente em Mbe, a mais de cem quilmetros ao Norte, participavam apenas
incidentalmente do comrcio, enviando para l seus subordinados: detentores do
poder poltico, eles tinham um poder econmico inferior ao dos ribeirinhos.
    Essas economias mercantis dos bobangui e dos tio no se tornaram capita-
listas. Realizavam-se a lucros importantes, mas estes no podiam ser investidos
no setor produtivo. No se podia comprar a terra nem a fora de trabalho seno
sob a forma servil. A moeda, aceita em algumas transaes, no era "um equi-
valente universal" permitindo comprar de tudo: acumulada sob diversas formas,
ela at proporcionava emprstimos, mas frequentemente sem juros; alguns bens,
servios sociais e rituais, tais como as multas e o dote, sempre escaparam da
domnio monetrio.
    O quadro assim desenhado das populaes e das sociedades da frica Cen-
tral mostra de uma maneira clarssima sua indiscutvel diversidade, bem como
suas incontveis aptides para inovar, mesmo em situaes muito restringentes.
Ele indica tambm, pelas prprias lacunas do conhecimento, as direes as
quais os pesquisadores deveriam tomar urgentemente: de uma parte, a de uma
vasta pesquisa, com grandes meios, destinada principalmente  coleta de novos
materiais (arqueologia, tradies orais) e, de outra parte, a de uma elaborao
terica inclinada notadamente para o estudo das estruturas sociais, para a evo-
luo cultural e para a histria das mentalidades.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                    647



                                       CAPTULO 19


         O Reino do Congo e seus vizinhos
                                      J. Vansina
                     (a partir de uma contribuio de T. Obenga)




   A parte ocidental da frica Central, ao Sul das florestas equatoriais,  habi-
tada por povos falantes de dialetos da lngua kikongo e de lnguas estreitamente
aparentadas1. Tal unidade lingustica encontra-se reforada por uma profunda
unidade cultural. Esse grupo etnolingustico ocupa um territrio que se estende
do Gabo meridional ao planalto de Benguela e do Oceano Atlntico at muito
alm do Rio Cuango. No Nordeste, esse complexo sempre beirou uma rea teke
centrada nos planaltos bateke e, no Sul, uma rea ovimbundu no planalto de
Benguela. A histria dessa regio est bem documentada a partir do sculo XVI.
No que concerne o perodo de 1500 a 1800, estima-se em mais de meio milho
o nmero de pginas escritas na poca contempornea, nmero este nunca
alcanado para qualquer outra parte do continente de tamanho comparvel.
   Desde mais de um sculo, inmeros textos e guias foram publicados 2, ao
passo que uma escola historiogrfica se desenvolveu desde o sculo XVII3. 



1    M. A. Bryan, 1959, pp. 56-62; T. Obenga, 1969 e 1970.
2    Panorama das fontes contemporneas: A. Brasio, 1952-1971; T. Filesi e E. de Villapadierna, 1978; L.
     Jadin, 1961 e 1975; e os trabalhos de A. Felner, L. M. Jordo, J. Cuvelier e F. Bontinck. Bibliografias em
     W. G. L. Randles, 1968; J. K. Thornton, 1983b. Dentre os autores do passado, os mais importantes so:
     G. Cavazzi, 1965 (1687); O. de Cadornega, 1940 (1681); O. Dapper, 1668; L. Degrandpr, 1801; F. de
     Pigafetta, 1591; A. Proyart, 1776; E. de Silva Correa, 1937 (1782)
3    J. K. Thornton, 1983b, pp. XVII-XX, para a historiografia recente.
648                                                         frica do sculo xvi ao xviii



evidente que esse captulo apenas poder ser uma introduo, na qual at a
bibliografia mais recente teve de ser seletiva.
    Nos sculos XVI e XVII, o movimento histrico dessas terras foi muito
diferente do que se tornaria depois. De fato, foi nessa poca que o homem
organizou os grandes espaos e utilizou estruturas polticas para formar Estados.
Porm, aps cerca de 1665, esses espaos foram reorganizados pelo homem em
um escala ainda maior (os Estados tornando-se menos importantes) em virtude
dos imperativos de uma estrutura econmica particular, procedente do trfico
intensivo de escravos. Por isso abordaremos os primeiros sculos privilegiando
a histria dos reinos. Apenas nos debruaremos sobre o comrcio de escravos
a partir do momento em que a dinmica deste comeou a provocar o declnio
de tais reinos.
    As potencialidades dessas regies so condicionadas pela orografia e pelo
regime de chuvas. As terras frteis encontram-se nos vales cuja estao seca  de
curta durao. Porm, essa estao varia de dois a seis meses segundo a latitude
e o afastamento da costa, esta ltima sendo mais seca. O carter geralmente
montanhoso dos territrios explica o fato de a populao, em sua busca de um
habitat melhor, ter sido desigualmente repartida, regies povoadas, do tamanho
de um pequeno distrito ou de um centro provincial, alternadas com desertos. A
regio mais favorecida pela diversidade dos ambientes situava-se Ao Norte do
Rio Zaire/Congo, a partir da costa at a regio chamada de Mayombe. Ade-
mais, ali se encontravam interessantes jazidas minerais (cobre, chumbo, ferro).
Foi a que nasceram os dois maiores Estados da costa: os reinos do Congo e
do Loango.
    Desde pelos menos 400 a.C., agricultores falantes de lnguas bantas ociden-
tais estavam instalados Ao Norte e ao Sul do baixo Zaire, ali cultivando inha-
mes, legumes e palmeiras. Entre os sculos II e V, tal povoamento foi reforado
pela chegada, pelo Leste, de comunidades falantes de lnguas bantas orientais.
Essas comunidades cultivavam cereais e criavam bovinos onde a mosca ts-ts
o permitia, principalmente em Angola. Antes dessa chegada, a metalurgia do
ferro penetrara na regio a partir do ano 100, ou talvez mais cedo. Por fim, a
cultura da banana veio completar o sistema de produo, talvez no decorrer do
sculo VI4.
    Desde ento, as organizaes sociopolticas tornaram-se mais complexas, e
chefias formaram-se entre o oceano e o rio, a montante do Pool. Foi na zona


4     J. Vansina, 1984b.
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                                                                                          R




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                                                                                                       R




                                                                                                                                V A
                                                                                              PL
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                                                                                               io
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                                                                                                   AN




                                                                                                                                    L E
           P                                                                     Mbanza




                                                                                                       isi
                                                                                  Kongo

                                                                                                           AL
           S              P                      COLINAS




                                                                                                                                     D O
                                                                                                              TO
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                                                     DO CENTRO
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                                                                  Mbembe
                                         S




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                                            CO




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                                                                  Lo




                                                                                                                                                  G O
                                                           Ri o
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                                               ST




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                                                  EIR




                                        S                    ALTAS TERRAS
                                                                DEMBO
                                                      AS




                                                                                                                                                                  S
                                                                   nd e
                                                         Ri o Da                                                                                          BACIA DO
                                             O
                                        S                                       Bengo                                                                   RIO CASSANJE
                                                                       R io
                                    P
                                               Luanda                                                        R i o Lu k a l a        5
                                                                                VA
                                                                                     LE
                                                                                              DO RI
                                                                                                    O CUANZA
                                                            S
                                                                                                                 R io C ua n z a
                                                                                      6




                                                                                      Floresta                                        Cu      Cobre
                                                                                                                                      O       Concha servindo
                                                                            4         Meses de estao seca
                                                                                                                                               de moeda
                                                                                                                                      P       Pesca
                                                                                                                                      R       Madeira tintorial
                                                                                                                                               vermelha
                                                                                                                                      S       Sal
                                                                                                                                      T       Txteis
                                                                                                                                              Terras acidentadas
                                                      0                              60                     120 milhas                        de 300  800 metros
                                                                                                                                              de altitude
                                                      0                            100                     200 km



figura 19.1 Topografia e recursos naturais do Congo (segundo J. Vasina).
650                                                           frica do sculo xvi ao xviii



mais rica, Ao Norte do baixo Zaire, na regio de Mayombe, que a diviso do
trabalho regional foi a mais avanada. Por volta de 1500, os habitantes da costa
forneciam o sal e o peixe e haviam convertido a plancie costeira de Loango,
nos arredores do esturio do Zaire, em um imenso palmeiral produzindo leo
de palma. Os ribeirinhos do esturio eram ceramistas e, no interior das terras,
produziam-se cobre e chumbo, de Mboko Songho at Mindouli, assim como
ferro, na regio de Manyanga (Nsundi). Mais Ao Norte, perto da borda da flo-
resta, cultivava-se a palmeira rfia e produzia-se tecidos em grandes quantidades.
Enfim, ali e no cerne da floresta, produtos florestais tais como a madeira tintorial
vermelha eram trocados por produtos da savana. Foi ali que nasceu a civilizao
conga. Por sua vez, a civilizao teke desenvolveu-se nos planaltos a partir de
emprstimos a outros grupos da borda da floresta, vizinhos dos grupos congos,
assim como de aportes  ao menos de cunho poltico  provenientes do mdio
Zaire/Congo. O reino teke, mencionado a partir de 1507, talvez seja o mais
antigo de todos, assim como se pensava pelo menos no sculo XVII5.
    O Reino do Congo teve origem na chefia vungu, Ao Norte do rio6. Nessa
poca, chefias, pequenos reinos e conglomerados de chefias cobriam todo o
pas rio abaixo, tanto ao Norte quanto ao Sul. O pai do Reino do Congo, Nimi
Lukeni, fundou Mbanza Kongo na localizao atual de So Salvador e seu
reino constituiu-se tanto por aliana com o chefe local, o kabunga, e com o rei
que, mais ao Leste, dirigia o Mbata, no vale do Inkisi, quanto pela conquista
de outros territrios rumo ao mar e ao baixo vale do Inkisi. No se conhece a
data de formao do reino. Alguns autores chamam a nossa ateno sobre um
processo que comearia, segundo um raciocnio analgico, no sculo IX7. Outros
se limitam  data em si da fundao desse reino, ou seja, entre 1300 e 14008.
    Os estudiosos concordam em pensar que a criao do reino tio seja mais
antiga, embora esse consenso no se sustente em nenhum dado irrefutvel.
Quanto ao reino do Loango, criado nas proximidades de Vungu, no Norte do
rio, alguns pensam que teria chegado a seu auge no sculo XVI, ao passo que
outros, em funo do fato de ele no ter chamado a ateno da metrpole por-
tuguesa antes de 1576, sustentam que, nesta data, no era muito desenvolvido
nem muito antigo. No Sul do Congo, o Estado de Ndongo cujo rei carregava
o ttulo de ngola (que deu origem  palavra Angola), estava em formao por

5     O. Dapper, 1668, p. 219 (traduo alem, 1670).
6     J. Vansina, 1963.
7     Para esse raciocnio, ver M. M. Dufeil, 1980-1981.
8     W. G. L. Randles, 1968, p. 18.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                651



volta de 1500. Contrariamente ao Congo ou ao Loango, que eram coligaes de
grandes provncias, o Ndongo constituiu-se pela conglomerao de um grande
nmero de pequenas chefias, confirmando assim a tendncia para uma organi-
zao estatal de origens muito menos profundas do que no Congo e no Loango.
Alm disso, por volta de 1520, ainda dependia parcialmente do Congo, assim
como as chefias dembo que o separavam do Congo propriamente dito.




figura 19.2   Cermica yombe. Altura: 37,5 cm. [Instituto dos museus nacionais do Zaire/RDC.]
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      Uma hegemonia: o Reino do Congo
    Nos sculos XV e XVI, o Congo era o nico Estado capaz de exercer sua
hegemonia sobre toda a regio, entre o planalto de Benguela e os planaltos
bateke, e desde o mar at alm do rio Cuango. Por volta de 1500, as fronteiras do
Estado beiravam o rio Zaire, do esturio at sua confluncia com o Inkisi e, em
alguns lugares do Norte, estendia-se alm do rio, notadamente no Manyanga.
Inclua a bacia do Inkisi e todas as terras do Sul, at o Loje. Expandia-se em
direo ao Sul, e talvez rumo ao Cuango. Ademais, influenciava todas as enti-
dades polticas, exceto o reino tio, e por vezes arrecadava tributos delas. O reino
propriamente dito era muito povoado, mas apenas dispomos de estimativas
muito aproximativas para determinar o nmero de seus habitantes. A maioria
dos especialistas aceita uma estimativa em torno de 2 milhes. Porm, certo
autor sustenta que teriam sido 4 milhes, e talvez at 8 milhes, ao passo que
outro se recusa a ultrapassar meio milho9. As regies influenciadas pelo Reino
do Congo tiveram, no mximo, uma populao de mesmo tamanho. A do reino
tio devia ser muito baixa, a no ser nos arredores do Pool Malebo.
    Visto o papel crucial do Congo na evoluo histrica da regio, convm
apresentar o esquema de sua organizao. De incio, era dividido entre uma
grande cidade, a capital Mbanza Kongo, e o campo. Ali coexistiam trs cama-
das sociais bem definidas. A nobreza, os aldeos e os escravos diferenciavam-se
por seu estatuto legal, suas atividades e seu estilo de vida. A prpria lngua
expressava essas diferenas graas a uma terminologia que opunha as noes de
"civilizao" e de "educao", ligadas  vida urbana, ao conceito de "rusticidade",
prpria do campo. O mesmo vocbulo significava "escravo" e "cativo de guerra",
indicando assim a procedncia dos escravos10. A nobreza constitua a ossatura
do reino, e a cidade a corrente de transmisso. Os nobres viviam nas cidades,
exceto quando deviam ocupar cargos de comando nas provncias. A alta nobreza
compunha-se dos parentes do rei ou de um de seus predecessores. Constitua-se
em casas bilaterais ligadas entre elas por alianas matrimoniais e pelo fato de
alguns indivduos pertencerem simultaneamente a vrias casas. Frente s aldeias
a nobreza formava um bloco. A matrilinearidade determinava o acesso s terras,


9     J. K. Thornton, 1977a; W. G. L. Randles, 1968, pp. 146-148.
10    J. K. Thornton, 1983b, pp. 17 e 21-22; J. van Wing e C. Penders, 1928: kifuka (urbanidade), kifuka kia
      utinu (corte do rei), uvata (rusticidade), vata (cultivar), evata (aldeia). Esse dicionrio, de 1650-1652, foi
      certamente estabelecido por Reboredo, cnego e primo do rei, e permanece uma das principais fontes
      para o estudo das mentalidades.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                           653



o lugar de residncia e a sucesso  frente da aldeia11. A coeso social era muito
mais fraca entre as aldeias do que no seio da nobreza. O rei nomeava seus paren-
tes prximos para os cargos chave do governo das provncias, da magistratura
superior e da administrao fiscal. A realeza baseava-se em eleies: o conselho
real comportava 12 membros  dos quais 4 eram mulheres  que representavam,
segundo Hilton, os cls dos avs do rei12. Apesar dessa instituio, as lutas de
sucesso eram corriqueiras. Depois de uma dentre elas, opondo os senhores do
Norte aos da capital e do Sul, Nzinga Mbemba, conhecido como Afonso I,
sucedeu a seu pai, Nzinga Nkuwu, em 150613.
    Os reis, por serem grandes polgamos, tinham vrios filhos, e sua casa
alcanava rapidamente grandes propores. Aps vinte e cinco anos de rei-
nado, Afonso j tinha 300 netos e bisnetos14, e certamente o mesmo nmero
de sobrinhos em primeiro e segundo graus. A esposa principal do rei devia ser
a filha ou a irm do governador de Mbata, provncia esta em que o governo
era hereditrio dentro do parentesco matrilinear dos Nsaku Lau. O prncipe
reinante ali se casava, por sua vez, com uma parente prxima do rei. O digni-
trio religioso supremo do reino, o mani kabunga (senhor) de Mbanza Kongo
era oriundo de um ramo de parentesco deste prncipe, os Nsaku Vunda. Tal
dignitrio era responsvel pelo culto do esprito territorial da regio da capital.
Os dois senhores dos Nsaku coroavam o rei. V-se ento claramente como se
constituiu o reino em sua origem.
    O Reino do Congo, apesar de ser governado por uma rede de parentes do
rei, permanecia fortemente centralizado. O rei nomeava os governadores ter-
ritoriais,  exceo daquele de Mbata e, aps 1491, daquele do Soyo onde se
encontrava o porto do reino, em Mpinda. Podia demitir os governadores e outros
funcionrios a seu bel-prazer. A nobreza no tinha cargos hereditrios e vivia no
esquecimento em Mbanza Kongo: a cada gerao, sua hierarquia era redefinida
em relao aos novos reis. A centralizao era ainda reforada pela existncia de
uma moeda cuja emisso o rei controlava. Tratava-se de conchas de olivancilaria
nana, chamadas de nzimbu, procedentes das pescarias de uma ilha que fazia
parte do reino, a de Luanda. A centralizao tambm era perceptvel em nvel

11   A. Hilton, 1985, d uma srie de indicaes; a prova vem de J. van Wing e C. Penders, 1928: unguri
     (parentesco), unguri ankana (senhoria, ttulo ainda em uso por volta de 1900 entre os suku do Sul) e
     nguri (me). O prefixo u- indica o abstrato, e a expresso traduzida por "senhoria" indica que se percebia
     o territrio como um parentesco alargado, unguri significando "o princpio da me".
12   A. Hilton, 1985, p. 194.
13   L. Jadin e M. Dicorato, 1974, pp. 54-64.
14   Ibidem, p. 181.
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                                                                                                 aire
                                                                                                  Z
        lu
                                                                   REINO TIO




                                                                                               io
                                                                                                R                           o
       Kui

                                                                                                                         ang
                                   Rio Niari                              Cataratas de                              Cu
                                                                                                             R io
      Rio



                                                                            Malebo

                                                                         Ngombela
                                                                                               Zona
     Loango                                                                              de influncia TIO    Takundi
                                                         aire
            LOANGO                                  oZ             NSUNDI




                                               Ri
              CACONGO
                    VUNGU                                  io




                                                         R
                                                              K   uilu       MPANGU                         JAGA
               NGOI
                                                                             MBATA

               Mpinda                                   Mbanza Congo
                 SOYO
                                  REINO
                                  CONGO
                                      Rio Mbrige




                                  Rio Loje
                                                     DEMBO
                                                                                   Zona                    MATAMBA
                                                                               de influncia
                                                         Rio Dande
                                                                                 CONGO

                 Ilha de Luanda          Rio
                                             B   engo

                                                                                         Rio Lukala
                                  Rio C             NDONGO
                                       uan
                                               za


                                               0                   50           100 milhas

                                               0                   80           160 km



figura 19.3     O Reino do Congo e seus vizinhos no sculo XVI (segundo J. Vansina).




militar. Cerca do fim do sculo XVI, a guarda real era composta por 16.000 a
20.000 escravos15 e constitua a nica fora armada permanente do reino. Em
caso de guerra no exterior, o recrutamento dos camponeses organizava-se em
unidades territoriais. Cada casa de nobres, organizada em torno de um grande



15    F. de Pigafetta, 1591, p. 120; A. Hilton, 1985, p. 196.
                                                                                                             O Reino do Congo e seus vizinhos
                                                                                                             655
figura 19.4   So Salvador, capital do Reino do Congo, no stio de Mbanza Kongo. [Fundao Dapper, Paris.]
656                                                                      frica do sculo xvi ao xviii



homem, tambm tinha seus prprios homens (subordinados e escravos), e a casa
real disponha, alm do mais, de escravos enviados por toda a nobreza.




figura 19.5 Vaso nzimbu. [Museu universitrio de Kinshasa, Zaire/RDC.]



    A ideologia da realeza (nkisi) decorria das concepes religiosas gerais. Trs
cultos importantes nela desempenhavam um papel: o dos antepassados cujo
lugar sagrado era o bosque do cemitrio real, o dos espritos territoriais (o esp-
rito de Mbanza Kongo era zelado pelo mani kabunga, o clero encarregado dos
espritos, tanto no nvel da aldeia quanto do reino) e o dos sortilgios reais. Essa
noo de nkisi era fundamental. Os cristos retomaram esse termo com o sentido
de "sagrado". Chamavam a igreja de "casa do nkisi", a bblia de "livro do nkisi",
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                           657



o sacerdote de nganga do nkisi16, nganga sendo por sua vez o termo consagrado
para desgelar um especialista em religio, principalmente em nkisi. Atribuam-se
as doenas e desgraas aos ndoki (feiticeiros), estes ltimos podendo ser desco-
bertos pelos nganga ngombo (adivinhos), por vezes com a ajuda de ordlios. O
emprego de orculos, inclusive o do veneno na administrao da justia, assim
como a eterna suspeita de que o rei seria um feiticeiro, remetiam a essa noo
de nkisi. A realeza era sagrada. Endereava-se ao rei chamando-o de Nzambi
Mpungu (criador supremo). Esse carter sagrado expressava-se pela etiqueta e
pelas cerimnias da corte, principalmente a cerimnia de investidura. Ao dar sua
tumba (beno), o rei protegia os oficiais reais e, em geral, garantia a fecundidade,
principalmente graas a seu poder sobre o regime das chuvas17. Quem repre-
sentava o nkisi do pas, no sentido real e profundo do termo, era o prprio rei.
    As estruturas dos reinos vizinhos eram diferentes, mas sua ideologia quase
idntica. Esses reinos eram menos centralizados do que o do Congo. No Loango,
as casas nobres no haviam suplantado os grupos matrilineares e, como classe,
eram bem menos coerentes do que no Congo18. O Ndongo no tinha estrutura
territorial acima da pequena aldeia tribal, fraqueza esta compensada por seu
sistema militar19.
    A vitria de Afonso I marcou o incio do mais longo reinado do Congo, ou
seja, de 1506 a 1543. O papel desse rei foi fundamental abriu o pas a Portugal,
acarretando assim uma considervel reorganizao poltica e econmica, bem
como uma assimilao voluntria de elementos do cristianismo que acabou por
se implantar ali de forma definitiva. Cristo desde 1491 e protetor dos raros
missionrios antes de 1506, esse chefe de faco, uma vez rei, transformou
rapidamente a Igreja catlica em religio de Estado. Seu filho Henrique, como
bispo consagrado em Roma, esteve  frente da Igreja do Congo de 1518 a 1536.
Em seguida, o controle do bispado caiu nas mos dos portugueses. O trfico
negreiro intensificou-se a partir de 1514. Da mesma forma que o soberano de
Portugal, Afonso I quis controlar o trfico graas  organizao de monoplios
reais antes de tentar aboli-lo em 1526. No funcionou e os monoplios reais
foram constantemente desrespeitados pelos afro-portugueses de So Tom e os

16   F. Bontinck e D. Ndembe Nsasi, 1978: nzo amuquissi (p. 269), nganga (p. 269), muquissi mucanda ua ucua
     (p. 268), unganga (p. 271), uquissi (santidade, p. 271); J. van Wing e C. Penders, 1928: mukisi (malefcio,
     sortilgio, crime de envenenamento), mas ukisi (santidade, divindade, vontade divina) e kia ukisi (santo,
     sagrado).
17   O. Dapper, 1668, p. 583. A respeito de tumba, ver a comunicao pessoal de T. Obenga.
18   Em geral, ver P. M. Martin, 1972, e O. Dapper, 1668, que descrevem detalhadamente o Loango.
19   Sua estrutura  descrita por B. Heintze, 1970 e 1977 (para o Kisama).
658                                                                             frica do sculo xvi ao xviii




figura 19.6 Nobres congos do reino do Loango vestindo aventais de pele de gato. [Fonte: O. Dapper, 1686.
 Fundao Dapper, Paris.]



vizinhos do reino, tanto na costa do Loango quanto no Ndongo, e at mesmo
em Luanda, parte integrante do reino. O rei usou os recursos obtidos com o
trfico de escravos e com o comrcio de marfim e de tecidos de rfia para trazer
tcnicos e, sobretudo, missionrios portugueses. Antes do fim de seu reinado, a
vida sociopoltica transformara-se completamente. A diferena entre nobreza
e os plebeus acentuara-se,  medida que a nobreza se tornava letrada e crist,
alm de tomar parte no trfico de escravos. As pessoas comuns eram duramente
exploradas20. A casa real foi reforada pela importao de escravos do Pool e de
outras regies para a guarda real, assim como pelo crescimento da descendncia
de Afonso, a ponto de comprometer sua sucesso. Todos os reis a seguir seriam
descendentes de Afonso, oriundos de uma ou outra de suas trs principais filhas.
O nmero sempre crescente de pretendentes ao trono levou a uma ciso da casa
real em casas inimigas e, por fim, aps 1665, a uma guerra civil que destruiu
o reino tal como era antes dessa data. A presena de portugueses na cidade
introduziu uma nova dimenso poltica. Ligados por casamento a diversas casas
nobres, eram divididos entre afro-portugueses e enviados metropolitanos que


20    L. Jadin e M. Dicorato, 1974, p. 179: "Zelai tambm para que os grandes de seu reino no inflijam maus
      tratos ao povo humilde" (fim de 1529).
O Reino do Congo e seus vizinhos                                            659



animaram partidos opostos na corte at 1665 e intervieram em todas as lutas
de sucesso.
    O comrcio intercontinental, muito fraco at 1506, intensificou-se com o
trfico de escravos. Este foi mal organizado de 1515 a 1526, ano em que foi
efetivamente regularizado. Desde ento, apenas estrangeiros, vindos princi-
palmente do Pool e talvez do vale do Cuango, e criminosos podiam se tornar
escravos. J antes de 1529, a comunidade mulata da capital enviava ao Pool seus
pombeiros, palavra procedente de pombo, nome dado s pessoas do Pool em
kikongo. A origem primria desses escravos permanece desconhecida. Muitos
eram bateke, mas alguns eram certamente oriundos de outras regies, donde
eram encaminhados pelos rios rumo ao Pool. As exportaes totalizavam por
volta de 4000 a 5000 escravos por ano at cerca de 1540 e de 6000 a 7000 aps
essa data21. As importaes eram certamente mais importantes a partir do Pool.
De fato, havia um grande nmero de escravos em Mbanza Kongo, no somente
formando a guarda real, mas tambm trabalhando nas exploraes agrcolas
que cercavam a capital. Outros tambm trabalhavam no porto de Mpinda e no
squito dos nobres das provncias. Alm desse comrcio controlado, um trfico
clandestino levado a cabo pelos habitantes de So Tom surgiu aps 1526 (fim
das exportaes do reino do Benin), nos confins setentrionais e meridionais
do reino, mas no chegou a ser realmente importante, com exceo de Luanda
onde as guerras de expanso de Ndongo permitiram a captura de um grande
nmero de escravos.
    Portugal interessou-se muito pelas riquezas minerais do pas e quis domin-
-las. No decorrer do sculo XVI, os portugueses acreditaram que o Congo estava
repleto de minas de ouro, das quais almejaram controlar a explorao. O rei do
Congo, por sua vez, buscava conservar o controle total da explorao do cobre
de Bembe e da fabricao do ferro em Mbanza Kongo. Os diferentes reis que
se sucederam nunca permitiram a prospeco mineira e frearam as exportaes
de cobre que, antes de 1506, haviam despertado a cobia portuguesa. Por seu
lado, o soberano portugus proibiu a venda de navios ao Congo e ops-se s
tentativas do reino para estabelecer seu prprio sistema de transporte rumo a
So Tom ou a Europa. Os portugueses continuaram controlando o comrcio
e fizeram deste um instrumento de trocas a eles favorvel. A corte do Congo
usava os rendimentos desse comrcio para pagar os tcnicos e os missionrios
portugueses, assim como para que os nobres do pas pudessem estudar em Por-


21   Ibidem, p. 203 (1536); P. E. Lovejoy, 1983, pp. 37-38.
660                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



tugal. Desde o incio, uma boa parte desses rendimentos foi tambm absorvida
pela importao de tecidos, de vinho e de objetos de luxo que o rei redistribua
 nobreza. Tais produtos de importao tornaram-se rapidamente uma neces-
sidade ostentatria para a nobreza, e a partir do fim do reinado de Afonso I, a
totalidade dos rendimentos servia para sua aquisio.
    Sob os sucessores de Afonso I, e apesar das tentativas de Diogo I para limitar
os efeitos da incurso europeia, as mesmas tendncias prevaleceram. A potncia
relativa do Reino do Congo diminuiu, principalmente em relao ao Ndongo
que, por sua vez, fortalecia-se graas, notadamente, ao trfico clandestino com
So Tom. Em 1561, o Reino do Congo isolou-se quase totalmente de Portugal.
Porm, em 1566 e 1567, o falecimento sucessivo de dois reis durante uma guerra
contra os tio do Pool acarretou uma situao desesperadora que se tornou uma ver-
dadeira catstrofe com a irrupo de guerreiros provenientes do Leste, os jaga.


      Trs Estados: 15751640
    Os jaga derrotaram as foras reais, e a corte foi obrigada a se refugiar em
uma ilha do baixo Zaire. Inmeros refugiados foram vendidos como escravos
aos habitantes de So Tom. O rei do Congo teve de apelar para Portugal, e este
enviou um corpo expedicionrio que reconquistou o pas de 1571 a 1573. Porm,
as tropas no se retiraram antes de 1575 ou 1576. A hegemonia do Congo na
regio estava aniquilada, j que, em 1575, foi fundada a colnia de Angola, o
que levou um grande nmero de portugueses a comerciar em Loango a partir
do mesmo ano.
    A identidade dos invasores do Reino do Congo nunca foi estabelecida22. O
nome jaga (em kikongo: yaka)  usado nas fontes como sinnimo de brbaro e
aplicado a uma srie de guerreiros mais ou menos nmades. Os primeiros jaga
apareceram ao Leste do Mbata, ou no Sul do Pool, e da ganharam as margens
do Cuango. A invaso h de ser ligada s guerras congo-tio e, provavelmente,
 interrupo de qualquer trfico aps 1561. Pensa-se que muitos habitantes
das zonas rurais, exasperados com a explorao da nobreza, vieram se juntar s
fileiras dos invasores. Desejavam certamente pegar sua parte da riqueza gerada
pelo trfico, pois que, uma vez vitoriosos, retomaram por conta prpria a venda


22    O ltimo artigo de um debate que incluiu D. Birmingham, J. Vansina, J. C. Miller, J. K. Thornton, F.
      Bontinck e A. Hilton (de 1963 a 1981!) foi escrito por A. Hilton, "The Jaga reconsidered", e prope que
      eles sejam os ancestrais dos yaka do Cuango.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                                                                                 661




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                                                                                  NDI
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                                                                                                 CO
                                                                                                                                          Mashita Mbanza




                                                                                       00-
                                                                                                                                                              PENDE


                                                                                     a15
                                                  Mpinda
                                                               1491-1661                Mbanza Congo

                                                                                 o




                                                                                                                 Rio
                                                                     SOYO     dire




                                                                                                                                                       1630
                                                                                                                     Cu
                                                                                                                       an
                                                                            Em


                                                                                           Cu




                                                                                                                          go




                                                                                                                                                   s de
                                                           Ambriz




                                                                                                                                                Ante
                                                                                                                      Matamba
                                                            Mossul                   DEMBO
                                                           Luanda
                                                                              NDO
                                                                                       NGO

                                                                                                                                   Cassange
                                                                                                                           Rio C


                                                                              Benguela Velha
                                                                                                                              ua
                                                                                                                                   nz
                                                                                                                                     a



                                                                          Benguela


                                                               Caconda Velha
                                                                                                Caconda Nova
                                                           0              60 milhas
                                              Rio
                                                  L
                                                           0              100 km                              Cu               Cobre
                                                  o je




          Batalha de Bumbe
                                                                                                                               Rede
                                                 Batalha de Mouela                Forte                                        comercial vili
                D                    E            M
                                                               B                                                               Rede
                                   nde
                             Rio Da                                       O                                                    comercial angolano
                                     Rio B
     Luanda                               eng
                                             o
       1576    N                 D            O                      Ambaka
                                 Massangano       N                   1618
                                                                     G                                0                       100                      200 milhas
                                    1593    Rio Lukala
                                                           Rio Cu             O
                      Muxima                                     anz a                                0                      150                       300 km
                       1599               Cambambe
                                            1604




figura 19.7 Os reinos e o comrcio na regio do Congo no sculo XVII, com o mapa do Ndongo ampliado
no quadro abaixo (segundo J. Vansina).
662                                                                frica do sculo xvi ao xviii



de escravos na costa. Nenhum dado, mesmo que indireto, permite sustentar que
uma seca levou os jaga a invadir o Reino do Congo.
    Paulo Dias de Novaes empenhou-se to bem quando da sua estadia na
corte do Ndongo que obteve da corte de Portugal um contrato de conquista e
de colonizao. Essa colnia receberia o nome de Angola, nome este inspirado
do ttulo do rei do Ndongo. Paulo Dias chegou em 1575 e fundou Luanda no
ano seguinte.. Ali se consagrou ao trfico de escravos e tentou sobrepujar uma
comunidade de afro-portugueses oriunda de So Tom que o havia precedido
na regio. Esse grupo cedeu-lhe o lugar e instalou-se na corte do ngola. Porm,
em 1579, presses metropolitanas obrigaram Dias a executar seu contrato. O
rei do Ndongo, aps ter sido informado de tal fato, mandou massacrar pre-
ventivamente todos os portugueses de sua corte e forneceu assim o pretexto
para uma guerra que iria durar quase um sculo, at 1671. No incio, a situao
militar variava muito j que as alianas locais se dividiam entre os adversrios.
Entretanto, os portugueses conseguiram, no sem esforo, erguer algumas for-
tificaes no interior das terras. A partir de 1612, contudo, uma aliana se criou
entre os portugueses e os mbangala (chamados jaga), comunidades de guerreiros
nmades que j viviam de rapina na regio antes de 1600. Com a ajuda deles,
e principalmente a dos jaga kasanje, os portugueses ocuparam uma boa parte
do reino de 1617 a 1621, e o rei se refugiou no Leste do pas. Os aliados arra-
saram a regio conquistada, causando a runa de todo o pas. Mesmo o trfico
de escravos se interrompeu e a fome se alastrou23. Um tratado de paz foi ento
elaborado em 1622 e 1623, sendo o ngola representado por sua irm, Nzinga
Mbande, que foi batizada em Luanda com o nome de Anna. Todavia, colocou-se
 frente de um partido antiportugus. O rei morreu no incio do ano de 1624
(homicdio ou suicdio?), Nzinga tornou-se regente, e depois rainha em 1626.
Enquanto isso, os jaga kasanje ocupavam sempre a melhor parte do Ndongo.
Portanto, a partir de 1626, os portugueses retomaram a guerra contra Nzinga,
mas tambm contra Kasanje, e tentaram impor um rei fantoche. No decorrer
das operaes, Kasanje fundou uma base no vale do Cuango em 1626, a partir
da qual edificou o Estado imbangala na dcada de 1630, ao passo que Nzinga
conquistou o reino de Matamba que ela transformou em um formidvel centro
de oposio ao regime portugus24. Quando os holandeses ocuparam Luanda,
Nzinga aliou-se a eles contra Portugal.


23    D. Birmingham, 1966, pp. 30-89.
24    B. Heintze, 1977; J. C. Miller, 1975a e 1976, pp. 151-264.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                  663



    A colnia de Angola, dirigida por um governador nomeado a cada trs anos
por Lisboa era dividida entre a cidade de Luanda e alguns presdios. Luanda
era regida por um conselho municipal e um governador, ao passo que capites
militares administravam os territrios circundando seus presdios. A estrutura
administrativa era de tipo feudal, no sentido restrito do termo, e decorria legal-
mente de contratos de vassalagem que ligavam os sobas (chefes subalternos) 
corte portuguesa mediante a ligao deles com os amos (senhores portugueses),
e, mais tarde, mediante o contrato de vassalagem com os governadores e os
capites. Os rendimentos do Estado e de seus representantes provinham das
exaes feudais, todas pagveis em escravos, sejam elas devidas em bens ou em
corveias. Tal regime apenas foi alterado no sculo XVIII graas  introduo de
um imposto de capitao e  reduo das relaes de vassalagem a um instru-
mento legal justificando os direitos soberanos de Portugal25.
    Enquanto isso, o Congo recuperou-se. Apesar do esfacelo de sua hegemonia
e das lentas mutaes na estrutura da classe nobre, o reino permaneceu firme
e expandiu-se em direo ao Leste. Porm, seu territrio reduziu-se no Sul,
sobretudo em 1622, com a perda das pescarias da ilha de Luanda e de terras
do interior da cidade de Luanda. Um importante exrcito congo, de origem
provincial, foi derrotado em Bumbe pelos angolanos, aliados aos jaga, mas a
guerra terminou a, principalmente em funo de uma mobilizao geral conga.
O Congo conseguiu tambm repelir outras tentativas de colonizao portuguesa
graas a uma aliana diplomtica com o Vaticano e ao contrapor Portugal 
Espanha, conseguindo at opor estes dois ltimos pases aos Pases Baixos. A
mais sria perda do reino foi a da provncia martima de Soyo, com o porto
de Mpinda. Aps 1636, essa provncia tornou-se independente, embora seu
prncipe tenha conservado o direito de intervir na eleio do rei do Congo. No
mesmo ano, a casa nobre dominante perdeu a eleio em proveito de uma casa
rival. Os eleitores enfraqueceram-se a tal ponto que, em 1641, Garcia II, com o
apoio de sua casa, tomou o poder sem precisar deles26.
    J antes de 1600, o Loango tornara-se uma grande potncia. Seu territrio
estendia-se da laguna Fernn Vaz at o Sul de Pointe-Noire e inclua prova-
velmente a maior parte do vale do Ngouni e uma parte da plancie do Niari.
Ademais, sua influncia cultural, transmitida pelo comrcio, estendia-se muito




25   B. Heintze, 1970.
26   J. K. Thornton, 1983b, p. xiii; J. Vansina, 1965, pp. 101-104, 107-109, 130-134 e 138-142.
664                                                                          frica do sculo xvi ao xviii




figura 19.8    A corte do rei do Loango, 1668. [Fonte: O. Dapper, 1686.  Fundao Dapper, Paris.]



alm. Encontram-se vestgios dessa cultura at o Norte do esturio do Gabo.
Porm, quase nada se sabe da evoluo poltica do Loango antes de 170027.
    O Loango praticava o comrcio de marfim, produzido entre outros pelos
pigmeus, de peles, de madeira vermelha, de tecidos de rfia, mas exportava
relativamente poucos escravos. Esse trfico dava-se com afro-portugueses que
cabotavam frutuosamente entre a costa do Benin, So Tom, Loango e Luanda.
Os tecidos de rfia do Loango tornaram-se a moeda usual em Angola onde, a
partir de 1600, comearam a entrar em concorrncia com os do Leste do Reino
do Congo28. Ademais, os holandeses chegaram no Loango e no Soyo na mesma
poca. O Loango, por no ser catlico, ao contrrio de Mpinda, oferecia-lhes

27    P. M. Martin, 1972, pp. 1-32; D. Ngoie Ngalla, 1978 e 1982.
28    P. M. Martin, 1972, pp. 33-52.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                          665



uma base comercial melhor, e, desde o incio, o rei colaborou com eles29. Os
navios holandeses traziam mercadorias de melhor qualidade a um preo mais
vantajoso do que os portugueses. Tambm compravam cobre e vendiam fuzis e
plvora. Disso resultou que os comerciantes da costa do Loango, os vili, organi-
zadores do trfico de caravanas rumo ao interior, estenderam sua redes de uma
forma impressionante. J em 1626, encontravam-se no Sul do Dande30 e, por
volta de 1650, comerciavam em Mbanza Kongo e tambm no Matamba e no
Kasanje. Sua rota principal conduzia ao Pool, passando pelas jazidas mineiras do
Nsundi, onde os vili extraam ferro e, talvez, cobre. Ao longo da costa, chegaram
ao Gabo, at a confluncia do Ngouni com o Ogoou.
    Nesta poca, a rede vili concorria com as redes existentes, no somente no que
diz respeito  venda de marfim ou de tecidos, como tambm no que concerne
o trfico de escravos. A rede do Congo e de Angola foi abalada pela criao de
Luanda que, de incio, j exportava mais escravos do que Mpinda: as primeiras
exportaes oscilaram entre 12.000 e 13.000 escravos, principalmente prisionei-
ros de guerra31. Em 1625, o total de escravos exportados legalmente chegou a
11.000, nmero este que diminuiu de 1618 a 1640, sem, contudo, baixar muito
aqum de 10.000 por ano. Logo aps o incio do trfico, os escravos comearam
a ser cada vez mais comprados no interior, quer no Pool (sem passar por Mbanza
Kongo), quer na feira de Ocanga, no rio Cuango. Dali, uma rota de caravana
atravessava o Cuango rumo ao Kwilu32. Enfim, a partir de 1630, escravos vindos
de alm do Cuango comearam a chegar em Luanda, por Matamba e Casange,
a capital do Kasanje.
    Esses acontecimentos desfavoreceram o Congo, j que sua capital no cons-
titua mais o entreposto obrigatrio das mercadorias e dos escravos, continu-
ando contudo a traficar escravos, porm em menor escala. Ademais, sua moeda
depreciou-se muito, pois os portugueses haviam importado outras conchas alm
do nzimbu. Em 1619, este perdera dois teros de seu valor, e o rei dois teros



29   Ibidem, pp. 42-45.
30   B. Heintze, 1977; P. M. Martin, 1972, pp. 69-70.
31   B. Heintze, 1977.
32   No que tange a Ocanga, L. Jadin e M. Dicorato (1974, p. 175, nota 9) pensam que, j em 1529, o plural
     de pumbo se referia a essa feira. Mencionado como reino a partir de 1584 e, depois, como ponto de partida
     de uma rota de caravanas, Ocanga  regularmente citada at cerca de 1640. Sabe-se que por volta de
     1680, a feira e a estrada do Kwilu foram abandonadas pelos mercadores. Influncias congas e europeias
     certamente penetraram por essa estrada at o pas kuba ( J. Vansina, 1978, pp. 187-191). O famoso stio
     de Mashita Mbanza encontrava-se talvez ao longo desse caminho, no muito longe do Kwilu (Kodi
     Muzong, 1976, pp. 179-183).
666                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




figura 19.9    O porto de Luanda no sculo XVII. [Fonte: O. Dapper, 1686.  Museu Nacional de Angola,
Luanda.]



de seus rendimentos33. Mas ele conseguiu reverter a situao e a moeda voltou
gradualmente a seu antigo valor. Finalmente, os rendimentos do rei e da nobreza
sofreriam muito mais com o desvio da rota comercial para Luanda e Loango.
   Nesta poca foi introduzida a cultura do milho (entre 1548 e 1583) e, depois
de 1600, a da mandioca, do tabaco34 e provavelmente do feijo, do amendoim e
de outras plantas americanas,  exceo dos ctricos que j podiam ser encontra-
dos na costa antes de 1600. O porco  mencionado a partir de 158335 e tratava-se
certamente de um animal importado. Propagou-se principalmente no Congo e
em Angola central.
   No sculo XVII, as plantas importadas do Novo Mundo transformaram a
agricultura, notadamente a partir de 1650, pois elas permitiram aumentar os
rendimentos e, graas  mandioca, evitar a carestia durante as eventuais secas
ou em tempos de guerra. A mandioca acabou por ser cultivada ao longo das
rotas comerciais, j que garantia tambm o abastecimento dos escravos. Em
funo disso, o nvel geral de nutrio melhorou. Porm, desde 1560, a varola,
importada da Europa, apareceu e tornou-se um flagelo recorrente.



33    J. Cuvelier e L. Jadin, 1954, pp. 306-312.
34    J. Vansina, 1978, pp. 11-13.
35    B. Heintze, 1977, p. 773; A. Brasio, 1952-1971, vol. II, p. 510.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                     667



   A primeira metade do sculo XVII viu portanto evoluir as condies nutri-
cionais e sanitrias e marcou o surgimento do trfico de escravos. Tudo isso
acarretou inevitavelmente uma nova dinmica demogrfica da qual ignoramos
os detalhes. Pensa-se contudo que a populao de Angola teria diminudo36.


     Rumo a uma nova ordem: 16411700
    Os holandeses tomaram Luanda em 1641 e ocuparam uma grande parte da
colnia angolana at a chegada de uma frota, armada no Brasil, que os expul-
saria em 164837. Desde ento, os brasileiros dominaram o comrcio de Angola,
totalmente at 1730 e parcialmente depois dessa data. Tambm em 1641, Gar-
cia II tornou-se rei do Congo e, da mesma maneira que Nzinga, aliou-se aos
holandeses. A Restaurao deixaram-nos frente a um importante exrcito por-
tugus com o qual tiveram de negociar. O Kasanje, que no se envolveu com
as guerras, assinou um tratado de amizade com os portugueses e tornou-se seu




figura 19.10 A baia e a cidade de So Paulo de Luanda durante a ocupao holandesa, por volta de 1640.
[ Museu nacional de Angola, Luanda.]



36   Mesmo J. K. Thornton (1981b), cujo modelo nos parece otimista demais (p. 685, um quarto em vez de
     um tero de mulheres dentre os escravos e omisso das crianas mais novas), concluiu por um declnio
     da populao no sculo XVIII (p. 713).
37   C. R. Boxer, 1952; A. da Silva Rego, 1948.
668                                                           frica do sculo xvi ao xviii



aliado durante mais de um sculo. Enquanto isso, a partir de 1645, chegara no
Congo um afluxo de missionrios capuchinhos italianos, o que ajudou Garcia II
a tratar com os portugueses. A nova afluncia missionria no Congo e, depois,
em Angola traria 400 missionrios  quase todos durante o sculo XVII  e
aceleraria o processo de cristianizao de inmeras regies rurais do Congo,
mesmo quando do desmoronamento do reino, j que as desavenas a respeito do
tratado provocaram sua invaso pelos angolanos. Antnio I, do Congo, declarou
a guerra, juntou todos seus nobres e foi derrotado na batalha de Mbwila em
1665, sem dvida a maior batalha do sculo38. Ele foi morto junto a numerosos
nobres. Porm, em 1670, um segundo exrcito portugus foi to desastrosamente
derrotado no Soyo que Angola ps fim a suas tentativas de conquista do Congo.
Em 1671, o ltimo vestgio do Ndongo foi conquistado e, por volta de 1680,
a paz fora imposta ao Matamba (Nzinga), ao Kasanje e aos chefes do Sul do
mdio Kuanza. A conquista chegava a seu fim.
    O Reino do Congo no se recuperaria da batalha de Mbwila. A sucesso
real acarretou logo uma guerra civil entre casas nobres. O conflito degenerou,
provocando a primeira destruio de Mbanza Kongo, em 1666, e seu completo
abandono, em 1678. J que a cidade constitua o piv do sistema poltico, o
conjunto desmoronou. Quando, por fim, um rei nico retornou em Mbanza
Kongo em 1709, seu reino no era mais uma entidade centralizada, mas um
conjunto de principados muitas vezes ainda dilacerados por lutas internas entre
pretendentes. Tudo se desfez, com exceo do Soyo que, todavia, teve as maiores
dificuldades para permanecer unido, obrigando-o a abandonar alguns distritos.
A nobreza, aps ter abandonado Mbanza Kongo entre 1666 e 1678, teve que se
adaptar  vida rural e lutou para reconquistar o poder. Durante e depois desse
perodo, uma boa parte dentre ela atravessou o rio rumo ao Norte e foi fundar
ali pequenos principados, no Mayombe e entre os rios Zaire e Niari.
    Foi um total e completo transtorno que derrubou os prprios fundamentos
da sociedade e abalou sua viso do mundo, a tal ponto que surgiram profetisas.
Em 1704, Dona Beatriz Kimpa Vita, tal Joana d'Arc, comeou a pregar um cris-
tianismo renovado, chamado de antonionismo. Ela rejeitava os missionrios e os
brancos, mas exortava sobretudo os pretendentes ao trono a abandonarem essa
luta, a restaurarem um rei e a repovoarem Mbanza Kongo. Obteve um grande
sucesso popular (ela pertencia  pequena nobreza) e convenceu um candidato
ao trono a se estabelecer em Mbanza Kongo onde lhe cobriu a cabea com a


38    C. R. Boxer, 1960a; J. K. Thornton, 1983b, pp. 73-83.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                   669




Figura 19.11 Painel decorativo de azulejos da fachada principal da igreja Nossa Senhora de Nazar, em
Luanda, 1665. [ Museu Nacional de Angola, Luanda. Foto: D. Wade.]




Figura 19.12 Detalhe do painel precedente representando a cabea do rei Antnio I, sepultado na igreja.
[ Museu Nacional de Angola, Luanda. Foto: D. Wade.]
670                                                                    frica do sculo xvi ao xviii



coroa negra antoniana. Porm, em 1706, foi capturada pelo pretendente Pedro II
e queimada como herege. Seu movimento perdurou ainda alguns anos39. Pedro
II restaurou o reino e repovoou Mbanza Kongo sem contudo conseguir apagar
os efeitos de uma evoluo poltica de quarenta anos.
    Com o Reino do Congo desapareceu a organizao de um grande territrio.
Seu quadro estrutural, tal como aquele de Angola, tornou-se doravante eco-
nmico, sendo sua ossatura formada pelas rotas comerciais e seus pivs pelos
lugares de transbordamento. Angola, apesar de haver se expandido por volta
de 1680, encontrou-se tambm enfraquecido. Os governadores e a Cmara de
Luanda no conseguiram mais se impor frente aos quimbares e aos ovimbali
(afro-portugueses) que fizeram ento sua apario nas fontes documentrias,
tampouco frente aos comerciantes brasileiros. O controle da colnia escapava-
-lhes cada vez mais. No Loango, o Estado ainda parecia forte. Entretanto,
quando o rei faleceu em 1701, uma "irm" de vinte cinco anos ocupava a regn-
cia e seu conselho governava. Foi preciso mais de um ano para eleger um novo
rei40. Em um reino to voltado para o comrcio, esperava-se que os membros do
conselho de regncia fossem tambm dirigentes de empresas comerciais e que
a realeza, apesar de todo o seu prestgio religioso, comeasse a ser repensada no
que diz respeito  sua autoridade sobre o comrcio.
    Na periferia das zonas de trfico de escravos, alguns Estados fortaleceram-se
graas a um comrcio em plena expanso controlado por eles ou, pelo menos,
permaneceram firmes enquanto o controlavam. O Kasanje tornara -se uma
grande potncia no rio Cuango, pois controlava, aps 1648, um crescente fluxo
de escravos, dos quais uma parte, por volta de 1680, provinha do longnquo
Lunda. Ao edificar seu reino a partir de elementos muito diversos a partir de
1630, deslocou uma parte da populao original, os pende, que tiveram que
emigrar para o outro lado do Cuango41. Por medo de serem saqueados, os pende
partiram rumo ao Nordeste, em direo a Mashita Mbanza, um municpio
prximo ao Kwilu, e depois rumo ao Leste, at o mdio Kasa, onde formaram
chefias42. No Norte, o reino tio manteve-se aparentemente sem grandes mudan-
as, mas mencionam-se outros reinos na mesma regio, entre os quais alguns
certamente se formaram no sculo XVII43.


39    A. C. Gonalves, 1980.
40    P. M. Martin, 1972, pp. 162-163.
41    Kodi Muzong, 1976, pp. 91-169.
42    Ibidem, pp. 170-267.
43    Notadamente o reino boma de "Giriboma", ver E. Sulzmann, 1983.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                  671




Figura 19.13 Painel decorativo de azulejos da igreja Nossa Senhora de Nazar, em Luanda, representando
a batalha de Mbwila. [ Museu Nacional de Angola, Luanda. Foto: D. Wade.]



    A conquista holandesa e a Restaurao acarretaram efeitos econmicos
importantes. Moedas, tecidos e nzimbu foram depreciados. A pea de rfia,
de 12 ris em 1640, caiu para 5 ris em 1649. Apesar dessa queda, o governo
no conseguiu introduzir uma moeda de cobre e a cotao do tecido subiu de
novo. Em Soyo, em 1813, a pea negociava-se por 10 ris. O nzimbu, por sua
vez, caiu de 2000 ris o cofo (unidade) em 1640 para 1600 em 1649. As guerras
civis aceleraram essa queda at 800 ris, em 1698, e, aps essa data, houve uma
estabilizao em torno de 1000 ris44. Tais evolues no se deram unicamente
em funo do movimento poltico, mas comearam a refletir uma transformao
econmica que se tornaria radical.
    Em Angola, essa transformao consistiu na reorganizao do trfico de
escravos pelos brasileiros. Estes forneciam capital, navios e mercadorias euro-
peias, e agiam, por intermdio de seus agentes de Luanda e de Benguela, em


44   J. Cuvelier, 1946, pp. 309-312.
672                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



colaborao com os organizadores de caravanas, ou seja, os escravagistas afro-
-portugueses. Os capitais portugueses eram investidos no Brasil, e no dire-
tamente em Angola, pelo menos at 1730. Como havia falta de escravos em
Angola, os comerciantes incentivavam a guerra, pois esta gerava cativos para a
compra. As grandes firmas de Lisboa calculavam que os lucros procediam das
mercadorias e no dos escravos e, por isso, tentavam possuir o menor nmero
possvel de cativos. Importavam mercadorias compradas dos capites e dos
afro-portugueses em troca de letras de cmbio que eram convertidas em acar
do Brasil ou em marfim local45, sendo o Brasil o principal parceiro comercial
delas.
    A situao da costa de Loango era totalmente diferente. Em virtude de
uma insacivel demanda de escravos procedente das colnias antilhanas, os
navios ingleses e franceses apareceram na regio a partir dos anos 1660-1665
e iniciaram uma feroz concorrncia com os holandeses, que comearam tam-
bm a comprar grandes quantidades de escravos. Aqui, o comrcio triangular
era organizado por companhias financiadas na Europa. O trfico de escravos,
inicialmente favorecido pelas convulses do Congo, desenvolveu-se, em seguida,
essencialmente graas s compras e no mais graas s capturas. O forneci-
mento regular de escravos pelas caravanas vili, que os compravam em feiras to
longnquas quanto as do Pool ou de Casange, era bem superior ao provimento
constitudo pelos prisioneiros de guerra. Foi nessas condies que se iniciou o
verdadeiro trfico de escravos, chegando este a seu auge no sculo XVIII.

      As transformaes sociais e culturais dos sculos XVI e XVII
   Trataremos aqui principalmente do Congo, j que dispomos de mais infor-
maes a esse respeito. A diviso em trs camadas sociais, a dos mwisikongo
(nobres), a dos babuta (camponeses; singular: mubata,) e a dos babika (escravos;
singular: mubika,), subsistir at o perodo compreendido entre 1666 e 1678,
cada camada com suas prprias estruturas sociais. Uma mudana geral ocorreu
em primeiro lugar na nobreza e, em seguida, no mundo rural. A primeira, assim
como os termos que a designavam, desapareceram por volta de 1700.
   O termo ekanda (cuja raiz  kanda), atestado a partir dessa poca, significa
hoje "matricl" ou "matrilinhagem". Ele designava ento a "famlia"  certamente
matrilinear46 , mas tambm "a tribo, a famlia, a repblica", ou seja, qualquer


45    J. C. Miller, 1979, 1983, pp. 134-135, e 1984.
46    A maioria dos autores tem tendncia a atribuir a essa poca as instituies sociais conhecidas nos sculos
      XIX e XX, o que no se justifica. Mesmo A. Hilton no escapou completamente desse defeito.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                                                                          673




                                                                                                0                  150                300 milhas




                                                                 Rio Nger
                                                                                                0                   250                500 km

                                               Benin

Vi nd o /e m di re 
                               o de Elmi na
 Vin
       do                                                                                   Rio Del rey
            / em
                   dir
                     e
                         o
                          de




                                                                                Ilha de                   CAMARES
                               El
                                mi




                                                                             Fernando Po
                                  na
                                     (H
                                        ola
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                                              s




                                                                             Ilha de Prncipe
                                               )




 Vi nd
         o/ em                                                          Ilha Corisco
                   di r e 
                               o da E                    Ilha de So Tom
                                        u ro p a-Am
                                                       r i ca
                                                                                                                  Ogoou
                                                                                                            Rio
                                                                                            Cabo Lopez
                                                                                                       GABO
                                 Ilha Pagalu                                                        Ferno Vaz




                                                                                                             Mayombe




                                                                                                                          Loango                 ire
                                                                                                                                            Za
                                                                                                                                        o
                                                                                                                                      Ri




                                                                                                                            Cabinda

                                 OCEANO ATLNTICO
                                                                                                                             Mpinda


                                                                                                                                   Ambriz




                                                                                                                                      Luanda
                                                                                                                                            R io
                                 Rota do litoral                                                                                                       Cuanza

                                 Rota Intercontinental



                                                                                                    Em provenincia Em provenincia
                                                                                                        da ndia       do Brasil




figura 19.14                    As rotas martimas da frica Central, nos sculos XVII e XVIII (segundo J. Vansina).
674                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



comunidade. Os habitantes de uma aldeia constituam um ekanda, assim como
um grupo matrilinear no seio da aldeia ou a comunidade de cristos. A aldeia
era concebida como pertencente a um grupo de parentesco matrilinear descen-
dente de seu fundador, o qual era representado pelo lder da aldeia, o nkuluntu
(literalmente "o velho"). Na verdade, visto que as mulheres seguiam seu marido e
que os filhos no iam sempre morar na aldeia de seu tio, o grupo aldeo, sempre
pequeno no Congo antigo, era unido por um lao territorial, embora o nkuluntu
levasse em conta os diferentes ramos dos cls diferentes do seu na direo de
seu mundo. Em outras palavras, pedia-lhes conselho. A aldeia possua os direitos
sobre a terra, e o esprito que vivia nesta terra era perpetuado pelo kitomi da
aldeia. Ideologicamente, tais direitos pertenciam a matrilinhagem do fundador,
mas em prtica, a aldeia estava unida. Podemos constat-lo com a existncia
de associaes tais como os khimba, nzo longo ou kimpasi, que eram cultos de
iniciao de meninos ou cultos teraputicos, diferentes em funo das regies. O
casamento definia a linhagem e o parentesco em geral. Preferiam-se casamentos
entre primos e de forma geral, no se pagava dote,  exceo de alguns presentes
para a prpria mulher47. Resta-nos ainda saber se os ramos matrilineares eram
ligados entre si de aldeia em aldeia, formando assim grandes cls com sees
nobres e camponesas. Pensamos que no foi o caso. De fato, as aldeias eram
bastante isoladas uma das outras, apesar da rede formada pelos casamentos.
    No decorrer do tempo, o poder da matrilinhagem e da aldeia enfraquecera.
Por volta de 1525, os habitantes das zonas rurais j eram muito explorados.
Talvez tenham se revoltado junto aos jaga em 1568, e levantes ocorreram sob
o reinado de Garcia II. Nesta poca de represses e calamidades naturais, o
kimpasi  culto destinado a eliminar o mpasi (o sofrimento, a indigncia, a
necessidade, a calamidade ou a aflio)  gozava de alta popularidade. A vida
dos camponeses tornou-se cada vez mais precria  medida que a interveno da
nobreza, mesmo nesse nvel, aumentava: os nobres encontravam suas concubinas
nas aldeias e faziam vigiar a aldeia pelos filhos dessas unies. Foi o estatuto da
mulher rural em geral que mais se degradou, e a distino entre esposa e escrava
(pessoa sem linhagem) apagou-se paulatinamente, j que a esposa se tornou
aos poucos uma pessoa sem parentesco local para defend-la. No sculo XVII,
at homens se refugiaram como fuku (subordinados) nas casas nobres, e alguns



47    A. Hilton, 1985. A reconstruo aqui proposta  feita a partir de uma srie de pequenas indicaes e
      tambm por analogia com o que se conhece das organizaes aldes recentes. Trata-se de um modelo
      que no  invalidado pelas fontes.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                            675



aldeos marcavam seus filhos com ferro quente (e no seus sobrinhos) a fim de
poup-los da escravido48.
    As casas nobres bilaterais cresciam em tamanho e importncia, segundo o
modelo da casa real. Empregavam um grande nmero de escravos. Seus dirigen-
tes possuam grandes harns cujas mulheres provinham de outras famlias nobres
ou rurais. Eles pagavam dotes elevados para sua esposa principal, assegurando-se
assim a propriedade dos filhos a vir, j que o dote era destinado  mulher. Desta
maneira, as damas nobres viram aumentar sua importncia poltica e econmica.
Tal importncia ainda cresceu quando das cises nas maiores casas e graas 
subsistncia de uma ideologia matrilinear residual. Por exemplo, a grande diviso
da casa fundada por Afonso I deu-se em funo da descendncia de trs de suas
filhas. A mulher primognita constitua o estandarte de uma casa bilateral.
    Todavia, a posio dos descendentes patrilineares  dos filhos  ganhou
importncia. Os bens mveis adquiridos graas ao comrcio pertenciam aos
filhos que, aps 1550, no usavam mais o nome do pai, mas um sobrenome
portugus simbolizando sua casa. Entretanto, as heranas eram menos fartas
do que se pensa. Qualquer bem adquirido no exerccio de funes pblicas (tri-
butos, multas, ddivas) voltava para o rei aps a morte ou a demisso do titular.
Pensa-se que o mesmo costume prevalecia no escalo inferior para as funes
de que dispunham os grandes senhores.
    Aps 1666, as casas sofreram dois tipos de evolues diferentes. No Soyo, o
carter patrilinear da casa reinante acentuou-se, negligenciando cada vez mais os
sobrinhos em proveito dos filhos, inclusive os filhos de me escrava. Finalmente,
no sculo XIX, a totalidade do Soyo, rural ou no, adotou a ideologia patrilinear.
No Congo, porm, os nobres, aps terem perdido sua cidade, tiveram que criar
para si um novo papel no mundo rural. Muitas das grandes casas desapareceram
e, por volta de 1700, seu lugar foi tomado por grandes conjuntos matrilineares,
os mvila (cls). O governo havia se descentralizado e ruralizado49.
    Os escravos, de incio cativos de guerra, e em seguida colocados para traba-
lharem nos campos da capital ou no servio domstico, no formaram por muito
tempo uma nica camada social. Uma nova distino essencial surgiu: escravo
a venda e escravo domstico, que no se podia mais vender. Estes ltimos eram
ligados s casas nobres, e alguns grupos, tais como os escravos reais (da guarda e
outros) e os das misses, tornaram-se grupos autnomos e localmente poderosos


48   A. Hilton, 1985, p. 203 (filhos). Fuku de fuka: cobrir, abrigar; mfuka: dvida; mfuku: utilidade, proveito;
     kifuka: urbanidade, educao, ou seja, o comportamento de um cliente.
49   No h ocorrncia registrada dos mvila antes do sculo XIX.
676                                                                     frica do sculo xvi ao xviii



at o sculo XIX. Devido ao fato de os escravos a venda serem exportados, esses
desafortunados jamais formaram grupos coerentes. No sculo XVII, a mobili-
dade social era maior para os escravos domsticos do que para os camponeses.
Eram membros de uma casa nobre, a manumisso era corriqueira e os filhos de
mulheres escravas, mas de pai nobre, eram quase iguais aos nobres de mesmo
posto que seu pai. Na aldeia, apenas o filho de pai nobre com uma concubina de
ps pequenos podia esperar uma promoo social. No decorrer do tempo, viu-se
assim, no Congo, as trs categorias sociais reduzirem-se para duas que se estabi-
lizaram: a nobreza, que se beneficiava de suas relaes com a mo de obra, e os
sditos explorados. Entretanto, assim como o comprovou Thornton50, convm
destacar tambm os estilos de vida diferentes dessas duas categorias estveis. A
nobreza urbana e letrada, que exibia de bom grado sua f catlica, alojava-se,
vestia-se, comia e distraa-se de uma forma totalmente diferente dos rurais.
    Em Angola, a estrutura social autctone, parecida com aquela do Reino
do Congo, formando a nobreza, contudo, um corpo nico menos unido, era
dominada pela classe dos portugueses. Mas aqui, como em qualquer outro
lugar da frica Central, o surgimento de uma categoria afro-portuguesa 
comerciantes mestios, de cultura e lngua tanto angolanas ou congas quanto
portuguesas  complicava a situao. Esse grupo formara-se em primeiro lugar
em So Tom, ao se miscigenar com nobres congos, e espalhara -se rumo 
capital do Reino do Congo e a Luanda. Aps 1575, um grupo se formou na
capital do Ndongo, mas uma parte permaneceu em Luanda e, da, em 1615,
emigrou em Benguela e no interior, prximo s capitais de presdios. Por volta
de 1680 existiam dois grandes grupos, um em torno da fortaleza de Ambaka
e outro em Cacunda Velha fundado em 1680. Nesta mesma poca apareceram
os termos quimbares e ovimbali que designariam essa categoria social durante
os dois sculos seguintes. Foi sobretudo no planalto de Benguela que esses
grupos se espalharam durante o sculo XVIII. No eram chefes nem tampouco
vassalos de ningum e representavam uma populao flutuante de caravaneiros
e de comerciantes que trabalhavam junto aos chefes africanos e se casavam no
seio da nobreza local51.
    A histria das religies e das ideologias foi marcada, em superfcie, pelo
surgimento do catolicismo no Reino do Congo, onde se difundiu de incio
junto  nobreza urbana e nas capitais de provncia. A estrutura eclesistica per-
maneceu sobretudo portuguesa at 1645, data em que os missionrios capu-

50    Ao falar do reino do Congo.
51    J. L. Vellut, 1972, pp. 94-99; J. C. Miller, 1983, pp. 132-135.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                    677



chinhos italianos empreenderam uma cristianizao intensa que prosseguiu
no Congo at os anos 1700. Uma grande parte da populao foi batizada e a
religio expandiu-se at as mais longnquas aldeias. Em Angola, o catolicismo,
imposto pelos conquistadores, no progrediu alm da colnia,  exceo do
Matamba, e tambm no se propagou no Loango, apesar da converso de um
rei em 166352.
    A evoluo das ideias e das prticas religiosas no Reino do Congo mostra que
a doutrina crist influenciou a antiga religio, sem deixar de coexistir com ela. A.
Hilton reuniu documentos sobre a existncia de crenas em um grupo de esp-
ritos celestes diferentes daqueles ligados ao sol e  lua. Eram concepes total-
mente desconhecidas em outras partes da frica Central. Ademais, as formas de
pensamento da antiga religio foram retomadas nas pregaes catlicas, assim
como o comprova o catecismo de 162453. A noo de nkadi ampemba constitui
um exemplo antigo desse fato54. Nkadi designa um esprito ancestral perigoso e
mpemba (o alm) refora a noo de antepassado. A terminologia crist provm
do domnio dos nkisi, dos ndoki e dos nganga, o nkisi tornando-se "o sagrado" e
"a graa". Os missionrios combateram os ritos do kitomi, da feitiaria, do culto
dos antepassados e das associaes teraputicas (kimpasi, marinda), mas tolera-
ram a medicina praticada pelos nganga. Os capuchinhos usaram as procisses e
as respectivas oraes para substituir os ritos de fecundidade e podiam praticar
o exorcismo. As crenas e prticas da antiga religio diferiam nos detalhes de
acordo com a regio, e tais elementos locais no encontraram contrapartida no
catolicismo, com exceo daqueles de Mbanza Kongo.
    A partir do sculo XVI, pode-se falar de uma nica religio em que ele-
mentos cristos e antigos haviam se misturado, ao menos junto aos nobres, e
tal religio difundiu-se sobretudo no sculo XVII, fato este que explica o papel
de Garcia II, ao mesmo tempo defensor do catolicismo e dos kitomi. Foi at
alcunhado "O Feiticeiro"55. Essa nova religio deu origem ao vodu haitiano.
    Diferentes movimentos religiosos j eram conhecidos por volta de 1630,
poca em que houve a primeira tentativa para estabelecer uma igreja autc-
tone56. As primeiras confrarias de Mbanza Kongo e a chegada dos capuchinhos


52   J. K. Thornton, 1983a.
53   F. Bontinck e D. Ndembe Nsasi, 1978.
54   Mencionado por E. Lopes em 1583 (ncariampemba)  ver F. de Pigafetta, 1591  e em 1624; F. Bontinck
     e D. Ndembe Nsasi, 1978, p. 269; A. Wilson, 1978.
55   W. G. L. Randles, 1968, p. 110.
56   L. Jadin, 1967.
678                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



provocaram uma recrudescncia dos ritos kimpasi e uma maior influncia dos
kitomi na corte. Junto  nobreza, o culto dos antepassados declinara desde a
poca de Afonso I, e um ritual de inumao nas igrejas, ligado s confrarias,
implementou-se.  provvel que a adorao dos santos, notadamente de So
Francisco e de Santo Antnio, tenha desempenhado, em parte, o antigo papel do
culto dos grandes antepassados. Por fim, na Reforma introduzida pelos holan-
deses e combatida pelos reis congos houve uma certa influncia a respeito da
qual ainda dispomos de poucas informaes.
    Em 1704, Dona Beatriz pregou em favor de uma reforma profunda que
no pode se explicar apenas em funo da situao poltica. Ela propunha uma
africanizao radical. Pelo fato de ela alegar uma relao direta com o cu, era
considerada uma munaki (profetisa). A Santa Famlia era negra e oriunda de
Mbanza Kongo, os smbolos que ela empregava, evocadores da regio, estavam
ligados  gua, ao solo e  vegetao local, lembrando notadamente aqueles dos
cultos teraputicos dirigidos por mulheres. Talvez fosse tambm influenciada
por certos aspectos da Reforma. Porm, ela reconhecia o papa, apesar de seu
desejo de expulsar os missionrios brancos que falsificavam a revelao. Em
outras palavras, sua viso era ainda mais sincrtica do que a religio praticada
em sua poca57.
    Disse-se erroneamente que o Reino do Congo teria rejeitado o catolicismo
aps 1700. Na verdade, os missionrios cristos do fim do sculo XIX, mergu-
lhados em um ambiente colonialista, no admitiam o catolicismo autctone,
doravante parte integrante da religio conga. Porm, ao examinar o vocabulrio
kikongo moderno, encontramos a mesma terminologia religiosa e a continui-
dade  bvia.
    As artes so o reflexo da cultura, mas nada sobrevive das artes de representa-
o, tais como a msica, a dana e a arte oral58. Em contrapartida sobreviveram
objetos de arte conga, assim como inmeros textos correlatos. Fabricados para
simbolizar diferenas de classe (arte do vesturio, por exemplo)59, noes polti-
cas (emblemas, objetos de cerimnia) e conceitos religiosos (arte crist, objetos
de adivinhao, esttuas de antepassados e espritos, mscaras), esses objetos
eram encomendados pela corte, pela Igreja catlica, por dirigentes de aldeias e
de cultos aldeos, e at por chefes de famlia.


57    A. C. Gonalves, 1980, L. Jadin, 1961, e J. Cuvelier, 1953, informaram as fontes conhecidas.
58    T. Obenga, 1981.
59    Baixos-relevos e pictogramas foram encontrados sobre espadas de cerimnia e tampas de utenslios de
      cermica da regio do Norte do rio.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                679




figura 19.15 Runas do antigo palcio do bispo de Mbanza Kongo (So Salvador), de 1548, fotografadas
em 1955. [ Museu Nacional de Angola, Luanda.]



    Embora o estudo das artes congas de um ponto de vista histrico seja muito
recente, j conseguiu mostrar uma ntida continuidade de estilo, aliada a um
dinamismo das formas que assimila as diversas influncias europeias. Dessa
forma, podemos encontrar decoraes geomtricas entrelaadas de ngulos agu-
dos sobre um emblema real de antes de 1553 (uma trompa de marfim), sobre
tecidos de 1650 a cerca de 1800, e sobre cestos, tambores e esteiras do sculo
XIX, e at do XX. Ou ainda, um motivo caracterstico da escultura oitocentista
j aparece no braso congo do comeo do sculo XVI. A influncia europeia
foi muito forte e se manifestou com a introduo de uma arquitetura de pedra
(igrejas e palcios), de smbolos do poder (espadas, coroas, bandeiras, roupas)
e, sobretudo, de objetos religiosos (medalhas, gnus-dei, esttuas, crucifixos e
pinturas  um pintor espanhol trabalhou no Reino do Congo antes de 1650).
Atriburam-se quase todas as caractersticas das artes congas, sobretudo a esta-
turia e as artes grficas,  influncia europeia. Porm, tanto na escultura, quanto
nas artes grficas, tais asseres permanecem sem fundamento, os dados ten-
dendo a provar o contrrio.
    Negligenciou-se assim at agora as manifestaes da arte grfica antiga,
das quais sobreviveram desenhos rupestres de diferentes perodos. No sculo
680                                                           frica do sculo xvi ao xviii



XVII, ao lado de desenhos estilizados, encontramos uma srie de pictogramas
manifestamente derivados da escrita e que representam, ao que tudo indica,
uma expresso da cultura popular. As letras foram empregadas como smbolos e
transformadas. Tal uso do pictograma perdurou e se misturou  produo deco-
rativa geomtrica. Temos aqui elementos nitidamente inspirados pela introduo
da escrita. Porm, ao lado desses desenhos, uma tradio figurativa mais variada
continuava existindo, assim como testemunham os baixos-relevos narrativos e
as pinturas murais dos sculos XVIII e XIX.
    A escultura produziu em primeiro lugar inmeros objetos cristos, em parti-
cular crucifixos e cabos de bengala, mas tambm esttuas de santos, nas quais se
encontram elementos do cnone das propores europeias. Porm, a estilizao,
assim como o realismo congo, manifestou-se desde o incio. No decorrer do
tempo, o cnone europeu voltou-se gradualmente para um cnone que tambm
se encontra na escultura comum e cujo mais antigo exemplo conhecido data de
antes de 1694.
    Os artistas empregavam uma grande variedade de materiais (cobre, marfim,
madeira, pedra, fibras, tecido) e aplicaram sua arte sobre os mais diversos objetos,
inclusive utenslios de cozinha. As primeiras crnicas j elogiavam os tecidos de
rfia congos, bordados ou aveludados. At o clero os usava para os trajes sacerdo-
tais, em complemento queles que importava da Itlia e nos quais se inspiraram
os artistas congos. A escultura de objetos do culto da antiga religio foi proibida
e combatida. Obras foram destrudas em diferentes pocas, notadamente sob os
reinados de Afonso I e Garcia II, assim como por Kimpa Vita. Mas a demanda
por tais objetos, notadamente pelo kimpasi durante o reinado de Garcia II,
jamais enfraqueceria. A maior parte das esculturas crists foi realizada antes de
1700, e vrias dentre elas chegaram at ns. A influncia europeia fez-se sentir
tambm na fundio de espadas de cerimnia e na fabricao de estandartes
bordados com brases e smbolos.
    Do sculo XVI ao XVIII, a arte conga difundiu-se rumo ao Norte e ao Leste.
A difuso das mscaras "brancas" do Gabo teve sua origem nas mscaras do
Congo do Norte e certamente acompanhou a expanso do Loango, sobretudo
no sculo XVII. A tcnica de fabricao do veludo de rfia espalhou-se ao
Leste pela rota do Okango e deu origem aos "veludos do Kasa", manufaturados
notadamente pelos kuba. Tudo indica que elementos de arte conga tambm
chegaram s Amricas60.


60    R. F. Thomson e J. Cornet, 1982, pp. 141-210.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                        681



     As regies setentrionais no sculo XVIII
    O sculo XVIII viu modificar-se completamente a organizao da frica
Central Ocidental: as redes comerciais tornaram-se mais importantes do que
os prprios Estados. O declnio dos Estados coincidiu com o das antigas clas-
ses dominantes, ao passo que uma classe de mercadores as substituiu ou as
completou. J mostramos a coexistncia de duas redes de trfico de escravos:
uma primeira, portuguesa, estendendo-se de Angola ao Brasil, e uma segunda,
ao Norte, domnio de outras potncias europeias, na qual a parte terrestre do
comrcio permanecia firmemente nas mos dos africanos.
    Esse comrcio das regies setentrionais, na costa do Loango, era susten-
tado por companhias que financiam a integralidade do comrcio triangular.
Os neerlandeses, por exemplo, eram representados pela Companhia das ndias
Ocidentais, cujos capitais provinham de todos os Estados dos Pases Baixos,
da Alemanha Setentrional e dos pases blticos. A cada estgio desse comrcio
intercontinental, uma concorrncia feroz opunha as nacionalidades e as com-
panhias europeias umas s outras, fazendo subirem os preos, mais ainda do
que a crescente demanda de escravos nas Antilhas e na Amrica do Norte. Isso
acarretou uma expanso do comrcio e das rotas comerciais, j que os escravos
eram exportados cada vez mais longe. De 1665 a cerca de 1755, essa demanda
progrediu de forma regular para depois crescer de maneira desmedida e atingir
sua intensidade mxima entre 1755 e 1797, data em que as guerras europeias
puseram fim, ainda que provisoriamente, ao trfico de escravos61.
    O primeiro centro do comrcio situava-se de incio em Loango e, depois de
1750, deslocou-se em Malemba. Por volta de 1780, Cabinda era o porto mais
frequentado, mas, aps 1800, foi superado por Boma, no esturio do Zaire. Os
comerciantes europeus alugavam entrepostos nos portos e trocavam ali suas
mercadorias por escravos, por intermdio de corretores, os mercadores de 1700
que, depois, carregariam ttulos locais, tal como o de mafouk62. Haja vista a plu-
ralidade dos sistemas monetrios e a necessidade de estabelecimento de valores
de cmbio, os corretores eram mais do que indispensveis. Para tal, estabelecia-se
uma unidade de mercadoria, o pacote, correspondente a uma unidade de valor
em escravos, sendo o escravo padro um adulto de sexo masculino. Em primeiro
lugar, discutia-se o valor do pacote e sua composio. Esta se dividia em trs


61   P. D. Curtin, 1969; J. C. Miller, 1983, pp. 146-151; P. E. Lovejoy, 1983, pp. 46-54.
62   Para casos concretos, ver R. F. D. Rinchon, 1929 e 1964; quanto aos mercadores, ver N. Uring, 1928, pp.
     26-28.
682                                                                     frica do sculo xvi ao xviii




figura 19.16   Mscara ndongo do Loango. [Rijkmuseum voor Volkenkunde, Leyde.]
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                      683



partes: a primeira era composta por fuzis e plvora, a segunda por tecidos e a
terceira por mercadorias diversas, sobretudo de metal (cutelaria, bacias de cobre
etc.). Uma vez conseguido um acordo a respeito do pacote, negociava-se a troca
de pessoas, avaliadas em relao ao escravo padro, por mercadorias, avaliadas
em relao ao valor do pacote padro. Podia-se substituir, de comum acordo, um
tipo de mercadoria por outro, por exemplo uma parte dos tecidos por prolas ou
espelhos, ou uma qualidade de tecido por outra. O europeu calculava em funo
do preo de compra das mercadorias em moeda europeia. O corretor calculava
em funo das moedas em curso na costa e no interior. A moeda de rfia, ainda
em vigor por volta de 1700, foi substituda por uma moeda de tecido importado
no decorrer do sculo XVIII. Todavia, no interior, esta ltima no era aceita para
todos os tipos de mercadorias. As prolas, por exemplo, eram objetos de adorno
em Loango, moeda de troca em Manianga e moeda complementar no Pool.
Alm das despesas da prpria compra, o mercador europeu devia pagar taxas e
oferecer presentes ao rei local e  autoridade responsvel pelo comrcio europeu.
O corretor, por sua vez, ganhava uma importante comisso sobre o preo dos
cativos, pago aos donos de escravos por intermdio do chefe de caravana.
    Aproximadamente 1 milho de escravos e pequenas quantidades de marfim,
de cobre e de cera foram exportados no sculo XVIII63, ao passo que tecidos
e armas constituam a maior parte das importaes. No decorrer da segunda
metade do sculo, estima-se em 50.000 o nmero de fuzis importados cada
ano, com a plvora correspondente. A quantidade de alnas de tecidos devia ser
ainda superior64.
    As caravanas eram dirigidas por guias que mantinham relaes instituciona-
lizadas (como "camaradas") com os dirigentes dos centros comerciais situados
ao longo das estradas. Eram excelentes negociadores em matria de direitos de
passagem e tinham um profundo conhecimento das grandes feiras do interior,
tal como a do Pool. As caravanas eram compostas por esses guias e uma multido
de guardas armados e de carregadores. Elas iam s vezes muito longe, viajando
durante vrios meses, e, por vezes, no caminho da ida, consagravam toda a
estao de chuva  agricultura de subsistncia. No somente transportavam
produtos europeus, como tambm sal, peixe salgado e desidratado, e mercadorias


63   Segundo os nmeros de P. D. Curtin, 1969, e de P. E. Lovejoy, 1983, 982.000 escravos foram embarcados
     entre 1660 e 1797.
64   P. Martin, 1970, p. 153. Essa estimativa, comparada com os clculos de van Alstein, parece um pouco
     elevada, mas os nmeros permanecem, contudo, na ordem de dezenas de milhares por ano (ver R. F. D.
     Rinchon, 1964).
684                                                                                                            frica do sculo xvi ao xviii




                                                                                      0                  60                 120 milhas

                                                                                      0                  100                200 km



                                                                                                                                  Rio Ou
                                                                                                                                         b   a ng
                                                                                                                                                 ui




                                                                                                                       ire
                                                                             Rio                                 Rio Za




                                                                               Sa
       Ilha




                                                                                   nga
      Corisco


   Cabo               Rio Ogoou
                                                                                                                                       Rio
   Lopez                                                                                                                                   Tsh
                                                                                                                                               u   ap
                                                                                                        Lago                                            a
                      Rio




                                                                                                                           Rio
                                                                                           I
                                                                                                     Mai Ndombe



                                                                                         GU
                                                                MBOSHI
                          N




                                                                                                                            Lu
                                        Franceville


                                                                                      N
                              un
                        go




                                                                                   BA




                                                                                                                              ila
                                   i




                                                                                                                                  ka
                                                                               BO


                                                              TIO
           Mayombe                                                                                                  Rio Lukenya
                                                                                                           Rio
                                                                                                                 Ka           ankuru
                                                                                                                    ssa Rio S
                                                                        Pool                                           i
                                                                                                                                   KUBA
                                                                                   ( J AG A )
                                                                                   Y A K A




                     Loango                                     ire
                                                              Za
                                                        Rio
                        Malemba
                                             Boma
                         Cabinda
                                                                            O                                                    LUBA
                              Mpinda                                     MB                                                         KASA
                                                                      ZO      SO
                                                                        SOS
                                                                                     Rio




                              Ambrizette
                                                                                         Cu




                                                                    Encoge
                                                                                            an




                                        Ambriz                            HUNGU
                                                                                              go




                                           Mossul                                                                                  Mussumba
                                   Luanda                             Ambaca

                                                                                      Cassange
                                                      Dondo
                                                                                                               Rio Kuilu
                                                                                     Rio




       OCEANO ATLNTICO                                                                                             Kasa
                                                                                         Cu
                                                                                           an
                                                                                                za




                                                                                                                                                    Rio Zambe




                                                                                    Bihe
                                   Benguela                                                                                      LOVALE
                                                                         Mbailundu
                                                                                                                                                        ze




                                                       Caconda


                                                                                                                                  BULOZI
                                                               NORTE
                                                                                       Zona de trfico
                                                                                       de escravos
                                                                 SUL




figura 19.17    O trfico de escravos na frica Central do sculo XVIII (segundo J. Vansina).
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                  685



produzidas localmente, tais como as joias de Loango. No decorrer do percurso,
podiam comprar outros produtos locais a fim de revend-los alhures, praticando
assim uma espcie de cabotagem terrestre.
    A rota principal ligava os portos ao Pool onde desembarcavam os escravos
provenientes do rio e de seus afluentes. Transportadores especializados chega-
ram a formar etnias, sendo a mais conhecida a dos bobangui que abandonaram
a pesca para o comrcio e cuja rede comercial se estendia do Oubangui ao Kwa,
a partir de meados do sculo XVIII. Tais transportadores fluviais participavam
tambm amplamente do comrcio de outros produtos, pois que a navegao
fluvial permitia embarcar proveitosamente mercadorias pesadas de valor redu-
zido. Dessa forma, o rio e seus afluentes foram o palco de um intenso comrcio
de cermicas, peixes, esteiras, gneros alimentcios, cerveja, madeira vermelha
e outros produtos comprados aqui e vendidos ali, favorecendo assim as espe-
cializaes regionais. Essa zona de trfico de escravos alcanara o Oubangui, o
baixo Tshuapa e as regies vizinhas do lago Mayi Ndombe bem antes de 180065
e continuou sua expanso de acordo com o crescimento da demanda de escravos.
No se sabe nada a respeito de sua extenso ao longo do Lukenye, do baixo Kasa
e do Kwilu, mas tudo indica que esses rios no foram verdadeiramente afetados
pelo trfico, sem que se saiba exatamente por que. Uma encruzilhada da rota do
Pool seguia rumo ao Norte do Congo, passando pela atual Franceville, at os
pases mbeti e mboshi. Em matria de trfico de escravos, esse traado concorria
com a rota fluvial que subia o Ogoou. Outras rotas de caravanas percorriam o
Reino do Congo at Matamba e Casange, no Alto Cuango, sofrendo aqui os
vili a concorrncia de transportadores regionais, cujos mais conhecidos foram
os zombo e os soso. A partir de cerca de 1750, a capital do novo Estado yaka
do Cuango tornou-se um piv do trfico de escravos onde chegavam os cativos
procedentes das incessantes campanhas militares realizadas pelos yaka alm do
Cuango66.
    O trfico de escravos nas regies setentrionais era muito mais lucrativo do
que aquele de Angola e empurrou o limite do trfico angolano em direo a
Luanda e Casanje, o que acabou provocando operaes militares portuguesas
contra o porto de Mosul (mais tarde Ambriz) e levando  ocupao de Encoge


65   R. Harms, 1981; E. Sulzmann, 1983. Entre Ruki, Mayi Ndombe e Mbomboyo, encontraram-se vest-
     gios sob a forma de canecos provenientes do Westerwald (na Alemanha Ocidental), datando do sculo
     XVIII.
66   Sobre os yaka, ver M. Plancquaert, 1971; J. K. Thornton, 1981a, pp 5e 8; D. Birmingham, 1966, pp.
     148-152.
686                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



(1759), no Congo Central, assim como de Cabinda em 1783. Os portugueses
dali foram expulsos por uma esquadra francesa apoiada por foras locais. Em
suma, as solues militares no conseguiram impedir a progresso do trfico ao
longo da costa do Loango.
    Apenas comeamos a conhecer os efeitos do trfico de escravos e ignoramos
ainda quase tudo de seu impacto demogrfico: 1 milho de escravos significa
talvez por volta de 2 milhes de pessoas arrancadas de seus lares67, cujo um tero
 de mulheres68. Embora proviessem de uma rea imensa,  verossmil que tenha
ocorrido uma verdadeira queda demogrfica no antigo Congo e no Mayombe,
ainda de difcil avaliao. Em outras regies, foi sobretudo o crescimento demo-
grfico da populao que se reduziu.
    Por outro lado, conhecemos melhor os efeitos econmicos do trfico. No
Norte do Zaire, uma ampla parte do territrio constituiu-se em um conjunto de
especializaes regionais complementares. Aqui se produzia rfia ou tabaco, ali
vinho de cana-de-acar ou marfim, l produtos alimentcios, objetos de ferro,
cermicas, canoas etc. Isso provocou um empobrecimento tcnico em cada uma
dessas partes. Por exemplo, os tio abandonaram a fundio do ferro, a fabricao
de canoas e, em parte, a tecelagem e a cermica, pois achavam mais vantajoso
importar esses produtos das regies vizinhas. Entretanto, a vitalidade econmica
do conjunto crescia, notadamente graas ao desenvolvimento da indstria do
transporte fluvial.
    Os efeitos sociais e polticos do trfico de escravos foram espetaculares. Os
corretores e as autoridades responsveis por esse trfico adquiriram uma impor-
tncia sempre maior nas cortes de Loango, de Ngoyo e de Kakongo, e cercaram-
-se de uma comitiva numerosa graas s riquezas acumuladas, substituindo
assim a antiga nobreza ligada a casa real. Os poderes reais foram afetados por
essa evoluo. No Loango, o conselho real deu origem  substituio da nobreza
de extrao por essas novas autoridades, j que o rei vendia os ttulos a quem
mais lhe oferecia. O sistema de sucesso sofreu alteraes69, e os conselheiros


67    Por causa da mortalidade no caminho e nos barracos. Os nmeros relativos a Angola fornecidos por J. C.
      Miller, 1979, p. 103, nota 90, indicam uma mortalidade de dois teros antes do embarque. Esses nmeros
      so superestimados e o trfico era mais letal em Angola do que na costa setentrional, notadamente nas
      estradas. Dobrar os nmeros das exportaes no seria exagerado e permaneceria certamente abaixo da
      realidade.
68    H. S. Klein, 1972, p. 914. Isso se aplica ao trfico em geral, mas vale para Angola no sculo XIX e para
      o conjunto do trfico neerlands. Os nmeros relativos s crianas (pp. 903-905) eram de aproximada-
      mente 5% para essa zona.
69    P. Martin, 1970, e F. Hagenbucher Sacripanti, 1973, confirma -o e d detalhes, ainda que de forma
      confusa.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                             687



passaram a eleger o rei e a favorecer longos perodos de regncia. Dessa forma,
por volta ou antes de 1750, findou-se a linhagem real. Seis faces disputaram
o trono, mas o kitomi real conseguiu finalmente impor um rei neutro, em con-
trapartida de um enfraquecimento radical de seu poder. Pouco depois, a nova
linhagem real cindiu-se, e a realeza tornou-se to fraca que, aps 1787, no se
nomeava mais o rei. Ademais, as provncias afastadas, tais como o Mayumba,
fizeram secesso a partir de 1750.
    O reino tio sofreu tambm certas dificuldades. Os grandes senhores comer-
ciando por conta prpria haviam se enriquecido e adotaram uma nova ideologia
que legitimava sua secesso. Esse poder espiritual, baseado em um talism, o
nkobi, podia exercer-se sem o apoio dos espritos terrestres. A partir de apro-
ximadamente 1780, o Estado tio sofreu uma guerra civil e apenas conseguiu
recuperar-se por volta de 1830. A ideologia nkobi serviu como justificativa para
uma srie impressionante de novos chefes que tomaram o poder ou incorpora-
ram  sua jurisdio a regio estendendo-se de Makoua, a Oeste dos planaltos
teke (kukuya), at Tsayi, uma regio situada nas proximidades da rota de Loango
ao Pool.
    Na bacia do mdio Zaire, a expanso do trfico de escravos reavivou os
movimentos populacionais, ainda que de forma limitada, e acarretou uma reto-
mada das hostilidades, tanto na regio do Mayi Ndombe quanto mais ao Norte,
ao passo que fortes concentraes populacionais comearam a se formar nas
margens do rio, no lugar dos pontos de passagem obrigatrios, para se trans-
formarem em cidades comerciais no sculo XIX70. Entre Loango e o Pool, uma
imigrao de nobres kongore suplantou as aldeias teke, notadamente na regio
das minas de cobre de Mindouli. Porm, simultaneamente a pequenas chefias,
multiplicaram-se sobretudo as aldeias autnomas do eixo Loango-Pool. Essas
aldeias entenderam-se para co-gerir os mercados graas  instituio do tribunal
do mercado, sendo os juzes oriundos de diferentes aldeias. A associao lemba
reforou suas alianas.
    No Reino do Congo, a doutrina crist e, principalmente, a Ordem do Cristo 
qual pertenciam os dirigentes, formaram a base da ideologia do poder gravitando
em torno do rei, que no era mais do que um nkisi supremo. A Ordem tam-
bm criou as antigas misses, dirigidas por seus antigos escravos. As unidades
territoriais fragmentaram-se de forma contnua (sndrome congo)71, por vezes
no mbito da prpria aldeia. Ao Leste de Mbanza Kongo, viram-se os trans-

70   J. Vansina, 1983b, pp. 112-113.
71   S. Broadhead, 1971, 1979 e 1983.
688                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



portadores zombo adotarem o sistema dos juzes de feira ou ainda admitirem o
princpio de uma rotao entre as principais famlias no governo das pequenas
chefias, apenas compostas por algumas aldeias. Entretanto apareciam grandes
cls, os mvila, estruturados em linhagens territorializadas. Essa rede de cls
tornou-se o fundamento das relaes entre as aldeias autnomas, oferecendo-
-lhes assim um espao tanto de colaborao quanto de competio.
    Essas transformaes acompanharam-se de importantes mudanas cultu-
rais. Cresceu o papel dos grandes antepassados ligados aos cls. Ampliaram-se
os cemitrios e as igrejas, notadamente em Mbanza Kongo. Desenvolveu-se a
noo de zombi, espcie de morto vivo72, assim como a confuso entre santos
e grandes antepassados. Por volta de 170073, o enterro das pessoas importantes
ainda era relativamente simples, mas logo ganharia em magnificncia.
    A mortalha sumiu e foi substituda por um empacotamento de tal tamanho
que foi preciso abrir caminhos e usar carretas a fim de levar o corpo ao cemitrio,
ao menos perto da costa. No sculo XIX, o corpo assim empacotado comeou a
assemelhar-se com um boneco gigante, e um pequeno relicrio fez sua apario.
No sculo XVIII, as cabeas ou os bustos de madeira colocados sobre essa esp-
cie de caixo foram substitudos por esttuas de madeira ou de pedra, ou ainda
por monumentos de cermica a ornar os tmulos onde se colocavam tambm
um nmero sempre maior de objetos importados e quebrados74. Foi a regio de
Boma e do Mayombe que deu origem a tal evoluo. Ao Sul do rio, as lpides
funerrias de Ambriz dela constituram o smbolo75.
    Os cultos teraputicos coletivos ganhavam cada vez mais adeptos. O lemba
aparentava-se com os j antigos nkisi do Loango, ainda que transformados.
Constitua um nkisi de proteo para as elites que podiam pagar os elevados
direitos de entrada. Quando adoecia um homem importante, o sacerdote lemba
vinha cur-lo. A fim de obter a cura, o doente devia tornar-se um membro
iniciado da associao, assim como sua primeira esposa. A ideologia do culto
sacralizou as alianas entre famlias da elite (o casamento, os membros da clula
lemba), assim como legitimou os juzes e chefes de linhagem iniciados e, de
forma indireta, os tribunais de feira. Aps 1700 desenvolveram-se diferentes
formas do lemba, uma delas em Haiti onde o lemba Petro era o quarto vodu76.


72    J mencionado em 1701 por N. Uring, 1928, p. 47.
73    Ibidem, pp. 35-36.
74    R. F. Thompson e J. Cornet, 1982.
75    Museu de Angola, Luanda, 1955, n 137-146 (Ambrizette), pp. 86-87.
76    J. M. Janzen, 1982.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                      689




Figura 19.18 Farmcia porttil lemba (nkobi) em casca de rvore, com tampa ornada por um motivo de
ptalas caracterstico, proveniente de Ngoyo. Altura: 24cm. [Fonte: J. M. Janzen, 1982. Com a amvel auto-
rizao da Seo de etnografia, Museu Real da frica Central, 1980, Tervuren, Blgica.]
690                                                               frica do sculo xvi ao xviii



   O cristianismo se manteve e evoluiu. A escassez de sacerdotes locais ou
estrangeiros favoreceu as iniciativas dos antigos ajudantes dos missionrios,
de seus escravos e do squito do rei. Os baixos-relevos de Ambriz mostram-
-nos cenas de crucificao nas quais a lana se tornou um pton, lembrando
Mbumba ou Bomba, ligado ao trfico e s riquezas, ao passo que tamborileiros
acompanhavam a cena. A estatuaria crist foi certamente fabricada no Soyo e
em Mbanza Kongo, assim como os crucifixos (emblemas de autoridade e, nesse
papel principalmente judicirio, emblemas do nkangi, o salvador). Outros tipos
de cruzes foram criados, tal como o santu, que representava os sortilgios ligados
 adivinhao pela caa, usados para descobrir a causa de infortnios coletivos.
Tais eram as duas facetas de um mesmo culto oficial.


      A Angola no sculo XVIII
    Como vimos, o trfico de escravos em Angola comeou a crescer bem antes
daquele do Norte. Voltado principalmente para o Brasil, o sistema era extre-
mamente fracionado, se comparado ao do Norte77. De fato, antes de 1730 j
estavam envolvidos no sistema angolano o mercador exportador de Portugal,
os corretores do Brasil, os transportadores martimos e os mercadores de escra-
vos de Luanda ou Benguela, os caravaneiros afro-portugueses, os senhores e
comerciantes africanos que vendiam escravos nas feiras. A mesma companhia
podia controlar vrios desses elementos, mas era excepcional que os controlas-
sem todos, mesmo no caso daqueles situados em Portugal ou no Brasil. Cada
um tentava maximizar os lucros e evitar os riscos, o maior dentre eles sendo
o risco dos escravos, ou seja, o de ver os escravos morrerem de desnutrio, de
doenas no curadas e de maus tratos. Tais causas de mortalidade resultavam
apenas da falta de investimentos na comida, na qualidade dos cuidados medi-
cais e na competncia dos guardas. Cada parte do sistema tentava minimizar a
sua responsabilidade e, portanto, atribuir o direito de propriedade dos escravos
a uma parte mais fraca do que ela. As companhias portuguesas e brasileiras
estavam bem colocadas, sendo os mais fracos os transportadores martimos, os
mercadores de Luanda e Benguela, bem como os caravaneiros. Foram estes que
tentaram diminuir as despesas s custas dos escravos, acarretando assim uma
elevada taxa de mortalidade entre os cativos. J. C. Miller78 d a seguinte esti-


77    Ver H. S. Klein, 1972 ; J. C. Miller, 1975b, 1979 e 1984.
78    J. C. Miller, 1979, p. 103, nota 90.
O Reino do Congo e seus vizinhos                                             691



mativa da taxa de mortalidade: teria sido da metade dos escravos entre a feira
de compra e o porto de embarque, e depois, de 40% em Luanda, na espera do
embarque. Tais nmeros podem parecer exagerados, sendo seu autor o homem
de uma companhia pombalina concorrente desse sistema entre 1770 e 1780, mas
permanecem plausveis. As perdas no mar, que variavam de acordo com o estado
de sade dos escravos embarcados e do grau de amontoamento, oscilavam entre
10 e 15% do total embarcado79.
    O pacote, chamado hanzo em Angola, era fornecido de forma adiantada ao
caravaneiro, ligando-o a seu financiador que, dessa forma, podia calcular seu
abastecimento em escravos. Esse pacote era principalmente composto por teci-
dos de Goa ou da Europa, aguardente do Brasil, sal local, prolas e, por vezes,
algumas armas. As despesas dos caravaneiros (principalmente para os carrega-
dores, que eram recrutados no interior pelos funcionrios do Estado, e para a
comida) eram elevadas e os riscos envolvidos muito altos (espera na feira afri-
cana, principalmente, fuga e morte de cativos); encontravam-se logo endividados
e, destarte, totalmente dependentes de seu credor. Porm, a partir de cerca de
1760, os caravaneiros comearam a vender seus escravos para qualquer mercador
de Luanda ou Benguela e tentaram recuperar a sua situao financeira com as
mercadorias assim obtidas. O financiador sofria ento uma perda total80.
    Aps 1730, as companhias metropolitanas portuguesas retornaram a Luanda
para ali vender as mercadorias europeias, retirando-se os brasileiros at Ben-
guela. A concorrncia provocou a chegada de grandes quantidades de mercado-
rias e estimulou o trfico de escravos. Os navios trouxeram tambm inmeros
imigrantes pobres, condenados de direito comum e aventureiros que buscavam
enriquecer com o trfico negreiro, principalmente como caravaneiros. Uma luta
obstinada desencadeou-se entre quimbares e recm-chegados. Estes ltimos,
como mercadores, tinham o apoio total das altas autoridades de Luanda, mas
os quimbares gozavam do amparo das autoridades provincianas e, em geral, dos
chefes africanos das feiras do interior. Estes lutavam contra os novos mercado-
res graas ao contrabando de escravos que revendiam aos franceses, ingleses ou
holandeses, e contra os novos caravaneiros fazendo-os pagar preos exorbitantes
para seus carregadores, vveres, transbordos fluviais etc., at o momento em que
os recm-chegados se juntavam a eles, geralmente aps terem abandonado seu
financiador. Os brasileiros e os quimbares conseguiram no somente manter-
-se em Benguela, como tambm aumentar suas exportaes de escravos at um

79   P. E. Lovejoy, 1983, p. 47.
80   E. da Silva Correa, 1937; J. C. Miller, 1979, pp. 90-91.
692                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



patamar igual ao de Luanda. Todavia, as companhias portuguesas conseguiram
eludir o "risco escravos" graas a seus capitais e aos apoios administrativos de
que gozavam. Elas no compravam escravos, mas marfim ou letras de comrcio
pagveis no Brasil81.
    No comeo do sculo, os governadores apoiavam os brasileiros. Mais tarde,
sobretudo depois das reformas do marqus de Pombal na metrpole, eles
preferiram-lhes as grandes companhias de Lisboa. Os jesutas, aliados dos bra-
sileiros, foram expulsos em 1660, e com Francisco Innocencio de Sousa Cou-
tinho (1664-1672)82, a metrpole esforou-se vigorosamente para restabelecer
sua hegemonia em Angola. De Sousa Coutinho tentou retomar o controle dos
postos administrativos do interior, impor regulamentos para o trfico de escra-
vos nas feiras do interior e diversificar a economia do pas. Nem ele, nem seus
sucessores, obtiveram xito nessa empreitada. Os afro-portugueses emigraram
mais uma vez, principalmente em direo ao planalto de Benguela onde, a partir
de 1772, campanhas militares de grande envergadura apenas conseguiram ace-
lerar a emergncia de dois grandes reinos, o Mbailundu e o Bih. Este ltimo
se tornaria um excelente ponto comercial para os quimbares. Ali foi criada uma
nova cabea de ponte do comrcio rumo ao interior do pas e, antes de 1794,
as caravanas alcanaram o alto Zambeze, no pas Lozi. Os cativos eram enca-
minhados at Benguela sem passar por Luanda que, por sua vez, continuava
captando seus escravos por intermdio do Reino de Kasanje. Os imbangala
partiam de caravana rumo ao Nordeste, atingindo o mdio Kasa e os luba
que ali moravam antes de 1755. Mas seu eixo principal era a rota de Casanje a
Mussumba, capital do Imprio Lunda.
    Pois o Imprio Lunda constituiu-se durante este sculo. Incessantes cam-
panhas militares trouxeram grandes quantidades de escravos, ao passo que das
regies dominadas afluam para a capital os tributos em cativos. Aps 1750,
o imprio chegou a criar o Reino de Kazembe no Luapula e a abrir vias de
comunicao com Tete e Zumbo, em Moambique. Antes dessa data a expanso
rumo ao Oeste alcanara o Cuango. Um capito fundou ali o Reino Yaka entre
1740 e 1760, o que acarretou a fuga de milhares de hungu no Reino do Congo
de 1761 a 176583. Este grande Estado yaka ocupou uma boa parte do vale do

81    J. C. Miller, 1983, pp. 141-151.
82    R. Delgado, 1948-1955.
83    1.032.000 escravos, tambm segundo os nmeros de D. Birmingham, 1966, P. D. Curtin, 1969, H. S.
      Klein, 1972 e P. E. Lovejoy, 1983. Ver tambm J. C. Miller, 1975b e 1979. Nesse caso, 2 milhes cons-
      tituem certamente uma subestimao. O nmero real poderia ser mais prximo de 3 milhes. Para a
      demografia, ver J. K. Thornton, 1977a, 1977b, 1980 e 1981b. Ele admite (1981b, p. 713) uma diminuio
O Reino do Congo e seus vizinhos                                                                                                            693




                                     Rio Ogoou                                 Mbeti
                                                                                                        Makoua




                                                                                                                o Sanga
        Cabo




                                                                                                                                ire
        Lopez
                                                                                         MBOSHI




                                                                                                                              Za
                                                                                                              Ri
                                   Rio




                                                                                                                              o
                                                                                                                           Ri
        Ferno Vaz
                                       Ng               Franceville
                                          ou
                                           i
                                            n

                                                                                                           Rio Kassa
                                                                                                                    i
                                   Mayombe        ilu
                                                                                    TIO
                                                 Ku


                                                           Ri
                                                             oN
                                                  o
                                                Ri




                                                                   iari        Mindouli
                                                      Loango                                       Pool
                                                               Mboko
                                                               Songho
                                         Malemba




                                                                                                               Y
                                                           Boma
                                           Cabinda
                                                                               Mbanza




                                                                                                                 A
                                                                                Congo
                                                          Mpinda
                                                                                                                     Kassongo
                                                                                             ZOMBO




                                                                                                                   K
                                                                                 Bembe
                                                  Ambrizette                                  SOSSO
                                                                              oje




                                                                                                                          A
                                                                   Rio L                       HUNGU
          OCEANO ATLNTICO                                            Ambriz
                                                                      Mossul              Encoge
                                                                                                           Matamba



                                                                                                                                  Cu
                                                                                                                                    ang
                                                                      Luanda


                                                                                                                                        o
                                                                                              Ambaca
                                                                                                            Cu




                                                                                                                              Cassange
                                                                                    Dondo
                                                                                                              anz
                                                                                                                  a




                                                                              Benguela
                                                                                Velha

               Difuso Nkobi                                                                                              U
                                                                                                          U   ND
                                                                                                   I   MB
               Planalto benguela
                                                                                            OV             Bihe
                                                                                             Mbailundu
                                                                  Benguela

                                                                   Caconda
                                                                    Velha
                                                                                              Caconda




                                                                          0                   125                         250 milhas

                                                                          0                   200                         400 km




figura 19.19     A frica Central Ocidental no sculo XVIII (segundo J. Vansina).
694                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



Cuango a jusante do Kasanje e ampliou seu territrio de conquistas rumo ao
Leste, em direo ao Kwilu, donde inmeros cativos foram trazidos para serem
vendidos aos zombo, aos soso e aos vili, mas tambm aos imbangala e s carava-
nas passando por Nkoje. Tais conquistas e saques provocaram , no fim do sculo
XVIII e sobretudo no sculo XIX, importantes movimentos populacionais do
Cuango ao Kwilu, pois as pessoas fugiam do Yaka.
    Em Angola, o domnio do trfico de escravos chegou a tal ponto que, apesar
dos esforos de Sousa Coutinho e de outros, o pas no conseguiu diversificar seu
sistema econmico, em virtude da falta de capitais procedentes de fontes que no
fossem ligadas ao trfico. A colnia continuou dependendo economicamente
do Brasil e, por volta de 1800, ainda 88% de seus rendimentos provinham do
trfico de escravos com o Brasil e um pouco menos de 5%, do marfim enviado
a Portugal.




      da populao, mas seu modelo subestima o nmero de mulheres (segundo ele um quarto, e no um tero)
      e de crianas (segundo ele, nenhuma teria sido embarcada). Esses nmeros so cruciais em matria de
      demografia.
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                          695



                                        CAPTULO 20


              O sistema poltico luba e lunda:
                  emergncia e expanso
                                          Ndaywel  Nziem




    A histria dos luba retraa o itinerrio de um mesmo e nico sistema pol-
tico emergido em Shaba, na atual Repblica Democrtica do Congo, antes de
alcanar uma grande parte da savana meridional, praticamente do rio Cuango
ao rio Zambeze1. Assim, as evolues individuais de uma srie de sociedades
foram tecidas a partir dos mesmos impulsos; de sada, pode-se afirmar que tal
fato constitui uma forma de demonstrao da capacidade de unificao dos
povos africanos que j existia na idade pr-colonial.
    A expresso do que aproxima e do que diferencia os Estados Luba e Lunda
 entendida por meio de seus prprios nomes, os quais mais designam duas
redes poltico-culturais, no seio das quais surgiu uma multiplicidade de refe-
rncias tnicas distintas, do que fatos tnicos precisos. Deste modo, a histria
luba, quando evocada, recobre tanto as realidades concernentes aos luba atuais
do Shaba (os luba shankadi) e do Kasa (os luba lubilanji), quanto s relativas
aos songye, kanyok, kete, sala, mpasu, bindji e lulua; a histria lunda, por sua
vez, invoca tanto agrupamentos rund (os lunda, no sentido restrito) quanto
agrupamentos lozi, ndembo, luena, imbangala etc. (os lunda, no sentido amplo) 2.


1    Este sistema poltico alcanou trs pases da frica Central: Repblica Democrtica do Congo, Angola
     e Zmbia.
2    Existe uma abundante documentao sobre tais povos, incluindo antigos trabalhos etnogrficos: H. A.
     Dias de Carvalho, 1890; C. van Overbergh, 1908; R. Colle, 1913; E. Verhulpen, 1936; L. van den Byvang,
696                                                                                   frica do sculo xvi ao xviii



No mais, a classificao lingustica da qual as lnguas luba e lunda so objeto,
revela estas relaes entrecruzadas. Se M. Guthrie classifica todas elas na zona
L, as lnguas lunda pertencem ao grupo 50 e diferenciam-se assim da classe das
lnguas luba, formadoras do grupo 30. Portanto, isso testemunha claramente e
simultaneamente analogias e diferenas existentes entre esses dois fenmenos
lingusticos3.
    Todos concordam em atribuir aos ancestrais dos luba os objetos descobertos
graas s escavaes arqueolgicas efetuadas na depresso de Upemba, em Sanga
e alhures4. Insgnias do poder, mais tarde corriqueiras entre os luba, apareceram
aps o sculo XIII, ao mesmo tempo em que provas atestam a formao de duas
chefias em Katomba e em Sanga. Contudo, essas duas chefias no foram precur-
soras diretas do Reino Luba Nesse caso, apenas podemos remontar, sem risco
de nos enganarmos, para alm de 1700, na cronologia fundada na tradio oral.
Tudo o que sabemos  que o grande reino luba, como muitos outros, nasceu e se
desenvolveu antes da formao do Estado rund, quando se originou o Imprio
Lunda. A formao do Estado Rund5 no pode ser datada atravs da tradio
oral mas ao menos  citado pelas tradies por volta de 1680. Desde quanto
tempo ele existia? Eis uma questo a qual no podemos responder.


      A emergncia dos Estados Luba e Lunda
    O Shaba e as regies da Zmbia e de Angola so cobertos por florestas, os
solos so pobres e a estao seca  muito longa. Em geral, as melhores terras
situam-se nos vales fluviais e sua qualidade diminui do Norte para o Sul e do
Leste para o Oeste, as piores encontrando-se em Angola Oriental. Quanto
mais se vai para o Norte, diminuem os ricos de seca. Porm, a parte meridional



      1937; P. Denolf, 1954; E. d'Orjo de Marchovelette, 1950-1951; L. Duysters, 1958; W. F. Burton, 1956;
      mas, tambm, trabalhos mais recentes, essencialmente teses inditas de doutoramento. Ao se considerar
      a histria da regio a partir dos materiais bemba (A. D. Roberts, 1973), luba (T. Q. Reefe, 1977; J. C.
      Yoder, 1977) ou lunda ( J. C. Miller, 1972b; J. L. Vellut, 1972; W. F. Pruitt, 1974; R. E. Schechter, 1976; J.
      J. Hoover, 1979), chegamos  mesma problemtica daqueles que tratam essas culturas como um conjunto
      (S. A. Lucas, 1968; L. de Heush, 1972; B. Crine-Mavar, 1973; S. K. N'dua, 1978; R. J. Papstein, 1978).
3     M. Guthrie, 1948, p. 54. Na opinio dos linguistas de Tervuren, os dois grupos de locutores coabitaram
      tardiamente (A. Coupez, E. Evrard e J. Vansina, 1976).
4     UNESCO, Histria geral da frica, vol. IV, cap. 22; J. Vansina, 1984a, p. 564-570.
5     Todas as tentativas feitas neste sentido repousam na suposta emigrao dos kinguri da capital rund para
      Angola. Agora sabemos que se trata aqui de uma elaborao mais tardia da tradio, remontando a 1700
      ou mais; ver J. K. Thornton, 1981a.
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                                                                                                         697



                                                                                                                                                                  Rio Lukuga




                                                     Rio S
              LUL                   LUBA                   SONGYE
                 U
              LUB A                 KASA                                                     Ri                                           LUBA-HEMBA




                                                          ank
                  A




                                                                                                 o
                                                          ru u




                                                                                                     Lo
                                                                                                       mam
                                                          S                                                                 Fe
                          KETE              R
        Ri




                                                                                                                XVIIIe s.




                                                                                                            i
                                                      E




                                                                              Rio Luembe
          o




                                                                 I      N                                                              A
         Ca




                                                                                    O                                   L U       B              Kiambi
          ssa




                                                     KANYOK                                                             Fe Fe
                      SALA                                                                                       MWIBELE
             i




                                                                                                                                                          R
                      MPASU                                                                                        S




                                                                                                                                                           io
                                                                                                            KIKONDJA




                                                                                                                                                              L
                      KANINCIN




                                                                                                                                                              uvu
                                                                                                                 GA
                                                                                                        SAN
                                                                     KALUNDWE




                                                                                                                                    BA O




                                                                                                                                                                  a
                                                                                                                                 EM S
                                     RUND




                                                                                                                               UP ES




                                                                                                                                                   ILA
                                                                                                                            DE EPR




                                                                                                                                                  SH
                                                                                                                             D
                        Rio Lu


                                     Rio Bu




                                                                                                                                                                      Lago
                                                            Rio                            KATOTA                                                                     Mweru
                                          im
                                                                     Lu
                              lua


                                           sh




                                             a   i
                                                                     bilash




                                                                                              Rio Lualaba




                                                                                                                                                            ula
              Principais chefias




                                                                                                                                                        Luap
              Limites do Reino LUBA




                                                                                                                                                    Rio
                                                                                                            S                              S
              Jazidas de cobre
              Stios da era do ferro
    S         Sal
                                                   i
                                                ez
    Fe        Ferro                           mb
                                            Za
                                        Rio      0                                   60 milhas

                                                          0                        100 km


figura 20.1         Os Estados do Shaba antes de 1700 (segundo J. Vansina).



semirida do pas, sobretudo o Sudeste, continha imensas riquezas minerais
(cobre, ferro e sal).
   Nessas condies, no  de se admirar que a populao vivesse dispersa nos
enclaves de terras frteis, prximas ou no das grandes jazidas; vastides quase
inabitadas separavam esses enclaves e eram utilizadas principalmente para a
caa. Esta distribuio da populao explica a posio das primeiras organiza-
es territoriais, pequenas chefias correspondendo cada uma a uma pequena ilha
de povoamento. Assim, o grupo de estabelecimentos sanga tornou-se a chefia
kikondja, ao passo que a montante, Katota, na outra extremidade do sistema
lacustre do Lualaba, formava uma outra chefia. Nessas duas zonas, a populao
era composta de pescadores e agricultores. Alm dessas, ainda havia muitas
outras chefias, todas elas situadas, sobretudo, nos vales dos principais cursos
de gua, onde os habitantes eram basicamente agricultores; tratava-se, notada-
mente, de Kalundwe, Kanyok, Kanincin, Nsanga, Mpimin, da chefia rund, no
seu princpio, e de diversas chefias bemba.
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figura 20.2 Hemba, Zaire: assento (caritide nica), cujo pedestal foi destrudo pelo uso. Notam -se as esca-
rificaes proeminentes e a qualidade dos braceletes. Altura: 35 cm. [ G. Berjonneau, ART 135, Boulogne-
-Billancourt.]
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                                   699



    Nenhum desses agrupamentos de populao vivia isolado. Eram ligados
pelo comrcio e, provavelmente, tambm pelos casamentos. Do Norte vinham
a rfia e o leo de palma; do Lualaba, o peixe; do Sul, o cobre e o sal, e do cen-
tro para o Sul, o leo de mbafu. Salvo o cobre, o trnsito dos produtos seguia,
em geral, um eixo Norte-Sul, desde os confins da floresta equatorial, ao Norte,
at a Zmbia Central. Nada atesta a existncia de um importante comrcio
Leste-Oeste precoce. As trocas eram suficientemente importantes para que se
comeasse a utilizar moedas o mais tardar no ano 1000. Por volta de 1300, a
moeda da depresso de Upemba era a cruz de cobre,. Em 1500, essas cruzes
tiveram seus pesos normalizados e, em 1600, seus tamanhos foram reduzidos
consideravelmente. Assim, podiam ser utilizadas tanto nas pequenas quanto
nas grandes transaes. Porm, uma tal reduo pode tambm ser interpretada
como o sinal de uma desvalorizao. Aps 1700, essas cruzes desapareceram e,
no sculo XIX, foram as prolas importadas que serviram como moeda6.
    Foi nesse contexto que se desenvolveu a ideologia poltica que, mais tarde,
constituiria os fundamentos do grande reino luba. Ela repousava em dois prin-
cpios imbricados: o bulopwe, teoria relativa ao carter sagrado da realeza, e o
princpio do governo pelo intermdio de uma associao fechada. Na poro
mais ao Norte da regio, no pas Songye, e ao Leste, esse ltimo tipo de governo
tornou-se dominante, porm, no centro do reino, estabeleceu-se um equilbrio
entre os dois princpios, ainda que aquele de carter sagrado da realeza se des-
tacasse visivelmente.
    Segundo certas tradies, o pequeno reino Kalundwe, fundado entre os rios
Luembe e Lubilash por uma coliso de trs cls, foi o precursor do Reino Luba7.
Sua capital localizava-se na regio de Cifinda. Um de seus reis, Kongolo ("Arco-
-ris") deixou-a para fundar uma outra nas plancies de Mwibele, no longe do
lago Boya, no corao da regio que se tornaria o Estado Luba. Segundo outras
narrativas, Kongolo vinha de outro lugar. A epopeia conta, de maneira pito-
resca, como ele foi vencido e morto por Kalala Ilunga  Ilunga, o Caador, um
estrangeiro vindo do Leste , que transferiu sua capital para Munza, mais perto
de um distrito rico em minrio de ferro e das salinas. Kalala, na condio de
mwine Munza (mestre de Munza), representa o pai fundador correspondendo 
ideia que os luba tinham de seu rei.  bem provvel que Kongolo no fosse um
personagem autntico, mas no deixam de ser aceitveis as tradies relativas


6    P. de Maret, 1981, p. 139-143.
7    Para um exame crtico das tradies, ver T. Q. Reefe, 1977 e 1981; para as notaes das tradies hist-
     ricas, ver H. Womersley, 1984.
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 posio das primeiras capitais. Ora, elas nos ensinam que, contrariamente ao
que se passou no caso de quase todas as outras chefias, a capital do Reino Luba
no estava situada no vale fluvial, mas no corao das grandes plancies que se
estendiam ao Norte da depresso de Upemba. Diferente dos outros, tal reino
dominou  talvez, desde seus primrdios  os kalundwe, a Oeste, e os kikondja,
ao Sul. Alm disso, controlava as principais rotas comerciais Norte-Sul. Entre-
tanto, permaneceria relativamente pequeno at o final do sculo XVII.
    Durante este tempo, mais a Oeste, outras unidades polticas constituram-se.
A principal dentre elas, Nkalany, situava-se no vale de Mbuji Mayi e resultava da
fuso de meia dzia de pequenos territrios dirigidos pelos tubung (mestres da
terra). No Norte, seus vizinhos kete possuam uma organizao similar, ao passo
que, no Noroeste, os sala mpasu, que lhes eram os mais prximos pela linguagem
e pela cultura material, tinham um sistema poltico muito diferente, por um
lado, fundado na idade, e, por outro, permitindo o monoplio do poder s per-
sonalidades mais fortes. Os sala mpasu rejeitavam a sucesso no mbito poltico
(transmisso de funes), impedindo assim a formao de uma aristocracia.
    Nada levava a prever que os territrios rund um dia pudessem constituir
um imprio. De fato, as terras que se estendiam mais ao Norte comportavam
uma populao mais densa, os solos eram melhores, a agricultura era muito
mais avanada e, alm disso, encontravam-se mais bem situadas em relao s
rotas comerciais Norte-Sul. Entretanto, em dado momento, os tubung do Norte
encontraram-se unidos sob a autoridade de um homem dos territrios rund.
Porm, apenas formaram uma pequena chefia situada no brao de um rio. A
tradio conta porque o chefe Nkond cedeu o poder a sua filha Rweej (Rueji),
que esposou Cibinda Ilunga, Ilunga, o Caador, o qual vinha da corte luba.
Rweej, por seu turno, cedeu-lhe as insgnias do poder. O episdio do caador
, evidentemente, um mito encontrado em outras partes da regio8. A histria
conta que Cibinda Ilunga organizou a corte segundo o modelo luba. Mesmo
nesse ponto, a tradio apenas pode estar parcialmente certa, pois os historiado-
res descobriram que os rund e os luba influenciaram-se mutuamente9.
    Convm tambm expor um outro elemento das tradies. Segundo Carva-
lho, o poder, aps a fase da conquista, passou ao primeiro filho de Rweej, Yav,
que se tornou mwant Yav (o senhor Yav), cujo nome iria constituir um ttulo
poltico para qualificar a aristocracia desta nova corte. Na ocasio de sua morte,


8     H. A. Dias de Carvalho, 1890; P. Pogge, 1880. O episdio em que Nkond amaldioa seus filhos lembra
      aquele de No sob a rvore e foi certamente inventado mais tarde.
9     T. Q. Reefe, 1981, p. 75-78.
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                       701



o poder passou ao seu irmo, Naweej, que mostrou ser o verdadeiro organizador
do Imprio. Porm, as verses recolhidas mais recentemente apresentam-nos
uma Rweej estril. A fim de no comprometer a sucesso, ela deu a seu marido
uma segunda esposa, Kamonga, que lhe concedeu filhos. Tal situao justifica
a existncia institucional de dois dignitrios femininos na corte de mwant Yav:
a swan murund ou swana mulunda, a me simblica da sociedade, que  a per-
petuao do papel desempenhado por uma Rweej estril, porm fundadora do
Imprio, e a rukonkesh ou lukonkeshia, a rainha me, cujo papel foi desempenhado
por Kamonga e por todas aquelas que depois encontraram-se nessa mesma
situao.
    Mais comumente fala-se da existncia da me do lado direito (swan murund),
que deve ser diferenciada da me do lado esquerdo (rukonkesh). Foi dessa ltima
que nasceu o sucessor.
    Esses testemunhos so necessrios para se compreender as diferentes insti-
tuies que tomaram forma aps a interveno do caador luba: primeiramente,
a criao de duas aristocracias femininas  uma, simbolizando a fecundidade
social e, a outra, a fecundidade biolgica ; em seguida, a elaborao de um
ttulo de realeza baseado no ttulo de mwant (chefe), ao qual foi acrescentado
o nome do primeiro rei.


     Os luba: organizao interna e expanso at 1800
   Como no caso de mwine Munza, um Estado se formou nas plancies sob o
efeito de influncias oriundas da margem oriental do Lualaba. Ele englobava,
ao Sul da depresso de Upemba, o Reino Kikondja e, a Oeste, o Reino Kalun-
dwe. Na mesma poca, ou um pouco mais tarde, estendeu-se mais ainda para o
Sudeste at o curso inferior do Luvua.
   A fundao do reino e o incio de sua consolidao engendraram perturba-
es na regio: um certo nmero de emigrantes abandonaram o curso inferior
do rio Luvua para fundar um Estado shila na margem oeste do lago Mweru e
ao longo do curso inferior do rio Luapula10.  provvel que essa narrativa s
concerna, na verdade, ao grupo que dirigia o Shila antes de 1750 e no  maioria
de seus habitantes.  at mesmo concebvel que tais chefes no fossem de forma
alguma originrios do Reino Luba; ter-se-a lhes dado essa prestigiosa origem
quando eles vieram de Kiambi, no baixo Luvua. Da mesma forma, aprendemos

10   M. Musambachime, 1976, p. 15-32.
702                                                                                                              frica do sculo xvi ao xviii




                                                                            0      50              100 milhas
                                                                            0      80              160 km
                                                                   Fe
                                                   U
                                               KUS     S     Rio
                                                                   Lu
                                                                        ala
                                                                           ba


                                    Rio   m                                       HEMBA
                                     Lo       am
                                                 i

                                                                                                                     Lago Tanganica
                       SONGYE                                                                     Rio
                                                                                                        Lukuga



                                                                                 LUBA-HEMBA
              S                                                                 Rio L
                                                                                        uvu
                                                                                              a
                      sh




                                                                   Fe
                  bila
              Rio Lu




                                                        Fe                                              Kiambi
                                                              Fe
                   KALUNDWE                            S
                                                                        A
                                                             NDJ
                                                       KIKO
                            embe




                                                                            BA O
                                                                         EM S




                                                                                                                 Lago
                           Rio Lu




                                                                       UP ES




                                                                                                                 Mweru
                                                                    DE EPR




                                                                                                                           Regio central
                                                                     D




                                                                                                                           Fronteiras
                                                                                                                           Expanso
                                                                                                                     S     Sal
                                                                                          KAZEMBE
                                                                                                                     Fe    Ferro


figura 20.3       O reino luba nos sculos XVIII e XIX (segundo J. Vansina).



que os kanyok, no Nordeste, foram sujeitados por imigrantes luba que organiza-
ram (ou fundaram) um reino no territrio deles. Mais tarde, no incio do sculo
XIX, os kanyok rejeitaram o jugo luba11.
   Mas, segundo as narrativas, a emigrao mais importante aconteceu em
direo ao Norte. Aps as perturbaes que acompanharam a fundao do
Reino Luba, as guerras de sucesso e a fome, grupos de luba kasa abandona-
ram o Shaba no sentido Norte e dispersaram-se pelas margens do Lubilash,
onde encontraram terras mais irrigadas12. A fome, em numerosas tradies,
apresentou-se como um dos motivos principais do deslocamento de grupos
aparentados do Kasa. Dizem as tradies que ela explica no s a fuga do
Shaba, mas tambm o fato de eles terem abandonado o Lubilash, no Kasa, para


11    J. C. Yoder, 1977 e 1980, p. 88 e 90.
12    P. Denolf, 1954; M. Kalanda, 1959, p. 83; Kabongo Mukendi, 1973, p. 48-50; L. M. Mpoyi, 1966, p.
      34-36.
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                              703



emigrarem rumo ao Oeste, em direo ao rio Lulua. As tradies destacam o
carter realmente dinmico dos movimentos de populao. Mas no podemos
admitir que todos os luba kasa tenham deixado o Shaba em uma ou duas levas.
Por outro lado,  provvel que a cada carestia de gneros, um certo nmero de
habitantes do Sul tenha emigrado para o Norte e que esse fenmeno tenha
continuado pelo menos at o incio do sculo XIX13. O cibuba, assim como as
lnguas e os dialetos aparentados falados na regio, difere, muito claramente, do
kiluba falado no Shaba. Isso significa que o Kasa Central foi ocupado durante
centenas de anos por grupos falantes dessa lngua, da mesma forma que o Norte
do pas, entre o Lubilash e o Lualaba, fora ocupado pelos songye, cujo falar
constitui um outro ramo da famlia das lnguas luba.
    Se no Sul, nos pases Shila e Kanyok, uma variante do sistema poltico luba
do Shaba foi implantado, isso no se produziu no Kasa. Nessa regio, ou a
organizao poltica era limitada ao vilarejo e s terras que lhe pertenciam, ou
o poder era concedido, de forma vitalcia ou mesmo por um perodo limitado, a
quem mais pagava, sistema esse que encontramos geralmente em certos grupos
songye. Os luba kasa tomaram emprestado aos kanyok certas insgnias e prticas
polticas. Todavia, a maior parte dos grupos songye estava organizada de forma
muito diferente. Por volta de 1880, e, verossimilmente, desde vrios sculos, os
songye viviam em amplos centros agrcolas, verdadeiras cidades, dirigidas pela
associao Bukishi, com taxas de adeso muito elevadas e submissas  autoridade
de chefes e de alguns notveis titulados14. Tal modelo poltico igualmente diferia
daquele existente no grande Reino Luba.
    A organizao do Estado era concebida como uma pirmide de pirmides.
No escalo do vilarejo, as ligaes entre as famlias eram patrilineares. Alm
disso, as relaes entre os vilarejos eram concebidas segundo o modelo das rela-
es entre linhagens, ainda que cada um deles tivesse seu prprio chefe, oriundo
de uma certa famlia que detinha a autoridade em virtude de suas relaes com
um vidye (esprito) local. No escalo superior, o reino era governado da capital
(percebida como um cume nas expresses que a ela se referem), cujo prprio
traado refletia essa estrutura: residncia real, residncias dos funcionrios titu-
lados dos dois sexos, separados segundo a funo (militar, civil). Em seu centro,
distinguia-se facilmente o lugar reservado ao bulopwe (cargo real). Em seguida,
o traado da cidade revelava, ainda que menos claramente, a presena do bam-


13   Os luba entraram em contato com os kuba por volta de 1750 e emigraram (os bena coofa) nos primeiros
     anos do sculo XIX.
14   N. Fairley, 1978, p. 118-160.
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figura 20.4 Kuba, centro do Zaire: taa ritual cefalomorfa destinada s libaes de vinho de palma, portando
incrustaes de cauril no pescoo e na ala, e de lato na boca, nas tmporas e atrs da cabea. Altura: 18 cm.
[ G. Berjonneau, ART 135, Boulogne-Billancourt.]
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                            705




figura 20.5 Luba, Sul do Zaire: cabo de uma bengala cerimonial, em forma de cabea humana ornada de
um penteado muito alto, sobrepujada por duas personagens segurando-se pela cintura. Comprimento total:
164 cm. [ G. Berjonneau, ART 135, Boulogne-Billancourt.]
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figura 20.6 Luba, Zaire: arma cerimonial, cujo cabo coberto de lato espiralado termina em uma cabea
esculpida. Lmina de ferro cinzelada. Comprimento: 37 cm. [ M. Aeschiman, Genebra.]




budye, a associao fechada que ajudava o rei a governar. Presumia-se que o rei
no tivesse linhagem nem cl, embora a funo se transmitisse geralmente de
pai para o irmo ou o filho. Porm, os luba viam isso como uma rotao do
poder entre diferentes linhagens, as das mes dos reis. Assim, o rei encontrava-
-se, ao mesmo tempo, acima do combate poltico e ligado por parentesco a uma
quantidade de diferentes chefes. Ele encontrava-se no cume da pirmide das
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                        707



pirmides do parentesco. O ttulo de mulopwe significa a indivisibilidade do
poder, o poder que no pode ser partilhado15. Os ritos da investidura (o incesto
real, por exemplo) e as insgnias do poder sublinhavam o carter nico e a
supremacia do soberano, bem como sua condio de simples titular do cargo: o
mulopwe era apenas um rei de uma linhagem de reis. Aqueles que o precederam
eram poderosos ancestrais, com seus lugares de devoo, e exprimiam-se pela
voz das mulheres ligadas a esses lugares.
    O mulopwe era cercado por uma famlia de funcionrios. Primeiramente,
havia seu harm, que refletia as verdadeiras alianas polticas, assegurando a
coeso do reino. Os funcionrios controlavam o pagamento do tributo em forma
de mingilu (corveia), milambu (impostos pagveis em alimentos ou em produtos
locais, tais como sal, rfia, cestos etc.) ou de presentes oferecidos na ocasio da
investidura de kugala (dignitrios). A administrao territorial estava nas mos
dos bilolo (singular: kilolo), cada um deles sendo responsvel por uma kibwindji
(regio). Eles eram escolhidos pelos habitantes da regio em questo, no interior
da famlia dirigente do distrito, e suas funes eram confirmadas pela corte.
Porm, s vezes, eles eram impostos por esta, principalmente quando se tratava
de um parente prximo do rei. A administrao central supervisava a coleta
do tributo, organizava o exrcito (encarregado de recolher esse tributo pela
fora) e aconselhava o rei por intermdio do tshidie (conselho dos notveis) e
do tshihangu (corte de justia). Os principais funcionrios eram o twite (que
substitua o rei nas questes do domnio secular), o nabanza (guardio das insg-
nias reais e supervisor dos ritos), o lukunga (primeiro juiz), o mwana mwilamba
(chefe do exrcito), o mwine lundu (guardio da tradio e, notadamente, da
constituio no escrita), o fumwa pamba diyumbi (o feiticeiro, mas, tambm, o
adivinho do rei), a ndalamba (a rainha me, que tinha um papel ritual)16.
    Ademais, esses funcionrios, provavelmente assim como os outros, partici-
pavam das reunies do Bambudye que possua ramificaes em todos os lugares.
No sabemos exatamente como essa associao funcionava, j que seus segredos
no foram revelados. Mas seu papel consistia em exercer o controle, ao mesmo
tempo religioso e secular, do pas e, at mesmo do rei, exaltando continuamente
a ideologia luba e a do Estado17.
    Na prtica, as cortes locais organizavam-se segundo o mesmo modelo da
capital, e os chefes locais, detentores de certos objetos sagrados, mantinham

15   J. van Avermaet e B. Mbuya, 1954; S. K. N'dua, 1978, p. 337; T. Q. Reefe, 1975, p. 11.
16   J. Vansina, 1965, p. 57-58; K. Y. Tundu, 1981, p. 83-99.
17   T. Q. Reefe, 1981, p. 46-48.
                                                                                                                                                                                                              708
              Pool                                  R




                                                    io
                                                       Cuilo




                                                                              assai
         KONGO                                                 PENDE
                                                                                                                                                                       Lago Tanganica




                                                                                                                                                  Rio Lualaba
                                                                              oC
         ZOMBO




                                                                                                             hima
                     YAKA                                       Mwaka




                                                                            Ri
                                             SUKU               Kumbana
                      1760                                                                                                      LUBA




                                                                                                          B us
                             Yaka                                                     Mai Munene




                                                                                                       Rio
                                                                                                                                                                Rio
                                                                                             SALA                                                                     Lu
                                                                                                 MPASU                                                                     v




                                                                                                                                                                           ua
                                                                 50
                                                                17
                                     Ri




                                                                                                       Rio Nkala
                                       o


                                                                                             Rund
                                          Cu
                                            an



                                                                                             RUND
                                            go




                                                 Shinje                                                                                                                               Lago Mweru




                                                                                                          ny
                                                                                              1650
              1630                                                                                                                                KAZEMBE
                                                                     1680                                                                         LUAPULA
                                    Casange                                                                                                             1745                                Kazembe
                                                                                                                                1700 Kazembe                                                 Luapula
                           Ri         IMBANGALA                                                                                       Lualaba                                                       179
                              o                                                                                                                                                                           0
                                                                                                                                                                                     Rio Bangweulu
                              C
                                  ua
                                    nz




                                                                                                                                          Musokantanda
                                                                                                         ezi




                                                                                                                                                                                Rio L
                                      a




                                                                                            LWENA      mb
                                                                                        1725 ?       Za
                                                 0 CHOKWE                                         io




                                                                                                                                                                                     ua
                                           179


                                                                                                   R




                                                                                                                                                                                     ulap
                                                                                                                             Kanongesha
                                                                     Rio B




                                                                                                                                                                                                              frica do sculo xvi ao xviii
                                                                          u   ngo

                                                                                                                                                   Rotas de comrcio
                                                                               1790                                Ishindi
                                                                                                                                                   Principais Estados
        0            100             200 milhas                                                                                                    Cidades

        0            150             300 km                                                                                                        Dependncias Lunda



figura 20.7   O imprio lunda no sculo XVIII (segundo J. Vansina).
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                       709



ligaes com os cultos territoriais locais, frequentemente voltados aos espritos
de seus prprios ancestrais. Deste modo, no Reino, as foras centrfugas eram
sempre potentes. Os guerreiros do rei constituam a fora coerciva concreta,
assegurando a unidade do pas. Mas no havia um exrcito permanente, de
forma que era muito importante a fora ideolgica representada pelo Bambudye.
Isso tambm significava que um pesado tributo (e numerosas tradies falam
disso) s podia ser cobrado quando os distritos centrais estavam dispostos a
apoiar o rei em sua luta contra um deles ou contra outros.
    Em virtude dessa situao, no  de se surpreender que o Reino no se tenha
expandido rapidamente. Dispomos de poucos dados sobre a histria do terri-
trio at cerca de 170018 e at o reinado do rei Kadilo. Nessa poca, no Norte,
aconteceram campanhas militares contra as cidades songye vizinhas "mas, no fim
das contas, Kadilo venceu. Aps isso, uma aliana foi acertada com certas cidades
songye e, no final do sculo, quando houve uma crise de sucesso, a influncia
songye se fez sentir nos negcios do Estado19". A verdadeira expanso do reino
aconteceu no vale do Lualaba, em toda extenso do Luvua (Kiambi) e no Sul
da depresso de Upemba. Tal expanso acentuou-se na ocasio da grave crise de
sucesso desenrolada aproximadamente de 1780 a 1810. Naquele momento, os
kanyok livraram-se da dominao luba, e a influncia poltica e cultural songye
alcanou o seu apogeu, assim como  ilustrado pela introduo da sociedade
buka-sandji. Em seguida, a expanso retomou o sentido leste, com a conquista
das terras compreendidas entre o rio Luluaba e o lago Tanganyika, e o sentido
norte, com uma incurso militar em toda a extenso do Luluaba at Buli20. As
explicaes dadas a respeito dessa expanso21 no so totalmente convincentes.
Mais vale reconhecer que a lgica interna desta dinmica nos escapa, do que,
antes, querer a todo custo explic-la pela vontade de ter acesso s rotas comer-
ciais e s matrias-primas, das quais hoje no sabemos quase nada.


     Os lunda: organizao interna e expanso at 1800
   O Reino Rund transformou-se em imprio lunda no sculo XVIII. No
sabemos tudo sobre a maneira como, no princpio, ele estava organizado, todavia,


18   Ibidem, p. 107-124 e p. 58-59 para as datas.
19   N. Fairley, 1978.
20   T. Q.. Reefe, 1981, p. 124-128.
21   A. Wilson, 1972.
710                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



conhecemos alguns dos ttulos portados pela corte. Tambm sabemos que essa
organizao tinha um carter militar muito menos marcado do que o do Reino
Luba, mas sobretudo, conhecemos muito bem os princpios sociais e polticos
que a regiam.
    A transmisso do ttulo de tubung era matrilinear, porm, a do ttulo de
rei e dos ttulos portados pela corte era bilateral. A representao imaginria
da sociedade era fundada na sucesso em matria de funes e no parentesco
perptuo. Isso significa que se esperava que cada detentor de um cargo  de um
ttulo, por exemplo  se transformasse em seu predecessor: tomava o nome, as
mulheres e os filhos de seu predecessor, tal como sua personalidade e sua famlia.
O parentesco era, portanto, perptuo. Por exemplo, se o primeiro detentor de
um ttulo fosse o neto do rei, o sobrinho de um outro dignitrio e o tio de um
mwant a ngaand (chefe do distrito local), cinco geraes depois, o detentor do
mesmo ttulo seria ainda o neto do rei, o sobrinho de um certo dignitrio e o
tio do mwant a ngaand. As devastaes do tempo eram negadas.
    Com esses princpios, era possvel imaginar o Estado como uma organi-
zao governada por uma nica famlia, cujo chefe era o imperador, o mwant
Yav. Sempre era possvel incorporar novos chefes, dando-lhes uma ligao de
parentesco (genro, por exemplo, aps um casamento) e assegurando-lhes uma
funo estvel no Imprio. Os historiadores tm sublinhado, com justeza, o fato
de a sucesso no mbito de funes e o parentesco perptuo terem fornecido o
mecanismo permitindo a integrao de vastos territrios. Ademais, a organiza-
o do imprio, baseada no modelo familiar, tinha automaticamente por efeito a
regulao das relaes entre funcionrios. A diviso fundada na noo de gerao
era rigorosa22. Assim, todos os "filhos" e "sobrinhos" deviam obedincia a todos
os "pais" e a todos os "tios"; e todos os "netos" eram os aliados de seus "avs". Uma
diviso ligada  ascendncia direta ou a uma situao que pudesse engendrar
uma afinidade juntava-se  precedente. Os "enteados" eram os subordinados de
seus "padrastos" e, assim, os "filhos da irm" tinham uma posio ambgua frente
aos seus "tios maternos".
    Deste modo, para os rund, o Estado constitua uma famlia muito ampla,
pois que o Imprio acabou por se estender do Cuango para alm do Luapula.
Porm, era uma famlia de guerreiros, que prosperava graas  escravido. Por
volta de 1700, os guerreiros lunda submeteram a populao que vivia na periferia


22    Tal modelo  claramente aparentado quele dos sala mpasu, os quais nem se encontravam organizados
      em chefias. Porm, os grupos etrios e os "homens fortes" da sua organizao correspondem s categorias
      etrias e aos ttulos que encontramos entre os rund. Ver W. F. Pruitt, 1973.
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                                711



do Imprio, assegurando a integrao dela e, depois, continuaram seu caminho.
Aproximadamente em 1750-1760, poderosos reinos se constituram a partir
do pas Yaka, no Cuango, at o pas Kazembe, no Luapula, ao longo de um
eixo Leste-Oeste onde eram encontrados os recursos minerais do Shaba e que
permitia o acesso aos mercados portugueses no Zambeze. Ali desembocavam
tambm as rotas comerciais que iam do pas Rund ao territrio imbangala, no
Cuango.
     As malhas da administrao eram folgadas. O Imprio era constitudo por
um reino central e por reinos perifricos, cujos chefes limitavam-se, s vezes,
a pagar um tributo  corte23. No centro do Imprio, no escalo mais baixo da
organizao territorial, encontrava-se o canto governado pelo mwant a ngaand,
que continuava a herdar essa funo de acordo com as regras de sucesso matri-
lineares. Acima dele encontrava-se o cilol, designado pela capital e governador de
um distrito. No centro, os tubung e os funcionrios titulados assistiam ao rei.
    Porm, para controlar os bilolo, o rei criara funcionrios especiais, os tukwata
(singular: kakwata), que andavam pelo pas com um destacamento militar a fim
de obrigar os bilolo a pagarem um tributo. Fora dessas foras, existia uma impor-
tante organizao militar dirigida por um kazembe (general). J antes de 1700,
os kazembe foram designados para dirigirem os corpos expedicionrios enviados
s regies longnquas. O prprio ttulo era conferido a qualquer guerreiro san-
guinrio que tivesse matado um inimigo perigoso24. O kazembe tinha todos os
poderes em seu prprio terreno de operaes, fora do centro do Imprio. Mas,
uma vez os territrios integrados ao Imprio, ou ele perdia suas prerrogativas,
ou se tornava um chefe de pleno direito, um kilolo do imperador.
    A mussumba (capital) era conhecida como o acampamento de um exrcito
instalado para passar a noite, com uma linha de frente, uma vanguarda, asas
e um centro. O corao era ocupado pelo palcio real, onde residia o mwant
Yav (imperador), a swan murund (rainha me simblica chamada Rweej), a
rukonkesh (rainha me encarregada dos problemas "logsticos" da corte) e os
dignitrios, entre os quais figuravam, em primeiro lugar, chefes militares como
o kalala, comandante da vanguarda, e o swan mulopwe, presumido herdeiro e
comandante-em-chefe. O poder era detido pelo imperador; seu ttulo, mwant
Yav (senhor da vbora), fazia referncia  distncia existente entre o rei e os
outros homens, mas tambm evocava sua ambivalncia, pois que representava
ao mesmo tempo a paz e a guerra, a prosperidade e a destruio.

23   J. L. Vellut, 1972, p. 70.
24   Ainda aqui, revela-se o paralelo com o "caador de cabeas" dos sala mpasu; W. F. Pruit, 1973.
712                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




figura 20.8 Luba, Zaire: boto do punho de uma bengala, em forma de mulher escarificada, portando um
colar de prolas. Comprimento total: 160 cm. [H. Dubois, Bruxelas.]


Figura 20.9 Luba, Zaire: boto do punho de uma bengala, em forma de mulher escarificada, com as mos
nos ombros. Comprimento total: 80 cm. [H. Dubois, Bruxelas.]
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                        713



    O papel do imperador lunda era muito menos ritualizado e seu poder mais
desptico que esse parentesco permitiria supor. H pouco tempo, ainda se pen-
sava que a expanso do Imprio Lunda comeara com a emigrao de guerreiros
para o Cuango. Mas pesquisas tm mostrado que as tradies concernentes a
essa pretensa onda migratria eram apenas interpolaes tardias devidas aos
contatos comerciais entre os imbangala e os rund25. De fato, a expanso comeou
antes de 1700. A primeira conquista aconteceu no sentido Sudeste, em direo
s salinas do Lualaba, perto da atual cidade de Kolwezi; da, por volta de 1700,
um grupo dissidente pertencente  gerao seguinte e dirigido por Musokan-
tanda e Kanongesha partiu para o Sul, rumo  atual Zmbia, e aps ter assimi-
lado uma parte dos autctones mbwela e ter expulsado uma outra parte deles
para o Sul, fundou um Estado no pas Ndembu26. Perguntamo-nos se os lunda
no teriam participado ainda mais cedo da formao do Reino Lozi. Os his-
toriadores admitem que, ainda cedo, eles poderiam ter exercido uma influncia
sobre os bulozi, mas ainda no temos a prova de que eles tivessem entrado em
contato com esses ltimos. Dado que a expanso lunda para o Sul comeou aps
1700,  provvel que o Reino Lozi j estivesse constitudo quando a influncia
lunda comeou a se fazer sentir na regio27.
    Na ocasio de uma nova campanha militar, os generais lunda foram para o
Sul, das salinas do Lualaba em direo s minas de cobre, e atingiram o vale mais
rico do Luapula. A armada lunda impeliu um ataque luba e sujeitou os chefes do
Shaba (dos quais um deles portava o nome Katanga), bem como o Estado shila
do Luapula. Este Estado se desenvolveu e na segunda metade do sculo XVIII,
o kazembe do Luapula era o senhor de um vasto reino com bases slidas28. Pouco
depois de sua instalao, os lunda do Reino kazembe entraram em contato com
os portugueses de Sena e de Tete. De 1798 a 1799, uma misso conduzida por
Lacerda visitou o novo reino29. Ficaram impressionados com o poderio militar
do Kazembe e tambm com a severidade das medidas coercivas que continua-
vam a ser tomadas pela corte contra os habitantes. Esta misso portuguesa inau-
gurou um perodo de intensas relaes comerciais entre o Kazembe e o baixo
Zambeze. A autonomia do Kazembe diante da capital (mussumba) reforou-se



25   J. K. Thornton, 1981a.
26   R. E. Schechter, 1980, p. 113-124, e 1976.
27   M. Mutumba, 1973, p. 213-214.
28   E. Labrecque, 1949-1951, p. 27; M. W. Kolungwe, 1974, p. 50.
29   J. Vansina, 1965, p. 133.
714                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



a tal ponto que o pagamento do tributo, efetuado regularmente nos anos 1970,
transformou-se nos anos 1830 em uma troca equitativa de presentes30.
    Em direo ao Norte a ao Oeste, a expanso lunda encontrava-se estreitamente
ligada ao desenvolvimento do comrcio de escravos em Angola. As relaes com
o trfico de escravos angolano datam, no mais tardar, dos anos 167031 e foram
intensificadas aps 173032. Os imbangala criaram um sistema de comrcio por
caravanas graas ao qual importavam para sua capital lunda produtos europeus
(vestimentas, prolas e vasilhas) percebidos pela aristocracia local como objetos de
luxo, tornando-se emblemas do poder. Os lunda no aceitaram os fuzis, preferindo
continuar fiis ao seu sabre, o mpok33. Ao retornarem, exportavam escravos a prin-
cpio capturados nas nicas regies setentrionais e orientais do Imprio Central
Rund, precisamente no Sala, Mpsau, Kete, Kanincin e mesmo no Kanyok. Mais
tarde, cativos mbwela originrios do Norte da Zmbia e do Leste de Angola
foram, por sua vez, integrados a esse trfico. Durante esse tempo, aumentava a
demanda por escravos no interior do Imprio Lunda. Eles eram destinados aos
trabalhos dos campos nas cercanias da capital e  cultura da mandioca ao longo das
principais rotas do pas, em lugares isolados; tambm serviam como atravessadores
ou carregadores nas caravanas que atravessavam os grandes espaos desrticos
estendendo-se do rio Cuango ao Nkalany e ao rio Lualaba34.
    Pouco depois de 1700, tambm ocorreram expedies militares no sentido
Oeste e em torno de 1750, chefes lunda atingiram o rio Cuango. Angola Orien-
tal, pas dos lwena, era o principal objetivo deles. Vrios pequenos Estados foram
criados, notadamente por Kiniama. Nessa regio, os chefes lunda reuniram
sob sua autoridade as grandes organizaes locais, cuja estrutura repousava em
uma filiao matrilinear muito antiga. No princpio, o mwangana lunda (chefe)
desempenhou o papel de rbitro no regulamento das contendas, e a popula-
o local tambm aceitou a crena nos supostos grandes poderes sobrenaturais
desses emissrios lunda. Se aceitarmos a genealogia, a chegada dos primeiros
chefes lunda na regio remontaria aproximadamente a 1750, mas o processo
foi certamente iniciado uma gerao mais cedo, uma vez que nessa data, j



30    J. Vansina, 1966b, p. 165-174; F. J. M. de Lacerda e Almeida, 1944, p. 175-261; A. C. P. Gamitto, 1960,
      vol. II, p. 9-130.
31    O. De Cadornega, 1940, vol. III, p. 219.
32    Provavelmente aps 1665 ; J. K. Thornton, 1981a, p. 6.
33    M. Leito Correia, 1938, p. 25.
34    J. L. Vellut, 1972.
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                                        715



se encontravam chefes lunda na margem oriental do Cuango35. Ao Oeste do
Lwena, diversas chefias chokwe, minungo e songo tambm foram criadas pelos
lunda em condies anlogas, exceto no pas Shinje, onde j existia um reino36.
Em seguida, dentre esses povos, os chokwe revelar-se-iam os mais importantes.
Mesmo no sculo XVIII, eles foram teis ao Imprio como metalrgicos, escul-
tores e caadores. Os lunda do centro faziam com que suas armas e objetos escul-
pidos viessem dessa regio, pois eram metalrgicos e escultores lastimveis37.
    Os invasores lunda capturavam escravos na ocasio de suas conquistas. Cons-
truram grandes campos fortificados providos de fosso e de paliadas38. No vale
do Cuango, encontraram chefias yaka, suku, e talvez ainda outras em Okango,
organizadas segundo o modelo kongo. Tornaram-se senhores delas. Numerosos
habitantes fugiram, mas as estruturas no foram destrudas. Os lunda preferi-
ram instalar bilolo (chefes) superiores ou equivalentes queles j empossados.
Isso resultou em um complexo sistema poltico de trs nveis no qual mesmo
a ideologia do Estado reconhecia a existncia tanto dos "autctones" quanto
dos invasores lunda. Porm, o chefe dos yaka, o kiamku (palavra derivada de
um ttulo imperial Yav) no pde controlar todos os seus homens. Um Estado
semi-independente, o Estado do Pelende, formou-se no Norte, ao passo que um
grupo (os sonde-luwa) emigrou para o Leste do Mdio Cuango, para l fundar
suas prprias chefias39.
    Uma vez estabelecidos, os reis yaka comearam a fazer expedies em direo
ao Kwilu, a fim de capturar escravos, vendidos por eles aos mercadores ango-
lanos, kongo e vili. Seguiram-se importantes distrbios. O reino suku resistiu
vitoriosamente, mas, em outros lugares, a populao fugiu para o Nordeste, da
as intensas densidades de populao observadas no sculo XIX ao longo do
quinto paralelo sul40.
    Uma ltima impulso ocorreu do Oeste do rio Kasa ao Norte, provavel-
mente ao longo do vale do Tshikapa. Nessa regio, os lunda fundaram dois


35   C. M. N. White, 1962, p. 15-18; J. K. Thornton, 1981a, p. 5 e nota 29 (Shinje e Malonda).
36   As provas trazidas pela tradio lunda e pelo estudo estilstico da arte praticada na corte lunda referem -se
     a um perodo mais tardio (sculo XIX), mas podem muito bem ser vlidas (em todo caso, no que concerne
     ao metal) para a segunda metade do sculo XVIII. A escultura dos chokwe dessa poca testemunha a
     influncia estilstica da Renascena e do Rococ portugus.
37   M. Leito Correia, 1938, p. 25. Encontramos fortificaes desse tipo no Imprio central, junto aos kanyok
     e no pas Luba. A tcnica militar expandiu-se por toda a regio.
38   Ibidem.
39   M. Plancquaret, 1971; J. K. Thornton, 1981a.
40   Os grupos tnicos hoje chamados mbala e ngongo emigraram para o Norte aps as incurses yaka.
716                                                                      frica do sculo xvi ao xviii




figura 20.10 Chokwe, Angola e Zaire: cama ritual (?) de madeira com quatro ps, prolongada por uma
cabea portando um tpico penteado chokwe e decorada com esculturas lembrando os brincos chamados
ukulungu. Comprimento: 131 cm. [ G. Berjonneau, ART 135, Bolonha-Billancourt.]




pequenos Estados: o primeiro, situado perto das grandes quedas do Kasa, tinha
por capital Mai Munene e rapidamente se tornou um importante mercado para
as caravanas provenientes do Cuango; o outro era Mwaka Kumbana, no Luange.
Nessas duas zonas, os lunda misturaram-se de um lado com imigrantes recentes,
os pende etc., e, de outro lado, com os autctones. O sistema poltico resultante
dessa fuso assemelhava-se muito menos  organizao do Rund Central do que
aos sistemas instaurados em outros Estados lunda. Isso se deveu  influncia
O sistema poltico luba e lunda: emergncia e expanso                                     717



poltica exercida pelos pende na regio e do fato de chefias pende independentes
subsistirem nos arredores41.


     Concluso
    Em 1800, a ao conjugada da expanso luba e lunda permitira a estruturao
do conjunto das savanas da frica Central, ao Leste do rio Cuango. Em toda
essa zona, os diferentes povos haviam difundido uma cultura comum, ou seja,
uma viso de mundo, rituais, emblemas e smbolos comuns. Alguns objetos,
como o diadema de chifres lunda, encontram-se do Cuango ao Lualuba. Cer-
tas instituies, como os mukanda de meninos, que existiam aproximadamente
desde 1650 a Oeste do Cuango, foram generalizadas, primeiramente graas ao
Pende, e depois, atravs dos lunda, ao passo que, no Norte, foram introduzidas
entre os kuba pelos pende42. Tal difuso foi em parte facilitada pela existncia
de rotas comerciais, mas tambm pelas incurses. A mobilidade da populao,
muitas vezes ligada aos casamentos, era surpreendentemente forte. Pelo fato de
as mulheres irem viver com seu marido e de os nomes de cl serem transmitidos
pela me, a difuso dos nomes era considervel. Deste modo, encontramos os
mesmos nomes do Cuango ao Kasa e do Kasa ao Luapula.
    Por outro lado, a expanso lunda provocou grandes devastaes. No se deve
subestimar a natureza militarista dos Estados lunda, nem a amplitude da caa
aos escravos tal como ela era praticada. Se  bem provvel que as baixas densi-
dades de populao constatadas no Sul do Cuango e a Leste de Angola estejam,
em parte, imputveis a essas atividades,  certo que, por outro lado, a concen-
trao da populao observada ao longo do quinto paralelo, entre o Cuango e o
Kwilu, foi a consequncia direta disso. Esse aspecto, atrelado  presena de uma
cultura poltica comum do Cuango ao Luapula, continua sendo o legado desses
sculos para os habitantes dessa vasta regio.




41   Kodi Muzong, 1976, p. 268-342.
42   J. Vansina, 1983a, p. 332-333, e 1978, p. 204-205; Kodi Muzong, 1979, p. 136 e 163.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                            719



                                     CAPTULO 21


                      A Zambzia do Norte:
                     a regio do Lago Malaui
                     K. M. Phiri, O. J. Kalinga e H. H. K. Bhila




    A regio estudada neste captulo  limitada ao Sul pelo Zambeze, ao Norte
pelos rios Songwe e Rovuma, a Oeste pelo Luangwa e a Leste pelo Oceano
ndico. A parte sul dessa regio era dominada pelo grupo lingustico dos chewa
e por seus subgrupos, os manganja do baixo vale do Shire e os nyanja, instala-
dos na extremidade sul do Lago Malaui. A Oeste do territrio chewa viviam
os nsenga e a Leste o grupo lingustico lolo-makua-lomwe bem como os yao.
A parte setentrional, a Oeste do Lago Malaui, era compreendida entre a zona
perifrica dos chewa-tumbuka, situada ao Sul dela, e o rio Songwe, mais ao
Norte. Trs famlias lingusticas ocupavam essa zona: os tumbuka, os ngonde-
-nyakyusa e os sukwa-lambya-nyiha. Em 1500, os habitantes da zona sul e os
tumbuka do Norte pertenciam todos a esse "conjunto matrilinear falante do
banto central", estendendo-se do Sul do rio Zaire, a Oeste at o Oceano ndico,
a Leste. No decorrer dos sculos seguintes, os tumbuka adotaram contudo o
sistema patrilinear. Os ngonde-nyakyusa e os suka-lambya-nyiha tinham, por
sua vez, uma estrutura patrilinear datada dos primrdios de sua tradio hist-
rica. A regio compreende hoje o Leste da Zmbia, a totalidade do Malaui e o
Norte de Moambique.
    Durante o perodo que nos interessa, a zona sul foi dominada, no decorrer do
sculo XV, pela chegada dos maravi e pelo impulso de seus Estados cuja expanso
continuou, no sculo XVI e XVII, at envolver os nsenga no Oeste e os lolo-
                                                                                                                                                                                                720
                                          TABWA              FIPA

                   Lago Mweru                                Lago Tanganica
                                           LUNGU
                                                                    NAMWANGA                                                                                 Kilwa
                                                                               Rio          NYAKYUSA
                                                              NYIHA                  Songwe
                               LUNDA                                                                        KINGA
                                                   SUKWA
                                                                      LAMBYA          Mbande                    PHANGWA




                                  pula
                                                   BEMBA
                                                                          NGONDE
                               Lua
                                                                                                                                                                                 Cabo Delgado
                                                                                                    ru
                           Rio                   Lago Bangweulu                               ku
                                                                                            Ru
                                                                                        o
                                             BISA                                     Ri                             Lago Malau

                                                                                                                                            Rovuma
                                                                          TUMBUKA                                                    R io




                                                                      a
                                                                                                                                                nda




                                                                   gw
                                                                                                                                         u je
                                                                                                                                       oL




                                                                an
                               LAMBA                                                            a                                    Ri




                                                             Lu
                                                                                             Bu
                                                                                         o
                                                                                       Ri


                                                             o
                                                                                                                     YAO
                                                           Ri
                                             LALA                           CHEWA
                                                                                     Manthimba
                                                                                                                          NYANJA

                                                                                                                               Lago Chiuta
                                         LENJE
                                                                                        Lago Malombe
                                                   NSENGA
                                                                                                                              LOMWE
                                                                                                                                                                  Rio Lurio




                                                                                                              hire
                                         Zumbo
                                                           Rio Zambeze




                                                                                                         Rio S
                                                                                                                           Lago Chilwa
                                                                                                                                                      Colinas
                                                 KARANGA




                                                                                                                                                                                                frica do sculo xvi ao xviii
                                                                               Tete                                                                   de Namuli

                                                                                                           MANGANJA                                                       Ilha de Moambique
                                                                                                                                         MAKUA
                                                                                                                       LOLO
                       0                         150                      300 milhas                Sena                      Quelimane                   OCEANO NDICO
                       0                         240                      480 km


figura 21.1 Etnias da regio norte do Zambeze no sculo XVIII. [Fonte: de acordo com A. D. Roberts, 1973, p. XXV. Mapa adaptado com a amvel autorizao
de Longman Group UK Ltd].
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                         721



-makua-lomwe no Leste. No sculo XVI, a populao do Norte era organizada
em pequenos grupos de cls autnomos, exceto pelas chefias simbowe e mbale,
situadas respectivamente na plancie Karonga e na regio montanhosa de Phoka.
Por volta do fim desse sculo, contudo, um grupo de imigrantes  os nguluba 
fundou os Estados de Lambya, Ngonda, Chifungwe, Sukwa e vrias outras chefias
nyakyusa. Durante o mesmo perodo, a expanso dos maravi no interior da zona
perifrica dos tumbuka-chewa acarretou a instaurao de novas chefias chewa 
notadamente as de Kanyeda, Kabunduli, Kaluluma e Chulu  que impuseram sua
lei  populao tumbuka: assim nasceram, em essncia, o povo e a lngua tonga. No
sculo XVIII, o comrcio do marfim constitua um fator de primeira importncia
em ambas as zonas. A zona sul foi ento marcada pelo declnio dos Estados maravi
e pela expanso dos yao que, expandindo-se no interior para comerciar, acabaram
por fundar seus prprios Estados. Um grupo de imigrantes da regio de Nya-
mwezi  os balowoka  veio se estabelecer entre os tumbuka, criando esferas de
influncia econmica que se transformaram em entidades polticas com o tempo.
Os Estados antigamente instalados no Sul do Songwe permaneceram contudo
afastados desses novos movimentos comerciais at meados do sculo XIX.
    Muito tempo antes do sculo XVI, a regio passara por ondas sucessivas de
imigrao na idade do ferro e, notadamente, algumas trouxeram os primeiros
ancestrais de seus modernos habitantes bantfonos. A arqueologia nos esclare-
ceu muito sobre essa questo. Ela nos mostra, por exemplo, o fato de a regio
ter sido a princpio ocupada por uma populao que se servia do ferro, produzia
alimentos e talvez falasse banto desde 300 d.C. At o sculo XI, esses habitantes
da idade do ferro se distinguiam pela fabricao de cermicas to estreitamente
parecidas umas com as outras quanto s dos mwavarambo e dos mwamasapa
no Norte, dos kanepi, dos nkope e dos longwe no Sul1. No sculo XII, contudo,
essas primeiras tradies de cermica comearam a dar lugar a novos estilos tais
como os da cermica mawudzu e luangwa, cuja apario foi associada  chegada
dos primeiros ancestrais dos povos bantfonos modernos2.
    Parece ento que a chegada e instalao da atual populao de lngua banta
tenha ocorrido a partir do ano 1200. Os recm-chegados vinham do Norte em
cls ou grupos de cls; uma vez na regio, eles expulsaram ou assimilaram os
agricultores e os caadores-coletores a encontrados.



1   G. Y. Mgomezulu, 1981, p. 450-451; K. R. Robinson, 1966, p. 183-188; K. R. Robinson e B. Sandelowsky,
    1968.
2   G. Y. Mgomezulu, 1981, p. 450-451.
722                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



    No Malaui setentrional, os primeiros habitantes bantos formavam principal-
mente uma populao sem Estado, em outros termos, pr-dinstica. Ela compre-
endia, entre outros, os cls dos sikwese, chilima, silumbu, simwayi, namwenes (da
plancie de Karonga), chiluba, mzembe, luhanga, nyanjagha, nyirongo, kanyinji
e mtonga, cuja organizao em Estados foi mais ou menos bem-sucedida nas
mos de imigrantes posteriores mais poderosos.
    Na Zmbia Oriental, no Leste do Luangwa, os ancestrais dos atuais habitantes
bantfonos eram, dizem, os katanga. Mais ao Leste, no Malaui Central, eles com-
preendiam um certo nmero de cls designados sob o vago termo de "protochewa",
notadamente aplicado aos cls banda, mbewe e zimba, que reivindicavam serem
oriundos dessa zona. Na tradio oral, os protochewa so s vezes chamados de
kalimanjira (os que abrem o caminho) por terem livrado o pas dos seminmades
anteriormente ocupantes, os batwa e os kafula. Em alguma parte central do Malaui,
seu nome  tambm associado a um mito de criao local segundo o qual o homem
e todos os pssaros malauianos ao seu redor teriam sido criados na montanha de
Kaprintiwa, na fronteira do Malaui e do Moambique Ocidental3.
    Em contrapartida, no  possvel ser to afirmativo no que concerne s ori-
gens e  formao das comunidades lolo-makua-lomwe e yao do Moambique
Setentrional. Nenhuma tradio indica claramente a maneira como elas ocupa-
ram os territrios pertencentes a elas hoje. Sem dvida, isso se apoia no fato de
terem criado seu pas h vrios sculos, perdendo h muito tempo a lembrana
de suas origens exatas. No incio do sculo XVI, os lolo j ocupavam o Sudoeste
do Moambique Setentrional, enquanto os makua e outros grupos de lngua
lomwe habitavam a costa frente  ilha de Moambique bem como o interior
at as altas terras do Oeste. O pas dos yao se encontrava no Noroeste daquele
dos makua, entre o rio Rovuma ao Norte e o Lujenda, ao Sul4.
    Na zona norte, os primeiros habitantes falantes do banto moderno, cujos
traos permanecem at hoje, se estabeleceram num territrio compreendido

3     As principais fontes concernindo s interaes entre os ancestrais dos bantos da poca atual e os pri-
      meiros habitantes dessa regio so as seguintes: H. L. Vail, 1971, 1972a e b, 1974; H. W. Langworthy,
      1969b; K. M. Phiri, 1975b; A. J. William-Myers, 1978b.
4     A histria oral do Moambique Setentrional no pde fazer pesquisas em campo antes de 1975 em
      razo das lutas de libertao nacional que a ocorriam. O estado das coisas  provavelmente diferente
      hoje, o Centro de Estudos Africanos de Maputo trabalha atualmente para avaliar a situao. Alm
      disso, as tradies histricas dos yao do Malaui foram o objeto de um recenseamento sistemtico. Ver
      K. Lapukeni, P. Rashid, N. Kumwembe e J. B. Webster, 1978; K. M. Phiri, M. Vaughan et D. Makulini,
      1978; R. B. Misomali, G. Mkondiwa e H. K. Rhila, 1978; Y. B. Abdallah. 1919a; L. D. Soka, 1953; E.
      A. Alpers, 1975a. Os yao, segundo suas prprias tradies provinham da regio do "monte Yao", entre
      os rios Rovuma e Luambala. Alpers afirma que os makua se expandiram em outras regies do Norte do
      Moambique a partir dos montes Namuli, situados no corao do Moambique Setentrional.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                                     723



                                               ABILEMA
                                    Ri o
                                           Son
                                                      gwe
                                  CHILIMA
                                                       MWENEKISINDILE
                                                        MWENEFUMBO
                                                      MZEMBE E CHILUBA
                                                      u
               KATANGA




                                              ur
                                                            LUHANGA



                                                  k
                                           Rio Ru
                           MTONGA                          NYANJAGHA
                                                           NYIRONGO
                                           KANYINJI                 Lago Malau
                                           B          ua
                           BANDA       Rio
                     a     MBEWE                           KALIMANJIRA
                    w
                g
             an




                                  ZIMBA
          Lu




                         Rio K
           o




                              a                                                             PROTO-MAKUA
        Ri




                                                                              Lago Chiuta
                              po




                                                  Lago Malombe
                                  ch
                                   e




                                                                             Lago Chilwa
                                              CHIPETA

                                              Ri
                                                o
                                                      Za
                                                                    Rio




                                                        m
                                                            be
                                                                     Shire




                                                               ze



    0                150                      300 milhas
                                                                                                 OCEANO NDICO
    0                250                        500 km




figura 21.2       Grupos pr-dinsticos do Zimbbue Setentrional (de acordo com K. M. Phiri e O. J. M.
Kalinga).



entre o rio Songwe e o curso meridional do Rukuru. Eles eram compostos por
cls sikwese, chilima, mwenekisindile e mwenefumbo, instalados nas plancies de
Chipita e de Karonga, bem como cls mzembe e chiluba da regio montanhosa
de Phoka, no Sudeste de Karonga. Eles provinham, afirmam as tradies, da
margem noroeste do Lago Malaui e talvez sejam parentes dos abilema dos quais
se pensa terem vivido no Unyakyusa antes de a se estabelecer a linhagem dos
lwembe5. Contudo, pouco tempo depois, grupos de recm-chegados, na maioria
das vezes mais poderosos do que os cls j instalados, comearam tambm a se
infiltrar na regio. Eles compreendiam, notadamente, os simbowe, ocupantes da
plancie de Karonga e os mbale, fixados na regio de Phoka. Os mbale tambm



5   M. Wilson, 1958. Para um resumo das tradies concernindo s migraes da populao de lngua banta
    moderna rumo s plancies de Chipita e de Karonga, ver O. J. M. Kalinga, 1985.
724                                                             frica do sculo xvi ao xviii



vinham do Norte, afirmam ter partido de uma zona situada no Sul do Lago
Vitria para emigrar  regio do Lago Malaui.
    Provavelmente a migrao dos mbale rumo s terras altas de Phoka se deu no
sculo XIV. Os novos imigrantes eram excelentes fundidores de ferro e no tive-
ram dificuldade alguma em estabelecer boas relaes com os autctones mzembe
e chiluba, dos quais se tornaram dependentes para o aprovisionamento em gneros
agrcolas e, ainda que em parte, em carvo, do qual precisavam para seus fornos. Ao
seu lado, os mzembe e os chiluba dependiam dos mbale para a fabricao de armas
e de ferramentas agrcolas de ferro6. Parece ento ter havido uma migrao geral
rumo ao Sul seguindo principalmente o corredor separando o Lago Tanganyika
do Lago Malaui.  at mesmo provvel uma parte desses migrantes ter avanado
mais ainda rumo ao Sul, no centro do Malaui ou na zona de lngua chewa.
    Entre a regio de Phoka, no Norte, e a dos chewa, no Sul, viviam diversos
cls de lngua tumbuka. A plancie de Nkamanga bem como os vales de Henga
e de Kasitu tinham por principais ocupantes os luhanga, os kachali, os nyirongo,
os mtika e os nyanjagha. Alguns desses grupos pareciam ter se expandido, rumo
ao Leste, to longe quanto as margens do lago e, rumo ao Oeste, at o vale
do Luangwa, nesse setor do Leste da Zmbia, chamado hoje de distrito de
Lundazi7. Os nsenga, habitantes atuais dessa regio, parecem ter se cristalizado
em "tribos" sob o efeito de influncias recprocas entre as linhagens tumbuka,
chegando do Leste, e imigrantes parentes dos luba-lunda vindos do Oeste. Eles
usam uma lngua prxima do tumbuka e compartilham nomes idnticos de cls
com os habitantes da Tumbucndia. Nos sculos XVIII e XIX, eles serviram de
alguma forma de ponte entre os tumbuka no Leste e os bisa no Oeste.
    Assim ento, antes de uma data situada por volta de 1500, toda a regio que
se estende do rio Songwe, no Norte, at o Zambeze, no Sul, se encontrava, exceto
por alguns enclaves, dotada de uma organizao poltica em que predominavam as
comunidades de pequeno porte. Cada um dos diferentes grupos era composto de
chefias territorializadas, com a autoridade repousando em uma hierarquia de dois
nveis. O piv dessa forma de organizao poltica era o chefe local, representante da
autoridade suprema num dado setor. Munido desses poderes, ele exercia sua autori-
dade sobre um grupo de aldeias estreitamente aparentadas entre si e estruturadas em
funo da linhagem, com a dele prprio sendo genealogicamente a mais antiga. Na
comunidade das aldeias ao seu redor, o chefe prestava servios de ordem religiosa,
judiciria ou militar, e em troca recebia fidelidade e submisso de todos os seus.

6     K. Msiska, 1978a et e b.
7     H. L. Vail, 1972b.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                              725



    Ainda que politicamente e s vezes fisicamente dividida em esferas de influ-
ncia ligadas s etnias ou aos cls, a regio do Lago Malaui gozava de um certo
grau de coeso social e religiosa. Notadamente, o pertencimento religioso asse-
gurava a coeso no seio dos diferentes grupos sociolingusticos e entre eles. Com
efeito, na maior parte dessa regio, a atividade religiosa se manifestava to bem
no nvel local quanto no nvel territorial. Enquanto no nvel local seu papel era
assegurar o bem-estar moral e material de toda a populao, no nvel territorial,
ele deveria favorecer a cooperao cultural e ecolgica8.
    Para a maioria dos habitantes dessa parte da frica, a vida religiosa implicava,
alm da venerao dos ancestrais e da posse pelos espritos, a arte de fazer chover
e a prtica da feitiaria. Entre os povos de lngua chewa, por exemplo, o papel da
sociedade secreta Nyau era extremamente importante, pois permitia expressar e
encenar os mitos tnicos da criao, o cdigo moral etc. Durante uma representa-
o nyau, encenava-se notadamente a interdependncia entre o mundo natural e o
do esprito, bem como o mito chewa da criao segundo o qual no incio de tudo,
homens, animais e espritos viviam em harmonia. Mas a principal manifestao
da vida religiosa territorial era constituda pelos cultos da chuva. Cobrindo vastos
setores, um certo nmero desses cultos era consagrado a um deus ou a um esprito
reconhecidos em toda superfcie do territrio e dependiam de uma elite composta
de padres e de funcionrios. Os cultos chikha-n'gombe e chisumphe, prprios dos
tumbuka e dos chewa, pertenciam a essa categoria.
    Foi demonstrado que havia um considervel grau de interao e de sobreposi-
o entre os diversos cultos religiosos territoriais no interior da regio de estrutura
matrilinear estendendo-se da zona perifrica dos tumbuka-chewa, no Norte, at
o vale do Zambeze, no Sul. De um extremo a outro dessa regio, a divindade era
representada da mesma maneira. Entre os tumbuka e os chewa, por exemplo, ela
tinha a configurao fsica de uma serpente, era assimilada  potncia masculina e
gozava dos servios de vrias esposas. Da mesma forma, os funcionrios devotados
a seu servio ficavam em estado de possesso e eram isolados, em toda parte de
forma idntica, em funo de seu papel singular no interior da sociedade. Notando
essas semelhanas de estruturas entre os diversos cultos da chuva no Norte do
Zambeze, Schoffeleers emitiu a hiptese de os diferentes cultos do Malaui, do
Moambique e do Zimbbue procederem talvez de um tronco cultural comum9.



8   Essa teoria  firmemente defendida por T. O. Ranger, 1973, e por M. J. Schoffeleers, 1979a, p. 6-23.
9    M. J. Schoffeleers, 1979a, p. 22-23. Ver igualmente H. L. Vail, 1979; M. J. Schoffeleers, 1979b. Sobre os
     aspectos religiosos do Nyau, ver M. J. Schoffeleers, 1976; N. E. Lindgren e M. J. Schoffeleers, 1978.
726                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




figura 21.3 Mscara usada pela sociedade secreta Nyau, instituio mais reverenciada dos povos chokwe
e maravi. [ K. M. Phiri.]
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                            727



Seja como for, a religio permaneceu constituindo ento um importante meio de
comunicao e de interao entre povos outrora politicamente divididos.
   Entre os chewa e os povos parentes da zona sul, as vagas estruturas polti-
cas a prevalecerem antes de 1500 foram consideravelmente transformadas ou
modificadas pela emergncia dos Estados maravi, no incio do sculo XVI, e por
sua expanso at o decorrer do sculo seguinte10. Nos sculos XVI e XVII, os
maravi dominaram ento a histria poltica da Zambzia do Norte, assim como
o Estado mutapa dominava a da Zambzia do Sul nos sculos XV e XVI.
   Todos concordam hoje em pensar terem sido os maravi um grupo de imi-
grantes originrios da regio de Luba, no Sudeste do Congo, e terem penetrado
no Malaui Central a partir do Oeste, aps atravessarem o imenso planalto do
Nordeste da Zmbia. Tendo atingido a extremidade sul do Lago Malaui, eles a
se estabeleceram e no tardaram a impor sua lei  populao protochewa ocu-
pante da regio. Aps terem a se assentado, eles se lanaram numa campanha
de expanso territorial, apropriando-se de toda a metade inferior da regio do
Lago Malaui. Eles instauraram assim uma confederao de Estados incluindo,
a partir do incio do sculo XVII, a maior parte da Zmbia Oriental, o centro e
o Sul do Malaui bem como o Norte do Moambique. Assim eles acabaram por
exercer uma influncia poltica e militar em uma vasta regio.
   A apario do Estado maravi permanece contudo sendo um fenmeno que
os historiadores da Zambzia do Norte esto longe de esclarecer por completo.
Ningum pode dizer exatamente como esse Estado se constituiu, nem graas a
quais fatores ele se imps na regio.
   De acordo com uma hiptese, os maravi invadiram o pas j estruturado
em grupos e, como eles dispunham de todos os smbolos do poder organizado,
usaram essa vantagem em seu proveito para se impor como classe dominante
no que devia ser ento uma populao autctone sem organizao estatal11. Essa
teoria, insistente nas origens exteriores da realeza e das instituies polticas


10   A nica prova permitindo datar a chegada dos maravi na regio do lago Malaui  de natureza arqueo-
     lgica. As datas fornecidas pelo carbono 14 usado nos stios de ocupao maravi vasculhados se situam
     entre 1420 e 1480, permitindo pensar que esse povo apareceu no sculo XV. Ver K. R. Robinson, 1972,
     p. 61-63; M. J. Schoffeleers, 1973, p. 48-53. M. D. D. Newitt (1982, p. 47-48), contudo,  da opinio
     que os maravi no ocuparam as margens do Baixo Zambeze antes do incio do sculo XVI.
11   Essa teoria foi apresentada pela primeira vez por R. A Hamilton (1955a, p. 21). Um estudo srio das
     tradies orais chewa o levou  concluso de ter havido uma grande transformao poltica no sculo
     XIV ou XV e que um grupo de invasores politicamente estruturado e conhecido como o cl de Phiri, ter
     se sobreposto, ento, a uma populao implantada h muito tempo, mas insuficientemente organizada.
     Desde ento, essa teoria foi retomada por vrios autores, dentre eles, M. G. Manvick, 1963, p. 377-378;
     M. J. Schoffeleers, 1972a, p. 96-99.
728                                                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




                                                    KA                                                     Rio Rovuma
                                                  BU NGA
                                                 M
                                               TU TO
                                              CHULU




                                                                Lago




                                                                                                           o
                                                                                                       ing
                                                  LUKWA
                                                                                                                 YAO




                                                                                                    hil
                                                    KAWOMBA




                                                                                                      c
                                                                                                   Lu
                                                                     Mal




                                                                                               Rio
                                                                              KATSEKERA




                                                                        au
                                                                                MASACHE                                                la
                                                                                                                                a   mba
                                                                                 MSALANYAMA                              Rio Lu
                         wa




                                               Makewana
                               NSENGA
                      ng




                                                               Manthimba
                  Lu a




                                                                                               Lago
                                                             KALONGA                           Chiuta
                 Rio




                                                                                   SAIMA
                                                      Moano
                                                                                               Lago
                                                      UNDI             KAPHWITI
                                                                                               Chilwa
                TAWARA                                                                                    LOMWE
                              Rio Zambeze
                                                                        Mbewe
                                                      Tete
                                                                                                                 MAKUA
                                                                         LUNDU
           Limites exteriores da influncia maravi
                                                                                   Rio Shire


           Direo da expanso
                                                                                                LOLO
                                                                        Sena
           Zonas de ocupao efetiva

                   0                 100          200 milhas                                                   OCEANO NDICO
                   0           100      200      300 km


figura 21.4 A expanso maravi por volta de 1650 (segundo K. M. Phiri).
- Limites exteriores da influncia maravi
- Direo da expanso
- Zonas de ocupao efetiva



maravi, minimiza talvez a imbricao complexa das ideologias e das prticas
respectivas dos autctones e dos imigrantes, bem como as possveis consequ-
ncias desse fenmeno na formao dos Estados da regio. Andrew Roberts,
por exemplo, sustenta que mesmo se em algumas partes da frica tropical as
invases e as conquistas pudessem ter sido momentos decisivos na criao dos
Estados, resta tambm aos historiadores se interrogarem, a respeito da tomada
do poder pelos recm-chegados, sobre o papel desempenhado pelas tcnicas e
ideias trazidas com eles12. E imaginar o que teria acontecido numa sociedade


12    A. D. Roberts, 1976, p. 84.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                             729



social e economicamente diferente, na qual um grupo dispondo de ideias e de
tcnicas podendo servir  explorao eficaz do meio-ambiente ou  resoluo
de antigos conflitos ou de querelas ancestrais teriam se encontrado, em funo
disso, em posio de dominar os outros.
    Outras teorias tiveram o aval de diversos autores. Uma delas evidencia o
papel dos fatores demogrficos. Agnew, por exemplo, fala de uma dinmica
geogrfica  fertilidade do solo, pluviosidade adequada, subsistncia garan-
tida  atraindo para a margem oeste do Lago Malaui desde os tempos mais
antigos, uma concentrao de populao mais forte do que nas regies vizinhas
situadas no Leste ou mais ao Oeste. Esse crescimento da populao e o carter
excedente da produo teriam favorecido a instaurao e o desenvolvimento do
poder dinstico13.
    Uma outra hiptese pe em cena o fator comercial, sustentando que a for-
mao de um Estado no sculo XV ou XVI na extremidade meridional do Lago
Malaui teria respondido  necessidade de ter um poder capaz de controlar o
impulso do comrcio do marfim, emprestando as vias navegveis da rede Shire-
-Zambeze entre a margem sul do lago e a costa leste da frica. O argumento
consiste no fato de os kalonga (nome dado aos chefes supremos maravi) terem
exercido seu controle sobre o crescimento desse comrcio e aumentado seu
poder14.
    Enfim, h a hiptese controversa segundo a qual o Estado maravi seria
o produto, fora de qualquer dialtica, da interao entre o grupo dos recm-
-chegados maravi-phiri e os habitantes autctones protochewa. A respeito disso,
as tradies orais chewa detalham em particular como, aps uma fase inicial de
conflito, foram estabelecidas as modalidades de uma relao aceitvel, segundo
a qual os invasores maravi-phiri teriam exercido o poder no pas enquanto os
protochewa teriam sido os "proprietrios da terra"15. Quanto ao que poderia ter
levado os autctones a aceitar a submisso  autoridade dos imigrantes,  pos-
svel supor ter sido talvez a fora da organizao maravi, baseada em laos de
parentesco. Nas pocas posteriores, com efeito, ela permitiu consolidar a unidade
das diversas subdivises maravi quando de sua disperso.
    A tradio oral, principal fonte de informao sobre a histria antiga da
regio,  bastante escassa sobre as circunstncias exatas da criao do Estado
maravi. Ela simplesmente relata a fundao do primeiro reino dos maravi ao

13   S. Agnew, 1972, p. 32-33.
14   E. A. Alpers, 1975a, p. 46-49.
15   M. J. Schoffeleers, 1973, p. 47-60; K. M. Phiri, 1975a, p. 47-51; M. J. Schoffeleers, 1979a, p. 147-161.
730                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



redor de Mankhamba e de Manthimba, no Sudoeste do Lago Malaui, sob a
regncia do kalonga Chidzonzi, ento cabea da linhagem real phiri mais antiga.
O kalonga instalou seu quartel-general em Manthimba ou Maravi e escolheu a
vila de Mankhamba (provavelmente j existente antes da chegada dos maravi)
como centro religioso do reino. Alm disso, ele se cercou de funcionrios para
assisti-lo na administrao do Estado, notadamente do comandante do exrcito,
khombe, do carrasco pblico, mkomba, e do responsvel pela partilha de terras,
mgawi. Alm disso, de acordo com as fontes escritas portuguesas, Manthimba
teria se tornado um centro comercial e poltico importante, o mais tardar, no
sculo XVII. De acordo com um testemunho, tal centro era, em 1624, um lugar
bastante povoado, a menos de trs quilmetros do lago, de relaes comerciais
frutferas estabelecidas com mercadores portugueses de Tete, uma cidade no
Zambeze16.
    A tradio oral constitui tambm o nico testemunho dos mecanismos ins-
titucionais a assegurar a coeso do Estado do kalonga. Um dentre eles era o
culto do mlira. Uma vez por ano, por volta do ms de setembro, chefes de vrias
linhagens reais phiri eram convidados a Mathimba para a venerao ritual de
Mlira, o esprito do grande kalonga Chinkhole, condutor de seus ancestrais
ao pas de migrao provenientes do Norte. Essa cerimnia terminava com a
queima da relva de Marimba, estendendo-se consideravelmente ao longo do
lago, de Mankhamba, no Sul, at os pastos da Chilua, no Norte. Estima-se
que esse ritual fosse uma manifestao exterior do culto da realeza e um fator
de importante integrao no interior do Estado maravi. Um outro elemento
tambm fundamental para a unidade do reino era a maneira como os cargos
pblicos eram atribudos. Dizem que o kalonga nomeara alguns chefes de cls
para altas funes em seu Estado: os banda, um grande cl protochewa, eram
os guardies (amatsano) do santurio do kalonga em Mankhamba, enquanto os
mwale, sob a liderana do khombe, comandavam os guerreiros do kalonga. As
tradies a esse respeito sublinham claramente a influncia dos chefes de cls
no phiri ou no maravi nas decises concernentes  propriedade fundiria, 
distribuio das riquezas e  guerra17.
    A capacidade do kalonga de conduzir pessoalmente os negcios de seu reino
comeou talvez a diminuir por volta do ltimo quarto do sculo XVI, quando a
expanso do Estado comeou. Ela foi realizada por chefes de jovens linhagens


16    Trata-se de Luiz Marianno, residente portugus de Sena, em 1624. Suas observaes sobre o estado do
      "Imprio Maravi" nesta poca esto resumidas em J. Batalha-Reis, 1889.
17    I. Linden, 1979, p. 188-193; K. M. Phiri, 1975a, p. 52-55; S. J. Nthara, 1968 (1a ed. 1948), p. 17-24.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                             731



phiri enviados para fora da regio de Manthimba-Mankhamba, rumo a terri-
trios vizinhos. Mpinganjila foi destacado para o Leste, nas terras contguas
 margem leste do alto Shire. Nyangu partiu rumo ao Sul para ocupar o pas
situado na margem oeste do alto Shire. Changamire tomou a regio correspon-
dente ao atual Kirk Range, ao Oeste de Manthimba e Chauma instalou-se no
Noroeste de Mankhamba, enquanto Chinsamba tomou posse do pas ao Norte
da regio de Manthimba-Mankhamba. O conjunto dos territrios controlados
pelo kalonga e seus chefes subordinados formaram o ncleo central da confede-
rao maravi ao longo de toda a sua evoluo, no sculo XVII.
    A expanso dos maravi se fez tambm mediante o envio dos parentes mais
velhos do kalonga rumo a terras distantes no Sul e no Sudeste dessa regio. Esse
destacamento era talvez um gesto calculado da parte dos primeiros kalonga a
fim de afastar eventuais pretendentes ao trono de Manthimba. Kaphwiti e
lundu emigraram para o vale do Baixo Shire e o colonizaram. Kaphwiti, o mais
velho dos dois, teve, a princpio, todo o vale sob sua autoridade, depois perdeu
uma grande parte de seu poder em proveito de lundu. Portanto, a supremacia
de Kaphwiti foi de curta durao. Ela ficara misteriosamente abalada a partir
de 1572, pois se relatou, ento, que lundu governava a maior parte do vale, da
catarata de Mamvera (ou Murchison), no Norte, at o confluente do Zambeze
e do Shire, no Sul. O desejo de controlar o comrcio do marfim de Sena com os
portugueses explica provavelmente a ampliao da zona de influncia de lundu,
assim como pode ter levado ao declnio dos kaphwiti, cortados em seguida desse
comrcio18.
    Aps ter-se imposto no vale do Baixo Shire, o lundu organizou a expanso
dos maravi rumo ao Leste, nos pases Lolo e Makua. Sua penetrao nessa
parte do Norte do Zambeze comeou em meados do sculo XVI. De acordo
com anlise lingustica da histria de Nurse, os maravi ou chewa presentes nessa
regio no Norte do Moambique e os lolo e os makua teriam comeado a se
confrontar uns aos outros o mais tardar por volta de 156019.
    A invaso e a conquista maravi do pas lolo-makua se devia a princpio em
grande parte ao fanatismo dos guerreiros do lundu, identificados por alguns
historiadores da frica oriental com os clebres saqueadores zimba do fim do


18   Para relao das posies relativas ocupadas pelo Kaphwiri e pelo lundu na vida poltica pr-colonial
     do vale do baixo Shire, ver H. H. Bhila, 1977. A expanso do reino do lundu  o objeto de um estudo
     exaustivo em J. dos Santos, 1901. Ver igualmente E. A. Alpers, 1968, p. 20-22; M. J. Schoffeleers, 1968,
     p. 143-159.
19   G. T. Nurse, 1977, p. 126.
732                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



sculo XVI20. Se eles estiverem certos, o lundu deve ter alistado um exrcito
mercenrio composto de habitantes violentos da regio situada no Oeste do
vale do Baixo Shire21. De acordo com dos Santos, os Zimba vieram a esta
regio antes de partir para Sena onde dispersaram os portugueses e seus aliados
africanos, em 1592. Eles atravessaram em seguida o Moambique do Norte e
saquearam a cidade de Kilwa e Mombaa. Eles apenas foram vencidos quando
de sua chegada a Malindi, no Norte da costa queniana, por uma aliana entre os
habitantes sualis da cidade e os segeju, um povo do interior do pas que estava
em bons termos com o sulto de Malindi22.
    Alm do mais, o sucesso dos guerreiros do lundu no Leste vinha tambm do
fato de os grupos lolo e makua no terem Estado. Foi dito dos lolo, em particular,
que "nunca foram brilhantes ou importantes e nem pareciam desejar s-lo". Seu
sistema poltico estava esfacelado. As funes governamentais eram assumidas
por chefes de aldeia assistidos por conselhos de ancios. Juntos, eles tomavam
decises concernentes a todos os negcios militares, judicirios e religiosos de
suas coletividades. Como os lolo, os makua eram igualmente dotados de um
sistema poltico pouco coerente, mas de linhagens pertencentes a um mesmo
cl, reunido s vezes, nos momentos difceis, sob a liderana da autoridade mais
poderosa da linhagem. Sob esse impulso e consequentemente  presso exercida
pelos portugueses, chefias importantes se formaram no seio dos makua da costa,
no fim do sculo XVI23.
    Contudo, os guerreiros do lundu venceram os lolo e os makua e os reuniram
num Estado vassalo chamado de "Bororo" pelos habitantes portugueses do Baixo
Zambeze. Nesse Estado conquistado, sobre o qual estamos mais bem informa-
dos do que qualquer outro aspecto da histria dos makua-lolo antes de 1800,
os maravi criaram vrias chefias para governar seus sditos, dos quais alguns
se tornaram vassalos de segunda classe. Politicamente era recomendado para
muitos makua reivindicar origens maravi. Culturalmente, contudo, uma ampla
sntese de costumes e tradies dos maravi e dos makua ocorreu principalmente
na regio de Quilimane24.


20    N. J. Hafkin, 1973, p. 10-14.
21    Schoffeleers (1980, p. 15-19), contudo, sugere que os Zimba poderiam ter vindo da margem meridional do
      Zambeze de onde as guerras de expanso colonial portuguesas os teriam dispersado entre Sena e Tete.
22    J. dos Santos, 1901, p. 290-304.
23    Encontraremos a melhor descrio do sistema poltico dos lolo e dos makua no sculo XVI em J. dos
      Santos, 1901, p. 308. Maviamuno e Mauruka so exemplos de poderosos chefes makua surgidos na poca;
      suas relaes com os portugueses so estudadas exaustivamente por E. A. Alpers, 1975a, p. 14-85.
24    N. J. Hafkin, 1973, p. 15-22.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                            733



   Assim, no incio do sculo XVI, o lundu governava um vasto territrio no
Norte do Zambeze, indo do Baixo Shire, no Oeste, quase at o Oceano ndico,
no Leste. No apenas passava ele a ser "a pessoa mais poderosa no Imprio
Maravi depois do kalonga", como tambm seus guerreiros desciam de tempos
em tempos at a zona makua da costa para pilhar colnias portuguesas25.
   O lundu garantia a coeso de seu vasto reino com a ajuda de generais e de
vassalos leais, sados de jovens linhagens no seio de seu cl real. Alm disso, seu
Estado possua uma base econmica, uma vez que os diferentes povos que o
compunham viviam do sal, do ferro e dos tecidos de algodo (machila) produ-
zidos pelos sditos manganja do lundu, no vale baixo do Shire. A religio dos
manganja constitua um outro fator de unificao do Estado. Fundada no culto
de Mbona, cujo santurio principal ficava em Khulubvi, no vale baixo do Shire,
sua teologia compreendia vrios elementos tradutores da indignao do povo
diante do abuso do poder real e de suas prerrogativas. O culto oficial da sobe-
rania do lundu encontrou ento vrios adeptos atravs de um grande territrio
que se estende do bero do reino do lundu, no vale baixo do Shire, ao delta do
Zambeze, na costa oriental26.
   O considervel prestgio do qual gozava o lundu na parte oriental da confe-
derao maravi no foi unanimemente reconhecido. O kalonga, senhor de um
vasto territrio ao Sudeste do Lago Malaui e ao Leste do alto Shire, comeou
a sentir ntidas inquietaes diante de seu crescente poder. Assim, entre 1620
e 1640, a expanso dos maravi no Leste foi entravada por violentas rivalidades
internas advindas entre o kalonga e o lundu27. Mais tarde, as conquistas maravi
se deslocaram do Leste para o Sudoeste. Nessa regio, Undi estabeleceu seu
prprio reino, ampliando-o em seguida, como o fizera o lundu no Baixo Shire
e mais ao Leste.
   De acordo com uma verso das tradies relativas  criao do Reino do
Undi, o kalonga teria enviado o fundador ocupar as plancies arenosas vizinhas
do pas Nsenga. Uma outra interpretao sugere contudo a partida de Undi
rumo ao Sudeste ter sido provocada por um conflito importante no seio do cl
phiri no poder em Manthimba28. A segunda verso parece mais confivel, pois
a maior parte das tradies sobre o assunto querem que o Undi tenha deixado
Manthimba com um grande nmero de companheiros aps uma querela com


25   M. Barreto, 1899, p. 475; E. Axelson, 1960, p. 132-133.
26   E. A. Alpers, 1975a, p. 25-26 ; E. C. Mandala, 1977, p. 39-41; M. J. Schoffeleers, 1972b, p. 76.
27   R. A. Hamilton, 1954; E. A. Alpers, 1975b, p. 517
28   H. W. Langworthy, 1969a, p. 148-163; K. M. Phiri, 1977, p. 9.
734                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



o kalonga, suscitada notadamente por questes de sucesso poltica e partilha
de tributos.
    No Oeste, Undi e sua gente conseguiram colonizar a regio margeando o rio
Kapoche, um afluente do Zambeze. A partir da, eles estenderam em seguida os
limites de seu novo reino at a confluncia do Zambeze com o Luangwa. A, os
guerreiros de Undi entraram em conflito com os tawara, no Zambeze, e com os
nsenga, na margem do Luangwa Inferior. Contudo, as opinies se dividem sobre
a extenso exata do domnio dos maravi sobre os nsenga nessa poca.
    Os historiadores dedicados  questo do ponto de vista do Malaui afirmam
em geral que o primeiro evento importante da histria dos nsenga foi essa
invaso de seu pas por Undi e seus guerreiros, em meados do sculo XVII. Esse
ataque teria sido liderado por Chimwala, o sobrinho classificatrio de Undi, e
teria por primeiro objetivo submeter Mundikula, ento  frente do maior e mais
importante cl nsenga, o dos Mwanza. Contudo, de acordo com William-Myers,
um dos raros pesquisadores a ter encarado a questo do ponto de vista zmbio,
cerca de trs quartos dos nsenga da margem leste do Luangwa se encontraram,
num certo momento do incio de sua histria, em uma posio de dependncia
vis--vis de Undi.  possvel concluir da que durante suas fases de expanso,
o Estado de Undi agrupava frequentemente vrias chefias nsenga, mas mesmo
ento, esse fenmeno no atingia os nsenga em geral. Nenhuma tradio men-
ciona, por exemplo, os nsenga do Sudoeste, perto de Feira, na Zmbia, terem
participado do "imprio" de Undi29.
    Seja como for, resta saber como e at que ponto Undi pde garantir um
poder poltico sobre os nsenga. A tese tradicional sustenta o recurso  violncia
por meio de seus subordinados e a criao de relaes de parentesco perp-
tuo, segundo as quais os chefes nsenga vencidos eram tratados como "filhos"
ou "sobrinhos" dos chefes maravi. Entretanto, uma tese mais convincente foi
lanada: o comrcio e a fome sem dvida desempenharam um papel crucial
na extenso da influncia de Undi sobre os povos vizinhos. Provou-se que ele
gozava de uma grande autoridade junto a mercadores portugueses de Tete,
permitindo-lhe ter, indiretamente, um cento domnio sobre os negociantes dos
Estados vizinhos. Alm disso, as chefias nsenga ao longo do vale do Luangwa
sofriam de uma fome endmica, e seus habitantes iam frequentemente pedir
ajuda no territrio de Undi, mais frtil do que o deles. O controle, bem como a


29    Dentre as fontes que mostram o ponto de vista maravi, citamos E. H. Lane-Poole, 1934, p. 39-41; H. W.
      Langworthy, 1969a, p. 215-216. Uma opinio muito interessante sobre o assunto  a de A. J. William-
      -Myers, 1978a.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                        735



regulamentao do comrcio e do socorro s vtimas da fome colocava Undi em
uma posio extremamente forte em relao aos povos dos Estados vizinhos30.
    Alm do mais, tudo leva a crer que Undi e seus parentes reais permitiram aos
chefes nsenga sob seu controle gerir os negcios de seus cls e de suas regies,
contanto que enviassem um tributo sob forma de marfim e escravos para os
quartis generais de Undi em Kapoche. Contudo, a partir da poca da conquista,
os maravi adotaram o sistema nsenga de chefias e o adaptaram a seus prprios
costumes. Isso explica as principais linhagens dos mundikula (ou kalindawalo),
chimfombo e chifuka afirmarem Undi t-los outrora nomeado chefes.
    Os maravi e seus associados chewa emigraram tambm para o Norte, at o
pas Tumbuka. Dentre os chefes principescos de origem maravi emigrados nessa
direo, pode-se citar Chulu, Kaluluma, Kanyenda e Kabunduli. Sua presena
nessa regio acarretou a criao de grupos sociolingusticos mistos, dentre os
quais os tonga dos distritos de Khota-Khota e da Nkhata-Bay so os mais
caractersticos.
    Chulu e Kaluluma, por exemplo, penetraram na regio do Sul do Tumbuka,
conhecida sob o nome de Chimaliro, e nas plancies circunvizinhas. Eles encon-
traram a um grupo tumbuka independente do ponto de vista econmico, mas
pouco organizado no plano das instituies. A cooperao poltica ou militar
entre os diferentes cls tumbuka  zimba, kanyinji, nyirongo, mtonga etc. 
era reduzida. A forma como Chulu e Kaluluma tomaram o poder sobre uma
populao essencialmente falante do tumbuka , contudo, objeto de interpre-
taes divergentes nas tradies orais dos chewa e dos tumbuka. As lendas
chewa afirmam terem os tumbuka acolhido bem a Kaluluma, bem como a
seus companheiros. Mais tarde, eles decidiram todavia se insurgir contra ele,
mas foram esmagados na consequente batalha. Por outro lado, a verso dos
tumbuka  mais detalhada. Ela relata o fato de os chefes tumbuka terem dado
a permisso a Kaluluma para se instalar na regio como homem do povo. Con-
tudo, pouco tempo depois, ele se ps a percorrer as vilas tumbuka, obrigando
todos a reconhecerem-no como chefe, forando por fim os chefes tumbuka a
ajud-lo a carregar a m (mphelo) na qual seu tabaco de mascar preferido era
modo. Em sinal de protesto, os tumbuka tentaram expuls-lo, mas ele resistiu
e os venceu31.
    Essas tradies sugerem que os tumbuka, ignorando a instituio do chefe
territorial, quiseram resistir s primeiras tentativas feitas pelos maravi de as

30   G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 480-481; J. D. Clark, 1965, p. 276-280.
31   H. L. Vail, 1971; T. C. Young, 1932, p. 186; S. S. Murray, 1922, p. 224.
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figura 21.5 O tamborete real de ferro do chefe Kanyenda de Khota Khota, no Malaui Central, provavel-
mente do sculo XVII. [Museu de Malaui, Blantyre.]




impor a eles.  possvel tambm o conflito ter tido uma origem econmica. Com
efeito, como os chewa eram imigrantes ainda sem base econmica slida, eles
talvez tenham esgotado enormemente as reservas de seus anfitries tumbuka.
    Kanyenda e Kabunduli emigraram para o que viria a ser o pas Tonga. Ambos
eram originrios do corao do Imprio Maravi, prximo ao curso de gua
Linthipe, no Sul. Eis como chegaram em Khota Khota, no meio da margem
ocidental do lago. L, Kabunduli se separou de Kanyenda e continuou rumo ao
Norte, at o atual pas Tonga, passando por Chimaliro, no Oeste. Ele ficou rapi-
damente famoso por ter unido ao redor de si os grupos tonga outrora dispersos,
visivelmente por ele vencidos e submetidos  sua autoridade. Com o aumento da
sua reputao, ele foi seguido por vrias famlias chewa provenientes do centro
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                        737



do Chewa, como, por exemplo, os Kapunda Banda, sados (afirmam eles) da
regio de Chauwa para chegar na atual parte leste de Lilongwe32.
    Essa miscigenao dos maravi com os habitantes originrios do Tonga explica
as particularidades presentes hoje na sociedade tonga. O chitonga, a lngua da
regio,  um intermedirio entre as lnguas tumbuka e chewa. Alm do mais, os
tonga constituem o nico grupo do Malaui Setentrional no qual a descendncia
e a herana efetuam-se ainda pela linha materna. Do ponto de vista histrico,
isso mostra que o grupo tonga teria agido como uma ponte entre o conjunto
matrilinear chewa do Sul e o conjunto patrilinear tumbuka-phoka do Norte.
    Para os povos chewa-maravi, o sculo XVII foi uma "era de ouro": graas a
sua expanso territorial, eles se distinguiram como as potncias com as quais
era preciso contar no Norte do Zambeze. Mesmo os portugueses, aquartelados
como estavam em suas colnias ao longo do rio, tiveram de cooperar com eles.
Isso porque os maravi no limitaram suas empreitadas  zona situada no Norte
do Zambeze. Entre mais ou menos 1590 e 1640, eles intervieram ativamente na
ento zona de influncia portuguesa no Sul do Zambeze. Eles tinham interesse
nas ricas minas de ouro e de prata dos domnios do Monomotapa (ou Mwene
Mutapa) e puseram-se a exercer um certo controle sobre as trocas realizadas ao
longo do Zambeze33.
    Durante duas geraes, no incio do sculo XVII, os portugueses, de Ango-
che, na costa leste,  Tete, subindo o Zambeze, usaram os maravi como parceiros
em suas campanhas contra os karanga ou os shona, no Sul do rio, e contra os ini-
migos locais na vizinhana imediata de seus estabelecimentos no Zambeze. Em
1608, por exemplo, os moradores portugueses de Tete receberam 4000 homens
da parte do kalonga Muzula para seus combates contra os inimigos locais do
Monomotapa Gatsi Rusere, ento aliado dos portugueses. Seis anos mais tarde,
em 1614, os portugueses de Sena pediram ajuda ao lundu para formar uma
expedio armada em direo a Chicoa, no Nordeste de Tete, a fim de procurar
prata. A assistncia do kalonga foi ainda solicitada pelos portugueses em 1623.
Dessa vez, ele enviou milhares de guerreiros do outro lado do Zambeze para
ajudar os portugueses a eliminar alguns chefes karanga provocando distrbios
em seu pas aps a morte de Gatsi Rusere. Mais tarde, os homens do kalonga
se retiraram de seu lado do rio, carregando seu butim de ouro e gado. Em 1635
ainda, os guerreiros do lundu assistiram aos portugueses para esmagar uma


32   F. Kwaule e E. J. Chakwera, 1978; J. van Velsen, 1959; C. Z. Mphande, 1969; F. R. Mkandawire, 1978.
33   D. N. Beach, 1980a, p. 125-128; M. D. D. Newitt, 1982, p. 158-160.
738                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



sublevao de chefes sualis no distrito de Angoche (Quelimane), no Norte do
delta do Zambeze34.
    Ademais, alguns fatos indicam que os portugueses teriam cooperado com
os maravi por necessidade mais do que por escolha. At o fim do sculo XVII,
os habitantes portugueses de Sena e Tete temiam os maravi e consideravam-
-nos "pssimos vizinhos", ao contrrio dos lolo e dos makua, pois estes no lhes
causavam nenhum aborrecimento35.
    A expanso maravi teve vrias consequncias. Particularmente, a criao do
Estado do lundu ao Leste do vale do Baixo Shire permitiu estender a influncia
do culto Mbona aos manganja, de forma mais eficaz do que em qualquer outra
ocasio. Ela teve talvez tambm repercusses significativas nos planos econ-
mico e cultural. No sculo XVII, o comrcio do marfim tornou-se prspero no
interior do territrio pertencente  confederao maravi. A regio ao Norte do
Zambeze passava, ento, por um considervel desenvolvimento econmico. 
possvel o "Imprio Maravi" ter tambm contribudo a uma maior similaridade
cultural entre as diferentes populaes matrilineares dessa provncia, visto que
elas tm os mesmos nomes de cl e um sistema comum de descendncia36.
    Enquanto os maravi ampliavam sua influncia atravs da zona meridional
no decorrer dos sculos XVI e XVII, o Norte era invadido pelos imigrantes
ngulube vindos do Nordeste. Como a chegada dos maravi no Sul, a dos ngulube
constituiu um evento maior na histria da zona setentrional37. Alm disso, sua
apario permite ter datas bastante precisas, j que as listas reais e as genealogias
completas remontam  poca de sua chegada. Apesar da relativa confiabilidade
das listas reais, o nico problema consiste em determinar o nmero de reina-
dos por gerao dinstica, pelo fato de os informantes nem sempre explicarem
claramente o modo de funcionamento do sistema de sucesso. A lista real dos
kyungu reinando no Ugonde, por exemplo, contm 15 nomes at por volta de
1940, representando um mnimo de nove geraes dinsticas. A lista dos Mwau-
lambya, soberanos de Ulambya, contm 16 nomes antes de 1940, representando
um mximo de 12 geraes dinsticas38.  interessante observar tambm que os
soberanos fundadores do Ugonde, do Ulambya e do Uyiha eram mais ou menos

34    A. Gomes, 1959, p. 183; G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 395; E. A. Alpers, 1975a, p. 54-56.
35    G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 480; M. D. D. Newitt, 1973, p. 80.
36    E. A. Alpers, 1975a, p. 56-58. Alpers estima, igualmente, que se tornou cada vez menos rentvel para a
      maioria dos povos da frica Central do Leste participar desse comrcio. A semelhana existente entre
      as instituies sociais das diferentes etnias da regio foi revelada por J. B. Webster, 1977, p. 4-5.
37    O. J. M. Kalinga, 1985, p. 41-63.
38    Id., 1975 e 1978, p. 57-61.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                  739



contemporneos, tendo certamente os fundadores do Ulambya precedido os
outros apenas em algumas geraes.
    O Mwaulambya, pioneiro da migrao ngulube, atravessou o rio Songwe, ao
Sul dos montes Misuku, e penetrou no que se tornaria o Ulambya. Ele a encon-
trou os cls sikwese e chilima. Ele exerceu sua autoridade poltica por meios mais
pacficos do que o Kyngu, que em breve invadiria a plancie de Karonga. Isso se
explica em parte pelo fato de os companheiros do primeiro serem provavelmente
mais numerosos do que os do segundo. Consequentemente, o Mwaulambya era
mais complacente do que o kyungu, cujos conselheiros prximos eram escolhidos
exclusivamente dentre os que o acompanharam durante ao menos uma parte
da migrao. Em contrapartida, os funcionrios principais do Mwaulambya
eram provenientes das famlias locais que compartilhavam o prestgio e o poder
poltico com os novos dirigentes39. Da mesma forma, os msukwa governaram os
cls simwayi e silumbu sem ter muita necessidade de recorrer  fora. Tanto o
Ulambya quanto o Misuku foram fundados sob um compromisso.
    Hoje, a situao lingustica reflete em uma certa medida a fora numrica
dos diferentes grupos de imigrantes criadores de chefias, bem como os meios
pelos quais eles tomaram o poder e, mais tarde, governaram o povo. O cilambya
e a lngua de Kameme so dialetos procedentes do nyiha autctone, enquanto o
kyagonde e o kinyakyusa so dialetos da lngua dos povos ngulube. Em outros
termos, o Mwaulambya, Kameme e sua gente foram integrados no plano lingus-
tico, ao passo que no Ugonde e no Unyakyusa, os autctones foram assimilados
pelos imigrantes. O cisukwa moderno  um dialeto do ndali (uma entidade
lingustica no Norte do Songwe), compreendido pelos que falam o nyiha e
relativamente mais fcil de aprender para os ngonde do que o prprio nyiha. O
cisukwa  ento um intermedirio entre as lnguas nyiha e ngonde.
    O kyungu, Kameme e seus companheiros migraram rumo  plancie de
Karonga passando pelo Unyiha, o Uiwa e o Unamwanga e, depois, no Oeste,
pelo Ulambya e o Misuku. Ainda que as tradies da corte ngonde afirmem seus
ancestrais terem estabelecido um poder poltico no Unamwanga e no Uiwa, as
tradies dessas regies contestam esse fato e citam Ubisa e, principalmente, o
pas Luba como ptria de origem de sua atual linhagem de soberanos. Em todo
caso, pouco tempo depois de sua chegada a Karonga, Kameme voltou para se
instalar na regio imediatamente ao Oeste do Ulambya. Ele a estabeleceu sua
dominao sobre a populao, essencialmente de origem nyiha, ainda que um


39   Id., 1978, p. 55-66, e 1977.
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grande nmero de mambwe e de namwanga tenha ulteriormente imigrado para
as chefias de Kameme. A maneira pela qual esse ltimo criou seu Estado no 
clara. Manifestamente, ele era menor que o de seu irmo, o kyungu, que fundou
seu reino num Estado j existente e governado pelo cl simbowe.
    Simbowe  o nome de um cl e alguns elementos sugerem ter sido um ttulo
usado por uma longa dinastia. Esse cl vinha de Unyiha, na atual Tanznia, e
se instalara no monte Mbande, na parte centro-oeste da regio  beira do lago,
perto de Karonga. Os fundamentos do poder do cl simbowe so pouco conhe-
cidos, mas parece ter sido um cl de mercadores fazendo parte de uma rede
comercial estendendo-se at a costa leste. Escavaes arqueolgicas efetuadas
por Robinson em Mbande e na regio ao redor permitiram encontrar objetos
modelados, notadamente contas de vidro, porcelana e conchas. Robinson chega
 concluso de esses objetos datarem do perodo que se estende do sculo XV
ao XVI e pertencerem provavelmente  poca pr-portuguesa, durante a qual o
poder e a influncia comercial rabes estavam em seu apogeu40.
    As relaes do cl simbowe com a populao local no parecem ter sido
cmodas. Quando da chegada do kyungu e de sua gente, este formou uma aliana
com os mwenekisindile, os guardies de um importante santurio religioso asso-
ciado a um culto da serpente. Com efeito, os mwenekisindile parecem ter aju-
dado o kyungu a preparar e lanar o ataque contra o cl simbowe. Em Mbande,
o kyungu tomou o poder pela fora e, pouco a pouco, conseguiu restabelecer a
ordem. Uma vez instalados, o kyungu e sua gente conservaram sua supremacia
sobre seus novos sditos criando um centro ritual consagrado ao culto de seus
ancestrais reais. O kyungu no frequentava o centro, mas dava sua bno a
Mulwa, um alto funcionrio que o acompanhara e se tornou o responsvel por
esse novo lugar de culto. Alm disso, adultos do reino assistiam a uma cerimnia
anual no decorrer da qual se apagavam todos os fogos para em seguida acender
outros, a partir do fogo central do ptio real. Durante essa cerimnia, a popula-
o reafirmava sua fidelidade para com o kyungu41. Os sditos deviam tambm
lhe pagar regularmente um tributo e trabalhar nos jardins reais. O kyungu e
seus funcionrios estabeleceram-se mais solidamente na regio, unindo-se por
casamento com as famlias locais.
    Antes da chegada do cl kyungu, a populao parece ter prestado um culto
ao deus supremo mediante espritos intermedirios, como a serpente divina. Os


40    A passagem seguinte  inspirada em O. J. M. Kalinga, 1979a.
41    Para mais detalhes, ver R. J. Mwaipape, History and social customs of the Ngonde of Northern Malawi
      (manuscrito indito concludo em 1982).
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                    741



kyungu se serviram de seus ancestrais como mdiuns para adorar seu prprio
deus supremo, Ngulube, introduzindo e promovendo assim a venerao dos
ancestrais reais. Na medida em que a populao aceitava esse culto, ela adotava
tambm a divindade do kyungu. Este ltimo tornou-se sacerdote-rei e comu-
nicava com os abstrais reais. Para os ngomde, tornou-se o representante vivo
de deus. Sua sade determinava o bem-estar e prosperidade deles e, a fim de
conserv-los, ele devia permanecer em sua residncia. Ao menor sintoma de
doena, ele era imediatamente asfixiado por seus conselheiros, os makambala.
Quando a venerao dos ancestrais adquiriu mais popularidade na regio, o culto
da serpente, associado ao cl kisindile, perdeu sua influncia.
    Esses acontecimentos ocorreram sob os reinados de quatro prncipes kyungu,
entre 1600 e 1720 aproximadamente. Pouco tempo aps a morte do terceiro
kyungu, seu filho e sucessor, Mwakalosi, renunciou ao trono, temendo ser morto
pelos makambala se ele ficasse doente. Ele recusou tambm que todos os seus
filhos,  exceo de um, fossem mortos. Esses dois costumes tinham por obje-
tivo evitar qualquer conflito sucessrio. Os makambala protegiam tambm sua
prpria posio cuidando para que o soberano fosse escolhido por eles. A crise
aberta pela recusa de Mwakalosi de subir ao trono acabou quando os makambala
fizeram de seu irmo Magemo o novo kyungu.
    As chefias de Kameme, Mwaulambya e Msukwa encorajaram tambm a vene-
rao dos ancestrais reais. Mas elas se aproximaram mais dos nyiha pelo esprito e
pela lngua, e os costumes de asfixiar o monarca, restringir seus deslocamentos e
assassinar os filhos reais nunca fizeram parte de sua histria. Contudo, todas essas
chefias testemunham a introduo na regio de uma nova forma de organizao
poltica, que reuniu a religio e a poltica sob a autoridade de chefes tendo uma
maior elevao espiritual e mais prestgio do que anteriormente, e fundamentou
as relaes entre os cidados em laos mais polticos do que de parentesco42.
    Uma crise mais profunda ainda sobreveio ao Reino Ngonde com a morte
do kyungu Magemo, cujo sucessor, Mwangonde, era jovem demais para assumir
o trono. O filho de sua irm, Kasyombe, tomou ento o lugar. Ora, o pai desse
ltimo, Ndali, governava uma pequena regio na parte noroeste da plancie de
Karonga. Quando seu filho chegou ao poder, por volta de 1750, essa provncia
foi ento incorporada em um reino ngonde ampliado.
    A ascenso de Kasyombe ao trono acarretou uma outra mudana impor-
tante: o enfraquecimento dos poderes dos malambala em proveito do kyungu.


42   O. J. M. Kalinga, "Ngonda and Lambya historical texts".
742                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Kasyombe fora educado em Ngana, no Norte do Reino. Ele quis pessoalmente
promover uma reviravolta em seu pas e ps fim ao costume de matar os filhos
homens do kyungu. O nmero de prncipes comeou a aumentar, provocando
um novo reforo dos poderes do monarca, particularmente aps alguns de seus
sucessores, tais como Mwangonde (por volta de 1785-1839), terem cedido por-
es de territrio a alguns prncipes, garantindo assim a influncia dos kyungu
atravs de toda a regio43. Ainda em 1800, o Reino Ngonde tinha certamente
solidez suficiente para comear a fazer valer suas vises nos negcios polticos
concernentes ao conjunto da regio sul do Songwe.
    Assim, entre meados do sculo XIII e do XVIII, a regio situada ao Sul do
Songwe estruturara-se em vrias etapas. A rede original de santurios religiosos
ligados ao culto da serpente deu lugar a uma combinao de cls preponderantes
e, finalmente, tanto no Norte quanto no Sul, vrios Estados foram fundados:
o Ulambya, o Kameme, o Misuku, o Ugonde e o Mwaphoka Mwambale, no
Norte, e o Kanyenda, o Kubumduli, o Kaluluma e o Chulu, no Sul. No Norte,
os fundadores ngonda e nyakyusa introduziram o kyangonde como nova ln-
gua, enquanto no Sul, a fuso das populaes e das lnguas tumbuka e chewa
criava a lngua chitonga. O centro da regio era dominado pelos tumbuka.
Seus cls de origem, o luhanga e vrios ramos dos mkandawire foram reunidos
pelos munthali, provenientes dos montes Ndali ao Norte do Songwe. Mais a
Oeste, na regio do Luangwa, os cls tumbuka compreendiam os zolokere, os
mwanvintiza, os goma e outros. Esses grupos tumbuka no possuam governo
centralizado. Sua histria antiga  extremamente difcil de estabelecer, pois suas
genealogias tm poucas fontes e eles conhecem muito pouco de sua organiza-
o antes do sculo XVIII. Os acontecimentos mais significativos da regio no
sculo XVIII ocorreram contudo no pas Tumbuka. Esses sero posteriormente
estudados.
    As mudanas de ordem religiosa ocorridas nas margens do lago, perto de
Karonga, aps a criao do Estado ngonde foram sentidas na zona de influncia
dos maravi. A confederao maravi compreendia uma srie de santurios pr-
-maravi ou protochewa consagrados  chuva e situados em Msinja, na atual parte
oeste de Lilongwe. Cada um dos criadores de um Estado maravi tentava exercer
sua autoridade sobre o santurio sob sua jurisdio. Eles desejavam desempenhar
um papel na designao dos funcionrios responsveis por esse lugar santo,
garantindo-lhe sua assistncia e proteo e, geralmente, efetuavam uma peregri-


43    O. J. M. Kalinga, 1985, p. 180-250; R. J. Mwaipape, 1982, p. 34-41.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                  743



nao anual ao local. Dessa forma, o kalonga e Undi ambos tentaram controlar
o santurio de Msinja, enquanto no vale do Shire, o lundu conseguia assentar
firmemente sua autoridade sobre o de Mbona, em Nsanje. Dado esse grau de
participao dos soberanos nos negcios concernentes aos cultos da chuva, sua
teologia tornou-se progressivamente sincrtica. Ela comeou a adaptar a vene-
rao dos espritos ancestrais reais, enquanto mitos de criao puramente chewa,
como os que prevaleciam em Nyau, foram suprimidos44.
    Contudo, a mudana religiosa mais marcante desse perodo ocorreu onde
as dinastias no conseguiram controlar os cultos da chuva preexistentes. Elas
criaram ento frequentemente seus prprios cultos, tentando rivalizar com os
outros. Tratava-se de cultos reais, e sua funo consistia notadamente em desa-
fiar a famlia real. Por essa razo, postulou-se que seu lao com o povo era
bastante fraco. O rei ou seu substituto presidia as cerimnias destinadas a fazer
chover e outros ritos.
    Por volta de meados do sculo XVIII, enquanto no Norte os ngonde
preocupavam-se pelo equilbrio do poder no seio de faces internas e entre
as instituies religiosas, a Confederao maravi comeou a enfraquecer. O
declnio se concretizou principalmente por secesses diante da supremacia do
kalonga, do lundu, e de Undi, ou por revoltas contra eles. Vrios chefes da regio
de Lilongwe do Malaui moderno se rebelaram contra o kalonga. No decorrer
do mesmo perodo, Undi confrontou-se igualmente s sublevaes lideradas
por Biwi e seus outros subordinados, enquanto no Leste, os lolo e os makua se
revoltavam tambm contra a soberania do lundu45.
    Porm, os fatores na origem do declnio desses reinos, poderosos no sculo
XVII, no so evidentes. No que concerne Undi, os portugueses, invasores de
seu reino quando da corrida do ouro entre 1740 e 1760, desempenharam um
papel mnimo no enfraquecimento de sua autoridade. Postulou-se tambm
que a autoridade de Undi e do kalonga foi solapada pela repugnncia crescente
da makewana (administradora do santurio central dos chewa em Msinja, no
Lilongwe) em usar seu poder ritual em benefcio das dinastias dirigentes do
kalonga e de Undi. Com efeito, contrariamente aos mdiuns svikiro, fiis ser-
vidores da causa do Estado mutapa, ao Sul do Zambeze, a makewana e seus
subordinados, invocadores das divindades da chuva, nem sempre exerciam sua
autoridade de maneira a sustentar a realeza maravi46. Notemos que as antigas

44   M. J. Schoffeleers, 1979b, p. 152-160; I. Linden, 1979, p. 188-193.
45   K. M. Phiri, 1975a, p. 78-79; A. F. Isaacman, 1972b, p. 14-15.
46   A. E Isaacman, 1972b, p. 15.
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makewana haviam desempenhado um papel determinante para a unidade reli-
giosa dos reinos do kalonga e de Undi. Elas eram encarregadas da execuo das
cerimnias religiosas das quais os soberanos dependiam pelo bem-estar dos seus.
Alm disso, as makewana do sculo XVIII manifestaram tambm ambies
seculares. Elas forjaram para si sua prpria esfera de influncia nos reinos do
kalonga e de Undi, e elas at enviaram uma vez guerreiros atacarem as terras do
kalonga. Como a makewana e seus aclitos pertenciam aos cls protochewa dos
banda e dos mbewe, sua resistncia ao kalonga e a Undi traduzia provavelmente
uma tentativa dos protochewa de reafirmar sua autonomia. Qualquer defeco
da makewana significava que o kalonga e Undi estavam privados das sanes
msticas infligidas at ento a seus sditos por intermdio dela.
   Enfim, a apario de um nacionalismo makua-lolo no sculo XVIII foi
determinante na diminuio da influncia do lundu ao Leste do Shire. De
acordo com Hafkin, os makua ficaram, nesta poca, extremamente interessa-
dos no poder, para a surpresa dos observadores contemporneos que at ento
subestimaram sua capacidade militar47. Seu nacionalismo era antes de tudo
dirigido contra os portugueses. Os makua do litoral, particularmente, eram
repelidos pelo "dividir para conquistar", inspirao da poltica portuguesa, bem
como pelas prticas comerciais caprichosas de alguns deles. Quando comea-
ram a obter armas de fogo dos mercadores franceses e brasileiros de escravos,
os makua provocaram impunemente os portugueses. Sob a liderana de chefes
poderosos como Mauruka e Murimuno, eles conduziram uma guerra de fundo
implacvel contra esses estrangeiros e seus aliados africanos, de 1749 at o fim
do sculo. O desafio lanado pelos makua do litoral ao imperialismo portugus
na costa do Moambique certamente incentivou os makua e os lolo do interior a
lanar campanhas semelhantes contra a dominao estrangeira. Mas, nas regies
interiores, foram os maravi, mais do que os portugueses, os responsveis pela
hostilidade dos makua-lolo. A autoridade maravi comeou ento a ser abalada,
de Quelimane, no Leste, at o monte Murambala no Shire, no Oeste48.
   Durante o perodo estudado, os povos do Norte do Zambeze foram tambm
profundamente influenciados pelas relaes econmicas crescentes mantidas
com o mundo exterior49. Tais relaes remontavam  poca anterior a 1500, a
da dominao comercial rabe e suali na costa leste e ao longo do Zambeze.
A frequncia desses contatos era contudo bastante limitada antes da chegada

47    N. J. Hafkin, 1973, p. 23-26.
48    A. Rita-Ferreira, 1966, p. 34; E. C. Mandala, 1977, p. 43-44; E. A. Alpers, 1975a, p. 104-113.
49    Esse assunto  bem estudado por E. A. Alpers, 1975a, Introduo.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                              745



dos portugueses e, particularmente, antes de seu estabelecimento nas margens
do Zambeze, em meados do sculo XVI. Com efeito, a partir deste momento,
os mercadores portugueses subiram regularmente o Shire a partir de Sena para
trocar com os Manganja objetos de ferro, tecidos de machila, sal e marfim com
peas de tecido, prolas e objetos de cobre trazidos da Europa. Com alguns
desses produtos manganja, como os artigos de ferro e os tecidos machila, os
portugueses fizeram outros negcios no territrio do Monomotapa, ao Sul do
Zambeze50. Um pouco mais acima no rio, os portugueses instalados em Tete
estabeleceram relaes comerciais com o reino de Undi e com o centro da
Confederao maravi, at o alto Shire e  margem sul do Lago Malaui. Com
a criao, em 1716, de uma feira em Zumbo, os portugueses tiveram acesso ao
mercado do marfim em vrias sociedades, chegando assim mais a Oeste, at a
Zmbia central51. Foi contudo a criao e a extenso dos prazos zambezianos
que desempehnaria um papel decisivo na expanso comercial portuguesa ao
Norte do Zambeze.
    Os prazos apareceram quando um certo nmero de colonos portugueses ou
goeses instalaram-se como chefes polticos em terras inicialmente pertencen-
tes aos povos africanos autctones. O fenmeno teve sua origem ao redor de
Sena no fim do sculo XVI e, pouco a pouco, no decorrer do sculo XVII, ele
estendeu-se a outras partes do vale do Baixo Zambeze52. De acordo com Axel-
son, a atribuio dos prazos a colonos portugueses importantes era considerada
pela Coroa de Lisboa como um meio de encorajar a iniciativa privada no pro-
cesso de colonizao do vale do Zambeze. Alm disso, ela esperava que, com a
perspectiva de adquirir terras, os imigrantes seriam atrados para o Zambeze,
onde sua vinda era necessria para aumentar o povoamento portugus.
    No sculo XVIII, os prazos dominavam toda a regio do Baixo Zambeze,
desde o delta do Luabo ou do Zambeze no Leste at Chicoa, a meio caminho
entre as cidades de Tete e de Zumbo, no Oeste. Nessa poca, havia duas manei-
ras comumente estabelecidas para adquirir essas terras. Uma era pela conquista:
em geral, o conquistador branco se apropriava da terra explorando as divises
existentes entre seus ocupantes africanos. A outra consistia em pedir terras em
compensao de um servio particular prestado a um chefe local.



50   G.M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 480-481; E. A. Alpers, 1975a, p. 25-27; E. C. Mandala, 1977, p. 41.
51 N. Sutherland-Harris, 1970; M. D. D. Newitt, 1973, p. 75-79; T. I. Mathews, 1981, p. 23-31.
52 Para uma anlise completa do fenmeno, ver A.E. Isaacman, 1972b; M. D. D. Newitt, 1973; E. Axelson,
   1960.
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    Os grandes prazos eram mais do que meras propriedades privadas. Eles
correspondiam a zonas de jurisdio no interior das quais os proprietrios,
comumente conhecidos pelo nome de prazeros, "tinham um poder absoluto de
justia, declaravam guerra, impunham tributo e se tornavam frequentemente
culpados por grandes crueldades". Dentre as vrias questes concernentes a
esses prazeros e que apresentam um interesse para o historiador, dois tm um
destaque especial: por um lado, as relaes complexas mantidas com os Estados
africanos vizinhos e, por outro lado, seu impacto econmico no resto da regio
ao Norte do Zambeze.
    Os prazeros eram conhecidos pela brutalidade com que tratavam os africa-
nos de sua convivncia, servidores voluntrios ou submetidos. Alm do mais, a
maioria dentre eles estabeleceu relaes diplomticas e militares com os Estados
africanos vizinhos com o objetivo confesso de explorar seus recursos humanos.
Os chikunda, por exemplo, trabalhando como servidores junto aos prazeros, eram
recrutados em diferentes sociedades africanas ao Norte e ao Sul do Zambeze.
Dessa forma, os prazeros tinham acesso  mo de obra entre os makua, manganja,
sena, kalanga, tonga, tawara, nsenga, tumbuca e outros.53
    Pelo interesse que eles tinham no comrcio do ouro e do marfim, os pra-
zeros desempenharam um papel importante no desenvolvimento das trocas ao
Norte do Zambeze. Usando alguns de seus servos chikunda (vashambadzi)
como mediadores, eles estabeleceram uma rede de relaes comerciais com os
diferentes povos africanos da regio: manganja, chewa, nsenga, lenje e lunda
do Sul. Esses habitantes do interior da provncia forneceram a seus parceiros
comerciais cobre, marfim, cera e escravos em troca de tecidos, prolas, objetos de
cobre, bebidas alcolicas e sal importados. A partir de aproximadamente 1740,
os prazeros participaram tambm da extrao e do comrcio do ouro ao Norte do
Zambeze, particularmente no reino de Undi. A, bares, ou minas, foram abertos
em Michonga, Maano (a capital do pas de Undi), Java e Muchinga. Os mineiros
portugueses ou goeses de Tete esforaram-se para ser os nicos proprietrios das
jazidas e de todos os meios de produo essenciais. Em troca desse privilgio,
ofereciam presentes e ganhos simblicos a Undi e seus subordinados. Nesse
sistema de produo, cerca de 3500 onas e ouro foram extradas anualmente
at os anos 1780, poca na qual os recursos comearam a diminuir54.
    Infelizmente para os prazeros e a comunidade portuguesa do Zambeze em
geral, essa corrida do ouro os fez perder o comrcio do marfim. As jazidas

53    A. E Isaacman, 1972a.
54    Id., 1972b, p. 70-71; M. D. D. Newitt, 1973, p. 79-84.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                                                                              747



                                                                                                                                Kilwa
       Em direo a           NYIHA Rio S
          Manyema                               ong
                                                   we           KINGA
  Em direo a Katanga
                                 NGONDE                                                                     MAKONDE
                        NSENGA                                                                                                   Lindi
                                 NKAMANGA
                                               Chilumba                      PHANGWA                                            ma
                                                                                                                            o vu
 Em direo a Kazembe                                                                                           Rio R
                                 TUMBUKA



                                                               Lago Malau
                BISA                                                                                                  NGINDO
                                      Chiwande
                                                                                                                         al u
                                                                                                                       Ms
                                                     Kasungu                                                    Rio
                                                                                        NYANJA      YAO                                     Ilha de Ibo


        LALA        a     NSENGA
                w




                                     CHEWA                                                                           urio
             ng




                              Rio                                                                           Ri o L
          uaL




                                                                                       Lago
                                 Ka




                                              Maano
        Rio




                                                                  Mvera
                                    po




                                                                                       Chiuta
                                                                                                 LOMWE
                                       ch
                                          e




                 Zumbo                                                              Lago
                              ze
                    Rio Zambe                                                       Chilwa
                                                                        Rio




                                                                                          MAKUA
                                                                            Shir




                                                                                                                                 Mossuril
                                              Tete
                                                                                e




                                                                                                                                Ilha de Moambique
                                                                    MANGANJA
   0                    150 milhas                        Sena
   0                    250 km                                                                  Quelimane                   OCEANO NDICO

                        Rotas comerciais




figura 21.6 Rotas do comrcio do marfim na frica Central Oriental no sculo XVIII. [Fonte: de acordo
com E. A. Alpers, UCLA.]




suscitaram um interesse desmedido com relao  sua produtividade. Durante
esse tempo, o comrcio do marfim caiu cada vez mais nas mos de concorrentes
interessados em seu mercado no Norte, neste caso os yao, povo que participou
de forma singular das trocas comerciais com regies distantes atravs de toda a
frica Central e do Oeste.
    Os yao apareceram como nao comercial dominante no fim do sculo XVII
e no incio do XVIII. A maneira pela qual eles adquiriram essa posio e esse
estatuto  objeto de duas interpretaes muito prximas. Abdul Sheriff postula
que a orientao dos yao para o comrcio com destino  costa era devida a uma
reao em cadeia. Em outros termos,  possvel eles terem simplesmente sido
sensibilizados pelas influncias comerciais que, a princpio, alcanaram seus
vizinhos ngindo e makua-lomwe, mais prximos da costa. Webster postulou
748                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



que o espetacular na reao dos yao diante dos contatos comerciais da costa era
o fato de eles habitarem um pas montanhoso onde nem a agricultura nem a
caa eram rentveis. Seus vizinhos nyanja ou chewa, no Oeste, eram melhores
cultivadores, e os lomwe, no Leste, eram melhores caadores55.
    De acordo com a tradio oral yao, tal como relatada por Yohanna B. Abdallah,
os chisi foram os pioneiros do comrcio com destino  costa. Dizem que eles
tiravam seus meios de subsistncia de sua habilidade no trabalho do ferro e do
comrcio local dos objetos de ferro.  possvel ento que, uma vez o pas Yao
suficientemente abastecido de artigos de ferro, os chisi tenham transportado
suas mercadorias mais longe, at estabelecer relaes com a costa. Vencida esta
etapa, o desenvolvimento posterior das atividades comerciais dos yao foi faci-
litado pela formao, entre 1635 e 1698, de um mercado estvel do marfim
em Kilwa. Durante esse perodo, os portugueses, aps terem conquistado a
costa da frica Oriental at Malindi, entraram em uma fase de prosperidade
e de paz. Por isso Kilwa atraiu uma grande parte do comrcio procedente das
regies interiores. Aps 1698, quando o mercado do marfim de Kilwa faliu em
consequncia de conflitos entre os habitantes de Om e os portugueses, os yao
encontraram um outro mercado em Mossuril, em frente  ilha de Moambique.
O comrcio parece ento ter se tornado indispensvel ao modo de vida dos yao.
Eles transportavam seu marfim a Moambique ou a Kilwa, de acordo com as
circunstncias56.
    No interior da regio, a Oeste de sua prpria ptria, os yao dispunham de
uma fonte abundante de marfim no pas Maravi. No mais, a partir de 1750 apro-
ximadamente, eles comearam a receber mais dos bisa, no Nordeste da Zmbia,
do que conseguiam ganhar em Kilwa. Os bisa, negociando assim com os yao,
comearam sua carreira comercial como empreendedores a servio de Kazembe,
o rei do Lunda, cuja capital, no curso de gua Luapula, era geralmente o ponto
de chegada de um itinerrio tomado pelos mercadores vindos das costas leste e
oeste.  certo em todo caso que em 1775 os bisa adquiriram a fama de serem
uma das naes mais voltadas para o comrcio na regio57.
    Para os bisa, o comrcio representava sem dvida um meio de sanar sua fra-
queza econmica e poltica interna: a produtividade agrcola de seu pas, situado
ente o Luapula e os montes Muchinga, era limitada e, no plano poltico, estavam
presos entre as foras expansionistas dos Reinos lunda e bemba. O comrcio e

55    A. M. H. Sheriff, 1971, p. 208-217; J. B. Webster, 1977, p. 3-6.
56    E. A. Alpers, 1975a, p. 58-62 e 70-81; J. B. Webster, 1977, p. 7-10.
57    F. M. Thomas, 1958, p. 26; R. F. Burton, 1873, p. 95; J. Vansina, 1966a, p. 171-172.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                           749



as viagens constituam ento um modo de acesso essencial s trocas comerciais
com o estrangeiro. Em sua tentativa de explor-las, os bisa abriram um grande
nmero de novas rotas comerciais entre a regio do Luapula, no Nordeste da
Zmbia, e na costa leste. Entre 1790 e 1830, eles tentaram tambm intensificar
as trocas entre o reino lunda e os portugueses no Zambeze. Nos dois casos,
eles desempenharam o papel de mediadores. Eles procuravam marfim, cobre e
escravos no interior da frica Central e encaminhavam-nos para as colnias da
costa ou do Zambeze, para troc-los por tecidos, prolas, fuzis e plvora preta.
    Seu comrcio com a costa leste teve tambm por consequncia o desloca-
mento de suas prprias aldeias rumo ao Leste, no vale do Luangwa e alm. Essa
migrao era inicialmente devida  fome e ao desejo de explorar o comrcio de
marfim entre o vale do Luangwa e o Lago Malaui. Assim, vrias aldeias bisa
foram criadas nesse vale nos anos 1760 e, no fim do sculo XVIII, encontravam-
-se outras na parte oeste do Malaui Central. Esse deslocamento das comunida-
des bisa rumo ao Leste acentuou-se entre 1820 e 1840, poca na qual os bemba
passaram a atac-los periodicamente na regio dos montes Muchinga58.
    Assim, durante ao menos quatro dcadas antes do fim do sculo XVIII, os
bisa mantiveram estreitas relaes com a populao do Leste. Sua presena,
particularmente entre os chewa, contribuiu para o reforo do poder de vrias
chefias, notadamente as de Mwase Kasungu e de Mkanda. Os imigrantes bisa
eram frequentemente mais leais para com a famlia soberana do que seus sditos
locais.
    Quanto aos portugueses, o fracasso da explorao aurfera e a perda do
mercado do marfim em favor dos yao e dos bisa obrigaram-nos a participar
ativamente do comrcio de escravos. Isso provocou, no fim do sculo XVIII, uma
outra mudana notvel na natureza do comrcio de longa distncia no Norte do
Zambeze. Os escravos tornaram-se progressivamente a principal mercadoria a
ser exportada da regio, em lugar do marfim. Essa reviravolta, embora longe de
ser completa, foi suficientemente pronunciada para possibilitar, a justo ttulo, a
identificao do sculo XVIII com o comrcio do marfim e do sculo XIX com
o dos escravos. A participao portuguesa neste ltimo foi bastante importante
nos anos 1780, perodo durante o qual escravos do Norte do Zambeze foram
exportados para a colnia francesa da ilha da Reunio, no Oceano ndico59.
    Como o comrcio dos escravos tornava-se cada vez mais lucrativo que o do
marfim, aos portugueses que dele participavam se juntaram os yao e os bisa. De

58   A. C. P. Gamitto, 1960, p. 55-56 e 161-192; A. D. Roberts, 1973, p. 104-167.
59   R. F. Burton, 1873, p. 81-87; E. A. Alpers, 1975a, p. 201-219; A. F. Isaacman, 1972b, p. 85-94.
750                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii




figura 21.7 Restos de um forno para fundir o ferro (ng'anjo) tumbuka. A fama de forjadores dos tubuka
s era igualada pela dos Phangwa, na margem leste do Lago Malaui. [ K. M. Phiri.]




acordo com Abdallah, os yao converteram-se a esse tipo de trocas porque os
negociantes da costa demandavam mais escravos do que marfim. Com efeito, o
mercado de Kilwa para o qual os yao transportavam suas mercadorias a partir
do interior da regio comeou a ser dominado pelo comrcio de escravos a
partir dos anos 177060. Com o senso do comrcio que os caracterizava, os yao
puseram-se provavelmente a substituir o marfim pelos escravos em seus com-
boios vindos do interior.
   Toda a zona setentrional da provncia foi igualmente puxada para essa rede
de comrcio exterior. At o incio do sculo XVIII, nenhuma parte da regio


60    Y. B. Abdallah, 1973, p. 29-37; G. S. P. Freeman-Grenville, 1965, p. 43-48.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                                    751




figura 21.8 Enxada de ferro de fabricao tumbuka. Esse espcime foi fabricado no Vipya, distrito de
Mzimba, no Malaui setentrional, nos anos 1940. [ K. M. Phiri.]




fora implicada nessas atividades, embora j existisse um comrcio local vigoroso
perto das margens do Lago Malaui, bem como entre o pas tumbuka, de um
lado, e o pas Nsenga e o Norte da regio chewa, por outro lado. Durante as
quatro primeiras dcadas do sculo XVIII, a zona tumbuka era ligada a uma
rede comercial estendendo-se do Katanga, no Noroeste, at Kilwa, no Leste.
Os responsveis por essas mudanas eram os chefes de famlia conhecidos sob
o nome de balowoka  os que atravessaram o lago , cuja chegada na regio
estendeu-se por um perodo de trinta a quarenta anos.
   O mais clebre desses recm-chegados era Kakalala Musawila Gondwe, prova-
velmente um Nyamwezi de influncia yao, participante do comrcio com destino
 costa leste durante algum tempo. Como ele procurava marfim, atravessou o lago
em Chilumba e instalou-se na plancie de Nkamanga, perto do vale do Luangwa
752                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



onde, nessa poca, abundavam os elefantes. Ele entrou em contato com o chefe do
cl luhanga, Chilundanya Luhanga, que apreciou as mercadorias  prolas, mphande
(conchas) e tecidos  que o recm-chegado trouxera. Mais tarde, Gondwe contraiu
laos matrimoniais com os luhanga e suas outras famlias influentes, implantando-
-se assim solidamente na sociedade tumbuka. Para explorar plenamente os recursos
da regio, ele distribuiu turbantes, como os que ele mesmo usava, aos diferentes
chefes locais, como smbolos da autoridade que emanava dele61.
    Outras famlias de imigrantes provenientes do Leste do lago estabeleceram-
-se nas terras vizinhas ao Nkamanga. No distrito hoje conhecido pelo nome
de Hewe, Katumbi Mulindafwa Chabinga empreendera organizar um Estado
menor porm mais vivel do que o de Gondwe. Ele tambm vinha do territrio
nyamwezi e atravessara o lago em Chilumba, mas, contrariamente a Gondwe,
ele penetrou na regio montanhosa prxima dos montes Misuku e do planalto
do Nyika e instalou-se em Chigoma, no Nthalire62. Tambm como Gondwe, ele
distribuiu turbantes a chefes locais a fim de simbolizar o reconhecimento de sua
autoridade. A partir de Chigoma, Katumbi desenvolveu suas relaes comerciais
no Oeste rumo a Malambo, no vale do Luangwa, rico em marfim. Mais tarde,
seus descendentes estabeleceram-se a algum quilmetro mais ao Sudoeste, no
atual Hewe, onde a chegada dos europeus marcou uma virada em sua histria.
    Um outro mercador, Katong'ongo Mhenga, originrio da regio de Ubena-
-Uhehe, atravessou o lago pouco tempo depois de Gondwe e Katumbi se ins-
talarem. Katong'ongo no era um comerciante no mesmo sentido que Katumbi
e Gondwe. Ele procurava por uma terra para se estabelecer com a famlia e a
encontrou no vale do Henga. Ele tinha vrias percias: sabia caar, fabricar bra-
celetes decorativos e, principalmente, sabia extrair o sal. Essa ltima qualidade
mostrou-se das mais teis porque ele logo teve de gerir os excelentes poos
salobros de Kamembe. Ele entrou tambm por aliana nas famlias locais das
quais algumas, notadamente os Munthali, os Mzumara e os Mkandawire, esta-
vam bem implantadas no vale do Henga. Pouco a pouco, sua influncia cresceu e
ele ficou conhecido pelo nome de Mwahenga, proprietrio da regio do Henga.
Ele contraiu relaes comerciais com os sditos de Mwaphoka Mbale e com os
Nkamanga de Gondwe63.


61    Essa passagem foi inspirada em H. L. Vail, 1972b e 1974; H. K. Msiska, 1978a.
62    O Estado do Nthalire foi fundado no sculo XVIII pelos Kawonga, originrios do Sul da Tanznia. Eram
      caadores que tinham feito aliana com os kyungu de Karonga e foram esses ltimos que lhe sugeriram
      se instalar no que seria mais tarde chamado Nthalire
63    O. J. M. Kalinga, 1979b.
A Zambzia do Norte: a regio do Lago Malaui                                  753



    As trs famlias de imigrantes, os Muswila Gondwe, os Katumbi Mulinda-
fwa Chabinga e os Katong'ongo Mhenga, comearam a dominar o comrcio
na maior parte da regio ao Sul do Songwe e ao Leste do vale do Luangwa,
e foi difcil eles no entrarem em conflito. Gondwe se sentia particularmente
ameaado porque Katumbi controlava o acesso  regio rica em marfim. Alm
disso, era importante para ele poder usar livremente, seno controlar, a barca
de Chilumba, a fim de transportar seu marfim para a costa leste. Para atingir
seus objetivos, ele comeou a intervir na crise se sucesso advinda da morte
de Katumbi e conseguiu fazer aceitar como chefe um candidato influencivel.
Depois, ele concluiu um acordo com Mwahenga, segundo qual este ltimo se
comprometia em no atrapalhar seu comrcio e recebia em troca tecidos e outras
mercadorias de valor. Gondwe negociou arranjos similares com os soberanos ao
Leste do vale do Henga, notadamente Mwafulirwa, Mwamlowe, Mwankunikila
e Kachulu. Em 1800, Gondwe ficou em condies de monopolizar o comrcio
na regio compreendida entre o Luangwa e a margem oeste do Lago Malaui.
Como ele se tornara senhor da plancie de Nkamanga, acabou por estender seu
imprio comercial. Para tanto, a tarefa do Chikulamayembe foi facilitada pelo
fato de certas famlias, essencialmente os Msiska e os Nyirenda, provavelmente
tambm mercadores do Unyamwezi, terem tomado o poder na regio governada
pelo Mwaphoka, pondo assim termo a um longo perodo de supremacia mbale
nessa terra. O pas Phoka, entre o Nkamanga e o vale do Henga, de um lado, e
a barca de Chilunga, do outro, constituram por um longo tempo a encruzilhada
do comrcio local.
    Entidades polticas mais restritas foram criadas no sculo XVIII por famlias
vindas do lado do lago, um grande nmero de seus fundadores sendo, como
Gondwe e Katumbi, mercadores de marfim. Logo ao Sul do Ugonde, a fam-
lia de Mwafulirwa fundou o Estado fulirwa na regio outrora dominada pelo
cl mkanbdawire. Mais tarde, um parente de Mwafulirwa, Mwendamunjila
Mushani Kaira, dirigiu-se ao Oeste e estabeleceu-se finalmente em Zibang'ombe,
a alguns quilmetros a Oeste dos montes Mwafulirwa. Ele derrotou os autcto-
nes simwaka, pertencentes aos nyiha, e comeou a construir o Estado wenya. No
fim do sculo XVIII, este espandiu-se rumo ao Norte, at as fronteiras sul do
Ulambya. Por volta da mesma poca, a regio sudoeste do Wenya caiu nas mos
de uma famlia mlowoka, os Mughogho. Essa zona, o Uyombe, hoje formadora
de uma parte do distrito de Isoka, na Zmbia, era rica em elefantes e, alguns anos
mais tarde, atraiu um grande nmero de caadores. Os Mughogho contraram
boas relaes com os administradores mais antigos de Chifungwe e de Utambo,
perto da fonte do Luangwa, uma regio tambm rica em elefantes.
754                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



    Outras famlias atravessaram o lago mais ao Sul e instalaram-se no longe
do atual boma Nkata-Bay. Algumas dentre elas esto na origem do Mankhabira
moderno. Essas famlias de caadores deixaram seu pas por volta de 1720, sem
dvida atrados pela possibilidade de encontrar marfim em abundncia ao longo
da margem oeste do Lago Malaui. Eles venceram os dirigentes phiri e, em uma
gerao, tornaram-se as famlias dominantes da regio64.
    No sculo XVIII, a zona tumbuka foi ento, a princpio, dominada por caa-
dores de marfim, depois por mercadores que, por controlarem as riquezas, exer-
ceram um certo poder poltico. A descentralizao administrativa permitiu aos
chefes mercadores tomarem o poder. Os caadores e os comerciantes escolheram
essa regio porque, para terem sucesso nas atividades comerciais, uma certa
influncia poltica era necessria. Ora, esta no podia ser obtida nos Estados
setentrionais, pois estes ficaram afastados da rede comercial continental durante
quase um sculo depois de os tumbuka terem sido incorporados a ela. No sculo
XVIII, o Imprio Maravi se desintegrou e os Estados da zona marginal do
Tumbuka Chewa, no Sul, encontraram-se senhores de seus prprios negcios.
Contudo, mesmo no seio das chefias como a de Kanyenda, as tendncias sepa-
ratistas que frequentemente acompanharam o comrcio do marfim comearam
a se fazer sentir. O terreno estava ento preparado para os acontecimentos que
levaram  hegemonia de Makhambira na regio. Aps 1800, todos os Estados e
povos foram engajados na era comercial do marfim, depois na de escravos, com
consequncias inquietantes, qui desastrosas.
    O perodo sobre o qual se abre este volume no coincide com o recorte cro-
nolgico da histria dessa regio. Uma pgina da histria comea por volta de
1400 na zona sul, com a chegada dos maravi, e uma outra, por volta de 1600,
na zona norte, com a migrao dos ngulube. Mas a data na qual a obra termina
 adequada porque novos temas dominam a historiografia de toda essa terra no
sculo XIX: por exemplo, a passagem do comrcio do marfim ao de escravos, a
participao de toda a regio de um comrcio manipulado do exterior, a implan-
tao de toda uma srie de chefias yao nos territrios inicialmente governados
pelos maravi e, enfim, a chegada de um conjunto de novas comunidades  nguni,
suali, kilolo e europeus  que, finalmente, procuraram tomar o poder poltico,
quaisquer que tenham sido os diferentes motivos de sua vinda.




64    Este pargrafo foi em parte inspirado em O. Y. Kaira, 1970-1971, e em J. B. C. Nkhoma, 1978.
A regio ao Sul do Zambeze                                                     755



                                      CAPTULO 22


                 A regio ao Sul do Zambeze
                                           H. H. K. Bhila




    Dispomos de poucos documentos histricos sobre a regio situada ao Sul do
Zambeze, do perodo que vai de 1500 a 1800.  preciso remeter-se essencial-
mente s narrativas dos viajantes e comerciantes portugueses que penetraram
na regio ao longo do primeiro decnio do sculo XVI. Portanto, este captulo
tratar de trs entidades em particular, a saber, o Imprio Mutapa, o Imprio
Rozwi e os Estados orientais shona. Os Estados mutapa e rozwi so oriundos da
cultura do Grande Zimbbue (1200-1450), cujas origens e o desenvolvimento
sero tratados em outra parte1.
    O declnio do Grande Zimbbue comeou a partir da metade do sculo
XV2, com a queda da produo de ouro no planalto do Zimbbue. Assistiu-se,
primeiro, ao surgimento de um Estado obscuro, portador do nome Torwa ou
"Butwa", segundo as fontes portuguesas3. Esse Estado teve uma primeira capital
em Khami, depois, uma segunda em Danangombe4. A primeira, provavelmente
fundada em meados do sculo XV, foi destruda por um incndio no decorrer
da segunda metade do sculo XVII5. Segundo sua arquitetura e sua cermica, o

1    UNESCO, Histria Geral da frica, vol IV, cap. 21.
2    P. S. Garlake, 1973; I. R. Phimister, 1974 e 1976; T. N. Huffman, 1972.
3    P. S. Garlake, 1982, p. 30-31.
4    Ibid.
5    D. N. Beach, 1984, p. 26, 82, notas 60 e 61.
756                                                                                                               frica do sculo xvi ao xviii




                                                       Zumbo                      Chikova

                                                       DANDE            CHIDIMA
                                                                                                Tete
                                                         Bedza
                                                                                       zoe    Rio
                                                                         Masapa Rio Ma     TO
                                                                                                  Zam
                        Rio                                                                      NG  b       e
                              Sa                      Zvongombe                                    A
                                 ny




                                                                                                             ze
                                    at
                                       i
                                                                                                                  Sena
                                                      Dambarare                                                             Quelimane
           SHANGWE
                                                                         MAUNGWE            BARWE
    Ri                                                                                                                   Luabo
      oS                                    Maramuka
           ha
             ng a
                 ni
                                                                                  MANYIKA
                  M'telegwa
                                   Tabazika Mambo
                                                                                       Masekesa
                         BUTWA                          BUHERA                       UTEVE
                      Dhlodhlo
                                                                                                 Sofala
                       Khami                            Grande
                                                        Zimbbue
                                                                                  DANDA                              OCEANO
                                                                                                                      NDICO

                                                                                     Rio Save

                                                    Rio Lim
                                                              pop
                                                                    o
                  Altitude superior a 1000 m

       0                  100                200 milhas
       0                 150                 300 km
                                                                                                 Inhambane


figura 22.1 A frica Central e do Sudeste sob os Estados mutapa e torwa. [Fonte: segundo S. I. Mudenge,
A political history of Munhumutapa c. 1400-1902, Harare, Zimbabwe Publishing House, 1988; e Zimbabwe
Epic, publicado pelos Arquivos nacionais do Zimbbue, Harare, p. 47.]



Estado de Torwa era uma rplica do stio de Zimbbue. A segunda capital era
muito menor do que a primeira. Os vestgios arqueolgicos indicam duas coisas:
primeiramente, que a quase-totalidade dos prestigiosos edifcios de pedra foram
erigidos, no Estado de Torwa, antes de 1650 e, em segundo, que a dinastia rozwi
dos changamire, que anexou o Estado de Torwa nos anos 1690, no realizou
nenhuma construo desse tipo6.
    O segundo importante acontecimento poltico, aps o declnio do Grande
Zimbbue, foi a emergncia do Imprio Mutapa que, no incio do sculo XVI, j
havia assumido o controle das terras agrcolas frteis do planalto e de "uma parte


6     Ibid., p. 27.
A regio ao Sul do Zambeze                                                    757



das terras ridas do vale do Zambeze, comandando tambm algumas das vias
comerciais7". O Imprio era composto de um conjunto de comunidades hetero-
gneas, que falavam karanga. Teoricamente, estendia-se dos confins meridionais
do Zambeze at o Oceano ndico, mas, na realidade, a autoridade dos chefes
mutapa era muito limitada fora do planalto. Certas indicaes nos fazem pensar
que os Reinos de Manica, Uteve, Baru e Dande se separaram do Imprio no
sculo XVI, porm continuaram a cumprir suas obrigaes rituais e tributrias
at a ascenso de Dombo Changamire, no final do sculo XVII8. Apesar das
poucas provas de que dispomos a esse respeito, parecia que, por muito tempo
aps a ascenso ao poder de Dombo Changamire, os reinos "rebeldes" tinham
continuado a pagar um tributo aos soberanos mutapa. Pensamos que, os prprios
changamire, por vezes, pagaram um tributo aos imperadores mutapa, ao longo do
sculo XVIII9. Porm, aqueles que traziam o tributo rozwi eram "recebidos com
as honras outorgadas aos embaixadores dos reis10". Uma evoluo comparvel
se produziu no Baixo Zambeze, onde os chefes tonga e sena resistiram a todos
os esforos empregados pelos imperadores mutapa na tentativa de imporem sua
hegemonia poltica. Assim, o Imprio foi reduzido a sua mais simples expresso,
ou seja,  regio dos territrios dande e chidima.
    Provavelmente, o Imprio Mutapa continuou a construir prestigiosos edif-
cios de pedra at o sculo XVI. Algumas das mais antigas runas, em particular, o
stio de Zvongombe, correspondem s primeiras capitais dos soberanos mutapa.
Mais tarde, reconheciam-se essas cidades em funo de seus palanques de vrios
metros de altura. Antnio Bocarro, nos anos 1620, descreveu de uma forma
muito expressiva a capital e os modos de vida dos soberanos mutapa. Segundo
ele, a capital era muito vasta e composta de uma multiplicidade de casas cer-
cadas por uma barreira de madeira, no interior da qual havia trs habitaes:
uma para a rainha e outra para os serviais, seus agregados. Trs portas davam
em um grande ptio, sendo uma a servio da rainha, e alm da qual no era
admitido nenhum homem; uma outra, para a cozinha do rei: os nicos que a
podiam transpor eram os cozinheiros, duas pessoas jovens escolhidas dentre os
principais nobres do reino, os parentes do rei em quem ele confiava, e os rapazes,
tambm nobres, de quinze a vinte anos de idade, que serviam na cozinha. Tam-
bm tinham por tarefa servir as refeies ao rei, dispondo o alimento diante dele,

7    Ibid.
8    Vasco Fernandes Homen  Luys da Sylva, em E. Axelson, 1940, p. 269.
9    L. F. de Carvalho Dias, 1954.
10   Ibid.
758                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




figura 22.2   Runas na regio de Matendere. [ Queen Victoria Museum, Harare.]




Figura 22.3   Runas do tipo mutoko. [ Queen Victoria Museum, Harare.]
A regio ao Sul do Zambeze                                                                  759



no cho, sobre um tapete ou uma esteira coberta com musselina. Ofereciam ao
soberano um grande nmero de carnes diferentes, todas elas assadas ou cozidas,
como galinhas, pombos, perdiges, capes, carneiro, animais de grande porte,
lebres, coelhos, boi, ratos e outros tipos de caa. O rei, aps se servir, d uma
parte destas carnes aos seus serviais, os quais so sempre providos do alimento
da mesa do rei11.
    Entretanto, na primeira metade do sculo XVIII, os mutapa perderam o con-
trole direto do planalto e o centro do Imprio deslocou-se para as terras baixas
do Zambeze, entre Zumbo e Tete. Tal perda da hegemonia poltica representava
o resultado de um longo processo de desintegrao encetado em 1629, com a
derrota de Mamvura Mutapa pelos portugueses12, terminando em 1917, com
o desaparecimento do Estado mutapa. O enfraquecimento da dinastia mutapa
incitou grupos shona vizinhos a se apropriarem das terras, como os budya, que se
estenderam em toda a regio do Baixo Zambeze. Os soberanos mutapa tambm
encorajaram outros grupos a se estabelecerem no corao do Imprio13.
    No plano administrativo, o enquadramento do Imprio era feito em trs
nveis: a capital, a provncia e a aldeia. Os mutapa delegavam sua autoridade aos
chefes da aldeia e da provncia. Entretanto, parece que os detentores desses car-
gos variavam de acordo com as circunstncias polticas. Nos primeiros anos do
Imprio, apenas parentes mais ou menos prximos dos mutapa eram investidos
nas funes de chefe da aldeia ou da provncia. Por exemplo, rezava o costume
que um presumido prncipe e herdeiro fosse colocado  frente dos territrios
dande. Ele era o portador do ttulo de nevanje primognito. Na segunda posi-
o da ordem de sucesso ao trono vinha um outro prncipe, chamado nevanje
caula14. Alm dos membros da linhagem real, aqueles, que, embora no apa-
rentados aos mutapa, tinham contribudo com a conquista, eram promovidos
a cargos de grandes responsabilidades. Com o tempo, os mutapa sentiram-se
mais confiantes e seguros de si; por isso, no sculo XVII, autorizaram as aldeias
e as provncias a elegerem seus prprios chefes. Na capital, eram assistidos por
dignitrios de alto escalo, os quais recebiam terras em troca de seus servios.
Obrigaes precisas eram igualmente destinadas a cada uma das esposas do
imperador15.


11   A. Bocarro, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 356-357.
12   G. M. Theal, 1899-1903, vol. V, p. 290-292.
13   D. N. Beach, 1980a, p. 164-165.
14   W. G. L. Randles, 1979, p. 58; A. P. de Miranda, em A. A. Andrade, 1955, p. 307-308.
15   Ibid.; A. Bocarro, em G. M. Theal, 1892-1903, vol. III, p. 356-357.
760                                                                               frica do sculo xvi ao xviii




figura 22.4     Runas do tipo musimbira. [ Queen Victoria Museum, Harare.]




      As crenas e os mtodos de controle administrativo
   Os mutapa dispunham de vrios mecanismos para manter a autoridade no
Imprio, como a obrigao, incumbida aos chefes territoriais, de vir a cada ano
reacender os seus fogos reais na chama original16, sendo para eles uma forma de
reafirmar a lealdade ao poder central. Uma vez por ano, os soberanos mutapa
davam ordens a esses chefes para apagarem seus fogos reais e de rumarem
imediatamente para o palcio do Mutapa a fim de reacend-los. Esse ritual de
fidelidade era igualmente repetido na ocasio da entronizao de cada novo
monarca mutapa. Quando da morte de um soberano mutapa, a ordem dada
aos chefes territoriais era de apagar seus fogos reais at que um sucessor fosse
escolhido, ao lado do qual deveriam vir reacend-los.
   Aquele que faltasse nesse ritual era assimilado a um ato de rebelio e, por-
tanto, era severamente punido. Recorria-se, ento, a um exrcito eficaz, cujos
efetivos foram diversamente estimados em "100.000 homens na linha de com-
bate17", 30.000 soldados de profisso, no sculo XVI, e 3.000 homens no sculo

16    G. M. Theal, 1899-1903, vol. I, p. 96, vol. III, p. 130, vol. VI, p. 170.
17    Vasco Fernandes Homen  Luys da Sylva, em E. Axelson, 1940, p. 274.
A regio ao Sul do Zambeze                                                                        761



XVIII18. Tais nmeros nos levam a pensar que antes do declnio do Imprio,
os soberanos mutapa podiam mobilizar, se preciso fosse, um grande nmero de
camponeses e alist-los no exrcito, porm, quando o Imprio caiu em decadn-
cia e entrou no caos, no sculo XVIII, era bem mais difcil realizar essa mobili-
zao. As estatsticas fornecidas por observadores portugueses contemporneos
so muito pouco confiveis.
    Os mutapa utilizavam-se tambm da religio para manterem a autoridade
sobre seus sditos, atravs da estreita relao entre a monarquia e os mdiuns
espritas, os quais eram possudos pelos espritos ancestrais dos prprios impe-
radores ou por "antigos representantes dos primeiros proprietrios fundirios19".
Alm de suas outras tarefas, presumia-se que o imperador mantivesse um contato
estreito com os mortos poderosos, em nome da nao. Era ele quem conciliava
o esprito nacional e intercedia em nome de seus sditos. O culto das sepulturas
reais tambm contribua para consolidar a imagem e o prestgio do imperador
e, por fim, a reforar sua autoridade sobre o seu povo. Esperava-se que ele fosse
at a tumba de seus ancestrais antes de toda expedio militar importante.
    Os proprietrios da terra, como Dzivaguru, eram os fazedores de chuva
e celebrantes dos rituais no palcio real mutapa. Esse sistema religioso era
retomado nos diversos nveis da administrao. A religio constitua um
importante mecanismo de controle social, em particular em uma economia
dominada pela agricultura. A participao do imperador nos ritos da chuva
era considerada essencial para a prosperidade econmica do Imprio. Ele
organizava, para seus ancestrais, danas "mensais da lua nova20" e grandes
festas anuais para apaziguar seus espritos ancestrais. Tambm encontramos
referncias a msicos que "atraam a ateno dos espritos para a necessidade
de fazer com que chovesse21".
    A religio desempenhava um papel crucial de mecanismo social em matria
de controle poltico. De fato, os mdiuns espritas gozavam de um estatuto
mais elevado do que o dos imperadores; e por isso eram (e ainda so) chamados
mhondoro (lees) e tinham por funo aconselhar o imperador sobre todos os
assuntos do Estado22.


18   W. G. L. Randles, 1979, p. 60.
19   T. O. Ranger, 1979, p. 19.
20   R. Gray e S. Marks, 1975, p. 388.
21   Ibid.
22   Annimo, 1890, p. 223; D. P. Abraham, 1969; G. K. Garbett, 1966. Ver tambm E. G. Parinder, 1967,
     p. 61.
762                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




figura 22.5 Gravura do Mutapa (sculo XVIII) refletindo a riqueza, a glria e a potncia do imperador.
[ Queen Victoria Museum, Harare.]
A regio ao Sul do Zambeze                                                                              763



   Porm, o instrumento de controle poltico mais corrente era o tributo, cobrado
pelos imperadores mutapa, e que podia tomar a forma de produtos agrcolas,
peles de leo e de leopardo, penas de avestruz, caa de pequeno e grande porte,
peitoral de qualquer animal morto e, no caso de um elefante, da presa do lado
que o animal caiu ao morrer23. O tributo tambm podia ser pago com trabalho.
Segundo Joo de Barros:
         Todos os oficiais e servos de sua corte, bem como os capites dos soldados, cada
     um com seus homens, deviam ajud-lo a cultivar seus campos ou fazer qualquer
     outro trabalho, e isso, sete a cada trinta dias. E os nobres ao receberem do impera-
     dor uma terra, na qual se encontravam vassalos, recebiam o mesmo deles. s vezes,
     quando havia necessidade de um servio particular, ele enviava uma ou duas vacas
     para as minas, onde se cavava para encontrar o ouro, segundo o nmero de pessoas
     que l havia, para que elas as repartissem entre si, como um sinal de amor. Em troca
     desse servio, cada uma dava um pouco de ouro, por um valor de cinco centavos
     de ris. Tambm nos mercados, em vez de servios, os comerciantes davam uma
     certa soma. Caso no fosse pago o tributo, no se incorria a qualquer sano, mas
     perdia-se ento o direito de aparecer frente ao benomotapa, o que era considerado
     uma grande desgraa24.
     A prtica do pagamento pelo trabalho foi igualmente adotada pelos chefes
vassalos, os quais parecem t-la aplicado de forma diferente. Em vez de enviar
pessoas para trabalharem nos campos do imperador, a populao das aldeias e dos
lugarejos de Uteve cultivava um "grande campo de sorgo para o rei: todos os habi-
tantes do lugar deveriam a trabalhar por alguns dias do ano, anteriormente fixados
[...]". Todavia, a colheita era feita por "intendentes recrutados para esse fim"25.
     No momento da abertura de uma nova mina, os soberanos mutapa, geral-
mente, enviavam os seus mais infalveis agentes para coletarem o tributo. Aque-
les que procuravam ouro erigiram um abrigo para alojar os arrecadadores e
armazenar o tributo. Esse era avaliado como equivalente "ao produto de um dos
trajetos efetuados cotidianamente por cada minerador, entre a mina e a gua26".
Como veremos mais adiante, para extrair, em particular, o ouro do minrio,
era preciso lavar esse ltimo em um rio ou em um poo. Tal sistema tributrio


23   J. de Barros, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. I, cap. I; J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol.
     II, cap. 15; A. P. de Miranda, em L. F. de Carvalho Dias, 1954, vol. VII, p. 135.
24   G. M. Theal, 1899-1903, vol. VI, p. 271.
25   J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, cap. 15, p. 222.
26   W. G. L. Randles, 1979, p. 66.
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no parece ter fundamentalmente evoludo at o desaparecimento do Imprio
Mutapa, no incio do sculo XX.
    Poderamos dizer que estes diversos mecanismos de controle contriburam
parcialmente para preservar um imprio centralizado, em uma poca em que
as distncias eram tamanhas que era impossvel exercer uma vigilncia estreita
sobre os chefes dos diferentes territrios. A incapacidade do exrcito em sufocar
as rebelies nas regies recuadas do Imprio, as conspiraes polticas internas,
das quais se aproveitavam os comerciantes portugueses, e as guerras civis so
fatores que explicam o declnio gradual e a queda do Imprio Mutapa.


      O fator portugus
    Embora a chegada dos portugueses a Sofala remonte a 1506, somente foi de
1550 a 1630 que eles tentaram verdadeiramente submeter o Imprio Mutapa.
At 1540, o comrcio entre portugueses e shona foi oficioso. Nessa data, as
relaes comerciais entre os negociantes portugueses, os monarcas mutapa e os
seus sditos foram, entretanto, regularizadas e oficializadas27 atravs da abertura
de uma misso diplomtica e comercial no palcio real mutapa. Tal misso foi
colocada sob o comando de um oficial nomeado capito das portas. Ele era
eleito vitalcio pelos portugueses que comerciavam no Imprio, mas sua nome-
ao devia ser confirmada pelos imperadores mutapa. Suas principais funes
consistiam em transmitir aos soberanos mutapa as ofertas, os requerimentos
e as queixas dos comerciantes portugueses e vice-versa28. As relaes entre a
comunidade portuguesa e os soberanos mutapa eram essencialmente de natureza
tributria: os portugueses pagavam um tributo, a curva. Cada vez que um novo
capito assumia as suas funes na fortaleza portuguesa de Moambique, era
          obrigado a pagar ao monomotapa o equivalente a 3.000 cruzados em estofos e
      em prolas pelos trs anos do exerccio de seu cargo. Ele, ento, podia abrir as terras
      a todos os mercadores, cristos ou mouros. Todos negociavam tecidos obtidos com
      o capito acima referido, e a maior parte do ouro extrado destes rios encontrava-se
      nas mos do capito de Moambique29.



27    J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, cap. 9; Fr. Monclaro, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III,
      p. 186.
28    J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 271.
29    Ibid., p. 272.
A regio ao Sul do Zambeze                                                                             765



   Em troca deste tributo, os imperadores mutapa outorgavam aos negociantes
o direito  livre circulao por todo o Imprio, para a venderem seus estofos e
prolas. Segundo Joo dos Santos, missionrio jesuta:
         Nunca ouvimos falar de cafres ladres atacando portugueses na rota ou agredindo-
     -os para roub-los, a menos que o prprio monomotapa ordenasse isso, o que s
     vezes acontecia para se vingar de uma ofensa cometida, ou pretensamente cometida
     contra ele pelos portugueses, em particular, quando um capito recm nomeado em
     Moambique no efetuou (ou adiou por um ano) o pagamento em estofos, o qual
     se costuma pagar no ano que segue ao incio das funes30.
    Nesse caso, o imperador ordenava o embargo, sem indenizao, de toda a
mercadoria em seu imprio. Isto realmente aconteceu em 1610, quando Gatsi
Rusere decretou a mupeto (confiscao pela fora) da mercadoria dos comercian-
tes portugueses, o que acarretou, contra esses ltimos, uma srie de ataques e de
mortes31. Alm do tributo pago pelo capito portugus aos imperadores mutapa,
os mercadores portugueses e rabes-sualis deviam ceder uma pea de estofo
por vinte peas introduzidas no Imprio32. Alm dos tecidos e das prolas que
eram largamente difundidas, os portugueses ofereciam aos imperadores mutapa
artigos de luxo importados, tais como sedas, tapetes, objetos de cermica e de
vidro, utilizados por eles para realar seu prestgio no quadro de um sistema de
patronagem.
    Tal regime de relaes tributrias se perpetuou praticamente sem mudana
at a segunda metade do sculo XVI. Em seguida, os portugueses comearam
a passar  frente dos monarcas mutapa, aps mltiplas guerras de agresso, por
eles conduzidas no Sul do Zambeze, entre 1569 e 1575. Estas lhes permitiram
implantarem-se nos reinos orientais de Uteve e de Manica. No trmino de
vrias batalhas, os portugueses acordaram, em 157533, com o rei de Uteve, um
tratado estipulando que o capito de Sofala e seus sucessores deviam pagar aos
chefes teve um tributo anual de 200 peas de estofos34. Em troca, os negociantes
portugueses obtiveram o direito de circular livremente em todo o territrio do
Reino de Manica, no qual eles acreditavam ter muito ouro, contrariamente ao


30   P. B. de Rezende, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 414-427 e 429. O valor da curva teria sido de
     15.000 ou 16.000 cruzados todos os trs anos. Esse montante parece um pouco exagerado.
31   J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 272.
32   Fr. Monclaro, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 202-253.
33   R. Gray e S. Marks, 1975, p. 390.
34   J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 219.
766                                                         frica do sculo xvi ao xviii



que a sequncia dos acontecimentos mostrou. Ademais, os habitantes da forta-
leza portuguesa de Sofala tinham o direito de penetrar livremente no interior
das terras, seguindo o curso do rio Sofala, para comprar provises. Da mesma
forma que com os imperadores mutapa, todo comerciante portugus que queria
atravessar Uteve para chegar em Manica, por vinte peas introduzidas no reino
devia ceder ao chefe teve uma pea de estofo. Todavia, os mercadores africanos
que negociavam "tecidos, prolas e outras mercadorias com os portugueses",
deviam "ao rei trs peas a cada vinte".35 No se sabe muito bem porque os
comerciantes africanos deviam pagar mais do que os comerciantes portugueses,
porm pensa-se que, provavelmente, era para impedir o avano de uma classe
mercantil potente, que poderia contestar a autoridade poltica do rei. Um tratado
similar foi concludo com o rei de Manica, em 157336.
    Este limitado sucesso incitou os portugueses a tentarem outras incur-
ses no Imprio Mutapa. As rebelies, que l explodiram entre 1590 e 1607,
forneceram-lhes a oportunidade de mergulhar na complexidade da poltica
mutapa. Um chefe mutapa, Gatsi Rusere, apelou para os portugueses e com
eles assinou um tratado de assistncia militar. Em troca, prometeu ceder todas
as suas minas de ouro, de cobre, de ferro, de chumbo e de estanho37. Certa-
mente, o tratado conferia aos portugueses o prestgio da propriedade, mas eles
no possuam nem a mo de obra nem os conhecimentos tcnicos necess-
rios para explorar os metais. Na verdade, o tratado teve pouco valor porque
os portugueses deixaram Gatsi Rusere afrontar sozinho as guerras civis, que
no cessaram at sua morte em 1624. A sucesso de Gatsi Rusere coube
ao seu filho, Nyambu Kapararidze, cuja legitimidade do trono real mutapa
foi contestada por seu tio Mamvura. Na guerra que se seguiu entre os dois
rivais, Mamvura solicitou a assistncia militar dos portugueses, obtendo -a
em 1629. Aps ter extorquido de Mamvura um certo nmero de promessas,
os portugueses aliaram-se a ele contra Kapararidze. Tais promessas incluam,
notadamente, um tratado de vassalagem e a alienao das minas de ouro e de
prata. Como Gatsi Rusere em 1607, Mamvura subiu ao trono com o apoio
militar dos portugueses. O tratado acertado com eles o obrigava a consentir aos
mercadores portugueses o direito de circular livremente em todo o Imprio,
de expulsar os mercadores rabes-sualis de seu territrio e de autorizar os
missionrios dominicanos a pregarem sua religio. Mamvura comprometia-

35    G. M. Theal, 1899-1903, vol. VIII, p. 222.
36    Ibid., p. 218.
37    Id., vol. III, p. 367-370.
A regio ao Sul do Zambeze                                                                             767



-se tambm a suprimir a curva, paga pelos portugueses aos chefes mutapa,
aproximadamente, desde a metade do sculo XVI, e a pagar, a partir de ento,
um tributo a esses ltimos. Aps a assinatura deste tratado, era cada vez mais
numerosa a quantidade de comerciantes e de aventureiros portugueses que
chegavam ao territrio do Imprio Mutapa. Mamvura e sua mulher foram
ambos batizados e, respectivamente, ganharam os nomes Domingos e Luiza38.
Esse tratado de 1629 encorajou aventureiros portugueses a se apossarem de
terras, as quais, mais tarde, foram reconhecidas pela Coroa portuguesa sob o
estatuto de prazos (terras da Coroa). At ento hspedes dos chefes africanos,
os mercadores portugueses tornaram-se praticamente os senhores dos territ-
rios. Mas seu individualismo e desprezo pela lei desencadearam um perodo de
caos e de anarquia. Sobre a penetrao dos portugueses no Imprio Mutapa,
poderamos dizer que ela o conduziu  desintegrao e deu  luz o que cha-
mamos de sistema do prazo, bem como uma nova entidade, o Imprio Rozwi.

     O sistema do prazo
    A partir deste momento, a aquisio de terras por aventureiros portugue-
ses prosseguiu praticamente sem freios: foi desta forma que se constituram
numerosos prazos da coroa39, pertencendo a funcionrios, mercadores, ordens
religiosas e a pioneiros portugueses.
    O regime do prazo era uma sntese de dois sistemas socioeconmicos. O
primeiro era aquele dos shona, cuja sociedade dividia-se em uma oligarquia
dirigente e camponeses produtores. O segundo, que se sobrepunha ao prece-
dente, era o dos prazeros, reinando como classe dominante sobre os chikunda
(exrcitos de escravos). Em outras palavras, os prazeros perpetuaram o sistema
sociopoltico encontrado por eles ao chegarem  regio do Zambeze. O chefe
africano continuava a exercer as funes tradicionais, porm, "sem deter, a partir
de ento, a autoridade absoluta40", o prazero atribuindo a si prprio o ttulo de
suserano. Nesse sentido, sua relao aparentava-se quela existente entre o chefe
e o subchefe no Imprio Mutapa.
    As relaes de produo nos prazos eram basicamente de ordem feudal.
O chefe africano pagava um tributo em gnero ao prazero: manteiga, estofos
tecidos localmente, mel, tabaco, acar, gado de grande e de pequeno porte,


38   Para o texto integral do tratado, ver J. Coelho, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. V, p. 290-292.
39   A. F. Isaacman, 1972b, cap. 2; M. D. D. Newitt, 1973, cap. 4.
40   A. F. Isaacman, 1969.
768                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




figura 22.6 O padre Gonalo da Silveira que introduziu o cristianismo no Imprio Mutapa em 1560. Foi
morto sob as ordens do imperador quando se propagou o rumor de que Silveira havia conduzido uma misso
de reconhecimento de invasores portugueses. [ Queen Victoria Museum, Harare].
A regio ao Sul do Zambeze                                                    769



marfim e ouro em p41. Na condio de chefe de facto, o prazero adotava as
prticas sociais africanas no domnio da religio e esposava mulheres per-
tencentes s famlias dos chefes, a fim de dissimular sua usurpao do poder
tradicional africano, realar sua imagem junto aos africanos e ultrapassar a
sua principal fraqueza, a saber, a sua falta de legitimidade na poltica africana
tradicional. Tais consideraes conduziram o professor Isaacman a propor
uma teoria da africanizao, segundo a qual o prazo, como sistema fundirio
portugus, foi to transformado e adaptado  situao africana que se tornou
completamente africano42. Esse processo de africanizao teria comeado na
virada do sculo XVII.
    Todavia, a teoria de Isaacman  dificilmente sustentvel quando  sabido que
o sistema do prazo esteve sempre mais ou menos ligado ao capitalismo mercantil.
Como o prprio Isaacman sublinha, os prazeros serviam de intermedirios no
comrcio entre Moambique e a ndia e, finalmente, a Europa, pois, no sculo
XVIII, exportaram sobretudo marfim e escravos para o Brasil e para as ilhas
francesas do arquiplago Maurcio. Assim, o sistema do prazo conservou suas
ligaes econmicas com a Europa e, ento, podemos dizer que a sociedade
dos prazeros guardou, mesmo em sua fase decadente, algo de no africano.
Alm disso, a organizao interna dos prazos comportava certos aspectos que
dificilmente poderamos qualificar de africanos, em especial, a coexistncia do
colono e da chikunda (exrcito de escravos). Mesmo no pice da pretendida
mutao em instituio africana do sistema do prazo, um processo inverso estava
em curso, aquele da desafricanizao das sociedades tradicionais africanas nos
prazos. Como o sistema do prazo atendia a uma demanda interna de escravos,
os prazeros reduziram seus vizinhos africanos  escravido e os vendiam, opri-
mindo colonos e escravos. Da o surgimento de um sistema de aringas, onde a
vida dos colonos foi to perturbada que se tornou tnue a distino tradicional
entre colono e escravo.
    Tem-se afirmado que "no que concerne  administrao cotidiana dos colo-
nos, a posio do mambo ficou praticamente inalterada43".  certo que o mambo
gozava de um certo prestgio e era obedecido por seu povo em virtude de sua
relao com as linhagens fundadoras. Como destaca Isaacman, "quando um
mambo entrava em uma aldeia, todo trabalho parava; ele era acolhido por uma
chuva de aplausos, sinal tradicional de respeito e de deferncia para com um

41   W. F. Rea, 1976, p. 102.
42   A. F. Isaacman, 1972b, p. 56-63.
43   Id., 1969, p. 158.
770                                                           frica do sculo xvi ao xviii



soberano44". Mas isso eram apenas signos exteriores. Na verdade, era o prazero
quem detinha a ltima palavra em matria do julgamento dos litgios e das
desavenas ou da nomeao do prprio chefe africano. O marfim, sobre o qual
o elefante caa, no mais cabia por direito ao mambo, nem tampouco os "pedaos
escolhidos dos outros animais mortos nas terras dele45". Mesmo o direito de
distribuir a terra havia sido usurpado pelo prazero. , pois, impossvel sustentar
que "a chegada do prazero no tenha ocasionado a destruio ou a modificao
do sistema poltico tradicional46". Sem dvida ele no foi destrudo, mas con-
sideravelmente modificado. No momento da primeira fase da colonizao de
Moambique por Portugal, os prazos eram reservas de explorao poltica e eco-
nmica da regio pelos mercadores portugueses, implicando, necessariamente,
uma modificao das instituies polticas e sociais africanas.

      A expanso geogrfica dos prazos
    Os prazos encontravam-se disseminados dos dois lados do rio Zambeze.
Entretanto, havia diferenas notveis entre os do Norte e os do Sul47. Esses
ltimos eram propriedade da Coroa portuguesa (terras da coroa), o que no
era o caso dos primeiros. Os prazeros que estavam  frente das terras da Coroa
deviam cumprir obrigaes devidamente especificadas. Teoricamente, uma terra
da coroa no podia ser detida por mais de trs geraes e apenas podia ser trans-
mitida pelas mulheres: no podia exceder a trs lguas de comprimento e seu
detentor devia pagar um aluguel anual. Os detentores dos prazos do Norte no
eram submetidos a nenhuma dessas condies e adquiriam sua terra em virtude
de um acordo direto com o chefe local. Tais divergncias ocasionaram grandes
diferenas de valor constatadas entre prazos de mesmas dimenses. Alm disso,
era prefervel estar  frente de um prazo do Norte, mais prximo da feira do
Zumbo, bem como, no sculo XVIII, das exploraes aurferas dos bares.
    O sistema do prazo baseava-se no trabalho de diversas categorias de escravos.
O escravo de posto mais elevado era o chuanga48. Ele era "os olhos e os ouvidos"
do prazero e, portanto, suas funes dependiam de sua lealdade. Cada aldeia
tinha o seu chuanga, cuja funo primeira era espionar os chefes tradicionais


44    Ibid.
45    Ibid.
46    Ibid.
47    W. F. Rea, 1976, p. 88-89.
48    A. P. de Miranda, em A. A. Andrade, 1955, p. 266-270.
A regio ao Sul do Zambeze                                                    771



e cobrar taxas e marfim. O prazero contava com ele para recolher informaes
sobre a populao africana local e recrutar na vizinhana chefes africanos des-
contentes. O efetivo da populao africana nas suas terras tinha uma impor-
tncia capital para o prazero, que, de fato, dependia dele para a produo do
ouro, para o comrcio, o tributo, recebido em gnero e, frequentemente, para
suas guerras de expanso territorial. A fim de ter sua autoridade respeitada, ele
recorria a chikunda, cuja funo principal era comportar-se como a polcia da
populao local, velar pelas leis dos prazeros, bem como aniquilar os atos de
rebelio. Em geral, a chikunda podia contar com 20 a 30 homens, nos pequenos
prazos, e at com milhares, nos grandes. A chikunda era dividida em nsaka (gru-
pos de 10 homens) colocados sob o comando de um sachikunda, esse, por sua
vez, sob as ordens de um mukazambo (chefe de escravos). Podia ter at 20 ou 30
chefes de escravos em um prazo, principalmente, encarregados da resoluo dos
litgios e da administrao do mwavi, a prova do veneno destinada a estabelecer
a culpabilidade ou a inocncia de um indivduo acusado de feitiaria.
    Em seu relatrio de 1766 sobre a costa africana, Antnio Pinto de Miranda
descreveu os principais mtodos capazes de permitir a captura de escravos.
Segundo ele, os caadores de escravos roubavam crianas que eram vendidas em
seguida aos comerciantes portugueses, aos mercadores rabes-sualis e aos agen-
tes africanos. No perodo de fome, conseguia-se que pessoas fossem vendidas
como escravos ou empenhadas. Enfim, criminosos reconhecidos como culpados,
prisioneiros de guerra e devedores inadimplentes tinham a mesma sorte49. A
imagem extrada de outras fontes portuguesas  a de uma servido voluntria.
    Todavia, indicaes suficientes nos levam a pensar que alguns deles que
haviam sido vendidos tinham a impresso de "no serem realmente escravos, mas
de servirem tal como um servo europeu que combina um salrio com seu senhor
sem, portanto, tornar-se seu escravo50". Tambm acontecia de terem de vender
suas prprias crianas para pagarem o tributo devido aos prazeros; nesse caso, a
criana s poderia ser resgatada em troca de um escravo. De todo modo, alguns
chefes e colonos no tiveram outra escolha, seno vender seus dependentes.

     O declnio do sistema do prazo
   Por vrias razes, o sistema do prazo declinou ao longo da segunda metade
do sculo XVIII. Primeiramente, a autoridade do prazero era mal delimitada em


49   Ibid.
50   Ibid.
com a estimada autorizao de Longman Group UK Ltd.]
figura 22.7 Os prazos do baixo vale do Zambeze [Fonte: segundo M. D. D. Newitt, 1973, p. 59. Adaptado




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                772
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                                                                                                                       P. Nhambue                                         2 P. Lunguza                      12 P. Caunja           22 I. Canhunbe            32 P. Nhamints                42 R. Muira
                                                                                                                                                                          3 P. Chigogue                     13 P. Mandue           23 P. Nhamacasa           33 P. Nhamadzi                43 R. Mijova
                                                                                                                       1 2                 e                              4 P. Tunta                        14 P. Panamazi         24 P. Capanga             34 Cagosa                     44 A. Inhacolura
                                                                                                                                        ndo
                                                                                                                             n  hao                                       5 P. Mitondo                      15 P. Mussonha         25 P. Banga               35 Gare                       45 R. Onhamacombe
                                                                                                                        P. I
                                                                                                         P. B


                                                                                                                                                                          6 P. Canjanda                     16 Manjase             26 P. Cancope             36 Inhatwa                    46 R. Inhacanangae
                                                                                                                            3
                                                                                                                                                                          7 P. Inhauta                      17 S. Mazuira          27 P. Nhabaruarue         37 Onhinguba
                                                                                                              o



                                                                                                                                     9               P. C
                                                                                                             rom



                                                                                                                                                          h  icod
                                                                                                                                4                                oniu ~   8 P. Chimlando                    18 P. Maruca           28 P.M. Pandue Grande     38 Masara




                                                                                                                                                14 2 11 ne
                                                                                                                                                                     e
                                                                                                              a




                                                                                                                                                       oa
                                                                                                                R. Mula             5    10            16                 9 P. Calipue                      19 P. Chimozi          29 P. Chipasse            39 Inhampuampua



                                                                                                                                               13 M. P
                                                                                                        P.




                                                                                                                P. Degue~           6                   17                10 P. Gabuamanga                  20 P. Bamusi           30 P. Nhampende           40 Mitonda
                                                                                                           In




                                                                                                                                       7                 18 P. Boze  ~
                                                                                                          ha




                                                                                                                                               P.
                                                                                                                                                 1
                                                                                                                                          8            19 P.
                                                                                                             ss




                                                                                                                                               15 20 23 Mar




                                                                                                                                                                                                      o
                                                                                                              an




                                                                                                                                                                                                   ng
                                                                                                                                     e                             abu        P.
                                                                                                                                  as              21 2 24 P. Nhamuchere Bamb
                                                                                                                                                                       e                                                                                                    S. Serra
                                                                                                                  ga




                                                                                                                                                                                               ara
                                                                                                                               im                  2                                  ue                          P.
                                                                                                                                            t e                                                      34              M
                                                                                                                            Ch                                                                                                                                              A. Aringa




                                                                                                                                                                                              C
                                                                                                                                         Te           25     26       P. Millele                                         .P




                                                                                                                                                                                            P. Chindad
                                                                                                                         P.                                27 S. Nha                                                       as




                                                                                                                                                                                           P.
                                                                                                                                                                       re            29                       P.              sa                                            L. Liba
                                                                                                                                                                                                                 C
                                                                                                                                                     e P. Inhalupand nga 28
                                                                                                                                                     ~




                                                                                                                                                                                                Inham acheng
                                                                                                                                                                                                                   hir                                                      M. Monte
                                                                                                                                                 adu                      a e             31                          am




                                                                                                                                                                                                   P. C
                                                                                                                                              . P P. Chivuri               on
                                                                                                                                                                              d 30                                      ba                                                  P. Prazo
                                                                                                                                       P. M P. M                                  a
                                                                                                                                                                        . P ssanh e 32
                                                                                                                                                                                                                           ne




                                                                                                                                                                                                      P. Do
                                                                                                                                                                                                                  P. Zeng




                                                                                                                                                                                                       pend a
                                                                                                                                                    ico           e P                                                                                                       R. Rio
                                                                                                                                                                al P. Ca                                                  a




                                                                                                                                                                                                        ore e
                                                                                                                                                        mb                         u    a
                                                                                                                                                           o .P                 om    m 33
                                                                                                                                                                    P               D nco




                                                                                                                                                                                                            mba
                                                                                                                                         P. D                                                              P. Mata
                                                                                                                                              e  ~
                                                                                                                                               gue                              P.     a                           dza
                                                                                                                                                    ou                ara ngo P. N Chiodze P. Nhiandjiri
                                                                                                                                                        Inh P. M                        P. In
                                                                                                                                                            ans              P.               haca P.            Nhan
                                                                                                                                               P.                enh            M                 ngaiu Sun            dba
                                                                                                                                                  Inh                a       P as                      a go
                                                                                                                                                      ab                  P. . Ma san 45




                                                                                                                                                                                                                                                 e
                                                                                                                                                         urp            P. Inh ss ga                     Carutatenga P. Mahembe




                                                                                                                                                                                                                                               ng
                                                                                                                                              P.             ure          In ab an no                                                   a ta
                                                                                                                                                                                                                              Angom




                                                                                                                                                                                                                                              ra
                                                                                                                                                 Ma                         ha a zo                                   Miando Duati Chiu
                                                                                                                                                                                               Nhamarongo




                                                                                                                                                                                                                                             Mi
                                                                                                                                                     cu                       ca co e                                                                          P. G
                                                                                                                                                        ne                             e                                      o                                     eon
                                                                                                                                                                                 tip                                      Lag         de 43
                                                                                                                                                                                     ~




                                                                                                                                                                                                                                            A.
                                                                                                                                                                         e                                                                                              gue
                                                                                                                                                                   anvoaruca oe ~                                                 L.
                                                                                                                                                                                ~ ~




                                                                                                                                                  oe                                                          35                            In hapandoro




                                                                                                                                                                                                                                                                      ze
                                                                                                                                               az              Inh Inh                    e                       36                    Macutomura
                                                                                                                                                                            Inhamigar i                                37




                                                                                                                                                                                                                                                      Ti ipa so ama
                                                                                                                                          R .M                    P.
                                                                                                                                                                                      uenz
                                                                                                                                                                                                            e              38 39
                                                                                                                                                                                                        Fiz




                                                                                                                                                                                                                                                                    e
                                                                                                                                                          P. Demera . Secan M




                                                                                                                                                                                                                                                        Ch as ac




                                                                                                                                                                                                                                                      R. uca Pia

                                                                                                                                                                                                                                                                 gu
                                                                                                                                                                                                                                                                 e
                                                                                                                                                                       A                                                              40




                                                                                                                                                                                                                                                          M Nh

                                                                                                                                                                                                                                                   A bu ng




                                                                                                                                                                                                                                                              un
                                                                                                                                                                                                     R.




                                                                                                                                                                                                                                                   ba br ia
                                                                                                                                                        P. T




                                                                                                                                                                                                                                                           ac
                                                                                                                                                                                                                                                 Fu am Mar
                                                                                                                                                  ha




                                                                                                                                                                                   Inhaguiro




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                frica do sculo xvi ao xviii
                                                                                                                                                            and




                                                                                                                                                                                                                                                  Ch .D. ri


                                                                                                                                                                                                                                                         M
                                                                                                                                                                                                                 R.
                                                                                                                                               en




                                                                                                                                                      Ga        a                                                  Inh                         M                                  la  a
                                                                                                                                                                                                                                                                                hu arr
                                                                                                                                           Lu




                                                                                                                                                                                                                        am                        uc




                                                                                                                                                                                                                                      42
                                                                                                                                                                                                                           bam                       he                       ac ang         za
                                                                                                                                         R.




                                                                                                                                                  A. de Pindirire                                                               ba                      ng                   C C         tru
                                                                                                                                                                                                     Urire       ~                        41
                                                                                                                                                                                                                                                           a                          Ca Anguase
                                                                                                                                                                                                            Dorue
                                                                                                                                                                                                                           44 and
                                                                                                                                                                                                                                    o             Pras D. Margari
                                                                                                                                                                                                                                                         o Ch          da        a
                                                                                                                                                                                                                                t                  ou T iramba
                                                                                                                                                                                                                            M
                                                                                                                                                                                                                              e                                               ng
                                                                                                         0                       10                    20                                                                                                 amb
                                                                                                                                                                                                                                                              ara           au Catandica
                                                                                                                                                            milhas                                                   Caranga S. Chinolamba                             I nh
                                                                                                                                                                                                    Fukiza Chimolamba
                                                                                                                                                                                                                                   ra
                                                                                                         0                      15                  30    km                           Chivuri       46
                                                                                                                                                                                                           Panda           S angu
A regio ao Sul do Zambeze                                                     773



relao  do chefe africano tradicional51. Frequentemente, o prazero aproveitava
disso para abusar de seu poder e obrigar os camponeses africanos a lhe vende-
rem, com exclusividade, seus produtos agrcolas, a preos artificialmente baixos;
ele os submetia tambm a pesados impostos, os torturava e cometia "centenas de
atrocidades sangrentas e ferozes, e assassinatos cruis, dos quais as autoridades
governamentais nunca ficaram cientes52". Os colonos reagiram violentamente
revoltando-se contra sua autoridade e at mesmo exilando-se. Miranda chama
a nossa ateno para as tentativas de revoltas de escravos e para os mussitos (bas-
ties de escravos fugitivos), por volta do final do sculo XVIII. Essas revoltas e
partidas trouxeram consigo o declnio da produo agrcola, a fome e a seca53.
O prazero e seus exrcitos de escravos contavam, para se alimentarem, com a
produo dos camponeses; a chikunda usava da fora para lhes extorquir vveres,
e os colonos, mais uma vez, deixaram os prazos para procurarem alimentos e
segurana em outro lugar.
    O trfico de escravos foi um outro fator que contribuiu para o declnio do
sistema do prazo. O trfico martimo de escravos conheceu uma recrudescncia
nos anos 1640, aps a ocupao de Angola pelos holandeses54. O abastecimento
de escravos angolanos no Brasil foi interrompido e Lisboa foi obrigada a se
voltar para a frica do Sudeste. Em seguida, nos anos 1730, a implementao
da economia de plantation nas ilhas francesas Mascarenhas criou uma demanda
suplementar por escravos. Entretanto, malgrado todas essas novas demandas,
o nmero de escravos "exportados" desde o Sul do Zambeze era relativamente
modesto em 1752: 300 provenientes do Zambeze e 200 de Sofala. Um missio-
nrio alemo que viveu na regio em 1758-1759 tambm observou que: "poucos
escravos eram enviados alm-mar e tal destino era julgado to abominvel que
os condenados preferiam se suicidar para se livrarem dele55." Todavia, por volta
do fim do sculo XVIII, o trfico de escravos tomou tal amplitude que os pra-
zeros do vale do Zambeze viram nisso uma oportunidade para se enriquecerem.
Organizaram verdadeiras incurses nos territrios chewa, nsenga e manganja,
de onde levaram caravanas inteiras de escravos. Tambm comearam a vender os
escravos de suas propriedades, minando, assim, o prprio fundamento do sistema
do prazo. Entretanto, o restante da regio do Zambeze, salvo o vale, foi pouco


51   Ibid.
52   A. F. Isaacman, 1969, p. 170.
53   A. P. de Miranda, em A. A. Andrade, 1955, p. 266-270.
54   Ibid.
55   W. F. Rea, 1976, p. 117-118.
774                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



tocado pelo trfico de escravos. O declnio dos prazos do Sul do Zambeze foi
antes precipitado pelo crescimento, na segunda metade do sculo XVII, de uma
nova entidade: a dinastia rozwi dos changamire.


      O Imprio Rozwi
   As origens do Imprio Rozwi permanecem obscuras, e o problema complica-
-se pelo fato de o nome changamire, associado ao fundador desse imprio na
segunda metade do sculo XVII, ser mencionado desde o sculo XV56. Foram
encontradas algumas referncias pontuais sobre uma dinastia changamire no
sculo XVI e "a ltima vez que ouvimos falar desses primeiros changamire foi
na ocasio de sua derrota em 1547-154857". Todavia, parece existir um certo
consenso em quatro pontos58: primeiramente, os rozwi eram parte integrante
dos histricos karanga, do Imprio Mutapa, at terem se apartado, no sculo
XVII, e adquirido uma identidade separada; em segundo lugar, "o termo rozwi
primeiramente tem sido empregado para designar uma parte destes histricos
karanga, ligados  ascenso, entre 1684 e 1695, do changamire Dombo I59";
em terceiro, a criao do Imprio Rozwi foi obra desse ltimo; em quarto, a
denominao rozwi, derivada do verbo shona kurozva (destruir), ou foi adotada
pelos "partidrios de Dombo [...] por vaidade60", aps as destruies cometidas
por eles durante suas guerras de conquista, ou lhes foi conferida, como apelido,
por suas vtimas.
   Entre 1684 e 1695, Dombo Changamire aos poucos subiu ao poder no Nor-
deste61, sob condies ainda obscuras. Era um pastor dos imperadores mutapa,
que se rebelara dirigindo-se com seus partidrios, primeiro, ao Estado de Torwa,
no Sudoeste, depois, aos Reinos de Manica e de Uteve, no Leste62. Os comer-
ciantes portugueses, ao mesmo tempo em que se encontravam conquistando
estas regies, foram expulsos do Reino de Maungwe, em 1684, da zona dos
planaltos, em 1693, e do Reino de Manica, em 1695. Refugiaram-se no Zumbo,

56    D. de Alcacova ao rei, Cochin, 20 de novembro de 1506, em Documentos sobre os portugueses em Moam-
      bique e na frica central, 1497-1840, vol. I, p. 393.
57    D. N. Beach, 1980a, p. 228.
58    S. I. Mudenge, 1974a.
59    Ibid.
60    Ibid.
61    D. N. Beach, 1980a, p. 228-231.
62    Ibid.
A regio ao Sul do Zambeze                                                   775




figura 22. 8    O Imprio Rozwi [Fonte: segundo D. N. Beach, 1984, p. 38.]



onde fundaram um novo estabelecimento em 1710, depois, retornaram ao seu
antigo centro de Masekasa, no Manica. Mas j haviam entendido tacitamente
que estavam sob a autoridade dos changamire, chefes supremos rozwi. Assim, os
dirigentes rozwi puderam criar um imprio que se estendia at Buhera, Bocha,
Duma, e as altas terras do Sudeste. No Noroeste, o Imprio era circunscrito
pelo veld arenoso, no Norte, pelos solos sdicos e, no Sudoeste, pelo baixo
veld63. Seu ncleo central, provavelmente, era o mesmo que o dos ndebele, que
lhes sucederam por volta de 1840. Sua capital foi primeiramente instalada em
Danangombe, mas parece que, posteriormente, os imperadores rozwi teriam
vivido por vezes em Khami e em Natetale.



63   Ibid., p. 236.
776                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




figura 22.9 Muro decorativo em Danangombe, cidade provavelmente construda no sculo XVII para ser
um dos centros do Estado de Torwa. Aproximadamente em 1630-1640, tornou-se capital, aps o incndio
que destruiu Khami. Sua populao  estimada em cerca de 2.000 habitantes. [ Queen Victoria Museum,
Harare.]
A regio ao Sul do Zambeze                                                                              777



   Uma narrativa do sculo XIX nos permite imaginar a capital rozwi64, mas,
provavelmente, ela no mudara muito nos sculos XVII e XVIII. Segundo tal
descrio, o palcio real era constitudo de trs grandes casas de pedra, cada
uma delas contendo numerosos cmodos onde o imperador rozwi armazenava
seus bens. As casas eram cercadas por muros feitos de presas de elefante. O
changamire rozwi possua numerosos fuzis, adquiridos juntos aos mercadores
portugueses de Sena. Ele criava "porcos e cachorros de raa"; alm disso, ele
     no come nenhum alimento fresco, apenas comida envelhecida e bebe sozinho o
     seu pombe. Certos dias, ele sai para caar com seus cortesos; outras vezes, envia
     seus caadores. Quando de sua morte, ele  enterrado em sua casa e no h nem
     lamentaes nem luto, pois a partir do dia seguinte ao seu falecimento, suas mulheres
     apresentam aos ancies um novo changamire escolhido por elas, e a primeira esposa
     o coroa com dois toques [...] 65.
   Os rozwi conservaram sua identidade de elite estrangeira em meio a um povo
que partilhava o mesmo totem moyo (corao), tendo sido seus aliados durante
as guerras de conquista das populaes de lngua kalanga, bem como durante
aquelas do Estado de Torwa.

     A administrao provincial
    A fim de preservarem o imprio, os imperadores rozwi empregaram os mes-
mos mtodos que os mutapa. Notadamente, recorreram  atribuio de terras,
ao tributo,  religio e ao treinamento de um exrcito eficaz.
    Distribuam terras aos chefes recentemente instalados e lhes cobravam um
tributo. Tambm manipulavam a classe sacerdotal na ocasio da instalao dos
chefes, das prticas de libao e de diversos cultos dos espritos. Introduziram
um certo nmero de inovaes, em matria de religio e da coleta do tributo.
Sob o reinado dos imperadores mutapa, vimos que os chefes tributrios tinham
o hbito de encaminhar o tributo diretamente ao palcio real. Ao contrrio,
os imperadores rozwi tiveram um sistema de tributo organizado em forma de
pirmide hierrquica, cuja base era a aldeia e o cume, o palcio. O principal
oficial e comandante do exrcito, o tumbare, vigiava a coleta do tributo em todo
o Imprio, despachando brigadas especiais de arrecadadores nas provncias e


64   A. H. U. Lisbon Moc. Caixa 2, Joo Julio da Silva, Sofala, 8 de agosto de 1844. "Memria respectiva a
     villa de Sofala" (1836-1847).
65   A. H. U. Moc. Caixa 7, "Descrio corogrfica do reino de Manhica, seus costumes e leis" (1794).
778                                                          frica do sculo xvi ao xviii



nas aldeias. A arrecadao do tributo era, portanto, uma funo especializada
da administrao geral do Imprio. Certos arrecadadores beneficiavam-se do
apoio do exrcito.
    Os rozwi estabeleceram um sistema religioso completamente diferente
daquele do mhondoro (mdiuns espritas) dos shona do Norte e do Leste. O
culto rozwi de Mwari, a "divindade dos orculos", era fundado na crena em
um deus supremo que se manifestava por intermdio de fenmenos naturais,
tais como o raio ou os terremotos. Os principais celebrantes do orculo Mwari
eram a Boca, a Orelha, o Olho, cuja misso primeira consistia na recolha das
informaes. Os imperadores rozwi manipulavam o culto de Mwari para fins
polticos.
    A eficcia proverbial do exrcito rozwi pede um certo nmero de esclareci-
mentos. No sculo XVIII, os observadores portugueses no cessaram de elogiar
a disciplina e a eficcia que a reinavam; os soldados eram geralmente bem
equipados de arcos e flechas, faces, zagaias, machados de guerra e cacheira. Sua
organizao parecia muito com a do exrcito de Shaka, rei zulu do sculo XIX66.
Como os zulus, os rozwi dividiram seu exrcito em regimentos e adotaram uma
formao de combate em meio crculo. Todavia, em algumas circunstncias,
acontecia-lhes de abandonar esse mtodo. Um caso tpico foi o da batalha de
Maungwe, em 1684, que assistiu a vitria do hbil e astucioso Dombo Chan-
gamire sobre os portugueses, enganados "por seus estratagemas67". O exrcito
rozwi, como os da maior parte das sociedades pr-coloniais africanas, praticava
certos ritos para investir-se de ardor, bravura e confiana, antes da hora da bata-
lha. Os portugueses passaram a acreditar que o imperador rozwi "tinha um leo
mgico que lhe permitia matar quem quer que fosse pelo simples toque68". Sem
dvida, essa crena e outras parecidas desempenharam um papel importante nas
vitrias militares rozwi.
    As qualidades guerreiras desse exrcito podem ser explicadas pelo treina-
mento intensivo ao qual os soldados eram submetidos, comportando exerccios
militares e prticas de tiro ao alvo. As caractersticas do seu treinamento e da
sua hierarquia conduziram certos historiadores a evocarem a organizao e
a terminologia do exrcito romano69. Entretanto, como j indicamos,  mais



66    S. I. Mudenge, 1974b, p. 378.
67    Ibid., p. 379.
68    Ibid.
69    Ibid., p. 377.
A regio ao Sul do Zambeze                                                    779



provvel que elas se assemelhem mais s do exrcito zulu, ndebele e sotho, do
comeo do sculo XIX.
    Uma outra caracterstica do exrcito rozwi, que foi um tanto exagerada,  a
sua lendria invencibilidade. A vitria sobre os portugueses no fim do sculo
XVII  frequentemente citada como exemplo. Mas, se esquece de alocar esses
sucessos militares no contexto do conjunto da presena portuguesa na frica
Central e Oriental ao longo deste perodo. Para sobreviverem ao longo da costa
leste-africana, os portugueses conduziram, ento, um combate que, aproximada-
mente, durou de 1650 a 1729, ano da destruio de sua fortaleza de Mombaa
pelo sulto de Oman70. Este, tendo se instalado na ilha de Pat, lanou infru-
tferas expedies militares contra Mombaa e Moambique, respectivamente,
em 1661 e 1670. Em maro de 1696, uma frota de Mascate, reforada em Pat,
sitiou o Forte Jesus, em Mombaa. O Forte caiu, marcando ento o fim do
domnio portugus na costa leste da frica, ao Norte do Cabo Delgado71. Em
outros termos, o que os changamire rozwi encontraram na regio Sul do Zam-
beze no representava a totalidade da potncia militar portuguesa organizada.
De fato, os portugueses tentavam, ento, restabelecer sua hegemonia na costa
oriental da frica. Por consequncia, nesta poca, a derrota dos portugueses
frente aos rozwi dificilmente pode ser tomada como um indcio da eficcia do
exrcito rozwi.
    Na verdade, o empenho militar luso ao Sul do Zambeze apoiava-se basica-
mente nos prazeros, os quais se encontravam dilacerados por interesses econ-
micos assaz contraditrios. Os prazeros tinham tambm semeado a discrdia na
maioria das sociedades africanas, em particular, nas terras mutapa e no Reino
de Uteve. Se tais fatores forem esquecidos, torna-se fcil exagerar a eficcia da
mquina de guerra dos rozwi, ao se avaliar a glria e a potncia deste Imprio.


     A Economia
     A agricultura
    Os principais setores de atividade nas sociedades shona eram a agricultura,
a criao de animais domsticos, a colheita, a pesca e o trabalho dos metais, aos
quais se juntava o comrcio longnquo e inter-regional. Os shona cultivavam


70   C. R. Boxer e C. de Azevedo, 1960.
71   Ibid., G. S. P. Freeman-Grenville, 1963, p. 141-142.
780                                                         frica do sculo xvi ao xviii



trs cereais principais: o milhete vermelho, o milhete perolado e xerfilo, alm
de diversas variedades de sorgo72. A unidade de produo era constituda pela
famlia restrita e no h provas incontestveis de que a diviso do trabalho era
estritamente estabelecida em funo do sexo, como certos autores tm dado
a entender73. Certos testemunhos existentes nos fazem pensar que a situao
variava de uma sociedade para outra. Em algumas, como o observou Barber, "os
homens adultos da comunidade eram encarregados da construo dos abrigos,
do arroteamento e da preparao das novas terras74", ao passo que as mulheres
semeavam e cultivavam os campos. Juntos, homens e mulheres coletavam. Em
outros termos, os homens cumpriam as tarefas mais pesadas do ciclo agrcola,
deixando as mais leves para as mulheres; tudo isso era mais animado por um
esprito de cooperao do que por uma estrita diviso do trabalho. Todavia, no
quadro de outras sociedades, como a dos hlengwe do baixo veld, havia uma certa
diviso do trabalho: os homens adultos consagravam o essencial de seu tempo
 captura da caa, ao passo que os jovens cuidavam do gado e as mulheres cul-
tivavam os campos.
    A estao de sulcagem ia de setembro a novembro e o instrumento de base
era a enxada. Dados os limites inerentes a esse instrumento agrcola, era preciso
praticar a agricultura itinerante, ou seja, abandonar a terra exaurida e arrotear
novas. Era preciso, ento, "arrotear a mata, queim-la e deixar as cinzas fer-
tilizarem a terra75". Repreendeu-se essa tcnica da queimada por destruir o
solo. Porm, como lorde Hailey observou no seu African survey, no se tratava
"de uma tcnica brbara, mas de uma concesso feita  natureza do solo76." A
agricultura shona, como a maioria das economias agrrias pr-coloniais, estava
adaptada s condies locais e, portanto, adotava numerosas tcnicas da agri-
cultura itinerante.
    O perodo de 1500-1800 foi o da introduo progressiva, ao Sul do Zam-
beze, de novas culturas importadas da Europa e da sia, sobretudo, ao longo
da costa e nas regies onde os portugueses estavam instalados. Em Sofala e no
Baixo Zambeze, na regio situada entre o Tendaculo e o Luabo, os camponeses
africanos cultivavam o arroz e os inhames, sem que jamais tais produtos tivessem



72    D. N. Beach, 1977, p. 41.
73    W. J. Barber, 1964, p. 46.
74    Ibid.
75    Ibid., p.45.
76    Ibid., 1964, p. 45.
A regio ao Sul do Zambeze                                                           781



constitudo a base de sua alimentao77. Tambm cultivavam a cana-de-acar
e comiam esse produto em vez de produzirem o acar, pois no possuam
nem os conhecimentos nem o material necessrio para isso. Do mesmo modo,
plantavam numerosas rvores frutferas, da ndia e de Portugal, que lhes davam
figos, abacaxis, goiabas, mamo e laranjas; tambm colhiam meles, pepinos,
batatas-doces e limes. Alguns desses frutos cresciam espontaneamente na mata,
como observou Joo dos Santos em 1596:
         Em dois lugares ao longo do rio Sofala, h duas moitas cheias de laranjeiras e
     de limoeiros que no pertencem a ningum e das quais podemos colher os frutos
     livremente; os limes so to abundantes que os cafres [africanos] enchem barcos
     inteiros disso. Descem o rio para vend-los por quase nada, em Sofala. Os habitantes
     da fortaleza os salgam em barris e em potes que so enviados  ndia, onde os limes
     so muito estimados e consumidos com arroz78.
    Portanto, parece que a cultura destes frutos exticos fora principalmente
estimulada pela demanda dos comerciantes estrangeiros. Outras indicaes nos
fazem pensar que, em abril e maio, se cultivava o trigo no Reino de Manica.
Segundo o padre Gaspar Macedo, o rendimento era bom, pois um s gro de
trigo dava "cinquenta espigas79". Desde 1778, ter-se-a comeado a cultivar o
amendoim no Manica80.
    Alm dos cereais e dos frutos, "dois legumes secos eram cultivados em todos
os lugares, notadamente, o voandzou ou ervilha bambara (Voandzeia subterranea)
e o nib (Vigna unquiculata) 81". Como j havamos indicado, nenhuma das cul-
turas importadas da Europa ou da sia jamais constituiu o regime de base dos
shona. Por outro lado, o milho, introduzido na regio do Sul do Zambeze, no
decorrer do sculo XVIII, aos poucos alcanou o milhete e o sorgo, tornando-se,
no sculo XX, um dos alimentos de base dos shona, sobretudo nas cidades.

     O Nyanga
  A economia agrria das regies do Nyanga e do baixo veld apresentava
numerosas diferenas em relao  do planalto. As terras altas do Nyanga eram


77   J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 269.
78   Ibid., p. 190.
79   G. Macedo, 1890, p. 150.
80   J. Baptista Moutaury, em A. A. Andrade, 1955, p. 362.
81   W. G. L. Randles, 1979, p. 49.
782                                                          frica do sculo xvi ao xviii



caracterizadas pela presena de solos pobres e de grandes vertentes. A maior
parte do Norte do Nyanga era constituda por terraos, feitos de muretas de
pedra secas, contendo cerca de um metro de altura. Eram construdos no flanco
da encosta para "simplesmente conservar o solo e se livrar das pedras82". Em
outras palavras, a construo de terraos era uma forma de vencer um meio
precrio, empregado, ao menos, por trs sculos, at 1880.  possvel que esses
mltiplos terraos "correspondam, na verdade, a numerosos anos, ao longo dos
quais os camponeses praticaram uma agricultura de pequena escala83". Alguns
indcios nos levam a pensar que se recorria a um pouco de irrigao, mas unica-
mente de forma acessria, pois a regio do Nyanga se beneficiava, geralmente,
de uma boa pluviosidade anual.  mais provvel que, na estao seca, a irrigao
das plantaes de legumes, milho e de bananas, atualmente ainda praticada nessa
regio, venha de uma tradio agrcola que remonta ao sculo XVIII. Deste
modo, o corte de terraos abaixo das vertentes e a prtica das culturas de acordo
com as curvas de nvel nos vales da regio do Nyanga, provavelmente tambm
vm desta tradio. Segundo Roger Summers, os tonga-sena praticavam esse
tipo de agricultura antes de serem absorvidos pela sociedade manica, no sculo
XVIII84.

      O baixo veld
    A economia do baixo veld era diferente. Aqui, uma populao local, os
hlengwe, dedicava-se principalmente  caa,  colheita,  pesca e, de maneira
secundria,  agricultura85. Visto a fraqueza das precipitaes anuais, a colheita
desempenhava, e desempenha ainda hoje, um papel importante na economia
da regio. Os frutos colhidos eram principalmente aqueles dos quais se obti-
nham bebidas, notadamente, o nkanyi (Sclerocaryacaffra); o mahanga (Hiphaene
natalenis), cuja seiva era usava na fabricao de um vinho inebriante chamado
njemani ou chemwa; a rvore do kwaka (Strychnos madagascariensis) e o fruto do
baob. Eles eram colhidos pelas mulheres e crianas, ao passo que os homens
caavam animais de grande porte. Os primeiros matavam ratos e apanhavam
larvas prateadas nas rvores, bem como gafanhotos.



82    J. E. G. Sutton, 1983, p. 12.
83    Ibid.
84    Ibid.
85    J. H. Bannerman, 1981.
A regio ao Sul do Zambeze                                                      783



    Os hlengwe sempre foram excelentes caadores. A propsito do baixo veld,
muito rico em numerosas espcies de animais, fala-se que era "o paraso dos
caadores86". A pesca era igualmente uma atividade importante. Os rios do baixo
veld transbordavam de peixes, o que, alis, continua acontecendo at hoje. De
mesmo modo que a caa, a pesca era praticada principalmente pelos homens
durante todo o ano. O meio mais eficaz para se conseguir uma grande quantidade
de peixe consistia na utilizao de redes de canio, engenhosamente colocadas
na confluncia dos regatos. Tambm se pedia aos jovens e, s vezes, s mulheres
que marchassem nas guas, rio abaixo, para obrigar o peixe a refluir s redes.
Entretanto,  preciso notar que a diferena entre a caa e a pesca, praticadas pelos
hlengwe e pelo resto dos povos que viviam na regio do Sul do Zambeze neste
perodo, era apenas uma questo de grau, pois essas duas atividades eram exerci-
das tanto nos planaltos quanto nos reinos costeiros. A propsito da pesca, no fim
do sculo XVI, Joo dos Santos notou que "no inverno, quando o rio Sofala sobe,
frequentemente acontece de ele sair de seu leito e inundar os campos; os poos
deixados por ele ao se retrair ficam ento cheios de peixes87". Em seguida, ele
descreve os diferentes tipos de peixes: a regio do Nyanga era, e at hoje continua
sendo, reputada por sua truta. Tanto no passado quanto no presente, pescava-se
em todos os cursos de gua, grandes ou pequenos, no Sul do Zambeze.
    Tal como no caso da pesca, os hlengwe do baixo veld no eram os nicos a
caarem para garantir a sobrevivncia. Em diversos lugares do Imprio Mutapa,
os homens perseguiam inmeras espcies de animais, tais como o leo, o tigre,
o leopardo, o rinoceronte, o elefante, o bfalo, a vaca selvagem, o alce e o gnu,
para citar apenas alguns. Podia-se matar qualquer animal para a alimentao. Na
mata, nas cercanias dos campos, encontravam-se centenas de galinhas-d'angola.
Os caadores profissionais utilizavam armadilhas e armas tradicionais (lan-
as, cacetes, arcos e flechas) para matar suas presas. Todavia, com a chegada
das armas de fogo, introduzidas pelos portugueses no incio do sculo XVI,
tornaram-se mais eficazes.
    Seria incorreto dar uma falsa impresso perpetuando o "mito segundo o qual
os hlengwe eram apenas caadores88". A capacidade de diferenciar vrios tipos
de solo mostra que, tal como os shona, localizados alhures, no Sul do Zambeze,
eles atribuam a mesma importncia  agricultura. Os solos eram diferenciados



86   Ibid.
87   J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 264.
88   J. H. Bannerman, 1981, p. 19.
784                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



basicamente em funo de sua propenso para reter a umidade89. Os solos are-
nosos sobre os quais construam suas habitaes eram chamados de nthlava.
Esse tipo de solo era propcio para a cultura do pepino, da abbora, do nib,
do voandzou e dos amendoins. Nele tambm cultivavam o milho e o sorgo,
porm nos vales ou nas cercanias, onde, dada a irregularidade das precipitaes,
a abundncia de orvalho favorecia consideravelmente o crescimento do sorgo.
Os hlengwe chamavam os solos baslticos de tsovolo. Era um tipo de solo frtil
no qual cultivavam o milho e vrios tipos de legumes. Em relao aos outros
tipos de solo, em uma regio irrigada de forma irregular, este possui a vantagem
de reter a umidade por muito tempo aps as chuvas fortes  elemento essencial
para a cultura do milho, por precisar muito de gua. Numa regio irregularmente
regada, parece que nunca faltaram terras aos hlengwe e que a irregularidade das
precipitaes fora o nico problema encontrado. Nos bons anos, os camponeses
produziam excedentes de cereais que, "talvez nem sempre tm sido o suficiente
para atravessarem os anos das vacas magras, mas certamente tm contribudo
para melhorar a situao90".
    Opinies diversas vm sendo expostas quanto  eficcia das economias agr-
rias das sociedades shona entre 1500 e 1800. Em 1569, o padre Monclaro
repreendeu os camponeses africanos por "sua falta de previdncia, pendendo-os
para o desperdcio, e sua tendncia para rapidamente dispensar o fruto das novas
colheitas nas festas e bebidas91". Todavia, em 1648, Antnio Gomes observou
que eles produziam excedentes que duravam at o ano seguinte; alm disso,
"nunca viam o fundo de seus cofres de gros92". Inversamente, em 1667, Manuel
Barreto sustentou que os africanos "no tem e no podem ter a menor proviso
de um ano para o outro93". Em 1696, Antnio da Conceio observou que, no
Imprio Mutapa, as pessoas
      tm sua prpria propriedade rural e o rei tem uma propriedade cultivada por seus
      cafres, estendida ao infinito e da qual, s vezes, ele cuida pessoalmente, mas de
      maneira solene. Ele recolhe tantos alimentos que pode viver na abundncia e, at
      mesmo, no luxo, tal como suas mulheres.




89    Ibid., conversa com minha me, Pertenia Kwatini Bhila (cerca de 67 ou 68 anos), 19 maio 1985, Borrowdale.
90    J. H. Bannerman, 1981, p. 19.
91    Padre Monclaros, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 231.
92    A. Gomes, 1959, p. 220.
93    M. Barreto, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 478.
A regio ao Sul do Zambeze                                                    785



    Aprendemos igualmente com o padre Julio Csar, recebido no palcio mutapa
em 1620, que o imperador atribua muita importncia  agricultura. Relatou que
os mutapa no menosprezavam os agricultores, ao contrrio: ele nos mostra ter
se despedido rapidamente, porque o imperador queria "estar disponvel para suas
atividades agrcolas, pois era a poca das semeaduras94".
    Tais contraditrias declaraes dos observadores portugueses sublinham
claramente a necessidade de se atentar s datas e aos lugares ao se discutir a
eficcia da agricultura pr-colonial a Sul do Zambeze. Os testemunhos supra-
citados, que se aplicam a alguns anos bem precisos e a determinados lugares da
regio, no poderiam justificar as generalizaes. O problema da fome e da seca
tambm deve ser alocado em seu contexto temporal e geogrfico. Como mos-
traremos mais adiante, as guerras de agresso, conduzidas por Portugal ao longo
do sculo XVII, provocaram a carestia de alimentos, obrigando os camponeses
a abandonarem suas terras. Possivelmente, Barreto se refere a um lugar do reino
de Maungwe onde, em 1667, os portugueses e os rabes-sualis disputavam a
supremacia comercial. Do mesmo modo, o autor annimo do sculo XVIII pen-
sava sobretudo na situao do Reino de Manica ou, provavelmente, na fome que
castigou uma certa regio do reino.  necessrio nos determos um pouco sobre o
tema das frequentes carestias de alimentos e da imprevidncia dos camponeses
africanos,  medida que as narrativas portuguesas sobre esse tema  do perodo
entre 1500 e 1800, e mais tarde  tm conduzido certos historiadores, como
David Beach, a abusarem das generalizaes sobre a fome, a Sul do Zambeze,
antes da (e durante a) colonizao.
    Beach qualificou a agricultura shona pr-colonial de "til, porm perigo-
samente esttica95". Ele explica essa situao pelo fato de no existir "nenhum
mecanismo de seleo das culturas e dos solos, nem nenhuma capacidade de
prever a shangwa (fome), a fim de evitar estes desastres, quer eles sejam causados
pelo clima, pelos gafanhotos ou por outros flagelos96". Alm disso, o historia-
dor afirma que os celeiros para os gros no podiam "conter suficientemente
os cereais para nutrir a populao por todo o perodo das shangwa mais ter-
rveis97". Primeiramente,  preciso notar que as prprias sociedades shona no
eram "estticas". Elas mantinham contatos entre elas e com outras sociedades
africanas vizinhas; com os rabes-sualis, desde o sculo X, at mesmo antes,


94   A. da Conceio, p. 66.
95   D. N. Beach, 1984, p. 40.
96   Ibid.
97   Ibid.
786                                                          frica do sculo xvi ao xviii



e com os portugueses, a partir do incio do sculo XVI. Entre os shona esses
contatos significam uma vontade de modificar suas condies de vida material
atravs do escambo e da troca. Como j notamos, os camponeses shona adota-
ram novas culturas durante todo o perodo compreendido entre 1500 e 1800.
Por consequncia, dificilmente se pode falar de uma economia agrria esttica
na poca pr-colonial. Alis, quanto  natureza esttica das economias agrrias
africanas, os mitos j foram desmentidos por A. G. Hopkins, no caso da frica
do Oeste. Como ele observou com toda razo "no perodo pr-colonial, a hist-
ria agrcola  feita antes de inovaes que de estagnaes. O postulado de uma
economia esttica, congelada desde a origem da histria africana,  dificilmente
defensvel e o eterno conceito de sociedade `tradicional' deve ser manejado
com precauo ou, melhor ainda, decididamente abandonado. Ainda que os
contatos com outros continentes tenham ocasionado a introduo de algumas
ervas daninhas, como a grama-de-ponta,  indubitvel que, afinal de contas,
a frica do Oeste beneficiou-se largamente com a importao de sementes e
plantas. As novas culturas ofereceram aos africanos os meios para melhorarem
a alimentao, para reduzirem o risco da fome e para a sobrevivncia de uma
populao mais numerosa98".
    A ideia de que os camponeses shona eram vtimas impotentes das secas e
das carestias de alimentos tornou-se obsoleta. O Dr. Richard Mutetwa mostrou
que, por exemplo, o povo duma, no Sudeste, "dispunha de vrios mtodos para
prever as secas99". Tal povo tambm possua vrios meios de lutar contra a fome,
notadamente, o escambo do sal, da carne, de presas de elefante, tapetes, potes,
cestos, lanas, flechas ou joias, em troca de cereais ou, s vezes, a mendicncia.
No perodo de escassez, os shona tambm conseguiam cereais pelo sistema
chamado de mukomondera100, o qual lhes permitia tomar emprestados os cereais,
sendo entendido que os reembolsariam sem juros na boa estao seguinte. Em
situaes difceis, um homem empenhava sua filha. No se deve esquecer que os
outros setores de produo, em especial, a caa, a pesca e a colheita, no haviam
desaparecido aps a introduo das novas culturas; encontravam-se adaptados
 nova economia agrria, permitindo-lhes consideravelmente a lutarem contra
a seca e a fome.
    Em seu estudo, Mutetwa tambm mostrou de maneira convincente que a
estocagem dos gneros alimentcios no implicava srios problemas, pois o pro-

98    A. G. Hopkins, 1983, p. 31.
99    R. G. Mutetwa, 1976, p. 138-239.
100 Ibid.
A regio ao Sul do Zambeze                                                       787



duto das trs culturas bsicas dos shona, a saber, o milhete, o milhete perolado
e o sorgo, podia perfeitamente ser estocado por mais de trs ou quatro anos101.
Observando que a umidade aumentava nos cofres de gros na estao das chu-
vas, o que fazia apodrecerem os cereais ou favorecia a penetrao das brocas,
Beach no se deu conta o suficiente das precaues tomadas pelos camponeses
shona para preservarem seus cereais. De fato, seus cofres eram cuidadosamente
estucados "no interior e hermeticamente selados102" para impedir qualquer
entrada de ar. Eram colocados sobre rochedos descobertos para ficarem fora
do alcance das trmitas, ou, se no havia isso, sobre potes suficientemente altos
para que a presena das trmitas fosse detectada antes que tivessem tempo de
causar estragos. Talvez fosse arriscado, como Mutetwa justamente o observou,
"conferir muita importncia aos anos da seca, em detrimento dos anos normais
ou acima da mdia, e, pode-se acrescentar, sem levar em conta datas e lugares103".
Se traarmos paralelos com aquilo que se passava alhures na frica, quanto 
eficcia da agricultura pr-colonial, somos levados a pensar que no mais se
justifica falar da incapacidade da agricultura shona em responder s necessidades
dos camponeses. Como sustentou Walter Rodney, na maioria das sociedades
africanas, a cultura das terras intensificou-se, no obstante as peridicas carestias
de alimentos104. Em um outro contexto histrico, Miracle observou: "Temos
muito que aprender sobre as economias tribais da frica tropical, porm cada
vez  mais manifesto que devemos rever um certo nmero de esteretipos atuais
a respeito delas105". Tal advertncia sobre a agricultura camponesa pr-colonial 
mais vlida para a regio dos shona do que para qualquer outra parte.

    A criao de animais domsticos
   A criao de animais domsticos, notadamente de carneiros, cabras e bovinos,
era um componente importante da produo, tanto no Imprio Mutapa quanto
no Imprio Rozwi. O peso econmico dos bovinos nas sociedades africanas
tem fortemente atrado a ateno dos historiadores da economia. Estes animais
forneciam a carne, o leite e o adubo, que eram utilizados ou vendidos pelos



101 Ibid., p. 236-237.
102 Ibid.
103 Ibid.
104 Ibid., p. 240-241. Apud R. G. Mutetwa, 1976
105 Ibid., p. 241. Apud R. G. Mutetwa, 1976
788                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



agricultores106. A posse do gado preenchia uma funo social, pois conferia ao
homem um certo estatuto social. Quanto mais importante fosse seu rebanho,
mas ele era respeitado "no por seu apego cego a dados valores, mas por sua
aptido, em gerenciar um recurso de grande importncia107". Em uma regio
comumente exposta a graves secas, os bovinos "tinham a vantagem de durarem
por muito mais tempo do que os estoques de cereais108". Talvez seja essa a razo
de o valor da troca ter sido expresso em cabeas de gado nas sociedades shona.
Documentos portugueses sublinham o papel central dos bovinos na economia
dos imprios Mutapa e Rozwi; seus amplos rebanhos encontravam-se, em par-
ticular, no alto veld, onde no eram ameaados pela mosca ts-ts109. Tudo leva
a crer que os dirigentes mutapa e changamire rozwi transumavam o gado. Em
geral, a transumncia era composta de trs fatores110. Primeiro, importava o
tamanho do rebanho: quanto maior ele fosse, mais os proprietrios necessitavam
de terras. As ameaas que pesavam sobre o rebanho, da poca do Grande Zim-
bbue (sculo XIII-XV) at o fim do XVIII, impeliam os pastores a empreender
um deslocamento anual entre o alto e o baixo veld durante a estao seca, a fim
de procurarem os melhores pastos111. Conduziam seus rebanhos no alto veld
no incio da estao das chuvas, pois, alhures, tal poca fazia-se acompanhar da
doena trazida pela mosca ts-ts. Em seguida, a transumncia dependia do grau
de concentrao dos animais em um mesmo ponto. A gua e o sal eram raros
e os pastos, durante a estao seca, eram frequentemente pobres e pouco abun-
dantes no alto veld. Era preciso mais uma vez deslocar o rebanho para o baixo
veld. Em outros termos, a distribuio natural dos alimentos de base determi-
nava os deslocamentos sazonais do gado. Enfim, a transumncia baseava-se em
objetivos comerciais. De fato, os cultivadores e os pastores necessitavam de seus
respectivos produtos e a transumncia lhes fornecia a oportunidade de trocar
produtos animais por cereais. Por conseguinte, s vezes essa situao gerava a
exploso de conflitos entre pastores e cultivadores, quando o gado destrua as
culturas. Esse fenmeno ocasionou, por sua vez, um deslocamento dos locais de
transumncia ou de migrao para zonas completamente novas e foi assim que
os pastores tornaram-se colonos.


106 W. J. Barber, 1964, p. 47.
107 A. G. Hopkins, 1983, p. 42.
108 D. N. Beach, 1984, p. 42.
109 W. G. L. Randles, 1979, p. 51.
110 Para a teoria geral da transumncia, ver A. G. Hopkins, 1983, p. 41.
111 Para a prtica da transumncia no Sul do Zambeze, ver P. S. Garlake, 1978.
A regio ao Sul do Zambeze                                                                           789



    Beach cuidadosamente documentou a maioria desses movimentos de popu-
lao a partir do final do sculo XVII e os novos estabelecimentos criados no
Norte, no Leste e no Sul do planalto shona112. Todavia, ele explicou tais fen-
menos por meio do fator demogrfico.  possvel que as presses demogrficas,
por ele destacadas, tambm estivessem relacionadas  influncia dos rebanhos
de bovinos e  penria dos pastos. Jeffy Guy atraiu nossa ateno para uma
situao anloga no Zululndia, no ltimo decnio do sculo XVIII, e sobre a
importncia da ecologia, do clima e da vegetao para a histria113.
    Poder-se-ia dizer que a prtica da transumncia permitiu aos mutapa e aos
rozwi a posse de grandes rebanhos. Na verdade, havia dois tipos de raas bovinas:
a raa pequeno porte, criada no Nordeste e na regio montanhosa do Nyanga,
e a raa de porte maior, encontrada no Noroeste114. Contudo, a arqueologia
e os documentos portugueses no nos fornecem muitas informaes sobre a
gesto do gado e sua distribuio entre o sculo XVI e o final do XVIII. As
fontes portuguesas sempre mencionam o fato de o Sul do Zambeze ser "rico
em bovinos e outros animais", e que os africanos "cozinhavam a carne no leite e
no na gua115". No ltimo caso, trata-se de um exagero, no obstante; sublinha
a abundncia do gado na regio. Um certo nmero destas cabeas de gado era
trocado por estofos ou por outros artigos exticos. Assim, no sculo XVI, os
torwa de Khami comumente exportavam bovinos para o vale do Zambeze116.
    Vrios testemunhos atestam o papel central da criao de bovinos na econo-
mia rozwi, entre o sculo XVI e XVIII. No incio de 1500, Diogo de Alcacova
notou que um tributo de 4.000 vacas sem chifres fora pago a um soberano
mutapa por um monarca do Butwa, no Sudoeste117. Em 1569, o padre Mon-
claro comparou o tamanho dos bovinos do Butwa com o dos grandes bois da
Frana118. No sculo XVI, o padre Joo dos Santos atribuiu o fraco volume da
produo de ouro ao fato de os camponeses africanos dispensarem muitos esfor-
os na lida com seus rebanhos, "que se encontravam em grandes nmeros nestas




112 D. N. Beach, 1980a, cap. 8; J. Guy, 1979; J. M. Gray, 1979, cap. I
113 D. N. Beach, 1980a, cap. 8.
114 W. G. L. Randles, 1979, p. 51.
115 A. Gomes, 1959, p. 189.
116 D. N. Beach, 1984, p. 42.
117 Diogo de Alcacova ao Rei, Cochin, 20 de novembro de 1506, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. I, p. 64.
118 Padre Monclaro, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 237.
790                                                                frica do sculo xvi ao xviii



terras119". Em 1648, Antnio Gomes relatou, com um certo exagero, que as vacas
do Butwa eram to grandes que era preciso estar em p para ordenh-las120.
    Alm dos bovinos, os camponeses africanos criavam cabras, carneiros e gali-
nhas, que eram consumidos ou trocados. Como Joo dos Santos constatou no
Uteve, em 1595:
          A carne que eles consumiam era a de galinhas, frequentemente inumerveis.
      Os cafres criavam-nas para vend-las aos portugueses. Em Sofala davam-lhes doze
      galinhas por um estofo de algodo preto, que l vale dois tostes, no mximo, e se o
      comprador se desloca at eles, subindo o rio, do dezesseis ou dezoito galinhas pela
      mesma pea de estofo. H tambm muitos porcos domsticos criados nas casas, mui-
      tas cabras, vacas e uma abundncia de carnes de caa, de porcos selvagens [...] 121.


      A explorao dos metais: o ferro e o cobre
    Grandes quantidades de ferro, de cobre e de chumbo foram extradas nos
imprios Mutapa e Rozwi, embora os textos disponveis deem a impresso de
que os camponeses africanos s se interessavam pela extrao do ouro. Ora,
eis o reflexo dos interesses dos comerciantes portugueses e rabes-sualis. Os
camponeses africanos extraam o ferro, utilizando-o para fabricar objetos, como
enxadas, zagaias e machados122. Os njanja de Wedza eram reputados fabricantes
de enxadas123, que eram vendidos at o Manica, em Bocha, em Bubera e no pas
Ndau. Tambm exploravam o cobre, com o qual faziam braceletes, usados no
brao e no tornozelo, por homens e mulheres. Testemunhos do sculo XVIII
nos fazem pensar que o cobre provinha de Duma, onde era encontrado em
abundncia. Certamente, seus habitantes no produziam grandes quantidades
de cobre, porm  provvel que exportassem o pouco do minrio extrado: um
levantamento geolgico de 1952 mostrou que quatro quintos da produo total
do cobre do Zimbbue provinham da124. Entretanto, Urungwe, no Noroeste,
tambm produzia quantidades considerveis125.



119 J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 274.
120 A. Gomes, 1959, p. 197.
121 J. dos Santos, op. cit., p. 190.
122 A. Gomes, 1959, p. 186-188.
123 J. M. Mackenzie, 1975.
124 H. H. K. Bhila, 1982, p. 40.
125 P. S. Galarke, 1983, p. 27.
A regio ao Sul do Zambeze                                                     791



    O sal
   A indstria do sal ocupava um lugar de grande importncia na economia
shona, entre 1500 e 1800, sobretudo nas regies que no se beneficiavam sufi-
cientemente com as chuvas para desenvolver as atividades agrcolas e a criao
de animais domsticos, como as do curso mdio do Save, onde os trabalhadores
das salinas trocavam sal por cereais126. Essa regio era igualmente rica em argila,
que fora aproveitada pelos habitantes do local para se especializarem na fabrica-
o de cermica. Como no caso do sal, os potes eram trocados por cereais, em
particular durante os anos de fome.

    O tecido
   A produo de tecidos era uma outra importante atividade econmica para
os camponeses shona ao Sul do Zambeze. A cultura e a tecedura do algodo
estavam em florescncia, sobretudo na margem oriental do Zambeze127. Tal
cultura tambm era encontrada, em menor escala, no Nordeste do alto veld. Os
shona teciam este algodo, bem como a cortia do baob. A regio cotonicultora
do baixo veld era complementar a do alto veld, onde os bovinos abundavam. Isso
determinou largamente as correntes de trocas inter-regionais.

    O ouro e a prata
   A existncia de jazidas de prata e sua explorao, do sculo XVI ao XVIII,
suscitaram mltiplas conjecturas da parte das autoridades portuguesas, tanto
em Lisboa quanto no Sul do Zambeze, mas, ao longo do perodo estudado, e
mesmo depois, nenhuma mina de prata foi localizada na regio. Na verdade, a
prata era um subproduto da explorao das jazidas de ouro, abundantes no alto
veld, no Butwa, no Sudoeste, e em Manica e no Uteve, no Leste.
   No sculo XVI, a quantidade de ouro presente na regio do Sul do Zam-
beze foi assaz exagerada pelos portugueses. Em 1633, Gaspar Macedo ouviu
de camponeses africanos que ningum, at ento, tinha cavado para encontrar
ouro no Estado de Torwa, pois bastava apanh-lo nos cursos de gua e nas
angras e troc-lo por estofos na feira de Masekesa, no Manica. Disseram-lhe
que o tesouro do rei consistia em "barras de ouro, cada uma pesando sete ou



126 H. H. K. Bhila, 1982, p. 39.
127 A. Gomes, 1959, p. 203 e 222.
792                                                         frica do sculo xvi ao xviii



oito arrteis128". Falava-se tambm que "todo o `Mocaranga' no era mais do que
uma vasta mina de ouro onde bastava cavar para encontrar o metal precioso129".
Enfim, apesar desses exageros,  fato que o Imprio Mutapa continha importan-
tes quantidades de ouro e, o que quer que tenham dito, os portugueses tiveram
suas esperanas amplamente realizadas neste domnio, do incio do sculo XVI
at a segunda metade do XVII.
    As referncias histricas  explorao mineira dos shona nos fazem pensar
que ela era sazonal. Todavia, no Reino de Manica, a Leste, a extrao do ouro
era feita durante todo o ano, basicamente porque l os rios eram (e ainda so)
perenes130.  possvel que os camponeses tenham prospectado o ouro para satis-
fazer a demanda da aristocracia por produtos com um valor mercantil, ou para
o seu prprio proveito131.
    Os shona limitavam a explorao mineira aos meses de agosto, setembro e
outubro, a fim de concili-la com o arroteamento dos solos132. A agricultura era
"a matriz de todas as outras atividades econmicas indgenas": um campons
podia combinar a agricultura com outros empreendimentos econmicos, como
o comrcio ou a explorao aurfera, que continuavam sendo atividades subsidi-
rias. Frequentemente, a venda do excedente dos produtos agrcolas financiava
outros projetos. Uma outra razo da explorao mineira acontecer durante os
meses secos do ano provinha do fato de os mineradores poderem cavar poos
relativamente profundos, pois era a poca da baixa do lenol fretico. Alm
disso, era ento fcil encontrar os depsitos aluviais do vero precedente, antes
que eles fossem levados pelas inundaes da estao seguinte.
    As operaes mineiras eram calcadas no modelo predominante em grande
parte da frica Austral. As ferramentas de base utilizadas para quebrar e extrair
o minrio eram o martelo grande e a picareta133. Esse ltimo permitia aumen-
tar as fissuras e as cavidades; utilizavam-no tambm como uma cantoneira
para rebentar a rocha. Os mineradores serviam-se tambm de uma espcie de
alavanca, constituda de um pedao de ferro inserido em uma pesada cacheira,
provavelmente engastado como o de uma enxada e utilizado como uma pica-



128 G. Macedo, 1890, p. 151.
129 A. Gomes, 1959, p. 186.
130 H. H. K. Bhila, 1982, p. 46.
131 P. Sinclair, 1977.
132 I. R. Phimister, 1976, p. 5.
133 Ibid.
A regio ao Sul do Zambeze                                                                    793



reta134. Tambm utilizavam ps para juntar, sem riscos de perder uma parte
do valor, todos os estilhaos da rocha destruda. O fogo era empregado para
explorar o ouro do veeiro, como podemos deduzir atravs das grandes quan-
tidades de carbono de madeira encontradas por Roger Summers em muitas
minas antigas135. Em uma delas, ele tambm descobriu espcies de cubas con-
tendo carvo, posicionadas verticalmente diante da veia. Segundo Summers,
tratava-se de tipos de fornalhas que serviam para concentrar o calor contra a
parede de pedra. Resfriando rapidamente a rocha quente, os shona conseguiam
estilha-la. Controlavam o fluxo de gua fria, que era despejada com a ajuda
de um vaso de argila, concebido especialmente para obter um estilhaamento
mximo da rocha. Em seguida, os mineradores usavam um recipiente de madeira
para trazer o minrio  superfcie, onde utilizavam machadinhas para soltar os
pedaos de quartzo aurfero, que eram ento empilhados sobre uma fogueira e
queimados. Depois, o quartzo calcinado era triturado e o ouro separado atravs
da lavagem.
    No caso do ouro aluvial, o processo de extrao era organizado em torno
da aldeia136. Durante a estao mineira, grupos de 400 ou mais mineradores
reuniam-se com mulheres e crianas em um local escolhido, sob a direo de
seus respectivos chefes de aldeia. A lavagem das aluvies era feita nas bacias de
madeira e o ouro da extrado era estocado em haste de canio ou de madeira
esvaziados, prontos para a troca. Os camponeses preferiam apanhar as palhetas
de ouro existentes nos rios ou nas terras aurferas  extrao do ouro do veeiro,
pois o trabalho no necessitava de grandes profundidades e era fcil alcanar as
camadas ricas em ouro; a lavagem do ouro era de baixo custo, pois os minerado-
res no necessitavam da enxada para quebrar a rocha e nem comprar ou procurar
madeira para as fogueiras. Alm disso, o trabalho que consistia na recolha das
palhetas, acima mencionado, no necessitava nem da triturao nem do abra-
samento das rochas e no mais expunha os mineradores aos perigos dos tneis
cavados em solos frgeis, que regularmente desmoronavam.
    Os imperadores mutapa e rozwi exerciam um controle estrito da produo
de ouro em seus respectivos territrios137. Estima-se que, aproximadamente, a
metade do ouro extrado no Imprio Mutapa era diretamente confiscada pela


134 Ibid.
135 Ibid.
136 M. Barreto, 1899, p. 491.
137 A. Gomes, 1959, p. 186; G. Macedo, 1890, p. 148-149; J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903,
    vol. II, p. 280-281.
794                                                                        frica do sculo xvi ao xviii



elite no poder. Aquele que descobria por acaso uma jazida devia cobri-la ime-
diatamente e avisar ao chefe local. Em 1648, Antnio Gomes escreveu sobre
isso: "O que quer que lhes tenha sido prometido por um portugus, eles jamais
revelariam o local da jazida e apesar de sua insistncia nenhum portugus, con-
seguiu at hoje obter a menor indicao138." Aquele que transgredia a essa regra,
era punido com a morte139. Os soberanos mutapa e rozwi no queriam que os
portugueses que negociavam com seus imprios conhecessem a localizao das
minas de ouro, pois isso poderia lhes despertar veleidades de conquista. Alm
disso, o controle das minas permitia-lhes impor aos seus sditos melhores ter-
mos para a troca.

      O declnio da produo de ouro no sculo XVII
   Os perigos inerentes  explorao aurfera explicam no s a fraqueza da
produo, mas tambm o seu declnio no sculo XVII140. Por vezes, a gua inun-
dava os poos e afogava os mineradores. Ademais, nesse sculo, os mineradores
shona j tinham alcanado o lenol fretico e apenas teriam podido cavar mais
profundamente com o auxlio de uma nova tcnica que lhes permitiria aspirar,
simultaneamente, a gua e a lama141. A terceira razo deste declnio vem do fato
de o preo do ouro, fixado pelos comerciantes portugueses, no ser suficiente-
mente alto para incitar os camponeses a arriscarem suas vidas.
   O impacto da guerra relativa  produo do ouro  um aspecto que no foi
examinado detalhadamente. A primeira metade do sculo XVII marcou o ponto
culminante das agresses portuguesas contra o Imprio Mutapa. A ingerncia
dos portugueses nos assuntos internos dos shona engendrou conflitos entre os
prprios dirigentes mutapa, bem como entre estes e seus vassalos. Tais guer-
ras provocaram migraes temporrias ou definitivas e carestias de alimentos
em razo da desordem da produo agrcola, mesmo nas regies favorecidas
pelo clima e onde contavam com inmeros recursos. Em 1683, por exemplo,
a anarquia reinava no Macaranga, onde o pas estava "despovoado [...] e, por
conseguinte, desprovido de minas142", de forma que "os portugueses vivem do
que podem esgravatar nas margens dos rios ou do ouro que aflora  superfcie


138 A. Gomes, 1959, p. 185.
139 Ibid.
140 J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 219.
141 I. R. Phimister, 1976, p. 22-23.
142 Annimo, 1683, Descrio dos rios de Cuama, Biblioteca d'Ajuda, Lisboa, 51-VII-43 e 51-VII-44.
A regio ao Sul do Zambeze                                                   795



da terra143". Na segunda metade do sculo XVII, guerras dos Changamire, ainda
mais devastadoras, explodiram, resultando em uma nova distribuio da popu-
lao nos vrios Estados.
    Portanto, podemos dizer que foi a guerra que perturbou a produo do ouro
na Shonalndia durante o sculo XVII, da mesma forma que uma catstrofe
natural abala a agricultura, reduzindo a superfcie das terras disponveis. At o
presente, os historiadores tm negligenciado esse aspecto, privilegiando "os obs-
tculos fundamentais impostos por um meio hostil e inconstante que restringia
consideravelmente as possibilidades de explorao pelos shona144".
    Alm disso, por meio dos mtodos adotados por eles, os comerciantes por-
tugueses perderam o contato com os camponeses que asseguravam o essencial
da produo de ouro. Os chefes africanos protestaram contra o fato de os por-
tugueses insistirem para que os camponeses e seus chefes comercializassem seus
produtos apenas com eles. Segundo o capito Francisco Figueira de Almeida, de
Sena, as relaes comearam a se degradar quando os portugueses modificaram
os seus mtodos comerciais. No incio do sculo XVI, os camponeses africanos
estavam habituados a levar diretamente seus produtos s feiras portuguesas
do interior. Mas, ao longo do sculo, os portugueses enviaram intermedirios
para o interior das terras, os quais levavam a mercadoria "em pequenos balotes
envolvidos em esteiras de palmeira selvagem tranada, correspondendo ao peso
que um homem pode carregar nas costas", at as portas dos camponeses145. De
Almeida tambm relatou que um comerciante portugus viajava habitualmente
com 300 a 500 camponeses do lugar que, segundo ele, "roubavam tudo aquilo
que encontravam, de forma que os aldees partiam para outra parte a fim de no
se submeterem a tamanha humilhao146". Os portugueses tambm cometeram
o erro de vender mercadorias a crdito para os camponeses africanos; esses,
frequentemente, no honravam as suas dvidas. Isso obrigava o comerciante
portugus a enviar entre 20 e 30 camponeses a seu mando para cobr-la. Se
o devedor no cumprisse a sua dvida, tornava-se escravo "dos comerciantes e,
com a mesma tranquilidade, ia com sua mulher e seus filhos e comeava a fazer
como os outros147". Um negociante portugus podia tambm contar com muitas
centenas de intermedirios dominados. Como um chefe africano sublinhou:


143 Ibid.
144 I. R. Phimister, 1976, p. 22-23.
145 A. Gomes, 1959, p. 192.
146 Ibid.
147 Ibid.
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          Os portugueses prejudicavam enormemente, e se eles quisessem vender tecidos
      aos africanos, deveriam ter-lhes entregado e eles prprios os teriam vendido queles
      que possussem os meios para compr-los; ao contrrio, alguns fogem, outros so
      presos pelos portugueses e, assim, as aldeias despovoam-se148.
    Na metade do sculo XVII, o rei de Uteve ordenou aos sditos que no mais
extrassem o ouro, mas, que "trabalhassem a terra e cultivassem produtos alimen-
tcios para se enriquecerem e, tambm, terem paz e tranquilidade149". Portanto,
consideraes de ordem social provavelmente desempenharam um papel mais
importante do que o clima ou os fatores geolgicos no declnio da produo de
ouro, ao longo do sculo XVII.

      O comrcio
   Os documentos comerciais tambm trazem um testemunho histrico da
diversidade das economias camponesas shona. Embora o objetivo principal dos
camponeses fosse produzir bens de consumo em vez de bens de troca, essa pro-
duo de base inevitavelmente ocasionou trocas entre os prprios camponeses e
entre eles e os artesos, favorecendo o surgimento de um comrcio regional. As
consideraes a seguir mostram as grandes redes tecidas nesse mbito.
   Os negociantes sualis tinham estabelecido vrios bazares no Imprio Mutapa.
 difcil dizer exatamente em qual momento eles foram instalados, mas, um
aventureiro portugus encontrou bazares em 1514-1515, quando viajava no
interior das terras, a partir de Sofala150. Portanto, podemos supor, sem arriscar
grandes erros, que os primeiros bazares em Sofala e nos arredores imediatos
foram fundados ao longo do sculo X, quando os comerciantes rabes-sualis,
os quais necessitavam dos gneros alimentcios vendidos pelos camponeses afri-
canos, comearam a comercializar com esses ltimos, no Imprio Mutapa151. Os
bazares aconteciam s segundas152, neles os camponeses africanos trocavam os
seus produtos agrcolas e o seu ouro em p por prolas, estofos e outros artigos
exticos. Pouco sabemos sobre o volume e a organizao desse comrcio, mas,


148 Ibid.
149 Ibid., p. 193.
150 H. Tracey e A. Fernandes, 1940, p. 20-30; ver tambm a narrativa de Gaspar Veloso em Documentos sobre
    os portugueses em Moambique e na frica Central, 1497-1840, vol. III, p. 181-189; H. Quiring, 1949; W.
    A. Godlouton, 1945.
151 Archaeologia e conhecimento de passado, 1980, p. 4-6.
152 Notas tomadas por Gaspar Veloso, clrigo da feitoria de Moambique e endereadas ao rei (1572),
    op. cit., p. 183.
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com razo, podemos pensar que a demanda dos rabes-sualis por alimentos
deve ter incitado os camponeses a aumentar sua produo de cereais, de legumes
diversos, e da criao de animais, de pequeno ou de grande porte. A demanda
por gneros alimentcios seguramente aumentou quando os portugueses cons-
truram em Sofala, em 1506, uma fortaleza que se transformou em entreposto
comercial, onde os comerciantes portugueses e os camponeses africanos vinham
trocar seus produtos.
    A edificao dessa fortaleza deve ser alocada no contexto das atividades
comerciais portuguesas a partir de 1498, data em que Vasco da Gama fez sua
famosa viagem  ndia. Foi nesta poca que os portugueses tomaram conheci-
mento da presena de minas de ouro em Sofala e no interior, e, portanto, o rei
Emanuel ordenou a construo de uma feitoria em Sofala. O objetivo principal
de Portugal neste momento era ocupar todos os pontos estratgicos ao longo
do Oceano ndico. As fortalezas de Sofala e de Kilwa foram erigidas em 1506
para protegerem o comrcio de ouro, ao passo que outras trs, em Quilon,
Angediva e no Mar Vermelho, foram construdas para controlarem o negcio
da pimenta do reino. Assim, Sofala foi integrada  rede comercial portuguesa
e as condies, para que ainda se intensificassem as trocas entre negociantes
africanos e portugueses, foram reunidas. Como havamos dito, os portugueses,
ao chegarem em Sofala, em 1506, encontraram os comerciantes rabes-sualis
j bem estabelecidos, da o surgimento de uma certa rivalidade, matizada por
vrios afrontamentos militares entre os dois grupos153. Porm, os portugueses
levaram vantagem e os rabes-sualis fugiram para o Norte, em direo a diver-
sos pontos estratgicos do Zambeze a partir dos quais continuaram minando
as atividades mercantis portuguesas ao longo da rota comercial deste rio, bem
como nos itinerrios que conduziam ao interior das terras. Os portugueses rea-
giram prontamente expulsando-os da maior parte destes lugares e fazendo, em
1531, de Sena e Tete seus principais centros comerciais. Assim, as atividades
mercantis portuguesas deslocaram-se para o Norte, contribuindo com a reduo
da importncia comercial da regio de Sofala154.
    A derrota dos sualis em 1512 e a ocupao de Sena e de Tete pouco depois
de 1530  que conferiu aos portugueses o monoplio do fornecimento das
mercadorias  colocaram um fim nas atividades comerciais independentes dos
rabes-sualis. Porm, como os portugueses no tinham nem competncias nem


153 Para os detalhes desta rivalidade, ver. A. Lobato, 1954a.
154 Documentos sobre os portugueses em Moambique e na frica Central, 1497-1840, vol. III, p. 237-248; A.
    Lobato, 1954a, p. 19 e 103.
798                                                         frica do sculo xvi ao xviii



mo de obra necessrias, e como os rabes-sualis desejavam continuar nego-
ciando na regio, uma aliana comercial natural, embora difcil, foi travada
entre eles. Durante todo o sculo seguinte, os rabes-sualis foram os principais
agentes do comrcio portugus no interior das terras. Os vashambadzi (nego-
ciantes) africanos, bem antes da chegada dos portugueses, j tinham servido
como intermedirios aos rabes-sualis e seu papel foi oficializado no quadro
desta aliana. Esses ltimos continuaram a comercializar, ainda que na clandes-
tinidade, no interior do Torwa, at o fim do sculo XVII. No incio do sculo
XVIII, eles haviam perdido uma grande parte de sua cultura islmica e adotado
a cultura lemba e venda155.
    Com a derrota dos rabes-sualis, os portugueses no mais tinham maiores
concorrentes ao longo da rota comercial do Zambeze e no interior do pas. Pri-
meiramente, a Coroa portuguesa havia se fixado com o objetivo de monopolizar
a totalidade das trocas ocorridas em Sofala e no interior das terras. Porm, tal
objetivo no foi alcanado, pois a cupidez conduziu os comerciantes a fecharem
acordos independentes com os chefes africanos. Assim como que j foi notado,
em 1541, havia tantos negociantes portugueses no interior das terras que era
preciso formalizar e regulamentar suas atividades no Imprio Mutapa.
    Da mesma forma que com os comerciantes rabes-sualis, os camponeses
africanos trocavam seus produtos com os portugueses por toda uma srie de
artigos exticos. As escavaes arqueolgicas realizadas por Peter Galarke nos
stios das feiras de Luanze, de Dambarare e de Rimuka indicam que as prolas
de adorno eram o artigo mais procurado no incio do sculo XVI156. As prolas
negras, amarelas, verdes e azuis, as mais correntes, eram mais ou menos aprecia-
das segundo as regies, porm aquelas de maior sucesso em todos os reinos eram
as vermelhas e as negras, conhecidas pelo nome de prolas de Cambay. Quando
os portugueses chegaram  regio, tentaram em vo controlar o mercado dessas
prolas, cujo preo era determinado por um conjunto de crenas encontradas
entre os shona157. Estes ltimos acreditavam de fato que os portugueses as
colhiam nas rvores. Pensavam que as prolas negras ganhavam cor pelo fato de
as terem deixado muito tempo na rvore, para que elas se transformassem em
negras ao se petrificarem. As prolas verdes tinham sido colhidas antes de alcan-
arem a maturidade, ao passo que as amarelas tinham sido apanhadas maduras,
antes que o sol as queimasse e as enegrecesse. Havia tambm diversos tipos de

155 D. N. Beach, 1984, p. 32.
156 P. S. Garlake, 1954.
157 A. Gomes, 1959, p. 196.
A regio ao Sul do Zambeze                                                    799



prolas de importao, notadamente, as prolas de "coral, de cristal, de estanho,
de jade, de mbar e de vidro azul de Veneza158", mas elas no faziam muito
sucesso. Ao contrrio, uma variedade de prolas de fabricao local, conheci-
das pelo nome de caracoes (pequenas prolas de pedra), alm disso, isentas de
monoplio real do comrcio das prolas, inundou o mercado entre 1516 e 1518.
Estima-se que elas eram sete vezes mais populares do que as prolas importa-
das da Europa. O tecido ocupava igualmente um lugar importante nas trocas
comerciais, em particular os estofos coloridos, medidos em cbitos.
   Em troca desses artigos, todos os dias, os shona levavam  feira da fortaleza
sorgo, milho, niv, voandzou, cestos, esteiras, potes, galinhas, ovos, mel, caa,
de pelos ou penas, apanhadas com armadilhas, e toda uma gama de legumes e
de frutos selvagens. Este tipo de comrcio tambm acontecia nas feiras e pro-
vavelmente continuou aps o desaparecimento delas, no final do sculo XVII.
Podemos pensar que existia, como nos mercados da frica do Oeste159, uma
certa segregao entre os mercadores, segundo os produtos vendidos por eles e,
tambm, segundo o sexo do vendedor; em outras palavras, mulheres e homens,
sem dvida, ofereciam artigos diferentes. A maioria dos ferreiros e outros arte-
sos, do mesmo modo que os mineradores, trocavam seus produtos entre si ou
com os mercadores portugueses. Quanto aos camponeses, eles tinham, obvia-
mente, um mercado para os bois, cabras, carneiros e porcos. A fortaleza de Sofala
e as feiras do interior implantaram-se profundamente na sociedade shona e
tornaram-se um elemento essencial da vida econmica e social.

    As feiras do pas Shona
    Entre 1575 e 1684, assistiu-se a uma modificao do comrcio entre campo-
neses africanos e negociantes portugueses. Estes ltimos consolidaram sua vit-
ria militar e comercial sobre os rabes-sualis, modificando o sistema dos bazares
para transform-los em feiras. Os terrenos onde eles aconteciam eram cedidos
pelos chefes africanos locais. Com o tempo, as feiras tornaram-se as matrizes do
comrcio entre africanos e portugueses. Tratava-se de vastos recintos cercados
com muretas feitas de paliadas curtas de toras, com algumas cabanas de taipa,
prximas das zonas de explorao aurfera160. Cada feira possua sua fortaleza,
sua guarnio de 10 a 15 soldados, teoricamente, sua igreja com um padre e seu


158 P. S. Garlake, 1954, p. 43.
159 E. P. Skinner, 1964, p. 86.
160 P. S. Garlake, 1954, p. 49.
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capito-mor. Algumas feiras eram administradas pelo Estado dos Rios de Sena,
outras eram propriedades privadas. Os capites-mores, cujo papel e posio no
comrcio portugus, nos Rios de Sena, foram claramente definidos ao longo do
sculo XVIII, apresentavam uma certa semelhana com os guardas das feiras
medievais portuguesas. Seu estatuto, no Manica, no Butwa e no pas Karanga,
era comparvel quele do capito-mor dos banianes, da Ilha de Moambique e
quele de outros representantes anlogos de mercadores, s vezes, organizados
em guildas. Seu soldo era considerado subsidirio e os administradores portu-
gueses tinham como poltica nomear a esses postos apenas pessoas abastadas,
originrias da colnia portuguesa de Sena. Na Ilha de Moambique, o capito-
-mor dos banianes era geralmente o mais afortunado dos mercadores indianos
de Diu. Assim tambm era o caso do capito-mor dos muros, menos conhecido,
de Moambique, que era frequentemente um rico armador.
    Os capites-mores eram encarregados da tarifao, do controle dos preos
e da arbitragem entre comerciantes portugueses e africanos. Tambm tinham
por misso outorgar as licenas, proteger as caravanas, recrutar soldados e fazer
cumprir as leis, em matria de pesos e medidas161. Suas funes e seus poderes
podiam variar consideravelmente em funo dos chefes africanos com os quais
eles negociavam. A feira foi institucionalizada e regulamentada por uma srie
de instrues endereadas em 1531, pela Coroa portuguesa a Vicente Regado,
capito-mor de Sofala e de Moambique162. Tais instrues tratavam da circu-
lao das mercadorias, dos direitos indiretos, dos dzimos, da abertura das lojas,
da outorga de licenas autorizando a venda de mercadorias, e das modalidades
dos procedimentos judicirios.

      As principais feiras
   A feira de Dambarare tinha a reputao de ser a melhor de todas as fei-
ras dos Rios de Sena. A maioria dos ricos e poderosos mercadores de Sena
encontrava-se nela e, de l, partiam separadamente para outros lugares como
Chitomborwizi, Rimuka, Luanze e Matafuna. Dambarare era um centro admi-
nistrativo e s perdia em importncia para o quartel geral do capito das portas,
em Massapa. A feira de Dambarare encontrava-se a trs dias de viagem daquela




161 M. D. D. Newitt, 1973, p. 43.
162 J. J. Botelho, 1936, p. 146.
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                                                                               NYUNGWE              Tete

                                 An
                                                        MUTAPA
                                                                                                                Zam




                                                                                               ya
                                                                                                                   be




                                                                                             en
                                                        Masapa                 Bokoto                                z
  Butwa




                                                                                           Rw
                       Urupande




                                                                                                                      e
                                                 NGA
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                                                                           Ruhanje
                                            KARA
          ny




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             at




                                                          Tafuna
                     Chitomborwizi          Dambarare
                                        I                                        Makaha                             Sena




                                                                     ire
                                     UT
                                 BV



                                                                 Nyad
                        Rimuka
                                                               MAUNGWE
                                                                                                 Pun
                                                                                                    gw
                                                                                MANYIKA               e
                                                                                         Chipangura
                                  Sa
                                    nya
                                                                    Sa


                                       ti
                                                                      ve




                                                                                           Bandire


                        A
                      RW                                                                                   Sofala    OCEANO
                   TO                               Zimbabwe                                                          NDICO



                                                                                     DANDA
                                                                                             e
                                                                                          Sav




                                                     Lim
                                                        po
                                                          po




    0                 60               120 milhas
    0                 100              200 km                                                                  Inhambane


                        Centros comerciais (feiras)
                        Rotas principais em direo a Zambeze
                        Altitude entre 1200 e 2400 m
                        Altitude entre 900 e 1200 m
                        Altitude inferior a 900 m


figura 22.10 As principais feiras nos sculos XVI e XVII. [Fonte: segundo o mapa n 3 de H. H. K. Bhila,
1982. Adaptado com a estimada autorizao de Longman Group UK Ltd.]
802                                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



de Angwa, onde havia muito ouro, mas poucos habitantes, pois era distante de
Sena e de Tete163.
    Havia uma situao similar em Uteve, onde os portugueses mantinham uma
feira anual em Bandire para comprar artigos provenientes do interior164. Tal
feira funcionou a partir do sculo XVI at o momento em que as autoridades
teve levaram-na ao fim, no incio do sculo XVIII. Os portugueses protestaram,
alegando que o direito de manter a feira de Bandire lhes havia sido outorgado
pelo monomotapa em 1580. Talvez teoricamente, mas, nessa data os mutapa
tinham, por assim dizer, perdido toda a autoridade sobre seus feudos inclusive
sobre aquele de Uteve. A feira anual, como o prosseguimento de sua histria
mostrou, era sustentada e controlada pelos reis teve. Os mtodos empregados por
eles para controlar o comrcio portugus eram ligeiramente diferentes daqueles
das outras sociedades shona. No Manica, por exemplo, a feira era inspecionada,
tanto pelos prprios reis, que por vezes visitavam o capito-mor com seus con-
selheiros, quanto pelo prncipe ou pela princesa da regio onde a feira acontecia.
Porm, em Uteve, ela era gerada em grande parte por um inyamasango (chefe
de aldeia), sob a jurisdio do qual se estabelecia a administrao de Bandire165.
Ele devia pagar ao sachiteve um tributo anual, comportando uma tnica turca,
uma pea de estofo, um barrete, roupas de cama e mesa, uma rola e uma certa
quantidade de musselina de Bengala. Ao que parece, presumia-se que todos
esses artigos fossem da cor amarela, a fim de simbolizar a abundncia de ouro
em Bandire. Tal abundncia fora atestada por Renato Baptista que prospectou
a regio em 1890. No parece que os portugueses tenham criado feiras ao Norte
do Zambeze antes do incio do sculo XVIII, poca em que foram estabelecidas
as feiras do Zumbo e de Michonga166. Duas razes poderiam explicar a implan-
tao tardia das feiras: a descoberta de bares ao Norte do Zambeze, ao longo do
sculo XVIII, e o fato de os portugueses necessitarem abrir outros territrios
ao comrcio, aps terem sido expulsos do pas Shona pelo imperador rozwi,
Changamire Dombo, entre 1693 e 1695.
     Aps Changamire t-los expulsado das feiras, os portugueses foram obri-
gados a retomarem os seus mtodos comerciais do sculo XVI. Quando aban-


163 Para uma discusso sobre as diversas feiras, ver "Extracts from the decade written by Antonio Bocarro of the
    performances of the portuguese in the East", em G. M. Theal, 1899-1903, vol. III, p. 354; "Brief account on
    the rivers of Cuama", pelo padre Philipe de Tssumao, biblioteca de Ajuda, Lisboa, 51-VII-40.
164 J. dos Santos, em G. M. Theal, 1899-1903, vol. II, p. 380-381.
165 R. Baptista, 1892, p. 14.
166 A. Lobato, 1954b, p. 43 e seg.; H. Capello e R. Ivens, 1886, vol. II, p. 306.
A regio ao Sul do Zambeze                                                                        803



donaram as feiras de Macaranga, abriram uma outra no Zumbo, entre 1710 e
1788, na confluncia do Luangwa e do Zambeze, e chegaram a depender dos
vashambadzi para suas relaes comerciais com o Imprio Rozwi167. Entretanto,
conseguiram restabelecer a feira de Masekesa, no Manica, em 1719, mas, no
puderam reavivar nenhuma em Uteve. O sistema, que consistia em confiar a um
oficial o cargo da coordenao das relaes entre portugueses e chefes africanos,
no era mais possvel com os imperadores mutapa, pois, verdadeiramente, no
mais havia autoridade poltica central entre os chefes africanos. , pois, necess-
rio rever brevemente as relaes mantidas pelos portugueses, ao longo do sculo
XVIII, com alguns importantes dirigentes africanos.
    No Leste, o rei de Uteve no permitia aos portugueses a explorao do
ouro dos bares do seu reino. Todavia, seus sditos eram autorizados a comprar
estofos e prolas dos colonos portugueses em Sena. Mesmo no quadro deste
comrcio, os negociantes portugueses acusavam o rei e os prncipes de causarem
"um prejuzo considervel", de "roubar" e de arruinar a mercadoria portuguesa, e
dispensavam grande parte dos benefcios extrados para garantir a sua segurana.
No decorrer do sculo XVIII, a poltica teve era claramente antiportuguesa168.
No Reino Manica, os comerciantes portugueses haviam recebido o direito de
circular livremente em todo o territrio, porm suas atividades mercantis eram
estritamente regulamentadas pelos dirigentes manica, aos quais eles pagavam
regularmente um tributo, tal como o capito-mor.
    Do mesmo modo, para proteger a feira do Zumbo e a rota comercial que
levava ao Butwa, os comerciantes portugueses pagavam regularmente um tri-
buto a Changamire, o que representava grandes somas, pois Changamire tinha
o costume de enviar emissrios  feira do Zumbo para reclamar presentes, em
geral, que custavam seis pastas, acrescentados ao habitual tributo169. O incidente
ocorrido em 1757, quando o prncipe Chirimba do Dande apoderou-se das
mercadorias destinadas ao Butwa, ilustra os perigos da rota comercial entre o
Zumbo e o Butwa, via Dande. A partir desse momento, e durante sete anos,
Changamire, seus soldados e os produtores de ouro do Butwa atacaram-no sem


167 O termo Zumbo designa os trs estabelecimentos sucessivamente criados, e depois abandonados, pelos
    portugueses na confluncia do Luangwa e do Zambeze, ao longo do sculo XVIII. O primeiro foi pro-
    vavelmente fundado em 1710 na ilha de Chitacativa, no Zambeze; o segundo, fundado em 1715, estava
    no ngulo moambicano da confluncia entre o Zambeze e o Luangwa; o terceiro, conhecido pelo nome
    de Mucariva, hoje marcado nos mapas zambianos pelo simples nome de Feira, foi fundado em outubro
    de 1788. Para um estudo completo, ver S. I. Mudenge, 1977.
168 X. Caetano, em A. A. Andrade, 1955, p. 155.
169 H. H. K. Bhila, 1982, p. 119.
804                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



cessar, a ponto de arruinarem o comrcio do Butwa, prspero at ento. O clebre
ataque conduzido por Changamire em 1756-1757, durante o qual ele confiscou
bens por um valor de 1.000 pastas (800.000 cruzados),  um perfeito exemplo
disso170. O comrcio do Zumbo foi tambm comprometido pelas guerras civis e
pela fome dos anos 1760. Entretanto, apesar dos ataques contra os portugueses,
os changamire mantinham relaes comerciais com eles. Para proteger a feira
do Zumbo dos ataques dos chefes africanos da vizinhana, os chefes rozwi
enviaram, por trs vezes, foras expedicionrias, em 1743, 1772 e 1781, a fim de
proteger a feira do Zumbo dos ataques dos chefes africanos dos arredores. Alm
das prolas, os chefes rozwi se interessavam muito particularmente pelos guarda-
-chuvas, pelas conchas, pelos rosrios de coral falso, pela porcelana, pelos sinos
de lato, pelas tesouras e pela aguardente171. A natureza das relaes entre os
mutapa e os portugueses parece ter evoludo pouco no decorrer do sculo XVIII.
Os portugueses tinham sempre uma guarnio composta de vinte soldados, um
capito-mor, um tenente, um capito geral e um frei dominicano, no recinto
do palcio real mutapa. Parece tambm que "o antigo costume, que consistia no
batismo dos chefes mutapa, fora mantido, mesmo se tais chefes no possussem
nada de cristo, pois, em geral, eles tinham mais de um milhar de concubinas172".
Eis um outro hbito do sculo XVI que sobreviveu at o XVIII:
         A cada trs anos, este rei envia um emissrio ao general de Sena que o encontra
      em Tete, sempre no primeiro ano de seu mandato, e os dois homens discutem sobre o
      prosseguimento da velha aliana entre o Estado e o rei e sobre alguns outros assuntos
      concernentes aos comerciantes do Zumbo, que devem, obrigatoriamente, atravessar o
      seu territrio; se qualquer outra questo for colocada fora dessa visita trienal, novos
      emissrios so enviados por uma das partes173.
   No obstante estes acordos, o volume do comrcio entre os portugueses e
os dirigentes mutapa continuou a diminuir no sculo XVIII. Tal declnio foi
explicado por meio de trs evolues sobrevindas no Sul do Zambeze durante
esse sculo. Primeiramente, houve a corrida pelo ouro, no Norte do Zambeze,
durante a qual aventureiros portugueses descobriram bares e comearam a pros-
pectar o ouro, por conta prpria. Em segundo lugar, a produo do ouro cessou
quase completamente no sculo XVIII. Em terceiro, tanto os comerciantes afri-


170 Ibid., p. 119-120.
171 Ibid.
172 Annimo, 1683, Descrio dos rios de Cuama, biblioteca de Ajuda, Lisboa, 51-VII-43.
173 Ibid.
A regio ao Sul do Zambeze                                                    805



canos quanto os portugueses comearam a caar elefantes, por causa do marfim,
em uma ou outra margem do Zambeze.
   O comrcio do marfim desempenhou um papel importante no Imprio
Mutapa. Uma narrativa portuguesa do sculo XVI diz-nos que os elefantes
"vo em hordas inteiras, quase como tropas de vacas" e que "a cada ano, mor-
rem 4.000 ou 5.000 elefantes, o que confirmam as importantes quantidades de
marfim enviadas da para a ndia174." A caa ao elefante tinha a vantagem de
ser menos suscetvel  vigilncia dos chefes africanos do que o ouro, pois era
praticada habitualmente em regies recuadas. Todavia, pouco se sabe sobre a sua
organizao e certas indicaes levam-nos a crer que, no sculo XVIII, tal caa
era praticada sobretudo em Buhera e em Rimuka175.


    Concluso
    A penetrao dos portugueses no Sul do Zambeze ocasionou uma eroso
do poder da classe dirigente autctone e facilitou formas diretas de explora-
o dos camponeses pelo capitalismo mercantil portugus e, mais tarde, pelo
capitalismo industrial britnico. A convergncia das redes comerciais regionais
com aquelas do comrcio longnquo gerou uma classe mercantil africana, os
vashambadzi. Com a chegada dos comerciantes rabes-sualis, no sculo X, e
dos portugueses, no incio do sculo XVI, africanos foram recrutados para ser-
virem como intermedirios entre os negociantes estrangeiros e os produtores
agrcolas africanos.
    Os mercadores portugueses se interessavam basicamente pelo comrcio do
ouro e do marfim, o que explica o fato de os principais produtos negociados em
escala regional, como o ferro, o sal e o cobre, terem sido relegados ao segundo
plano. Desde 1530, os mercadores portugueses j haviam penetrado o interior do
Imprio Mutapa, havendo uma convergncia entre o negcio do sal, do cobre e
do ferro, e aquele do ouro e do marfim. Os dois fluxos comerciais estimulavam-
-se mutuamente, da o surgimento de uma classe mercantil africana. Para que
o comrcio longnquo prosperasse, eram necessrios o ouro, o marfim e carre-
gadores, gneros alimentcios para nutrir estes ltimos, enxadas para cultivar os
campos e ferro para fabricar tais instrumentos agrcolas. Os vanshambadzi no
s transportavam o marfim e o ouro, mas tambm sal e enxadas de ferro, os quais,


174 G. M. Theal, 1899-1903, vol. VI, p. 266.
175 D. N. Beach, 1984, p. 35.
806                                                      frica do sculo xvi ao xviii



no caminho, eram trocados por alimentos. Os cultivadores africanos que viviam
prximos das rotas comerciais evoluram aos poucos,  medida que passaram a
produzir mais, a fim de venderem o excedente agrcola aos comerciantes e aos
carregadores.  intil dizer que os camponeses, cuja maioria ignorava o valor
internacional dos produtos de base vendidos, foram impiedosamente explorados
pelos mercadores portugueses.
A frica Austral                                                        807



                                   CAPTULO 23


                                 A frica Austral
                                      D. Denoon




    Entre 1500 e 1800, grande parte da frica Austral transformou-se. Novas
comunidades estabeleceram-se na regio e numerosas outras que j se tinham
instalado mudaram seu modo de vida, seu modo de vida, sua localizao, ou
ambas.. As relaes, por sua vez, tanto no seio dessas comunidades como entre
elas, tomaram um aspecto radicalmente diferente daquele que existia antes. Mui-
tas destas transformaes fundamentais resultaram das mudanas ocorridas nas
relaes da frica Austral com o exterior. Quando o primeiro Europeu, Vasco
da Gama, cruzou o Cabo da Boa Esperana em 1407, os laos que a frica
Austral mantinha com o resto do mundo eram extremamente tnues, mas, l
por 1800, a regio estava inserida na densa rede mundial de relaes comerciais
e estratgicas. Cumpre, pois, lembrar a evoluo da situao internacional antes
de tentar avaliar as consequncias que advieram  regio.
    Em 1500, as maiores concentraes populacionais do mundo se achavam
sobretudo nos contornos do Mediterrneo e na sia. Nem a frica subsaa-
riana nem a Amrica mantinham relaes regulares com o resto do mundo. O
comrcio internacional envolvia principalmente a Europa e a sia e se realizava
quase unicamente por via terrestre, o que o tornava muito oneroso1. O objetivo
da misso de Vasco da Gama era abrir uma rota martima que permitisse redu-


1    F. Braudel, 1981, cap. 1.
808                                                        frica do sculo xvi ao xviii



zir os custos do comrcio internacional e frear a avidez dos intermedirios que
enriqueciam s custas das caravanas. Na viso dos portugueses, que foram os
primeiros a utilizar esta rota martima, assim como dos holandeses, dos ingleses
e dos franceses que lhe seguiram os passos, a frica Austral no era seno um
perigoso escolho para a navegao. O mapeamento do litoral da frica ps um
fim progressivo ao isolamento em que esta regio se encontrava. Entretanto, o
fato de os comerciantes rabes e europeus terem persistido no seu desinteresse
justifica determo-nos por um momento.
    No fim da idade do ferro, os climas temperados do hemisfrio austral eram
pouco atrativos. Com instrumentos rudimentares era difcil, mesmo nas regies
agrcolas, produzir regularmente excedentes alimentares e no era nada fcil
estocar os excedentes eventuais nem utiliz-los em um novo ciclo de produo.
A densidade demogrfica nas regies temperadas do hemisfrio sul (incluindo
a Australsia e a extremidade meridional da Amrica do Sul) era bem menor
que nas regies tropicais vizinhas, onde era relativamente alta e permitia assim
uma produo agrcola excedente e um forte grau de especializao. No nos
surpreende, portanto, que as regies temperadas tenham atrado pouco a cobia
dos negociantes internacionais. Estas no produziam seno irregularmente mer-
cadorias susceptveis de exportao, situao que s melhorou em data recente,
quando se pde investir significativos capitais, recorrer  tcnica moderna e
melhorar os transportes2. Os rabes, cujo comrcio era florescente ao longo da
costa oriental da frica, no sofriam a tentao de se aventurar mais ao Sul,
porque o ouro, o marfim e os escravos que enchiam os pores de seus navios se
encontravam mais facilmente ao longo das costas tropicais do que na extremi-
dade temperada do continente. Do mesmo modo, os europeus continuaram a
contornar o Cabo da Boa Esperana durante um sculo e meio antes de se inte-
ressarem pela regio. Os nomes dados pelos portugueses a suas escalas (Algoa e
Delagoa) mostram que seu objetivo era ir a Goa e de l voltar, e que eles no se
interessavam tampouco pelo potencial comercial da prpria frica Austral.
    Se eram insignificantes os contatos martimos, tambm os contatos por via
terrestre no eram to importantes. Numerosas comunidades do Sul tinham
laos histricos e lingusticos com o Norte, mas eram laos com pouca incidncia
sobre a vida cotidiana. Os khoi khoi, que criavam animais, pescavam e colhiam
frutos da natureza ao longo da franja costeira meridional, quase no tinham
contato com o Norte. O mesmo acontecia com os san que praticavam a caa e a


2     D. Denoon, 1983.
A frica Austral                                                                                                              809




           0        150       300 milhas




                                                                                                                       UE
           0        250           500 km




                                                                                                                   MOAMBIQ
                                                                                            po
                                                  T                                       po
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                                                                      A
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                                                                                      A                         Baa da Lagoa
                                                       o                                                        (atual: Baa de
                                                    lop
                                                  Mo


                                                                 al
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                                                                            C




                                                                                                      ake
       OCEANO                                      KORA                   Rio
                                                                 ra                                             NDICO
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                                  S A N                                     Cordilheir

                                                                                                S
                                                                   TEMBU                        O
                                  Cidade do Cabo ou Cabo                                H
                                       K H O I                                 X
                    Cabo da                                               Baa de Algoa
               Boa Esperana




figura 23.1    A frica Austral do sculo XVI ao XVIII.



coleta no interior. As populaes falantes das lnguas nguni (vivendo sobretudo
ao Leste da cadeia montanhosa que dividia em duas a regio) no tinham, em
1500, seno escassos contatos com seus vizinhos do Norte. Na extremidade oeste
da regio (a atual Nambia), os herero e os ovambo tinham estreitos laos lin-
gusticos tanto entre eles como com seus vizinhos do Norte, enquanto os tswana
e os sotho, que habitavam o Centro, tinham certamente relaes comerciais
ocasionais com o Norte. Contudo, quando o comrcio existia, era de um volume
reduzido, e das mercadorias que o constituam (em especial o cobre, o ferro e o
dagga) nenhuma era indispensvel  sobrevivncia dos povos envolvidos3. Ainda
em 1500, relacionamo-nos com sociedades que so totalmente independentes


3    M.Wilson, 1969a.
810                                                         frica do sculo xvi ao xviii



do resto do mundo: suas relaes exteriores so espordicas, ocasionais e secun-
drias. As frotas europeias, que deitavam ncoras eventualmente ao longo da
costa para se abastecer de gua doce e de vveres, no deviam atentar para esta
autarcia durante um sculo e mesmo depois.
   Se os Europeus levaram muito tempo para se interessar pela regio, quando
comearam a faz-lo, foi de maneira muito forte. Na metade do sculo XVI,
a Companhia Holandesa das ndias Orientais, que continuava a considerar a
frica Austral como uma etapa na rota para o Oriente, fixou uma nova comu-
nidade no Cabo. Ainda em 1800, "O Cabo era uma comunidade que olhava
para o mar, um caravanserai na rota do comrcio mundial das especiarias4"; ela
se apresentava como uma "sede administrativa, por seu esprito mais prxima
da sia que do continente africano onde estava situada5". O estabelecimento da
colnia do Cabo teve, entretanto, consequncias regionais muito mais impor-
tantes do que o haviam imaginado os dirigentes da Companhia. O conjunto
da regio ficou solidamente religado  Europa e  sia, e isto quando ainda
no era to clara a questo de saber quem desempenharia o papel principal:
os holandeses que ocuparam o Cabo de 1652 a 1795, ou os britnicos, que se
apoderaram do Cabo em 1795. A nova comunidade do Cabo era e deveria ficar
como uma dependncia extremamente sensvel a toda nova presso ou incitao
externa e,  medida que esta dependncia estendia sua influncia no interior,
deveria instaurar, em todas as regies, novas e durveis relaes, caracterizadas
pela dominao e submisso. O desenvolvimento da pequena colnia marcou
o advento das relaes capitalistas de produo, bem como do colonialismo e
do imperialismo, que deveriam transformar a frica Austral de maneira brusca
e mais profunda que qualquer outra regio da frica subsaariana. So estas
transformaes que constituem o objeto principal deste captulo.
    possvel reconstituir as condies e os acontecimentos do sculo XVI,
mas  difcil faz-lo, um pouco que seja, objetivamente. Sobretudo quando, ao
longo dos dois ltimos sculos, comunidades de caadores e de colhedores se
confrontaram com outras de cultivadores e foram destrudas. Os cultivadores
sobreviveram em nmero suficiente para prender a ateno dos historiadores,
mas os nmades no tiveram tal chance. A destruio geral dos aborgenes da
Austrlia, dos ndios da Amrica, dos gauchos, das sociedades nmades da Sibria
e da frica Austral reforou teorias para as quais a histria avana por estgios
sucessivos em funo dos quais consideramos ordinariamente o passado e o

4     R. Elphick e R. Shell, 1979, p. 161.
5     Ibid., p.126.
A frica Austral                                                               811



presente, a tal ponto que certos pesquisadores mal podem esconder sua impaci-
ncia de ver findar a "evoluo" dos nmades que os transforme em cultivadores
e finalmente em membros do proletariado industrial6. Os ndios da Amrica
pelo menos deixaram atrs de si bastantes vestgios a permitirem reconstituies
muito fantasiosas e s vezes romnticas7; quanto aos nmades da frica Austral,
foram eliminados ou assimilados muito cedo e de modo por demais completo
para permitir este gnero de criao literria8.
    Se conseguirmos nos desvencilhar da ideia de um processo histrico irre-
sistvel, torna-se lcito descobrir que as relaes sociais na frica Austral apre-
sentavam, no sculo XVI, caractersticas muito interessantes.  assim que as
diferenas ecolgicas permitiam s comunidades especializarem-se em certa
medida. Estas sociedades especializadas influenciavam-se mutuamente, mas tais
interaes no prejudicavam a permanncia dos meios de subsistncia de cada
uma. Os caadores no "evoluam" para tornarem-se criadores nem os criadores
para transformarem-se em cultivadores; havia antes coexistncia, apesar das
hostilidades que s vezes marcavam suas interaes. Merecem essas interaes
um momento de ateno, nem que seja porque seu estudo pode nos preparar
para o estudo das relaes que se estabeleceram em seguida.
    A metade ocidental da frica Austral, que compreende os atuais Botswana
e Nambia, tem precipitaes anuais inferiores a 400 milmetros. Algumas
regies desta zona se beneficiam de melhores mdias anuais, mas o solo poroso
retm mal a gua. A nica exceo importante a essa regra geral  o interior da
pennsula do Cabo, que se beneficia de precipitaes invernais muito abundan-
tes e regulares. Com efeito, no conjunto da metade ocidental, as precipitaes
no so somente insuficientes, mas so tambm muito irregulares9. No temos
nenhuma razo para supor que as condies tenham sido muito diferentes no
sculo XVI, o que explica que os habitantes desta zona no pudessem culti-
var os solos, ainda mais que as tcnicas de reteno de gua e de estocagem
de produtos alimentcios lhes eram desconhecidas. Alis, toda a tcnica do
sculo XX em si no teve quase influncia nesta regio, seno que permitiu
a construo de barragens para facilitar a criao de animais. Os habitantes
da regio no podiam, por isso, exercer a atividade agrcola, mas o fato de se
terem consagrado  caa e  coleta ou  criao prova que eles tinham bom

6    R. L.Meek, 1976.
7    P. Farb, 1969, cap. 7, 8 e 14.
8    J. Wright, 1977.
9    N. C. Pollock e S. Agnew, 1963.
812                                                         frica do sculo xvi ao xviii



senso e que sabiam adaptar-se, no que eram "atrasados" como so acusados,
muitas vezes implicitamente.
    A origem e a histria dos san, grupos de caadores-colhedores, mergulham
no mito e no mal-entendido. A grande diversidade de lnguas por eles faladas
no sculo XVI prova que sua adaptao na metade ocidental da frica Austral
se estendeu por vrios sculos10. A caa e a coleta no eram ento to aleatrias
como o so na atualidade. Pouco carregados, conhecendo perfeitamente seu ter-
ritrio, sua flora e fauna, e raramente aventurando-se alm de um domnio que
lhes era familiar, os membros de um bando caavam provavelmente com toda a
segurana enquanto se manteve um equilbrio entre a densidade populacional e
os recursos ecolgicos11. Parece que os grupos se compunham de 50 a 70 pessoas.
Durante o tempo em que vastas superfcies foram isentas de agricultura e de
criao intensiva, a caa permaneceu abundante. Com a caa e a coleta, os san
tinham meios de subsistncia seguros, o que os tornava independentes das outras
sociedades, mesmo que eles tenham tido relaes com outras populaes. s
vezes, um grupo de caadores se ligava, como cliente, com criadores para obter
produtos leiteiros em troca de carne e de ensinamentos sobre o deslocamento
dos animais selvagens. Mas, mesmo ento, os criadores no deviam comportar-se
como dominadores, uma vez que os san tinham sempre a possibilidade de reto-
mar sua atividade de caadores especializados e independentes. Alguns grupos
de caadores habitavam tambm fora da parte centro-oeste do interior e alguns
dentre eles continuaram mesmo a viver nos contrafortes do Drakensberg at
um perodo avanado do sculo XIX, completando de tempos em tempos suas
presas com incurses sobre os rebanhos dos cultivadores-criadores da regio12.
Este modo de vida se fundava em uma perfeita mobilidade. Como esta teria sido
comprometida pela presena de elementos muito velhos ou muito jovens ou de
outros incapazes de se deslocar facilmente, ns podemos supor que ela, por si,
vinha limitando um crescimento dos grupos que teria comprometido o cresci-
mento entre populao e recursos. Esta mobilidade absoluta impunha tambm
uma outra dificuldade: toda acumulao de bens podia somente diminuir o nvel
de vida do grupo, tornando mais lentos seus movimentos.
    Em seu magistral estudo sobre as origens dos khoi, Elphick julga que muito
provavelmente, bem antes de 1500, os grupos san, depois de terem conseguido
bovinos e ovinos, se teriam aventurado pelo interior do pas, seguindo os rios

10    R. Elphick, 1977, cap. 1 e 2.
11    M. Sahlins, 1972 (ed. de 1974).
12    J. Wright, 1971.
A frica Austral                                                              813



para por fim atingirem a franja costeira meridional, onde viajantes europeus
iriam constatar sua presena no sculo XVI13. J que possuam animais, os khoi
deviam contentar-se com zonas bem irrigadas e no podiam explorar regies
ridas, o que permitiu  populao em geral e ao efetivo de cada grupo aumentar
progressivamente. Como os bois podiam transportar bagagens, os khoi puderam
fazer tendas e lev-las consigo em vez de terem que construir novos abrigos cada
vez que se deslocavam. Do mesmo modo, a presena de indivduos muito jovens,
muito velhos e de pouca mobilidade deixava de constituir o mesmo embarao
de outrora. Nessas condies, os khoi tiveram como acumular bens em pequena
escala (e at em grande escala no que toca ao rebanho), o que acarretou certa
estratificao nas sociedades pastoris, diferentemente do que se passava com os
san, que eram mais igualitrios e no conheciam a propriedade privada. Para
reger sua sociedade, os khoi no tiveram necessidade de criar uma verdadeira
estrutura poltica, mas alguns deles exerciam uma relativa autoridade sobre seu
cl e, quando comearam a se efetuar trocas espordicas com os navios euro-
peus, alguns indivduos adquiriram um poder pessoal considervel e se tornaram
proprietrios de muitas cabeas de gado.
    A criao permitiu indubitavelmente, mais do que a caa nas pocas pro-
pcias, elevar o nvel de vida, mas os rebanhos podiam ser dizimados pela seca
e pelas epidemias, ou mutilados pelo roubo e confiscos em tempos de guerra.
Quando um desastre deste tipo os atingia, os khoi deviam muitas vezes caar
para assegurar sua subsistncia, pelo menos at o momento em que tinham con-
seguido reconstituir seus rebanhos. As tcnicas e os conhecimentos necessrios
 criao no eram muito diferentes dos que a caa exigia, de modo que os khoi
podiam reencontrar sua condio de san sem muita dificuldade caso necessrio14.
Criadores da pennsula do Cabo, onde as possibilidades de caa eram limitadas,
tendo perdido a posse de seus rebanhos, fixaram-se no litoral para a viverem da
pesca dos peixes e crustceos at o momento de reconstituir novos rebanhos ou
se ligarem como clientes a criadores mais bem sucedidos. Todas essas transfor-
maes aconteciam sem sobressaltos, uma vez que no havia fosso lingustico
ou cultural a separar os diferentes grupos. Se a existncia era instvel, no era
miservel. Os raros khoi, levados para algum pas estrangeiro em uma daquelas
embarcaes que se abasteciam de gua doce no Cabo, no acharam nenhuma
razo para deplorar as condies de vida deles15.

13   R. Elphick, 1977, cap. 1.
14   Ibid.
15   Ibid., cap. 4.
814                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    As relaes entre os khoi e os nguni, na borda oriental do territrio khoi, se
estabeleceram com fronteiras culturais e tcnicas bem definidas. A regio onde
os khoi e os xhosa se encontravam era rica em pastagens, mas de pouco interesse
para a agricultura, j que as precipitaes mal ultrapassavam os 400 milmetros
anuais. No poderia haver fronteira ecolgica clara entre estes dois povos, pois
seus modos de subsistncia eram igualmente possveis. De fato, tudo indica que
houve muitas vezes interpenetrao16. Alguns xhosa abandonavam a agricultura
sedentria e passavam a se dedicar  criao e por vezes  caa. Toda vez que os
khoi eram vtimas de uma crise, tinham a possibilidade de tornar-se clientes dos
xhosa estabelecidos nas proximidades, pelo fato de que, depois de um perodo
de carestia, a produo agrcola volta mais rapidamente a seu nvel normal que
a criao. Certas comunidades tiveram que passar da criao nmade para a
agricultura mista, e vice-versa, e, se geralmente estes movimentos eram de pouca
importncia, s vezes foram impressionantes.  o que Robert Ross demonstra
no que se refere aos gonaqua, os gqunukhwebe e os ntinde: eram todos, segundo
ele, antigos khoi que se voltaram para a agricultura mista e se integraram em
massa  sociedade dos xhosa, adotando sua lngua e suas tradies. Entretanto,
no se trata de uma simples passagem da criao para a agricultura. Fisica-
mente os gonaqua se assemelhavam mais com os xhosa do que os khoi. Por
isso pode-se pensar que eles tinham passado porventura por vrias transies
(passando da agricultura  criao e vice-versa) antes do sculo XVIII. A maior
parte das informaes em nosso poder remontam ao sculo XVIII, quando os
khoi estavam submetidos a tenses considerveis, mas no podemos deduzir
disso que os xhosa tenham conhecido uma expanso constante no decurso dos
sculos precedentes nem que o territrio khoi tenha parado de diminuir, como
uma ortodoxia histrica desvalorizada queria nos fazer crer17. No  seno a
posteriori que o pastoralismo khoi aparece como um modo de vida transitrio e
ultrapassado. Durante a maior parte do perodo que nos ocupa, os khoi tiveram
relaes muito ativas com outras sociedades, mas sem renunciar por enquanto
a seu prprio modo de vida.
    Durante muito tempo, o estudo das comunidades que praticavam a agri-
cultura mista na metade oriental da frica Austral foi falseado por causa da
importncia excessiva que os historiadores atribuam a uma questo nica, qual
seja, a de saber em que poca estas comunidades tinham emigrado em massa do


16    R. Ross, 1978.
17    G. M. Theal, 1910.
A frica Austral                                                                                        815




figura 23.2 Um caador gonaqua (griqua). [Fonte: Travels from the cape of Good Hope into the interior
parts of Africa, traduzido por M. Vaillant, Londres, William Lane, 1970, vol. II, p. 3.  Royal Commonwealth
Society Library.]
816                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Norte tropical para o Sul18. Parece agora que a questo estava mal colocada e que
tinha sido suscitada pelo desejo que os colonos brancos tinham de legitimar suas
aquisies de terras. As implantaes estveis e os deslocamentos de pequenos
grupos a curtas distncias eram muito mais comuns que os movimentos de
populao massivos e rpidos.
    Para empregar a linguagem da arqueologia, pode-se dizer que a ltima fase
da idade do ferro, em 1500, estava firmemente estabelecida entre os Nguni e
os Sotho, o que significa que o ferro era grandemente utilizado e que se sabia
trabalh-lo por toda parte, mas que todos os instrumentos e todas as armas no
eram feitos de metal. A importncia do ferro nas comunidades que praticavam
uma agricultura mista requer uma explicao. As sociedades de caadores e de
criadores (como os khoi e os san no sculo XVI) no tinham dele seno uma
necessidade limitada e podiam contentar-se, para o fabrico de seus instrumen-
tos ou de seus utenslios, com pedra, osso, madeira e fibras. O ferro era prtico
e as necessidades dos khoi neste domnio foram satisfeitas depressa, desde as
primeiras trocas ocasionais com os barcos que se abasteciam de gua no Cabo19.
Em princpio, as comunidades de sistema agrcola misto podem perfeitamente
abrir mo do ferro:  assim que na Melansia os habitantes puderam conduzir
com sucesso uma agricultura complexa durante 5.000 anos antes da introduo
de instrumentos de ao, embora esta tenha permitido sensveis economias de
mo de obra20, e, na frica Austral, por 1.000 anos, em certas comunidades de
agricultura mista, o emprego do ferro foi quase nulo. A abundncia deste metal
no final da idade do ferro no trouxe uma renovao completa dos modos de
produo, mas devia facilitar as atividades existentes e torn-las mais produtivas.
O agricultor tem um rendimento bem melhor quando dispe de instrumentos
de ferro para limpar e roar o terreno e para revolver a terra para o plantio, o
que lhe proporciona mais tempo para trabalhos de artesanato, como a olaria,
e para a criao extensiva. As escavaes arqueolgicas levam a pensar que o
nmero de animais domsticos e de olarias cresceu no fim da idade do ferro21,
o que implica uma elevao do nvel de vida e uma diviso do trabalho mais
significativa em cada comunidade.
    Os escritos de viajantes relativos  vida das sociedades nguni ao Leste da
cadeia montanhosa entre 1500 e 1800 so de interesse irregular e pouco obje-


18    Ibid.
19    R. Elphick, 1977, cap. 4.
20    R. F. Salisbury, 1962; D. Denoon e C. Snowden, 1981.
21    G. M. Hall, 1976.
A frica Austral                                                                 817



tivos22. Para reconstituir este perodo,  preciso acima de tudo apelar para o
estudo dos vestgios materiais, completando-o com aquele das tradies orais
que sobreviveram23. Os cereais e os rebanhos constituam os principais elemen-
tos de subsistncia. O tradicional sorgo foi suplantado, no sculo XVIII, pelo
milho, que tinha rendimento superior, mesmo apresentando o inconveniente
de adaptar-se menos s regies de baixas precipitaes24. Tal superioridade de
rendimento pode ter contribudo para o crescimento da pecuria, mas a melhor
maneira de chegar a isso consistia em combinar as pastagens fixas com a tran-
sumncia para tirar proveito das diferentes qualidades dos prados. Os obstculos
com que se defrontava este tipo de agricultura mista foram indubitavelmente
reforados pelas variaes climticas sugeridas por Hall para o conjunto da zona
costeira oriental25.  assim que a primeira metade do sculo XVIII teria sido
caracterizada por uma diminuio das precipitaes e que seu final teria sido
marcado por uma grave seca, o que teria intensificado a luta pela ocupao das
pastagens utilizveis mesmo nos perodos secos.
    As densidades populacionais parecem ter sido muito inferiores s que agora
estamos habituados. Peires estima em 100.000 o efetivo das comunidades de
lngua xhosa em 1800, e isso embora tivessem absorvido um grande nmero de
khoi durante o sculo ou os sculos precedentes26. Se estes nmeros so caracte-
rsticos da zona costeira oriental, no deve a jamais ter havido, portanto, presso
demogrfica grave entre 1500 e 1800, apesar dos mtodos de agricultura e de
criao extensivos da poca. Esta considerao geral  um elemento importante
do contexto em que nos  preciso examinar os sistemas polticos dos nguni, cujos
vestgios permanecem. O elemento constitutivo essencial destes sistemas polti-
cos, e sua menor unidade vivel, era a famlia formada por um pequeno nmero
de pessoas que possuam animais e cultivavam a terra. No que concerne  maior
parte das necessidades cotidianas, a famlia podia se comportar como uma uni-
dade independente, trocando mercadorias e mulheres com outras famlias em
uma liberdade quase total. Na prtica, cada famlia era ligada pela via patrilinear
a uma linhagem e, por intermdio desta, a um cl. Desde a poca de Tshawe, os
xhosa, por exemplo, estavam unidos de modo muito dbil por uma obrigao de
fidelidade comum ao cl real dos descendentes de Tshawe. No entanto, o chefe


22   M. Wilson, 1969b.
23   J. B. Peires, 1981.
24   G. M. Hall, 1976.
25   Ibid.
26   J. B.Peires, 1981.
818                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




figura 23.3   Agricultores khoi khoi fazendo a batedura dos cereais. [ The Mansell Collection, Lon-
dres.]
A frica Austral                                                               819



do cl real dispunha apenas de alguns meios para impor sua autoridade sobre
as outras comunidades de lngua xhosa, agindo sobre as alianas matrimoniais e
distribuindo presentes, a fim de que outros cls (inclusive os que no eram com-
postos de xhosa, como os vizinhos khoi) se tornassem devedores seus. Em ltima
instncia, a possibilidade para a famlia real de distribuir esposas, presentes e
terras dependia de sua capacidade de produzir mais que outras famlias e cls. O
chefe tinha em geral mais esposas (e, por isso, mais unidades de produo) que os
outros, mas nada se opunha a que um homem comum adquirisse grande nmero
de cabeas de gado ou de esposas27, de sorte que a margem de superioridade
do chefe no era sempre muito grande. E, frente s ambies centralizadoras
dos chefes, as pessoas comuns tinham as suas ambies prprias e, sobretudo, o
desejo de viver livre das exigncias dos chefes o quanto fosse possvel. As lutas
incessantes que dilaceravam os principais cls xhosa, bem como provavelmente
outras sociedades nguni, eram, sem dvida alguma, encorajadas por homens
do povo mais decididos que se esforavam para paralisar a autoridade central,
levando-a a dilacerar-se por si mesma. Estes obstculos  instaurao de uma
administrao de tipo desptico duraram at o final do sculo XVIII. At ento,
a vida cotidiana parece ter sido pacfica e ordinariamente assaz fcil.  certo que
os raros banidos brancos que, tendo-se refugiado em famlias nguni, deixaram
relatos de suas aventuras, no pareciam muito impacientes em se reintegrar 
sua sociedade estritamente hierarquizada e fortemente controlada28.
    Sabe-se ainda menos sobre os povos sotho e tswana que viviam no Oeste dos
montes Drakensberg, onde as precipitaes menos abundantes eram mais prop-
cias  criao (aliada  agricultura) do que no Leste desta cadeia de montanhas.
No sculo XVI, pesava sobre eles a ameaa de um ataque provindo do Norte
do rio Limpopo29. No sculo XVIII, a ameaa se tornou mais clara: provinha de
novas comunidades que se deslocavam para o Norte subindo os vales do Orange
e do Caledon. Neste mesmo tempo, os sotho e os tswana deviam ter relaes
com os khoi, os san, os nguni e os shona, uma vez que havia trocas comerciais
limitadas em todas estas direes30, mas no estado atual dos conhecimentos
pouco mais poderia ser dito.
    Como os san e os khoi, as comunidades bantas do sul tambm estabele-
ceram relaes com outras comunidades de caractersticas prprias, mas no


27   Ibid.
28   Ibid. M. Wilson, 1969a.
29   M. Wilson, 1969a.
30   R. Elphick, 1977; J. B. Peires, 1981; M. Wilson, 1969a.
820                                                                          frica do sculo xvi ao xviii




figura 23.4     Uma famlia namaqua. Gravura do sculo XVII. [ The Mansell Collection, Londres.]



foram transformadas por esses contatos, no mais do que elas influenciaram as
sociedades com as quais mantiveram relaes. Peires cita fontes que se referem
a alianas entre os chefes xhosa e grupos khoi, como os chainouqua no sculo
XVII, vendo a uma prova da subordinao de certos khoi a dirigentes xhosa31.
Entretanto, em se considerando a dificuldade com a qual os chefes xhosa exer-
ciam sua dominao sobre os xhosa sedentrios, cabe mostrar-se um pouco
ctico neste ponto, pois os grupos khoi parecem ter considerado estas alianas
como uma segurana em longo prazo antes que uma prova de subordinao
permanente. Em todo o caso, mesmo admitindo que tal subordinao existia,
a histria das interaes entre os dois grupos atesta a permanncia da especia-
lizao de cada um deles. Os diferentes grupos africanos eram, ao que parece,
capazes de coexistir durante longo perodo sem que um impusesse ao outro seu
modo de produo.
    A historiografia da frica Austral  dominada pela histria da colnia holan-
desa da Cidade do Cabo e de sua expanso, histria que transformou a vida
de todos os habitantes da regio. Na verdade, os portugueses no tinham sido
apenas os primeiros navegadores a contornar o Cabo da Boa Esperana, tinham

31    J. B. Peires, 1981, p. 22-24.
A frica Austral                                                              821



sido tambm os primeiros europeus a criar uma colnia permanente na regio.
Ser-nos- mais fcil compreender o carter fundamentalmente inovador da
colnia holandesa, se a comparamos  colnia portuguesa que a tinha precedido,
e cuja durao, mas no a influncia, foi mais importante.
    No sculo XVI, Portugal era um Estado feudal, pequeno e pobre. Sua expan-
so alm-mar foi organizada pela monarquia como um monoplio do comrcio
com a ndia e sustentada pela Igreja que, na ausncia de qualquer outra fonte
de mo de obra instruda, exercia uma profunda influncia sobre o estilo e a
prpria substncia da administrao. Em 1510, a dominao colonial tinha
Goa como centro e a rota martima era protegida por fortes que comandavam
o canal de Moambique, desde a baa Delagoa at a atual Tanznia32. Detendo
uma superioridade em termos de frota e de armas de fogo, Portugal no teve
dificuldades para conquistar os portos rabes e sualis, mas a supremacia militar
no era suficiente para a administrao da regio. A segurana dos portugueses
ao longo da costa africana e sobretudo em Moambique, que deveria tornar-se
seu quartel geral na regio, estava garantida por fortalezas que comandavam
o interior, mas nem sempre relacionadas com ele. Tratava-se de um imprio
essencialmente feudal em que cargos importantes e lucrativos eram vendidos
pela Coroa mediante uma renda anual. O imprio era povoado por criminosos
portugueses, negociantes no-portugueses e pequenos aventureiros. O lucro
deveria provir do comrcio do ouro e do marfim, e depois do de escravos; este
comrcio reconhecia a autoridade dos chefes africanos e suscitou neles o mais
antissocial dos comportamentos. No fim do sculo XVI, o imprio portugus
do Oceano ndico fora abalado pelas potncias comerciais rivais: os rabes
tinham recuperado suas possesses da frica Oriental, enquanto os holandeses,
os ingleses e os franceses se haviam implantado solidamente nas ndias. O canal
de Moambique perdera sua importncia estratgica com a abertura de rotas
mais diretas ligando a Europa  sia, passando pelo Cabo ou pela ilha Maurcio,
ou mesmo sem escala alguma.
    A explorao de Moambique foi ineficaz. Em vez de introduzir novos
modos de produo, os negociantes portugueses e indianos esforaram-se por
tornar-se intermedirios. As terras, que foram divididas em prazos e arrendadas
a prazeros, constituam mais domnios feudais onde se praticava uma agricultura
de subsistncia do que exploraes destinadas a produzir bens comercializveis.
Os produtos de exportao (marfim, ouro e escravos) eram recolhidos pelos


32   M. V. Jackson-Haight, 1967; R. Elphick, 1977.
822                                                        frica do sculo xvi ao xviii



indgenas. Este tipo de explorao no poderia, alis, subsistir sem o concurso
de sociedades autctones. Por este motivo, o prprio Cabo, com sua populao
dispersa e sua pouco abundante produo, no oferecia nenhum interesse para
os portugueses. Mesmo em Moambique, na ausncia de um governo eficaz que
poderia ter zelado pelos interesses a longo prazo dos negociantes, o comrcio se
transformou em pilhagens de curto alcance. O capitalismo mercantil sem capital
e a colonizao sem colonizadores tiveram como efeito perturbar o equilbrio
da frica do Sudeste, mas no puderam provocar uma transformao durvel
das sociedades existentes.
    A longa luta contra o monoplio comercial de Portugal foi marcada, em
1602, pela criao da Companhia Holandesa das ndias Orientais, que agrupou
todas as pequenas sociedades comerciais holandesas que se interessavam pelo
comrcio com a sia. Como as empresas comerciais inglesas da poca, esta
companhia fora fundada, com o apoio da Coroa holandesa, por negociantes
cujo objetivo era obter o monoplio nacional (e se possvel internacional) do
comrcio entre determinadas regies. Ela estava livre de todo zelo religioso e
era independente das igrejas reformadas, pois os agrupamentos religiosos no
tinham mais o monoplio da educao na Europa da Reforma. Os "dezessete
Senhores" que constituam o Conselho Administrativo da Companhia nos Pa-
ses Baixos podiam, portanto, permitir-se perseguir sem nenhuma ambiguidade
seu objetivo nico, que era a busca do lucro. Elemento tambm de fundamental
importncia, a Companhia podia permitir-se remessas de fundos considerveis
que no recuperaria seno em longo prazo. O estabelecimento de uma colnia-
-guarnio no Cabo foi exatamente um investimento deste tipo, isto , de um
gnero que s uma sociedade prspera, atenta e previdente podia conseguir33.
Como os franceses em Maurcio e os portugueses em Moambique, os "dezes-
sete Senhores" consideravam a guarnio do Cabo como um ponto estratgico
para a continuidade do comrcio com a sia. Dela fizeram igualmente um
posto de abastecimento e de sade, sendo a guarnio encarregada de com-
prar carne fresca dos khoi, de cultivar legumes e de abastecer assim as frotas
holandesas que iavam vela para Batvia ou dali voltavam. Por isso, era mais
que indicado que o primeiro comandante da colnia fosse Jan van Riebeek,
que era cirurgio. Quando se verificou que nem os khoi nem os empregados da
Companhia podiam produzir vveres suficientes, a Companhia recorreu a um
tipo modificado de produo capitalista: deu a seus empregados o estatuto de


33    G. Schutte, 1979.
A frica Austral                                                             823



"burgueses livres" que produziam por sua prpria conta e se reservou o controle
da comercializao. Seus objetivos e seus procedimentos eram to genuinamente
capitalistas quanto os dos portugueses tinham sido feudais; por isso ela colheu
os frutos desta organizao metdica.
    Como as outras potncias europeias que colonizaram zonas de pastagens
de clima temperado e de populao esparsa, os holandeses descobriram que a
dinmica de sua nova colnia era muito diferente da de suas possesses tropicais.
Durante mais de um sculo, at que mantiveram relaes com os agricultores-
-criadores sedentrios, sua experincia foi semelhante  dos espanhis nos pam-
pas e  dos britnicos nas campinas da Amrica do Norte e da Austrlia do
Sudeste34.
    O elemento determinante da histria da colnia do Cabo talvez tenha sido
a extrema lentido do progresso da agricultura. Durante os primeiros quarenta
anos de sua histria, a colnia teve que importar uma grande parte dos pro-
dutos alimentcios de que precisava, e isto apesar dos conhecimentos muito
avanados que os colonos tinham adquirido na Europa Ocidental35. A maneira
mais compensatria de utilizar a terra era a criao, que deveria ter um carter
extensivo. O segundo elemento determinante foi a impossibilidade de recrutar
mo de obra autctone. Ao passo que os holandeses tinham conseguido levar
numerosos indonsios a se dedicar s culturas comerciais, manipulando suas
estruturas sociais, foi-lhes impossvel transformar os khoi em agricultores que
produzissem para exportao, sem destruir com isso a sociedade khoi. Os raros
khoi que sobreviveram e permaneceram no territrio da colnia se fundiram
com outros elementos para fazer nascer uma nova comunidade, a dos hotentotes,
que deviam ser o fulcro da comunidade dos mestios do Cabo. A Companhia
no podia utilizar os khoi como mo de obra e teve que trazer escravos de outras
regies da frica e das ndias Orientais. Estas relaes afastavam de vez os
khoi ou os san, salvo alguns, dos meios de produo. Para usar da terminologia
dos estudos sobre o desenvolvimento, o capitalismo centrado na criao no se
articulava com outros modos de produo, antes os eliminava.
    Esta caracterstica da nova sociedade poderia ter sido pouco importante se
no viesse acompanhada de um expansionismo contnuo. Neumark estima que
o avano da criao foi provocado sobretudo pelo crescimento da demanda
exterior de carne fresca36. Guelke e Ross preferem ver o principal motor da

34   D. Denoon, 1983.
35   A. J. Boeseken, 1969.
36   S. D. Neumark, 1957.
824                                                        frica do sculo xvi ao xviii



expanso no prprio dinamismo da sociedade37. Como nos ensina a experincia,
uma organizao capitalista deve desenvolver-se ou morrer: talvez seja supr-
fluo nos perguntar se as incitaes foram externas ou internas. No Cabo, a mo
de obra era rara e cara, enquanto era barata e abundante a terra, de tal forma
que a maneira mais lgica de assegurar a expanso capitalista consistisse no
somente em cultivar os solos de modo intensivo, mas sobretudo em lanar-se 
expanso territorial. A extenso geogrfica da colnia teve como consequncia,
muito curiosamente, a reproduo do esquema de explorao das terras por uma
populao dispersa que caracterizara a sociedade khoi. Com efeito, a criao
comercial se limitava essencialmente a fazer pastar mais ou menos os mesmos
bovinos e os mesmos ovinos nas mesmas terras de antes, algumas vezes at
empregando khoi como pastores. No , portanto, a utilizao dos solos, mas,
antes, o sistema de relaes sociais que foi transformado pelo novo regime. Nos
confins da colnia, era especialmente difcil para os colonos holandeses exercer
um controle sobre sua mo de obra, pois era muito fcil para os trabalhadores
descontentes fugir para o Leste ou para o Norte, para escapar de condies
penosas de trabalho. A escravido no constitua seno uma soluo parcial, uma
vez que os escravos custavam caro e podiam tambm eles fugir. A Companhia
tambm se esforou para dominar a situao, estabelecendo com os chefes khoi
uma srie de tratados, pelos quais os escravos fugitivos deveriam ser devolvidos
 colnia.
    No curso do sculo XVIII, as exigncias da criao comercial fizeram nascer
uma srie de relaes sociais que esto mais prximas das que se acham no
pampa sul-americano e na Austrlia do sculo XIX do que das que se acham
no resto da frica. O Cabo era o principal entreposto, o foco de todas as rela-
es comerciais e ponto de encontro das culturas e das ideias internacionais.
Os representantes da Companhia no se limitavam a administrar a colnia,
faziam tambm comrcio por sua conta, infrao que permanecia impune desde
que no fizesse a Companhia perder dinheiro38. Eles se aliavam aos proprie-
trios fazendeiros, aos comerciantes e estalajadeiros mais prsperos da cidade
e dominavam um contingente numeroso de escravos, submetido a uma rgida
disciplina. Tambm se sentiam superiores aos criadores que vinham de tempos
em tempos  cidade para vender carne, peles e sebo. Falando um holands muito
grosseiro, mal sabendo ler e escrever e usando vestimentas prticas mas bem
pouco elegantes, os criadores eram evidentemente pouco habituados s sutile-

37    L. Guelke, 1979; R. Ross, 1975.
38    G. Schutte, 1979.
A frica Austral                                                                                825
figura 23.5 Famlia khoi khoi fazendo pastar seu rebanho, com vista para a montanha da Mesa e para a
Cidade do Cabo. [ The Hulton-Deutsch Collection, Londres.]
826                                                        frica do sculo xvi ao xviii



zas da vida urbana e corriam o risco de serem enganados pelos negociantes de
carne da cidade. Tinham tambm certa tendncia a maltratar sua mo de obra
porque viviam muitas vezes longe demais das foras de represso que vigiavam
as cidades. Entretanto, por mais desajeitados que fossem, constituam a fora
de sustentao da economia colonial. O efetivo de escravos era constantemente
reforado por meio de importaes, mas o contingente de criadores tambm
aumentava to depressa, em funo da imigrao somada ao crescimento natu-
ral39. Cento e cinquenta anos aps sua fundao, a colnia contava com 20.000
"burgueses livres" e com mais de 25.000 escravos40.
    A expanso territorial da colnia tendia a dispersar os khoi e os san que se
achavam na parte ocidental do interior. Ao mesmo tempo, por causa do rigor de
sua hierarquia e de sua disciplina, a nova sociedade manifestava uma tendncia
a excluir os escravos e os antigos khoi mais vigorosos e independentes. Ocorria
s vezes que colonos brancos fugissem em direo  fronteira, ora para escapar
 lei, ora para procurar fortuna e ora por estas duas razes ao mesmo tempo.
Alguns desses fugitivos estavam armados e muitos deles eram emritos cavalei-
ros, de tal forma que, como os gachos cujo movimento foi engendrado mais
ou menos pelas mesmas foras sociais no pampa sul-americano, constituam
uma comunidade de seres endurecidos e violentos41. Trs possibilidades se lhes
ofereciam. De incio, podiam tentar se fazer recrutar pelo Estado, como agentes
de segurana nas fronteiras; esta opo foi regularizada, no final do perodo de
que nos ocupamos, com a formao do corpo dos hotentotes em 179542. Em
seguida, podiam tentar instalar-se e levar uma vida sedentria entre os colonos
brancos da fronteira, seja como trabalhadores assalariados (como o desejavam
os brancos), seja como criadores independentes (como eles mesmo desejavam).
Embora este fosse um objetivo sedutor, era muito difcil atingi-lo, porque a
reintegrao das terras da colnia e a proteo da propriedade fundiria privada
deixavam os habitantes mestios da fronteira passveis  expropriao. Os khoi
no podiam seno raramente adquirir ttulos de propriedade fundiria em seu
prprio nome e a expanso do regime colonial tornava os criadores brancos
muito ousados para que se disputassem suas terras aos proprietrios de fato
que eram. Era, portanto, a terceira possibilidade a mais promissora: tratava-se



39    R. Ross, 1975.
40    Ibid. W. M. Freund, 1979.
41    S. R. Duncan-Baretta e J. Markoff, 1978.
42    W. M. Freund, 1979.
A frica Austral                                                             827



de haver sempre um pouco de avano no que se refere  progresso territorial
dos colonos brancos.
    Foi nas vastas regies secas que se estendiam ao Norte dos territrios ocu-
pados pela Companhia, na bacia do Orange e de seus afluentes, que vieram a
se implantar novas sociedades como as dos kora, dos griqua e dos nama, que
raras vezes foram importunadas pelas autoridades da Companhia entre 1730 e
1780, aproximadamente43. Seus ttulos de propriedade no eram expressamente
reconhecidos pelos brancos, mas tambm no eram contestados. A fim de asse-
gurar sua subsistncia, estas pequenas sociedades novas capturavam, criavam
e vendiam animais, utilizando armas de fogo e plvora que compravam na
colnia. Consequentemente, o papel de dirigente voltava aos fronteirios que
podiam falar a lngua dos brancos e das autoridades da Companhia (bandidos
brancos como Bloem ou descendentes de escravos como a famlia Kok). Muitos
sabiam e se lembravam que descendiam de bandos khoi (por isso os griqua,
cuja origem remontava a uma comunidade chariguriqua, tomaram o nome de
khoi). No entanto, no eram eles simplesmente refugiados que tinham fugido
do territrio da Companhia, eram tambm a vanguarda. Teriam querido, com
efeito, ascender ao estatuto de criadores comerciais independentes, de que os
brancos j se beneficiavam, e no simplesmente ter acesso  cultura e  condio
de pastores nmades, cuja poca estava claramente ultrapassada. Entretanto,
suas aspiraes pessoais de quase nada valiam. Dependentes das armas de fogo
provindas da colnia e obrigados a ter sempre um pouco de vantagem sobre
seus rivais brancos, era-lhes impossvel tornar-se sedentrios por muito tempo.
A segurana precria que chegavam a gozar no poderia ser adquirida seno
pela ao de desapossar alguns outros. Constituam-se como uma zona de som-
bra e de violncia que era um dos elementos essenciais da nova economia e da
nova sociedade que os criadores comerciais formavam. Quando a fronteira foi
finalmente "fechada" no sculo XIX, ao mesmo tempo por razes ecolgicas e
porque a administrao colonial se havia fortalecido, teve fim a era dos griqua.
Este fim estava inscrito nas relaes existentes no sculo XVIII e, se podia ser
adiado, no poderia ser evitado.
    A fronteira setentrional da colnia foi o ambiente tpico da implantao
das novas sociedades multirraciais, mas a situao evoluiu de modo anlogo na
fronteira oriental, onde o curso dos acontecimentos foi contudo mais rpido
e seu resultado, por volta de 1790, mais dramtico, uma vez que envolveu no


43   M. Legassick, 1979; R. Ross, 1976.
828                                                          frica do sculo xvi ao xviii



somente os criadores brancos, as autoridades do Cabo e os grupos de refugiados,
mas tambm os bantos que viviam mais ao sul. Havia, nos limites do territrio
xhosa, uma zona de insegurana que se parecia  que havia nas proximidades
da fronteira dos criadores brancos. A vida tornou-se perigosa quando estas duas
zonas de insegurana se sobrepuseram.
   Phalo conseguiu talvez exercer certo controle sobre a maior parte das etnias
de lngua xhosa, mas sua morte, em 1775, desencadeou um conflito entre seus
dois filhos mais importantes, Rharhabe e Gealeka44. A morte de Gealeka, trs
anos depois, dividiu as foras de seus partidrios e aconteceu o mesmo com a de
Rharhabe, em 1782 (em uma guerra contra os tembu), uma vez que seus parti-
drios engrossaram o campo seja do regente Ndlamba, seja do jovem herdeiro
Ngqika. Cada uma dessas duas faces aspirava dominar toda a comunidade de
lngua xhosa, bem como os vizinhos khoi que foram envolvidos como aliados.
Do ponto de vista de cada uma destas faces, os criadores brancos surgiam, a
exemplo dos criadores mestios, como potenciais aliados e eventuais clientes dos
xhosa ricos. A prtica da transumncia, que fazia os rebanhos de bovinos percor-
rerem distncias considerveis, fez com que os brancos, khoi e xhosa entrassem
logo em contato em pequenos grupos. Os xhosa precisaram de uma gerao para
entender o carter particular da criao comercial com sua necessidade ilimitada
e sempre crescente de novas pastagens. Durante este tempo, comportaram-se
como se os criadores brancos representassem apenas uma ameaa secundria.
   O fato de que repugnava  Companhia gastar dinheiro de seus acionistas e
as dificuldades que advinham da administrao de uma regio distante e fra-
camente povoada levaram os criadores brancos a encontrar por eles mesmos os
meios necessrios a sua proteo e a sua expanso. A Companhia remunerava
um magistrado residente, o landdrost, nos grandes centros, mas ele no podia
sozinho manter a ordem. Nas suas funes judiciais, os landdrost eram assistidos
por burgueses que tinham o ttulo de heemraden e que, para as questes militares,
resolviam sempre mais as coisas por conta prpria. Cada adulto de sexo mas-
culino em idade de combate era um proprietrio fundirio em potencial, o que
contribua, grosso modo, para colocar todos os adultos de sexo masculino em
p de igualdade, apesar das diferenas de riqueza cada vez mais marcantes que
surgiam entre eles. Ele era, pelo menos em princpio, o patriarca de uma pequena
comunidade que compreendia sua famlia, seus escravos e seus empregados, e
cada clula patriarcal geria a maior parte de seus negcios fora da esfera judicial


44    J. B. Peires, 1981.
A frica Austral                                                              829



oficial. Quando um combate era iminente, os patriarcas elegiam um comandante
ad hoc e formavam um comando que se dispersava aps a partilha do butim.
Era, portanto, to difcil para esta sociedade de frgil estrutura quanto para os
xhosa no seu Estado dividido adotar uma estratgia de longo prazo. Quando
os brancos se tornaram mais numerosos no final do sculo XVIII, os burgueses
comearam a querer libertar-se da tutela da Companhia. Em 1795, quando
ela vivia seus derradeiros dias, eles recusaram formalmente sua autoridade e
proclamaram duas repblicas independentes de patriarcas brancos, as efmeras
repblicas de Swellendam e de Graaf Reinet45.
    Nessa poca, uma rebelio muito mais grave se preparava. A expanso territo-
rial dos criadores brancos tinha levado fatalmente  expropriao de comunidades
khoi, bem como de certos criadores comerciais khoi, como Klaas Stuurman46. Aos
olhos dos brancos, era normal que os khoi se contentassem em ser trabalhadores
agrcolas e no exploradores independentes. Aos olhos dos chefes das faces
xhosa, era normal que os khoi se contentassem em ser clientes dos xhosa ricos.
Quanto aos prprios khoi, evidentemente, estavam descontentes com a condio
de "Hotentotes" a que a Companhia os condenava, bem como com a condio de
cliente que os xhosa lhes propunham. Em 1799, muitos deles se revoltaram com
o apoio dos khoi armados que estavam a servio da nova administrao britnica.
Diferentemente dos burgueses republicanos que queriam manter o status quo, mas
romper o jugo da Companhia, os trabalhadores agrcolas, soldados e exploradores
khoi queriam rejeitar o status quo na fronteira. Para os primeiros, tratava-se de
uma revolta, para os segundos de um comeo de revoluo.
    Durante as guerras da Revoluo Francesa, a marinha britnica, desejosa de
consolidar o domnio dos mares, apoderou-se de certo nmero de guarnies
no mundo inteiro. Uma delas era a do Cabo, que foi ocupada em 1795 depois
de breve escaramua. Nada nos leva a pensar que os oficiais do exrcito e da
marinha britnicas que a ocuparam se interessavam muito pelo interior, salvo
para fazer a reinar a ordem. Ora, como  em geral o caso neste gnero de
conquista, o meio mais simples de manter a ordem era reconhecer a hierarquia
local dos poderes estabelecidos. Por isso, se as repblicas dos burgueses foram
rapidamente eliminadas, os britnicos confirmaram os direitos destes sobre suas
terras. Entretanto, a revolta dos khoi no poderia ser reprimida de maneira to
simples. No tendo suficientes tropas para uma longa campanha na fronteira,
o general Dundas se limitou a acalmar os espritos. Terras foram distribudas

45   H. Giliomee, 1979b.
46   Ibid.
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a alguns khoi, especialmente a Stuurman e a seus irmos; outros khoi foram
encorajados, mas sem serem obrigados a retomar seu emprego ou a reintegrar
o corpo dos hotentotes.  assim que o descontentamento continuou a incubar
durante alguns anos para irromper novamente no comeo do sculo XIX47.
    O Cabo, da forma como os Britnicos o ocuparam no final do sculo XVIII, j
adquirira muitas das caractersticas que deveriam marc-lo no sculo seguinte. A
cidade, que contava apenas com 15.000 habitantes, continuava a ser sobretudo uma
guarnio e um entreposto para o comrcio asitico e europeu, mas tinha se tornado
o porto de sada de uma economia de exportao baseada no interior, e o abandono
dos velhos acordos de monoplio comercial iria provocar um crescimento massivo
da produo destinada  exportao durante o sculo que acabava de comear. No
conjunto da colnia, havia em torno de 22.000 "cristos", sendo em sua maior parte
brancos, com exceo de alguns negros alforriados. O nmero dos khoi e dos san
elevava-se  cerca de 14.000 e o dos escravos a 25.00048. Como o mostra a termino-
logia dos recenseamentos, o Cabo compreendia uma srie estritamente definida de
castas, cada uma das quais se distinguia por suas possibilidades de acesso aos meios
de produo. S os "cristos" podiam possuir terras, mesmo se os khoi no tivessem
sido de todo expropriados, e s os escravos eram inteiramente privados de direitos
civis, embora, tambm nesse caso, os khoi tivessem ficado em uma situao ambgua
que variava segundo as condies locais e segundo seu nmero.
    Os khoi foram cada vez mais reduzidos a uma posio intermediria entre a
colnia, de um lado, e os xhosa, os sotho e os tswana, de outro. No fim do sculo
XVIII, este papel de intermedirio terminara na fronteira oriental, do que resultou
a exploso da revolta, mas devia prosseguir ainda durante duas ou trs geraes na
fronteira setentrional que era mais aberta. Porque foram os khoi (que se tornaram
khoi, griqua, nama e kora) que sofreram o maior peso do choque da expanso dos
criadores da parte ocidental do Cabo, a maior parte das comunidades de agricul-
tura mista da regio no foi ento atingida seno de modo dbil. Ns vimos que
os xhosa podiam tratar os criadores brancos como se eles fossem simplesmente
khoi de pele clara. Mais ao Norte, entre os nguni do Norte, o aparecimento de
confederaes poderosas, que deveriam desembocar na formao do Estado zulu,
foi inteiramente independente dos acontecimentos do Cabo. Entretanto, em longo
prazo,  a criao de rebanho em carter comercial, agente de transformao resul-
tante por sua vez da transformao capitalista da Europa e da sia, que havia de
revelar-se a fora social mais duradoura do sculo XIX.

47    W. M. Freund, 1979.
48    Ibid. R. Ross, 1975.
O chifre da frica                                                       831



                             CAPTULO 24


                       O chifre da frica
                                 E. Haberland




    Os sculos XVI e XVII so os mais dramticos da histria da frica do
Nordeste. O poder poltico e militar e a notvel cultura do imprio cristo da
Etipia ruram aos pedaos. As invases inimigas dizimaram parcelas inteiras da
populao crist e privaram a Etipia, por longos anos, de algumas provncias.
Durante um certo tempo, o magest egzi `abhrwit ("Santo Imprio"), asse-
diado por todos os lados, no foi mais do que a prpria sombra. A autoridade
do Estado parecia existir somente quando o prprio imperador enfrentava o
inimigo  frente de seu exrcito, pois caso contrrio ele era reduzido a nada; e
essas tribulaes polticas exteriores eram agravadas por desordens espirituais
tambm muito destrutivas incessantemente colocando em perigo a unidade do
Imprio, do povo cristo e da Igreja Ortodoxa. A notvel influncia de alguns
missionrios portugueses ganhou para o catolicismo um nmero crescente de
convertidos, entre os quais o prprio imperador que, em 1630, abraou a nova
f e a elevou ao estatuto de religio oficial do Estado. Guerras civis de uma
violncia inigualvel varreram o Imprio enfraquecido at o momento em que
a crena estrangeira e seus adeptos foram finalmente expulsos.
    At o fim do sculo XVII, assistiu-se em seguida a um perodo de reafirma-
o do Imprio e de restaurao da f tradicional e da cultura da Etipia crist,
que refloresceram, embora com menos exuberncia do que antes. Depois, a partir
de 1700, comeou um perodo de esfacelamento do Imprio, que, segundo o
832                                                         frica do sculo xvi ao xviii



exemplo do Antigo Testamento, foi chamado de "Era dos Prncipes (ou Ju-
zes)". A anarquia crescente s terminou em 1855, momento em que Teodoro
II inaugurou a idade dos grandes soberanos, aos quais o Imprio Etope deveu
sua restaurao e sobrevivncia  era colonial.
    Todavia, a frica do Nordeste no compreende apenas o imprio cristo
da Etipia. Por volta de 1500, a cultura islmica atingia seu apogeu no Leste e
no centro do subcontinente, e o belicoso isl no tardaria a obter suas vitrias
mais retumbantes. Guiado pelo esprito da jihad (guerra santa), Ahmad ibn
Ibrhim al-Ghazi, brilhante chefe militar e defensor da f, apelidado de Gra
(o Canhoto) nas crnicas da Etipia crist, obtinha vitria sobre vitria. A cada
ano, durante a estao seca, seus exrcitos percorriam o Amahara e o Tigre,
ocupados em destruir e submeter, forando provncias inteiras a se converterem
ao isl, ainda que temporariamente. Mas finalmente, as foras que mantinham
essas atividades polticas e civilizadoras eram insuficientes. Elas se esgotaram
e, com o desaparecimento do chefe, tudo ruiu. O imprio cristo comeou a
contra-atacar. Por fim, as migraes do grande povo oromo (galla), dispondo
de foras inesgotveis, destruram as comunidades de culturas florescentes dos
povos muulmanos da Etipia Central, no deixando praticamente nenhum
vestgio delas.
    Ento apareceram em cena dois povos importantes, os oromo e os somalis,
que desempenhariam doravante um papel determinante na histria da frica
do Nordeste. Eles evoluram de maneira completamente diferente. Os oromo
dispersaram-se em todas as direes, no decorrer de diversas migraes total-
mente independentes umas das outras, rumo ao Oeste, ao centro, ao Leste e
mesmo ao Norte da Etipia. Eles invadiram regies despovoadas por guerras de
religio, submeteram e assimilaram outras populaes, adaptando-se ao mesmo
tempo s culturas superiores de outros povos. Eles tambm no criaram para si
uma verdadeira cultura nacional.
    O mesmo no ocorreu aos somalis. A participao de vastos grupos na guerra
santa de Gra e a influncia sempre crescente do isl, que os distinguia da maio-
ria dos povos da frica do Nordeste, contriburam fortemente para forjar neles
uma conscincia nacional bem afirmada. Ainda que subdivididos, de acordo com
a genealogia, em vrios grupos tnicos, os somalis perceber-se-iam, ao menos a
partir dessa poca, como um nico povo tendo uma nica cultura e uma nica
religio. A expanso, que, entre 1500 e 1700, continuaria em direo ao Sudo-
este at Juba e talvez alm, no sustentava-se apenas em sua fora militar e seu
crescimento em nmero, mas tambm em seu poder de assimilao.
O chifre da frica                                                                                          833



    Enquanto os acontecimentos polticos e culturais do Norte, do centro e do
Leste da regio eram conhecidos pelos historiadores, at recentemente a histria
do Oeste e do Sudeste permanecera bastante obscura. Sabemos agora que esse
perodo viu o desabrochar de uma cultura que, por sua criatividade e seu dina-
mismo, constitui um dos fatos mais interessantes da histria da frica. Exercida
a partir do Norte, a influncia direta do imprio cristo que, desde 1300 seno
mais, procurara englobar o Sul do pas em sua esfera de influncia, criou grandes
Estados de culturas refinadas que chegaram at as fronteiras naturais das altas
terras do Sul.  preciso destacar particularmente a fundao dos Estados de
Enarya: Bosa, Kaffa, e Chekko (Sekko), bem como a de Wolayta, de Dauro e
dos pequenos Estados do planalto gamo.


    O imprio cristo da Etipia por volta de 1500
    Por volta de 1500, o imprio cristo da Etipia atingira no plano poltico,
cultural e, de fato, em todas as outras reas, um nvel que no voltaria a encontrar
durante sculos1.
    No que concerne  poltica externa e ao poder militar, ele exerceu uma hege-
monia incontestada no Nordeste da frica. O Sudo ainda no era islamizado.
Grupos cristos  tudo o que restava do Estado de Sb  subsistiam ainda
nas regies situadas na confluncia do Nilo Branco com o Nilo Azul e no
tardariam a ser ocupadas pelos fundj. As cidades islmicas das margens do Mar
Vermelho  a Eritreia atual  eram de pouca importncia poltica. Mesmo a
costa dos arredores de Massawa  a ilha e sua cidade eram rabe-islmicas 
fazia incontestavelmente parte do Imprio Etope e se encontrava sob o jugo
do governador das provncias situadas ao Norte do Bahr Nagas (rio Mareb),
habitadas pelos tigrenses2.
    O poder dos vrios pequenos territrios e Estados islmicos da Etipia
Oriental e Central fora reduzido pelos ataques destruidores dos imperadores
etopes do sculo anterior, particularmente do imperador Zara Yakob (1434-
-1468). A maioria dentre eles era obrigada a pagar um tributo ao imprio cristo
e colnias militares eram estabelecidas no local. Esses contatos foram reforados


1     uma realidade histrica geralmente admitida e que pode ser igualmente deduzida de todos os fatos
     conhecidos. Ver T. Tamrat, 1972, p. 206 et passim; F. Alvares, 1961, passim. Para as pinturas, ver J. Leroy,
     1967; J. Leroy, S. Wright e O. A. Jger, 1961. Para a literatura, ver E. Cerulli, 1968, p. 81.
2    F. Alvares, 1961, vol. 1, p. 54.
834                                                                                                                             frica do sculo xvi ao xviii




  0!                         75!                        150 milhas
  0               100!                            200 km
                                                                                                                                      Mar Vermelho
                                                                            HAMASEN


                                                                            SARAWE




                                                          SA                     Axum
                                                               ME                TIG
                                                                    N                  R...
                                                  WALKAYT


                                                                                                
                                                                                              WAG
                                                              WAGGARA


                                                              DAMBIYA
                                                                                                                          BA
                                                                                                                  DO
                                                                                          LA
                                                                                              ST
                                                                                                A
                                            ARA




                                                                        Lago Tana                   ANGOT
                                          KW




                                                                          BAGEMDER
   Ri o




                                                   R
                                                  ED
       Nilo




                                                   M




                                                                                                    AMHARA
                                                AU




                                                                                                                                    e
        Azul




                                             AG




                                                                                                                                     ach
                                                                                                                               Rio Aw
                                                                              AM
                                                                            DJ
                                                                           GO
                                                         OT




                                                                                    .KA
                                                          M




                                                                                  LA
                                                       DA




                                                                                  AL
                                                                                 W




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                                      ?
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                                                   ?




                              M
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                           ZA
                                              FA




                      BI
                                            GA




                                                                                         SHOA
                                                                                                                                   ADAL
                                                                                                         T
                                                                   
                                                                KONC                                  IFA
                                                                                                                      R
                                                                                                                 GA
                                                                                                               TA
                                                    YA




                             GUMAN                                                                           FA
                                                  AR




                                                                                                                                                Ri
                                                                        GURAGE                                                                     o
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                                                                                                                        WA




                                                                                                                                                       be




          CH  EK                                    BOSA
                                                      
                                                                                                                                                          le
                                                                                                                           RO




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               KAFFA
                                               DAURO                                                           BALI
              (GOMAR)                                          WOLAYTA


                                                          GAMO




figura 24.1       O imprio etope e suas dependncias, por volta de 1550 (segundo E. Haberland).
O chifre da frica                                                            835



por laos matrimoniais entre as classes dirigentes do imprio cristo e as das
zonas limtrofes islmicas  a imperatriz Helena, filha de um chefe hadiyya, foi,
durante duas geraes, um dos personagens mais influentes da corte etope3.
    A influncia do Estado cristo e sua expanso cultural e militar eram ainda
mais marcantes no Sul e no Sudoeste. Surgiram novos estados com uma classe
dirigente crist e os povos e Estados at ento independentes foram levados
pela fora, diplomacia e ao missionria a reconhecer a supremacia poltica
e cultural do imprio do Norte4. Esse imperialismo e essa busca pelo poder
encontravam sua justificativa moral na carta do Imprio Etope, o Kebra Nagast
(Glria dos Reis5).
    Essa obra deve ter sido redigida por volta do ano 1300, pouco depois do
que se chama a restaurao da dinastia que, at 1974, foi chamada de dinastia
salomoniana. Ela congrega lendas populares e tradies bblicas, talmdicas e
alcornicas, e as associa a uma misso divina de salvao. Para a Etipia, o Kebra
Nagast teve tambm uma importncia comparvel apenas  da Eneida, na qual
foi definida, na mesma veia proftica, a misso de Roma. A rainha de Sab 
aqui assimilada  Etipia  deslocara-se at Jerusalm para instruir-se com a
sabedoria de Salomo. Dele, ela concebeu Menelik, que ela deu  luz to logo
chegou  Etipia, tornando-se seu primeiro rei. Mais tarde, aps ter visitado seu
pai em Jerusalm, Menelik trouxe a Arca da aliana, o smbolo sagrado mais
importante do mundo, e o levou  Etipia. Ela foi consequentemente conser-
vada na clebre catedral de Axum, onde eram coroados os imperadores etopes.
O livro termina com o anncio da partilha espiritual do mundo entre os dois
grandes imprios sagrados  Roma e Etipia  que devem realizar o advento do
Reino de Cristo. Tudo o que podia servir para exaltar o povo cristo da Etipia
e a dinastia etope encontra-se congregado no livro com muita arte: a filiao
dos imperadores, advindos de Salomo e de Davi  o profeta e o salmista , e,
consequentemente, o lao com Jesus Cristo, enfim, a transferncia da Arca da
aliana, smbolo da presena real de Deus no seio da humanidade, para a Etipia.
Os etopes cristos tornavam-se assim o povo eleito do Antigo e do Novo Tes-
tamentos, pois, diferentemente dos judeus, eles aceitavam o Evangelho: "O povo
eleito pelo Senhor  o povo etope, pois este  o lar de Deus, a Jerusalm celeste
[...] Fiz aliana com meu povo eleito; meu servo Davi, jurei assim: preservarei
tua linhagem pela eternidade e conservarei teu trono para todo o sempre".

3    J. Perruchon, 1893, p. 125 e 176; T Tamrat, 1972, p. 289.
4    U. Braukmper, 1980, p. 91.
5    C. Bezold, 1905; E. Haberland, 1965, p. 25.
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    O fato de essa "ilha crist no meio de um mar pago" ter podido resistir a
vrias tempestades, notadamente s do sculo XVI, deveu-se antes de tudo 
situao geogrfica particular dessa terra montanhosa. Todavia, o sentimento de
ser o novo povo eleito deve ter sido, alm do mais, um dos elementos espirituais
que deram ao Imprio Etope a fora para estender seu domnio pela maior
parte da frica do Nordeste.
    No plano interno, o Imprio gozava na poca de uma paz total. Isso  notvel
nos relatrios de Francisco lvares que, de 1520 a 1526, acompanhou como
capelo a misso portuguesa de Massawa ao Shoa e percorreu o pas todo6. A
ordem e a segurana reinavam por toda parte, as instrues do governador eram
respeitadas, a autoridade do imperador era absoluta em todo esse pas de ao
menos 1000 km de extenso de Norte a Sul. Certamente, as provncias e os dis-
tritos beneficiavam-se de uma certa autonomia, certamente o relevo acidentado
dos planaltos etopes prejudicava um pouco as comunicaes, particularmente
durante a estao das chuvas, mas a unidade do Estado estava firmemente cons-
tituda. O princpio do Santo Imprio cristo, os direitos incontestveis da casa
de Salomo, enfim, a f crist e a cultura comum aos dois povos que formavam
esse Estado, os amhara e os tigrenses, formavam laos slidos e reais. A cultura e
a lngua desses dois povos tinham um poderoso efeito de assimilao em outros
grupos tnicos que entrassem em contato com eles. A histria desse perodo
 igualmente a da crescente influncia de outros grupos tnicos associados aos
dois povos majoritrios. Isso  evidente com os agaw, povos autctones do centro
e do Norte da Etipia, totalmente assimilados pelos amhara e os tigrenses. O
processo de assimilao se reforou durante o sculo XVI e atingiu seu apogeu
na integrao dos grupos da Etipia Setentrional, parentes dos agaw no plano
lingustico e cultural, mas adeptos do judasmo, particularmente nas provncias
de Samen, Dambiya e Waggara. Seus remanescentes formam desde ento uma
espcie de casta de prias (os falasha) e se dispersaram por todo o Norte e o cen-
tro da Etipia7. Igualmente no Sul, nas regies da provncia do Shoa, habitadas
hoje principalmente pelos oromo, no apenas o cristianismo, mas igualmente a
lngua e a cultura amharianas certamente desenvolveram-se s custas de outros
grupos tnicos locais, particularmente dos membros das Hadiyya.
    Os esforos do imperador Zara Yakob para centralizar a organizao poltica
do Imprio e substituir os chefes das provncias e dos distritos (que pertenciam a


6     F. Alvares, 1961, vol. 1, passim.
7     W. Leslau (1951, p. IX-XIII), apesar de sua brevidade, continua sendo a melhor introduo ao problema
      dos Falasha.
O chifre da frica                                                                                  837



famlias influentes da regio e eram constantemente trocados) por pessoas esco-
lhidas por ele por um perodo limitado acabaram fracassando8. Porm, os impe-
radores continuaram a exercer um poder absoluto mesmo aps 1500. Segundo
as crnicas, nem sempre eloquentes a esse respeito, podemos supor que no que
concerne  autonomia das diversas provncias e ao regime fundirio correlato,
a situao era muito parecida quela ainda reinante nos sculos XIX e XX9. A
maior parte das terras continuava propriedade dos grandes grupos tnicos e fami-
liares que decidiam sua partilha entre seus membros. A Igreja tambm era um
importante proprietrio de terras, ainda que a sua parte tenha sempre sido supe-
restimada. Ela podia assim fornecer meios de subsistncia a uma casta de padres
seculares camponeses que, em troca, deviam assegurar o servio divino. Enfim,
havia terras imperiais, concedidas pelo imperador a sditos, por curto ou longo
prazo, a ttulo de recompensa ou com fins precisos. Essa terra feudal  se a expres-
so europeia for aplicvel no contexto africano  era denominada gult. Esse termo
designa tambm o direito conferido pelo imperador ao beneficirio de um ofcio
em uma dada regio de impor tributos e servios  populao. Essa dependncia
no significava um risco para o direito de propriedade dos habitantes.
    O extraordinrio dinamismo da sociedade etope, cujo ideal era o tellek saw
(grande homem), constantemente obrigado a comprovar suas qualidades e a
obter sucessos, no era propcio  apario de uma nobreza. A princpio, os car-
gos eram acessveis a todo homem livre pertencente a uma famlia respeitvel.
Na assembleia popular de seu distrito, ele podia ento ser eleito para este ou
aquele cargo, bem como podia perd-lo. O imperador etope participava desse
processo "democrtico", j que lhe incumbia, como autoridade suprema, confir-
mar ou infirmar a eleio. Assim, o poder monrquico e a eleio democrtica
se completavam e impediam a formao de uma nobreza hereditria beneficiada
por privilgios polticos que teriam atribulado a unidade do Imprio. Isso ocor-
reu aps 1700, em funo do enfraquecimento do poder imperial que levou em
seguida a falar de feudalismo, fenmeno originalmente atpico da Etipia10.
    As estradas eram seguras nessa poca e os viajantes no tinham problemas. Os
albergues imperiais abundavam na mesma medida que grandes feiras semanais11.
O bem-estar geral  e no somente o das classes dirigentes  superava tudo o que
as geraes seguintes conheceram. Das provncias e Estados tributrios afluam


8    J. Perruchon, 1893, p. 95, 102 e 112.
9    E. Haberland, 1965, p. 200; B. Abbebe, 1971; A. Hoben, 1973.
10   M. Perham, 1948, p. 267 e 273.
11   A descrio que Alvares faz da sua viagem de Massawa ao Shoa  muito instrutiva sobre esse ponto.
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impostos in natura para a corte imperial, de onde se fazia a redistribuio  at
1636, quando Gondar se tornou a residncia permanente, essa corte era apenas
um grande acampamento de tendas itinerante. Apesar da ausncia de dinheiro e
de correspondncia comercial, as trocas comerciais internacionais eram intensas:
vrios bens de consumo eram importados da ndia ou do Oriente Mdio  o sal
era transportado de uma extremidade a outra da Etipia, assim como artigos de
luxo, como as joias e os tecidos preciosos.
    A Etipia, mais tarde isolada, tinha ento relaes estreitas com regies to
distantes quanto a Europa, no apenas no plano econmico, mas igualmente no
plano cultural.  impossvel aplicar a esse perodo o juzo clebre e frequente-
mente citado de Edward Gibbon: "Cercados de todos os lados por inimigos de
sua regio, os etopes adormeceram durante quase um milnio, esquecendo do
mundo e esquecido por ele"12. Os mosteiros etopes de Jerusalm e de Chipre
mantinham contatos ativos com a Europa13. Os monges etopes  os principais
disseminadores da educao, da arte e da cincia  eram formados no Egito e
participavam tanto da vida cultural copta quanto muulmana14. Ainda que a
produo literria fosse limitada a duas reas  religio e historiografia  ela
floresceu at 1650 ao menos. Alm disso, as artes grficas  das quais nos res-
tam principalmente iluminuras  foram estimuladas pela influncia do Oriente
cristo e da Europa: eles retomaram os principais temas da pintura religiosa para
enriquec-los. Esses contatos so comprovados por algumas aluses das crnicas
 presena de artesos e artistas italianos e espanhis na Etipia. A existncia
de runas de igrejas e de palcios ainda desconhecidos testemunha igualmente
a riqueza e a criatividade artstica desse perodo15.


      Estados e culturas islmicas: a jihad, os somalis e os
      hadiyya
   Por volta do ano 1300, seno mais cedo, a cristandade realizava, por meio de
seus monges e padres seculares, uma atividade missionria enrgica no centro e


12    E. Gibbon, 1556, vol. V, p. 69.
13    E. Cerulli, 1943-1947 e 1947 ; T. Lefbvre, 1845-1854.
14    Parece que as crnicas de Galawdewos e Sartsa Dengel, bem como a Histria dos Galla, foram escritas
      por monges formados em parte no Egito ou em algum lugar no Oriente. J. Perruchon, 1894 e 1896; C.
      Conti Rossini, 1907; A. W. Schleicher, 1893.
15    S. Chojnacki, 1969.
O chifre da frica                                                                                     839



no Sul da Etipia. Como religio oficial do Imprio Etope, o cristianismo podia
sempre contar com o apoio do Estado  em caso de conflito armado. Em contra-
partida, a expanso do isl no Nordeste da frica no era o resultado de atividades
missionrias nem da interveno do Estado, mas o fruto da cultura rabe e, ao
menos neste pas, das trocas comerciais e das vias de comunicao. A influncia
rabe-islmica sobre a costa da frica do Nordeste data de tempos imemoriais.
As trocas comerciais entre a pennsula arbica, a costa da Etipia e a costa somali
so anteriores  poca islmica, qui  poca crist. Essas trocas criaram cidades
de populaes mistas, mas cujo elemento rabe era predominante. Os centros
mais importantes eram, partindo do Norte, Massawa, as ilhas Dahlak, Assab,
Obock, Tadjra, Djibuti, Zayl` (Zeila), Berber, Obbia, Mogadscio, Merka e
Brava (onde comea a costa da frica Oriental propriamente dita, marcada por
uma forte influncia suali). O vigor e a direo da expanso da cultura rabe-
-islmica a partir desses centros mostram muito claramente em que ponto esta
era dependente das relaes comerciais com o interior do pas, de sua riqueza,
de sua produo e da densidade de sua populao. O mapa da expanso do isl
no decorrer dos sculos XV e XVI revela que ela se concentrou de um lado e
do outro do Rift Valley (Vale da Grande Fenda)  ao longo da grande artria
comercial que levava para o corao da Etipia Central. Na borda meridional
alinhavam-se um certo nmero de cidades islmicas, cujas runas imponentes
ainda so visveis, e Estados estendendo-se em direo a regio do lago Zwai,
no Sul, at o Shebele16. A cidade de Harar  a nica existente em nossos dias.
Partindo da costa, existiam os seguintes Estados: Adal, o maior, estendendo-se de
Zayl` (Zeila), no Oceano ndico, at o Harar atual, no Oeste, e ao osis Awssa,
na direo norte, no territrio dos Afar, Dara, Dawro, Bl, Araban (ou Ar'en),
Sharna e Hadiyya17.  provvel que a influncia islmica tenha se estendido alm
do Rift Valley, rumo ao Oeste, pois certas tradies, bem como os relatrios sobre
a origem rabe da casta nagado (mercadores) do Kaffa18, interpretam o nome do
antigo reino de Yamgor (comumente chamado de Djinjero, ou ainda anero)
no mdio Gibbe, como significando Terra do Imen. Ao Norte do Rift Valley, nos
contrafortes meridionais do Shoa, encontram-se os Estados islmicos gmeos de
Ift e de Fatagar (Fatadjar) com uma populao ainda conhecida em nossos dias
sob o nome de Argobba. Uma grande parte dos habitantes desses Estados deve


16   F. Azas e R. Chambard, 1931, p. 129 e 203, pranchas LXIII e LXIV; C. Conti Rossini, 1942; E. Cerulli,
     1941; R. e H. Joussaume, 1972.
17   G. W. B. Huntingford, 1965, p. 53; al-Makrizi, 1790.
18   F. J. Bieber, 1920-1923; H. Straube, 1963, p. 274.
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                                                                                                 0                    50                100 milhas
                                                                                                 0                    80                160 km
                              Lago Tana
         AG
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                               Ni
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                                                              A                                      Aw           Aussa




                                                                                                                                        R
                                                                                     GEDEM




                                                                                                                                                                         SO
                                                                                                                                                                         MA
                                                                                                                                A
                                                                                                      MORA
                                                  R




                                                                                                                                                                          LI
                                                                                                                                    A




                                                                                                                           F
                                                                                                                                            D
                                      A




                                                                                                                  A
                                                                                                                                                   A




                                                                                        A
                                                                                                                                                        L




                                                                                     B
                              H
             T




                                                                                 T
           FA




                                                                                B
                                                                              IFA
                                                      Debre Berhan
         GA




                                                                                            RO
                                                                              O
                                                                                                                                         Harar
                         M




                                                                                         WA
                                                                                                      HARGAYA

                                                                              G
                                                                                       DA
                                                                                                                                    R       I
                                                          A                                      H        A       R         A                       GIDAYA
                                                                          R
                                                      O                                                                             HUBAT
                                                  H
                  A




                                                                          A
             GU G




                                           S                          R
                                                                  G A
     E




                                                                                                              D
               RA ib




                                                              T A




                                                                                                                                         Ere
                                                                                                                      A
                 GE




                                                          F A
      N A




                     e




                                                                                                                                             r
                                                                                                                           W
                                                        A
                                                  M A Y v                                    A                                  A
                                     e
          R Y




                                                                                Y
                               Bilat




                                                               G
                                                              Lago Zwai




                                                                                                                                    R
                                                      A
                                                                          Y
              A




                                                                                                                                        O
                                             W
                         KA




                                                                      I
                          MB




                                                                                                          B A L I




                                                                                                                                                    A
                                                                  D
                            ATA




                                                                                                                                                DAR
                                                              A




                                     NZ
                               GA
                                                          H




      Omo
                                       Lago Abbaya

                                                                                                                                                        Sh
                MO                                                                                                                                           eb
           GA                                                                                                                                                   e   le
                                                      O




                              Lago Chamo
                                                              R




                                                                                                                  G
      Sagan                                                       O
                                                                                                                  an
                                                                                                                      ale




                                                                      M
                                                                  Da
                                                                              O
                                                                    wa




                               rea aproximada de influncia do imprio Etope



figura 24.2              O Sudeste da Etipia por volta de 1500 (segundo E. Haberland).



ter falado lnguas semticas, propagadas paralelamente aos cuchticos falados ori-
ginalmente na regio e posteriormente sobrepujadas  principalmente os dialetos
da famlia lingustica hadiyya-sidama. As nicas subsistentes atualmente so as
dos povos do Harar, dos gurage do Leste e dos argobba19.


19       P. V. Paulitschke, 1888; V. Stitz, 1974; W. Leslau, 1963 e 1979.
O chifre da frica                                                                                         841



    A fundao de todos esses Estados foi marcada pela influncia da cultura
rabe-islmica vinda da costa. Os elementos culturais perpetuados at a atuali-
dade aps a destruio desses Estados tambm so rabe-islmicos. O exemplo
mais evidente dos estabelecimentos urbanos outrora dominantes na regio  o
de Harar, a nica cidade realmente antiga implantada em solo etope. Convm
mencionar aqui as cidades fortificadas dos argobba do Sudeste do Harar e da
margem oriental do Shoa, bem como as moradias urbanas de um ou dois andares
de pedra, de teto chato e de belo mobilirio interior, testemunho da influncia
rabe, ou ainda o grande nmero de tmulos cercados por paredes. Em toda
parte onde essa influncia se fez sentir, tambm deixou traos na rea agrcola
com a introduo da horticultura entesava (culturas em terraos e redes de
irrigao), ainda existente, e de vrias plantas ento desconhecidas dos etopes:
laranjas, limes, pssegos, vinha, bananas, cana de acar20. Essa influncia se
manifestou ainda na cultura do algodo e no consumo do caf e do gat (cht
ou kt), at pouco tempo no adotados pela Etipia no islamizada. Em toda a
Etipia Central propagaram-se vrios conceitos, ritos e termos religiosos pro-
venientes do rabe, mesmo que os antigos adeptos do isl tivessem abandonado
em seguida essa religio21.
    Desde o incio, a expanso do isl e de sua cultura para o Oeste deve ter
provocado choques com o imprio cristo, principalmente nas regies onde tal
expanso atrapalhava o avano poltico e religioso imperial rumo ao Sul. Isso
ocorreu principalmente na Etipia Central, na atual provncia do Shoa e ao
Leste dela. Essa regio foi igualmente o palco de conflitos sangrentos entre os
dois poderes, repetidos durante vrias centenas de anos e cuja sada ficou inde-
cisa at meados do sculo XV ao menos. O imprio cristo permaneceu incon-
testavelmente o poder dominante da regio, impondo um tributo  maioria dos
Estados islmicos mencionados acima, mas no conseguiu  por razes essen-
cialmente geogrficas  eliminar nem aniquilar esses Estados islmicos, mesmo
sendo eles insignificantes em tamanho ou populao em relao a ele22.
    A pergunta sempre ser feita  como frequentemente  o caso em matria de
histria  para saber o que ps termo a essa paralisia e transformou em "guerra
santa" (jihad) a luta  at ento de cunho principalmente poltico  entre os


20   H. Straube, 1963, p. 292 e 301.
21   Gostaria de mencionar palavras como Sayh (chefe religioso), djinn (esprito), al-hayr (bem estar, forma de
     saudao), ibbis (demnio), awbiya (santo), jawm (jejum) e halika (criao), frequentemente encontradas
     sob uma forma corrompida em um grande nmero de lnguas do Sul da Etipia Central.
22   G. W. B. Huntingford, 1965; U. Braukmper, 1980, p. 91.
842                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



Estados comerciantes islmicos e o imprio cristo, e a razo pela qual a auto-
ridade poltica detida pelos sultes de Adal, os Walasma, foi transferida para os
chefes religiosos (imn). Tambm nunca se saber o que permitiu aos exrcitos
islmicos  verdadeiro mosaico de grupos tnicos  atingir o nvel de coeso e
de fanatismo necessrio para levar o poderoso imprio cristo  beira da derrota.
Todavia  indubitvel o fato de o brilhante personagem Ahmad ibn Ibrhm
al-Ghazi (Ahmad Gra), sado da sombra para se tornar o lder carismtico da
jihad, ter desempenhado nisso um papel primordial23. De fato, quando de sua
morte, em 1543, a impetuosidade islmica no tardou a se sufocar, mesmo que
seu hbil e ousado sucessor, o emir Nr, tenha se empenhado, no sem sucesso
no incio, a continuar a luta contra os cristos. No h mais dvidas tambm de
que, na poca, o isl, mantendo firmemente a Somlia sob seu jugo, oferecesse
a seus exrcitos na Etipia um potencial de recrutamento muito superior 
populao relativamente fraca dos pequenos Estados islmicos.
    Aparentemente, uma guerra com o Estado de Adal, provocada pelos cris-
tos, e engajamentos bem-sucedidos na regio do Tchertcher, sob o reinado do
fraco imperador Lebna Dengel (1508-1540) a quem faltavam, parece, todas as
qualidades de um chefe, nada mais anunciavam alm de um novo conflito mais
ou menos indeciso entre os dois adversrios. Mas, bruscamente, a guerra tomou
um caminho diferente. Na batalha decisiva de Sembera Kure (1529), na borda
ocidental das montanhas do Tchertcher, o Imprio Etope perdeu no apenas
um exrcito inteiro, mas tambm uma parte considervel de sua elite dirigente.
"At ento os pases (cristos) nunca tinham sido devastados nem invadidos pelo
inimigo", escreve o cronista etope nos anais imperiais, dividido entre o orgulho
e a tristeza24. A barreira estava rompida e as consequncias seriam terrveis.
At 1543, como uma avalanche, os exrcitos islmicos varreram, todo ano no
decorrer da estao da seca, os planaltos etopes tanto no Sul como no Norte,
vencendo e subjugando sistematicamente uma provncia depois da outra. No
Sul e no Leste, por exemplo no Hadiyya e no Bl, os habitantes vinham diante
dos muulmanos agitando bandeiras, pois eles eram frequentemente seus cor-
religionrios e os acolhiam como libertadores vindos para salv-los do jugo e da
dominao crist. O mesmo no ocorreu com as velhas provncias crists, parti-
cularmente nas regies habitadas pelos amhara e os tigrenses. Nesses lugares, os
que no aceitassem o isl eram passados a fio de espada. Dessa forma, distritos


23    A melhor fonte sobre esse ponto  a histria das guerras de Ahmad ibn Ibrhim, escrita por seu lugar-
      -tenente Sihb al-Din; ver R. Basset, 1897.
24    R. Basset, 1882, p. 103.
O chifre da frica                                                                    843



inteiros se converteram. Igrejas e mosteiros foram impiedosamente pilhados e
devastados, seus tesouros entregues aos exrcitos islmicos, se fossem de ouro,
prata ou tecidos preciosos, ou ento sistematicamente destrudos. No caso de
tesouros literrios e pinturas etopes (miniaturas de manuscritos ou pinturas
murais), a destruio foi sistemtica. Os vestgios por sorte salvos da destruio
do-nos apenas uma vaga ideia do que fora realizado durante sculos de criati-
vidade e trabalho. Cada novo ano testemunhava a conquista e destruio de uma
nova provncia. Em 1531, duas grandes provncias muito populosas do Sudeste
e do centro dos planaltos etopes, Dawro e Shoa, foram subjugadas. Em 1533
foi a vez de duas provncias do centro, Amhara e Lasta. Em 1533, igualmente,
o lugar santo mais importante da Etipia, Axum, com Santa Maria de Sio, sua
catedral, na qual eram coroados os imperadores e onde estavam conservadas as
Tbuas da Lei do monte Sinai, foi completamente arrasada (As Tbuas foram
salvas e mais tarde trazidas de volta a Axum, onde se encontram ainda hoje).
    Mas mesmo nas situaes mais desesperadas, a determinao do povo cristo
e a fora do conceito do santo imprio etope eram manifestos. Os convertidos
 fora ao isl abandonaram sua nova f to logo os exrcitos islmicos se retira-
vam  a Igreja etope organizou em seguida um rito de penitncia e de reintegra-
o para esses apstatas temporrios. Assim tambm as provncias conquistadas
no tardaram a se revoltar contra seus novos senhores. Mesmo o fraco imperador
Lebna Dengel, incessantemente assediado, recusou-se a se submeter quando foi
forado pelo general islmico vitorioso a tomar uma grave deciso:
        Mahammad Gra enviou um mensageiro para dizer ao imperador: dai-me vossa
    filha em casamento e faamos um pacto de amizade. Se vs no me seguirdes,
    em breve no haver mais ningum para acolher-vos em vossa fuga. O imperador
    refundiu-lhe: No dar-vos-ei minha filha, pois vs sois um infiel. Mais vale deposi-
    tar sua confiana no poder do Senhor do que em vs, pois Seu poder  to grande
    quanto sua misericrdia. Ao fraco, ele concede a fora na medida em que enfraquece
    os fortes. Assim, o imperador foi perseguido pela fome e pela espada. Ele foi atingido
    por infortnios que no teramos como imaginar.
   Lebna Dengel morreu em 1540, fugitivo acuado, no impenetrvel mosteiro-
-cidadela de Dabra Damo, no Tigre. Porm, poucos anos aps sua morte produziu-
-se uma mudana poltica absolutamente imprevisvel: a subida ao trono do
imperador Galawdewos (Claudius), uma das figuras mais excepcionais da histria
da Etipia, foi imediatamente seguida pela excepcionalmente rpida restaurao
do imprio etope, com a chegada do corpo expedicionrio portugus (e, com ele,
da misso portuguesa) e, enfim, pela total derrota dos muulmanos.
844                                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    No sculo XVI, Portugal atingira o apogeu de sua expanso imperialista. O
Oceano ndico e suas margens tornaram-se um mar portugus. Fortalezas por-
tuguesas, que nunca foram totalmente vencidas, erguiam-se ao longo das costas:
Hormuz, Om, Socotra, Mombaa etc. Como a Espanha, sua rival na conquista
do mundo, Portugal atravessava ento sua era de ouro e encontrava-se no znite
de seu desenvolvimento cultural  que no duraria. As riquezas de trs conti-
nentes afluam para Portugal, mas elas eram adquiridas  custa da submisso de
um nmero incalculvel de pessoas, da destruio de culturas inteiras e de assus-
tadores derramamentos de sangue dos quais os portugueses s se recuperariam
aps vrias geraes. Eles haviam superestimado suas prprias foras25.
    Foi um acidente histrico, mas de efeitos considerveis e prolongados, a
entrada, em 1541, da frota portuguesa em Massawa, na poca ainda pertencente
ao Imprio Etope, e o engajamento de soldados portugueses  causa etope. A
Etipia no era ento de forma alguma desconhecida dos europeus. Desde o
sculo XIV, identificavam-na com o lendrio imprio do Padre Joo, soberano
cristo da "terceira ndia", cuja existncia continua um mito at hoje. Durante
sculos houve esforos repetidos para encontr-lo e fazer dele um aliado contra
os inimigos orientais da cristandade, os mongis, rabes ou turcos26. Misses
portuguesas oficiais estiveram por duas vezes na Etipia na esperana de con-
cluir uma aliana entre o imperador, a quem sem fundamento algum, batizaram
de Padre Joo, e a Coroa portuguesa. Os membros da primeira misso (1487)
no foram autorizados a retornar para sua ptria, mas Francisco Alves, capelo
da segunda expedio (1520-1526), deixou um notvel relatrio a esse respeito
que no tardou a ser traduzido para vrias lnguas europeias, de maneira a deixar
toda a Europa bem informada sobre o imprio cristo27.
    Em 1540, uma frota portuguesa de Goa (ndia) foi enviada ao Mar Ver-
melho para lutar contra a expanso dos turcos que, aps a conquista do Egito,
avanavam sobre a Arbia e mesmo o Sudo. Uma parte da frota ancorou em
Massawa na primavera de 1541. Pouco depois, o bhar nags (literalmente o
"regente do mar"), ou seja, o governador da provncia do Nordeste do Imprio
Etope, apresentou-se munido de cartas solicitando apoio em favor do Estado
cristo em luta para sobreviver. Em julho de 1541, 400 portugueses voluntrios,
comandados por Cristvo de Gama, um dos mais jovens filhos do famoso
Vasco, invadiram os planaltos etopes. Sua ttica moderna de combate e, prin-

25    C. Verlinden, 1971, p. 86 e 114 ; H. Kellenbenz, 1971, p. 123.
26    F. Zarncke, 1876-1879.
27    A melhor edio  a de C. F. Beckingham e G. W. B. Huntingford, em F. Alvares, 1961.
O chifre da frica                                                                                  845



cipalmente, suas armas de fogo de excelente qualidade fizeram deles temveis
adversrios para as tropas muulmanas ocupantes do Norte da Etipia. Um
nmero crescente de voluntrios etopes juntou-se aos portugueses, infligindo
duas grandes derrotas ao exrcito at ento invencvel do imm Ahmad Gra.
Invocando a jihad e a causa comum do isl, o imm conseguiu contudo garantir a
decisiva assistncia do comando turco no Imen, que lhe forneceu novos tipos de
artilharia e atiradores de elite. Antes de os portugueses se juntarem ao exrcito
do imperador, tiveram de enfrentar uma terceira batalha, sendo nela derrotados.
Seu chefe foi capturado e, recusando-se a aceitar a religio islmica, executado.
Contudo, a sorte sorriu para os cristos: o exrcito imperial e o resto do exrcito
portugus uniram-se e, em 1543, o exrcito muulmano foi destrudo a Leste do
lago Tana. O imm foi morto por uma bala portuguesa e suas tropas despedaa-
das.  difcil dizer se foi a ajuda dos portugueses que fez pender a balana em
favor dos cristos nessa interminvel guerra. De um ponto de vista estritamente
militar, foi esse o caso nas ltimas batalhas, pois sua ttica e armas restabelece-
ram um certo equilbrio estratgico. Todavia, o que mais influenciou a Etipia
foi a misso catlica que se estabeleceu aps a chegada dos soldados portugue-
ses. De qualquer forma, as foras muulmanas eram indubitavelmente fortes o
bastante para subjugar militarmente a Etipia em um primeiro momento, mas
elas eram fracas demais para manter sob domnio permanente os dois grandes
povos tigrenses e amhara, particularmente porque eles no conseguiram impor
o isl aos cristos. Aps 1543, estes saram vitoriosos do combate e, no decorrer
das dcadas que se seguiram, o Imprio conseguiu reconquistar os territrios
perdidos. O poder do isl estaria destrudo por sculos28.


     Os oromo (galla)
   "Mas  lamenta o cronista etope, tal como o profeta Joel  o que a minhoca
poupou, o gafanhoto comeu, e o que os muulmanos pouparam, os galla destru-
ram". A partir do sculo XVI, elementos do grande povo oromo, at ento habi-
tualmente conhecidos sob o nome de galla, como os chamavam seus vizinhos,
penetraram no centro, no Leste e no Oeste da Etipia, cada vez mais numerosos,
a ponto de criarem um fenmeno de migrao. Sua chegada, sua instalao e
suas diferenas com outros grupos a eles precedentes nos locais tiveram grandes


28   Aps as ltimas guerras homicidas, ocorridas entre cristos e muulmanos durante o reinado de Gala-
     wdewos (1550-1559), os Estados muulmanos no so mais mencionados nas crnicas imperiais.
846                                                             frica do sculo xvi ao xviii



consequncias, tanto no plano poltico quanto no plano cultural, e provocaram
mudanas radicais para o conjunto do Nordeste da frica. O Imprio Etope
sofreu sobremaneira e mais longamente com esse fato do que com os muul-
manos, perdendo definitivamente um grande nmero de provncias. Apenas
por volta de 1700 houve uma certa estabilizao, o que no bastou para pr
termo no avano da cultura oroma. Os oromo tornaram-se o grupo tnico mais
importante em nmero do Nordeste da frica. Todavia, diferentemente dos
amhara e dos somalis, s muito recentemente formou-se neles uma conscincia
nacional unificadora. No mais, cada grupo oromo era submetido a influncias
culturais e polticas diversas.
    Na frica h poucos grupos tnicos sobre cujas origens culturais tenha-se
escrito tantas coisas falsas29. Se ainda no se sabem as razes exatas que pro-
vocaram as grandes migraes oromas,  certo elas no terem sido iniciadas,
contrariamente ao que s vezes se diz, para escapar das presses exercidas por
outros povos. As tradies oromas dizem apenas que essas migraes foram ori-
ginalmente ditadas pela busca de novas pastagens para o gado de uma populao
crescente. Os somalis, acusados de terem exercido presses sobre eles, no tinham
sequer contatos com eles naquele momento. Alm do mais,  pouco verossmil
que os somalis, divididos em um grande nmero de grupos autnomos, tivessem
constitudo uma potncia militar forte o suficiente para preocupar os oromo que,
nessa poca em que ainda eram unidos, faziam fugir os exrcitos regulares dos
amhara e aniquilavam os Estados islmicos do Sudeste da Etipia.
    Apesar dos relatos fantsticos dos autores amharianos e europeus, que situam
a ptria dos oromo, antes de sua grande migrao para Madagascar, em Mom-
baa ou na Somlia setentrional, trata-se de um autntico povo etope. Toda sua
cultura e suas tradies o provam. Originrios dos amenos planaltos cercando a
provncia atual de Bl, eles tambm emigraram em grande nmero no apenas
at o corao dos planaltos etopes, mas tambm em direo ao Sul, at o Qunia
atual e at o Oceano ndico.
    Todas as descries dos oromo contm tambm inmeros erros: so muitas
vezes qualificados como barbariores barbari (selvagens) ou criadores primitivos.
Isso se deve em primeiro lugar ao fato de os historiadores amharianos e, de
fato, os amhara de forma geral, orgulhosos de sua prpria cultura, descreve-
rem os oromo como brbaros no-cristos (e no-muulmanos), sem organi-
zao social refinada, sem escrita, sem monarquia. Alm do mais, se os oromo


29    E. Haberland, 1963; A. Legesse, 1973; E. Cerulli, 1922.
O chifre da frica                                                           847



foram, erroneamente, qualificados como criadores primitivos, foi em funo de
haver entre eles, em um grau desconhecido no restante da Etipia, um culto ao
gado  eles mantinham com os animais adorados relaes afetivas estreitas que
transcendiam os interesses meramente econmicos  e de ser-lhes impossvel
cultivar a terra no decorrer de suas grandes migraes. Nos lugares onde se
fixavam, eles expandiam sua cultura em todo seu esplendor, e por onde quer que
fossem, adotavam voluntariamente um grande nmero de elementos culturais
dos habitantes que os precediam, pois, longe de extermin-los, eles entravam
em simbiose com estes.
    Os oromo eram e continuam sendo um povo que fora a admirao de seus
vizinhos por sua cultura extremamente desenvolvida e refinada. No h como
explicar de outra forma seu sucesso poltico, sua expanso macia e seu poder
de assimilao. Este sucesso se mede pelo fato de, atualmente, a maioria dos
que se consideram oromo no o serem realmente de origem, mas pertencerem a
comunidades encontradas e assimiladas pelos oromo. Sua expanso provm em
parte de uma espcie de reao em cadeia: diante de sua superioridade militar
e de sua organizao social muito admirada, outros grupos tnicos se uniram a
eles. Foi evidentemente o caso dos membros do grande grupo tnico hadiyya,
originalmente povoadores de toda a regio situada entre Harar e Gurage, e
dentre os quais praticamente todos se ligaram aos oromo. Apenas o nome de
seu grupo e algumas tradies constituem traos de seus antepassados. Vrios
hadiyya tornados oromo instalaram-se na provncia de Walaga, por exemplo30.
    A cultura oromo caracteriza-se por mltiplos traos especficos, entre outros
pela relao estreita entre o homem e os animais j mencionada. O gado era
no apenas seu principal meio de existncia, mas tambm objeto de suas pre-
ocupaes de ordem emotiva e ritual. Esse culto do gado, com seu lado moral,
impregnava toda essa cultura, a ponto de a carga emocional da atividade agrcola
ficar comparavelmente insignificante. Esse fenmeno tem suas razes no prprio
mito da criao, pois, ao criar os homens, Deus exclamou: "Eh, kota, abba loni!"
(Aparecei, senhores do gado!)31.
    Como os somalis, os oromo compunham-se de uma multido de grupos e
cls genealogicamente ligados que, conforme a populao aumentava, foram
levados a se separar para constituir novos grupos independentes no plano pol-
tico. Borana e Barentu (ou Baraytu) eram dois personagens mticos, ancestrais
e fundadores dos dois grandes grupos portadores de seus nomes. Quando as

30   U. Braukmper, 1980, p. 152.
31   J. L. Krapf, 1858, vol. 1 I, p. 267.
848                                                          frica do sculo xvi ao xviii



migraes comearam, eles se subdividiram em vrios subgrupos parentes entre
si. Os barentu estabeleceram-se principalmente no Leste e os borana (no con-
fundir com os boran, da fronteira do Qunia), no Sul, no centro e no Oeste. Por
volta do fim do sculo XIX, quando os oromo foram vencidos pelo imperador
Menelik e integrados ao Imprio Etope, eles de dividiram em mais de 80 gru-
pamentos politicamente independentes e de tamanho diverso32.
    Na organizao sociopoltica dos oromo, o sistema gada, espcie de classifica-
o por grupos de idade, baseado em um princpio numrico abstrato, tinha uma
importncia maior. Era uma instituio central que regulava toda a existncia
dos oromo com um exclusivismo sem igual junto a qualquer outro povo da terra.
Qualquer coisa era prevista em suas regras: nascimento, batismo, casamento,
circunciso, emancipao da autoridade paterna, autorizao de conceber e criar
filhos, conscrio militar e convocao para caa, obrigao de fazer sacrifcios,
"morte civil" por excluso do sistema, ritos funerais, assim como adornamento,
penteado, mobilirio, acessrios de enfeite, agenciamento das casas e do kraal, e
outras. O gada representava a totalidade das leis que regiam a vida dos oromo.
Quarenta anos depois de seu pai, qualquer que fosse a sua idade, o oromo entrava
na classe das crianas e, teoricamente, devia passar por dez classes de oito anos
cada uma no decorrer de sua existncia. Todos os que entrassem ao mesmo
tempo em uma determinada classe formavam um grupo gada tornando-se uma
comunidade guerreira indissolvel para o resto da existncia de seus membros.
O pertencimento a uma classe comportava direitos e obrigaes bem precisos e
cada classe tinha atividades  independentemente das regras sociais e religiosas
 adaptadas ao grupo de idade correspondente. As classes cinco e seis constitu-
am respectivamente as classes dirigente e guerreira. Por ser uma comunidade
de homens livres e iguais, no havia hierarquia hereditria. O chefe do grupo
tnico, habitualmente nomeado abba gada, era eleito pelos membros da classe
cinco (gada ou luba). Era secundado pelos juzes (hayu), escolhidos igualmente
nessa classe e por outros dignitrios. Fato essencial para o dinamismo militar
dos oromo, uma regra gada prescrevia ao menos uma expedio guerreira no
decorrer dos oito anos da classe dirigente. O ideal do heri, matador e caador
de elite, era comum a todos os povos do Nordeste da frica. Apenas aquele que
se distinguira como valoroso guerreiro e caador e tinha massacrado seus inimi-
gos ou grandes feras (lees, elefantes, bfalos, rinocerontes) podia ocupar uma
posio eminente na comunidade. Para isso, o oromo estava pronto para arriscar


32    Ver o mapa, em E. Haberland, 1963, no fim da obra.
O chifre da frica                                                                                      849



sua vida em lugares selvagens em busca dos cobiados trofus. O guerreiro tinha
direito a certos privilgios, tais como o porte de enfeites reservados aos matado-
res: penteado untado de manteiga e ornamento flico sobre a fronte. Contudo,
em parte alguma da frica o culto do matador foi to integrado ao sistema
local quanto ao dos oromo. Como o sistema exigia que cada classe dirigente
gada fizesse uma expedio guerreira com matanas, os oromo atacavam, a cada
oito anos, os povoados vizinhos que permaneciam desconcertados e impotentes
diante desses episdios cclicos, at o dia em que eles acabaram por entender o
sistema gada. Um grande nmero deles  os sidama, darasse, burgi e todos os
membros do grupo konso33  deu-se conta de que o sistema gada reforava o
poderio militar e o adotaram, modificando-o um pouco.
    A religio dos oromo tinha um carter muito solene. Sua crena em um deus
ao mesmo tempo criador e pai celestial tomava formas que lembram o Antigo
Testamento. Eles possuam um rico patrimnio literrio transmitido pela tra-
dio oral, tanto sagrado quanto profano, composto de invocaes dirigidas 
divindade, mas tambm de poemas de amor lricos, testemunhando seu talento
potico.
    Durante o primeiro perodo de sua migrao, o progresso dos oromo foi
favorecido, alm de seu valor militar, em funo dos territrios nos quais eles
penetraram e que se tornaram quase desertos ou muito pouco povoados aps
as guerras carnfices travadas entre muulmanos e cristos durante cerca de
quinze anos. Foi evidentemente o caso da Etipia Central, a atual provncia do
Shoa, atravessada todos os anos por exrcitos islmicos a caminho do Norte.
Assim, o centro do Shoa, outrora muito populoso, tornara-se um deserto e assim
permaneceu quase at 1800. Aps 1530, os guerreiros do grupo gada mudana
atravessaram o rio Wabi; aps 1538, os membros do grupo kilole devastaram
a parte adjacente ao Norte, onde se encontrava o pas Dawro, principalmente
povoado por muulmanos, e ainda mais rumo ao Norte, as plancies do Awache.
Aps 1546, os bifole invadiram a provncia de Fatagar e, aps 1554, os mesale
destruram a maior parte do Estado islmico de Adal. Os oromo descobriram
ento o cavalo e no tardaram em se tornar excelentes cavaleiros34.
    Enquanto isso, as guerras entre cristos e muulmanos continuavam. O emir
Nr, valoroso e talentoso sucessor do imm Ahmad Gra, engajou-se em uma
ltima tentativa, certamente heroica mas v, para reiniciar a jihad contra os


33   Para o sistema gada, ver A. E. Jensen, 1936, p. 315-382; E. Haberland, 1963, p. 167- 223, 308-321, 380-
     -397 e 451-475; A. Legesse, 1973; S. Stanley e D. Karsten, 1968; C. R. Hallpike, 1972, p. 180-221.
34   A. W. Schleicher, 1893, p. 20.
850                                                                                                                                                     frica do sculo xvi ao xviii




                    Nilo
                         az
                            ul                                                                                                      e
                                                                                                                               ch




                                                                                                                         a
                                                                                                                       Aw
                                                                                                     RAYA
                                                                                                                                                                               Harar
                                                     M                                                                                                              A        por volta de




                                                                                      A
                                                          A




                                                                                    AM


                                                                                                  WOLLO-
                                                               C                                                                                                                1570)
                                                               .                                                                                                             D



                                                                   v




                                                                                TUL
                                                                   .



                                                                       v
                                                               C
                                                                                                                                                                                     A


                                                                       A
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                                                                                                                                                                                         L
                             NZ




                                                                                                                               MONTES
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                                                                       H       O         A
                                                         S




                                                                                                                                                                                 Erer
                                                                                                                           TCHERTCHER
                      GU                                                             FATAGAR
                         RA
                                                    AMH YA
                                                           A



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                                                        AR
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                                                                                                                                                                    W
                                         D
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                                                                                                                                                                         A
                                                           Lago
                                     HA
       A




                                                                                                                                            A                                    R
                                                           Zwai                                                            A
                                             BATARA
           R




                                                                                                               D
               Y




                                                                                                                                                                                     O
                                                                                             I




                                                                                                                                                                         Sh
                    A




                                                                                v                                                               v
                                                                       WAG                                                                    Annagina




                                                                                                                                                                           eb
                                                                                                                                        v
                                                                               D                                                                                                 e
                                                                                                                                                  .




                                                                                                                                                                             el
                                                                                                                                            (Saih Husayn)
                           KA


                                                                                                                           AR
           v
                                                                                                                                                                             TU
                                 MB
                                                Lago Alaba

                                                                                                                             US
      BOSA
                                                                                                                                                                           EN ADONE
                                                                           G




                                   AT
                                     A
                                                                                                                                                                        BAR
                                                                                                                               I
                                                                               A                  Gadab
                                                                                         D       Garadella                 B                A
                                    Bilate




                                                                                             A                                                      L
      DAURO                                                                                           B                                                     I
  Omo                                                                                            D
                                                                                                           A
                   MO                                                                                              L
           GA
                                                                                                                       L
       Lago Abbaya
                                                                                                                               O
                                                                               MO
                                                                                RM




      Lago Chamo                                                                                                                                        Ga
                                                                                                                                                          na
                                                                                    OR




                                                                                                                                                            l
                                                                                     A




       Sag
                                                           Da




                                                                                                                                                                e




               an                                                                                          LB
                                                             wa




                                                                                                              ANO
                                                                                                                        BO
                                                                                                                               RA
                                                                                                  NA




                                                                                                                                NA
                                                                                             RA




                                                                           DIRRE
                                                                                             BO



               0                         50                            100 milhas

               0                     80                                160 km

figura 24.3              As migraes oromas no sculo XVI (segundo E. Haberland).



cristos e, apesar da morte do imperador Galawdewos em uma batalha na qual
os cristos estavam mal preparados, o declnio do isl iniciaria-se logo.
    Os ataques do grupo harmufa dos oromo (1560-1570) foram catastrficos
tanto para os cristos quanto para os muulmanos. Os oromo invadiram as
provncias do prprio corao do Imprio Etope, recm-sado das devastaes
O chifre da frica                                                           851



da jihad, Angot, Amhara e Bagemder, onde enfrentaram os exrcitos do novo
imperador Minas. Ao mesmo tempo, outros grupos oromo atacaram novamente
Adal, vtima da fome e da peste, da qual morreu o prprio emir Nr. Exceto por
alguns pequenos grupos que fugiram rumo ao osis Asswa, no deserto dos Afar, e
habitantes de Harar, protegidos por suas grandes muralhas, os muulmanos desa-
pareceram dessa parte da frica por vrios sculos. Quando o imperador Minas
morreu, os oromo ocupavam definitivamente um tero do Imprio Etope35.
    Mas sua expanso no parou por a. Mesmo antes de 1500, outros grupos j
haviam deixado as altas terras de Bl para penetrar nas imensas savanas do Sul
e, sempre em busca de novas terras para seu gado, eles acabaram por chegar ao
oceano ndico, na embocadura do Tana. Tratava-se dos gui, dos boran e dos
orma. No centro, os arussi estabeleceram-se prximo do antigo Estado de Bl e
ampliaram suas fronteiras cada vez mais rumo ao Oeste, para finalmente chegar
ao rio Bilate em 1880. Os barentu expandiram-se pela regio dos antigos Esta-
dos islmicos do Fatagar, do Dawro e do Adal. A cidade fortificada de Harar
e  graas  tolerncia religiosa dos oromo  o clebre centro de peregrinao
de Saih Husayn foram preservados, formando ilhotas islmicas. Vrios peque-
nos grupos de oromo tulama estabeleceram-se no Shoa. Os ahmara s tinham
condies de resistir nas plancies quentes, fceis de defender, nas gargantas
dos grandes rios e em alguns elevados planaltos (bolsos de Moret, Marhabete,
Tagulat, Wagda, Manz, Gueche, Efrata, Gedem etc.). Do Shoa, eles subiram
progressivamente rumo aos elevados planaltos e empreenderam, por volta de
1700, a reconquista dos antigos feudos cristos sob Nagasi, descendente de um
ramo colateral da dinastia salomnica. Os oromo wollo e yeu expandiram-se
pelas frteis provncias de Angot e Amhara, outrora ocupadas por cristos refu-
giados, em seguida, no Amhara Saynt. Os oromo no tardaram a adotar a lngua
amhariana da populao local, mas acabaram por se tornar inimigos jurados dos
cristos por causa de sua converso ao isl. Outros oromo ocuparam as ricas
plancies da borda oriental dos planaltos etopes e se consagraram  criao: os
karayu, os ile, os artuma, os rike, os raya e os azebo36.
    Enfim, no incio do sculo XVII, uma ltima onda de oromo, compreen-
dendo vrios grupos pertencentes principalmente  grande famlia macca, seguiu
para o Oeste at as atuais provncias de Wallaga e de Ilubabor, parando apenas
nas encostas ocidentais do planalto etope. Sabemos muito pouco sobre a hist-
ria antiga da parte ocidental dessa regio. Ela foi indubitavelmente fracamente

35   V. Stitz, 1974, p. 80. Ver figura 24.3
36   Ver o mapa, em E. Haberland, 1963, no fim da obra.
852                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



povoada por pequenos grupos de cultivadores sudaneses, cujos remanescentes
atuais so os gunza-gumuz, e por membros do grupo gonga, dos quais hoje
restam os mao-afillo e os sinasa. A situao era totalmente diferente no Leste e
no Sul da regio. Os oromo encontraram nesse lugar reinos bem estruturados,
densamente povoados, mantendo laos estreitos com o Imprio Etope ao Norte
e cujos habitantes eram parcialmente evangelizados. Apoiados em uma certa
medida pelo Imprio Etope, opuseram-lhe uma obstinada resistncia. Mas
diante da expanso sempre crescente dos oromo, as comunicaes entre o Imp-
rio e suas dependncias do Sudeste reduziram-se na medida em que ele decli-
nava. Assim, Bosa e Guman desapareceram do mapa poltico ao se tornarem as
posses oromas de Jimma (Gimma) e Gumma. O substrato autctone resistiu
to vigorosamente nesse local que os oromo adotaram uma grande parte de sua
cultura, notadamente a organizao poltica e a monarquia, deixando progres-
sivamente desaparecer o sistema gada. Enarya, clebre por seus tesouros, foi o
ltimo dos Estados a sucumbir, vencido pelos oromo limmu. Aps 1700, seu rei
fugiu para o Sul, onde os outros reinos gonga de Kaffa e Chekko e vrios reinos
ometo conseguiam resistir aos oromo, graas s defesas naturais do territrio, e
at mesmo, em uma certa medida, se expandirem.37 (ver abaixo).


      Os somalis
   A penetrao e a expanso dos oromo no centro, Leste e Oeste da Etipia
so mencionadas por textos etopes e europeus. Simultaneamente, seno ante-
riormente, comeou a expanso de um outro grande povo, os somalis, que teve
um alcance comparvel  dos oromo em vastos setores da parte ocidental do
chifre da frica. As fontes escritas so praticamente mudas sobre a ascenso dos
somalis que, incentivados pela jihad do imm Ahmad Gra, puseram-se ento a
desempenhar um papel ativo na histria da frica do Nordeste38.
   Considera-se habitualmente que o bero dos somalis se encontra ao Norte
da regio atualmente ocupada por eles. Desse local eles progrediram  provavel-
mente a partir do sculo XI  rumo ao Oeste. Desde o sculo XIII, os gegrafos


37    F. J. Bieber, 1920-1923; H. Straube, 1963, p. 274; W. Lange, 1980.
38    Infelizmente ns ainda sabemos muito pouco sobre a histria desse importante povo nessa poca 
      notadamente no interior do chifre da frica. Um melhor conhecimento das tradies orais e dos fatos
      histricos ligados s genealogias seria certamente muito til. A pesquisa histrica impe-se com toda
      urgncia para a Somlia. As melhores obras ainda so as de E. Cerulli, 1957-1964, e de I. M. Lewis,
      1955, p. 11-55, e 1961, p. 1-30.
O chifre da frica                                                                853



rabes falam de implantaes dos somalis na regio de Merka, ao Sul da atual
cidade de Mogadscio. Pastores nmades, os somalis eram levados pela presso
demogrfica a procurar novas pastagens em direo aos planaltos etopes. Eles
chegaram, por volta de 1500 provavelmente, aos contrafortes orientais do pla-
nalto do Harar onde entraram em contato com os Estados islmicos. Os nomes
e dados genealgicos deixados pelo cronista Sihb al-Dn levam a crer que eles
trouxeram um importante apoio  jihad do imm Ahmad Gra.
    At hoje, o efeito estimulante e unificador da influncia rabe-islmica exer-
cido pelas cidades das costas setentrional e oriental do pas somali e pelos Esta-
dos islmicos do Sudeste da Etipia (Adal, Dawro etc.) foi muito mais sensvel
junto aos somalis do que entre qualquer outro povo do Nordeste da frica. O
isl tornou-se parte integrante da cultura dos somalis, contrariamente ao que
aconteceu com outros povos cuchticos culturalmente parentes, tais como os
oromo e os hadiyya. Sua f intensa encontrava-se constantemente reforada
pelos missionrios provenientes da Arbia. Esses homens santos foram os pais
fundadores do povo somali, tal como o clebre Ismael Gabarti, de quem des-
cende um grande nmero de somalis.
    A influncia da cultura rabe-islmica deu igualmente aos somalis um sen-
timento de superioridade cultural e reforou sua capacidade de assimilao com
relao a outros grupos parentes da imensa regio situada entre o Ogaden e o
lago Turkana. Nesse local, toda uma srie de grupos tnicos diferentes, de ln-
gua e cultura culchticas principalmente, e vivendo todos da criao de bovinos,
constitura-se muito cedo. Como o mostra a existncia dos rendile, os somalis,
antes de sua grande migrao nordeste-sudoeste, participaram desse processo
decorrido desde antes do advento do isl.  muito refutvel essa regio ter sido
ocupada por um povo negroide, eventualmente banto.  mais provvel os gru-
pos racialmente diferentes dos somalis, tais como os adone no curso superior
do Shebele, os shebeli e os makana no curso mdio desse rio e os gobawin no
curso superior do Juba, deverem sua existncia a processos histricos isolados.
Ns sabemos de maneira confirmada que os gosa do baixo vale do Juba des-
cendem de antigos escravos da frica Oriental agrupados no local para formar
comunidades livres39.
     excepcionalmente difcil identificar com preciso os diversos estgios da expan-
so dos somalis e de outros grupos tnicos por eles assimilados, pois vrios foram
os que, aps serem anexados  nao somali, apagaram qualquer trao de sua antiga


39   V. L. Grottanelli, 1953.
854                                                          frica do sculo xvi ao xviii



origem e adotaram uma genealogia somali. Os principais grupos que se fundiram
dessa maneira foram os sab (digil, rahanwein etc.) e, talvez, alguns hawiyya. Alm
disso, existe ainda, no limite das reas somalis e oroma, toda uma srie de grupos
tnicos que se declaram somalis, mas eram outrora considerados oromo (gurra, garri,
gabra, sakuya). Eles oferecem um exemplo interessante de transferncia cultural e
de assimilao. Atualmente, uma nica rvore genealgica une todos os membros
do povo somali e cada grupo tem seu lugar na genealogia comum40.
    Sob a influncia do isl, toda a cultura dos somalis se transformou, particu-
larmente no Sul (no Norte, a dos issa, por exemplo, contm ainda vrios traos
emanando do patrimnio cultural dos cuchitas orientais). Assim, os somalis
diferenciaram-se mais do que qualquer outro grupo da grande famlia dos povos
africanos do Nordeste, ligados entre si por vrios fatores comuns de ordem
histrica, cultural e geogrfica. A influncia exercida pelo meio geogrfico no
deve de forma alguma ser subestimada. Exceto pelos afar que, em sua terra
desolada, no tinham sequer a possibilidade de se desenvolverem de um ponto
de vista cultural, os somalis so os nicos habitantes da frica do Nordeste cujo
territrio  exclusivamente composto de savana seca e de semideserto. Seu meio
ecolgico conduziu-os a elaborar um tipo de cultura absolutamente diferente
do da maioria dos outros povos dessa rea, habitantes dos planaltos. Assim, o
sistema gada, to importante para a maioria dos cuchitas do Leste nunca criou
razes entre eles ou foi abandonado sob a influncia do isl.


      O Imprio Etope e sua luta pela sobrevivncia entre 1529
      e 1632: o episdio portugus e a restaurao do Imprio
      aps 1632
    Entre 1529 (incio da jihad) e 1632 (incio da Restaurao), o Imprio Etope
lutou por sua sobrevivncia. Foi um perodo terrvel no apenas por causa dos
acontecimentos polticos e militares pelos quais ele passou, mas igualmente por
causa dos intensos conflitos intelectuais e culturais que o agitaram: a Etipia foi
invadida pelas ideias vindas de um outro continente, desencadeando a revolta e a
guerra civil, mas estimulando tambm a cultura nacional e a Igreja etope. Com
relao ao sculo de completa estagnao intelectual e poltica decorrido entre
1755 e 1855, esse perodo parece excepcionalmente ativo e vivo.


40    I. M. Lewis, 1961, p. 127-195.
O chifre da frica                                                            855



    O imprio cristo  ou melhor dizendo, seus dois grandes povos, os amhara
e os tigrenses  demonstrou uma fora e uma capacidade de sobrevivncia sur-
preendentes frente aos inimigos tanto do interior quanto do exterior. Precisa-
mente durante o reinado do imperador Sartsa Dengel (1563-1597), o conceito
de santo imprio manifestou todo seu poder espiritual quando o Imprio era
mais uma fico do que uma realidade poltica, como foi o caso nos ltimos
anos do reinado de Lebna Dengel. Os turcos reforaram seu poder nas mar-
gens do Mar Vermelho, tomando todos os portos etopes e penetrando muito
adiante nas altas terras at o Tigre; na provncias centrais do Bagemder e do
Samen, uma guerra civil feroz era movida contra os etopes de credo judeu; os
oromo no apenas conquistaram e destruram os Estados tributrios do Sudeste,
como tambm isolaram o Imprio de suas dependncias do Oeste e do Sudo-
este. Outrossim, eles invadiam periodicamente Bagemder e Godjam (Gojjam,
Gojam) e se fixaram de maneira permanente nos basties cristos como Angot,
Wallaka, Amhara e Shoa. Mesmo que o poder real do Estado se reduzisse ao
territrio efetivamente ocupado pelo imperador com suas tropas, a imortali-
dade do "imprio evanglico" aparentemente nunca foi questionada.  o que se
encontra nas crnicas imperiais, nossa principal fonte de informao. A mesma
ideologia devia impedir o Imprio de se desintegrar no decorrer de um sculo
de total anarquia (1755-1855).
    Alm do mais, no que tange  sobrevivncia poltica do Imprio,  difcil
superestimar a importncia do desaparecimento dos Estados e da cultura isl-
micos na Etipia Oriental e Central aps das terrveis turbulncias da jihad e,
principalmente, depois da migrao dos oromo. O isl no representaria mais
uma sria ameaa nos sculos posteriores.
    Certamente o Imprio sofreu grandes perdas, tanto territoriais quanto huma-
nas, nessa luta pela sua sobrevivncia. A partir da restaurao de 1632, o grande
movimento para o Sul, base de toda a poltica imperial dos sculos precedentes,
findou-se quase totalmente, ainda que no tenha sido abandonado oficialmente.
Na medida em que o poder imperial declinava, procurou-se principalmente
garantir a estabilidade no centro e nenhuma ao poltica ou militar de grande
envergadura ou impacto foi executada. A transferncia da residncia do impera-
dor para Gondar, em 1636,  um indcio desse recuo. At ento, os imperadores
 em um pas em que as cidades eram desconhecidas  mudavam de lugar de
uma a duas vezes por ano. Era uma regra absoluta, respeitada mesmo quando
nenhuma considerao poltica ou militar impunha expedies ou mudana de
residncia. Segundo as palavras do cronista etope, "os imperadores se desloca-
856                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



vam de provncia em provncia at a hora do ltimo sono"41. De toda forma, no
se tratava de uma caminhada permanente de um extremo a outro do Imprio.
Muito frequentemente, a residncia imperial permanecia durante longos per-
odos na mesma regio, ou seja, no prprio corao do Imprio, excetuando-se
alguns deslocamentos limitados. Assim, os soberanos da dinastia zagwe (sculos
XII e XIII), na sequncia dos reis axumitas, estabeleceram suas residncias no
Wa e no Lasta. O primeiro imperador da dinastia salomnica, Yekuno Amlk
(1270-1285), residiu principalmente na provncia de Amhara; o imperador Zara
Yakob (1434-1468) preferiu o Nordeste do Shoa (Debra Berhan); o imperador
Lebna Dengel (1508-1540) implantara seu acampamento no Sudeste do Shoa
quando da chegada da misso portuguesa; o imperador Galawdewos (1540-
-1559) acabou por ter uma importante residncia em Munesa, no distrito de
Wa do atual Arussi. Finalmente, quando, em 1636, terminadas as grandes
guerras civis de religio, Falasidas mandou construir um castelo em Gondar, no
se tratava de uma mera ruptura com a tradio, mas de um abandono simblico
da poltica de movimento, cara a seus predecessores. Gondar permaneceria o
centro do que restava da Etipia crist at 185542.
    Assim, entre 1529, incio da jihad, e 1597, data da morte do imperador
Sartsa Dengel e do comeo das guerras civis, a poltica imperial foi centrada na
defesa contra os inimigos do interior e do exterior. O imperador Galawdewos
liderou com sucesso a luta contra os muulmanos, particularmente os do Estado
de Adal-Harar. Vastas regies do Sul (Dawro, Wa) foram reintegradas ao
Imprio (na verdade para logo cair nas mos dos oromo). O antigo contato
com o Sudoeste foi reatado, a influncia da cultura crist-amhariana voltou a ser
percebida nessa regio e os oromo foram ao menos temporariamente repelidos.
Sob o impulso do sucessor de Ibrhm Gra, o emir Nr ibn Muahid, apesar
de uma fome e das epidemias que devastaram uma populao j dizimada, os
muulmanos de Adal-Harar afrontaram mais uma vez o imprio cristo. O exr-
cito etope, mal preparado, foi vencido no decorrer de um ataque contra Adal,
em 1559, e o imperador Galawdewos caiu no campo de batalha, mas era o fim
do poderio islmico, pois em algumas dcadas, os Estados e a cultura islmicos
desapareceriam do cenrio da regio. Restaram apenas a cidade fortificada de
Harar e o pequeno sultanato de Awssa, no osis deltaico do Awache, protegido
pelas terras desertas  sua volta43. O imperador Minas (1559-1563), sucessor de

41    J. Perruchon, 1893, p. 149.
42    Monti della Corte, 1945.
43    P. V. Paulitschke, 1888; E. Cerulli, 1931, 1936 e 1942; E. Wagner, 1979.
O chifre da frica                                                                                 857




figura 24.4 O castelo de Gondar, a capital etope construda pelo imperador Fasilidas. [ Werner Forman
Archive, Londres.]




Galawdewos, teve de combater principalmente os turcos que, de suas bases no
Mar Vermelho (Massawa, Sawkin), tentaram vrias vezes submeter os planaltos
etopes. O filho de Minas, Sartsa Dengel (1563-1597), coroado ainda criana,
passou sua breve existncia e seu reinado relativamente longo a liderar incessan-
tes campanhas em todas as direes. Os oromo, sempre mais numerosos e mais
fortes, apesar de no constiturem uma ameaa to grave quanto os exrcitos da
jihad, nunca concederam trgua ao Imprio44.
    Verdadeiras cruzadas de uma violncia assustadora foram promovidas para
aniquilar os etopes de credo judeu das regies do planalto setentrional, princi-


44   A crnica do imperador Sartsa Dengel d conta apenas das guerras. C. Conti Rossini, 1907.
858                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



palmente Samen, Waggara, Dambiya, Belasa, Sallam e Sagade, onde outrora eles
viveram sob a conduta de seus prprios chefes, gozando de uma certa autonomia.
Seus ancestrais foram provavelmente convertidos por missionrios judeus desde
antes da introduo do cristianismo. Diferentemente dos judeus de outras regi-
es do mundo, eles estavam completamente integrados  cultura do ambiente,
a ponto de seus livros sagrados (o Antigo Testamento, por exemplo) no serem
escritos em hebraico, mas em gueze, a lngua literria e litrgica da Etipia.
    No se sabe porque essa guerra religiosa eclodiu na mesma poca em que o
Imprio enfrentava inimigos externos. Os judeus tiveram de escolher entre o
cristianismo ou o extermnio. A descrio dessas guerras, como a da aniquilao
dos cristos da gerao anterior pelos exrcitos muulmanos da jihad,  um dos
captulos mais sombrios da histria etope. Apesar de sua coragem heroica, os
adeptos do judasmo foram praticamente exterminados, a maioria recusou-se 
converso e muitos preferiram matar-se. Os poucos sobreviventes, privados de
seus direitos civis e arrancados de suas terras, tiveram de mudar de profisso.
Assim, a palavra Falasha, usada para designar os etopes de religio judaica,
tornou-se sinnimo de ferreiro, oleiro, carpinteiro, tecelo e, de forma geral,
trabalhador especializado. Apesar da importncia de sua profisso, esses homens
foram marcados por um estigma em uma sociedade em que o ideal era o homem
livre e independente, jamais trabalhando para outrem em troca de um salrio.
Assim, a decadncia social ia de mos dadas com a perseguio religiosa45.
    Surpreende constatar que o Imprio Etope, ocupado por combates furiosos
e incessantes durante trs geraes, encontrou a fora no apenas para enfrentar
os turcos no Norte, os muulmanos de Adal no Leste e os oromo no Sul e no
centro, mas ainda para obrigar, por macias campanhas no Sudoeste, os grandes
Estados de Enarya, Bosa e Kaffa (Gomar) a aceitar mais do que um reconhe-
cimento simblico de sua soberania e a renovar seus laos com a Igreja etope e
a cultura da Etipia Setentrional. O autor da Histria dos Galla (provavelmente
capelo na corte do imperador Sartsa Dengel), ao fazer a crnica das guerras de
to grande consequncia para a evoluo futura do Sudoeste etope, se limita a
assinalar que no decorrer de uma campanha, o imperador no conseguiu atrair
os oromo dawe para o campo de batalha porque eles se retiraram.
    "Por falta de inimigos de carne e osso, o imperador decidiu combater o
Diabo e capturou as almas dessas pessoas chamadas de inariya (enarya), bosa,
gomar. Diante da injuno: `Tornem-se cristos!', eles obedeceram e receberam


45    W. Leslau (1951) d uma bibliografia completa sobre os Falasha. Ver J. M. A. Flad, 1869.
O chifre da frica                                                                  859



o batismo46". Assim sendo, o autor das crnicas imperiais consagra um grande
nmero de pginas a esse importante acontecimento, o batismo coletivo. Essa
testemunha ocular expe de maneira muito viva a que ponto os amhara se con-
venceram de sua misso, e de sua superioridade, enquanto disseminadores da
f crist e do conceito imperial. Sartsa Dengel ofereceria a reduo do tributo
devido pelos enariya  metade se eles todos se tornassem cristos. Pressionado
pelo imperador e esperando tambm o apoio necessrio contra os oromo, cuja
fora no parava de aumentar, o rei Badanco de Enarya decidiu deixar-se batizar.
A cerimnia foi organizada com grande solenidade pelo rei e todo seu povo
ao mesmo tempo. O prprio imperador da Etipia "o novo apstolo, o novo
Constantino, que fecha os templos dos idlatras e abre as igrejas", foi o padrinho
do rei de Enariya e seus ancios foram os padrinhos dos nobres de Enarya. Os
mais altos dignitrios eclesisticos da Corte etope oficiavam. O cronista, em sua
condio de monge, no faz um simples panegrico quando exclama:
         Oh, quanta alegria o imperador cristo teve naquele dia pelas almas dos crentes
     que receberam o batismo nesse mesmo dia! Vamos dar na alegria essas palavras de
     louvor a nosso imperador Sartsa Dengel: Tu que ensinas os povos, tu que obedeces 
     lei crist, no por medo do gldio, mas na esperana de entrar no reino dos cus47.
    Aps a pompa solene do batismo e a oferenda de vestes e enfeites aos ena-
rya, o imperador fixou as leis eclesisticas e deu ao pas "mestres ortodoxos", os
padres e diconos que participaram da Igreja fundada pelo rei Badanco, dora-
vante nomeado Zamaryam (devotado a Maria). Pouco tempo depois, o rei dos
bosa, vizinhos dos enarya, foi batizado por sua vez e recebeu o nome de Jorge.
Esses episdios, bem como outros anlogos, sobrevindos pouco tempo antes de
1600, representam o canto do cisne da expanso imperial, que nunca mais se
reproduziria dessa forma. Apesar de sua corajosa resistncia, os enarya foram
conquistados pelos oromo em 1710, com seu rei fugindo com uma parte da
populao para Kaffa, mais ao Sul. As tradies orais que ainda sobrevivem nos
povos etopes do Sudoeste permitem concluir que os contatos estabelecidos no
reinado de Sartsa Dengel tiveram um efeito excepcionalmente durvel e estimu-
lante no pas e em sua civilizao. A Etipia do Sul foi o palco do ltimo triunfo
do expansionismo imperial e o teatro de frutferas trocas culturais.
     preciso tratar agora de um episdio muito mais importante para o Imprio
do que todos os fatos polticos e militares dos quais o Estado cristo saiu vito-

46   C. Conti Rossini, 1907, p. 140; A. W. Schleicher, 1893, p. 31.
47   C. Conti Rossini, 1907, p. 144.
860                                                                frica do sculo xvi ao xviii



rioso, o acontecimento ideolgico decorrido aproximadamente por um sculo
(de 1542 a 1632) em solo etope: o conflito com a Igreja catlica.
    A criao da Companhia de Jesus (os jesutas), em 1540, deu  Igreja cat-
lica um instrumento extremamente eficaz para conduzir a Contra-Reforma na
Europa, mas igualmente para converter os "pagos" e trazer para seu domnio
as igrejas crists "herticas", fora do dogma e da autoridade de Roma. Alm das
misses na ndia, na China e no Japo sob a conduta do ilustre So Francisco
Xavier, a reintegrao da Igreja do Padre Joo foi considerada uma tarefa impor-
tante. Desde antes de 1540, houve trocas epistolares entre os reis portugueses
e os imperadores etopes. Esses contatos foram aproveitados aps essa data. O
elemento determinante foi, evidentemente, a presena de membros do corpo
expedicionrio portugus com suas famlias na Etipia. Houve a princpio o
extraordinrio episdio de um certo Joo Bermudez que, aps ter participado
da segunda misso portuguesa (1520-1526), na qualidade de barbeiro segundo
alguns, apresentou-se novamente no pas alegando que o papa o ordenara
patriarca romano da Etipia. Depois, em 1557, Andrea da Oviedo foi consa-
grado bispo e enviado  Etipia com outros jesutas portugueses para preparar a
reintegrao, ou seja, a unio da Igreja ortodoxa com Roma. Seus intercmbios
com o clero etope e, principalmente, com o imperador Galawdewos serviram
pouco  causa da f catlica na Etipia, mas deram ao soberano a ocasio de
fazer uma brilhante exposio da religio etope, conhecida na histria como "a
confisso de Galawdewos" (haymanota Galawdewos).
    Era a primeira vez na frica que uma voz se levantava para fazer observar
que o cristianismo  uma religio sem limites temporais nem espaciais e que
nenhum povo de continente algum poderia alegar ser sua prpria interpretao
a nica verdadeira. Ao mesmo tempo cheio de segurana e de tolerncia, eis
que o cristo africano afronta seu correligionrio europeu. Ele o coloca em seu
lugar quando, por exemplo, demonstra que certos costumes e prticas da Igreja
etope no so nem "pagos" nem "judeus", mas tm sua origem na cultura
popular etope, da mesma forma que cultura europeia se expressou na cristan-
dade europeia:
          No que diz respeito  circunciso, ns, os etopes, no nos circuncidamos como
      os judeus, pois sabemos que Paulo, essa fonte de sabedoria, disse sobre ela [...]. A
      circunciso  praticada entre ns muito simplesmente como um costume de nosso
      pas, exatamente como os nbios entalham o rosto ou os indianos furam as orelhas.
      Ns seguimos aqui ento, no a lei de Moiss, mas um costume humano. [...] Sobre
      o consumo do porco (mais exatamente sobre a proibio de com-lo), acha-se que
O chifre da frica                                                                                    861



     podemos observar a lei de Moiss como os judeus fazem. No desprezamos os que
     comem, no os consideramos impuros, mas se tiver algum que no coma, tampouco
     o foramos a comer [...] Alguns preferem o peixe, outros as aves, outros ainda no
     comem carneiro. Que cada um escute seu corao, ainda que as inclinaes e os
     desejos dos homens sejam diferentes. [...] Para os puros, tudo  puro, e como diz
     Paulo, aquele que cr de verdade, pode comer de tudo.
    O mesmo texto explica tambm como os cristos da Etipia seguem o sab,
celebrando nesse dia a Santa Comunho por meio de uma gape (mahabbar),
uma "festa do amor" associada  Ceia48.
    Sob o reinado do imperador Sartsa Dengel, os jesutas receberam um centro
em Fremona, perto de Adwa, no Tigre. Eles foram autorizados a viver no lugar
em total liberdade e a empreender  no sem sucesso  atividades missionrias.
Oviedo morreu em 1577 e seu sucessor s foi nomeado aps muitos anos, pois
os turcos controlavam os portos do Mar Vermelho e prendiam todos os por-
tugueses. Por fim, em 1603, um espanhol, Pedro Paez, veio encabear a misso
aps uma perigosa viagem de vrios anos. Esse missionrio, sem dvida alguma
o mais notvel da poca, era tambm um homem de rara tolerncia. Os etopes
tambm se engajaram em discusses teolgicas extremamente estimulantes: a
controvrsia forava a Igreja etope a sair de seu torpor. Esses anos de debates
contam entre os mais vivos de sua histria. Para estar ao alcance do povo, a Igreja
chegou at a conduzir e transcrever os debates teolgicos em lngua ahmariana.
Essa inovao acabou aps a Restaurao de 1632, quando foi reintroduzida a
lngua oficial da Igreja, o gueze, to pouco conhecido das massas etopes quanto
o latim pelos camponeses europeus da poca. Os efeitos benficos dessas trocas
no tiveram futuro e o debate construtivo logo se transformaria em hostilidade
aberta entre as faces ortodoxa e catlica49.
    Nessa poca, a literatura da Etipia conheceu uma notvel renovao e os
escritos de ento, de carter teolgico e histrico principalmente, so consi-
derados dentre as criaes mais importantes da produo etope em geral. As
obras teolgicas que podemos mencionar so: Fekkare Malakot [A explicao
da Divindade], tratando do problema do conhecimento de Deus; Mazgaba
Haymanots [O tesouro da f], resumindo, assim como Sawana Nafs [O refgio
da alma] os argumentos do clero ortodoxo em favor da doutrina monofisita, ou


48   H. Ludolf, 1681, vol. III, cap. 1.
49   A crnica abreviada observa com laconismo durante o reinado de Susenyos  : "ele se revoltara pelos
     francos" (ou seja, pela f catlica), "o povo pereceu no Wa por causa dos francos" ; "ele pereceu por
     causa dos francos" etc. Ver R. Basset, 1882, p. 129.
862                                                                         frica do sculo xvi ao xviii



Haymanota Abaw [A f dos Pais], coletnea universal traduzida do rabe copta
e tendo o mesmo assunto. Um dos testemunhos mais importantes dessa poca
turbulenta  a obra que conta, de um modo muito vivo, a histria e os sofri-
mentos da religiosa Wallata Petros, morta em 1644 aps uma existncia quase
inteiramente consagrada  luta contra o dogma catlico. Para a reintegrao dos
cristos que haviam adotado a f islmica, foi escrito o Mashafa Keder [Livro da
impureza], que trata dos ritos de expiao enquanto o Mashafa Nesseha [Livro
da penitncia] era traduzido do rabe50.
     preciso destacar um eminente autor, Enbakom (Habacuc), rabe muul-
mano convertido ao cristianismo que, na hierarquia da Igreja etope, foi elevado
ao nvel de abade no clebre mosteiro de Dabra-Libanos e tornou-se eccage,
chefe supremo do clero etope.  de sua autoria a notvel obra intitulada Ankasa
Amin [A porta da f], defesa do cristianismo contra o isl, na qual ele cita cons-
tantemente o Alcoro para provar a verdade da f crist. Alm disso, ao traduzir
Barla'am e Josafat, Enbakom deixou uma importante obra da literatura oriental
ao alcance do povo etope. Talvez tenha sido ele tambm a adaptar para o etope
Zena Eskender [Canto de Alexandre] cuja influncia sobre a Etipia em geral 
muito mais considervel do que geralmente se cr51.
    Os trs relatos (anais) dos reinados dos imperadores Galawdewos, Sartsa
Dengel e Susenyos e a breve Histria de Galla, do monge Bahrey, constam
igualmente dentre as mais importantes produes literrias desses perodos.
O mesmo monge talvez tenha tambm escrito a crnica de Sartsa Dengel.
Essas obras caracterizam-se por uma apresentao viva, um estilo pessoal e um
engajamento marcado, pois o escritor (ou os escritores) tinha conscincia de
representarem o imprio52.
    O imperador Sartsa Dengel designara, para suced-lo, o filho de seu irmo,
Za Dengel, ento maior de idade, pois seu prprio filho Ya`ekob ainda era uma
criana; mas sua viva, com a ajuda de dignitrios influentes, conseguiu colocar
este ltimo no trono. Uma revolta e uma guerra civil estouraram em seguida.
Finalmente, Za Dengel venceu, mas cometeu a imprudncia de concluir precipi-
tadamente uma aliana com a misso catlica e os portugueses, ainda influentes
no pas, e de declarar sua submisso ao papa, o que levou o abuna (ou arcebispo
da Igreja etope) a desligar os sujeitos de seu sermo de fidelidade e a exco-
mungar o imperador. A guerra civil eclodiu novamente, Za Dengel morreu em

50    E. Cerulli, 1968, p. 145.
51    Ibid, p. 125; L. Ricci, 1969-1971 e 1971.
52    J. Perruchon, 1893; C. Conti Rossini, 1907; A. W. Schleicher, 1893.
O chifre da frica                                                            863



combate e Ya`ekob, restabelecido no trono, reinou at o dia em que, graas a sua
superioridade poltica e militar, um sobrinho-neto de Sartsa Dengel, Susenyos,
conseguiu fazer-se proclamar imperador e restabelecer a paz.
    A sagrao de Susenyos (1607) marcou o incio da fase final da rivalidade
entre a Igreja ortodoxa etope e a Igreja missionria catlica. Durante os cinco
primeiros anos de seu reinado, Susenyos eliminou, graas a uma srie de campa-
nhas vitoriosas, os inimigos mais perigosos do Imprio, tanto nacionais quanto
estrangeiros: os poucos falasha ainda existentes foram exterminados, os agaw
(populao autctone da Etipia Central e ocidental que, at o momento,
beneficiaram-se de uma certa autonomia) foram definitivamente submetidos
e, por fim, os oromo passaram por tantos reveses que se mantiveram sosse-
gados por muito tempo. Os talentos excepcionais do chefe da misso jesuta,
Pedro Paez, telogo, pregador, professor e arquiteto, abriram-lhe o acesso  corte
imperial e, sob a efgie dessa forte personalidade, o imperador tendeu cada vez
mais rumo ao catolicismo. Essa tendncia ficou ainda mais ntida quando seu
influente irmo, o ras Se'ela Krestos, tornou-se oficialmente catlico em 1612 e
criou uma misso catlica na provncia de Godjam. Desprezando as admoesta-
es do abuna, que o ameaou de excomunho, o imperador adotou tambm a
religio catlica em 1622. Pedro Paes morreu pouco tempo depois53.
    A luta entre as duas doutrinas e as duas civilizaes, conduzida at ento com
armas intelectuais e dentro do respeito mtuo, voltou-se para a guerra aberta.
Alphonso Mendez, o novo bispo espanhol, despachado pelo papa, era exata-
mente o oposto de seu predecessor, to tolerante e cheio de compreenso. Seu
sectarismo e sua arrogncia suscitaram inevitavelmente uma reao hostil em um
pas que preza a liberdade e que, no decorrer dos sculos, mantivera laos estrei-
tos com sua prpria Igreja nacional. Sob a proteo do imperador, com a lgica
e a intolerncia obstinadas prprias aos jesutas dessa poca, Mendez tratou de
recolocar a Igreja etope naquilo que era, a seu ver, o caminho certo. Todos os
padres etopes tiveram de sofrer uma nova ordenao e todas as igrejas uma nova
consagrao. As decoraes interiores dos edifcios religiosos foram modificadas
de acordo com o modelo europeu. O calendrio foi europeizado, a circunciso
proibida e um novo batismo foram impostos a todos os etopes. "Tudo foi feito
para no apenas contrariar o clero, mas tambm o simples fiel"54.
    Dois incidentes provocaram uma hostilidade particular: Mendez mandou
expulsar do mosteiro de Dabra Libanos os restos mortais de um abade muito

53   P. Pais, 1945-1946; J. Lobo, 1728; B. Sellez, 1710.
54   A. H. M. Jones e E. Monroe, 1978, p. 97.
864                                                                       frica do sculo xvi ao xviii



venerado, sob o pretexto de que o corpo de um cismtico era uma profanao,
e uma mulher foi acusada de bruxaria,  moda europeia (at ento a Eti-
pia ignorava o processo de bruxaria, flagelo da Europa no incio dos tempos
modernos).
   Contra a nova igreja detestada multiplicaram-se as revoltas, que se tornaram
particularmente violentas nas provncias centrais do Bagemder, do Lasta e de
Wa. O imperador, outrora to amado, a quem o pas devia a paz, devia agora
domar seus sditos com guerras sangrentas agravadas ainda mais pelo fanatismo
dos jesutas. Em 1632, uma nova grande batalha ocorreu, saindo dela vitorioso
o imperador, com pesadas perdas para ambos os lados. O prncipe herdeiro
Fasilidas, cavalgando ao lado de seu pai, apontou os corpos dos rebeldes e disse:
"Eram outrora teus leais sditos!" O imperador, cujas dvidas aumentaram, ficou
abatido e abdicou, fazendo a seguinte proclamao:
         Ouvi, ouvi! Ns vos demos a princpio esta f, crendo-a certa. Mas inmeros
      homens pereceram [...], e agora estes camponeses. Em razo disso, ns vos restitui-
      remos a f de vossos ancestrais. Que o antigo clero retorne s igrejas, que ele restaure
      seus altares, que siga sua prpria liturgia. E regozijai-vos55.
    Abatido, Susenyos morreu pouco tempo depois. Era o fim da misso catlica.
Os que adotaram a nova religio voltaram em massa para a f tradicional. O
novo imperador, Fasilidas, mandou deportar os jesutas e qualquer um que tenha
ficado no pas apesar do decreto imperial foi morto. Os etopes, e seus chefes
mais destacados, dentre eles o ras Se'ela Krestos, foram executados. Esforando-
-se para consolidar o Imprio e eliminar toda influncia estrangeira, Fasilidas
chegou at a concluir com o governador turco de Massawa um acordo segundo
o qual os turcos deviam executar, em troca de recompensa, todo missionrio
europeu que chegasse a Massawa. Assim acabou, por culpa dos europeus, um
contato entre a frica e a Europa que durara cem anos, inicialmente enrique-
cedor, depois meramente negativo. Os irmos cristos de alm-mar, a princpio
acolhidos como amigos confiveis, doravante s seriam evocados pelos etopes
como "os lobos do Oeste"56.
    O Imprio Etope isolou-se ento deliberadamente do resto do mundo e
iniciou voluntariamente uma poltica de estabilizao que, no fim do sculo,
levou  estagnao. A instalao de uma residncia imperial permanente em
Gondar, no centro militarmente protegido do Imprio, inscreveu-se nesse pro-

55    R. Basset, 1882, p. 132; A. H. M. Jones e E. Monroe, 1978, p. 98.
56    H. Ludolf, 1681, vol. III, cap. 13.
O chifre da frica                                                                                   865



cesso. Ainda que as vastas campanhas militares e as grandes migraes oromas
cessassem progressivamente e que um grande nmero deles fosse assimilado 
civilizao da Etipia crist, no foi mais possvel continuar uma poltica din-
mica e conquistadora a partir de Gondar. No h ento grande coisa a dizer da
atividade poltica da Etipia crist no decorrer da segunda metade do sculo
XVII. Durante o reinado do imperador Yohannes (1667-682), os raros etopes
catlicos que restaram foram obrigados a aceitar a f ortodoxa ou a deixar o
pas. Chegou-se a um certo modus vivendi com os muulmanos: os adeptos do
isl vivendo na Etipia crist  principalmente gabarati (mercadores)  eram
autorizados a praticar sua religio sem restrio, mas deveriam viver em lugares
exclusivos.
    Iyasu I (1682-1706) foi o ltimo desses grandes imperadores que puderam
exercer o poder sem restrio. Ele fez uma ltima tentativa  infelizmente v
 para reaver o contato com a Etipia do Sudoeste e chegou a ir at Enarya.
O Imprio no tinha ento, nem no pas, nem fora de suas fronteiras, inimigos
capazes de amea-lo. O importante porto de Massawa, teoricamente uma pos-
sesso turca colocada sob o controle de um governador bdja (n`ib de Arkiko),
permanecia aberto ao comrcio com a Etipia. Mas aps a morte de Iyasu I, as
fraquezas internas acarretaram a desintegrao do Imprio, que degenerou em
anarquia total por volta de 175557.
    No decorrer desse perodo, a vida cultural e intelectual foi, por uma ltima
vez, florescente. Foi principalmente o patrocnio da Corte imperial de Gondar
que estimulou as artes e as cincias, levando-nos a falar agora do perodo gonda-
riano da arte etope. Mais do que nunca, eles se revelaram ser o apangio de uma
elite restrita, uma superestrutura dominante da cultura popular camponesa. No
quadro do presente captulo, no nos  possvel dar totalmente conta dos dife-
rentes aspectos da vida intelectual da poca  evidentemente porque a riqueza
extraordinria das realizaes culturais no foi suficientemente reconhecida
nem, por conseguinte, divulgada. Limitaremos nossas observaes  pintura.
    Com relao ao grande sculo precedente, a literatura no tem originalidade,
tomando um carter edificante ou corts, e compondo-se principalmente de
tradues do rabe copta. Dois escritos so dignos de serem mencionados: o
Faws Manfasawi [A medicina espiritual], livro de devoo sobre as penitncias,
e o Fetha Nagast [A jurisdio dos monarcas], coletnea de leis e de instrues
tiradas do direito eclesistico, civil e constitucional e destinadas s comunidades

57   O perodo seguinte, que vai at 1855, ano da coroao de Teodoro,  consequentemente chamado de
     "era dos prncipes/juzes" (Zarnana Masafent), por aluso ao Livro dos Juzes, do Antigo Testamento.
866                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



coptas do Egito. No apenas a traduo era excepcionalmente crivada de erros
e de imprecises, mas as instrues desse cdice eram inaplicveis na Etipia.
Enfim, esse perodo foi o da criao de um grande nmero de hinos sagrados em
louvor  Santa Trindade, a Jesus Cristo,  Virgem Maria, aos santos e anjos. Seus
nomes diferem de acordo com a mtrica ou com a origem do poema: degwam
kene, malke'e ou salam58.
    As artes grficas tambm foram marcadas pela influncia da corte. As famosas
igrejas colossais, que figuram entre as criaes mais importantes e mais originais
da civilizao da Etipia crist, continuavam a ser entalhadas na rocha no fim
do sculo XV, no apenas nos principais centros de Wa, Lasta e Geralta, mas
igualmente nas vrias provncias mais meridionais. No se sabe ainda o nmero
exato dessas igrejas, tampouco delas possumos uma descrio precisa. Esse tipo
de construo foi definitivamente abandonado aps 1500, provavelmente em
razo das guerras religiosas59. Aps 1632, apareceu, principalmente em Gon-
dar e muito pouco alhures, um tipo diferente de construo: imensos castelos,
bibliotecas, capelas e anexos dos palcios para os imperadores e membros da
famlia imperial. O formato desses edifcios revela com frequncia que modelos
estrangeiros foram seguidos. A maioria dentre eles foi provavelmente construda
por pedreiros indo-portugueses vindos de regies prximas a Goa, sob influncia
portuguesa, e que vieram  Etipia no mbito da misso portuguesa. O declnio
progressivo do Imprio, a destruio da cidade de Gondar por theodoros e os
dervixes, bem como vrios sculos de abandono, despojaram completamente
esses edifcios de sua ornamentao arquitetnica e de sua preciosa decorao
interna. Tudo o que subsiste atualmente so paredes nuas ou runas que no do
a menor ideia do nvel de civilizao da poca60. Durante toda a restaurao, os
contatos culturais com a ndia devem ter sido numerosos, mas no se sabe muita
coisa a respeito. Assim, por exemplo, nas imagens religiosas, o imperador etope
aparece vestido com traje da corte dos Grandes Moghols de Dli61.
    A pintura etope expressou-se principalmente sob duas formas: pinturas
murais de igreja e iluminuras de livros sagrados (com relao a essas produes,
as poucas pinturas em madeira dos retbulos mveis  de grande qualidade, 
fato  tm pouca importncia quantitativa). No que foi conservado at nossos
dias, poucas pinturas murais feitas diretamente sobre pedra ou tela de algodo


58    E. Cerulli, 1968, p. 162.
59    R. Sauter, 1963.
60    Monti della Corte, 1945.
61    Por exemplo, em vrios cones do Instituto de Estudos Etopes na universidade de Addis-Abeba.
O chifre da frica                                                                            867



fixada nas paredes so anteriores ao sculo XVII. Em contrapartida, dispomos
de um grande nmero de manuscritos que remontam at o sculo XIV, de
maneira que se possa seguir facilmente a evoluo da iluminura. A pintura etope
sempre se caracterizou por dois traos: o cuidado em adotar modelos e motivos
estrangeiros e a habilidade em transform-los em criaes tipicamente etopes.
Cada uma das grandes pocas da histria etope criou estilos verdadeiramente
caractersticos62.
    Por volta de 1500, a iluminura atingira seu apogeu, correspondendo simulta-
neamente  da civilizao da Etipia crist e do Imprio Etope. Os personagens
extremamente estilizados das pinturas da poca so imbudos de uma majestosa
dignidade e revelam igualmente uma excepcional profundidade de sentimento.
Independentemente do texto que ela ilustrasse, essa iconografia visava comover
pelo vigor de sua representao e reforar no devoto as suas crenas. Embora
submetidos a um cnone, seus pintores gozavam de uma grande liberdade arts-
tica de execuo que deixava transparecer sua personalidade sem dificuldades63.
As pinturas da segunda metade do sculo XVI e do incio do XVII so de
natureza muito diferente. Elas refletem a multiplicidade das influncias estran-
geiras penetrando a Etipia e constituem as testemunhas mudas de um intenso
conflito intelectual. O modo de representao da Crucificao adotado pelos
vrios pintores etopes disso  um exemplo eloquente:  uma cpia da famosa
gravura em madeira do pintor e ilustrador alemo Albrecht Drer, uma das
cenas da Pequena Paixo. Em 1591, o escritrio da Propaganda Fide em Roma
imprimira um Envangelium arabicum para apoiar o trabalho missionrio cat-
lico no Oriente e o ilustrara com vrias gravuras em cobre, das quais algumas
j muito antigas, de Drer. Exemplares chegaram  Etipia quando da misso
portuguesa e tornaram-se os principais objetos de inspirao dos miniaturistas64.
Todas as pinturas dessa poca mostram a que ponto os etopes sabiam integrar
os modelos estrangeiros  sua prpria cultura. Elas so tambm a expresso viva
de uma poca turbulenta, marcada por um conflito com formas estrangeiras que
no concordavam realmente com a arte etope tradicional.
    Por sua elegncia refinada e a graa de suas formas, as pinturas da restau-
rao, do perodo gondariano, ultrapassam, afinal, todas as outras (muitas so
inspiradas tambm em modelos europeus). Elas refletem os esplendores eva-


62   J. Leroy, S. Wright e O. A. Jger, 1961; J. Leroy, 1967; O. A. Jger, 1957.
63   Refiro-me s miniaturas no publicadas dos manuscritos de Birbir Maryam (Gamu) ou s pinturas
     reproduzidas em J. Leroy, 1967 (pl. VI-XV).
64   H. Buchthal, 1960.
868                                                                      frica do sculo xvi ao xviii




figura 24.5 Pintura copta sobre tecido representando a Virgem e a Criana, Gondar. [ Werner Forman
Archive, Londres. Museu de Addis-Abeba.]




Figura 24.6 Pintura copta sobre tecido representando So Jorge e o drago, Gondar. [ Werner Forman
Archive, Londres. Museu de Addis-Abeba.]
O chifre da frica                                                                                           869



nescentes do Imprio e dirigem-se a uma sociedade de cortesos apaixonados
por suas formas elegantes e cada vez mais convencionais. Elas so a obra de
artistas integrados  vida da corte. Quadros como Cristo no monte das Olivei-
ras representam o pico da pintura desse perodo: personagens artisticamente
encampados, cores cuidadosamente equilibradas, amor pelo detalhe. No que se
chama o segundo perodo gondariano, comeando por volta de 1700, a criao
artstica enfraqueceu-se cada vez mais e degenerou finalmente em um cnone
de simples formas repetitivas65.


     O Sudoeste etope: a apario de uma nova cultura e de
     novos Estados
    Os textos cristos e islmicos nos informam bem sobre as relaes do imprio
cristo com o Sudeste etope entre 1500 e 1700, mesmo em pocas mais antigas
(ver abaixo). Desde a primeira metade do sculo XIV, os hadiyya, na poca ainda
habitantes dos montes do Tchertcher e de seus flancos meridionais, aparecem
nominalmente na lenda imperial, o Kebra nagast. As crnicas dos imperadores
Amda Seyon (1314-1344) e Zara Yakob (1434-1468) narram conflitos com os
Estados islmicos do Leste e do Sudeste66. As fontes escritas so muito mais
pobres sobre o Oeste e o Sudoeste, correspondendo s atuais provncias de
Wallaga, Ilubabor, Kaffa, Gamo-Gofa, e s regies do Oeste e do Sudoeste do
Shoa e do Sidamo-Borana.  verdade que os clebres cantos em louvor a certos
imperadores do sculo XV mencionam os nomes de povos e Estados, ento
pagantes de tributo ao Imprio Etope. Mas ser possvel identific-los como
sendo os povos e homnimos do sculo XIX? Os nomes mudam, as migraes
os levam para regies distantes. Lembremos-nos dos povos mais importantes:
os enarya, os bos(a), os djindjero, os kambat(a), os ennamor, os cucha (kucca),
os zergo, os walamo, os gamo, os halaba, os gudela, os wa e, por fim, os damot
e seu rei Motolomi (ou Motilami)67.
    Os textos no permitem precisar a influncia exata exercida nessa regio da
Etipia crist, alm da dominao puramente poltica e a extorso de tributos.
Ser atribudo um interesse particular  histria semimtica de santa Takla Hay-
manot (incio do sculo XIV) que conta em detalhes como esta chegou a Damot

65   O. A. Jger, 1957, pl. 17 e 18; J. Leroy, 1967, p. LIX e LX; E. Hammerschmidt, 1977, p. 121-127 e 138-155.
66   G. W. B. Huntingford, 1965, passim; J. Perruchon, 1893, passim.
67   E. Littmann, 1914.
870                                                                         frica do sculo xvi ao xviii




figura 24.7 Pintura mural do sculo XVIII, na igreja de Dabra Birhan, Gondar. [ Werner Forman
Archive, Londres.]




Figura 24.8 Afresco copta do sculo XVIII representando o inferno e o diabo, na igreja de Dabra Birhan,
Gondar. [ Werner Forman Archive, Londres.]
O chifre da frica                                                             871



para batizar o "rei Motolomi".  possvel que a palavra rei no tenha sido um
verdadeiro ttulo, e o verdadeiro posto de Damot ainda no foi determinado com
exatido. Talvez fosse Walamo (Wolayta) como quer a tradio oral. Mas Damot
 o nome de vrios distritos e de vrias montanhas do Sul da Etipia68. O que
resta dos anais do imperador Zara Yakob no diz quase nada sobre suas campa-
nhas militares e misses religiosas no Sul etope. Todavia, seu nome sobreviveu
nas tradies orais da regio onde, por vezes, deformado em Zerako, tornou-se
sinnimo de imperador. A Crnica do imperador Galawdewos menciona muito
brevemente o que aconteceu no Sul. Lembraremos, por fim, o notvel relato da
expedio de Sartsa Dengel a Enarya (ver acima).
    Quais foram as verdadeiras consequncias desses contatos militares, reli-
giosos e culturais entre o Norte e o Sul? As tradies orais ainda vivas no Sul
da Etipia so uma mina de dados histricos e, infelizmente, ainda no foram
todas recolhidas. Os estudos genealgicos, as anlises culturais e as descobertas
arqueolgicas constituem, igualmente, preciosas chaves para a interpretao
desses acontecimentos e de suas consequncias. Eles mostram que a influncia
do Norte sobre o Sul foi profunda o suficiente para criar uma nova cultura.
    Na ausncia de outras possibilidades,  somente pelo estudo da cultura con-
tempornea dos grupos tnicos, vivendo  margem do ecumenismo etope e
tendo escapado da influncia do Norte, at uma poca recente, que se pode
deduzir a situao cultural da Etipia do Sul antes do sculo XV, ou seja, antes
de o Norte comear a exercer sua influncia: esses grupos se encontram, por
exemplo, entre os povos guimirra, ari ou dizi, que nem sempre constituram
Estados ou dotaram-se de instituies polticas elaboradas. Alhures, apenas
o impulso crescente do imprio cristo do Norte, pde provocar mudanas
determinantes. Antes dessas transformaes, um grande nmero de grupos de
cls pequenos, qui minsculos, deve ter vivido lado a lado no Sul, tendo por
ligao, apenas, a comunidade da lngua e da cultura, o reconhecimento de uma
genealogia comum e, enfim, a eventual venerao de um grande sacerdote ou
de um ancio, que encarnasse o conjunto das afinidades religiosas do grupo
tnico. Esse personagem era envolto por uma certa aura religiosa, por descender
do fundador do grupo, cujo nascimento fora acompanhado de felizes prenn-
cios. Atribuam-lhe poderes sobrenaturais, principalmente, sobre as coisas mais
importantes no mundo campons, como, por exemplo, o poder sobre a chuva e
sobre as plantas, e a promessa de ricas colheitas. Ao lado dessa funo religiosa


68   A oeste do Godjam, no Wolayta, o Gangero, o Basketto e o Koysa (Kaffa).
872                                                         frica do sculo xvi ao xviii



essencial, parece que as funes polticas desse dignitrio foram insignificantes
e at mesmo, frequentemente, quase nulas. Muitos dos que ocuparam esse posto
teriam tido as maiores dificuldades em aplicar sua vontade e impor sanes  
significativo o fato de palavras como ordenar, punir e decretar, no figurarem
ainda na lngua corrente de vrios grupos do Sul da Etipia. Esses dignit-
rios representavam, incontestavelmente, suas comunidades, mas os verdadeiros
detentores do poder poltico eram os chefes de cls e os prprios cls, unidades
originalmente autnomas e independentes. Eles tomavam as verdadeiras deci-
ses concernentes  guerra e  paz, ao bem e ao mal69.
    Com sua concepo rgida do Estado e da realeza, os conquistadores do
Norte dominaram esse mundo campons pouco evoludo. A anexao e a assi-
milao ocorreram de maneira frequentemente bastante pacfica, com o Sul
reconhecendo a superioridade cultural do Norte. Assim, a conquista do que se
tornaria mais tarde o importantssimo Estado de Wolayta teria se desenrolado
da seguinte maneira: em 1600, um nobre tigrense, de nome Mika'el, foi para
o Sul em funo de uma das ltimas campanhas do imperador etope Sartsa
Dengel. Ele era acompanhado por cavaleiros armados e sacerdotes cristos.
De acordo com a lenda, ele atravessou uma impetuosa torrente dividindo as
guas com a ajuda de seu cajado, tal como Moiss, e chegou no que era ainda o
pequeno pas de Wolayta, onde desposou a filha do chefe. Com a morte deste,
ocorrida pouco tempo depois em circunstncias, das quais seus descendentes
falam desfavoravelmente, Mika'el usurpou o trono. Os wolayta se revoltaram
e, ainda que Mika'el fosse valoroso e se servisse da cavalaria, at ento desco-
nhecida dos wolayta, ele teria sido vencido se no tivesse recorrido a um ardil,
ilustrando perfeitamente a superioridade intelectual e a engenhosidade poltica
dos invasores. Nas diferentes batalhas, as pessoas do Norte, em lugar de lanar
zagaias, lanavam contra seus adversrios colares e pedaos de carne, assim como
tecidos, pois esses desconheciam a tecelagem. E os wolayta exclamavam-se: "Se
vocs so ricos e poderosos a ponto de jogarem tais tesouros, ento sejam igual-
mente nossos mestres!" Foi assim que os invasores tomaram posse de um pas
que, sob sua influncia, no tardou a mudar radicalmente de carter, deixando
de ser uma terra rural e insignificante para se tornar um Estado dinmico e
agressivo70.
    Admitiu-se frequentemente sem discusso que os Estados monrquicos,
mais bem armados e dispondo de uma cavalaria, a princpio desconhecida no

69    H. Straube, 1957.
70    E. Haberland, 1965, p. 260.
O chifre da frica                                                           873



Sul, eram superiores s comunidades de organizao democrtica. Alguns gru-
pos teriam at mesmo cedido aos invasores e aceitado seus chefes como novos
senhores. Parece ter havido povos que imploravam a vinda de um prncipe que
criaria uma nova dinastia e fundaria um novo Estado71.
    Foi dessa maneira que nasceu toda uma srie de novos Estados, grandes ou
pequenos, que se lembrariam para sempre de seus laos com o Norte, cujas classes
dirigentes cultivariam e desenvolveriam, fielmente, as tradies do Norte e cuja
organizao e estrutura geral seriam at hoje a cpia desse grande modelo.
    Alm das formas puramente exteriores da organizao estatal e da vida na
corte, o mito do Imprio Etope deixou igualmente sua marca. Ele associava
duas pretenses: ser o povo eleito e o reino da verdade, subjugar e assimilar
todos os povos vizinhos. A histria da Etipia do Sul tal como contam quatro
sculos de tradies orais  a de uma vasta expanso desses jovens Estados, que
ampliaram seu domnio em detrimento de pequenos grupos independentes ou
organizados de maneira democrtica ou pouco sistemtica, e que contriburam
muitas vezes para a fundao de novas dinastias junto a seus vizinhos. Esse
processo acarretou uma reao em cadeia. Assim, segundo a tradio oral, o
primeiro Estado gonga, Enarya (ou Hinnaro), foi fundado antes de 1500 por
um imigrante do Tigre (Kaba Seyon). Foi mencionada anteriormente a con-
verso de Enarya ao cristianismo sob o imperador Sartsa Dengel. De fato, os
fundadores desse Estado foram provavelmente cristos e seus sditos aceitaram
apenas temporariamente a religio dos dirigentes. Enarya manteve seus contatos
com o imprio cristo por tanto tempo quanto possvel e permaneceu cristo
at seu desmoronamento provocado pela constante tenso ininterrupta exercida
pelos oromo. Nos sculos XVI e XVII, membros da dinastia busaso de Enarya
fundaram outros domnios: Bosa, que foi integrado ao reino oromo de Jimma
no sculo XIX, Kaffa, que permaneceu por geraes como o Estado mais impor-
tante e poderoso de todo o Sudeste da Etipia e, enfim, Chekko (Mocca) na
floresta virgem da margem ocidental dos altos planaltos etopes. Outros grupos
gonga ou sua elite dirigente expandiram-se na direo do Norte, onde fundaram
provavelmente Bizamo, agora desaparecido, no Wallaga. Seus vestgios podem
ser encontrados entre os afillo-busase, que vivem ao Norte de Dembidollo e
entre os sinasa estabelecidos ao longo do Abbay72.
    As tradies orais relatam que o reino de Djindjero foi fundado por imi-
grantes islmicos vindos da Arbia, da o seu verdadeiro nome Yam gor (Imen).

71   Id., 1959, p. 197.
72   W. Lange, 1980; V L. Grottanelli, 1940 e 1941.
874                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Em seguida, uma dinastia originalmente crist de Gondar assumiu o poder.
Sobrevivem narrativas idnticas a respeito da regio ocupada pelos ometo: no
Dawro, um outro grupo de migrantes, gabando-se de sua origem gondariana,
conseguiu aps anos de luta reunir vrias pequenas comunidades locais num
Estado poderoso.
    Por volta de 1600, o Wolayta foi conquistado pelos descendentes de um certo
Sum Tamben do Tigre. Outros Estados, grandes e pequenos, tais como o Kucca,
o Uba, o Zala, o Dorze, o Amarro e o Eli, tm tradies anlogas. Membros da
dinastia gosanaa, provavelmente tambm originrios do Norte da Etipia, fun-
daram no total dez domnios (Gofa, Doko, Balta, Basketto, Oyda, Gayla, Abba
Malo, Konto e Koysa). Por volta de 1800, um membro dessa dinmica famlia,
os Gobe, conseguiu ainda fundar o Reino konta no no man's land entre o Kaffa
e o Dawro e algumas das antigas famlias regentes de Dizi (Mai) do extremo
Sudoeste podem igualmente remontar at os imigrantes do Tigre73.
    Se a estrutura social da Etipia Meridional se caracterizava originalmente
pela coexistncia e a aceitao mtua de membros livres e iguais de um povo
no seio do qual apenas os chefes religiosos, tais como os ancios dos cls ou os
sacerdotes da chuva e os heris guerreiros, gozavam de alguns privilgios, que
nada tinham de excessivos, a situao mudou radicalmente nos novos Estados
sob influncia dos conceitos hierrquicos do Norte cristo. A igualdade foi
substituda por um sistema hierrquico complicado. No topo encontrava-se o
venerado rei, inacessvel e muitas vezes invisvel para seus sditos, e que concen-
trava rituais especiais. Os membros de sua famlia, santificada, que gozavam de
privilgios especiais como na alta Etipia, ocupavam frequentemente os empre-
gos oficiais mais importantes, por exemplo, os de governadores de distrito ou
de grande juiz. A pompa e o cerimonial excessivos das casas reais, no raro em
flagrante desproporo com as fracas dimenses do pas ou o pequeno nmero
de sditos, lembram a megalomania dos prncipes europeus da poca barroca
que tentaram reproduzir Versalhes em miniatura. No Amarro (Amhara), um dos
reinos mais meridionais, cuja populao total nunca passou de alguns milhares
de habitantes, contavam-se centenas de cargos pblicos e de cargos na corte
representando apenas ttulos honorficos. Esses ttulos, tais como abeto (alteza),
mikirecco (conselheiro real) gabirecco (pajem), so sem exceo emprstimos do
amhariano. Na medida em que os reinos se estenderam, as casas reais ganha-
ram importncia, tornando-se poderosas instituies independentes compostas


73    E. Haberland, 1980.
O chifre da frica                                                            875



por centenas de membros, contrastando violentamente com a instituio dos
grandes sacerdotes e dos chefes de cls de outrora, que viviam de seu prprio
trabalho, do de sua famlia e das doaes de outrem.
    As dimenses que podia atingir uma corte real so ilustradas pelo exemplo
de Wolayta, no Norte do lago Abbaya. A corte real no era nesse lugar apenas
o centro da vida poltica, ela se tornara igualmente um distrito sagrado, prote-
gido por uma multido de regras rituais e cerimoniais. Se o rei aparecesse em
pblico, o faria a uma distncia conveniente da multido ou cercado por seu
squito. A proteo da corte real com suas trs muralhas e suas trs portas, cada
uma triplamente reforada (de acordo com o modelo clssico da alta Etipia),
era confiada aos membros de certas castas (caadores, oleiros, curtidores, forja-
dores) que vigiavam as entradas, iam buscar gua e lenha, guardavam as prises
e os tesouros, dia e noite, tocando grandes instrumentos (tambores e trombetas)
reservados ao rei, para anunciar ao mundo que o sol e o soberano tinham desper-
tado ou adormecido. Assim, durante o dia, a entrada era aberta sem restries a
qualquer pessoa de aparncia honesta,  noite, todos, salvo o rei, suas mulheres e
seus pajens, deviam sair do bairro consagrado. Os dignitrios e os servos da corte
se retiravam para seus aposentos que se encontravam encostados nas muralhas
do cerco real. Da mesma forma que apenas o rei podia matar (ou seja, abater
animais) sobre o solo de sua residncia consagrada, era proibido a qualquer um,
menos ao rei, exercer o que era o segundo direito por ordem de importncia para
todos os etopes: a atividade sexual, em todas as suas manifestaes. Os pajens
ocupados diretamente com a pessoa do rei, lavavam suas roupas, preparavam sua
comida e serviam-no  mesa. Eram meninos virgens, a quem tambm era to
estritamente proibido quanto aos pajens do imperador da Etipia crist deixar
a corte real e entrar em contato com outros indivduos. Essas pseudocrianas,
de boa famlia, eram substitudas assim que atingiam a idade em que sua pureza
se tornasse contestvel. A corte real era um lugar santificado a ponto de toda
relao sexual entre um homem que no fosse o rei, senhor da casa, e uma
mulher teria provocado a morte dos contraventores e a transferncia do palcio
para uma nova localizao.
    No eram apenas o palcio, os cargos, os escales e o cerimonial que tomavam
uma dimenso e um aspecto absolutamente novos sob a influncia do Norte:
mesmo as insgnias reais, na posse das quais ficava-se associado  dignidade real,
se transformaram. Originalmente simblicos, mas simples quanto aos materiais
e  forma estes objetos (por exemplo, a espada sagrada, o garfo de dois dentes,
a corda de relva etc.) foram substitudos por anelares, principalmente alianas e
braceletes, fabricados nos dois materiais preciosos, o ouro e a prata, marcas da
876                                                                            frica do sculo xvi ao xviii




figura 24.9 Antigo sino de igreja do Tigre (?), datando do sculo XIV, usado por um chefe dizi, no Sudoeste
da Etipia, como sino sagrado de boi. [ Instituto Frobenius, Frankfurt.]
O chifre da frica                                                                                877




figura 24.10    Os muros de Wolayta, na Etipia Meridional. [ Instituto Frobenius, Frankfurt.]



realeza na alta Etipia, e conhecidos em toda parte com seus nomes amharianos:
wark (ouro) e birr (prata).
    A influncia da alta Etipia no se limitava  introduo de novos car-
gos e instituies, mas tinha tambm profundos efeitos sobre o conjunto da
estrutura social. Ainda que a esmagadora maioria dos povos da Etipia do Sul
fosse membro de uma classe nica, que poderamos chamar de camponeses
livres, desenvolveu-se nessas sociedades relativamente homogneas um sistema
hierrquico complicado, calcado no modelo da Etipia do Norte, sistema que
encontrou sua expresso mais sensvel no culto do valor, estendido  toda Eti-
pia. Nessa sociedade dinmica, o valor no podia ser transmitido por herana
como um patrimnio ou um nome respeitado (ainda que estes tivessem sua
importncia): cada indivduo devia ganh-lo por si mesmo, se quisesse ter um
lugar publicamente reconhecido na sociedade, sendo soldado valoroso quando
das guerras, um bom caador de grande presa e assumindo a obrigao de matar
dada ao guerreiro. As capacidades polticas de juiz ou de chefe, ou os bens (pes-
soalmente adquiridos) s eram considerados secundariamente. Apenas aquele
que se tornasse valoroso assim podia aspirar a um dos inmeros cargos eletivos
que determinavam a posio do indivduo. Nome e posto social eram muitas
vezes designados pela mesma palavra, e ser sem nome era sinnimo de fracasso
878                                                         frica do sculo xvi ao xviii



social. Todo homem de valor fazia questo de possuir um cargo ao menos uma
vez na vida, mesmo sendo por um curto perodo (os cargos eletivos eram anuais).
Ele conservava o nome de seu posto social, ou seja, o ttulo, mesmo quando o
cargo era passado para outras mos74. Aqui tambm, a influncia do Norte 
evidente, pois os nomes dos postos sociais so emprstimos do amhariano ou do
tigrense, por exemplo dana ou dayna (juiz, do amhariano danya), guda ou goda
(senhor, do amhariano geta ou do tigrense goyta), rasa ou erasa (cabea, chefe,
do amhariano, ras). Quanto mais longe do Norte, mais as formas reconhecveis
do culto do valor atenuam-se para desaparecer completamente dentre os mais
meridionais dos ltimos grupos vivendo ainda nas altas terras etopes, quase
intocados pela influncia cultural do Norte75.
    Os camponeses livres eram seguidos, na hierarquia, pelos artesos que eram
membros de castas particulares e que ocupavam um nvel relativamente baixo. A
despeito de sua grande importncia econmica  eles teciam as roupas, produ-
ziam objetos em cermica, fabricavam as ferramentas, as armas e os ornamentos,
curtiam as peles , eles eram, entretanto, objetos de um certo desprezo. Eles no
podiam possuir terras, ficavam submetidos a regras difamatrias e seu contato
fsico era considerado uma imundcie para as pessoas de bem76.
    No escalo mais baixo encontravam-se os escravos que, em vrios pases,
representavam mais de um tero da populao total. Eles viviam, geralmente,
como uma espcie de servos atrelados s terras de seu senhor, mas tinham como
propriedade bens mveis e imveis. Seu trabalho e sua produtividade tornaram
possvel a formao da classe dominante rica que, no Wolayta, por exemplo, foi
o elemento motor das grandes guerras de conquista.
    Todos esses Estados eram geridos por administradores cultos, eleitos pelo
povo e confirmados em suas funes pelo rei. Os Estados eram divididos em
comunidades, distritos e provncias eram dotados de mercados pblicos contro-
lados pelo Estado e de uma boa infraestrutura rodoviria. Nas cidades eles eram
protegidos do inimigo exterior por imensas fortificaes e muralhas de portas
cuidadosamente guardadas.
    Inmeros foram os elementos do progresso material que o Norte deu ao Sul
a partir do sculo XIV. Coisa curiosa, a charrua, principal instrumento agrcola
no Norte, nunca foi aceita no Sul. Vrios povos conheciam bem seu princpio,
mas no a usavam. Todavia, a agricultura deve ao Norte um nmero considervel

74    Id, 1965, p. 187; H. Straube, 1957.
75    A. E. Jensen, 1959.
76    E. Haberland. 1964b.
O chifre da frica                                                            879



de culturas importadas no decorrer dos sculos. Ao que tudo indica, foi apenas
aps o sculo XIV ou XV que a ervilha (Pisum sativum), as favas (Vicia faba), o
gro-de-bico (Cicer arietinum), as cebolas (Allium cepa), o alho (allium sativum)
foram implantados no Sul. Seguiram-se as lentilhas (Ervum lens) e diversas
oleaginosas  linhaa (Linum humile), gergelim (Sesamum indicum), crtamo
(Carthamus tinctorius) e nogo (Guizotia abyssinica)  procedentes do Oriente
Mdio, mas esses produtos ocuparam na alimentao da maioria um lugar to
negligencivel quanto os frutos do Oriente importados da Arbia, via Harar,
unicamente para os centros especificamente islmicos: limes (Citrus limonium),
banana (Musa paradisiaca) e pssego (Prunus persica vulgaris). Em contrapartida,
algumas plantas do Novo Mundo trazidas da Amrica para a frica, na poca
ps-colombiana, provavelmente pelos portugueses, tornar-se-iam essenciais,
principalmente a pimenta vermelha (Capsicum conicum), o milho (Zea mays) e
o tabaco (Nicotiana tabacum). Parece difcil imaginar hoje em dia que a Etipia
Meridional pde viver sem eles, enquanto a abbora (Cucurbita maxima), a
batata doce (Ipomoea batatas), a batata (Solanum tuberosum) e o tomate (Solanum
lycopersicum) tiveram menos sucesso77.
    Ainda hoje, as tcnicas usadas pelos descendentes dos artesos vindos do
Norte trazem a marca do impulso dado por eles a esse setor: tecelagem em
tear de pedal (associado  cultura do algodo), trabalho do ouro e da prata com
instrumentos aperfeioados (as pedras eram usadas para o trabalho da forja e
ainda o so), uso da agulha no trabalho do couro e, enfim, aplicao de tcnicas
de marcenaria para a fabricao de folhas de portas, pratos e grandes tigelas
de madeira. O torneamento da madeira, ou mesmo o emprego de tornos para
todo trabalho artesanal, por exemplo a olaria, era desconhecido tanto no Norte
quanto no Sul at uma data recente. Por fim,  preciso citar o cavalo que, mesmo
no tendo importncia econmica, era usado unicamente para o combate e como
smbolo de prestgio.
    Voltemos-nos agora para a influncia do cristianismo: era ele realmente
forte o bastante para exercer um efeito permanente no Sul e criar motivaes
duradouras ou tratava-se de estruturas efmeras condenadas a desaparecer aps
a partida do imperador e de suas tropas, do bispo e de seus missionrios? Ainda
atualmente,  fcil constatar a fora de seu impacto cultural, seus vestgios se
encontrando at as fronteiras do Qunia e do Sudo, seno alm. Independen-
temente de suas manifestaes externas tangveis, o cristianismo teve uma influ-


77   W. Kuls, 1958, p. 32; H. Straube, 1963, p. 26 e 288.
880                                                         frica do sculo xvi ao xviii



ncia considervel sobre o sistema moral das diversas culturas populares, sobre
os usos e costumes e sobre a vida espiritual em geral. Esse tipo de transformao
s  observvel, na maioria dos casos, com muita dificuldade.
    Os monumentos cristos mais marcantes dessa regio, que no eram de
forma alguma obras duradouras, so os vrios bosques sagrados encontrados
principalmente nas colinas e nos picos das montanhas para marcar os locais
de antigas igrejas crists como seus nomes o indicam: Kitosa (Cristo) Mairamo
(Maria) ou Gergisa ( Jorge). Uma pesquisa realizada pelo autor mostra que o
Sudoeste do pas era outrora pontilhado por uma multido de igrejas crists.
Em razo do carter perecvel dos materiais utilizados para sua construo,
todas elas desapareceram, mas seu local original ainda  considerado sagrado,
e os descendentes dos antigos sacerdotes cristos, tornados membros de cls
no cristos, continuam a sacrificar ao deus do cu e ao deus da criao, e a
celebrar cerimnias variantes do sacrifcio da missa. Durante os sculos turbu-
lentos que se seguiram  implantao da misso crist na Etipia Meridional, as
novas geraes de padres no puderam ir ao Norte para serem ordenados pelo
nico bispo etope, o abuna. A expanso dos oromo constituiu um obstculo
intransponvel entre o imprio do Norte e os territrios coloniais do Sudoeste
e progressivamente o Sul ficou completamente isolado.
    Ainda no foram feitas pesquisas aprofundadas para saber em que medida o
cristianismo como entidade religiosa e no como simples soma de ritos influen-
ciou a essncia real da tica religiosa da Etipia do Sul. Tambm no houve
estudo realmente satisfatrio sobre a representao que o cristianismo etope
tem de si mesmo. No se trata do dogma oficial que inspirou tantos escritos,
mas da ideia que os camponeses e o clero do campo tinham de sua f. Seria
preciso igualmente estudar a questo do papel excepcionalmente importante de
Maria, que deixa Jesus quase (seno completamente) em segundo plano. Tanto
no Norte quanto no Sul da Etipia, Maria  uma divindade prestativa e mise-
ricordiosa, particularmente bem disposta a respeito das mulheres.
    No que concerne s formas exteriores dessa religio, um nmero espantoso
de vestgios das leis e cerimnias crists sobreviveu no Sul at que a Igreja
ortodoxa etope retomasse a atividade missionria. A observncia de alguns dias
de jejum (seno de todas as quartas e sextas-feiras, como no Norte), ou seja,
da absteno de todas as espcies de comida at o meio do dia, depois de toda
comida de origem animal (incluindo-se o leite, a manteiga e os ovos) at meia-
-noite, sobreviveu, assim como a do sab, consistindo por exemplo a proibio
de todos os trabalhos agrcolas, ao menos aos sucessores dos antigos padres
cristos. A semana crist foi conservada e regula a frequncia dos mercados
O chifre da frica                                                                              881




figura 24.11    A cristandade na frica do Nordeste por volta de 1700 (segundo E. Haberland).
882                                                          frica do sculo xvi ao xviii



(originalmente, a semana era de quatro dias no Sul). O domingo cristo  agora
feriado pblico, durante o qual os kessiga (sucessores dos padres cristos) renem
a comunidade e, no decorrer de um ritual truncado, invocam a Deus, a Cristo
e a Maria, fazem o sinal da cruz, queimam cereais no lugar de incenso e usam
todo vestgio disponvel das pompas crists. Dentre as grandes festas crists que
no caram no esquecimento, a festa da Santa Cruz (27 de setembro) tornou-
-se a do Ano Novo, na qual ocorre o exorcismo dos demnios e um grande
festival popular exuberante no decorrer do qual cada um recebe de presente
carne e roupas novas. O Natal e a Epifania, to importantes no Norte, s so
celebrados por alguns grupos no Sul. O dia de Pscoa, coisa notvel, tornou-se
o da grande caa ritual.
A costa oriental da frica                                                                      883



                                      CAPTULO 25


                      A costa oriental da frica
                                             A. I. Salim




   O perodo que se estende do sculo XVI ao XVIII inaugurou-se com a che-
gada dos portugueses1 na extenso da costa oriental da frica e chegou ao fim
com as tentativas dos rabes omanis em estabelecer uma espcie de hegemonia
no litoral. Entre estas importantes datas histricas, as cidades e os povos da costa
conheceram mudanas considerveis, e mesmo radicais, nos planos econmico,
social e poltico. Algumas cidades que haviam atingido o pice da opulncia
periclitaram, outras passaram da obscuridade  glria, muitas desapareceram, e
raras foram as que atravessaram todo esse perodo conservando, sem cessar, a
sua importncia. As vicissitudes de sua histria podem ser atribudas a vrios
fatores, sendo a interveno portuguesa, por mais importante que ela seja, apenas
um elemento dentre outros.


    A costa no incio do sculo XVI
   Em 1500, a costa vivia ainda uma idade de ouro. As runas subsistentes e os
vestgios da cultura material, que remontam aos sculos XV e XVI, testemu-
nham isso. Prsperas, tais cidades construdas com pedra eram cada vez mais


1    Para as fontes originais portuguesas, que so numerosas, consultar C. R. Boxer e C. de Azevedo, 1960;
     R. Oliver e G. Mathew, 1963; E. B. Martin, 1973; E. A. Alpers, 1975a.
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povoadas, "com seu sistema sanitrio aperfeioado e seus ptios estreitos; nelas,
as prolas de vidro eram estimadas e a porcelana era correntemente usada2."
    Eis uma impresso genrica. Um exame mais aprofundado revelaria diversos
graus do bem-estar econmico e material. Na vspera da interveno portu-
guesa, Kilwa, se ainda no havia declinado, parou de se desenvolver, como no
sculo XV3, quando grande parte de seu avano deveu-se ao monoplio do
comrcio do ouro de Sofala, detido por ela aps t-lo arrancado de Mogadscio,
no final do sculo XIII ou no incio do XIV. Antes da chegada dos portugue-
ses, o comrcio de Kilwa se voltava antes para o mar que para o continente.
No existe nenhum documento ou vestgio arqueolgico indicando que Kilwa
Kisiwani fora ligada por rotas comerciais terrestres ao Sul da Zambzia, onde
se encontravam minas de ouro4.
    Parece que antes da chegada dos portugueses, este Estado insular apenas
havia comercializado produtos alimentares com o continente. No final do sculo
XV, Kilwa perdeu o controle de Sofala. De um ponto de vista poltico, sua
influncia diminua tambm na costa norte, da qual muito necessitava para seu
comrcio. A rpida sucesso de seus soberanos  treze, em pouco mais de meio
sculo, entre 1442 e 1498  traduzia um mal poltico interno que minava sua
potncia e vitalidade, ao passo que suas ms relaes com Zanzibar refletiam
uma fraqueza crnica das cidades sualis: dissenses internas favoreciam a inter-
veno de foras externas. Este fenmeno devia reproduzir-se frequentemente
em outras cidades da costa, facilitando, sobretudo, a interveno e a hegemonia
portuguesa, e mais tarde, omani.
    Em 1454, Zanzibar tentava instalar o seu candidato no trono de Kilwa.
Entretanto, no incio do sculo XVI, Zanzibar no era, poltica e economica-
mente falando, uma das principais cidades da costa. A ilha de Zanzibar, por sua
vez, encontrava-se dividida em pelo menos cinco territrios, possuindo cada
um deles um chefe. Por outro lado, em 1550, Mombaa era consideravelmente
desenvolvida e contava, com Kilwa e Melinde, dentre as cidades-Estados de
maior opulncia. Ibn Bathththa relatou, em 1331, que ela no se estendia no
continente e que no produzia cereais, embora bananas e ctricos fossem cul-
tivados. Porm, quando Vasco da Gama a visitou em 1498, ela se tornara "um
grande centro comercial com numerosas lojas5". Os seus mercadores desempe-

2     G. Mathew, 1963, p. 121-122.
3     Ibid., p. 124.
4     E. A. Alpers, 1975a, p. 41.
5     Citado por E. B. Martin, 1973, p. 31.
A costa oriental da frica                                                                                                        885




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                                                                  Basra
                                                                    .



                                                      AR                                        Hormuz
                                                                      BIA
            EGITO
                                    M
                                      ar                                              Mascate
                                          Ve
                                             r
                                            me                                              OM
                                                                                                                   Diu
                                              lho

                                                                                       TE
                                                                                                                           NDIA
                                                                                   MAU
                                                                          HA   DRA

                                                                                             Ilha Socotra
                                                                                                                         Goa




                                                                      R
                                                                 DI
                                                            NA       Mogadscio
                                                       BE
                                                                  Barawa
                                                                                            OCEANO NDICO
                                     Lamu           Pate
                                  Malindi
                             Mombaa
                                                  Pemba
                                                 Zanzibar
                                  Kilwa          Cabo Delgado
                                                                      Ilhas Comores
                                    E
                               QU




                                                  Moambique
                              BI
                             AM




                                                                               AR
                       O




                                                                          SC
                      M




                                     Sofala
                                                                        G
                                                                      DA
                                                             MA




   Cabo da
   Boa-Esperana

                                                                                            0!              500    1 000 milhas

                                                                                            0!              800!   1 600 km




figura 25.1    A bacia ocidental do Oceano ndico (segundo A. I. Salim).
886                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



nharam um importante papel no comrcio da costa meridional at Angoche. A
cidade, situada na ilha, tambm estabeleceu relaes comerciais com o interior,
extraindo da o mel, a cera e o marfim. Tal comrcio explica, talvez, o notvel
e repentino avano de Mombaa, "a mais potente cidade-Estado da costa6",
quando da chegada dos portugueses.
    Melinde, a grande rival de Mombaa, tambm era uma prspera cidade no
incio do sculo XVI. O seu comrcio baseava-se principalmente na exportao
de marfim e, de forma secundria, na exportao de produtos como o ouro de
Sofala, a cera de abelha, o mbar-gris e o copal. J no sculo XVI, ao contrrio
da maior parte dos outros centros de povoamento da regio, Melinde possua
vastas plantaes onde escravos cultivavam o arroz e o milhete7. Os primeiros
portugueses que a visitaram ficaram impressionados com a disposio da cidade
e com a grande variedade e a qualidade dos frutos, dos legumes e das carnes
encontrados. Talvez esta seja uma das principais razes de eles terem estabele-
cido boas relaes com a cidade; de fato, seus navios foram assegurados com um
abastecimento regular de gua e de gneros alimentcios.
    Mais ao Norte, o arquiplago Lamu encontrava-se retalhado em pequenos
sultanatos  existiam at mesmo trs em uma s ilha: Pate, Siyu e Faza. Em
conflito quase permanente, eles no puderam resistir conjuntamente ao novo
invasor portugus. No incio do sculo XVI, Lamu ainda no havia alcanado
a poca de sua maior prosperidade, ao passo que sua vizinha, Manda, conhe-
cera o apogeu muito antes, no fim do sculo IX. Na metade do sculo XIV, a
cidade de Lamu j existia no espao atualmente ocupado por ela e, como Kilwa,
provavelmente foi fundada por imigrantes vindos da parte mdio-oriental do
imprio muulmano8.
    Alm destes importantes centros comerciais, havia uma mirade de pequenas
aglomeraes que, frequentemente, sofriam a influncia de ambas as grandes
cidades-Estados. Assim, as ilhas Mfia dependiam, em certa medida, de Kilwa,
bem como Mtangata e Vumba dependiam de Mombaa. As grandes cidades
eram mais voltadas ao comrcio martimo internacional, ao passo que as peque-
nas viviam da agricultura e da pesca. O nmero de centros de povoamento cria-
dos na costa oriental da frica, entre a costa de Banadir e as bocas do Zambeze,


6     E. A. Alpers, 1975a, p. 45.
7     E. B. Martin, 1973, p. 30. Nada nas fontes portuguesas indica a existncia de um verdadeiro trfico de
      escravos no Sul da costa da Somlia, durante a presena dos portugueses. Vespucci, sobre quem Martin
      se apoiou para afirmar a existncia de escravos em Melinde, afirma que esses eram oriundos da Guin.
8     J. de V. Allen, 1981, p. 1; E. A. Alpers, 1975a, p. 40.
A costa oriental da frica                                                                     887



do sculo IX ao XX, foi estimado em 1739. Sem pretender ser definitiva ou
rigorosamente exata, tal estimativa d uma ideia da evoluo e das tendncias
gerais, alm de confirmar que o perodo, do sculo XIII ao XVI, em que esses
centros proliferaram (foram criados mais de uma centena), constitui certamente
a "idade de ouro" da costa.
     mais difcil avaliar a superfcie destas aglomeraes e o nmero de seus
habitantes, mas, em alguns casos, dispomos de informaes que nos facilitam
a tarefa. Por exemplo, tudo indica que, na poca, Melinde ocupava uma super-
fcie menor que a de hoje; a cidade fortificada no podia se estender por mais
de 600 metros de Norte a Sul, ao longo da praia, e por mais de 240 metros do
litoral para o interior das terras10. Em 1498, a populao, calculada na base de
1.000 casas de pedras ocupadas, foi estimada por volta de 3.500 habitantes11.
Evidentemente, este nmero no compreende a mo de obra que trabalhava nas
plantaes da cidade e que, provavelmente, vivia em cabanas feitas de taipa, nem
os cidados mais pobres. Portanto, os nmeros avanados s podem ser muito
aproximados, e mesmo hipotticos. Mombaa e Lamu foram as cidades com
construes de pedra que sobreviveram por mais tempo, e sem interrupo, ao
passo que todas as outras conheceram eclipses temporrios ou desapareceram12.
    A fragmentao poltica da costa era assaz compensada pela homogeneidade
religiosa e cultural existente desde o incio do sculo XVI. A justaposio ou a
mistura, segundo propores variveis, de etnias africanas, rabes e shrz ten-
deu  constituio de um novo grupo cultural que seria chamado em seguida de
suali, ou seja, o povo da costa. Isto posto, os sualis apenas adotaram esse nome
genrico tempos depois. Naquele tempo, simplesmente formavam grupos urba-
nos, cujas elites e famlias dirigentes, embora oriundas de misturas tnicas, fre-
quentemente por razes de prestgio, atribuam-se uma origem rabe ou shrz
contestvel, ou adotavam nomes que referenciavam s regies da costa de onde
eram originrios, tais como os wachangamwe, os wafaza, os wapate etc.13.
    Se do ponto de vista poltico a costa encontrava-se retalhada e se os seus
habitantes pertenciam a diferentes grupos, com diversas alianas locais, to1da-
via, certos fatores de sua evoluo contriburam para forjar uma cultura quase
homognea ao conjunto desses povos. Dentre os mais importantes destes fato-


9    Ibid., p. 320-321.
10   E. B. Martin, 1973, p. 19-20.
11   Ibid., p. 28. Em 1502, Vasco da Gama avaliou a populao de Kilwa em 12.000 habitantes.
12   J. de V. Allen, 1974.
13   Ver, por exemplo, F. J. Berg, 1968, p. 35-36, e 1971.
888                                                          frica do sculo xvi ao xviii



res figuravam os elementos africanos que lhes eram comuns, notadamente o
kiswahili, que em breve se tornaria a lngua veicular dos povos da costa. O isl
e, em menor medida, a influncia rabe igualmente desempenharam um papel
importante, ainda que essa ltima apenas tenha prevalecido no sculo XIX. A
introduo de elementos rabes e shrz em uma sociedade basicamente afri-
cana, muito provavelmente banta, certamente contribuiu com a diferenciao
tnica, depois, cultural dos povos da costa e com o avano do isl.
    A cultura islmica incontestavelmente exerceu uma profunda influncia nesta
regio. Eis o que disse J. de V. Allen: "A introduo do isl provocou na cultura
suali um efeito profundo e duradouro.  certo que ela conferiu ao conceito de
urbanizao toda uma srie de novas dimenses culturais e religiosas; os habi-
tantes das cidades, ou ao menos, uma parte deles, desde ento distinguiram-se
dos outros por um certo nmero de caractersticas, como sua religio, [...] alis,
sem que a influncia do isl se limitasse ao domnio religioso. Entre os sculos X
e XV ou o comeo do XVI, a filosofia, as cincias, as tcnicas, sobretudo aquelas
da arquitetura, e a civilizao em geral atingiram, no universo muulmano, um
grau de perfeio inigualvel no mundo. Fosse de forma precria e intermitente,
a costa suali encontrava-se agora, por assim dizer, enxertada nessa profusa fonte
de criatividade intelectual; recebia periodicamente a visita de letrados, como Ibn
Battta, de artesos, artistas e muitos outros que contriburam com o avano
da cultura suali14".
    Na verdade, a cultura suali  uma modalidade regional da cultura muul-
mana; regional porque marcada pela prpria cultura da frica Oriental, que
foi assimilada pela suali em larga medida. O kiswahili tornou-se a lngua vei-
cular dos povos da costa, constituindo, ainda que tenha emprestado do rabe
um grande nmero de palavras ao longo dos sculos, o principal bem africano
para a cultura suali. H outros, tambm de certa importncia, dentre os quais
podemos citar: os rituais praticados na ocasio dos nascimentos, dos casamen-
tos, dos funerais e da investidura dos chefes; a crena nos espritos e as danas
tradicionais. A cultura suali resulta "do cadinho constitudo pelo meio urbano
dos valores e dos costumes de vrios povos originrios tanto da frica quanto
de outras regies na borda do Oceano ndico15".
    Algumas cidades da costa conheciam, no incio do sculo XVI, uma opulncia
particularmente notvel. Os dirigentes habitavam palcios e os membros da elite
moravam em casas de pedra, frequentemente de vrios andares, construdas em

14    J. de V. Allen, 1976c, p. 17-18.
15    Ibid.
A costa oriental da frica                                                                           889




figura 25.2 Porta esculpida, Zanzibar. [Fonte: D. Livingstone, Last journals, Londres, John Murray, 1874,
vol. I, p. 30.  Royal Commonwealth Society Library.]




torno de cortes centrais. "As habitaes mais ricas eram ornadas com estas portas
de madeira, esculpidas delicadamente, que constituam uma das mais emblem-
ticas caractersticas da antiga cultura suali16". Os objetos de luxo importados
utilizados pelos citadinos refletiam o alto nvel de vida: damasco, seda e cetim;
objetos de cobre; porcelanas da China; recipientes de vidro e prolas de vidro
do Oriente Mdio. Os mercadores de Kilwa, de Melinde e de Mombaa iam
para alm de Malaca a fim de venderem os produtos da frica Oriental  ouro,
marfim, copal, mbar-gris  e trazerem tecidos de algodo, seda e cetim, os
quais eram, em seguida, expedidos para uma vasta rede de trocas comerciais.


16   C. R. Boxer e C. de Azevedo, 1960, p. 16.
890                                                          frica do sculo xvi ao xviii



Entretanto, certamente nem todos viviam no luxo. Contrastando com a nfima
minoria de ricos que moravam nas altas casas de pedra, uma maioria de pobres
e de escravos alojava-se nas cabanas de taipa, encontradas, muito provavelmente,
no interior e no exterior de cada cidade.
   Tais cidades eram povoadas em sua maioria por africanos e por alguns ra-
bes, cujas classes, todavia, aumentaram sensivelmente nos sculos XVIII e XIX.
Nelas tambm se encontravam os mestios, cujo nmero devia ser sempre cres-
cente. Mesmo se os dirigentes portassem legitimamente o nome das dinastias
rabes (al-Nabhn, al-B-`Alaw), todos, sem exceo, eram mestios ou, fre-
quentemente, negros17. A cor da pele no tinha importncia social ou poltica.
O que valia era a ukuoo (a linhagem); ela constitua o critrio distintivo, deter-
minando a pertena e o lugar ocupado por cada um na sociedade, e, portanto,
o seu estatuto social.


      A intruso dos portugueses
    Como seus vizinhos espanhis da Pennsula Ibrica, os portugueses empre-
enderam grandes viagens de "descoberta", em uma poca em que as batalhas
contra os muulmanos ainda se faziam presentes em todas as memrias. Os
espanhis somente expulsaram os ltimos infiis da Pennsula Ibrica em 1492,
apenas cinco anos antes de Vasco da Gama ter alcanado a costa oriental da
frica. Atravs de suas expedies, os portugueses procuravam prejudicar o
isl nos planos comercial, poltico, militar e religioso, ou seja, desmantelar o
monoplio mameluco (depois, otomano) das rotas comerciais em direo 
sia e  China, aliando-se a outros cristos para colocar um fim  dominao
muulmana em todos os lugares onde ela era exercida. Alm disso, almejavam,
em ltima instncia, apoderar-se dos territrios muulmanos, pois se presumia
que os no-cristos no tivessem direito algum  propriedade. Os papas Martin
(1417-1431) e Nicolau (1452) haviam endereado suas bulas aos soberanos
espanhis e portugueses, pois estavam persuadidos de que as expedies servi-
riam tambm  cristandade.
    Visando prejudicar os muulmanos, o prncipe Henrique, instigador do plano
portugus, era tambm Grande Senhor da Ordem de Cristo e, sob tal bandeira,
combateu os muulmanos no Marrocos, no incio do sculo XV. Graas s suas
expedies magrebinas, notadamente, os portugueses aprenderam que os rabes

17    G. S. P. Freeman-Grenville, 1963, p. 143.
A costa oriental da frica                                                  891



foram pelo mar at a frica Oriental; portanto, podia-se contornar a frica,
travar a ao dos muulmanos e suplant-los no exerccio do comrcio18.
    Tambm, uma srie de expedies foi organizada. Em janeiro de 1498, a frota
de Vasco da Gama atingiu a ponta meridional da costa suali, na embocadura do
rio Quelimane, onde, pensava-se, havia uma colnia de povoamento afro-rabe
que mantinha relaes com os cobiados territrios do leste. Tais presunes
confirmar-se-iam quando da chegada dos portugueses frente  Ilha de Moam-
bique, onde descobriram que a cidade caira sob a influncia de Kilwa. O shaykh,
ricamente vestido, ofereceu-lhes uma boa acolhida at o momento em que des-
cobriu que eles no eram muulmanos. A suspeita, instalada de ambas as partes,
no tardou a piorar, levando portugueses e muulmanos da costa s primeiras
escaramuas. J que os ventos foram contrrios, Vasco da Gama no viu Kilwa
durante esta viagem. Foi mal recebido em Mombaa, onde o comportamento
dos portugueses em Moambique j era conhecido. Por outro lado, o shaykh de
Melinde o acolheu de braos abertos: era isso a vontade, ditada pela sabedoria,
de granjear um potente aliado contra Mombaa ou a manifestao de uma real-
-politik, igualment sbia, guiada pelo instinto de conservao? Foi assim que o
shaykh de Melinde apropriou-se de Mombaa com a ajuda dos portugueses, no
fim do sculo XVI, e enviou, a bordo de uma dos navios portugus retornado
das ndias, um de seus sditos como embaixador em Portugal19.
    Esta primeira viagem de Vasco da Gama foi um sucesso, pois lhe permitiu
alcanar as ndias. Em relao  costa suali, essa viagem forneceu aos por-
tugueses preciosas informaes sobre o comrcio muulmano; as escalas em
Moambique, Mombaa e Melinde fizeram-lhes descobrir a riqueza das cidades
sualis, impressionando-os. Essa viagem, que tinha sobretudo um carter de
reconhecimento, anunciava vindas ulteriores. Em 1501, os portugueses puderam
ter uma ideia da importncia de Kilwa e de seu comrcio, mas no conseguiram
convencer o shaykh Ibrhm em colaborar com eles a fim de estabelecer uma
feitoria em Sofala. Entenderam que somente a fora poderia faz-lo mudar de
opinio.
    Portanto, recorreram a ela no ano seguinte: "acompanhados de incessantes
salvas que deviam espalhar o terror e desmoralizar a populao"20, os navios de
Vasco da Gama entraram no porto de Kilwa. Sob a ameaa de ver sua cidade
destruda, Ibrhm aceitou pagar um tributo anual e se tornar vassalo do rei

18   J. Strandes, 1968, p. 2.
19   Ibid., p. 28.
20   Ibid., p. 40.
892                                                                                                                            frica do sculo xvi ao xviii




                                                                                                                       R
          0!                               250!             !                   500 milhas                         I
          0!                               400!                 !            800 km
                                                                                                               D           Mogadscio
                                                                                                           A       Barawa




                                                                                                       N
                                                                                                 A
                                                                                             B
                                                                                                        Kismayo

                                                                    Ilhas de Pate,
                                                                      Siyu, Faza


                                                                             Lamu


                                                                       Gedi            Melinde
                                                                       Kilifi

                                                                                Mombaa                                OCEANO NDICO
                                                            A
                                                         IM




                                                                                  Ilha de Pemba
                                                      MR




                                                                                Ilha de Zanzibar


                                         R io
                                                R u fi ji
                                                                                      Ilha de Mfia

                                          Kilwa Kivinje
                                                                                Kilwa Kisiwani



                                                                                  a      Cabo Delgado
                                                                             um
                                                                      Ro v
                                                                Rio
                                                                                                               Ilhas Comores
                             Lago Niassa                                                 Ilha do Ibo




                                                                                         Moambique
 Ri
      o
          Za
                             Ri o S




               m
                   be
                                                                                                                                        R




                        ze                                                      Ilha de Angoche
  Tete
                               hir




                                                                                                                                    A
                                  e




           Sena
                                                                                                                                 C




                                           Quelimane
                                                                                                                                S
                                                                                                                               A




          Sofala
                                                                                                                            G
                                                                                                                           A
                                                                                                                           D
                                                                                                                       A
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figura 25.3                      A costa da frica Oriental (segundo A. I. Salim).
A costa oriental da frica                                                     893



de Portugal21. Em 1503, Ruy Loureno Ravasco lanou-se, sem escrpulos, 
pilhagem e  pirataria em Zanzibar e nas cercanias, apoderando-se de um esp-
lio considervel (cereais, marfim e prata) a bordo dos navios que cruzavam as
paragens antes de desembarcar em Zanzibar e impondo um tributo pela fora.
Em 1505, sob o pretexto de que a cidade no pagara o tributo em tempo, nem
iado a bandeira portuguesa em sinal de lealdade, Dom Francisco de Almeida,
futuro vice-rei das ndias, atacou Kilwa. Explorando as rivalidades e as intrigas
das diversas faces, ele instalou no poder um idoso fiel aos portugueses e obri-
gou a cidade a pagar a construo do primeiro forte portugus da costa suali.
    Em 1498, Mombaa j havia manifestado sua hostilidade para com Vasco da
Gama. Nada de espantoso, quando de sua chegada, em 13 de agosto de 1505,
a frota de Almeida ter sido recebida pelas balas de um canho recuperado nos
escombros de um navio portugus. Ainda que um dos navios dos portugueses
tivesse conseguido acert-lo e faz-lo calar, o rei de Mombaa e seu povo opu-
seram uma resistncia no menos furiosa. Respondendo corajosamente aos tiros
dos trabucos e dos mosquetes com uma saraivada de pedras e flechas, os habi-
tantes de Mombaa, apoiados por centenas de aliados africanos, defenderam-na,
passo a passo, das ruelas at o palcio do rei. Porm, finalmente, este teve que se
render devido ao assalto dos portugueses, os quais haviam cercado seu palcio. A
cidade foi saqueada e queimada antes da partida da frota; Almeida no deixou
nenhuma guarnio. Como nota Strandes22, parece que os portugueses queriam
desmantelar a potncia e destruir a prosperidade de Mombaa para aumentar
as de Kilwa, que se tornaria a fortaleza deles.
    No ano seguinte, em 1506, Hoja (ou Oja), que pensamos ser Ungwana, e que
ento mantinha relaes com o Egito dos mamelucos, decidiu submeter-se para
no sofrer a mesma sorte que Mombaa. Por outro lado, Brava (Barwa) resistiu
com obstinao, antes de ser vencida por um exrcito portugus de aproximada-
mente mil homens e pilhada de forma selvagem. Segundo a crnica, as perdas
dos dois campos foram as mais substanciais de todas as que os portugueses
provocaram na costa suali at ento.
    Signo do carter deliberadamente punitivo e destruidor das intervenes
portuguesas, Mombaa foi atacada novamente e ocupada por quatro meses,
aproximadamente em 1528. Como os lusitanos no possuam um plano a longo
prazo destinado  cidade e no sabiam o que fazer com ela (o rei de Melinde
no menos estava tentado a torn-la sua), arrasaram-na mais uma vez antes de

21   Ibid., p. 43.
22   Ibid., p. 64.
894                                                        frica do sculo xvi ao xviii



partirem. Esta breve ocupao, tendendo  destruio da cidade, somente valeu
para a expedio portuguesa a perda de boa parte de seus homens, mortos nos
combates e pelas doenas23.
    Dezesseis anos antes, os portugueses tiveram que abandonar o forte de Kilwa,
pois haviam embarcado nos conflitos internos, abertos com a morte de Ankoni,
pela sucesso desse ltimo. Perceberam que o valor do tributo pago pela cidade
(por mais elevado que seja) nem bastava para cobrir o custo de manuteno de
uma guarnio. Enquanto esperavam monopolizar o comrcio do ouro de Sofala,
que permitiu que a cidade e regies da costa enriquecessem, eles apenas con-
seguiram desorganiz-lo atravs de inbeis intervenes e de regulamentaes
comerciais. Em 1506, dizimada pelas doenas, a guarnio de Sofala no mais se
encontrava em operao. Em 1512, a de Kilwa foi transferida para as ndias.
    A situao comercial de Kilwa melhorou consideravelmente aps a partida
dos portugueses, ainda que o chefe da cidade permanecesse como vassalo da
Coroa portuguesa. A estrutura de suas trocas sofreu uma modificao interes-
sante. Os mercadores de Kilwa desde ento evitaram Sofala, que dependia dos
portugueses, e, tal como os de Mombaa e os de Melinde, esforaram-se para
nutrir relaes mais estreitas com a costa de Angoche, no Sul de Moambique.
Esta, h muito tempo, mantinha relaes comerciais com o interior formado
pela bacia do Zambeze. O objetivo dessas relaes parece ter sido o enfraqueci-
mento da dominao dos portugueses em Sofala, e foi para mant-la que esses
ltimos, se aventurando no interior das terras, se estabeleceram em Sena e em
Tete.
    Kilwa, que no dispunha de muitos produtos locais de exportao, muito
dependera, at ento, do comrcio do ouro e do marfim. Tais produtos eram
buscados no Zimbbue por seus mercadores, que transitavam, em larga medida,
por Sofala24. Aps ter perdido esta cidade, Kilwa teve que estabelecer relaes
comerciais com o interior do continente e o marfim se tornou seu principal
produto de exportao. Aps 1530, quando os portugueses, de fato, privaram
Kilwa de todo o acesso ao ouro do Zimbbue, os mercadores muulmanos de
Kilwa esforaram-se para aumentar o comrcio do marfim, at ento pouco
importante, com o interior da cidade25. Esta reorganizao do comrcio coin-
cidiu com a expanso dos maravi e dos yao. O conflito que opunha dois chefes
dos maravi, o kolonga e seu suposto subordinado, o lundu, teve por consequncia

23    Ibid., p. 110.
24    E. A. Alpers, 1975a, p. 46.
25    Ibid.
A costa oriental da frica                                                    895



a independncia dos zimba, que, como veremos, desferiram um golpe fatal em
Kilwa no fim do sculo XVI.
    Podemos concluir que os portugueses no tiveram uma clara poltica de
ocupao ou de administrao na costa suali. Tinham apenas o desejo mer-
cenrio de dominar, seno monopolizar, todo o comrcio. Tal objetivo foi ape-
nas parcialmente atingido. Como a presena dos portugueses tornou-se muito
limitada na costa (uma vez Kilwa evacuada, um quarto de sculo depois de sua
chegada, eles se encontravam apenas em Moambique e em Melinde), as cida-
des suali conseguiram conservar uma verdadeira atividade comercial. Assim, os
navios vinham de Cambay, trazendo-lhes diversas mercadorias, dentre as quais
o algodo e as prolas, que eram em seguida transportados pelas frotas locais de
Mogadscio, Brava, Pate, Lamu e Mombaa e trocados no Sul, notadamente na
regio de Sofala26. As medidas tomadas a fim de colocar um fim nesse comrcio
de contrabando foram aplicadas sem zelo e sem sucesso.
    Frequentemente defendeu-se que alm da costa africana, os portugueses
sempre estiveram interessados pelo Oriente. Tal argumento  s vezes invo-
cado para explicar o fracasso da implantao portuguesa nesta parte do litoral
africano. Portanto, a costa suali era considerada como um apndice do Estado
da ndia, cujo centro era Goa, residncia do vice-rei portugus. Entretanto, os
portugueses nomearam um "capito do mar de Melinde" que, na ausncia de
uma ocupao efetiva, devia patrulhar a rota oriental da frica com algumas
embarcaes colocadas  disposio, outorgar licenas (carataze) aos navios e
administrar a feitoria portuguesa de Melinde. A fundao dessa feitoria prova
que os portugueses se interessavam pelo comrcio africano. A feitoria importava
principalmente das ndias algodo e prolas, que eram trocados por produtos
regionais, como o copal, o mbar-gris, o marfim e a fibra de coco. O capito
portugus do posto de Melinde desempenhou um papel importante no comrcio
de Kilwa. Ele tinha, na ilha de Mfia, ainda sob influncia poltica de Kilwa, um
agente encarregado de adquirir fibra de coco e piche.
    So insuficientes as informaes de que dispomos concernentes  histria
da costa suali at a chegada das expedies turcas, ao longo do ltimo quarto
do sculo XVI. De maneira geral, parece que as circunstncias impuseram um
compromisso poltico-econmico. As cidades sualis permaneciam independen-
tes quando nenhum conflito de interesse as opunha aos portugueses e, em caso
de conflito, eram colocados entraves ao comrcio, sem que esse fosse interrom-


26   J. Strandes, 1968, p. 100.
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pido completamente27. Algumas cidades sofreram mais do que outras. Mom-
baa conseguiu se recuperar das destruies infligidas pelos portugueses como
represlias. Em 1569, o padre Monclaro a descreveu como uma cidade "grande
e populosa28". Em contrapartida, ele deve ter encontrado Kilwa praticamente
deserta, embora ela continuasse comercializando o marfim com os Comores e
com o interior do continente. J havia se manifestado um fator cujos efeitos so
ainda mais difceis de avaliar do que os da interveno portuguesa: trata-se dos
movimentos de populao do interior, com todas as repercusses provocadas nas
cidades sualis. Zanzibar teria entrado em conflito com invasores vindos do con-
tinente. Melinde encontrava-se parcialmente em runas sob efeito das agresses
dos sageju29. Segundo J. Kirkman30, Gedi periclitava antes da chegada do Sulto
turco, o emir `Al Bey, que colocaria a presena portuguesa em perigo.
    Desde a sua apario na regio do Oceano ndico, os portugueses suscita-
ram a hostilidade no s dos suseranos muulmanos locais, mas tambm dos
dirigentes da superpotncia muulmana cuja influncia e supremacia comercial
eram incontestveis: os mamelucos do Egito. Aps a vitria dos otomanos sobre
esses ltimos, em 1517, foi o Sulto turco de Constantinopla quem encabeou a
luta contra o invasor portugus. Vrias batalhas navais ocorreram entre a costa
ocidental da ndia e o Golfo Prsico. Em 1570-1571, uma insurreio explodiu
na fortaleza portuguesa de Hormuz, cujos habitantes haviam pedido socorro aos
otomanos. Porm, o levante foi reprimido.
    O exemplo de Hormuz foi seguido por outras cidades, tanto que as embar-
caes turcas atormentavam periodicamente os portugueses. Os turcos j fize-
ram incurses at as cercanias de Melinde, mesmo antes da chegada do emir
`Al Bey. Se tais operaes restavam sem grandes consequncias, tambm no
deixavam de inquietar os portugueses. O prprio rei sentiu a necessidade de
convidar o vice-rei, estabelecido em Goa, a tomar medidas para por um termo
nos excessos praticados por administradores portugueses, dos quais os shaykh
sualis tinham se queixado. De fato, receavam que caso os shaykh fossem inci-
tados ou obrigados a buscar ajuda junto aos turcos, a fim de se libertarem do
jugo portugus.


27    C. R. Boxer e C. de Azevedo, 1960, p. 18-19.
28    R. Oliver e G. Mathew, 1963, p. 136. Para E. A. Alpers (1975a, p. 45), o restabelecimento e a vitalidade
      de Mombaa so explicados em parte pelas trocas com o interior.
29    Ibid. Entretanto, a presena dos segeju na regio teria gerado boas consequncias, pois ajudaram Melinde
      a se recompor da ofensiva zimba.
30    Citado por G. S. P. Freeman-Grenville em R. Oliver e G. Mathew, 1963, p. 137.
A costa oriental da frica                                                                               897



    Os acontecimentos justificariam tais receios. Em 1585, o emir `Al Bey, vindo
com uma s galera e portador de uma mensagem de libertao, foi acolhido
calorosamente por todas as cidades sualis situadas entre Mogadscio e Kilwa,
com exceo de Melinde. Aps ter acumulado um esplio e ter transformado
uns cinquenta soldados portugueses de Lamu em prisioneiros, o emir par-
tiu prometendo retornar com reforos. Os portugueses replicaram com uma
expedio punitiva, dirigida, sobretudo, contra Faza e Mombaa. Faza resistiu
obstinadamente e seus habitantes infligiram grandes perdas aos portugueses
antes de serem vencidos por esses ltimos. A cidade foi arrasada e a cabea de
seu shayk foi enviada a Goa para l ser exposta. Os habitantes de Mombaa
decidiram proceder a um recuo ttico at a partida dos portugueses, porm a
cidade foi saqueada.
    Fiel  palavra empenhada, o emir `Al Bey retornou, em 1588, com cinco
navios e, ainda desta vez, obteve o apoio da maioria das cidades, exceto Melinde
que resistiu simbolicamente. `Al Bey comeou a executar o projeto para trans-
formar Mombaa em uma base turca. Os portugueses reagiram com o envio de
uma frota reforada que velejou rumo  frica Oriental em janeiro de 1589.
    A ameaa de represlias portuguesas coincidiu, desta vez, com a chegada de
hordas antropofgicas zimba, vindas do continente, que ameaavam submeter
Mombaa a mesma sorte de Kilwa31. Os habitantes da cidade e seus libertadores
turcos encontravam-se presos entre dois inimigos diferentes. A destruio da
frota turca pelos portugueses permitiu aos zimba ter acesso  ilha, rapidamente
saqueada por eles. Cerca de 200 pessoas  habitantes de Mombaa e turcos 
refugiaram-se a bordo dos navios portugueses. Os zimba dirigiram-se para o
Norte, destruindo tudo  sua frente, e foi apenas devido  presena dos segeju,
os quais contriburam para deter a progresso dos primeiros, que Melinde no
sofreu o mesmo destino de Mombaa. Durante este tempo, a expedio por-
tuguesa velejava para o Norte e saciava sua sede de vingana sobre Lamu, que
pagou caro pelo apoio dado aos turcos. O shaykh e vrios outros notveis foram
conduzidos  Pate e decapitados na presena dos sultes dessa ilha, de Faza e de
Siyu, para os quais, provavelmente, tal exemplo deveria servir de lio. Manda,
a ilha vizinha, foi atacada e Tarkwa, sua capital, pilhada.



31   Como indicamos mais acima, os zimba eram originrios dos guerreiros do lundu. Nos anos 1580, um
     de seus chefes encabeou uma expedio guerreira contra os seus vizinhos do leste. Por volta de 1588,
     sempre mais numerosa, a expedio atingiu Kilwa, massacrou a maior parte dos habitantes, deixando-a
     deserta, e dirigiu-se depois para o Norte at Mombaa. Ver tambm J. dos Santos, 1609, vol. I, p. 65-71;
     R. Avelot, 1912.
898                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



     difcil determinar em que medida as destruies cometidas pelos zimba ou,
em seguida, pelos oromo conduziram certas cidades sualis ao despovoamento
e ao declnio. Primeiramente, Kilwa foi aniquilada, mas, em seguida, se restabe-
leceu graas  determinao de seus habitantes, ao agente comercial do capito
portugus em Mombaa e s relaes comerciais estabelecidas com os yao, por
volta do fim do sculo XVI32. Parece que Mombaa encontrava-se enfraquecida
o suficiente para que seu inimigo de sempre, Melinde, a conquistasse com a
ajuda dos segeju. Deste modo, chegou ao fim o reino da dinastia shrz, que
resistira incansavelmente  hegemonia portuguesa. A sucesso foi assegurada
pelo sulto Ahhmad, chefe da cidade rival, Melinde, tambm recompensada por
sua indefectvel fidelidade para com os portugueses. Mas, por fim, a transferncia
para Mombaa do capito da guarnio portuguesa e da residncia real marcou,
em Melinde, o incio de um declnio que continuaria at a segunda metade do
sculo XIX33.
    Merece destaque o papel desempenhado por Kilifi, cidade situada entre
Mombaa e Melinde, ao longo deste perodo da histria. As fontes geralmente
fazem pouco caso da rivalidade entre Kilifi e Melinde. Parece que os soberanos
dessas duas cidades eram parentes. Logo aps o ataque zimba, Kilifi teria dis-
putado Mombaa com Melinde, talvez em virtude das ligaes de parentesco
entre as dinastias ou por mera ambio. Em todo caso, s vsperas da tomada
de Mombaa por Melinde, as relaes entre esta ltima e Kilifi estavam longe
de serem amigveis. Melinde se queixava das incurses e dos repentinos ataques
dos habitantes de Kilifi. Foi assim que as batalhas ocorridas entre ambas permi-
tiram a Melinde acabar simultaneamente com as provocaes de Kilifi e com
os objetivos dessa cidade em relao a Mombaa. Kilifi parece ter sofrido, em
seguida, um irreversvel declnio. As runas atestam a existncia, em uma colina,
de uma cidade dominada por um palcio cercado de algumas casas e de uma
mesquita onde versculos do Alcoro encontram-se admiravelmente gravados
em torno do mihrab.
    As duas expedies turcas revelaram a fragilidade da implantao portuguesa
na costa. A fim de reforar sua posio e de se preparar para novos ataques, os
portugueses decidiram construir uma fortaleza e instalar uma guarnio em
Mombaa. O Forte Jesus foi construdo em 1593-1594 por pedreiros vindos
das ndias e por trabalhadores de Melinde, dirigidos por um arquiteto italiano34.

32    E. A. Alpers, 1975a, p. 58-62.
33    E. B. Martin, 1973, p. 40-41.
34    Para mais detalhes sobre a construo do forte, ver C. R. Boxer e C. de Azevedo, 1960, p. 87-117.
A costa oriental da frica                                                                      899




figura 25.4 Forte Jesus (Mombaa) construdo pelos portugueses em 1593-1594. [Fonte: Cultural Atlas,
p. 57.  Spectrum Picture Library.]



Uma guarnio de 100 homens l foi instalada, sob as ordens de um capito,
cuja autoridade sobre este territrio se estendia de Barwa, no Norte, ao Cabo
Delgado, no Sul.
   Convm sublinhar que o reforo da presena portuguesa em Mombaa no
ocasionou nenhuma mudana sensvel no que concerne  administrao da costa
suali em seu conjunto, onde os portugueses eram pouco numerosos. Tudo o
que eles demandavam dos soberanos das cidades era o pagamento do tributo.
A nica vantagem da guarnio de Mombaa era que ela permitia uma reao
mais fcil e mais rpida s eventuais tentativas de resistncia e de revolta. Por-
tanto, a proximidade dos portugueses no intimidava a todos. Assim, em 1603,
o soberano de Pate tomou as armas, sendo ento julgado e executado. Porm, a
impiedosa atitude de seus inimigos no impediu nem Pate, nem outras cidades
de se levantarem.

    A disperso dos grupos humanos e o repovoamento do litoral
   No sculo XVII, muitas coisas mudaram. Os holandeses e os britnicos sur-
giram no Oceano ndico, eles tentaram desapossar os portugueses. Alm disso,
900                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



as relaes entre esses ltimos e os novos soberanos de Mombaa, sempre seus
aliados, se deterioraram. No mais, populaes se dispersaram e se reinstalaram
ao longo da costa, suscitando o surgimento de novos grupos humanos.
    O aumento da insegurana, devido em grande parte s agresses dos oromo
(gala) e, sem dvida, em certa medida, s mudanas do meio ambiente, incitou
grupos sualis do Norte a se dirigir para as cidades do Sul. Foi assim que a Ilha
de Pemba e a cidade de Mombaa acolheram imigrantes vindos dos centros do
Norte. Basicamente, foi nesta poca que os ancestrais das Nove Naes (Miji
Kenda) de Mombaa fixaram-se na ilha. Quando, no Norte, alguns centros
declinavam ou esvaziavam-se, outros, no Sul, desenvolviam-se e, ainda mais
abaixo, alguns at mesmo nasciam, como Mrima, na costa tanzaniana35. Vumba
Kuu prosseguia seu desenvolvimento e, no sculo XVII, se tornou um Estado
independente.
    Tambm foi importante a disperso, a partir de Shungwaya (ou Singwaya),
de grupos que ganharam o Sul e, em seguida, se tornaram os miji kenda e os
pokomo. Parece difcil sustentar que Shungwaya fora pura e simplesmente um
Estado mtico36. A julgar pelas tradies orais miji kenda (e aquelas dos grupos
de lngua kiswahili, tais como os bajuni)37, mais parece que o local realmente
existiu, embora seja difcil determinar se ele foi uma colnia de povoamento ou
um Estado. S recentemente que o estudo da evoluo dos grupos que se tor-
naram os miji kenda vem sendo empreendido, preenchendo, assim, uma lacuna
importante na historiografia da costa38. Resumindo, diferentes grupos partiram
de Shungwaya para o Sul e instalaram-se nas aldeias fortificadas (makaya, no
singular, kaya), nas colinas que sobrepujavam as cidades sualis, entre Melinde e
uma regio situada logo ao Sul de Mombaa. A fortificao dessas aldeias real-
mente favoreceu a coeso e a solidariedade. Com o tempo, os makaya tornaram-
-se mais que simples refgios contra os oromo (e mais tarde, contra os masa),
ocupando um lugar central na vida social e religiosa dos miji kenda e conserva-
dos muito alm da poca das aldeias fortificadas. Grupos miji kenda encetaram
relaes comerciais e culturais com as cidades sualis vizinhas. Assim, os digo
(e os segeju) estabeleceram relaes socioculturais e econmicas com Vumba


35    G. S. P. Freeman-Grenville, 1963, p. 146-149.
36    R. F. Morton, 1972.
37    J. de V. Allen, 1977b. Ver tambm V. L. Grottanelli (1955 e 1975), que identificou, em um stio arque-
      olgico vizinho da moderna Bur Kavo (Port Durnford), os vestgios da Shungwaya histrica.
38    T. T. Spear, 1974. As Nove Naes, ou grupos miji kenda, so os digo, os giriama, os rabai, os rib, os
      kamb, os kauma, os duruma, os chonyi e os jibana.
A costa oriental da frica                                                                              901



Kuu39. Cada um dos makaya dos miji kenda formou uma associao particular de
carter econmico e poltico com uma das Doze Naes que, no sculo XVIII,
haviam acabado de se estabelecer em Mombaa.


     O conflito entre os portugueses e Mombaa
    As relaes amigveis entre os portugueses e o sulto Ahhmad no duraram
mais de trs anos aps a transferncia do poder para Mombaa. Logo, tornou-se
claro que o capito de Mombaa no cumpria as ordens de Goa, que o intimava
a se manter em bons termos com um aliado de longa data, e no respeitava os
acordos administrativos e fiscais firmados com Ahhmad . O Sulto se queixava
dos obstculos com os quais se chocavam o comrcio e o trfico martimo de
Mombaa e  fato revelador  pediu a Lisboa que dispensasse outras cidades
do tributo que lhes havia sido imposto aps as expedies turcas. Tambm
pediu que sua autoridade fosse reconhecida em Pemba, que ele teria conquis-
tado atravs de seus prprios meios, porm os portugueses preferiam v-la nas
mos de um soberano fantoche, pertencente  classe dirigente. Finalmente, o
sulto Ahmad obteve Pemba, mas somente como arrendamento, mediante o
pagamento de 300 a 500 sacos de arroz por ano.
    Aps a morte do sulto Ahhmad, em 1609, seu filho al-Hasan encontrou-se,
por sua vez, em litgio com o novo capito portugus, Manuel de Mello Pereira,
tanto sobre a questo de seus direitos e privilgios relativos a Mombaa, quanto
sobre a de Pemba. Considerando suas ms relaes com o capito, tambm
envenenadas pelas intrigas de seu tio, o Sulto preferiu se refugiar em Arabaja
(provavelmente Rabai) a submeter-se a uma deciso do vice-rei, tendendo a
julg-lo em Goa. Primeiramente, sendo bem acolhido entre os muzungulo40, em
seguida, foi traioeiramente assassinado por eles, em troca de um certo nmero
de peas de tecidos ofertadas pelos portugueses.
    No estando envolvida nesta traio, Lisboa insistiu, a ttulo de reparao,
para que Ysuf, o filho do Sulto, aps ter estudado em Goa, sucedesse ao pai
no trono. L, Ysuf foi convertido ao cristianismo e casou-se com uma mulher
de ascendncia portuguesa e asitica. Tambm serviu  bandeira portuguesa no
Golfo Prsico, distinguindo-se por seus talentos de soldado e artilheiro. Porm,


39   A. I. Salim, 1973, cap. I; W. F. Mckay, 1975.
40   As fontes portuguesas contam de forma pontual sobre este grupo. Sem dvida, tal grupo foi absorvido por
     grupos de imigrantes vindos de Shungwaya  talvez pelos ancestrais dos rabai, um dos grupos miji kenda.
902                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



ao retornar a Mombaa em 1630, com o nome de Dom Jernimo Chingulia,
que lhe fora dado pelos cristos, ele se chocou com graves problemas, pois foi
rejeitado tanto pelos habitantes de Mombaa quanto pelos portugueses. Os
membros de sua famlia no aceitavam a sua converso e o baniram da cole-
tividade. Paralelamente, os administradores portugueses no manifestavam o
respeito que lhe era devido e no lhe dispensavam nenhum reconhecimento
pelos servios prestados  Coroa portuguesa.
    Em agosto de 1631, o capito portugus Pedro Leito de Gamboa conside-
rou que o hbito de Ysuf, qual seja, orar segundo o rito muulmano na tumba
de seu pai assassinado, constitua uma apostasia que confinava  traio e plane-
jou envi-lo de novo a Goa para ser julgado. Como seu pai, Ysuf decidiu no
se entregar ao julgamento, porm, ao contrrio de al-Hasan, escolheu lutar.
    A histria da chegada surpresa de Ysuf e de seus partidrios, em 15 de
agosto de 1631, no Forte Jesus, durante a celebrao feita pelos portugueses da
festa de Assuno, e do massacre quase geral que se seguiu, tem sido frequen-
temente relatada41. Aos olhos de Ysuf, esse retorno espetacular ao isl deveria
marcar o incio de uma jihad destinado a expulsar os portugueses de toda a
costa. Mas, seu apelo no foi to bem ouvido como aquele do emir `Al Bey, h
alguns decnios antes: nenhuma outra cidade concedeu-lhe apoio. Entretanto,
com a ajuda de centenas de partidrios sualis e africanos, conseguiu infligir
grandes perdas  primeira expedio punitiva lanada contra ele, em janeiro de
1632, obrigando-a a bater em retirada. Ysuf decidiu no esperar uma outra
expedio. Talvez desencorajado em razo de seu isolamento, ele partiu para a
Arbia, provavelmente para garantir o apoio dos turcos.
    Embora estes ltimos no lhe tenham ajudado, Ysuf pde retornar e suscitar
tumultos na costa at a data de sua morte, em 1637. A regio mais agitada era
o arquiplago de Lamu. Em 1636-1637, foi preciso organizar uma expedio
punitiva  que se revelou muito longa  para dominar Faza, Lamu, Manda e
Pate. A porta do Forte Jesus foi coberta por uma inscrio realizada em 1635,
proclamando a vitria da Coroa portuguesa sobre os rebeldes da costa.


      A intruso dos ingleses e dos holandeses
    Contudo, a fortuna dos portugueses no Oceano ndico tinha comeado a se
alterar. O primeiro dos trs fatores mencionados mais acima, a saber, o surgi-

41    Para um estudo deste acontecimento, ver G. S. P. Freeman-Grenville, 1980.
A costa oriental da frica                                                    903



mento dos holandeses e dos ingleses na regio, j havia contribudo para o decl-
nio da supremacia portuguesa, no momento da revolta de Ysuf bin al-Hhasan.
Os holandeses foram integrados ao comrcio com o Oriente na condio de
agentes e de transportadores para o resto da Europa dos produtos coloniais que
chegavam a Lisboa. Mas, no momento da unio entre Espanha e Portugal, em
1580, o rei da Espanha procurou repeli-los, pois, desde 1566, combatiam para
se libertar da tutela espanhola. Foi ento que os holandeses decidiram alcanar
o Oriente atravs de seus prprios meios. No fim do sculo XVI, seus navios
sulcavam o Oceano ndico, afrontando os portugueses. Em 1607, embarcaes
holandesas sitiaram a cidade de Moambique por vrios meses; embora o estado
de sade dos homens os obrigasse finalmente a deixar o lugar, os holandeses
tinham se estabelecido no Oceano ndico e estavam fortemente decididos a
permanecer a.
    Quanto aos ingleses, eles haviam se lanado, a partir dos anos 1580, em expe-
dies piratas contra os navios espanhis. Dado que as duas potncias ibricas
se encontravam unidas a partir de ento, os interesses portugueses no Oceano
ndico tornavam-se alvos legtimos. Antes do fim do sculo, os navios ingleses
tinham dobrado o Cabo da Boa Esperana e, em 1591, um deles fez escala em
Zanzibar, antes de continuar a sua rota rumo s ndias. Em 1608, encontrava-se
outro em Pemba. Desde ento, os portugueses passaram a conduzir uma luta
intil contra estes intrusos vindos da Europa e os combates se desenrolaram,
sobretudo, no Golfo Prsico, ao longo da costa indiana de Malabar, no Sri Lanka
e no arquiplago malsio. Nem os holandeses, nem os ingleses procuraram
ocupar o lugar dos portugueses atravs da ocupao desta ou daquela cidade da
frica Oriental. Eles s paravam em Zanzibar e em Pemba para se abastecerem
de vveres e de gua.
    Entretanto, os ataques e os ataques anglo-holandeses colocaram muito as
foras de Portugal a uma rude prova. O vento parou definitivamente de soprar
a seu favor no dia em que os ingleses foram vistos ajudando a populao local
a combater os portugueses. Ademais, at a costa oriental da frica comeou a
sentir os efeitos das derrotas lusitanas no Golfo Prsico.
    Ainda que a Inglaterra, oficialmente, estivesse em paz com a Espanha e com
Portugal, vrios navios ingleses ajudaram, em 1622, o X da Prsia a expulsar
os portugueses do posto de Hormuz42, fazendo desaparecer tambm a princi-
pal fonte de renda do Estado das ndias. Os portugueses limitaram-se, ento,


42   S. B. Miles, 1919.
904                                                        frica do sculo xvi ao xviii



a Mascate, cidade da costa de Om tomada por eles desde o incio do sculo
XVI e cujos habitantes, a exemplo dos sualis, sofreram numerosas espoliaes.
Mascate se tornou a omani equivalente de Mombaa. Como em Mombaa, os
portugueses haviam construdo um forte pouco depois dos ataques surpresa tur-
cos de 1588, com a inteno de instalar a uma base para reconquistar Hormuz
e criar um entreposto para o comrcio entre as ndias e o Golfo Prsico.


      O fim da supremacia portuguesa na frica Oriental
    Pouco depois da queda de Hormuz nas mos dos persas, em Om assomou
ao poder uma dinastia nova e dinmica que estava bem decidida a libertar o
pas do jugo portugus, ou seja, a dos ya`rubi, cujo fundador e primeiro imm
foi Nsir bin Murshid. Senhores de seu litoral, os soberanos de Om puderam
aproveitar da experincia martima da populao para constituir uma importante
fora naval que comeou a desafiar os portugueses alm do golfo. Considerando
as ligaes que uniam o seu pas  frica Oriental nos planos social, cultural e
comercial, esta regio no poderia deixar de interessar aos dirigentes ya`rubi.
    Retomando Mombaa aps a revolta de Ysuf, os portugueses decidiram
permanecer, a fim de governarem diretamente a cidade. Como j vimos, revol-
tas explodiram periodicamente, sobretudo em Pate que, provavelmente, havia
liderado a luta de libertao. Parece que a cidade conhecera nesta poca um
perodo de prosperidade que incitou os portugueses a criar a, em 1633, uma
repartio das alfndegas. Porm, uma vez que o comrcio tornava Pate rica e
poderosa demais, os portugueses decidiram intervir e as relaes entre os dois
pioraram. Durante este tempo, as queixas suscitadas nas outras cidades  Siyu,
Pemba, Otondo  pelos maus-tratos infligidos aos habitantes pelos portugueses
chegaram no s a Lisboa, mas tambm aos novos dirigentes de Om, cuja ajuda
fora invocada.
    Portanto, a segunda metade do sculo XVII foi marcada por longas lutas
entre os portugueses e os rabes omanis ao largo da frica Oriental. Em 1652,
estes ltimos, encorajados pelos soberanos locais, atacaram os portugueses em
Zanzibar e mataram um certo nmero deles. Os portugueses replicaram a isso
levando consigo a rainha de Zanzibar e seu filho, o soberano de Otondo, por
ter se recusado a pagar o tributo e encorajado os rabes omanis. Em 1660, uma
frota armada por Om e Pate desembarcou em Mombaa e saqueou o bairro
portugus, aparentemente sem encontrar uma forte resistncia. Os rabes oma-
nis conseguiram ir para o Sul, at Moambique (em 1669). Em agosto de 1678,
A costa oriental da frica                                                  905



o vice-rei em pessoa liderou uma grande expedio contra "Pate, a arrogante". O
soberano de Faza, cidade vizinha, juntou-se a ele. A expedio s teve sucesso
em parte: tiveram que retornar ao largo quando surgiram os navios omanis, em
janeiro de 1679; entretanto, os aliados tiveram tempo de capturar os soberanos
de Pate, Siyu, Lamu e Manda, que, junto com vrias autoridades, foram deca-
pitados. Parece que Pate no se deu por vencida, pois foram necessrias outras
intervenes: em 1687, ela foi invadida, pilhada e seu novo soberano foi captu-
rado e enviado a Goa, bem como onze conselheiros.
    Tentou-se firmar um acordo, em virtude do qual o shaykh de Pate permane-
ceria no trono  em vez de ser trocado por seu inimigo, o soberano de Faza  em
troca de que ele reconhecesse a autoridade portuguesa. Mas o acordo provisrio
fechado em Goa foi rejeitado por Lisboa, pois o rei queria colocar um fim na
independncia de Pate e recompensar Faza por sua "notvel lealdade" 43. Neste
nterim, Pate caiu nas mos dos omanis, e no Natal de 1688, seu soberano cativo
e seus conselheiros foram mortos, ao tentar escapar de Panjim, onde estavam
detidos.
    Uma guerra civil obrigou Om a interromper, por alguns anos, seus ata-
ques contra as posies portuguesas da frica Oriental. Ao serem retomados,
os ataques foram dirigidos contra Pemba, da qual dependia a revitalizao de
Mombaa e que havia se levantado contra os portugueses. Entretanto, em 1694,
estes conseguiram organizar uma expedio que lhes permitiu reprimir a revolta
e a expulsar os rabes omanis .
    Mas, no o ano seguinte, Om se lanava em operaes de uma amplitude
sem precedentes. Em maro de 1696, sete navios omanis com 3.000 homens e
o shaykh de Lamu a bordo, desembarcaram em Mombaa e, sem dificuldade,
ocuparam a cidade e a ilha antes de sitiar o Forte Jesus at dezembro de 1698,
data de sua rendio. Os defensores portugueses tinham o apoio de seus alia-
dos de Melinde e de Faza. A histria do cerco atesta no s o herosmo destes
homens, como tambm a incapacidade insigne, qui covardia, dos comandantes
portugueses, por vrias vezes enviados em socorro dos sitiados e que sempre se
limitaram a abastecer a fortaleza sem se engajarem no combate com os sitiantes.
Os omanis conseguiram convencer os miji kenda vizinhos a interromperem o
abastecimento dos defensores da fortaleza, que foram dizimados pelas doenas
e pela fome. Quando a expedio sada de Goa em novembro de 1698 com a
misso de travar batalha com o inimigo chegou em Mombaa, a bandeira ver-
melha de Om j tremulava no alto do forte.


43   C. R. Boxer e C. de Azevedo, 1960, p. 51.
906                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Os portugueses fizeram uma breve reapario em Mombaa de 1728 a 1729,
aproveitando, por um lado, da fraqueza da presena omani na costa aps a queda
da cidade e, por outro, do descontentamento da populao suali de certos cen-
tros em relao aos rabes; estes, dizia-se, maltratavam os ricos e interferiam no
comrcio local.  bem possvel que os rumores sobre tal assunto tivessem sido
amplificados em Goa por autoridades sualis desapossadas, como o prncipe de
Faza. Seja o que for, as relaes entre a guarnio rabe da cidade e o soberano
de Pate no eram, incontestavelmente, boas. Tal fato, somado ao surgimento de
uma faco a ele oposta e apoiada pelos omanis, incitou-o a solicitar o apoio
de Goa no fim do ano de 1727. De Pate, a expedio portuguesa marchou para
Mombaa, onde a guarnio omani do forte havia aproveitado da ausncia de
seu comandante para se rebelar, solicitando a ajuda do rei de Pate contra as
outras guarnies rabes dos pequenos fortes da ilha. Mombaa e seu forte
renderam-se s foras aliadas de Portugal e de Pate. Os soberanos de Wasini
[sic], Vumba, Pangani, Mtangata, Tanga, Zanzibar e Pemba foram intimados a
vir a Mombaa para reafirmarem a sua lealdade.
    O retorno dos portugueses e sua aliana com Pate deviam ser de curta dura-
o. Em seu desvairado desejo em garantir uma ajuda contra os seus rivais e os
partidrios rabes destes, o rei de Pate prometera mais do que podia cumprir:
notadamente, ele se comprometeu a pagar um tributo aos portugueses e a lhes
outorgar o monoplio do comrcio do marfim. Seis meses aps seu retorno a
Pate, o rei entrou em conflito com os portugueses, acusando-os de abusos em
relao ao monoplio do marfim e queixando-se de outras restries comerciais.
Persuadidos, aps um incidente militar, de que era prefervel abandonar Pate, os
portugueses a deixaram em junho de 1729.
    Nesta poca, eles tambm enfrentavam dificuldades em Mombaa. Um exr-
cito composto de habitantes da cidade e de africanos do continente (os muzun-
gulo), e comandado por uma autoridade local que recentemente tinha ido a
Goa para solicitar o retorno dos portugueses, atacou as posies portuguesas da
cidade antes de sitiar a pequena guarnio do forte. Em novembro de 1729, esta,
quase morrendo de fome, se rendeu e foi autorizada a se refugiar em Moambi-
que. Outras cidades, em especial Zanzibar, Pemba e Mfia, seguiram o exemplo
de Mombaa, matando ou expulsando os portugueses que l se encontravam.
    Assim,  interessante notar que foram as prprias cidades sualis que expul-
saram definitivamente os portugueses. Pouco depois da partida destes ltimos,
Pate e Mombaa deixaram mais uma vez os omanis ocup-las. A costa suali
entrava em uma nova era de sua histria.
A costa oriental da frica                                                    907



    A derrota portuguesa foi atribuda a toda uma srie de fatores: a fraqueza, a
impercia e a anarquia do sistema colonial; a indeciso, a imprudncia, a incapa-
cidade e a cupidez de inmeros administradores que pensavam, sobretudo, em
encher seus bolsos, alienando a simpatia da populao suali; os estragos causa-
dos pelo clima e as doenas, que dizimaram uma populao portuguesa j pouco
considervel; as faces locais, cujas lutas serviram, durante um certo tempo, aos
interesses dos portugueses, mas que no tardaram a se voltar contra eles. Apro-
ximadamente no final do perodo estudado, os portugueses encontravam-se no
fim dos seus recursos (mesmo Goa, por exemplo, fora deixada sem defesa em
janeiro de 1730, na ocasio de um derradeiro e desesperado esforo a fim de
retomarem a sua parte na frica Oriental. Tal esforo foi mal sucedido, pois s
conseguiram, com grande pena, constituir um corpo expedicionrio.
    Simultaneamente a esta atividade militar, importantes acontecimentos pol-
ticos, econmicos e culturais ocorreram ao longo do litoral. Na extremidade
meridional, as trocas entre os yao e os kilwa, limitados inicialmente s peles,
aos objetos de ferro e aos gneros agrcolas, intensificavam-se, pois, no final do
sculo XVII, o marfim era, entre eles, o objeto de um "comrcio florescente e
bem organizado44". Tal comrcio conheceu um declnio temporrio nos primei-
ros decnios do sculo XVIII, depois de os portugueses, cujo capito comprava
uma grande parte dos produtos exportados por Kilwa, terem perdido Mombaa
para os omanis. De fato, estes ltimos no conseguiram suscitar uma demanda
suficiente para estes produtos, nem para os tecidos e as prolas trocados por
Kilwa com o interior do continente pelo marfim e outros artigos. Os yao tiveram
ento que vender seu marfim em Moambique e no mais em Kilwa. Mas o
advento da dinastia dos Bsa`idi em Om, por volta da metade do sculo XVIII,
trouxe de volta, por algum tempo, a prosperidade de Kilwa.
    Mais a Norte, Vumba Kuu, cujo soberano adquirira o ttulo de dwn,
tinha fortalecido sua posio. A famlia de xerifes que reinava neste Estado, os
B-`Alaw, tinha adotado os costumes locais. O dwn portava sempre um sobre-
nome banto. A cerimnia da investidura misturava ritos bantos, no muulma-
nos, aos do isl. Os segeju e um dos grupos miji kenda, os digo, estabelecidos
nas redondezas, nutriram estreitas relaes com Vumba Kuu, fornecendo-lhe
as bases de sua economia e, durante todo o sculo XVIII e mesmo depois,
participaram da nomeao dos dwn, bem como das querelas de sucesso. A
influncia religiosa das famlias de xerifes que reinavam em Vumba Kuu con-


44   E. A. Alpers, 1975a, p. 63.
908                                                          frica do sculo xvi ao xviii



tribuiu de forma decisiva para converter ao isl os digo e os segeju da costa, os
quais usavam poderes espirituais e eram capazes de fazer chover.
    No arquiplago de Lamu, Pate alcanou o seu apogeu no sculo XVII e
durante uma parte do XVIII. Conheceu, ento, uma grande prosperidade e
sua influncia se estendeu, no Sul, sobre uma parte da costa. Vimos que Pate
desempenhou um papel essencial na libertao deste territrio. Sua prospe-
ridade baseava-se no comrcio martimo, do qual ela se beneficiava em uma
poca em que outras cidades, como Melinde, Mombaa e Kilwa, acabavam de
sofrer ataques de povos vindos do interior do continente, como os zimba. Pate
estabeleceu relaes profcuas com os gatunos oromo, os quais lhe forneciam
peles para exportao. Tambm comerciava o marfim oriundo do continente45.
Os objetos desta poca que foram recolhidos e conservados mostram que esta
cidade alcanara um alto grau de riqueza e de civilizao. As fontes histricas
no explicam de forma satisfatria o declnio, aparentemente rpido, conhecido
por Pate na segunda metade do sculo XVIII.


      O fator omani na frica Oriental
   O declnio de Pate  o assunto de um dos maiores tenzi (poemas picos)
escritos em kiswahili, Al-Inkishafi. O autor deste poema, Sayyid `Abdallh bin
`Al bin Nzir, pertencia  elite dos xerifes de Pate. Um dos seus ancestrais, o
shaykh Ab Bakr bin Slim, era o santo venerado de `Int, em Handramawt, que,
no sculo XVI, havia orado, a pedido do soberano de Pate, para que a cidade
fosse libertada de seus inimigos (no sabemos se tratava dos portugueses ou
dos oromo). Os shrf se estabeleceram definitivamente em Pate, adotaram os
costumes locais e acabaram por desempenhar, com os shrf de Lamu, um papel
determinante na tradio literria e religiosa dos sualis. Foram os xerifes vindos
do Sul da Arbia que, antes mesmo da chegada dos portugueses, estabeleceram
o domnio da doutrina (madhhab) shafi` entre os muulmanos da costa.
   Esses descendentes do profeta Muhhammad, que se estabeleceram no
somente no arquiplago de Lamu, mas tambm em diversos outros pontos da
costa, constituram o essencial da intelligentsia religiosa. Sua herana cultural
compreende os mtodos e os manuais empregados para o ensino do isl, o culto
dos santos, a venerao dos shrf, bem como a forma e o contedo da poesia.
No sculo XIX,

45    A. Nsir, 1977, p. 17-18; J. de V. Allen, 1974.
A costa oriental da frica                                                                          909




figura 25.5    Ornamento proveniente de uma mesquita de Vumba Kuu. [British Institute in Eastern Africa,
Nairobi.]



     relaes culturais ligavam a Arbia do Sul aos banadir,  costa meridional, at
     Moambique, e s ilhas: arquiplago de Lamu, Zanzibar, Pemba, Mfia e Comores.
     As cidades do Hadramawt (`Int e Tarm, por exemplo), Meca e Medina, por vezes,
     o Cairo e, na ocasio, Istambul contriburam para a formao dos sbios muulmanos
     do leste africano: estudantes do pas foram para Hedjaz, no Hadramawt e, s vezes,
     para o Egito a fim de estudarem sob a direo de reputados sbios. Aps adquirirem
     um idjza (certificado), eles ensinavam a lngua rabe, a exegese cornica, o hadth,
     a shar`a, etc., em uma mesquita ou em seus prprios domiclios. Tal sistema de
     ensino fez surgir um poderoso corpo de `uloma', dentre os quais os soberanos bsa`idi
     nomeavam os seus kdi46.
    Os omanis contriburam de forma importante para a reabilitao econmica
de Kilwa. O trfico de escravos desempenharia um papel essencial nesse sentido
e, junto com o comrcio de marfim, dominaria a histria econmica da costa
oriental durante a maior parte do sculo XIX. No princpio, ele se desenvolveu
principalmente para fornecer aos franceses os escravos que eram necessitados para


46   A. I. Salim, 1980, p. 885-891.
910                                                                          frica do sculo xvi ao xviii




figura 25.6   O grande Siwa de Mwinyi Mkuu, Zanzibar. [British Institute in Eastern Africa, Nairobi.]



a explorao, a partir de 1735, das plantaes de suas colnias nas ilhas Masca-
renhas: Ilha de Frana (Ilha Maurcio) e Ilha Bourbon (Reunio). Deste modo,
Kilwa e Zanzibar encontravam-se fortemente incitadas a adquirir escravos. No
comeo, os franceses compravam os seus em Moambique e nas Ilhas Kerimba,
sob o controle dos portugueses, pois esses queriam a qualquer custo impedir os
A costa oriental da frica                                                                          911



franceses de comprar "ilegalmente", ou seja, comprar diretamente escravos e mar-
fim dos macua, dos yao e dos mercadores sualis estabelecidos no continente.
    Contudo, aproximadamente na metade do sculo XVIII, o papel preponde-
rante de Moambique neste comrcio comeou a declinar, por um lado, devido
aos conflitos entre os portugueses e os macua no interior, dificultando assim as
trocas, e, por outro, por causa da concorrncia dos mercadores sualis e rabes,
cuja atividade aumentou na costa aps a dinastia dos Bsa`idi ter fortalecido sua
posio no trono de Om. Ao mesmo tempo, os novos soberanos de Om, que
fizeram de Zanzibar o seu principal bastio na costa, encorajaram os negociantes
indianos a aumentarem os investimentos na ilha. Na costa de Kilwa, a atividade
comercial dos rabes e dos sualis tornou-se ainda mais intensa durante os
anos 1760. A cidade veio a ser um importante polo de atrao dos mercadores
do continente, os quais comerciavam escravos e marfim, para o desespero dos
portugueses que, conscientes da possibilidade da economia de Moambique ser
arruinada pelos mercadores rabes e sualis, esforaram-se de todas as formas,
militares e outras, para estancar esta concorrncia, porm sem sucesso.
    Em 1785, a dominao exercida por Moambique no comrcio de marfim do
centro-leste da frica tinha praticamente terminado. Por outro lado, Moambique
continuou a se beneficiar do trfico  pois que as colnias francesas do Oceano
ndico necessitavam constantemente de escravos47 , no sem se chocar l tambm
com a concorrncia das feitorias sualis situadas na costa do continente, como Ibo,
onde os franceses se abasteciam cada vez mais em escravos. Simultaneamente a
isso, os mercadores yao vendiam mais escravos e marfim em Kilwa, onde, nesse
momento, havia grandes quantidades de produtos de origem omani ou indiana,
como o pano de Surat. Este novo avano de Kilwa conduziu um aventureiro fran-
cs, o negociante Jean-Vincent Morice, a assinar, em 1776, um tratado com Kilwa,
que se comprometia com o fornecimento de 1.000 escravos por ano s colnias
francesas das ilhas Mascarenhas48. Por volta de 1780, mercadores sualis ou apa-
rentados se aventuraram pelo interior do continente, para alm do lago Malawi,
abrindo novos itinerrios comerciais; um deles chegava a Kilwa, e outro, na costa
suali, prximo a Bagomoyo, o que atesta "a reabilitao comercial da costa suali
na segunda metade do sculo XVIII49". Outras rotas foram ainda abertas ligando
pela primeira vez os povos  costa, tais como os bolowoka, os bisa e os ngonde.



47   E. A. Alpers, 1975a, p. 127, nota 8.
48   Para um estudo detalhado do comrcio francs em Kilwa, ver G. S. P. Freeman-Grenville, 1965.
49   E. A. Alpers, 1975a, p. 161.
912                                                                       frica do sculo xvi ao xviii



    De um lado havia a poltica, e do outro, o comrcio e o lucro: assim, os rabes
omanis comerciavam com Kilwa, ainda que o sulto dessa cidade defendesse
vigorosamente sua independncia em relao a Om. Entretanto, em 1784, o novo
imm de Om, Sa`d bin Ahmad, tentou dominar pelas armas um certo nmero
de cidades da costa, dentre elas Kilwa, que havia aceitado servir de base ao rebelde
Saif bin Sa`d, tio de Sa`d. O sulto de Kilwa, Hasan Ibrhm, muito idoso, s
pde oferecer uma resistncia simblica. Ele teve que reconhecer a suserania do
imm, lhe ceder mais da metade dos seus direitos de alfndega e aceitar a presena
de um governador e de uma guarnio omani em Kilwa. Mas estas peripcias pol-
ticas, reforando a estabilidade e incitando os negociantes indianos a aumentarem
seus investimentos, s favoreceram o renascimento comercial da costa de Kilwa50.
Deste modo,  certo que a situao beneficiava ainda mais a Mascate. Em 1804,
o governador omani de Kilwa enviou a seu imm 6.000 piastras por ano e, pelo
menos, o dobro desta soma em 181151. Zanzibar, que j era a mais estvel, a mais
leal e lucrativa das possesses bsa`idi na frica Oriental, pagou ao Tesouro de
Oman 40.000 piastras em 1796, e quase 60.000 em 1811.
    Assim, no fim do sculo, os bsa`idi tomaram conscincia do interesse eco-
nmico de alguns pontos da costa onde eram representados. Essas vantagens,
acrescidas de diversas consideraes polticas e estratgicas, incitaram o Sayyid
Sha`d bin Sultan (1804-1856) a estender a autoridade de sua dinastia pela costa
e, depois, a estabelecer sua capital em Zanzibar52.


      Concluso
   O perodo tratado no presente captulo foi frtil em transtornos para a costa
oriental da frica. As cidades sualis, at ento independentes, sofreram a inva-
so portuguesa, alis facilitada por suas intrigas e rivalidades  ainda que, em
certos momentos, as tentativas dos portugueses para explorar estes ltimos
trouxeram-lhes desvantagens.
   Esta invaso foi violenta e impiedosa: os portugueses resolveram atacar os
muulmanos em todas as frentes, se apoderar de suas terras, suplant-los no
exerccio do comrcio e, se possvel, convert-los ao cristianismo, tal como aos
outros povos adeptos da religio tradicional africana. Na realidade, o impacto


50    Ibid., p. 166.
51    R. Oliver e G. Mathew, 1963, p. 156; E. A. Alpers, 1975a, p. 177.
52    UNESCO, Histria Geral da frica, vol. VI, cap. 8.
A costa oriental da frica                                                    913



religioso foi pouco importante. Salvo raras excees (Ysuf bin Hasan ou certas
mulheres, por exemplo), os muulmanos foram refratrios ao cristianismo. 
certo que nada restou da evangelizao aps a partida dos portugueses.
    No que concerne s trocas e ao trfico comercial no Oceano ndico, os
portugueses apenas obtiveram um sucesso parcial. As cidades sualis pude-
ram conservar uma atividade comercial relativamente importante. Entretanto,
a regulamentao introduzida pelos portugueses neste domnio  monoplios e
carataze, por exemplo , prejudicou as trocas. No entanto, a cupidez e a incom-
petncia dos administradores locais estiveram na origem do declnio de certos
comrcios, como o do ouro de Sofala. Apenas considerada como secundria em
relao  sia, a costa permitiu contudo o enriquecimento, se no da Coroa
portuguesa, ao menos dos seus representantes.
    As cidades sualis conheceram diversas fortunas. Graas a sua vitalidade,
Mombaa  vtima de vrias destruies de grande escala como represlias dos
portugueses  sempre conseguiu se reestruturar. Kilwa suportou bem menos
a adversidade, embora, aproximadamente no final do sculo XVIII, o trfico
de escravos com a Ilha de Frana lhe tivesse permitido prosperar. Todavia esta
recuperao devia ser de curta durao, pois que, no comeo do sculo XIX, a
cidade fora eclipsada por Kilwa Kivinje, situada no continente. Outras cidades
da costa desapareceram para sempre ou tornaram-se simples aldeias. O declnio
delas no foi obra dos portugueses; ele se relaciona, mais verdadeiramente, 
ao dos povos, como os oromo e os zimba, conjugada s modificaes do meio
ambiente. Pate  a exceo  regra: ela apenas tornou-se prspera nos sculos
XVII e XVIII, e isso provavelmente explica o motivo de os portugueses tanto
tentarem destru-la. Mas, no final do sculo XVIII, ela declinou mais uma
vez, como relata o grande poeta da cidade, Sayyid `Abdallh, no Al-Inkishafi.
Somente novas pesquisas permitiro responder s inmeras questes que ainda
so colocadas a respeito das cidades sualis, de suas dimenses e dos fatores que
estiveram na origem de seu avano, florescimento e decadncia.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                             915



                                     CAPTULO 26


                A regio dos Grandes Lagos,
                       de 1500 a 1800
                        J. B. Webster, B. A. Ogot e J. P. Chrtien




    Esse perodo pode ser dividido em trs partes: de 1500 at aproximadamente
1580; depois, de 1580 a 1680, um sculo marcado por secas e fomes; e enfim, a
poca da formao e da expanso do Estado, que vai de aproximadamente 1680
a 1800. Antes de 1580, a principal preocupao das regies meridionais e cen-
trais era a consolidao dos Estados que sucederam ao Imprio Bachwezi, sendo
a do Norte a interao entre as famlias lingusticas decorrentes da primeira
irrupo dos povos falantes do niltico oriental, na regio dos Grandes Lagos.
    O segundo perodo (aproximadamente 1580-1680) foi dominado pelas secas
e fomes. Ocorreu nele tambm o deslocamento de populao mais macio j
ocorrido na regio em mil anos. Houve vastas migraes a partir de Baar, com
a disperso dos luo de Pubungu, enquanto macias invases de Banyoro, no Sul,
ameaavam a hegemonia pastoril e atingiam zonas to distantes quanto Ruanda
e Usukuma. No Leste, a seca foi ligada  apario dos nilotas centro-orientais
que entraram em contato com os povos da regio, como os luo, bem como a um
grande movimento de populao rumo ao Sul.
    O terceiro perodo, que vai de 1680 a aproximadamente 1800, foi em pri-
meiro lugar marcado pela proliferao e a expanso das estruturas estatais. Ele
comeou com uma crise dinstica no Bunyoro, assinalando o declnio desse
imprio e provocando, por intermdio dos paluo, a criao de Estados que vo
dos planaltos superiores de Alur s montanhas da fronteira Acholi-Karamoja.
916                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



Os prncipes banyoro criaram uma srie de Estados ao longo das zonas frontei-
rias meridionais. Os Estados nyanza luo, basoga, bakongo, kakwa, banyagoma e
babinza multiplicaram-se. O Estado mpororo, uma vez fundado, fragmentou-se.
O perodo acabou, no Sul, com o impulso e a expanso de Buganda e Ruanda,
as duas "superpotncias" da regio dos Grandes Lagos e, no Norte, com um pri-
meiro esboo do conjunto moderno das etnias nilticas centro-orientais, como
os iteso, os jie, os luo orientais, os lango omiro e os kumam.


      As regies do Norte e do Centro
      A formao de novos grupos e de novas sociedades
   Antes do ano 1000, os sudaneses do centro eram provavelmente o povo
predominante em toda a regio dos Grandes Lagos. Eles se dividiam em vrios
grupos, compreendendo os ancestrais de grupos tnicos como os lendu, os kebu
e os moro. A palavra muru era o termo luo para designar todos esses povos
autctones; ela ser usada quando a identidade tnica de um povo do Sudo
Central no  conhecida, bem como para diferenciar os primeiros povos da
regio dos imigrantes madi posteriores, que eram sudaneses do centro e pro-
vavelmente os primeiros habitantes conhecidos de Baar. A maioria dos povos
centro-sudaneses era organizada em linhagens segmentrias e gerontocrticas.
Como agricultores, eles adoravam um deus da terra e usavam pedras da chuva
ou uma mistura de leo e gua para fazer chover. Seu sistema totmico era
complexo e eles enterravam seus mortos em tumbas afastadas. Os imigrantes
que se seguiram, conheceram-nos principalmente como mineiros (pelo ferro),
fundidores e ferreiros. Em 1500, eles foram assimilados pela cultura banta ao
Sul da linha de partilha das guas Nilo-Kyoga, mas eram ainda onipresentes no
Norte, nos planaltos superiores de Alur at as montanhas Karamoja
   Por volta do ano 1000, o conjunto niltico luo de Dog Nam se fragmentou1.
Um grupo foi para Tekidi e, deste local, um subgrupo emigrou e instalou-se em
Pakwack-Pawir. Deste ltimo saram os importantes ramos lingusticos dos alur,
abwor, padhola, nyanza luo e, talvez, dos babito do Bunyoro. De Dog Nam, um
outro grupo estabeleceu-se em Wipac (Rumbek), resultando no shilluk, no Acholi
Ocidental e, talvez, nos dialetos paluo. Em 1500, devia haver uma ntida diferena


1     Ver as contribuies de J. M. Onyango-ka-Odongo e J. B. Webster, 1976; A. M. Garry, 1976; R. S.
      Herring, 1976. Ver igualmente R. S. Anywar, 1954 (ed. de 1969); L. Okech, 1953 (ed. de 1968); J. P.
      Crazzolara, 1950-1954; V. Pellegrini, 1963 (ed. de 1972); A. Malandra, 1947 (ed. de 1971).
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                     917



dialetal entre os dois grupos. Nos trs enclaves luo, uma forma de dominao
hereditria associada ao totem cefalfio fora instaurada bem antes de 14002.
    O perodo 1400-1580 foi consagrado  consolidao interna dos Esta-
dos sucessores do Imprio3 e marcada pelas manobras diplomticas das duas
potncias bahinda e babito. Os novos chefes recompensaram seus colaboradores
confiando-lhes cargos elevados e reconheceram alguns chefes locais, especial-
mente os de Bwera e de Buyaga. Houve poucas querelas sucessrias. Os babito
criaram um novo culto pelo qual eles veneravam o Cwenzi deposto, o que
representava uma ameaa potencial para os novos dirigentes.
    Os babito e os bahinda eram os principais pretendentes ao supremo poder
hegemnico. A tradio afirma que o Kitara ajudou militarmente o chefe autc-
tone de Kiziba quando um Muhima da corte de Buganda tentou derrub-lo. Os
exrcitos banyoro invadiram Buganda, mataram o rei muhima, Nakabinge, e o
substituram por um chefe das ilhas Sessa, um homem pertencente ao totem do
leo e do leopardo, da primeira dinastia kintu. Vrios membros da nova dinastia de
Buganda ganharam Nyanza, no Sudoeste, onde a populao batundu, temendo a
expanso dos babinda, aceitou-os como chefes. Essa foi a fundao do cl babinza,
tambm pertencente ao totem do leo e do leopardo4. Os banyoro mataram o
muhima aspirante ao trono de Kiziba e para l enviaram Kibi, que tomou o poder.
Alm disso, de acordo com as tradies orais, os banyoro incentivaram o cl
balisa a fundar, por volta de 1523-1550, Buhweju e Buzimba, estados-tampo na
fronteira meridional, destinados a proteg-los das ameaas dos Estados bahima.
Eles igualmente venceram Nkore, mas um eclipse solar, em 1520, provocou a
debandada de seu exrcito, fazendo fracassar seus planos.
    No Norte da linha de partilha das guas Nilo-Kyoga, o ano de 1500 ganha
uma importncia particular porque coincide talvez com a primeira apario
macia do grupo setentrional dos nilotas orientais ou do conjunto bari desses
ltimos. Afirmou-se que esse grupo deixara sua terra natal e imigrara rumo s
terras fronteirias etopes5 em trs ondas, cuja primeira (aproximadamente 1490-

2    UNESCO, Histria Geral da frica, vol. IV, cap. 20.
3    Obras publicadas a respeito desses Estados: J. W. Nyakatura, 1947 e 1971; P. Bikunya, 1927; H. K.
     Karubanga, 1949; A. G. Katate e al., 1955; K. N. Nganwa, 1948; F. X.. Lwamgira, 1949 e s.d; H. Rehse,
     1910 e Sra. Denne, s.d.
4    Sobre o Buganda, ver M. S. M. Kiwanuka, 1971a; A. Kaggwa, 1908/1949 e 1971; M. B. Nsimbi, 1956;
     C. E. S. Kabuga, 1963. Sobre os Sukuma, ver B. Itandala, 1979.
5    Esse grupo setentrional dos nilotas orientais foi pouco estudado: M. Loro, 1971; J. B. Baba, 1972. L. E
     Nalder, 1937,  uma fonte til. J. P. Crazzolara, 1950-1954, p. 337 e 342-343; J. M. Onyango-ka-Odongo e
     J. B. Webster, 1976, so igualmente teis, o ltimo particularmente no que tange s datas. Existem contudo
     vrios trabalhos sobre o grupo central dos nilotas orientais: J. E. Lamphear, 1976 e s.d..; R. S. Herring, s.d.
918                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



-1517) compreendia talvez ancestrais dos pajulu; a segunda (aproximadamente
1517-1544) ancestrais dos bari-kakwa-kuku; e a terceira (cerca de 1544-1571),
ancestrais dos lotuho. Essas migraes certamente no foram diferentes e os
grupos das duas ltimas ondas estabeleceram-se entre os pajulu. Tentou-se datar
essas ondas a partir de geraes durante as quais os nilotas orientais do Nordeste
atacaram Tekidi. Naturalmente, duvidou-se muitas vezes da exatido das listas
reais de Tekidi a partir das quais as datas so calculadas e, exceto pela ltima
invaso, a dos lotuho, a tradio oral de Tekidi no fornece nenhuma preciso
sobre a identidade dos imigrantes. Mas essa diviso , contudo, parcialmente
corroborada pelas genealogias  publicadas  do grupo setentrional dos nilotas
do Leste. Cada grupo atacou sucessivamente Tekidi at que a comunidade luo
fosse deslocada pelos lotuho.
    Considerando a carncia dos dados histricos sobre o grupo setentrional
dos nilotas do Leste, o esquema proposto aqui deve ser considerado como uma
simples tentativa. Entre os contrafortes do Tukana e os montes Agoro, o grupo
parece ter-se dividido em duas colnias: uma seguiu pelo Oeste atravs do Sudo
Central (Muru e Lukoya) at o Nilo, em Baar, o pas dos madi; o outro, rumo ao
Sul, atravessou Karamoja e sua chegada provocou a partida dos povos kalenjin
da parte setentrional dessa regio6. Os dados disponveis parecem indicar que os
nilotas introduziram entre povos sudaneses do centro sua organizao por faixa
etria, a cerimnia do fogo, o deus do cu, a lana e o escudo, a lana sagrada
da chuva, a longa enxada reta e penteados muito elaborados. Em vrias zonas,
seus contatos com os povos sudaneses favoreceram provavelmente a criao das
chefias e sua lngua tornou-se uma nova lngua franca.
    As segundas invases dos nilotas do Leste foram talvez marcadas pelos oro-
mos (galla) que deixaram sua terra natal, ao Norte do Lago Turkana (1517-1544
aproximadamente), e atacaram Tekidi no mesmo momento em que realizavam
a invaso da Etipia Meridional7. Os ancestrais dos kakwa modernos faziam
talvez parte dessa migrao. A tradio oral kakwa transmite a figura de Meme,
que vivia em Kapoeta (agora no pas Toposa). A mesma tradio oral nos fornece
uma genealogia de Jaki, que viveu nas colinas de Korobe, longe no Oeste, ponto
de partida para vrios cls dirigentes dos pajulu e dos kakwa. Jaki tornou-se,
para os kakwa, um heri ancestral. Eles admitem tambm serem ligados a um


6     J. E. Lamphear (s.d.) apresenta as tradies jie junto aos kalenjin. C. Ehret (1971) trata tambm de sua
      partida.
7     H. S. Lewis (1966) fixa o incio do movimento oromo em 1530-1538 graas a dados documentais. A data
      1517-1544  calculada a partir da genealogia de J. M. Onyango-ka-Odongo e J. B. Webster, 1976.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                             919



subgrupo dos iteso, e a presena precoce de um grupo setentrional dos nilotas
do Leste em Uganda Oriental  revelada, entre outras coisas, por variantes da
palavra kakwa do Acholi Oriental entre os luo do Qunia Ocidental.
    O pas de Baar tornou-se uma regio de intensa mistura entre os nilotas do
Leste e os madi. Diversos tipos de chefias hereditrias foram provavelmente esta-
belecidas, mas, para aqueles que se dirigiam a Oeste do Nilo , os pajulu, os kakwa
e os kuku  os chefes eram geralmente nilotas do Leste e sditos dos madi. Os que
se dirigiam rumo ao Sudeste, rumo a Agoro, eram provavelmente nilotas do Leste
comandados por madi ou por luo. Quanto aos que ficaram no pas de Baar, eles
criaram uma chefia hereditria (liderada por um fazedor de chuva) supostamente
de origem madi, onde se falava um dialeto niltico do Leste. Entre os pajulu, os
kakwa e os kuku, as novas sociedades teriam adotado, uma lngua niltica oriental
e combinaram o deus do cu e a lana nilticos com o deus da terra e com os
tmulos e as flechas dos sudaneses. Eles parecem ter abandonado a organizao
por faixa etria dos nilotas do Leste e ter adotado as roupas, as prticas funerais
e as pedras da chuva dos madi. Os chefes seculares eram geralmente nilotas do
Leste, ao passo que, os especialistas dos rituais eram madi. Os pajulu, os kakwa e
os kuku eram culturalmente sudaneses e linguisticamente nilotas orientais.
    Os processos de fuso, entre os bari, foram parecidos, com uma influncia
niltica um pouco mais marcada. Um dos traos essenciais da sociedade bari e
kuku era o dupi, ou a classe servil, por vezes fisicamente diferente da dos homens
livres. Na sociedade kakwa e pajulu, os dupi eram mais clientes do que servos.
Na medida em que eles exerciam mormente funo de ajudantes nos rituais da
chuva e em que eram mineiros e forjadores reputados,  possvel que tenham
sido de origem muru e no madi. Essa hiptese apoia-se no fato de os modernos
madi, que aparecem mais tarde nas tradies orais luo, serem o resultado de uma
miscigenao de vrios povos sudaneses, compreendendo os moro e, talvez, os
muru. Para os luo, de uma forma geral, todos os povos sudaneses acabaram por
ser chamados de madi e eles gozavam de uma slida reputao em matria de
trabalho do ferro. Mas os madi rejeitam essa afirmao e insistem que eram os
povos autctones com os quais eles viviam  subentendem-se aqui os muru, os
moro, os lendu ou obeku  que trabalhavam o ferro. Esses trs ltimos povos
ainda existem e afirmam terem sido mineiros e forjadores aos quais concedia-se
um estatuto especial na sociedade madi8.


8    Nenhuma das tradies madi foi colhida em seu lugar de origem, o pas de Baar. As nicas que possumos
     vm da regio de Uganda. Em toda parte, nas zonas nilticas orientais e ocidentais do norte da Uganda,
     as enxadas associadas a grupos falantes do sudans do centro so chamados de enxadas madi.
920                                                            frica do sculo xvi ao xviii



    A ltima invaso do grupo setentrional dos nilotas do Leste  associada, na
tradio oral de Tekidi, aos lotuho. Estes invadiram a zona de povoamento luo
de Tekidi, cujo rei, Owiny Rac Koma (1544-1571 aproximadamente), fugiu de
Pakwac-Pawir com a maior parte de seus sditos, para se instalar junto aos luo.
Tudo indica que os didinga e os dongotono-murle sobreviveram s invases,
defendendo firmemente suas posies nos altos planaltos.  provvel que um
grupo de centro-sudaneses, os okarowok, tenha adotado como lngua o niltico
oriental sob a influncia dos lotuho. A primeira parte desse grupo, os koriuk,
foi colocada sob a tutela lingustica, cultural e, finalmente, poltica dos lotuho; a
segunda parte, os ilogir, foi submetida  sua influncia lingustica e cultural, mas
escapou do seu poder poltico; quanto  terceira parte, composta pelos lokoya
(ou oxoriuk), ficou de fora, adotando o niltico oriental. Ainda que no esteja
de forma alguma provado que os oxoriuk tenham se tornado os okarowok (um
importante cl niltico oriental em Uganda), tudo parece indicar que assim
tenha sido.
    Aparentemente, os lotuho integraram os pequenos cls okarowok aos seus
quatro grandes cls e tomaram para si as proibies totmicas dos okarowok.
Eles introduziram a cerimnia do fogo, a organizao por faixa etria e, pro-
vavelmente, por causa da insegurana reinante, construram vilas populosas e
estreitamente fechadas em si prprias em uma zona anteriormente caracteri-
zada por um tipo de habitat disperso. A difuso ulterior dos cls totmicos e
das pedras da chuva rumo ao Leste indica talvez a extenso dos povoamentos
centro-sudaneses nessa direo.
    Enquanto um grupo dos primeiros luo foi forado pelas incurses dos nilo-
tas orientais a se deslocar rumo ao Tekidi, um outro grupo se dirigia rumo ao
Norte, para Wipaco Dwong', no Rumbek, deixando-o mais tarde, entre 1382 e
1418, para partir rumo ao Oeste, em direo ao Nilo, e estabelecer-se s mar-
gens do rio. Mais tarde ainda, ele se dividiu em dois; os primeiros shilluk e seus
aliados foram para o Norte e l se estabeleceram entre 1490 e 1517 aps terem
vencido os fung, ao passo que os patiko e os padibe se dirigiram rumo ao Sul
do Baar e chegaram na regio de Pakwac-Pawir. As irrupes dos luo no pas
de Baar, pelo que parece, obrigaram os panyimur, os Attyak e os koc-pagak 
liderados pelos madi  a imigrar para o Sul, perto do monte Kilak. Madi e luo
brigaram ento pelo poder em Pakwak-Pawir. Na chefia de Attyak, uma pro-
fecia anunciou que o filho da princesa Nyilak (1517-1562 aproximadamente)
assassinaria o rei, seu pai, e tomaria o trono. O rei ento isolou sua filha, mas um
viajante luo (de acordo com a tradio oral, tratava-se de Keeno, o rei de Patiko)
engravidou Nyilak, cujo filho, como se previra, matou o rei madi. Dois Estados
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                               921



constituram-se sem dvida a partir de ento: Attyak (chamado mais tarde de
Okoro), governado pelos luo, da linhagem real da qual nascera Nyipir, e Attyak
(Acholi), governado pelos madi. A histria de Nyilak  um esquema  cujos
personagens variam segundo cada narrativa  destinado a explicar como os luo,
no Norte, e os bantos, no Sul, puseram fim a dominao sudanesa9.
    A luta dos madi e dos luo pela hegemonia em Pakwac-Pawir tornou-se
muito mais aguerrida quando a grande onda migratria luo atingiu a regio,
sob o reinado do rei Owiny (tekidi). Anteriormente  queda de Tekidi, e sob o
reinado de seu ltimo monarca, Owiny Rac Koma, a casa dirigente payera fora
fundada por Ayera, uma filha do povo falante do luo, cuja me era uma nilota
oriental e o pai um mercador muru. Essa origem mestia  totalmente tpica da
miscigenao tnica que posteriormente caracterizou o Estado payera. Os filhos
de Ayera, que partiu do Oeste rumo ao Nilo, foram antes de tudo criados como
muru; eles conseguiram os servios de vrios madi. Por volta de 1560, os lotuho
afundaram Tekidi cuja maioria dos habitantes fugiu com o rei para Pakwac-
-Pawir. Outros fugiram para as colinas depois retornando temporariamente
para casa aps a partida dos lotuho. A principal chefia constituda a partir desse
ltimo grupo foi a de Puranga10. Esse grupo luo, ao qual amalgamaram-se, no
decorrer dos sculos, novos imigrantes de Anywa e de outros lugares, mas que
era, sobretudo, muito influenciado pelos nilotas do Leste, pode ser denominado
como grupo dos luo orientais. Ele era majoritrio na populao do Acholi do
Leste, de Labwor, de Nyakwai e de Lango e, com os nilotas orientais, teve uma
influncia decisiva sobre os dialetos falados nessas regies.

     A poca das secas e das fomes
    Nenhuma parte da regio dos Grandes Lagos, nem mesmo da frica Central
e Oriental, escapou do desastre climtico que foram as secas e as fomes que elas
provocaram, no fim do sculo XVI e no incio do XVII. Durante esse perodo,
as precipitaes nas regies do Norte e do centro foram normais por apenas dois
anos. Os quatro perodos de seca mais graves foram sem dvida os de 1588-
-1590, de 1601-1602, de 1613 e de 1617-1621. Em 1621, o curso estival do Nilo


9    J. P. Crazzolara, 1950-1954, p. 180-183; R. J. Ocamali, 1970; A. W. Southall, 1954; R. S. Anywar, 1954;
     A. Malandra, 1947 (ed. de 1971). Encontra-se uma tradio banta similar na Abakama de Nyakatura.
10   Ns seguimos aqui a tradio luo, tal como relatada por J. M. Onyango-ka-Odongo e al. (1976). Essa
     importante tradio, que trata em grande parte dos primrdios da histria luo, merece muito mais aten-
     o crtica dos especialistas do que recebeu at agora. Ela fornece um til corretivo s tradies orais
     luo, cuja maioria, at pouco tempo, tratava principalmente dos luo do Oeste.
Webster).
figura 26.1




                                                                                                                                                                                                                                                                                                       922
                                                                                                                   RI               BAAR
                                                                                                                                                                                                                        O




                                                                                                                             MAD
                                                                                                           BA
                                                                                                                                                                                                     LOTUH
                                                                                                                                                                            TEKIDI
                                                                                               Colinas
                                                                                               de Korobe




                                                                                                                                I
                                                                                                                                                                       Montes Agoro                                              P




                                                                                                                                                                                                 AR
                                                                                                                                                           O
                                                                                                                                                        LU




                                                                                                                                                                                                                                 ast
                                                                                                                                                                                                  K
    O nyarubanga e a fragmentao dos luo entre aproximadamente 1570 e 1720 (segundo J. B.




                                                                                                                                                                                              ATE
                                                                                                                                                   LO




                                                                                                                                                                                                                                    ore
                                                                                                                                               O                                                                         OROM




                                                                                                                                                                                                                                         s
                                                                                                 Monte Liru                                              GEM
                                                                                                                                                                                        O




                                                                                                                                          OM
                                                                                                                                                         RAGEM




                                                                                                                                                                                  TIR
                                                                                                 BANALE                                                  KOCHIA




                                                                                                                                                                                O
                                                                                                                                o




                                                                                                                                                                                                           ISE
                                                                                                                                                                                                                RA




                                                                                                                            Ni l




                                                                                                                                                                             NG
                                                                                                                                                                                                                                                 Koten




                                                                                                                                                               UO
                                                                                                                                                                  L
                                                                                                                                                              Y




                                                                                                                          Ri o




                                                                                                                                                                            LA
                                                                                                                                                                                                                                                                            CHEFIAS BASOGA
                                                                                                                                                            IN
                                                                                                                                                          OW               RAMOGI                                                                                           A BUKOLI
                                                                                                                                                                           AMOR
                                                                                                                                                                           KOI                                                           Monte Tororo
                                                                                                                                             ADHOLA LUO
                                                                                                                                                                                                                                                                            B BUZIMBA
                                                                                                  NYIPIR                         PAKWAC
                                                                                                                                                                                     KAKET                                                                                  C LUUKA
                                                                                                                                                                                                                        Colinas de Labwor
                                                                                                               Pubungu                              OW                 Rocha de      LAKWAR
                                                                                                                                                       INY              Ngeta        BIRANGA                                                                 Monte Moroto   D BUGABULA
                                                                                                                                                           LU
                                                                                                                                                             O




                                                                                                                                                                                                            AM
                                                                                                                                                                                                                                                         K                  E BUKONO
                                                                                                                                                   PARAPUL




                                                                                                                                                                                                           M
                                                                                                                                                                                                               KU




                                                                                                                                                                                                                                                         AL
                                                                                             Lago Onekbonyo                                          AGORO                                                                                                                  F BULAMOGI




                                                                                                                                                                                                                                                           EN
                                                                                                                                                    LAKWAR
                                                                                             (Alberto)                           PAWIR
                                                                                                                                                     PAIMOT




                                                                                                                                                                                                                                                              JIN
                                                                                                                                                                                                               ID
                                                                                                                                                                                                                    O    Lago Bisina
                                                                                                                                                                                                          MA                                                                CHEFIAS LUO
                                                                                                                           BUNYORO                                                               E   RA
                                                                                                                                                                                          K   AB                            OM                                              1 ALEGO
                                                                                                                                                                                                                              OL
                                                                                                                                                                                                                                O                                           2 GEM
                                                                                                                                                                      Lago Kyoga                                                         L
                                                                                                                                                                                                                                                                            3 ASEMBO




                                                                                                                                                                                                                                         UO
                                                                                                                                                                                          Ri
                                                                                                                YORO




                                                                                                                                                                                  F              M                                                                          4 UYOMA




                                                                                                                                                                                             o
                                                                                                                                                                                                     po
                                                                                                                                                                                                          log
                                                                                                                                                                                               E              om         a                              Mont Masaba
                                                                                                                    BAN




                                                                                                                                                                                                                                                                                      Regies Altas
                                                                                                                                                                             D
                                                                                                           Invases




                                                                                                                                                                                                                                                                                                       frica do sculo xvi ao xviii
                                                                                                                                                                                      C                                                            MASA
                                                                                                                                                                                               BUDOLA
                                                                                                                                                                                               B
                                                                                                                                                                                                         BUDAMA
                                                                                                                                                                                                  A
                                                                                                                                                                                                     BANDA
                                                                                                                                          Lago Nyanza                                                                                                                 0       50          100 milhas
                                                                                                                                               (Vitria)                                                                     1
                                                                                                                                                                                                                                         2
                                                                                                                                                                                                                                                                      0       80            160 km
                                                                                                                                                                                                                                         3
                                                                                                                                                                                                                                     4
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                   923



atingiu seu mais baixo nvel desde 622  ano em que anais foram estabelecidos
pela primeira vez. Relatos da poca indicam que durante esse longo perodo
de seca, as coletas foram normais duas vezes, inexistentes durante onze anos e
insuficientes ou nulas durante vinte e quatro anos. Qual no deve ter sido a taxa
de mortalidade, de acordo com as normas de conduta civilizada e de dignidade
humana, no decorrer dessas secas?
    Na Uganda Setentrional, todo esse perodo foi designado pela palavra luo
nyarubanga, que significa "enviado por Deus", porque se tratava do pior desastre
natural da histria dos luo. Ele se encerrou com a grande fome de 1617-1621,
acompanhada de uma doena que dizimou o gado.
    O espectro da fome geral  evocado por todas as tradies. As histrias
egpcias so particularmente assustadoras: o canibalismo tornou-se coisa comum
e cerca da metade da populao morreu de fome. A realidade do Egito era
provavelmente a mesma para a maior parte da regio dos Grandes Lagos, espe-
cialmente das zonas setentrionais.
    Se a metade da populao pereceu, a maioria dos sobreviventes foi obrigada
a emigrar ou fugir para outras regies. Eles se reuniram perto dos rios e dos
lagos, ao longo do rio Nilo, s margens do Lago Vitria e do conjunto de lagos
estendendo-se, na direo sul, no centro da frica. Foram recolhidos doze gran-
des relatos de migrao a respeito desse perodo e a maioria deles evoca deslo-
camentos rumo a grandes rios e lagos. Algumas dessas migraes tomaram um
carter militar: a invaso nkanda do pas Sukuma, o movimento dos "lomukudit"
que se expandiram no pas de Baar ou a invaso banyoro que atingiu, no Sul, no
mnimo, Buzinga. Outros relatos evocam a seca do Nilo Albert, do Nilo Vitria
e do Smith Sound  o que, nesse ltimo caso, deve ter provocado uma baixa
considervel do nvel das guas do Lago Nyanza.
    O nyarubanga reestruturou a geografia tnica e poltica de uma grande parte
da regio dos Grandes Lagos e, talvez, de uma parte maior ainda da prpria
frica. Ele aplicou provavelmente um golpe fatal no tipo de poder fundamen-
tado no controle das foras sobrenaturais, particularmente naquele que afirmava
ter poder sobre os fenmenos atmosfricos. Ele levou  apario de uma nova
forma de governo,  frente do qual encontravam-se frequentemente os chefes
das migraes cujas capacidades de comando, de guerra e de caa permitiram
a sobrevivncia de grupos numericamente grandes. Quando o choque passou,
os chefes dos sobreviventes criaram novas unidades polticas em novas regies
provavelmente desabitadas ou muito pouco povoadas ou que no tinham, em
todo caso, estruturas polticas que os recm-chegados tivessem de enfrentar. No
 apenas pelo desejo de seus descendentes de afirmarem seus direitos sobre essas
924                                                         frica do sculo xvi ao xviii



terras, que as tradies relatam estarem vazias. Elas provavelmente o eram (ou
quase) em certas zonas.
    No  de surpreender tambm que quando os imigrantes encontravam habi-
tantes, estes fossem caadores; o chefe dos recm-chegados, no mais,  frequen-
temente definido como um caador pelas narrativas tradicionais. Os animais
tambm emigraram e se acumularam ao redor de pontos permanentes de gua.
Por fim, no h nada de espantoso no fato de os relatos darem a impresso de
que, a partir de 1600 aproximadamente, houve um novo comeo. Na maioria
das regies, havia novas miscigenaes tnicas, novos ambientes e novos chefes.
No  pelo fato de os relatos anteriores a 1600 serem pobres e vagos que os his-
toriadores devessem considerar que eles no refletem precisamente as condies
de vida existentes na poca: o nyarubanga destruiu as tradies orais, aniquilou
seus mecanismos de transmisso, bem como, provavelmente, a maior parte das
velhas geraes que as guardavam. O pior desastre climtico de toda a histria
da regio dos Grandes Lagos provocou rapidamente movimentos migratrios,
deslocou Estados, derrubou dinastias e abalou at as bases de sociedades pastoris
normalmente habituadas a longos perodos de seca11.
    As migraes do pas de Baar aceleraram-se muito durante o nyarubanga. Os
madi opei, os palabek e os padibe foram a Agoro. Os Attyak, os koc-pagak, os
aliba, os laropi, os parabongo, os alero e os paleru estavam dentre os madi que
vieram se agrupar em Pakwac-Pawir. Os povos falantes do niltico do Leste se
dirigiram, ao Sul, rumo s colinas de Korobe e ao monte Liru, onde um certo
nmero de famlias dirigentes afirma descender de Jaki, de seus filhos e de seu
squito. Trata-se das principais famlias de Nyagilia, de Obula e de Midia (todas
falantes do kakwa), de Yemele e de Paranga (que fala o madi). Um grupo dirigiu-
-se para o Leste, at o Nilo, onde seu estabelecimento permitiu a criao de um
cinturo de populao falante do niltico, distinguindo assim os madi moyo e
os meta dos madi do Sul, mais tarde conhecidos sob o nome de lugbara.
    Foi tambm durante esse perodo que Pakwac-Pawir ganhou sua reputao de
grande centro de emigrao luo. Como os grupos falantes do luo tinham vivido
nessa zona bem antes da conquista do Bunyoro-Kitara pelos babito e como eles
ficaram fiis partidrios dos babito, esses ltimos naturalmente interessaram-se
pelo que acontecia na regio. Ela adquiria um interesse muito particular, pois
atraa igualmente imigrantes do Norte que no eram luo e que os babito queriam
submeter. Seu interesse por essa zona  bem ilustrado pela histria de Omukama


11    Sobre esta seca, ver J. B. Webster, 1979.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                              925



Cwa Nyabongo e de Daca: pouco antes do incio do nyarubanga, Cwa reuniu
seu exrcito, atravessou o Nilo Vitria (usando uma ponte, o que indica talvez
o baixo nvel das guas), combateu e matou o rei madi de Koc-Pagak, um chefe
importante dessa zona, que no era um luo. Parece que ele nomeou um outro
madi, Abok, que vivera em Kitara, para governar Koc-Pagak, sob o controle de
uma de suas rainhas paluo, chamada Daca. Agindo assim, ele tentava aparente-
mente fazer mais do que submeter um vizinho turbulento: recorrer a mulheres
da famlia real para exercer uma espcie de governo indireto, teria sido tpico da
maneira de gerir territrios exteriores da primeira dinastia babito. Mas enquanto
essa poltica era geralmente coroada de sucesso, ela fracassou nesse caso em
particular, na medida em que pelo menos trs filhos do chefe madi conseguiram
constituir os Estados pagak, paboo e pawoor. Todavia, tal poltica teve uma certa
influncia, pois permitiu a Cwa e a seus agentes femininos desempenharem um
papel importante na zona durante o nyarubanga.
    Parece evidente que o cataclismo climtico transformou Pakwac-Pawir em
uma zona de refgio para uma multido de povos famintos e desesperados, e
cujas lnguas e culturas eram diferentes: os owiny luo de Tekidi, os omolo e os
paluo, os luo-madi, os madi falantes do niltico do Leste e os luo de Baar, mistu-
rados com os nilticos orientais. O afluxo desses povos aparentemente destruiu
a posio dos paluo no Norte do Nilo e colocou-se de forma aguda a questo de
saber quem controlaria os luo e esses outros grupos. Isso provocou um conflito
entre Cwa Nyabongo (bem como seus agentes) e Nyipir, evocado na tradio
da lana e da prola. Se os elefantes representam os madi (Abok pertencendo
ao totem do elefante) e a min lec12 Daca, essa narrativa mostra como esta ltima
serviu s ambies de Nyipir. Nyipir e Tifool (talvez ambos luo de Baar), cujos
partidrios eram em grande parte luo owiny, rumaram para o Oeste do Nilo e
deixaram o pas de Cwa; Nyipir, segundo a tradio oral, cravou um machado no
leito seco do Nilo em sinal de separao eterna. Chefe de Attyak, ele fundou o
reino alur de Okoro, enquanto Tifool criava um Estado que se dividiu em duas
partes: Nyiganda e Angal. A maior parte dos owiny dirigiu-se aparentemente
para o Sudeste, passou ao Norte do Lago Kyoga e juntou-se aos acampamentos
budola no Busoga Oriental. Os omolo, cujos deslocamentos permanecem mais
discutidos, poderiam ter se dirigido para Agoro e, de l, ter ganhado a mesma
regio para Karamoja.


12   Min lyec significa "rainha dos elefantes". Essa parte de nosso estudo segue a anlise de R. A. Sargent,
     1979. Ver tambm A. Apecu, 1972. Visto que os detalhes da narrativa da lana e da prola foram bastante
     publicados e ficaram muito conhecidos, ns os omitimos aqui.
926                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



   De acordo com as narrativas tradicionais jonam, os luo que ficaram, lidera-
dos por Daca, derrubaram Abok e o Estado koc dividiu-se em trs. O primeiro
Estado, Koc Ragem, foi governado por Cua, um filho de Daca e de Cwa Nya-
bongo. Ele se tornou o maior dos Estados jonam situados a Oeste do Nilo. O
segundo, Koc Labongo, foi fundado por Kaladua, um filho de Daca e de Abok,
e encontrava-se a Leste do Nilo. Quanto ao terceiro, Koc Paluo, foi dominado
pelos madi. Situado na esfera de influncia de Pawir, era controlado por uma
mulher da famlia real munyoro13. Foi talvez a partir dessa diviso de Koc que
Kakaire apareceu para liderar a migrao pakoyo, que ocorreu na ltima parte do
sculo XVII e levou esse grupo do Sul do Lago Kyoga ao Norte de Busoga.
   O luo, fundador da chefia terego dos lugbara, poderia tambm ter aparecido
aps a disperso dos luo de Pakwac-Pawir. Banale e seu sobrinho Raule, vindos
do Leste do Nilo, chegaram ao pas Madi num estado de misria total. Banale
fora expulso de sua terra natal porque a fome o impelira, assim como a outros
na poca, ao canibalismo. Ele estava acompanhado de uma mulher madi leprosa.
Quando suas relaes clandestinas foram descobertas, um conselho de ancios
madi decidiu tom-lo como chefe; ele fundou ento Terego, a mais vasta chefia
dos lugbara ou madi do Sul. Na mesma poca, Jaki e seus filhos, muito ambi-
ciosos, estendiam seu domnio sobre o pas Madi vizinho e  bem possvel que
o conselho dos ancios madi tenha preferido tomar Banale como chefe a ser
absorvido pelo grupo de Jaki, falante do niltico oriental14.Com essa deciso, eles
preservaram sua lngua e puderam continuar sendo culturalmente madi.
   O nyarubanga e a difuso da lana e da prola em Pubungu provocaram trs
migraes luo rumo ao litoral sudeste de Nyanza  zona que j fora percorrida
por grupos lufonos como os joka jok do Qunia Ocidental. Uma grande parte
dos cls adhola deixou Pakwac-Pawir e juntou-se aos owiny em Kabemaraido.
Amor era um de seus chefes. O cl Amor apareceu mais tarde em Padhola
tendo, como sinais caractersticos, um tambor real, uma lana sagrada e o totem
do cefalfio. O conjunto adhola contava igualmente com os famosos cls dos
Ramogi (que provavelmente faziam parte, originalmente, do conjunto joka jok),
dos bwobo e de seus prximos, os koi. Esses ltimos eram parentes de Olum
Panya, o segundo rei bwobo (de Acholi), que os conduziu a Ngeta Rock (rocha
de Ngeta), onde os koi se separaram do principal grupo bwobo e juntaram-se aos


13    Ns adotamos aqui a interpretao de Sargent. Ainda que controversa, ela  muito estimulante e relata
      um certo nmero de acontecimentos at aqui tratados separadamente nas narrativas tradicionais dos
      Madi, dos banyoro e dos luo.
14    O. J. E. Shiroya, em J. B. Webster s.d.a e em D. Denoon, s.d.b.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                      927



adhola em sua marcha rumo ao Sudeste. Os grupos adhola e owiny dirigiram-se
rapidamente rumo ao Sul e montaram acampamentos em Budola, no Busoga
Oriental. Um outro conjunto de cls  os gem, os ragem e os kochia, que faziam
parte do grupo omolo e eram de origem luo-sudanesa  deixou Pakwac-Pawir
para rumar a Tekidi pelo Nilo, ao Norte, e ao monte Elgon por Otuke, ao Sul. 
possvel que os kaket, os lakwar e os biranga tenham se unido ao grupo omolo no
Leste. Os biranga so talvez um ramo do cl real de Purango, pois se encontram
nos dois grupos especialistas dos rituais consagrados aos orculos de uma deusa
da terra e cujo papel possua uma importncia particular15. Os luo fixaram-se
ento progressivamente no Uganda Oriental; depois, provavelmente quando da
chegada dos refugiados do nyarubanga, eles se dividiram em dois grupos.
    Em 1600, os primeiros habitantes e os cls imigrados uniram-se para formar,
pelo menos, quatro grupos: o grupo omolo, nos acampamentos banda; o grupo
owiny-adhola, nos acampamentos budola; um grupo que compreendia os dois
futuros cls adhola (os ramogi e os lakwar), nas florestas do Budama Ocidental;
um grupo que daria os futuros cls basoga, ao Norte do Mpologoma. Entre 1598
e 1650 aproximadamente, os acampamentos budola e banda dispersaram-se,
provavelmente por causa da terrvel misria dos anos 1620, que marcou o fim
do nyarubanga. Os owiny dirigiram-se, por Samia-Bugwe, para a regio Alego,
no distrito Siaya no Qunia Ocidental. Uma parte dos omolo os seguiu e os
dois grupos entraram em conflito. Os cls adhola foram os ltimos a deixar os
acampamentos budhola e a unir-se a seus irmos no Budama Ocidental.
    Dentre os que continuaram a falar o luo no Oeste do Qunia, alguns criaram
chefias (por exemplo Alego, Gem e Kadimo). Eles teriam agido assim, em parte
por causa de sua situao anterior, em parte porque eles precisavam de uma
estrutura poltica para poder assimilar os primeiros habitantes bantos e, enfim,
em parte porque eles frequentemente pelejavam entre eles e com seus vizinhos.
A maioria deles, contudo, agiu como os padhola, instalando-se numa zona
desocupada e contentando-se com um sistema poltico acfalo mantenedor da
paz entre os trinta e um cls. A unidade tnica foi favorecida pelo mito segundo
o qual todos os cls descendiam dos filhos e dos netos de Adhola, o chefe que
liderara sua grande migrao de Kaberamaido ao Budama Ocidental16. Assim,
integrando completamente grupos como os amor, possuidores de insgnias reais,
e afirmando ter ancestrais reais, os padhola puderam decidir no ter chefes.


15   J. M. Onyango-ka-Odongo e al., 1976; R. S. Anywar, 1954 (ed. de 1969); B. A. Ogot, 1967.
16   B. A. Ogot, 1967.
928                                                        frica do sculo xvi ao xviii



    Eles exploraram progressivamente as terras situadas ao Sul e ao Leste de sua
terra de origem. Eles entraram em conflito com os bagisu depois concluram
com eles uma paz durvel. Aps 1650 (aproximadamente), eles tambm comba-
teram os masai na regio tororo. Estes ltimos voltaram-se para o Leste e Tororo
tornou-se um no man's land (terra de ningum) at que os iteso se instalassem
no lugar no fim do sculo XVIII.
    Oito cls pertencentes aos conjuntos owiny e omolo deixaram os acam-
pamentos budola pelo Busoga17. Todos eles pertenciam ao totem do cefalfio
e tinham tradies de caa e pecuria, mesmo que o grupo owiny tenha tido
igualmente uma tradio agrcola. Os cls de origem owiny eram os mudola, os
ngobi, os naminha e os kibiga. Os de origem omolo eram os bandha, os wakoli,
os kiruji e os kiranda. Todos os cls owiny, bem como os wakoli do conjunto
omolo, tornaram-se cls dirigentes no Busoga. O cl mudola tomou inicialmente
o poder em bukoli, depois em mukama (dele proveniente), dirigiu-se para o
Oeste, no Busoga Setentrional, atraindo para si uma grande clientela. Seus
filhos e netos, do cl ngobi, fundaram as chefias de Luuka, Buzimba, Buzaaya e
Bugabula. Uma segunda onda migratria, vinda dos povoamentos luo do Norte
do Mpologoma, fundou as chefias de Busiki, Bukono e Bulamogi. Os omolo,
de tradio pastoril, hesitavam em fixar-se e apenas um de seus cls tornou-se
dominante.
    Pouco depois ocorreram as migraes pakoyo, a partir de Pawir, no Sul do
Lago Kyoga, que resultaram na fundao das chefias de Bagweri e Bugaya. Em
seu desejo de unificao tnica, os basoga quiseram fazer de Mukama o chefe de
todas essas migraes e realizar para ele o que as tradies padhola fizeram por
Adhola. As migraes luo reuniram muitos clientes graas aos laos matrimo-
niais estabelecidos entre os diferentes grupos e  tomada dos principais santu-
rios, futuros centros rituais ou locais de peregrinao real. Em todo lugar onde
os luo chegavam, eles adaptavam-se muito rapidamente aos rituais existentes e
s estruturas religiosas. Essa capacidade de adaptao espiritual constitua uma
de suas maiores armas polticas.
    Em 1750, os nove Estados anteriormente citados estavam fundados. No
fim do sculo XIX, eles eram divididos em quase trinta Estados, sendo o cl
ngobi (ou do cefalfio) majoritrio em quase vinte deles. Esses Estados, onde
a sucesso se dava de pai para filho e que empregava administradores de ori-
gem popular como o Luuka e o Bugabula, no passaram por secesso e poucas


17    D. W. Cohen, 1972.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                               929



foram as guerras civis. Alm disso, aqueles onde a transmisso do poder era
feita entre irmos e que confiavam aos prncipes reais cargos estatais, sofreram
repetidas querelas em funo do trono e passaram por vrias guerras civis. O
Buzimba dividiu-se em oito Estados independentes, o Busiki e o Bugweri em
quatro e o Bukoli, em dois. O Bunyoro e o Buganda passaram ambos por tipos
administrativos de resultados semelhantes. As dinastias ligadas aos prncipes de
origem luo eram mais estveis do que as que adotaram os princpios de sucesso
de seus sditos bantos.
    O nyarubanga e o movimento  a ele associado  da lana e da prola mar-
caram consideravelmente a histria dos luo porque determinaram sua repartio
geogrfica moderna. O nyarubanga provocou igualmente uma invaso macia
dos bunyoro do Sul, majoritariamente dos bahima-batutsi, e incentivou as clas-
ses rurais a libertarem-se da tutela dos povos pastoris. A primeira fase da invaso
foi trazida por hordas desorganizadas e famintas, que se alimentavam de folhas
de bananeira e de talos de sorgo. Essas hordas no aplicavam especialmente uma
poltica elaborada na corte real de Kitara. Por causa da fome, elas se expandiram
em toda a regio meridional. Alguns invasores instalaram-se no Buzinza, no
Burundi e mesmo alm. Isso provocou outras migraes, seguindo as cadeias
de lagos da frica Central .
    Na medida em que a seca se prolongava, o gado era atingido por doenas
e as tropas reais do Kitara foram dizimadas. Isso levou Cwa II (e no Cwa
Nyabongo)  liderana de seus exrcitos rumo ao Sul para recompor suas tro-
pas e reforar a autoridade imperial. Os grupos pastoris eram o alvo direto dos
banyoro e os agricultores, aliados naturais de Cwa. Seguiu-se uma luta cujas
circunstncias so narradas logo baixo, na seo tratando dos reinos agropastoris
do Sul.
    O nyarubanga trouxe igualmente para o palco histrico da regio dos Gran-
des Lagos o grupo central dos nilotas do Leste18. Historicamente esse grupo
composto essencialmente por karamojong-teso era dividido em dois: os isera,
agricultores que tambm criavam um pouco de gado, e os koten, pastores que
tinham algumas atividades agrcolas secundrias. Ainda que os isera e os grupos
pastoris encontrassem-se em todos os povos do grupo central dos nilotas do
Leste, os primeiros geraram as etnias  de dialetos semelhantes  dos iteso, dos
toposa e dos dodos, e os segundos, as dos karamojong, dos jie e dos turkana.



18   J. E. Larnphear, s.d.; R. S. Herring, 1979; J. B. Webster e al., 1973; J. P. Crazzolara, 1960; R. Ogwal,
     1969; J. A. Otirna, s.d.; D. H. Okalany, s.d.; P. Odyomo, s.d.; J. Weatherby, 1979.
930                                                          frica do sculo xvi ao xviii



    Ademais, todo o grupo central moderno dos nilotas do Leste continha
elementos luo. O primeiro dos problemas surgidos para os historiadores era
explicar por que, apesar de terem praticamente os mesmos nomes de cls, as
mesmas organizaes rituais e de faixa etria, os mesmos ambientes e as mesmas
tradies migratrias, os lango omiro, os acholi do Leste e os kumam passaram
a falar o luo, por volta de 1830 e os iteso, a falar o niltico do Leste. O segundo
problema concerne trs pequenos grupos lufonos  os joabwor, os joakwa e os
kumam  que se assemelhavam culturalmente ao grupo central dos nilotas do
Leste e aos quais consagrou-se uma ateno quase excessiva por se pensar que
sua histria podia contribuir para esclarecer o enigma dos lango omiro e dos
iteso. O grupo nyangiga (composto por nyangiga, tepe ou sor, teuso e didinga)
habitante das zonas montanhosas do Leste, traz um terceiro problema. Do
ponto de vista das origens dos cls, 90%, ou quase eram de ascendncia centro-
-niltica ou luo e, no entanto, trata-se de um grupo cuja lngua e a cultura
permanecem muito diferentes.
    Os okarowok (ikarebwok) formam um cl muito importante no grupo central
dos nilotas do Leste. Como se observou mais acima, eles parecem ter aparecido
na regio Agoro quando os lotuho impuseram sua lngua e seus costumes a uma
populao muru, os lukoya. Agoro era um importante centro de disperso dos
isera-omiro. Os emigrantes reutilizavam, onde quer que estivessem, os nomes
dos lugares de seu Agoro natal: Magoro, Mukongoro, Itengor, Ngora, Bokora
e Igoria.
    As grandes migraes dos luo rumo ao Sudeste, associadas s dos owiny e
dos omolo, estavam igualmente imbricadas s dos isera.  particularmente o
caso dos omoro que desceram o corredor agoro-karamoja na direo do Sul. Os
owiny deixaram atrs de si focos de povoamento onde se falava o luo, no que
se tornou mais tarde o pas Lango Omiro, em Amac, s margens setentrionais
do Lago Kyoga, e perto das cataratas do Karuma. Uma grande parte dos povos
finalmente considerados como omolo estava talvez na origem dos nilotas do
Leste. Os que chegaram ao Qunia Ocidental eram conhecidos dos luo sob o
nome de omia, sendo os lomia um dos quatro grandes cls dos lotuho. Omiya
Anyiima e Omia Pacua so testemunhos de sua presena no Acholi Oriental. A
ltima onda de migrantes chegando em Siaya compreendia tambm grupos vin-
dos do Leste de Uganda, sendo os mais importantes os owila (o cl dominante
de Uyoma), os matar (o cl dominante de Sakwa) e os bayuma (o cl dominante
de Wanga). Eles eram provavelmente todos isera-omino, descendentes dos bako,
estes, por sua vez, de origem etope.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                              931



    Alm dos elementos centro-sudaneses e dos membros do grupo setentrional
dos nilotas do Leste, os isera eram formados por cls de origem luo e etope.
E independentemente dos luo deixados para trs pelos owiny e pelos omolo,
eles contavam igualmente entre eles os puranga de Tekidi que sobreviveram. A
todos esses grupos uniram-se migrantes vindos certamente de Anywa, ou Pari,
de Baar e de Pakwac-Pawir. Os grupos mais importantes dessa ltima categoria
eram formados pelos patiko, pelos payera e os paluo (estudados logo depois).
No mais, alguns imigrantes "etopes" puderam penetrar na regio em seguida 
invaso oroma19.
    Nos sculos XVII e XVIII, esses grupos de migrantes reuniram-se para
formar ncleos de povoamento definidos por seu lugar de habitao e, s vezes,
por um certo grau de autoidentificao. Os maiores deles eram o dos bako, no
Jie Central, o dos okii (ou miro), na zona do monte Moroto e do Omanimani
(no Karamoja Central), o dos abwor, nas colinas de Labwor, os dos kumam, no
Teso Ocidental, e o que podemos chamar dos iworopom-iteso no centro e no
Sul do Karamoja. Todos esses conjuntos compreendiam ao mesmo tempo luo
e nilotas do Leste, ainda que em propores diversas, e o bilinguismo era cor-
rente no local, no sculo XVIII. O conjunto iworopom-iteso destacava-se dos
outros porque parece ter sido o mais coerente: sua populao falava uma lngua
aparentada ao niltico centro-oriental e/ou ao kalenjin. Os iworopom tinham
grandes rebanhos bovinos.

     Os pastores e os agricultores
   Na regio dos Grandes Lagos, os historiadores e os antroplogos tm o
hbito de dividir as sociedades em dois compartimentos estanques: os pastores
e os agricultores. Eles normalmente representam duas categorias econmicas
distintas que se encontram em todas as sociedades da regio. Assim tentaram
identificar alguns grupos tnicos a empreendimentos econmicos determinados.
Eis a uma simplificao ultrajante do que foi uma situao muito complexa,
dinmica e fluida. Na Uganda Setentrional e Oriental, por exemplo, a relao
entre agricultores e pecuaristas evoluiu ao longo de todo o nosso perodo. Todos
os grupos, agricultores, pastores semi-agricultores, pescadores, caadores e cole-
tores fizeram vrias tentativas para melhorar seu sistema econmico, formar


19   Acreditamos que esses imigrantes "etopes" compreendessem talvez os grupos bako de Lango (ver os bako
     na Etipia), os ober de Lango (ver o cl wober entre os Bako) e os oromos, erroneamente chamados de
     galla. Nenhuma tradio oral liga explicitamente esses grupos  Etipia e o lao que estabelecemos deve
     ser considerado como uma simples hiptese.
932                                                         frica do sculo xvi ao xviii



comunidades estveis e quando, por vontade prpria ou no, eles emigravam,
planejavam racionalmente seus deslocamentos. Esses deslocamentos de popu-
lao e outros fenmenos de desmembramento social aproximaram uns gru-
pos dos outros cujas ideias e os hbitos sociopolticos, religiosos e econmicos
eram frequentemente diversos. Os indivduos, movidos pelo desejo de constituir
comunidades estveis, foram desde ento obrigados a misturar seus patrimnios
culturais, alienando-os um pouco. Durante todo o perodo estudado, diversos
grupos lingusticos de cultivadores e de pastores fundiram-se para formar novas
sociedades relativamente homogneas. A maioria dessas snteses culturais foram
as bases sobre as quais constituram-se os novos grupos tnicos surgidos na
regio no decorrer dos sculos XVIII e XIX. Demonstramos logo abaixo alguns
exemplos que ilustram essa transformao social.
    Ainda que uma minoria de grupos pastoris nilticos centro-orientais tenha
podido se unir aos isera bastante cedo20 e que outros (os lokoriktak) tenham
ficado em Dodoth quando de sua emigrao a partir do Sudo, a maioria
estabeleceu-se na regio do monte Koten e das colinas de Magos, no Nordeste
do Karamoja. Aparentemente, esses povos kotem-magos (como eram chamados)
j tinham uma vocao pastoril antes de vir para o Sul. Isso ocorreu porque, ao
chegarem no Karamoja na condio de refugiados possuidores de apenas um
magro rebanho, eles desenvolveram rapidamente uma economia mista baseada
na pecuria, na agricultura, na caa e na coleta, mais bem adaptada ao clima da
regio do que as economias dos grupos mais agrcolas. Os resultados dessa evo-
luo tornaram-se evidentes entre 1680 e 1830, quando os grupos Koten-magos
chegaram a seus territrios atuais e quando os grupos agrcolas ou se misturaram
a eles e adotaram seu sistema econmico ou partiram para o Oeste.
    Esse processo comeou entre 1680 e 1750, com a expanso dos grupos pasto-
ris em quatro direes: o primeiro grupo, o dos ngimonia, espalhou-se ao longo
do Tarash e formou o essencial dos turkana; o segundo, o dos korwakol, rumou
para o Oeste, na direo do Longiro, obrigando uma grande parte dos bako a
deixar Jie, e tornou-se o grupo mais importante dessa regio; o terceiro, formado
pelos futuros karimojong e dodos, rumou para o Sul, na direo do Apule;
quanto ao quarto, o dos ngikora, ele imigrou para o Norte, para Dodoth, onde
constituiu o ncleo do grupo toposa. As ltimas etapas desse processo foram
possivelmente influenciadas por uma seca advinda nos anos 1720, provocando
uma grande fome (nyamdere), pois as tradies orais dos camponeses indicam


20    R. S. Herring, 1974.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                  933



que uma grande parte deles deixou Jie e Labwor por causa da fome e seguiu
para o Acholi Oriental e para a zona de Ngeta Rock (rocha de Ngeta, Lango).
Alguns grupos instalados no Acholi Oriental voltaram para trs e instalaram-se
na zona central e setentrional de Jie, onde se uniram finalmente aos korwakol
e formaram o conjunto rengen de Jie.
    A situao pareceu ento, estabilizar-se por algum tempo. Mas a combinao
de presses sobre as terras, exercidas nas zonas controladas pelos grupos pasto-
ris, e de secas nos anos 1780 e 1830, reiniciaram os movimentos migratrios.
A maioria dos grupos abwor e bako de Labwor seguiram para o Lango e, em
alguns casos, rumo ao Teso, no Sul (onde alguns se juntaram aos kumam).
Da mesma forma, uma grande parte do povo okii trocou o Karamoja Central
pelo Nyakwai, o Labwor, o Lango e o Norte do Teso, enquanto vrios gru-
pos agrcolas do Karamoja Meridional chegavam, pela regio de Magoro, ao
centro e ao Sul do Teso21. Outros grupos, vindos das duas regies, uniram-se
aos sor. A maioria dos grupos que foram para o Nyakwai, o Labwor, o Acholi
Oriental e o Lango eram no mnimo bilngues: falavam um dialeto luo e, como
foram todos misturados a elementos lufonos vindos do Oeste, as sociedades
formadas por eles adotaram a lngua luo. O mesmo aconteceu com os grupos
que se uniram aos kumam22. Aqueles que se deslocaram para o Teso, contudo,
compreendiam poucos elementos lufonos e os iteso adotaram como lngua o
niltico oriental.
    Esse fluxo de refugiados agrcolas vindos do Oeste  particularmente no
decorrer de suas ltimas etapas  acelerou-se ainda mais em funo de uma
nova expanso dos povos pastoris. Nos anos 1780, os primeiros grupos dodos
do Apule rumaram para o Norte na direo de Dodoth, onde se aliaram aos
lokoriktuk para obrigar a comunidade toposa, que vivia no lugar, a emigrar rumo
ao Norte, para os territrios atualmente ocupados por ela. Os pastores dodo e
toposa integraram um certo nmero de grupos isera e adotaram um tipo de
economia mais centrada na agricultura do que a de seus irmos do Sul. Depois,
nos anos 1820, os korwakol e os rengen jie aliaram-se para destruir uma grande
comunidade agrcola, a dos poet, que vivia s margens do rio Kapoeta. Enfim, no
mesmo perodo, os primeiros grupos karimojong do Apule penetraram, pelo Sul,


21   De acordo com a tradio, karamojong significa "os velhos deixados para trs" que, temendo a morte
     de seus jovens, diziam aos mensageiros: "Velem seus atesin (tumbas)", da a origem da palavra Teso.
     Enquanto a maioria dos grupos etrios era designada por nomes de animais, kangarak significa "Os que
     foram na frente".
22   J. E. Ekadu, 1961 (ed. de 1971). Para uma anlise, ver A. B. Eilu, 1976; D. H. Okalany, s.d.; J. B. Webster,
     s.d.a.
934                                                          frica do sculo xvi ao xviii



nos territrios das ltimas comunidades okii e iteso-iworopom, absorvendo-os
ou forando-os a partir. No caso dos iworopom, isso implicou lutas violentas,
provavelmente porque eles possuam grandes rebanhos de bovinos e eram, ento,
rivais diretos dos grupos koten-magos. Em todos os casos, esses movimentos
provocaram, com a seca dos anos 1830, as ltimas grandes migraes dessa zona
rumo ao Oeste.
    O caso do Bunyoro-Kitara ilustra ainda melhor as inter-relaes entre os
pastores e os agricultores. O estudo de Edward I. Steinhart evidencia a estreita
"correlao entre, de um lado, a seca e a fome e, de outro, a expanso da pecu-
ria, o desmembramento da agricultura e a formao do Estado no Kitara e em
suas planaltos meridionais23." Entre aproximadamente 1760 e 1783, o Bunyoro
perdeu, em favor do Buganda, boas terras de pastagem no Kooki, no Bwera e nos
planaltos meridionais do Kitara. Alm disso, a autonomia crescente das socie-
dades pastoris de Nkore, Buhweju e Buzimba teve por efeito restringir ainda
mais a superfcie do Estado de Bunyoro, limitando-a s terras essencialmente
agrcolas. Desde ento, os pastores kitara infiltraram-se ao mesmo tempo na
dinastia bito e nas terras agrcolas. Apareceu um novo sistema de classes a partir
do qual constituiu-se progressivamente uma nova estrutura estatal. O poder
poltico baseou-se na terra e no mais no gado, e os chefes formadores da nova
elite foram recrutados dentre os bahuma sedentarizados, os membros do cl
bito e os agricultores bairu. Esses trs grupos casaram-se muito frequentemente
entre si e deles saram os chefes e os proprietrios de terras, que recebiam o tri-
buto junto ao povo por conta do omukama (rei). Assim, diz Steinhart, um novo
Estado nyoro, "baseado na formao de um campesinato sujeitado e submetido
ao tributo", constituiu-se pouco a pouco no sculo XVIII24.

      As instituies sociais e polticas
   No apenas a lngua e a economia distinguiam os grupos pastoris dos gru-
pos isera, e essas duas comunidades daquelas que falavam o luo. Os primeiros
aperfeioaram sua organizao por faixa etria para fazer disso um instrumento
de controle gerontocrtico e ela originou instituies sociopolticas chaves de
sua sociedade. Esse tipo de organizao existia igualmente entre os isera e as
sociedades influenciadas por eles, mas sob uma forma truncada. O papel de
suas principais instituies sociais e polticas  agrupamentos rituais de vrios


23    E. I. Steinhart, 1981, p. 132.
24    Ibid., p. 135.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                         935



cls, chamados etogo no Lango, otheme (singular: othem) em Labwor e itemwan
(singular: etem) no Teso e em Kumum  consistia em resolver as querelas e em
celebrar as cerimnias religiosas. Quanto mais miscigenadas as origens desses
grupos, mais essas instituies eram poderosas25.
    Na regio ao Norte da partilha das guas do Nilo, do Kyoga e do Bisina,
que era um caldeiro cultural e tnico, a chefia hereditria era uma noo de
origem luo. Na medida em que a maioria dos luo do Leste era de origem
niltica-oriental ou fortemente influenciada pelas concepes dos nilotas do
Leste, esse tipo de poder hereditrio era bem pouco aceito e at mesmo rene-
gado pelas pessoas de mais idade. Todavia, ele exerceu um certo impacto sobre
as instituies polticas no apenas de vrios grupos lufonos, mas tambm de
certos grupos isera e, por seu intermdio, sobre grupos como os jie e os dodo.
Dentre os lufonos, os que seguiam chefes tenderam a partir para o Acholi
Oriental, onde suas concepes encontraram-se reforadas quando alguns gru-
pos paluo uniram-se a eles entre 1680 e 1760. Mas mesmo nessa poca, os luo
ocidentais consideraram os acholi orientais, que tinham guardado suas prprias
caractersticas, mais como lango do que como luo, e isso at a segunda metade
do sculo XIX. No Labwor, no Lango, no Nyakwaic e no Kumam, a populao
geralmente rejeitava a ideia de uma chefia hereditria e preferia o poder ritual
e gerontocrtico em seu lugar.
    Certamente, isso no significa que esses grupos no tivessem, s vezes, chefes
possuidores de uma slida autoridade secular. As tradies orais do a impresso
de ter havido, nos sculos XVIII e XIX, um crescimento das atividades blicas
entre os luo orientais e os nilotas centro-orientais. Isso aumentou a influncia
dos chefes militares e de seus conselhos, bem como a dos jovens, igualmente,
s custas da gerontocracia, pois se desenhava entre os jovens e os mais idosos
uma linha divisria potencial nessas sociedades organizadas por faixa etria.
Assim, no Lango, poderosos chefes de guerra formaram amplas confederaes
militares para conquistar o pas, atacar seus vizinhos e recrutar importantes
exrcitos de mercenrios que combateriam no Bunyoro, no Toro e no Buganda.
Confederaes semelhantes formaram-se no Teso Setentrional, no Sebei (monte
Elgon), no Kumam e no Padhola, mas, nessas regies, os chefes eram emuron
(videntes), indivduos cujos papis parecem ter sido emprestados dos kalenjin,
provavelmente por intermdio dos iworopom. Graas a seu determinante papel
militar, esses homens tiveram uma influncia poltica considervel, mas nenhum

25   Sobre a organizao dos grupos de idade dos jie, ver J. E. Lamphear, 1979. Sobre o etem, ver D. H.
     Okalany, s.d.
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dentre eles pde garantir um estatuto de dirigente para sua prpria famlia.
Assim, a instituio dos emuron criou um novo poder rival ao dos conselhos de
guerra e da gerontocracia. Contudo, esse novo poder no conseguiu integrar-se
 instituio das chefias.
    Os iteso estabelecidos na "coxa da vaca", uma regio excepcionalmente frtil
de Ngora e Kumi, bem como nas zonas como Serere e o Sul de Soroti, coloniza-
das a partir daquela, aproximavam-se mais dos primeiros isera. Eles no tinham
organizao por faixa etria, nem etem ritual, nem emuron. Eles dependiam
de trs grandes cls assimiladores  os atekok, os ikarebwok e os irarak  que
desempenhavam o papel de instrumentos de coeso social. Mais miscigenados
na origem do que os precedentes, os iteso do Norte e os de Bukedea eram dota-
dos de todas as instituies de que tratamos anteriormente. Seus etem organiza-
vam frequentes migraes que permitiram ocupar o Teso Ocidental trs vezes, e
um dentre eles, o dos isolata, deu seu nome ao Soroti. Vrios iteso infiltraram-se
em terras luo e bantas, no Sul, como colonos ou mercenrios. Eles foram parti-
cularmente bem acolhidos em alguns Estados busoga, pois fizeram contrapeso
 presso militar e poltica exercida pelo Buganda. No Bugwere, por exemplo,
os primeiros colonos iteso, liderados por Laki, do cl irarak, instalaram-se no
lugar entre 1706 e 1733. Eles enriqueceram, atraram clientes e o filho de Laki
dividiu o reino e tornou-se o chefe de uma parte dele aps a fome de Lapara-
nat26. Em Bulamogi, um etesot exerceu temporariamente o poder.  provvel
que os maiores mercenrios tenham sido os etesot, sendo eles os oguti vivendo
entre os padhola.
    Na regio central, o Buganda contrastava fortemente com o Bunyoro. Sem
cl real nem rebanho  mas com um rei que podia nomear responsveis sem ter
de prestar contas ao costume,  tradio ou  hereditariedade, e que frequente-
mente o fazia , o Buganda do incio do sculo XIX tinha apenas poucas insti-
tuies de classe e caracterizava-se por uma mobilidade vertical pouco comum
e uma desigualdade social mais marcada do que no Bunyoro, mas menos forte
que em Ruanda. Cada um de seus habitantes inscrevia-se numa relao dual
de superioridade e de subordinao. Os laos sociais e econmicos eram mais
verticais do que horizontais.
    Poltica e socialmente falando, o Bunyoro-Kitara situava-se a meio caminho.
Do ponto de vista de um nilota do Norte, era um Estado desptico regido pelo
sistema de classes; do ponto de vista do buganda, ele parecia caracterizado por


26    R. R. Atkinson, s.d. Sobre os iteso de Padhola, ver B. A. Ogot, 1967.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                    937



uma organizao flutuante e uma forte conscincia de classe. O cl real babito
era, inicialmente, formado por agricultores praticantes da pecuria, mas a dinas-
tia adquiriu um carter pastoril cada vez mais marcado. Contudo, os ramos
no reais do cl bito, que, no decorrer do perodo que nos interessa, tornou-
-se o grupo clnico mais numeroso e mais amplamente espalhado no Kitara,
encontravam-se em todos os nveis da economia. Muitos no tinham riquezas
nem poder, mas mantinham o mito de seu pertencimento a um cl reinante.
Esses cls plebeus bito contraram vrios casamentos com outros grupos sociais
ou que lhes eram aparentados, o que contribuiu para dar  dinastia uma imagem
homognea de escala nacional.
    Alm disso, essa imagem nacional foi ainda reforada pela nomeao de
representantes de outras camadas sociais e de grupos aparentados a diversas
funes da corte e do Estado. Pouco a pouco, esses cargos adquiriram um carter
hereditrio e assim constituiu-se uma classe permanente de privilegiados cuja
fortuna e ambies imbricavam-se nas da dinastia real bito.
    O mukama do Bunyoro era muito menos rico e poderoso do que o kabaka
do Buganda. Este conservava uma maior parte das riquezas que recebia do
que o mukama, o qual obrigava a corte real a realizar uma redistribuio da
riqueza e dos excedentes. No Bunyoro, o poder era menos concentrado do que
no Buganda, a maioria das funes era hereditria, o mukama apenas referendava
o candidato escolhido. Em consequncia, poucos camponeses ocupavam postos
altos. Os cls do Bunyoro no tinham a coeso dos do Buganda e seus chefes no
tinham o estatuto dos chefes bugandeses. Diferentemente do Buganda, onde os
trinta cls eram teoricamente iguais (na prtica, seu estatuto subia ou descia de
acordo com sua fortuna poltica), existia no Bunyoro uma ntida distino entre
os cls de estatuto inferior e superior.
    Dentre os nilotas luo, havia os organizados em Estados e os acfalos. As
estruturas estatais eram menos elaboradas do que no Bunyoro ou no Buganda
e os reis luo exerciam alguma influncia, mas pouco poder real. A deteno
de um ttulo era quase exclusivamente hereditria e o rei no podia opor-se 
escolha de uma famlia ou cl por um candidato. Essas diferenas provinham
da evoluo histrica, geogrfica e econmica, bem como de processos culturais.
Ainda que algumas linhagens reais tivessem vrios sculos e fossem to antigas
quanto as do Sul e do Oeste, a maioria dos Estados luo constituiu-se apenas
muito tardiamente. Alm disso, as repetidas secas provocaram tantas migraes,
deslocamentos e novas formaes sociais que vrios Estados luo datam apenas
de 1680 ou ainda mais tarde. As mesmas secas atingiram, com certeza, dura-
mente o Sudoeste, mas nunca desencadearam o deslocamento geogrfico de um
938                                                            frica do sculo xvi ao xviii



Estado, como ocorreu na Uganda Setentrional, onde Padibe, um dos Estados
luo mais antigos e mais desenvolvidos do sculo XIX, acabou por vir a se situar
a mais de 800 quilmetros de seu lugar de origem.
    Da mesma forma, nenhum Estado luo possua a slida base agrcola do
Buganda, de Ruanda ou dos Estados bahima, nem as ricas jazidas de ferro
e sal da zona de Bunyoro e Busongora. Antes do nyarubanga, parece que os
luo possuram numerosos rebanhos bovinos. Todavia, por volta de 1800, estes
foram aniquilados e parece no mnimo provvel que os acholi, de todos os
povos pecuaristas da regio dos Grandes Lagos, foram os que menos tinham
gado. Ora, sem gado, nem ricas terras agrcolas, nem produtos comerciais, era
difcil acumular riquezas. Consequentemente, as disparidades de fortunas ou a
conscincia de classe que caracterizavam os Estados do Sudoeste no existiam
nos Estados luo. Em contrapartida, os nilotas orientais eram muito influentes no
local: quanto mais se avanava de Oeste para Leste, mais forte era sua presena
e mais eles eram majoritrios na populao do Acholi Oriental. Os nilotas do
Leste tinham concepes polticas e sociais extremamente igualitrias. Deve ter
sido difcil convert-los s noes de chefia, hierarquia, classes e hereditariedade.
Nas regies do Leste, os reis luo apareciam cada vez mais como presidentes e
porta-vozes dos conselhos de ancios caractersticos dos nilotas orientais.
    Nos Estados luo, no sculo XIX, teoria e prtica diferiam no que concernia
s classes sociais. A teoria poderia remeter a uma prtica anterior ao nyarubanga,
quando os luo distinguiam-se pelo fato de possurem gado. De acordo com essa
teoria, os luo dividiam-se em duas classes: o grupo real e as pessoas comuns.
Mas por volta de 1800, uma outra distino imps-se: a classe dos indivduos de
origem luo e a dos indivduos tendo uma outra origem. Muito frequentemente,
o grupo real era identificado com os luo e o grupo das pessoas comuns com o
das que no o eram. O cl real era geralmente o mais importante. O fato de
pertencer-lhe dava apenas um prestgio bastante modesto, a no ser que fizesse
parte da prpria famlia real. No pensamento popular, as pessoas comuns que
no fossem luo viam-se classificadas de acordo com o grau de integrao de
seus ancestrais  sociedade luo. Todavia, um membro do cl real separado por
dez geraes da linhagem real propriamente dita, era tratado quase da mesma
maneira e no tinha mais poder sobre o controle das riquezas do que um estran-
geiro integrado h dez geraes  sociedade luo. Nos Estados acholi, o cl real
era exogmico e os estrangeiros eram rapidamente assimilados.
    Os Estados luo tinham uma maneira mais realista de considerar as classes.
Graas aos compromissos polticos concludos no decorrer dos sculos, vrios
cls no-luo chegaram a ocupar posies ou funes rituais que deram s linha-
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                             939



gens dos detentores desses ttulos mais prestgio (e s vezes o direito de recolher
tributos) do que o cl real. Se existia uma classe superior, era a das famlias
nucleares do rei, de seus conselheiros, dos proprietrios da terra, dos especialistas
em rituais  incluindo o fazedor de chuva e os jagos (subchefes territoriais).
    Os luo e os nilotas centro-orientais que no tinham estrutura estatal tam-
bm no tinham classes institucionalizadas. No existiam chefes nem cargos
hereditrios. Os indivduos eram raramente classificados de acordo com seu
cl ou o nome de seu lugar de habitao, como era o costume entre os nilotas.
As pessoas raramente lembravam-se de seus ancestrais alm de seus avs. Os
cls eram imensos, mas as famlias, de tipo quase nuclear. As gerontocracias
eram governadas pelos ancios, agrupados no etam ou no etogo, e acreditava-se
que suas decises eram sancionadas pelos ancestrais. Elas formavam frequen-
temente vastas confederaes militares nas quais um ilustre chefe guerreiro e
seus subordinados eram reconhecidos e apoiados por um emuron (um vidente) e
seus ajudantes, consultando os espritos acerca da oportunidade de uma guerra e
presidindo os preparativos rituais e aconselhando essa ou aquela estratgia. Alm
do mais, o emuron era, na maioria das vezes, um fazedor de chuva. Os chefes
guerreiros e os especialistas em rituais eram geralmente muito prsperos. Nas
gerontocracias, tenses e clivagens potenciais produziam-se entre os ancios,
que detinham o poder, e os jovens guerreiros. Os ancios exerciam sobre eles
um controle minucioso, qui opressivo, monopolizando ao mesmo tempo as
mulheres e o gado, atrasando o momento do casamento e de independncia
econmica dos jovens que, s vezes, emigravam para vencer tais frustraes27.
    As sociedades luo e nilotas do Leste acfalas apresentavam frequentemente
grandes disparidades econmicas. No Teso, por exemplo, uma famlia mdia
possua de 3 a 5 cabeas de gado e as 10% mais ricas possuam de 500 a 1000.
Os ancios confortveis podiam falar mais frequentemente e ser escutados com
mais deferncia no etem do que os outros, mas, mesmo tendo mais influncia,
no tinham mais poder por isso. A riqueza acarretava o respeito e despertava
a esperana de uma hospitalidade prdiga sem criar desigualdade social. Era
possvel elevar-se na hierarquia social criando vrias filhas cujo dote em gado
fosse garantido e poucos filhos pelos quais era preciso pagar um dote; adqui-
rindo glria e gado graas a seus talentos de guerreiro; e, finalmente, sendo
um pecuarista experiente. De fato, o sistema de dotes presidia  repartio do
gado. No Sudoeste, o mesmo costume do dote era to carregado de regras e de

27   Para o estudo da estratificao social, ns seguimos o esquema de M. L. Perlman, 1970; A. W. Southall,
     1970.
940                                                         frica do sculo xvi ao xviii



preconceitos que tornava difceis os casamentos entre cls e impedia os bairu e
os bahutu de tornarem-se proprietrios de gado.

      A modificao do equilbrio do poder: o declnio do Bunyoro e o
      crescimento do Buganda
    Aps o nyarubanga, acontecimento mais marcante da histria dos territ-
rios do Norte e do centro da regio dos Grandes Lagos foi a crise vivida pelo
Bunyoro, que desencadeou seu declnio, e os processos internos que levaram
o Buganda  sua expanso. Essas duas situaes modificaram radicalmente o
equilbrio de foras. A crise comeou no Bunyoro com a morte de Cwa quando
da invaso do Sul consecutiva ao nyarubanga. O filho nico de Cwa, Winyi II,
foi capturado e viveu em Ihangiro28. O Kitara foi governado por uma regente,
a irm de Cwa, Mashamba. Cwa no tinha tido filho de uma esposa luo, que
teria podido suced-lo segundo as leis reais. Quanto ao jovem mais tarde encon-
trado em Ihangiro, talvez no fosse seu filho e pertencesse ao cl babito. Winyi
II assassinou Mashamba e tomou o trono. Depois, a velha tradio segundo a
qual o herdeiro devia ter sado de uma me luo ou paluo tornou-se mais exceo
do que regra. A candidatura ao trono ficou aberta a todos os filhos do rei e as
querelas de sucesso tornaram-se ento, mais frequentes, mais speras e mais
prolongadas.
    Sob a primeira dinastia, a chefia de Pawir ocupara uma prestigiada posio
no seio da hierarquia imperial. O curso dos acontecimentos na capital do Imp-
rio provocou distrbios generalizados em Pawir. Uma srie de reis, chamados
pelos paluo de "reis bantos", procurou tirar proveito dos distrbios, encorajando
tendncias separatistas, tanto que a subchefia de Pawir, unificada em 1650,
esfacelara-se em seis pequenas chefias em 175029. Sob o reinado de Isansa, elas
foram colocadas sob a autoridade de um chefe de diviso. O pas Paluo per-
deu seu estatuto semiautnomo e foi integrado ao Bunyoro Metropolitano. Os
paluo emigraram para o Norte e Leste, por causa do fechamento do horizonte
poltico, da perda de seu estatuto e das perseguies. A frequncia das querelas
de sucesso, unida  dissidncia paluo, solapou o poder central de Kitara. O
rei Isansa (1733-1760 aproximadamente) subiu ao trono apesar de uma forte
oposio dos paluo. Uma vez no poder, liderou contra eles uma campanha de
perseguio muito dura, acelerando suas migraes.


28    J. B. Webster, s.d.b.
29    A. Adefuye, 1973, 1979 e s.d.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                941



    O resultado mais imediato da crise no Bunyoro foi o xodo dos paluo-
-pakoyo30 para Acholi, no Norte do Busoga, em Alur e at mesmo em Padhola
e no Qunia Ocidental, a Leste do lago. O primeiro xodo foi dirigido por
Labongo, Kakaire e Atiko, os dois primeiros pretendendo ser ligados  famlia
real da primeira dinastia babito. Eles no eram agentes do imperialismo banyoro,
mas tinham os tambores e a ideologia poltica dos babito. Ambos sofreram a
influncia desses ltimos, fundando chefias onde elas no existiam e aumen-
tando o papel poltico onde elas j existissem. Enquanto a lngua dos paluo
se expandia no Norte, os pakoyo integraram-se linguisticamente  sociedade
basoga.
    No Norte, a forma mais importante de organizao poltica era representada
pelas gerontocracias ou por pequenas chefias. Os paluo popularizaram o tam-
bor real, destacaram a dignidade de seu chefe e integraram pequenas unidades
a Estados mais vastos, permitindo-lhes conservar seus dirigentes hereditrios.
Eles fundaram novos Estados, como Lira, Paluo e Paimol, aumentaram e rees-
truturaram outros, como Padibe, Patongo, Alero e Koc. Puranga (controlado
pelos paluo) e Payera, mantendo seus chefes tradicionais, inspiraram-se em
teorias paluo e integraram um certo nmero de unidades subordinadas nesse
processo de expanso. Atiko era muito influenciado pelas concepes polticas
paluo; ele deslocou seu grupo, ento insignificante, para o Leste e fez dele uma
chefia maior e mais importante. A despeito do fato de ele ser o duodcimo na
linhagem do fundador, sua contribuio foi to essencial que seu nome foi dado
ao Estado. Os que imitavam os mtodos paluo eram frequentemente mais felizes
do que os prprios paluo: das vinte chefias situadas a Oeste do rio Aswa em
1800, apenas trs tinham monarcas paluo; das nove principais chefias acholi em
1900, apenas Lira Paluo e Puranga eram governadas por paluo.
    A integrao aos luo fez-se, por um lado, pela assimilao e, por outro, pela
fragmentao e proliferao das unidades polticas. Lira Paluo  um exemplo de
assimilao; Alur, de proliferao e de diviso. Os paluo penetraram na regio
lapono e convenceram uma gerontocracia no luo, dois pequenos chefes luo
e a grande chefia de Lira a unirem-se a eles. Aps uma certa expanso, eles
criaram dois postos de governadores reais. No sendo mais possvel a expanso,
Lira Paluo formou uma confederao com os pequenos chefes vizinhos que
se tornaram pouco a pouco seus clientes. Esse processo foi acompanhado pela
popularizao da lngua e da cultura luo.

30   A respeito desse exlio, ver J. B. Webster, s.d.a; R. R. Atkinson, 1976; A. M. Garry, 1976; J. B. Webster,
     1976a.
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    Em Alur, as coisas aconteceram diferentemente. Antes de 1680, existia apenas
uma chefia alur, Okoro, dentre os povos centro-sudaneses dos altos planaltos. Os
imigrantes luo deixaram Okoro, estabeleceram laos matrimoniais com outros
cls, expandiram sua lngua e sua cultura e finalmente convidaram um prncipe
de Okoro para govern-los. Esse processo efetuou-se com o apoio quase total
da populao local e colocou vrios kebu, lendu e madi sob a tutela dos luo de
Alur. Os Estados de Alur multiplicaram-se ento. Panduru foi fundado entre
1670 e 1700 aproximadamente, Paidha, Padiya, Padel e Acer Paluo, entre 1700
e 1790 e Ucego entre 1820 e 1850. O conjunto desses novos Estados constituiu
o grupo dos Estados alur31.
    O omukama Isansa desempenhou um papel to essencial no declnio do
Bunyoro quanto o kabaka Mawanda no crescimento do Buganda. A carreira
de Isansa  marcada por uma estranha mistura de sucessos militares e fracassos
polticos. J fizemos aluso aos erros de sua poltica no Norte. No Sul, ela foi
ainda mais desastrosa para o futuro econmico do Bunyoro. A campanha que
ele lanou na regio era destinada a mostrar, mais uma vez, o seu poderio mili-
tar. Durante as operaes, ele incentivou os prncipes reais a tomarem a frente
dos Estados kooki, kitagwenda e busongora de Kisaka e de Bugaya e ajudou
um favorito do cl bamooli no Kiyanja. Como era previsvel, todos, exceto o de
Kitagwenda, rejeitaram sua lealdade ao Imprio uma gerao aps sua morte32.
Isansa arruinou uma poltica de administrao dos territrios exteriores que fun-
cionara muito bem durante trs anos, provavelmente para se livrar da multido
de pretendentes ao trono, que sua nova poltica, em matria de sucesso no seio
de sua dinastia, fizera aparecer.
    O maior erro da poltica de Isansa foi seu ataque contra o palcio de Wamara,
o chefe do culto cwenzi em Bwera. A primeira dinastia babito mantivera rela-
es com esse culto, com mais sucesso do que os Estados bahinda. Enquanto
os babito reverenciavam Wamara, os bahinda nada tinham a ver com esse culto,
adotado no entanto por seus sditos. Wamara ops-se provavelmente  segunda
dinastia babito porque esta violara as regras tradicionais de sucesso. Os reis,
em contrapartida, pararam de enviar seu tributo  corte de Wamara. Isansa
decidiu ento, por uma interveno militar. Foi o mais grave erro da histria
de Kitara.
    O sacrilgio fora tamanho que as rvores "sangraram" e Wamara amaldi-
oou Isansa, profetizando que o Buganda tomaria Bunyoro. A realizao dessa

31    J. B. Webster, s.d.a.
32    A. Wheeler, s.d.; E. R. Kamuhangire, s.d.; S. Lwanga-Lunyiigo, 1972-1973.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                   943



profecia constituiu um processo histrico maior, que continuaria at o meio do
sculo XX. O erro de Isansa no concernia apenas o Buganda, mas tambm
todos os territrios fronteirios do Sul, onde a autoridade do Bunyoro baseava-
-se em parte no apoio trazido pelo culto cwenzi. Um novo lugar de culto foi
instalado no palcio imperial, mas sua influncia  e com ela, a autoridade do
Bunyoro  deixaram de ser exercidas nas zonas fronteirias meridionais. Con-
sequentemente, os novos Estados principescos rejeitaram a tutela do Bunyoro
sem constrangimento, bem como os antigos Estados tributrios do Buhweju
e do Buzimba. A sorte do imprio mudou por volta de 1830, com a secesso
do Toro e do pas Paluo33. A profecia de Wanara mostrou-se exata: o Buganda
tomou uma grande parte do Bunyoro e os pequenos Estados meridionais no
puderam permanecer isolados. Eles se tornaram presas ideais para as ambies
imperiais do Buganda, do Nkore e do Mpororo.

     O crescimento do Buganda
    Enquanto os reis do Bunyoro dedicavam-se a desmantelar um sistema pol-
tico que assegurara sua dominao durante trs sculos, os monarcas baganda
corrigiam uma grande parte dos males polticos que paralisaram o Buganda
desde sua formao34. O Buganda era marcado por trs problemas ligados entre
si. O primeiro vinha do poder crescente da monarquia e de sua burocracia, que se
opunha aos chefes de cl ou aos dirigentes bataka cujos (muitas vezes pretensos)
laos de parentesco eram usados para reforar as alianas de cls e transformar
estes em faces polticas dotadas de coeso. O segundo problema tinha a ver
com a multido de prncipes reais ambiciosos  exercendo cargos ou no  
procura de uma ocasio para manipular as faces polticas e tomar o trono. Nos
lugares onde a burocracia era essencialmente hereditria, e assim protegida de
cada mudana de monarca, as disputas acerca do trono eram menos speras e os
fazedores de reis mais desinteressados e mais inclinados aos compromissos. Mas
no Buganda, o novo controle exercido pelo rei sobre a burocracia significava que
todo prncipe pretendente tinha uma potencial clientela de funcionrios para
quem os resultados das querelas de sucesso acarretariam prestgio e posio
social, ou o esquecimento e at mesmo o exlio. Os compromissos tornavam-
-se difceis porque os candidatos aos cargos mais altos do Estado procuravam
no apenas realizar sua ambio, mas tambm colocar em primeiro plano o cl


33   J. E M. Wilson, s.d.a e b.
34   M. S. M. Kiwanuka, 1971a, cuja interpretao  retomada aqui.
944                                                         frica do sculo xvi ao xviii



que eles gostariam de representar. O terceiro problema consistia nas sangrentas
querelas e guerras de sucesso que se seguiram  morte da maioria dos reis e aos
vrios assassinatos de membros da famlia real. Essas querelas foram ainda mais
desastrosas no Buganda do que no Kitara. No Kitara, a luta pelo trono podia
ser acirrada, mas uma vez o rei escolhido e coroado, era raro ele ser assassinado
ou derrubado. O mesmo no ocorria no Buganda, onde um monarca podia ser
morto ou destronado durante seu reinado. E, de fato, um certo nmero de reis
baganda nunca conseguiu, realmente, exercer sua autoridade sobre o reino, sendo
seus reinados apenas uma sangrenta srie de guerras civis entre irmos e filhos.
No mais, no Kitara, os irmos dos reis no o sucediam, exceto em rarssimas
circunstncias. No Buganda, trs irmos podiam suceder-se no trono enquanto
todos os seus filhos brigavam pela sucesso.
    O Buganda tinha uma melhor posio geogrfica e climtica do que os
outros grandes Estados da regio dos Grandes Lagos. A seca no  mencio-
nada em suas longas e detalhadas tradies orais. Era mais uma regio onde
se procurava refgio. Sua economia no foi abalada duas vezes por sculo nem
ocasionalmente destruda, como durante o nyarubanga. O Buganda gozava de
um setor agrcola slido e diversificado que, diferentemente dos outros grandes
Estados, permitia  sua populao masculina consagrar-se  guerra e  poltica.
A demais, situado s margens do Nyanza, ele fazia comrcio por vias aquticas
 provavelmente bem antes de meados ou do fim do sculo XVIII, data na qual
esse fator  geralmente mencionado para dar conta de sua expanso. Ele produ-
zia tecidos vegetais, gnero muito apreciado pelos povos vizinhos. No decorrer
de sua expanso, ele assegurou-se do controle das jazidas de minrio de ferro,
recurso de que no dispunha inicialmente. Talvez,  exceo aos Estados basoga
meridionais, nenhum outro Estado da regio dos Grandes Lagos possua um
quadro geogrfico e econmico to favorvel quanto o seu.
    Diferentemente de outros Estados da regio, o Buganda no tinha cl real.
Cada prncipe pertencia ao cl de sua me, enquanto a populao obedecia a
regras patrilineares. Todo cl tinha consequentemente a possibilidade de fornecer
um monarca. Esse sistema dava a todos a sensao de participar da monarquia,
mas incentivava cada cl a dar uma esposa ao novo kabaka, o que acarretava a
multiplicao dos potenciais herdeiros reais. Os reis do Buganda eram obrigados
a ser mais polgamos que a maioria dos outros chefes. O contraste era grande
com o sistema acholi, no qual o rei, uma vez coroado, recebia uma esposa do
Conselho dos ancios e no qual tambm o futuro herdeiro s podia ser escolhido
dentre os filhos desta rainha. Alm disso, o rei baganda, entre os chefes bataka,
era apenas um primus inter pares. Os distritos exteriores eram governados por um
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                    945



sistema de controle direto no qual os chefes locais tornavam-se novos bataka e
eram empregados como os agentes locais do rei. Seu cargo era hereditrio e o
monarca no podia destitu-los.
    Nos sculos XVI e XVII, o Buganda era apenas um pequeno Estado como
vrios outros no Busoga, que toleravam a sucesso fraternal e baseava-se nos
administradores reais. Ele era instvel e minado por interminveis guerras civis.
Todavia, o nacionalismo baganda (que desenvolvera-se  sombra do imperia-
lismo banyoro) era forte o suficiente para impedir as secesses e as divises,
diferentemente, por exemplo, do Estado basoga de Buzimba, que se desinte-
grou e se esfacelou em oito chefias independentes. Todavia, a recusa a qualquer
secesso significava mais que a luta pelo trono e era ainda mais rdua onde a
sucesso constitua uma possibilidade.
    O kabaka Tebandeke (1644-1674 aproximadamente) reforou o poder real ao
atacar vitoriosamente os funcionrios religiosos, cujas prticas de extorso pesa-
vam imensamente sobre a monarquia e o povo, reduzindo muito seu poder. O
Buganda foi desde ento o nico pas banto indiferente s foras sobrenaturais.
O fato de ele ter sido bem-sucedido naquilo em que Isansa fracassara remete
 organizao religiosa diferente dos dois reinos. No Kitara, o culto cwenzi era
uma instituio centralizada, ao passo que no Buganda, cada oficial do culto
ritual era aparentemente independente dos outros.
    A expanso territorial do Buganda est ligada a trs reis excepcionais do
sculo XVIII. Mawanda (1674-1704 aproximadamente) tomou Singo, invadiu
Kyaggwe e arrancou Bulamogi do Bunyoro. Este, preocupado com os proble-
mas internos relativos  mudana da dinastia, no se consagrou com firmeza 
proteo de seu territrio. Considerando o imenso ganho que essa conquista
representava, Mawanda sabiamente abandonou o velho sistema de dominao
indireta e seus favoritos  cuja maioria, de origem popular, era chamada de
"homens do rei"  foram designados para administrar os novos territrios. Eles
se tornaram mais influentes do que os chefes bataka. Mawanda nomeou e at
mesmo demitiu chefes bataka. Em tese, todos os cargos tornaram-se doravante
nominativos. Esse monarca excepcional no era apenas um gnio militar, mas
tambm um imaginativo homem de Estado: consideram-no, a justo ttulo, como
o pai do moderno sistema de governo do Kiganda. Junju e Kamanya, entre 1734
e 1794, estenderam mais ainda as fronteiras do Reino. Junju anexou Buddu, for-
ou Kooki a pagar-lhe um tributo e demonstrou o poderio militar do Buganda
ao marchar sobre Kiziba e ao atingir Karagwe. Junju recolhia os frutos da "carta
meridional" de Isansa que datava de uma gerao. Kamanya arrancou Buwekula
946                                                           frica do sculo xvi ao xviii



do Bunyoro. Em 1800, o Buganda estabelecera definitivamente sua supremacia
sobre o Bunyoro.
   Semakokiro, em meados do sculo XVIII, voltou sua ateno para o pro-
blema dos prncipes reais. Ele inaugurou a prtica consistindo em executar rivais
descontentes e mesmo filhos de rei, se necessrio. Ele expulsou os prncipes da
administrao para impedi-los de usar a sua posio para conspirar contra o
trono. Isso deu um imenso poder ao rei e abriu caminho  monarquia absoluta
constituda no sculo XIX. Por uma ironia do destino, enquanto Semakokiro
procurava atenuar o carter destruidor das querelas de sucesso, controlando o
nmero de pretendentes e afastando-os dos cargos oficiais, Isansa dava a todos
os filhos do rei o direito de pretender o trono. No  de espantar que esse tipo
de querela tenha se tornado realmente problemtico no Bunyoro, mas no no
Buganda  diferentemente do que acontecera durante os sculos precedentes.
Considerando o carter atribulado da vida poltica do Buganda durante todos
esses sculos,  tentador subestimar os grandes kabaka do sculo XVIII, que tra-
balharam como centralizadores, e fazer deles arautos de uma "era de ouro". Mas
 bom lembrar que o despotismo s pode ser imposto a um alto preo: longas
rebelies, oposio violenta aos kabaka, gravssimos choques polticos, nmero
crescente de exilados nos Estados vizinhos. Pode-se at mesmo defender que o
sculo XVIII foi ainda mais violento que os precedentes.
   Durante sculos, o Buganda existira  sombra do imperialismo banyoro. Ele
comeara por ser um peo desse imprio. Mas no fim do sculo XVIII, ele estava
pronto para enfrent-lo. O Buganda desenvolvera um intenso nacionalismo, per-
mitindo a seus reis aumentar seu poder e constituir uma mquina administrativa
e militar eficaz, na qual as energias das pessoas estavam voltadas para a realizao
de sua ambio pessoal e para a obteno de favores do kabaka. Todo homem se
consagrava  poltica e muitos no hesitaram em espionar e fazer chantagem para
obter seus favores. Os grandes reis puseram-se inteiramente a servio do Estado e
da nao. Apesar da existncia de um vago establishment dos cls mani, lungfish e
monkey, o Buganda era, por volta de 1800, uma sociedade altamente competitiva,
mais mvel e mais secularizada do que todas as da regio dos Grandes Lagos.


      Os reinos agropastoris do Sul
   O que chamamos de "cultura interlacustre" desde quase um sculo no quadro
da etnologia africanista foi frequentemente inspirado nas observaes feitas
sobre a metade meridional da regio, particularmente sobre a monarquia ruan-
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                947



desa considerada por vrios autores o padro ideal35. A formao desse complexo
cultural foi situada em um perodo relativamente recente, indo do sculo XVI
ao XVIII, ou seja, o perodo aqui estudado. H cerca de vinte anos, os trabalhos
dos historiadores consistem em desmistificar o imaginrio fornecido por essa
etnologia europeia e situar em sua dimenso histrica real, mais ampla, mais
bem equilibrada e definida com mais rigor, dos povos cujo passado mergulha
suas razes em uma antiga idade do ferro, remontando, no mnimo, ao incio
da era crist. O sculo XVI  uma reviravolta, o tempo das lendas em que se
constituem as bases socioculturais de sua histria.

     Um espao geocultural
    As restries naturais e a herana cultural da regio do uma paisagem fsica
e humana contrastada. No Oeste, a cadeia da Kibira, uma gigantesca cadeia
montanhosa (de mais de 2000 metros), prolongada ao Norte pelos vulces
Virunga, domina a depresso do Lago Tanganyika (menos de 800 metros de
altitude) e a bacia do Lago Kivu.
    Rumo ao Leste, desce-se progressivamente das altas colinas do Burundi e de
Ruanda at os planaltos escalonados que margeiam o Lago Vitria (a cerca de
1200 metros acima do nvel do mar). A mais de 1000 quilmetros do oceano
ndico, do qual depende o clima da regio, esses relevos contrastados determi-
nam variaes pluviomtricas muito sensveis entre as altas terras do Oeste e
as margens do Lago Vitria, onde caem mais de 1500 milmetros de chuva por
ano, e o estreito vale da Kagera, que recebe menos de 1000 milmetros. Esses
nmeros e, principalmente, a data de chegada das chuvas (por volta de setembro-
-outubro) so muito irregulares de um ano para o outro. Os acidentes climticos
que parecem ter particularmente marcado o perodo considerado aqui, como
veremos, atingem muito desigualmente as diferentes zonas, acarretando toda vez
remodelagens ecolgicas e movimentos demogrficos no seio da regio.36
    A repartio lingustica apresenta a mesma heterogeneidade relativa. Duas
zonas de lngua banta constituem esses paises: no Oeste, de acordo com a clas-
sificao Guthrie, a zona D agrupa o conjunto kinyarwanda-kirundi-giha e as
lnguas da provncia congolesa atual do Kivu; no Leste, a zona E, representada
pelo kizinza, o ruhaya e o runyambo, corresponde tambm  rea bantfona da
Uganda.  possvel se entender sem dificuldade dos vulces Virunga at o Baixo


35   J. J. Maquet, 1954; L. de Heusch, 1966.
36   P. Gourou, 1953; W. T. W. Morgan, 1969; J. P. Chrtien, 1983; J. B. Webster, 1979.
948                                                                                                      frica do sculo xvi ao xviii




                                                                                                                               ese
                                                                                                  KITARA




                                                                                                                             l S
                                                                                                                            es
                                                                           NKORE




                                                                                                                        les
                                                       MPORORO




                                                                                                                          s
                                                                                Insingiro




                                                                                                                      Ver
                                                                                                                    BUGABO
                                                  NDORWA                        Bugara               KIZIBA

                                                                                                     KYAMUTWARA
                                                                                  KARAGWE            KYANJA
                   BUHOMA                                                                                             Lago Vitria
                                     Rio
                                                                    MUBARI
               BUSHIRU                   N
 Lago Kivu                                   ya                                                                   Vers
                                               ba                                                                      Bu   k erebe
            CYINGOGO                             ro
                                                   n                                             IHANGIRO
        BAHAVU                                       go         Buganza

                Ilha de
                   Ijwi          Nduga                              GISAKA
BASHI




                                                                Rio                                       Bwina
                                                                      Ka
                                                u




                        BUSOZO                                           ge
                                           nyar




                                                                           ra
         BUKUNZI                                     BUGESERA
                                              a
                                         Rio K




                                                                                                RUSUBI

                                                                         BUSHUBI
           Ri




                                                                                                         BUZINZA
              oRu




                                      Mugamba
        BA


                 siz
                    i
           F




                                                               bu
          UR




                                                                      BUYOGOMA
                                                             vu
           IR




                                                           Ru
             U




                                                       Rio
                                                                                   BUYUNGU
                                                                BUHA
                                                               DO NORTE                            BASUMBWA
                                    BURUNDI




                                              Nkoma
                                                               BUSHINGO
                                                           BUHA                     MUHAMBWE
                                                           DO SUL



                                                    HERU
                                  BUJIJI                                 Ruguru



                                                               azi
                                                            gar
                        Lago Tanganica              Rio Mala




                                                                                            0            25             50 milhas
                          Fronteiras dos reinos
                                                                                            0            40             80 km
                          Divises regionais posteriores (17001850)

                          Eixo principal de expanso (scs. XVIIXVIII)

                          Centros polticos originais (scs. XVXVI)




figura 26.2       O Sul da regio dos Grandes Lagos no fim do sculo XVII.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                            949



Malagarazi, de um lado, e do Lago Lutanzige (ou Onekbonyo, ex-Albert) at o
Sul do Lago Vitria, do outro: os pases onde o "rei" ser chamado respectiva-
mente mwami e mukama ou mugabe. Mas essas clivagens geogrficas e culturais
de longa durao complicam-se a partir do sculo XVI, com a cristalizao
desses reinos.

     As tradies escritas e orais
    As dataes arqueolgicas e as hipteses da lingustica so confirmadas,
para a histria dos cinco ltimos sculos, pelas fontes orais. A riqueza desse
patrimnio cultural original foi infelizmente contaminada desde os primeiros
contatos com os europeus, no fim do sculo XIX, por sua aplicao obsessiva
da teoria hamtica. Uma tradio colonial escrita constituiu-se, incessantemente
criando armadilhas para as interpretaes histricas. De um ponto de vista
metodolgico, seus grandes traos devem ser lembrados. A nova definio do
hamita no sentido de africano de raa superior, oposto ao "negro propriamente
dito" (terminologia vulgarizada por Seligman), elaborada em meados do sculo
XIX, foi aplicada desde as primeiras "exploraes" s categorias hima e tutsi, a
partir de impresses estticas e consideraes polticas estereotipadas. Toda a
civilizao dos Grandes Lagos foi atribuda a uma migrao "hamito-semtica"
de origem oriental, que teria trazido a vaca, a realeza e mesmo elementos de
monotesmo37.
    A hiptese, lanada por Speke a partir de 1863, de uma invaso oroma
chegada entre os sculos XVI e XVIII, e que teria feito da regio uma segunda
Etipia, impregnou as descries dos viajantes e dos oficiais alemes entre 1890
e 1914 (Emin Pasha, Franz Stuhlmann, o conde von Goetzen, Hans Meyer) e
as vrias publicaes dos Padres Brancos, combinando o fruto de suas pesquisas
locais com as snteses antropolgicas dos autores britnicos e alemes (as de H.
H. Johnston sobre Uganda, de Friedrich Ratzel, Jan Czekanowski e Hermann
Rehse)38. Isso marcou profundamente as fontes clssicas da histria dos reinos
meridionais at uma data recente, tais como os District books do territrio do
Tanganyika, escritos por Hans Cory, os artigos do padre Edmond Csard e do
padre H. van Thiel, referindo-se respectivamente aos bahaya e aos bazinza, os



37   E. Sanders, 1969; J. P. Chrtien, 1977; J. L. Amselle et E. M'Bokolo s.d.
38   Emin Pasha, 1891; E Stuhlmann, 1894; G. A. von Goetzen, 1895; H. H. Johnston, 1902; H. Rehse,
     1910; H. Meyer, 1916; J. Czekanowski, 1917; F. Ratzel, 1885, p. 451-478. Sobre os Padres Brancos, ver
     a revista Missions d'Afrique des Pres Blancs e J. M. van der Burgt, 1903.
950                                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



trabalhos dos padres Albert Pags e Louis de Lacger sobre Ruanda e do padre
Julien Gorju sobre o conjunto da regio e sobre o Burundi39.
    As prprias tradies orais puderam ser recuperadas pelas mitologias modernas
em funo da cultura e dos contatos de seus detentores. A questo coloca-se especial-
mente no caso das informaes juntadas pelos primeiros letrados da regio, catequis-
tas, auxiliares administrativos ou chefes costumeiros, por muito tempo considerados
os nicos tradicionalistas dignos de serem escutados. Apollo Kagga e John Nyaka-
tura tiveram seguidores. Por exemplo "as tradies haya", citadas pelos historiadores,
foram frequentemente reduzidas  obra de um s homem, Francisco Rwamugira (ou
Lwamgira): esse aristocrata, ntimo do rei Mutahangarwa do Kiziba, sucessivamente
intrprete do residente alemo von Stuemer e secretrio do conselho dos "chefes"
em Bukoba sob os ingleses, escreveu no incio do sculo XX uma Histria do Kiziba
(Amakuru ga Kiziba) que alimentou o livro de Rehse, um artigo de Csard, o District
book de Bukoba e a sntese do padre Otto Mors, A Histria dos bahaya.40 Poder-se-ia
igualmente citar a influncia do chefe Pierre Baranyanka e do conselheiro Joseph
Rugomana na historiografia do Burundi ou, enfim, o papel excepcional de mediador
desempenhado por Alexis Kagame na histria de Ruanda, pois ele foi ao mesmo
tempo um ntimo do rei Mutara Rudahigwa, um padre formado nesse plano pelo
cnego de Lacger e um autntico pesquisador em busca de informaes41.
    Essas crnicas resumindo tradies depuradas e interpretadas de acordo
com os critrios de uma etno-histria ocidental, circularam em seguida junto
aos alunos das escolas, aos leitores de jornais em lnguas africanas (tais como
Munno em Uganda, Mambo Leo no Tanganyika Rusizira Amarembe no Burundi
ou Kinyamateka em Ruanda) e a todos aqueles que frequentavam as misses
e os centros administrativos42. Vrios notveis puseram-se a situar a origem de


39    Distinct books de Bukoba, Biharamulo, Mwanza, Kasulu, Kibondo, Kigoma, H. Cory, s.d. ( possvel
      obter exemplares junto  School of Oriental and African Studies - SOAS - de Londres). Muitos dados
      tambm nos artigos de Cory conservados na biblioteca universitria de Dar es -Salaam. E. Csard,
      1927, 1935,1936 e 1937; P. Csard 1931; H. van Thiel, 1911; A. Pags, 1933; L. de Lacger, 1939 (ed. de
      1959); J. Gorju, 1920 e 1938. Sobre a mesma ideologia a respeito dos Banyamwezi, ver F. Boesch, 1930;
      a respeito do leste do Zaire (Congo) ver A. Moeller, 1936.
40    Sobre o papel de F. Lwamgira, ver H. Rehse, 1910, p. 237; O. Mors, 1957; R. A. Austen, 1968, p. 89-90; J. P.
      Chrtien, 1986. O texto de Langwamira est reproduzido integralmente em E. Csard, 1937, p. 32-57.
41    A. Kagame, 1943-1947; J. Rugomana, 1957; P. Schumacher, 1949, usa P. Baranyanka, assim como J.
      Gorju, 1938 e J. P. Chrtien, 1981a e b.
42    Sobre as redes de transmisso dessas tradies no incio do sculo XX, ver o District book de Bukoba
      (cpias junto  SOAS, Londres), vol. VII, p. 5-6, em que figuram tradues de trechos de J. Gorju, 1920,
      de H. Rehse, 1910, e referncias a F. Lwamgira; ver tambm o District book de Biharamulo, History of
      migrations, 1931. Podemos assinalar que os alunos da misso de Kome conhecem essa histria melhor
      que as pessoas do pas.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                  951



seu cl no Egito (Misri) ou na Etipia (Bisinya)43. Pesquisas orais mais amplas
e mais rigorosas multiplicaram-se desde o fim dos anos 50. Elas permitiram
relativizar as tradies da corte, valorizando as das famlias mais humildes e,
principalmente, a diversidade das variantes regionais e a riqueza dos testemu-
nhos recolhidos fora da pequena camada de letrados. As coletas de gravaes, a
transcrio fiel de textos orais e bases lingusticas srias permitiu fazer progredir
o conhecimento histrico da regio44.

     A marca de Ruhinda e dos bachwezi
    Os Estados do Sul ter-se-iam originado do deslocamento de uma mais antiga
monarquia fundada entre os sculos XVI e XVIII por um conquistador chamado
Ruhinda. Ao menos  a viso prevalecente at os anos 50. Esse "imprio de
Ruhinda" no qual incluam-se todos os territrios haya (exceto o Kiziba) e zinza,
mas tambm s vezes o Burundi, e mesmo Ruanda, aparecia como o prolon-
gamento meridional do "imprio dos bachwezi" e como a criao de uma nova
onda de expanso dos pastores bahima. Hoje o acontecimento, se tivesse ocorrido,
situar-se-ia mais anteriormente, por volta do sculo XV e, principalmente, o que se
pode chamar de "lenda de Ruhinda" aparece como multiforme segundo as tradi-
es. Ao passo que no Bunyoro e no Nkore esse heri  descrito como o bastardo
de Wamara, o ltimo "rei" cwenzi, e da serva Njunaki, no pas Haya e no Zinza
atribuem-lhe frequentemente como pai Igaba ou Bugaba, uma das denominaes
locais da divindade suprema. s dinastias hinda do Nkore, do Karagwe, do Kya-
mutwara, do Ihangiro e do Buzinza davam-se como respectivos fundadores um
irmo, ou um filho, ou um neto de Ruhinda, que, a cada vez lhes teria confiado um
pas e um tambor. Essas tradies ligam-se essencialmente a dois focos, entre os
quais o cadver do heri teria sido dividido quando de sua morte: rumo ao Norte, o
conjunto Nkore-Karagwe, onde sua lembrana  principalmente associada por um
lado s regies do Isingiro e do Bugara e, por outro lado, ao Kagera; rumo ao Sul,
o conjunto buzinza-ihangiro, em que ele aparece como o companheiro ou mesmo
o filho do forjador Kayango. As tradies dos diferentes reinos hierarquizavam-se
com relao a esses dois focos, no sem interferncias: no Kyamutwara, Nyaru-
bamba, filho ou neto de Ruhinda, vinha do Karagwe; em Ihangiro, o fundador era


43   H. Cory et M. M. Hartnoll, 1945/1971.
44   J. Vansina, 1961, 1971 e 1972; A. Kagame, 1972; C. W. Newbury, 1976; E. Mworoha, 1977; L. Ndoricimpa,
     1984; . I. K. Katoke, 1975; P. Schmidt, 1978. til tambm sobre as realezas do sul, o estudo de R. Karugire,
     1971. Um importante colquio internacional ocorreu em Bujumbura em 1979; ver Centre de civilisation
     burundaise, 1981. Ele foi seguido de uma reunio anloga em Bukavu em dezembro de 1982.
952                                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



apresentado como um filho de Nyarubamba, mas carregava o nome de Ruhinda
Kayanga, segundo o modelo zinza. Quanto  suposta odisseia de Ruhinda, do
Bunyoro at o extremo Sul da regio, ela segue dois itinerrios diferentes depen-
dendo da tradio: tanto um caminho continental pelo Karagwe, tanto uma via
navegvel, pelos lagos, terminando no Buzinza de onde o heri teria subido por
via terrestre rumo ao noroeste45.
    Tudo acontece como se a referncia a Ruhinda correspondesse ao encon-
tro de duas ondas de tradies, ligadas a duas grandes configuraes clnicas,
Bahinda e Bayango, que adotaram tambm a mesma proibio, a do macaco
nkende (um cercopiteco cinza)46. Quanto  fundao das dinastias hinda, as
tradies revelam que ela s se efetuou de fato durante uma ou mais geraes
aps a do suposto conquistador. O fato histrico sem dvida mais interessante
continua sendo a permanncia de uma tradio, fonte de legitimidade poltica,
bem alm do sculo XVI. Ruhinda pde ser invocado, no sculo XVIII no
Kyamutwara, contra os usurpadores do cl hima dos Bankango ou ser associado,
no sculo XIX, com a lembrana de uma grandeza perdida (no Karagwe) ou
de uma unidade rompida (no Buzinza); durante aquele sculo, ele foi tambm
usado, tanto no Bunyoro quanto no pas Haya, para levantar o povo contra o
mesquinho imperialismo dos Baganda47.
    As diferenas entre as verses da corte e as verses populares48 refletem
a persistncia tenaz de um ciclo de tradies de formato lendrio. Na maio-
ria dos casos, a difuso de um modelo de poder  ento mais verossmil do
que as faanhas de um nico conquistador. No Gisaka, a dinastia dos Base-
gera Basirankende (referente  proibio do nkende) colocava em suas origens
Nyakecende (ou Nyiragakende), filha de Ruhinda ou de um de seus sucessores


45    Alm dos ttulos j citados, ver os artigos de Cory, especialmente o nmero 69 (Chronology of the Bahinda)
      e os nmeros 413 e 416 (notas de A. M. D. Turnbull de 1925 e 1926 sobre a histria do Buzinza). Ver
      tambm os District books de Bukoba et e de Biharamulo e, por fim, nos arquivos da Maison gnralice des
      Pres Blancs, vrios manuscritos, dos quais: J. B. Lapioche, Le Buhava et son histoire, 1938; A. D. Kakaira,
      Histoire d'Uzinza, 1930.
46    L. de Heusch (1966, p. 50-51) acreditou poder falar de uma antiga rivalidade entre os dois cls, de acordo
      com a oposio inexata por ele estabelecida entre os macacos nkende e tumbili (citados em H. Cory e
      M. M. Hartnoll, 1945/1971), quando se trata do mesmo animal nomeado respectivamente em ruhaya
      e em kiswahili.
47    Esse funcionamento ideolgico aparece em: Emin Pasha, 1891, p. 353-355 (no Bunyoro); F. Stuhlmann,
      1894, p. 713-715 (no Kyamutwara); District book de Bukoba, exemplar disponvel no SOAS de Londres,
      p. 42-43 (no Karagwe); A. Brard, Rapport sur les tribus insulaires du Nyanza mridional. Archives des Pres
      Blancs, janeiro de 1897; A. E. Kitching, "Tribal history and legends of the Wazinza", 1925, no District book
      de Biharamulo (no Buzinza).
48    Ver as tradies coletadas no Maruku por P. Csard, 1931.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                          953



no Karagwe. No Kiziba, a dinastia bito identificava Kibi, seu fundador, com
Nyakiru, irmo de Ruhinda, com os dois irmos brigando para tomar o poder
de sua me. O cl dos bahinda tinha por funo traar os limites administrativos.
A dinastia silanga do Bukerebe, vinda do Ihangiro por volta do fim do sculo
XVII, pretendia na verdade remontar a Ruhinda. A disseminao da cultura
hinda manifesta-se at o Buha, no Sul, seja na titulao real (no Heru e no
Bushingo), seja na referncia ao nkende (proibio dos reis do Bujiji)49. Rumo
ao Oeste, em contrapartida, as narrativas valorizavam outros heris: em Ruanda,
Gihanga, verdadeiro heri civilizador, era erigido tambm ao posto de pai de
todos os reinos vizinhos. No Burundi, Ntare Rushatsi, um nome que parece ter
sido portado pelos fundadores de duas dinastias nos sculos XVI e XVII, s se
liga a Ruhinda em escritos europeus50.
    As tradies sobre Ruhinda tiraram sua fora dos laos existentes entre essa
figura lendria e a proeza dos Bachwezi. Qualquer que tenha sido a realidade,
a extenso e a durao do "Imprio do Kitara", esse modelo poltico-religioso
nasceu manifestamente na zona dos planaltos da Uganda Ocidental. Mas, no
Sul, Isimbwa, Ndahura ou Mulindwa s so evocadas nas narrativas recolhidas
mais ou menos recentemente. O papel essencial  desempenhado aqui por
Wamara, Mugasha e Ryangombe. Uma mitologia particular desenvolveu-se
nessas narrativas: por exemplo, a maneira pela qual Wamara, acompanhado
de Mugasha e de Irungu, traz da terra de Kintu, o terrvel, no apenas gado e
sementes, como tambm a morte; ou ainda conflitos com Mugasha, a quem
ele recusou sua filha, desencadeando a tempestade (uma verso ruandesa trans-
pondo essa situao para Ryangombe), e com Kagoro, que acaba por queimar o
curral onde se encontrava sua bela vaca Kitare51. Essas divindades so apenas as
mais importantes de um panteo de aproximadamente trinta espritos, inces-
santemente enriquecido em funo das circunstncias. Associam-se cada um
deles a uma rea de atuao: Wamara aos mortos, Mugasha s guas,  chuva
e aos lagos, logo tambm  pesca e  agricultura (particularmente  bananeira),
Irungu  selva, logo  caa e s viagens, Kagoro ao raio, Ryangombe ao gado
e  caa.


49   Artigo de Cory, n. 413 (anotado por A. M. D. Turnbull em 1925); G. W. Harnvig, 1972; District book
     de Kigoma (cpia SOAS), vol. VII, p. 203; J. P. Chrtien, 1975.
50   As tradies hinda aparecem em Ruanda nas narrativas mostrando Ruganzu Ndori "voltando" do Kara-
     gure acompanhado de Morango. No Burundi, Ntare Rushatsi ope-se a um rei do Bushingo chamado
     Ruhinda e  J. M. van der Burgt (1903) que insistiu em colocar Ruhinda "o Grande" nas origens desse
     reino, tese imprudentemente admitida nas snteses de Roland Oliver.
51   E. Csard, 1927; manuscrito de J. B. Lapioche, 1938; A. Arnoux, 1912.
954                                                                                      frica do sculo xvi ao xviii



     Se Wamara, cujo grande santurio era em Masaka, no Bwera (em Uganda),
era muito ligado s tradies do Kitara, do Nkore e do Karagwe, Mugasha
parece ter irradiado a partir das ilhas Sesse, no Lago Vitria52. Por sua vez,
Ryangombe estava presente principalmente no Oeste, de Ruanda ao Lago Tan-
ganyika, sendo sua origem colocada tanto no Ndorwa, quanto por assimilao
com Kiranga, no Burundi (ele teria morrido de fato em uma regio dependendo
ento do Bugesera) ou mesmo no Leste do atual Congo. Kiranga, heri caador,
 associado igualmente  agricultura por meio dos espritos Nyabashi e Seru-
twa53. Longe de se reduzir s instituies da monarquia, esses cultos parecem
ser muito antigos, anteriores  fundao das dinastias modernas. As tradies
populares veem em Wamara o protetor dos antigos cls dirigentes tais como os
Basita ou os Bayango, e evocam ao mesmo tempo os conflitos que o opuseram
a seu "domstico" Ruhinda. Mugasha teria renovado com Kabambo o roteiro
da tempestade evocado mais acima: uma subida das guas do Lago Vitria
teria forado o rei do Buzinza a ceder-lhe sua filha. Ryangombe, por sua vez,
ridicularizou o rei de Ruanda, Ruganzu Ndori54.
     Essa religio cwenzi (ou dos imandwa) tinha sua autonomia tanto no plano
cultual quanto no plano dos mitos. No Leste (pas Haya e Zinza), a funo de
mdium era hereditria em determinadas famlias que, alm disso, eram as guardis
dos santurios. No Oeste (Ruanda, Burundi, Buha), a iniciao ao kubandwa era
muito amplamente disseminada. A simbologia e o vocabulrio pareciam associar o
culto  realeza tanto do pas Haya quanto do Nkore, enquanto a venerao expressa
 sombra da eritrina, rvore sagrada de Ryangombe, no Kiranga, parecia mais popu-
lar. Mas em todo caso, tratava-se de prticas iniciticas de adivinhao e de cura,
oferecendo um recurso contra as ameaas emanadas de ancestrais prximos ou
contra os abusos de poder55. As explicaes mecanicistas e tnicas desse fenmeno
cultural56, por uma espcie de evemerismo primevo, lanaram um vu quase opaco
sobre a profunda ruptura existente entre a histria especfica dessa religio, da qual
veremos novos aspectos, e o fim de um antigo poder no Kitara57.


52    Sobre o conjunto da questo, ver I. Berger, 1973; F. Richter, 1899; artigo de Cory, n. 79; D. W. Cohen,
      1968; C. C. Wrigley, 1958.
53    F. Geraud, 1972; P. Smith, 1981.
54    F. Boesch (1930) d uma verso vinda do Karagwe; O. Mors, 1957; H. van Thiel, 1911; A. Coupez e
      T. Kamanzi, 1962, relato n. 13. Esses elementos levaram L. de Heusch (1966) a propor a tese de um
      movimento essencialmente anti-hinda.
55    Alm dos ttulos j citados, ver: B. Struck, 1911; A. Vix, 1911; H. Rehse, 1910; H. Meyer, 1916 ; B. Zuure, 1929.
56    Exemplo de debate sem sada: L. de Heusch, 1964; C. Vidal, 1967.
57    J. P. Chrtien, 1981a e b.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                 955



     Devese falar de cls ou de castas?
    Frente a uma tradio escrita que privilegiou o esquema das oposies de
castas, qui de raas, entre "senhores hima e tutsi" e "servos iru e hutu", a his-
toriografia dos anos 70 deu mais ateno  estrutura clnica58. Apesar de sua
onipresena na cultura oral (as pessoas idosas identificam-se essencialmente por
esse pertencimento), o cl (umuryango em kirundi e giha, ubwoko em kinya-
rwanda, uruganda em runyambo e ruhaya) no tem a simplicidade orgnica de
um grupo de parentesco, ainda que s vezes seja vivido como tal. As linhagens,
no sentido estrito do termo, so reagrupadas em entidades classificatrias carac-
terizadas por um nome coletivo, por um ou dois tabus (imiziro), s vezes por
tradies referentes s origens ou pela proteo de uma divindade do panteo
cwenzi (especialmente no pas Haya), mas sem unidade territorial59. Observam-
-se s vezes subdivises em subcls (amashanga em Ruanda, amahiga no pas
Haya), mas o sistema no  segmentrio. Alguns cls inscrevem-se na histria
de vrios dos reinos da regio dos Grandes Lagos, por exemplo, os bayango
do Nkore no Buzinza, os bakimbiri do Nkore no Buha do Sul ou os basita do
Bunyoro no Bukerebe. Os tabus podem concernir grupamentos maiores ainda: o
sapo  respeitado em Ruanda pelos bega, pelos bakono e pelos baha (trs gran-
des cls dos quais vieram as rainhas mes); a difuso do nkende  conhecida, o
Kiziba dele sendo o modelo mais espantoso, pois o cl dinstico dos babito e dos
bahinda compartilham-no, enquanto o ngabi, habitualmente ligado aos babito,
foi adotado pelo antigo cl real dos bakuma. Alguns cls atribuem-se filiaes
de alhures, variveis de acordo com as pocas: em Ruanda, os banyiginya foram
associados tanto aos basindi quanto aos bahondogo.
    A dimenso histrica dos cls  ntida em Ruanda: como no Nkore (quatro
unidades), esse pas apresenta uma estrutura excepcional reduzida a dezoito
grandes cls reunindo todos os bahutu, batutsi e batwa60. Ora, no Oeste, estudos
sobre os ribeirinhos do Lago Kivu61 mostram que h dois sculos, essas "corpo-
raes de cls" no estavam ainda acabadas. Alm disso, no Burundi, no Buha,
no Karagwe e nos pases vizinhos ao Lago Vitria, existiam vrias centenas de
cls, mas, em cada caso, com formas de associao diferentes, fosse em unidades


58   D. W. Cohen, 1972; M. d'Hertefelt, 1971; G. W. Hartwig, 1976; C. Buchanan, 1974.
59   H. Cory e M. M. Hartnoll, 1945/1971.
60   Os batwa constituem uma pequena minoria em Ruanda, no Burundi e (sob o nome de bakiko) no Buha.
     Especialistas em caa, pesca e olaria, eles so mantidos  distncia por vrias proibies. Foram definidos
     como "pigmoides" ainda que este termo seja contestvel.
61   C. W. Newbury, 1976; D. S. Newbury, 1981.
956                                                                       frica do sculo xvi ao xviii




figura 26.3   O bosque sagrado de Bunywankoko, no Nkoma. [ J. P. Chrtien.]



exogmicas (entre os bahaya), fosse em associaes baseadas na troca de brin-
cadeiras ou de juramentos (os endahiro dos bakiga, no Norte da atual Ruanda).
Frequentemente, a identidade era estreitamente ligada ao exerccio de funes
polticas ou religiosas mais ou menos antigas. O pertencimento a um cl definia
o estatuto social. As tradies mais antigas atestam a multiplicidade dos poderes
locais geridos por esse ou aquele cl, sem que isso significasse obrigatoriamente
que o povoamento de cada um desses principados tivesse sido homogneo. Foi
assim que os basita, associados aos antigos poderes cwenzi no Bunyoro e no
Nkore, teriam reinado sobre o antigo Kyamutwara, sucedendo por sua vez 
dinastia dos bahunga, a do rei Kashare, e eles so s vezes associados aos baheta,
formadores do cl do rei Nsansama no Buzinza.
    O Ihangiro deveria seu nome a um antigo rei do cl dos bayango (perten-
cente ao grupo mais amplo dos forjadores barongo). Os bahutu (um cl muito
poderoso) ter-se-iam oposto sucessivamente aos bayango e aos bahinda, na
pessoa de Nkumbya ou Mukumbya. Este ltimo, apresentado tanto como um
rei quanto como um fazedor de chuva, tem diferentes destinos de acordo com
as tradies: morto por Ruhinda, exilado junto a Kashare, foragido no Bukerebe
com Katobaha, ou ainda ancestral de Ntumwa ou rei da dinastia dos bukuma,
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                             957



morto por Kibi no Kiziba62. Em Ruanda, discernem-se tambm vrias entidades
polticas prenyiginya: os bazigamba no Murabi e no Cyingogo; os bagesera no
Gisaka, no Bushiru e no Busozo; os badanda no Nduga, no Bwanamwali, no
Buhoma e no Bukonya; os basindi no Busigi e no Ruhengeri; os bacyaba no
Bugara; os basinga no Burwi e alm (antigas dinastias renge); os bongera no
Bumbogo, no Buriza e no Bwanacyambwe; os batsobe no Rukoma etc. Vrias
dessas linhagens conservaram funes rituais de biru na da Ruanda moderna63.
No Burundi tambm, a guarda dos tambores e os papis religiosos detidos
por cls como o dos bajiji, dos bashubi e dos bahanza remetem provavelmente
a antigos poderes. Todos esses principados clnicos foram progressivamente
absorvidos, entre o sculo XV e XVII (s vezes mais tarde), por novas dinastias,
como ns veremos. Mas, alm dessas mutaes e dessas interferncias regionais
(devidas a migraes de linhagem ou  circulao de ideias e de narrativas), cada
uma das pequenas entidades sub-regionais guardou suas prprias caractersti-
cas at o sculo XX. O estudo dos ibihugu (pases) de Ruanda e do Burundi, o
dos bayoza do Kyamutwara e dos bahamba do Kyanja (grupos pr-existentes
quando da ciso do grande Kyamutwara ou Bumbwiga no fim do sculo XVIII)
continua por ser feito64.
    Neste contexto, a clivagem entre pastores e agricultores no se apresenta
mais como uma evidncia que embasaria as hipteses (geralmente elaboradas
sob a influncia das graves crises polticas de meados do sculo XX) de invases
ou de conflito O carter misto de alguns cls existe tambm fora de Ruanda e
chega a 20% nos cls do pas Haya65, a mais de 10% entre os bahutu, a mais de
50% entre os batutsi e a 90% entre os batwa do Burundi66. Outros cls esto em
situao intermediria ou indeterminada, qualificados como bairu (enobrecidos),
como os bayango, ou como bahutu (de boa famlia), como os bajiji. Os basita
so descritos tanto como pastores (especialmente em Ruanda) quanto como


62   Ver as fontes j citadas, principalmente O. Mors, 1957. Sobre o Bukarebe, ver E. Hurel, s.d. Os bahutu
     ou baitira (H. Cory et M. M. Hartnoll, 1945/1971, p. 282) so confundidos, em J. B. Webster (1979,
     p. 14), com a categoria hutu de Ruanda ou do Burundi. Existe tambm, no pas Haya, um cl hima
     dos batwa, sem relao com os oleiros batwa. O relato publicado por H. Rehse (1910, p. 286) sobre os
     massacres consecutivos da morte de Kashare, antigo soberano do Kyamutwara, concerne s crueldades
     do rei hinda Karemera, principalmente com sua prpria famlia e no trata de forma alguma de um
     "pogrom de represlias contra os agricultores".
63   M. d'Hertefelt, 1971; A. Kagame, 1954; F. Nahimana, 1981.
64   O termo bahaya, antes de ser aplicado sob a colonizao a todos os habitantes do distrito de Bukoba,
     designava apenas os ribeirinhos do lago Vitria, na regio de Maruku.
65   Inclusive o Karagwe.
66   F. M. Rodegem, 1964.
958                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



agricultores-forjadores, tendo renunciado a seu tambor dinstico para se con-
sagrar  cultura cerealista67. Os bajiji so geralmente catalogados como bahutu
no Burundi e batutsi no Bujiji (Buha). Ainda que as hipteses relativas a um
antigo encontro de grupos de lngua banta com grupos de lnguas sul-cuchtica
e centro-sudanesas68 seja interessante, elas remetem a um perodo por demais
recuado (primeiro milnio) para dar conta da situao no sculo XVI, dada a
fuso cultural desses povos. Como vimos, as diferenciaes tnicas operam ento
em bases regionais, clnicas ou polticas recortando as categorias hima/tutsi e
iru/hutu. Ademais, seria arriscado definir exatamente o que representavam essas
categorias h quatro sculos. Um s fato parece se destacar: a importncia do
fenmeno pastoril nos planaltos mdios indo do Nkore ao Buha, pelo Karagwe,
o Gisaka e o Bugesera. A conquista hamtica to frequentemente evocada nesse
perodo apresenta-se de fato como uma remodelagem, no espao regional e nas
relaes poltico-econmicas, das relaes entre os setores de dominao pastoril
e os de dominao agrcola entre os sculos XVI e XVIII.

      A formao dos reinos modernos: um estudo geopoltico
      O problema geral da cronologia
    A riqueza das fontes orais no torna menos complexa a reconstruo da
cronologia regional. As listas dinsticas e as genealogias principescas apresen-
tam numerosas variantes, especialmente antes do sculo XVII. Alguns cronistas
tentaram valorizar a ancianidade de seu reino ao compilar fontes externas. A
durao mdia de uma gerao, fixada em 33 anos por Alexis Kagame, parece
mais se situar em 27 ou 28 anos. Dois eclipses solares evocados nas tradies
oferecem marcas inegveis, mas sua identificao foi discutida. Por um lado, no
que concerne  batalha de Biharwe, opondo Ntare Nyabygaro (Nkore) a Olimi
Rwitamahanga (Bunyoro) e determinando as dataes do Buganda e de Ruanda,
trata-se provavelmente do eclipse de 1520. Por outro lado, o eclipse coincidente
com a coroao de Mibambwe Sentabyo (Ruanda) seria o de 1792. O corpo
do mwami desse pas, exumado em 1968-1969 pela equipe de F. van Noten e
datado da primeira metade do sculo XVII, pode, dada a impreciso das pes-


67    As tradies orais, mesmo quando podem remontar at cerca de quinze geraes, no esclarecem por
      si s as origens mais distantes do povoamento, ou ento se trata de "tradies" influenciadas, atravs
      das redes citadas mais acima, com as ideias de Speke, de Emin ou de Gorju: por exemplo, as hipteses
      etopes sobre a origem dos basita apresentadas no estudo de C. Buchanan, 1974, p. 98-99.
68    C. Ehret, 1973.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                              959




figura 26.4    Objetos encontrados no tmulo de Cyirima Rujugira, mwami de Ruanda. [ B. Nantet,
Paris.]



quisas orais acerca do fato, ter sido tanto o de Mutara Semugeshi quanto o de
Cyirima Rujungira. Apesar do ceticismo de autores como D. Heinge,  possvel
chegar a probabilidades suficientes. Utilizando todos os elementos condizentes
oferecidos pelas fontes e seguindo as snteses j propostas por D. Cohen e J. B.
Webster, ns propomos uma cronologia (ver quadro abaixo)69.
    As "invases" organizadas rumo ao Sul pelos soberanos bito do Bunyoro apa-
receram tambm como um elemento de ligao entre os diferentes reinos. Mas
as tradies recolhidas em cada um deles situam o acontecimento em perodos
diferentes. Na verdade, os Bunyoro devem ter lanado vrias incurses para
capturar gado. Alm disso, a repetio nas listas dinsticas de nomes como Cwa
(Bunyoro), Ntare (Nkore), Ntare e Karemera (Karagwe), Magembe (Kiziba) ou
Nyarubamba (Ihangiro) levou a confuses cronolgicas70. Contudo,  possvel
distinguir trs grandes ondas de expedies.

69   A primeira tentativa de sntese das listas dinsticas figura em J. Czekanowski, 1917. Ver igualmente A.
     Kagame, 1959; J. Vansina, 1962a, 1962b e 1967; S. R. Karugire, 1971; D. Henige, 1974; D. W. Cohen,
     1970; J. B. Webster, 1979a; F. van Noten, 1972.
70   Por exemplo, em O. Mors, 1957, Ntare Ktabanyoro do Karagwe teria entrado em conflito com Magembe
     Kitonkire e Magembe Kagaruki, dois reis do Kiziba, cujos reinados so separados por um sculo.
960                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



    A primeira remontaria  primeira metade do sculo XVI. Aps sua vit-
ria, em 1520, no Nkore, os banyoro teriam invadido duas vezes Ruanda sob a
liderana do prncipe Cwa, o filho de Nyabongo, o sucessor de Olimi. Os bami
Kigeri Mukobanya e Mibambwe Mutabazi tiveram de fugir, um para o Oeste
do Nyabarongo, o outro at o Bushi. O rei do Bugesera, Nsoro Sangano, teria
sido igualmente morto durante essa invaso. O movimento s se reverteu com
a morte de Cwa.
    A segunda invaso dataria da primeira metade do sculo XVII. O pequeno
reino bito do Kiziba teria sofrido com as incurses de seu protetor, o Bunyoro,
durante todo o sculo, especialmente sob o reinado de Magembe Kitonkire.
No mesmo momento, o Karagwe (sob os reinados de Ntare e de Ruhinda) era
igualmente atingido.
    Quanto  terceira invaso ou incurso, ela teria acontecido no decorrer da
primeira metade do sculo XVIII. Atribuda a um mukama chamado tanto de
Cwa (Cwamali) quanto de Kyebambe,  a mais clebre de todas. Aps ter devas-
tado durante anos todos os territrios haya, esse soberano teria sido vencido
e morto pelo rei Nyarubamba Kicumbu, em Ihangiro. Seus guerreiros, na sua
retirada, teriam sido esmagados pelo mukama Ntare Kitabanyoro do Karagwe,
na volta do Buha para onde sua me o tinha levado no exlio. Na mesma poca,
um outro grupo Banyoro fora vencido por um mugabe do Nkore, tambm cha-
mado Kitabanyoro (o Matador de Banyoro). Os reinos do Sul estavam desde
ento definitivamente livres dos babito, que deixaram no lugar uma lembrana
ao mesmo tempo terrvel e imprecisa, mas imprimiram-lhes sem dvida a sua
marca, especialmente em matria de organizao militar71.

      Os Estados dos planaltos do Kagera
   Em virtude das facilidades de circulao que ela oferecia do vale do Katonga
at o do Malagarazi, essa zona de planaltos herbosos sempre representou um
eixo geopoltico importante. Infelizmente, sua histria poltica  a mais des-
conhecida da regio, por causa das dificuldades que assolaram seus diferentes
reinos desde o sculo XIX, levando at a seu deslocamento ou a seu desapa-
recimento e desencadeando a rpida eroso de suas tradies. Nenhum estudo
existe sobre o Bushubi, nem tampouco sobre o Busegera, e o que foi publicado


71    D. Henige, 1974; A. R. Dunbar, 1965; S. R. Karugire, 1971; E. Csard, 1927; I. K. Katoke, 1975; O.
      Mors, 1957; H. Rehse, 1910; A. Kagame, 1972. Essas expedies devem ser distinguidas da instalao,
      mais antiga, de uma dinastia bito no Kiziba e no garantem de forma alguma a hiptese de uma origem
      luo do movimento hinda sugerido por L. de Heusch, 1966.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800
 (C) Calamidades (secas e fomes)

 ==== Alianas histricas
 / Soberanos de uma mesma gerao (irmos ou primos)

                                                             Legenda

                                                                       e de Kiziba. A incerteza  muito grande antes do sculo XVII.
                                                                       N. B. As fontes esto mencionadas nas notas. Consideramos as fontes mais documentadas e no apenas listas estereotipadas. As mais precisas so as de Ruanda
                                                                                                                                                                                                                                                 BUHA (SUL)     BURUNDI       RUANDA          GISAKA      KARAGWE           KIZIBA      KYAMUTWARA       IHANGIRO        BUZINZA
    Data atestada da morte ( m do sculo XIX/incio do XX)                                                                                                                                                                                                                    RUGANZ U        KIMENYI
                                                                                                                                                                                                                                                                               Bwimba

                                                                                                                                                                                                                                                                              CYIRIMA                      RUHINDA            KIBI        RUHINDA                        KAYANGO
                                                                                                                                                                                                                                     1500                                     Rugwe          KABUNDA
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                ?               ?
                                                                                                                                                                                                                                                                                KIGERI
                                                                                                                                                                                                                                                                 NTARE        Mukobanya                     NTARE          ISHAMURA           ?                                  ?
                                                                                                                                                                                                                                                                Karemera     /MIBAMBWE        KIMENYI      Mihingoeta
                                                                                                                                                                                                                                                                                Mutabazi      Shumbusho      yomba

                                                                                                                                                                                                                                                                                YUHI                                       WANNUMI
                                                                                                                                                                                                                                                                                Gahima                     RUHINDA                      NYARUBAMBA     NYARUBAMBA
                                                                                                                                                                                                                                                                                             MUTUMINKA                                                                   RUHINDA
                                                                                                                                                                                                                                                                              NDAHIRO                       NTARE                                        RUHINDA
                                                                                                                                                                                                                                                                             Cymatare (C)                                   MATWI        KAREMERA         Kayango
                                                                                                                                                                                                                                     1600       KIMENYI                                                  KAREMERA                                                       NTARE (C)
                                                                                                                                                                                                                                                                 NTARE        BUGANZU                       Ndagara                        BWOGI                        Muganganzara
                                                                                                                                                                                                                                                                Kibongora       Ndori          NTAHO                       MAGEMBE
                                                                                                                                                                                                                                                  NTARE                                                    RUHINDA          Kitonkire    KAREMERA         NTARE
                                                                                                                                                                                                                                                               MUTANGA        MUTARA              ?                                                                       KABURA
                                                                                                                                                                                                                                                                Nyamubi      Semugeshi (C)                  NTARE          MUZIN GA                          ?
                                                                                                                                                                                                                                                    ?                                                                      Nyakashoke    RUKAMBYA                        KABAMBO
                                                                                                                                                                                                                                                                               KIGERI         KIMENYI      RUSATIRA        MWIGARA        Gihume (C)
                                                                                                                                                                                                                                                                             Nyamuheshera     Rwahashia                                                                 KATOBAHA
                                                                                                                                                                                                                                                RUHINDA             ?                                      MEHINGA         BURUNGU       RUGOMORA                         /KINWA
                                                                                                                                                                                                                                                                             MIBAMBWE         KWENZI                                        Mahe        MURAMIRA
                                                                                                                                                                                                                                                 MAZIGA                        Gisanura                                                                  Kikongera     KYENDANZIGU
                                                                                                                                                                                                                                     1700                       NTARE                                                     MAGEMBE         KAHIGI                     /NYAMURASA (C)
                                                                                                                                                                                                                                                                 Rushtasi       YUHI         RUREGEYA                       Kagaruki        Kasita         BUTO
                                                                                                                                                                                                                                                MASIMBA                       Mazimpaka                                                                                   KABURA
                                                                                                                                                                                                                                                                 MWEZI                                    KAREMERA                         NKWENGE     NYARUBAMBA         Nyabureza
                                                                                                                                                                                                                                              KIVUNANGOMA                    KAREMERA         BAZIMYA     Bwirangenda    MBONEKO (C)     /KARUMUNA        Kicu mbu
                                                                                                                                                                                                                                                                                Rwaka                      RUZENGA          Hangi           Rugomora                   KYENDANZIGU
                                                                                                                                                                                                                                                  NTARE        MUTANGA        /CYIRIMA        KIMENYI        /NTARE                                     MUGUNDA           Kisamba
                                                                                                                                                                                                                                                               Senyamwiza    Rujugira (C)       Getura     Kitabanyoro    NYARWANGU        MBOGI         /KAHIGI
                                                                                                                                                                                                                                                KANYONI                                                         (C)      /RUHAGARANZI     Mpangukano                    KAKARAZA
                                                                                                                                                                                                                                                              MUAMBUTSA        KIGERI                                                                  NYARUBAMBA
                                                                                                                                                                                                                                                               Mbariza (C)    Ndabarasa
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        MHIHAHABI
                                                                                                                                                                                                                                     1800                                   MIB AMBWE            ?        RUHINDA
                                                                                                                                                                                                                                                 RWASA                         Sentabyo                                   RUTAJWAHA      KAREMERA
                                                                                                                                                                                                                                                                NTARE           YUHI                                                       Mwiru                     NTARE
                                                                                                                                                                                                                                                  NTARE         Rugamba       Gahindiro                                                                              Muhire
                                                                                                                                                                                                                                                                              MUTARA                       NDAGARA       BURUNGU (C)                                             RUHINDA
                                                                                                                                                                                                                                                                               Rwogera                                      Kakindi     KINYONI          RUHINDA                Muhangakiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                          RUMANYIKA          /KIBI         KAJURUNGA
                                                                                                                                                                                                                                                KANYONI                        KIGERI                                                                     NTARE          RUSIMBYA
                                                                                                                                                                                                                                                                 MWEZI        Rwabugiri                                  RUHAGARANZI     RUGOMORA
                                                                                                                                                                                                                                                                 Gisabo          1895                      KAYENJE                                                      ISEKANYERE
                                                                                                                                                                                                                                                                   1908                                                                                NYARUBAMBA
                                                                                                                                                                                                                                              NTARE RWASA                                                  NDAGARA       MUTATEMBWA        KAHIGI           1906       MANKORONGO
                                                                                                                                                                                                                                                  1906/1907                                                 1892/1893         1903           1916                         1885/1890

                                                                                                                                                                                                                                                   Heru                                                                                     Maruku                            Buzinza
                                                                                                                                                                                                                                                 Bushingo                                                                                   Kyarja                            Rusubi




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              961
Quadro sincrnico das dinastias (sculos XV a XIX)
962                                                        frica do sculo xvi ao xviii



sobre o antigo Gisaka ou sobre o Buha  lacunar ou superficial. Apenas a parte
setentrional, compreendendo o Mpororo, o Nkore e o Karagwe,  relativamente
mais bem conhecida.
    O Karagwe, apesar de suas prestigiadas origens (dinastia sita, foco maior do
complexo ruhinda), afirmou-se principalmente a partir do sculo XVII, em favor
do primeiro refluxo da influncia nyoro (crise de sucesso levando ao advento
de Winyi, sucessor de Nyabongo). Sabe-se muito pouca coisa dos ntare e dos
ruhinda que se sucederam ento, seno que eles eram mais poderosos do que
seus vizinhos do Leste: um ataque contra o Kiziba terminou com a morte de
um filho do rei Magembe Kitonkire. Eles mantinham melhores relaes com
o Gisaka e Ruanda, entre outras coisas graas a alianas matrimoniais. A crise
aberta no sculo XVIII pela invaso nyoro resultou em um novo crescimento,
atribudo a Ntare Kitabanyoro, e que consolidou em seguida a abertura de rela-
es comerciais com o Buganda e os habitantes do Nyamwezi.
    O Mpororo, ou Ndorma, era o herdeiro de uma rica tradio de poderes
clnicos: os bakimbiri teriam sido governados pelo Ryangombe em pessoa e os
baishekatwa teriam dado Kitami como rainha, primeira encarnao do esprito
Nyabingi, tido como muito poderoso at o sculo XX. O conjunto foi dominado
por uma dinastia hima do cl dos bashambo, que se aproveitou do vazio deixado
pela derrota dos banyoro em Ruanda. Os bashambo ataram laos matrimoniais
com os bahinda do Nkore, ento menos poderosos do que eles: em meados do
sculo XVII, o rei Gahaya, filho de Ishemurari, atacou o Gisaka e preocupou
Ruanda. Eles atingiram seu apogeu no incio do sculo XVIII, mas, cinquenta
anos mais tarde, com a morte de Gahaya Rutindangyezi, o prncipe Ndabarasa,
filho do mwami ruands Cyirima Rujugira, ocupou todo o Sul do pas. O reino
foi dividido em principados rivais e o tambor Murorwa foi escondido perto do
Lago Bwinyoni, na cadeia ocidental de montanhas.
    A dinastia do Gisaka reivindicava uma dupla origem tnica: a dos bagesera
e a do grupo totmico do nkende (os bazirankende). No fim do sculo XV, o rei
Kimenyi ameaou absorver o minsculo territrio do mwami ruands, Ruganzu
Bwimba. Em meados do sculo XVI, Kimenyi Shumbusho aproveitou-se do
ataque nyoro para ocupar o corao do antigo Ruanda, o Buganza e o Bwa-
nacyambwe, recuperados por esse pas apenas um sculo mais tarde. Aliado do
Ndorwa e de vrios rebeldes ruandeses, o Gisaka tentou tomar sua revanche sob
Kimenyi Getura em meados do sculo XVIII, mas foi vencido pelos guerreiros
de Cyirima Rujugira. O filho desse ltimo, Kigeri Ndabarasa, ocupou tambm
o Mubari, um antigo reino governado pelos bazigaba e cujo centro se situava
nas ilhas do Kagera.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                963



    O Bugesara podia igualmente apresentar-se como um precursor das potn-
cias polticas que iam se disseminar nas montanhas do Oeste. A dinastia dos
bahondogo parece to ligada  dos banyiginya dos primrdios de Ruanda que
Jan Vansina sugeriu esses ltimos serem oriundos dela. Casamentos e alianas
militares marcaram a histria dos dois pases do sculo XVI ao XVIII. Ruganzu
Ndori interveio contra o Burundi, e Yuhi Mazimpaka recebeu o rei Nsoro
Nyabarega que estava em dificuldade. At o fim do sculo XVII, o Bugesera
ocupava um imenso territrio compreendido entre os rios Kanyaru e Ruvubu
(toda a tera parte norte do Burundi atual) e era totalmente representativo, com
seus bebedouros e rituais, do universo pastoril por excelncia. As dificuldades
surgiram com o impulso da dinastia dos baganwa no Burundi, mais favorvel
ao Gisaka. O sculo XIX se abriria com uma diviso do pas.
    Mais ao Sul, a bacia do Malagara presidiu  criao de vrios reinos. Desde
o sculo XVI, um "Buha do Norte" teria englobado o Buyungu, o Muhambwe,
o Ruguru e o Buyogoma (no Leste do Burundi atual), at mesmo o Bushubi. O
mwami ruands, Mibambwe Mutabazi, teria encontrado uma esposa neste lugar.
A dinastia dos bahumbi (a dos reis Ruhaga, Nkanza e Gihumbi) continuou muito
poderosa at o sculo XVIII: ela ofereceu hospitalidade ao rei Ntare do Karagwe
fugitivo dos Bunyoro, venceu o mugabe Kakaraza do Buzinza e estendeu-se aos
territrios sumbwa. Mas, ao Sul do rio, o Ruguru tornou-se desde cedo o centro
de um segundo Estado, incluindo o Heru e o Bushingo, liderado pela dinastia
dos bakimbiri (a dos reis Ntare, Ruhinda, Rwasa e Kanyoni) que, com o prin-
cipado dos bajiji no Nkarinzi, voltou-se mais para as montanhas dominando a
margem leste do Lago Tanganyika. O declnio e o desaparecimento correlato
do Buha s ocorreram por volta do sculo XIX72.

     Os Estados ribeirinhos do Lago Vitria
   Mais populosos que os precedentes, esses pases eram constitudos por pla-
naltos herbceos e plancies, bem como por vales frteis e midos banhados
por guas cheias de peixes. As sociedades e os Estados foram marcados por
essa dualidade que explica em parte o desmembramento do Kyamutwara e do
Buzinza no sculo XIX.
   O Kiziba, encurralado entre o Lago Vitria e o Kagera, era, por sua vez,
dividido entre seus laos tradicionais com o Kitara-Bunyoro (seus reis foram


72   I. K. Katoke, 1975; J. Freedman, 1979; E Geraud, 1972; S. R. Karugire, 1971; J. P. Chrtien, 1975 e 1984;
     A. d'Arianoff, 1952; A. Kagame, 1972; J. Vansina, 1962a e b.
964                                                         frica do sculo xvi ao xviii



enterrados nesse lugar at o fim do sculo XVII e seus prncipes educados
nessa corte estrangeira) e os com as ilhas Sesse (de onde vinha o fogo ritual das
coroaes). Alm disso, ele estava em conflito incessante com seus vizinhos do
Sudoeste, o Kyamutwara e o Karagwe, que souberam tirar partido de uma sequ-
ncia de conflitos. A ameaa nyoro foi debelada, no fim do sculo XVIII, pelos
ataques dos baganda. O rei Burungu Kakindi apelou para o kabaka Semakokiro
em sua luta contra os prncipes rebeldes que, por sua vez, receberam o apoio do
pretendente ao trono, Kamanya.
    No Kyamutwara, parece ter sido o prprio rei Karemera quem definitiva-
mente estabeleceu a supremacia hinda no sculo XVII. Sua crueldade demente
t-lo-ia levado a mandar cegar seu filho Mukanbya.  possvel questionar se o
sucessor desse ltimo, vindo aps uma longa regncia garantida por Kayango,
no era de fato o fundador de uma nova dinastia. Trata-se de Rugomora Mahe
que, aps um longo priplo efetuado de Ihangiro s ilhas Sesse e ao Kitara,
surgiu como heri civilizador. Ele e seus descendentes exploraram as fraque-
zas do Kiziba e do Ihangiro, ao menos at o fim do sculo XVIII, quando o
Kyamutwara foi por sua vez enfraquecido por dissidncias internas. O mukama
Karemera Mwiru eliminou seu predecessor, Bwogi Mpangukano, com a ajuda
dos baziba e dos baganda. Seus filhos, Kajurunga e Kinyoni, compartilharam
ento o poder hinda, o que acarretou a formao, no sculo XIX, dos principados
de Maruku e de Kyanja. Alm disso, duas linhagens hima do cl dos Bankango,
vindas do Buzinza sob o reinado de Kahigi Kasita (que teria desposado a irm
dos dois fundadores, Karamagi e Mutashaba), adquiriram uma influncia militar
e poltica crescente no decorrer do sculo XVIII. No incio do sculo seguinte,
elas governavam de forma independente o Bugabo e um pequeno "Kyamu-
twara", implantados s margens do Lago Vitria, lugar onde os alemes funda-
ram Bukoba em 1890.
    Geograficamente, o Ihangiro dividia-se nitidamente em um pas lacustre
plano, dito Ihaya, e em um planalto interior, chamado Mugongo. No fim do
sculo XVIII, as querelas de sucesso, especialmente sob Muramira, favore-
ceram as intervenes no planalto dos reis do Kyamutwara, do Rugoma e do
Kahigi. O parentesco dinstico podia justific-lo. Reencontra-se aqui, com
Buto, o tema do rei cegado por seu pai e  possvel questionar-se tambm
sobre uma ruptura com o reinado de Nyarubamba, o vencedor dos Banyoro.
No fim do sculo XVIII, Nyarubamba II apelou aos Baganda para recuperar
o planalto ocupado por um prncipe rebelde. Em toda a costa oeste do Lago
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                           965



Vitria, viu-se desde ento se desenhar o que se poderia chamar, no sculo
XIX, um imperialismo ganda73.
    Com o Buzinza, ns abordamos um outro espao cultural e tnico onde
se cruzam as influncias dos baha, dos basukuma, qui dos nilotas tatoga. 
tambm o principal lar dos forjadores barongo, cujos laos com o cl yango j
foram evocados. As trs principais fontes sobre a histria poltica desse reino74
do listas dinsticas contraditrias quanto a sua extenso e a sua classificao,
permanecendo a mais precisa delas a de van Thiel. Aps os reinados inspira-
dos na lenda de Ntare Muganganzara e do primeiro Kabambo, produziu-se,
de alguma forma, uma segunda fundao desse Estado sob Kabambo Kinwa,
nascido, ele tambm, do incesto cometido por um prncipe cego. No sculo
XVIII, o mugabe Kakaraza teve de resistir a ataques dos baha no Oeste e dos
tatoga no Leste. Seu filho Mwihahabi foi o ltimo soberano de um Buzinza
unificado: a guerra de sucesso resultou na separao do Rusubi sob Ntare
Muhire e de todas as regies costeiras sob Ruhinda Muhangakyaro, no incio
do sculo XIX.
    A histria de Bukerebe combina de maneira particularmente complexa as
influncias regionais. Esse pas, composto por uma ilha e uma pennsula, situa-se
culturalmente no conjunto zinza. Mas a dinastia silanga reivindicava, no sculo
XIX, seu pertencimento ao cl de Ruhinda (qui dos banyoro), ao passo que
seu fundador, Katobaha, teria vindo do Ihangiro no sculo XVII. Destarte, essa
dinastia tinha como tabu o enfunzi (uma espcie de cambaxirra), igual ao dos
bahutu e dos baitira, um cl cujos conflitos com os bayango e os bahinda (sob o
rei Nkumbya, no fim do sculo XVI) j vimos. No sculo XVIII, os reis (bakama)
impuseram-se pouco a pouco frente aos cls sita e kula, mas a ameaa tatoga
obrigou-os a implantar sua capital na ilha. O grande comrcio de marfim foi
notavelmente explorado por esse principado no incio do sculo XIX75.

     Os Estados das montanhas do Oeste
   Ao passo que, na direo do Leste, a dinmica de um modelo de realeza
caminhava junto ao desmembramento, na direo do Oeste, assistiu-se mais a
uma concentrao em proveito de duas potncias, Ruanda e Burundi, que reu-
niam cada uma mais de um milho de habitantes no fim do sculo XIX.


73   H. Rehse, 1910; E. Csard, 1927; O. Mors, 1957; P. Schmidt, 1978. District book de Bukoba, passim.
74   H. van Thiel, 1911; O. Mors 1957; P. Betbeder, 1971.
75   G. W. Hartwig, 1972 e 1976; E. Hurei, s.d.
966                                                                 frica do sculo xvi ao xviii



    O pequeno principado ruands, nascido no sculo XIV ao Sul do Lago
Mohazi (no Buganza)  sombra do Busegera e do Gisaka, conseguiu
implantar-se ao longo do rio Nyabarongo durante o longo reinado de Cyi-
rima Rubwe, que anexou as terras dos bongera. Mas as graves crises do sculo
XVI desestabilizaram o equilbrio desse reino. As duas invases nyoro, que
fizeram fugir os reis Kigeri Mukobanya e Mibambwe Mutabazi rumo ao
Oeste, resultaram em um deslocamento do centro de gravidade poltica rumo
ao Nduga, enquanto o territrio inicial (Buganza e Bwanacyambwe) foi con-
quistado pelo Gisaka. Aps o reinado belicoso de Yuhi Gahima, que lanou
expedies em todas as direes, a guerra de sucesso entre seus filhos, Juru
e o mwani Ndahiro Cyamatara, foi explorada pelos bashi, os bahavu e os
habitantes do Bugara, no Oeste. O rei foi morto e o tambor dinstico Rwoga
tomado. Apesar da piedosa tradio contando que o prncipe legtimo fora
escondido na casa de sua tia no Karagwe e apesar da pretenso dos banyiginya
relativa a uma continuidade dinstica ininterrupta desde as origens do pas
(remontando ao mtico Kigwa e ao lendrio Gihanga),  muito provvel que
Ruganzu Ndori tenha fundado, no incio do sculo XVII, uma nova dinastia,
a do tambor Kalinga. Ele reocupou o Nduga e, de l, ele e seus sucessores
estenderam o reino at o Lago Kivu e s margens do Kanyaru, retomando
completamente o Bwanacyambwe (regio de Kigali) no Leste. O impulso de
uma nova dinastia no Burundi bloqueou expanso ruandesa no fim do sculo,
mas ela recomeou no sculo XVIII graas  organizao militar excepcional
empregada por Cyirima Rujugira e Kigeri Ndabarasa: o Burundi e o Gisaka
tiveram de recuar, o Ndorwa desmembrou -se, o Mubari foi ocupado e a
colonizao das margens do Lago Kivu ganhou o Kinyaga. No fim do sculo
XVIII, O Bugesera, um velho aliado, foi dividido entre Ruanda e o Burundi,
sob Mibambwe Sentabyo. A expanso continuou no sculo XIX, especial-
mente rumo ao noroeste e ao Sudeste, mas as antigas potncias hutu e tutsi
mantiveram por muito tempo sua autonomia sob uma espcie de protetorado
dos Banyiginya76.
    A histria do Burundi  muito menos conhecida nesse perodo. No incio
do sculo XVI, uma primeira dinastia criada por Ntare Karemera parece ter se
implantado nas montanhas do noroeste, na fronteira do poderoso Bugesera. Os
bami Mutara Semugeshi, filho de Ruganzu Ndori, e Mutaga Nyamubi teriam
estabelecido uma espcie de aliana consolidada por trocas de rituais pastoris.


76    A. Kagame, 1972; J. Vansina, 1962a e b; J. K. Rennie, 1972.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                             967



Depois, no fim do sculo XVII, no Nkoma, Ntare Rushatsi ou Rufuku fundou,
em parceria como o Buha do Sul, a dinastia dos Baganwa, que unificou o Sul
(onde o Burundi, chamado de Nyaburunga, enfraquecera-se por causa da luta
contra o Nsoro e o Jabwe) o centro e o Norte, amalgamou antigos poderes cl-
nicos (Bahanza, aos quais teriam pertencido Ntare, Bajiji, Babibe e Bashubi) e
levantou-se contra o Bugesera, cujo rei, Nsoro Nyabarega, teve de fugir para se
refugiar em Ruanda. O Burundi estendeu-se ento at o Sul da atual Ruanda: foi
a derrota de Mutanga que determinou a fronteira sobre o Kanyaru. Foi preciso
esperar pelo longo reinado de Ntare Rugamba, durante a primeira metade do
sculo XIX, para que o reino se expandisse a Oeste at Rusizi e a Leste, at a
bacia do Malagarazi (s custas do Buha do Norte)77.
   Mais a Oeste, ao redor do Lago Kivu, os bashi de um lado, os bafuriru da
plancie do Rusizi e os bahavu da ilha de Ijwi ou da margem oeste do outro
lado, atribuam-se uma origem comum, vinda da regio nyindu (Lwindi).
A instituio poltica do mwami estaria ligada  instituio sociorreligiosa
do bwami, que estruturava as sociedades bembe e rega. Tradies atestam
tambm a antiguidade das relaes entre esses pequenos reinos e o Burundi
ou Ruanda. Elas apenas foram ocultadas pela difuso do esquema hamtico
das "invases etopes" e pelo recorte das fronteiras coloniais desde o fim do
sculo XIX78.

     Os Estados, as economias e as sociedades
    Essa histria poltica e belicista no deve ocultar os movimentos demogr-
ficos, a evoluo das paisagens e das produes, as mutaes institucionais, at
mesmo ideolgicas.

     A evoluo das relaes entre pecuria e agricultura
   As condies naturais determinaram inicialmente a especializao do espao:
o pastoralismo nos planaltos do Kagera e a agricultura s margens do Lago
Vitria e nas montanhas do Oeste. O perodo estudado aqui se caracteriza por
uma integrao crescente das duas atividades no conjunto da regio e segundo
modalidades variadas. A oposio nunca foi radical de fato: a associao da
cultura dos primeiros cereais, eleusine e sorgo,  criao de vacas parece ser


77   J. Vansina, 1961 e 1972; E. Mworoha, 1977; J. P. Chrtien, 1981a, 1981b e 1984.
78   C. Bishikwabo, 1982; D. S. Newbury, 1978 e 1979.
968                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



muito antiga, tanto em matria de produo quanto de consumo (carne e leite)79.
Segundo as tradies, o antigo Karagwe era famoso no apenas pelo seu rebanho,
mas tambm por suas culturas e por sua cerveja de sorgo80. Os bovinos no se
reduziam apenas  raa sanga, de chifres compridos, e sua presena na regio
era muito mais antiga do que se pensava. Relatos do tempo passado mencio-
nam o uso do adubo, cuja importncia em uma agricultura intensiva de duas
colheitas anuais nas regies mais irrigadas foi por demais negligenciada. Essa
complementaridade  particularmente ntida em pases como o Kiziba ou o Kya-
mutwara, em que a bananeira ocupou progressivamente o mesmo lugar que no
Buganda, onde apenas alguns bahima se instalaram e onde as hierarquias sociais
se fundamentaram em relaes fundirias e no em contratos relativos ao gado.
A fama de Rugomora Mahe no sculo XVII (ou a de Katobaha no Bukerebe)
deve-se essencialmente  introduo da bananeira e da palmeira de rfia, a ele
atribudas, e a suas relaes com Mugasha, deus da gua e das culturas81.
    Mas, particularmente na direo oeste, outros fatores, alm do clculo agro-
nmico, puderam nessa poca estender a influncia dos pecuaristas. Trata-se
das secas e das fomes. Uma anlise precisa das fontes orais disponveis nos
referidos pases revela uma multiplicao de tais calamidades na primeira
metade do sculo XVII (Ruanda, Kyamutwara, Buzinza) e na segunda metade
do sculo (Burundi, Ruanda, Kiziba, Karagwe), o que corresponde a vrias
hipteses apresentadas por R. S. Herring e J. B. Webster de acordo com os
dados sobre o antigo regime do Nilo e as tradies dos nilotas de Uganda. Ora,
como E. I. Steinhart bem o demonstrou no caso do Nkore e dos principados
originados do Ndorwa, essas crises ecolgicas e de subsistncia tiveram um
efeito particularmente desastroso sobre os agricultores, obrigados ento a ape-
lar para a ajuda dos pecuaristas, que puderam, graas  transumncia, assegurar
a sobrevivncia de seu rebanho. O deslocamento, observado no sculo XVII,
dos centros de gravidade poltica das margens do Kagera e do Malagarazi
rumo s alturas arborizadas do Kibira dominando os Lagos Kivu e Tanganyika
no se explica apenas por expedies ou mudanas dinsticas, mas tambm
pela expanso de um sistema de tributos favorvel aos grupos pastoris e a
seus valores. A "civilizao dos bebedouros" do Bugesera  perceptvel nas
tradies histricas mais antigas de Ruanda e do Burundi. No fim do sculo


79    J. P. Chrtien, 1982.
80    O. Mors, 1957; manuscrito de J. B. Lapioche, 1938, nota 51.
81    A. O. Anacletti e D. K. Ndagala, 1981. Sobre o papel sociopoltico da bananeira, ver C. P. Kottak, 1972,
      e sobre Rugomara Mahe, um belssimo relato publicado par P. Schmidt, 1978.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                                969



XVII, o culto devotado pelo mwami Yuhi Mazimpaka s mais belas vacas de
seu rebanho ilustra isso82.
    Porm, em Ruanda ou no Burundi (como no Nkore),  possvel observar
que os beneficirios dos regimes estabelecidos h 300 anos representam apenas
uma parte dos proprietrios de rebanhos: os ricos batutsi e os meios dirigentes
ligados  realeza (por exemplo, os prncipes de Baganwa no Burundi), ou seja,
os que conseguiram garantir, pela introduo da vaca ou por seu uso simblico,
um controle poltico sobre a produo agrcola, fonte de meios suplementares
de ganhos e de trabalho para uma mo de obra prestadora. A agricultura pouco
interessou aos etnlogos, entretanto seu peso  visvel nos rituais e mesmo na
ideologia da realeza. No Burundi, por exemplo, a festa anual do muhanuro,
no decorrer da qual a autoridade real e os tambores que a simbolizavam eram
renovados, celebrava a semeadura do sorgo e fixava a melhor data para tanto,
em um pas cuja estao das chuvas  longa. Alm disso, no plano da sub-
sistncia, a introduo de plantas de origem americana (batata doce, milho,
feijo), que teria ocorrido na regio desde o sculo XVII (de acordo com as
referncias ao tabaco nas tradies orais), ofereceu novas possibilidades de
expanso aos agricultores. Alm de fornecer protenas de origem vegetal (por
causa do feijo), essas novas culturas facilitaram a dupla colheita anual83.
    A relao entre pastores e cultivadores no apresenta a imutabilidade e a
universalidade sustentadas pelos esteretipos sociobiolgicos. Mesmo supondo
que os cultivadores barundi, banyawanda ou bahaya tenham sido qualificados,
no incio de nosso perodo, de bahutu ou de bairu, as mutaes econmicas,
polticas e territoriais operadas entre os sculos XVII e XIX fizeram evoluir as
relaes hima-iru ou tutsi-hutu de uma situao de trocas locais a uma relao
hierrquica mais global, mais ou menos flexvel de acordo com os Estados e as
pocas84.

     A consolidao dos poderes monrquicos nos sculos XVII e XVIII

82   Ver a indicao "C" trazida no quadro. J. B. Webster, 1979, cap. 1, 2 e 7; E. I. Steinhart, 1981, p. 115-
     -156; J. P. Chrtien, 1984; P. Schumacher, 1958. Sobre a mesma evoluo no Ruha, ver J. E Mbwiliza,
     1981.
83   J. P. Chrtien, 1979; M. Bahenduzi, 1977; L. Ndoricimpa, 1984; E. Mworoha, 1977; C. Vidal, 1974.
     Apesar de um abuso da terminologia feudal e de uma tendncia a subestimar o impacto da colonizao,
     Claudine Vidal teve o mrito de valorizar importncia da terra no Ruanda clssico. Observar-se-
     tambm que o mwami se refere  frutificao (hwama em kirundi), enquanto mukama significa "aquele
     que ordenha", um contraste revelador.
84   A colonizao deu em seguida um carter tnico a essa oposio, fazendo dessas duas categorias castas
     de substrato racial.
970                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




figura 26.5   O santurio de Banga, no Mugamba (Nordeste do Burundi). [ J. P. Chrtien.]




    Antes da colonizao, cada Estado apresentava um sistema de tributos cujas
modalidades variavam segundo a situao ecolgica, o equilbrio entre as diferentes
foras produtivas, as configuraes clnicas e as formas institucionais. Em toda
parte, o soberano controlava diretamente as terras prximas s suas residncias e,
nas terras mais distantes, nomeava chefes (bakungu, batware), muitas vezes prn-
cipes de sangue real (balangira no pas Haya, baganwa no Burundi) ajudados por
delegados geralmente oriundos das linhagens mais influentes do lugar (cultivadores
ou pecuaristas). Tributos eram pagos a essas cortes, fosse sob forma de trabalho,
fosse em produtos (cabeas de gado, cestos de alimentos, gneros particulares como
sal, mel ou armas). A aristocracia dirigente podia tambm estender sua influncia ao
redistribuir esses produtos, pois o luxo era muito relativo (as roupas eram de pele ou
de corcha, os palcios construdos em material vegetal)85. No entanto, especialmente
a partir do sculo XVIII, os poderes reais afirmaram-se de quatro maneiras.
    Primeiramente, pela recuperao dos laos de clientela. As relaes chama-
das ubugabire ou ubuhake foram cada vez mais desviadas de seu papel particular
rumo a um uso mais poltico  proteo garantida a uma famlia em troca de


85    E. Mworoha, 1977 e 1981; O. Mors, 1957; A. Nsanze, 1980.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                           971




figura 26.6 Os antigos tambores reais conservados no santurio de Banga, no Mugamba (Nordeste do
Burundi). [ J. P. Chrtien.]




novas obrigaes. Em Ruanda, o buhake serviu especialmente  sujeio das
influentes linhagens hutu das regies perifricas conquistadas pelos banyiginya,
principalmente a partir do reinado de Yuhi Gahindiro, no final do sculo XVIII.
Na mesma poca apareceu a instituio fundiria do gikingi, ou seja, da atribui-
o privativa a grandes pecuaristas de zonas de pastagem, com direitos adminis-
trativos sobre as famlias residentes no local. Essa rede de privilgios que levou
vrios autores a falar de feudalismo coincidia, em Ruanda, com a extraordinria
multiplicao do gado desencadeada pelas conquistas do sculo XVIII86.
    Em segundo lugar, pela organizao militar. Com base no modelo dos emi-
twe do Nkore, Ruanda elaborou, principalmente a partir do reinado de Cyirima
Rujugira, um sistema de exrcitos permanentes hereditrios, reunindo jovens
de determinadas linhagens em acampamentos situados nas fronteiras ameaa-
das. Essas milcias guardavam tambm o rebanho real ou que estivesse sob sua
proteo. Elas contavam em suas fileiras tanto com bahutu quanto com batutsi,
e mesmo estrangeiros, especialmente refugiados vindos de reinos vencidos por

86   J. P, Chrtien, 1974; A. Ndikuriyo, 1975; C. W. Newbury, 1976; J. Rwabukumba e V. Mudandagizi, 1974;
     L. Meschi, 1974.
972                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



Ruanda (o Ndorwa, o Gisaka, o Burundi). No sculo XIX, o papel dessa insti-
tuio reduziu-se essencialmente  coleta de impostos, funo conhecida como
"do arco" (umuheto), em favor de grandes chefes que, hierarquicamente, estavam
acima dos "chefes da terra" e dos "chefes das pastagens". A importncia do fator
militar era igualmente sensvel nos outros reinos no fim do perodo87.
    Em terceiro, pelas virtualidades comerciais. At uma data recente, as trocas
institucionalizadas e o escambo local desempenharam um papel comercial mais
importante do que o comrcio especializado. No entanto, produtos regionais como
o sal (o de Katwe no Busongora, ou o de Uvinza), os objetos de ferro (enxadas dos
bazinza ou dos bashi) ou braceletes de rfia (amatega) eram vendidos h muito
tempo. De acordo com os objetos encontrados na tumba do mwami ruands fale-
cido por volta de 1635 ou com as tradies relativas a Yuhi Mazimpaka, objetos
vindos da costa do oceano ndico, especialmente prolas de vidro ou conchas
ornamentais, parecem ter penetrado progressivamente na regio desde o sculo
XVII. Cobre (vindo do Shaba atual?) teria circulado tambm desde o sculo XVIII
no Burundi, no Karagwe e no Buganda. Mas  preciso esperar pelo sculo XIX
para assistir, como no Buganda, a tentativas de controle desse comrcio de luxo
pelos dirigentes do Rusubi, do Karagwe e de Ruanda88.
    Em quarto, pelo controle ideolgico. As mutaes desencadeadas na socie-
dade pelas crises agrrias e pelas guerras de conquista dos sculos XVII e XVIII,
bem como os deslocamentos de populao em busca de comida, terras mais bem
irrigadas ou pastagens mais ricas favoreceram cises de linhagens e reagrupa-
mentos clnicos de carter poltico. Compreende-se o sucesso da religio cwenzi
no sculo XVII (por exemplo, o surgimento de Ryangombe ou de Kiranga em
Ruanda e no Burundi), pois ela oferecia uma espcie de recurso diante dessa
instabilidade. Em uma ampla medida, as novas realezas enraizaram sua legiti-
midade nesse movimento religioso, como atestado por mitos e rituais. Mas os
iniciados podiam tambm inspirar reaes populares subversivas ou entravar a
ao real: no foi o mukama Wannumi do Kiziba enlouquecido pelo mdium
de Wamara, de quem ele tomara as vacas?
    No longo prazo, as monarquias, apoiadas pela classe dirigente e encorajadas
por seus sucessos blicos, tencionaram controlar e usar a seu propsito essa
religio ambgua: no Kiziba, o culto prestado aos reis defuntos relativizava o
poder dos espritos cwenzi; no Kyamutwara, a realeza, desde Rugomora Mahe,


87    D. S. Newbury, 1979; A. Kagame, 1963.
88    R. Gray e D. Birmingham, 1970; J. E. G. Sutton e A. Roberts, 1968; D. S. Newbury, 1980; F. van Noten,
      1972.
A regio dos Grandes Lagos, de 1500 a 1800                                                             973



apoiava-se no culto de Mugasha; em Ruanda, um "rei dos Imandwa" foi ins-
talado na corte a partir do reinado de Cyirima Rujugira. Na mesma poca,
a monarquia ruandesa suscitou a elaborao de um corpus oficial de poesias
panegricas e de narrativas histricas. Essa literatura oral era difundida por meio
dos exrcitos. O ubwiru (cdigo sagrado) fixou os rituais reais e a genealogia
dinstica integrou as linhagens tutsi aliadas (as das rainhas mes).
    O carter excepcional da documentao oral ruandesa reflete o carter excep-
cional de sua centralizao poltica, enquanto, em outros Estados, os diferentes
estratos da sociedade haviam conservado uma autonomia maior at a vspera
da colonizao89.


     Concluso
    O fim do sculo XVIII assistiu ao surgimento das configuraes etnogrficas
e lingusticas modernas da regio dos Grandes Lagos. A maioria dos grandes
deslocamentos de populao ocorridos na regio estava terminada e os contor-
nos dos ltimos grupos tnicos a se formarem no lugar  os bakiga, os iteso e os
lango omiro  estavam se desenhando de acordo com um processo que chegaria
a seu fim por volta de 1830. A maior parte das terras natais dos habitantes de
hoje j estava ocupada por seus ancestrais. Alm disso, com raras excees, a fase
de formao do Estado findou-se quando Ruanda se afirmou como o Estado
mais poderoso do Sul da regio. Na zona central, o declnio do Bunyoro continu-
aria at a secesso, em 1830, do Toro e do pas Paluo, que encerraria uma longa
sequncia de acontecimentos da histria da regio dos Grandes Lagos, cujas
ramificaes se estenderam dos montes Otuke e Elgon, a Leste, at o Alur e as
terras altas do Kigezi, a Oeste, e de Agoro, a Norte, at as plancies onduladas do
Usukuma, a Sul. No incio do sculo XIX, o Buganda adquirira sua dimenso de
Estado preponderante na zona central. Doravante, a preocupao principal do
historiador deslocar-se-ia do crescimento do poder central para os esforos dos
chefes no intuito de exercer um controle sobre o poder do monarca e fixar-lhe
limites. Durante todo o sculo XIX, a histria da regio dos Grandes Lagos
seria assim dominada por uma multiplicidade de temas novos90.



89   J. P. Chrtien, 1981b; A. Kagame, 1981; J. Vansina, 1962a e b; P. Schmidt, 1978; J. N. Nkurikiyimfura,
     1983.
90   UNESCO, Histria Geral da frica, vol. VI, cap. 10.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)                      975



                                      CAPTULO 27


            O interior da frica do Leste:
          os povos do Qunia e da Tanznia
                     (1500-1800)
                                           W. R. Ochieng




    O ano de 1500  geralmente considerado como o marco entre os dois princi-
pais tipos de fontes a que se referem os estudos histricos da frica do Leste: a
arqueologia e a lingustica histrica, por um lado, e as tradies orais, por outro.
Para o perodo anterior ao sculo XVI, os historiadores se apoiam sobretudo no
primeiro tipo. A partir do sculo XVI, as tradies orais constituem seu princi-
pal recurso, completado, no sculo XIX, pelas fontes escritas1. No entanto, quer
sejam orais, quer sejam escritas, as fontes de que dispomos so insuficientes para
conhecer bem ou para reconstituir o perodo que aqui estudamos. Assim como
para o perodo anterior ao sculo XVI, a qualidade desigual dos documentos e,
s vezes, sua ausncia pem um problema maior. Os historiadores, por exemplo,
pouco estiveram inclinados, at mesmo nada, para a sorte de certas sociedades
do interior, como os gorowa, os zigua, os gogo, os turkana, os masa e a maior
parte dos grupos kalenjin, para s citar alguns. Muito lentamente, eles vm
preenchendo esta lacuna, mas nosso conhecimento da histria dessa regio
nesta poca no fica menos comprometido, dadas as enormes disparidades das
fontes de que dispomos. Precisamos, portanto, atenuar o alcance de nossas afir-
maes mais legtimas, lembrando-nos que muitos acontecimentos continuam


1    A maior parte da obras histricas sobre a frica Oriental, que tratam do perodo pr-colonial apoiando-
     -se especialmente nas tradies orais, no remonta a um perodo anterior ao sculo XVI. Ver G. Muriuki,
     1974; H. A. Mwanzi, 1977; W. C. Ochieng', 1974a.
976                                                                                                        frica do sculo xvi ao xviii




                                                                                 0                   125                250 milhas

                                                                                 0                   200                400 km
                                 SUDO
                                                                                                     ETIPIA


                                                                                 Lago Turkana                             SOMALI

                                                                                        EL MOLO

                                                                                                       BORAN
                                     UGANDA                         TURKANA
                                                                                        RENDILLE




                                                                                                                                     SOMLIA
      Lago Alberto
                                                                                SAMBURU
                          NYORO
                                                                KARAPOKOT                          QUNIA
                                          BASOGA            LUYIA
             TORO                                                         MARAKWET
                           BAGANDA                                                             Monte Qunia
                                                          LUO                                                    SOMALI
                KOLE                                                                                                                Equador
                                                                    NANDI                  KIKUYU
         Lago Eduardo                                       LUO      KIPSIGIS
                                                                GUSII
                                     Lago Vitria                                                          KAMBA
                                                            KURIA
                                                                                                                        SOMALI
                                                                                MASA                                OROMO Pat
   REPBLICA                                                                                                           Lamu
 DEMOCRTICA                                                                                                       SWAHILI
                                                                                                                            Manda
   DO CONGO
                             ZINZA        SUKUMA                                CHAGGA             TAITA         Gedi     Malindi
                       SUMBWA                              MASSAI                                     TAVETA
                                          IRAMBA
                                                                                        PARE
                     HA
                                             NYATURA                                                                    Mombaa
                                                                                                 MIJI-KENDA
               LUGULU                                                                       SHAMBAA
                                  NYAMWEZI
                                                                                                  Tanga
                                                          GOGO                                                           Ilha de Pemba
             TONGWE                  KIMBU
                                                                                                  ZIGUA
           Lago Tanganica                                                                                           Ilha de Zanzibar
             BENDE
                                                       TANZNIA
                            PIMBWE                                                          Dar es-Salaam
                                                                                               ZARAMO                     OCEANO
                                                                                                    LUGURU
                                                                  UHEHE                                                    NDICO
                          FIPA


                                                                      BENA
                                             NYIHA                                                                   Kilwa
                                                                                                                     Kisiwani

                                                                                     NGINDO


              ZMBIA
                                                             Lago Malau

                                                                                NGUNI
                                              MALAU




                                                                                     MOAMBIQUE




figura 27.1 Os diferentes grupos tnicos do Qunia e da Tanznia. [Fonte: adaptao de um mapeamento
estabelecido por M. Kivuva, Qunia, apud W. R. Ochieng'.]
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)    977



desconhecidos para ns. Como os professores Alpers e Ehret destacaram muito
bem, seria bem possvel que a pesquisa futura resgate temas de peso igual ou
superior ao das principais interpretaes de ordem social e econmica extradas
dos materiais que nos so atualmente conhecidos2.
    Os sculos XVI, XVII e XVIII viram aparecer sociedades e sistemas sociais
e econmicos que, ainda hoje, continuam caracterizando o interior do Qunia
e da Tanznia. A diversidade das experincias  talvez o trao distintivo da
histria desta regio, ao longo desse perodo. O centro da cena estava ocupado
pelos masa, os chagga, os pare, os shambaa, os gogo e os hehe. Na costa leste
viviam os kikuyu, os kamba, os miji-kenda, os zigua e os zaramo. No Noroeste ,
se achavam os territrios dos abaluyia (luyia), dos kalenjin, dos luo, dos abagusii
(gusii) e dos abakuria (kuria), enquanto, no Sudoeste, habitavam as comunidades
tanzanianas como os sukuma, os iramba, os nyamwezi, os zinza e os kimbu.
    Todos esses povos  com exceo das sociedades implantadas no litoral 
estavam ainda isolados da costa e podiam resolver seus problemas sem levar em
conta fatores econmicos e outros que viriam do litoral no sculo XIX. Nenhum
documento indica que os rabes ou os sualis tenham penetrado no interior
antes do sculo XVIII e "nenhum dos stios arqueolgicos, anteriores ao sculo
XVII e situados no interior, a Norte do Zambeze, mostrou ainda o menor sinal
de um conjunto substancial de objetos importados3". A partir de meados do
sculo XVII, entretanto, aparecem as primeiras chefias e modos de organizao
poltica estruturados (embora muitas vezes descentralizados) e se delineia uma
evoluo orientada para a generalizao de um modo de produo tributria.
Era a expresso de uma tendncia deliberada a realizar uma integrao social e
poltica no seio de comunidades econmicas e polticas cada vez mais extensas,
de cujos membros os soberanos tiravam o tributo que sustentava sua famlia e
seu squito. As tradies orais descrevem esta evoluo como um movimento
de conquista e de assimilao pelas populaes migrantes mais poderosas que
os autctones. Pode-se tambm supor que estes neutralizaram e fixaram pro-
gressivamente as atividades que perturbavam comunidades at ento nmades
ou migrantes.
    Por definio, toda histria  transio de um estgio para outro. Ao longo
dos sculos que decorreram aps 1500, as sociedades do interior do Qunia e da
Tanznia participaram do processo de formao dos diferentes grupos tnicos
que conhecemos hoje, com suas caractersticas lingusticas e culturais especficas.

2    E. A. Alpers e C. Ehret, 1975, p. 470.
3    R. Oliver, 1977, p. 621.
978                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



A atividade econmica predominante era sem dvida a agricultura. Em todas as
comunidades agrcolas sedentrias, as pessoas observavam as peculiaridades do
meio ambiente e esforavam-se por encontrar tcnicas para adaptar-se a ele e
utiliz-lo de modo racional. "Os homens, como diz John Iliffe, se conformavam
s exigncias da terra4." Certas regies aplicavam mtodos evoludos como a
cultura em terraos, a rotatividade de culturas, os adubos verdes, a cultura mista
e a drenagem dos pntanos.
    Se a maioria dos africanos do Leste eram agricultores, havia tambm os
que, como os masa, os pokot e os turkana, eram sobretudo guardadores de
rebanhos que levavam seus animais dos pastos at os poos de gua pelas
plancies centrais da Tanznia e do Qunia. Em nenhum momento, como se
h de ver, os agricultores ou criadores procuraram a exclusividade ou a espe-
cializao econmicas. Cada atividade econmica se fundava insensivelmente
em outra e todas estavam sujeitas  flutuao e s mudanas5. Muitas vezes,
os agricultores, como os luo e os abagusii, possuam tambm importantes
rebanhos, enquanto os criadores, como os samburu e os masa arusha, culti-
vavam tambm a terra. Os baraguyu, os kalenjin e os akamba (kamba) eram
semiagricultores e semicriadores.
    Os sanies, os okiek, os sandawe e os hadapi viviam sempre da colheita
de bagas, de legumes e de frutas e da caa aos animais selvagens de pelo e
plumagem, mas, mesmo entre este povos de caadores e colhedores, podia-se
observar um leque cada vez mais amplo de meios de subsistncia6. Os okiek,
por exemplo, trocavam mel por produtos agrcolas, enquanto os caadores
dorobo e athi entregavam-se a longos percursos para o trfico de marfim e, no
final do sculo XIX, comearam a adquirir gado. Henry Mwanzi nos informa
que, no sculo XIX, quando as caravanas de comerciantes sualis alcanaram
o pas dos kipsigi, era esta populao de origem okiek a mais hbil em obter
o que vinham buscar, isto , marfim. Sobrepujava os povos vizinhos por suas
tcnicas de caa e por seu conhecimento do percurso dos elefantes. Os kipsigi
"desempenhavam um papel de intermedirios, caando o elefante e vendendo
o marfim s caravanas7". Durante a maior parte dos sculos XVII e XVIII,
os agricultores, bem como os criadores, viviam disputando as pastagens e os


4     J. Iliffe, 1979, p.6.
5     E. A. Alpers e C. Ehret, 1975, p. 469-511; A. M. H. Sheriff, 1980; R. M. A. van Zwanenberg e A. King,
      1975, p. 79-109.
6     R. H. Blackburn, 1976 e 1982.
7     H. A. Mwanzi, 1977, p. 155-166.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)         979



planaltos mais ricos e irrigados, invadindo ao mesmo tempo os domnios dos
caadores e dos colhedores, o que terminava na absoro, no extermnio e no
isolamento destes.


     A evoluo econmica
    No comeo do sculo XIX, a agricultura e a criao de gado eram as duas
principais atividades econmicas do interior do Qunia e da Tanznia. A fome,
diz-nos John Iliffe, era ento a maior calamidade que o homem tinha que
afrontar8. Sobrevinha por causa da pobreza dos solos da frica do Leste e da
irregularidade das chuvas, que constitua uma ameaa tanto para as culturas
quanto para o gado.
    O suplcio da fome no poupava sequer as regies mais favorecidas. Sem
dvida, os bananais brotavam por toda a parte no Usambara, mas as tradies
dos shambaa nos contam a ocorrncia de fomes pelo menos a cada quinze
anos. "Livrai-nos da morte pela fome", oravam os homens das terras frteis
de Unyarkyusa, nas margens do lago Malawi9. As tradies dos haya, dos
miji-kenda, dos hehe e dos kamba tm abundantes narrativas que atestam
frequentes perodos de carestia, e a fome  a principal explicao das migra-
es e das transformaes sociais na maior parte das tradies quenianas e
tanzanianas. Grande parte dos antigos cls do Sul de Usambara afirmam ter-
-se estabelecido nesta colina frtil para fugir das fomes que flagelavam Zigua:
"Eles se beneficiavam, nas montanhas, de chuvas abundantes e de viosos
bananais10." O Usambara foi, em 1899, atingido por uma fome terrvel: "Os
homens comiam as razes das rvores e a casca das bananas, vrias centenas
se tornaram cristos para saciar sua fome11". Quando as chuvas no vinham,
os homens tinham duas possibilidades:
         Alguns partiam em busca de alimentos pelo mato. A habilidade para a caa e para
     a coleta era ento um talento da maior importncia, e os que possuam este dom,
     como os sandawe, eram menos frequentemente dizimados do que seus vizinhos. Uns
     se voltavam para as reservas que seus rebanhos representavam, no para com-los



8    J.Illife, 1979, p. 6-9.
9    Ibid., p. 13.
10   S. Feierman, 1968, p. 12.
11   Ibid., p. 14.
980                                                                   frica do sculo xvi ao xviii



      mas para trocar animais por gros com grupos mais afortunados que eles ou para
      explorar laos sociais criados pelas trocas anteriores de gado12.
    Entretanto, a primeira arma de que o cultivador dispunha contra a fome
era mesmo seu savoir-faire agrcola. O perodo posterior a 1500 foi um imenso
campo de experimentao das culturas que tinham sido introduzidas muito
mais cedo pelos bantos e pelos nilotas. Nas regies arborizadas e bem irrigadas,
a agricultura era pouco voltada para o sorgo, a eleusine e o milho, e baseava-se
principalmente nas plantaes, especialmente de bananas e tubrculos. Depois
de 1500, muitas plantas europeias e americanas foram introduzidas pelos por-
tugueses na frica do Leste, em especial o milho, o amendoim, a batata doce e
a mandioca, desde ento todas clssicas na regio. Embora sejam de introduo
recente, conhece-se mal o modo como elas se alastraram. Parece, no entanto, que
seja em funo do tipo de meio que cada planta requeria. Pensa-se, por exemplo,
que a mandioca atingiu pela primeira vez a regio dos Grandes Lagos na frica
do Leste, provindo ao mesmo tempo do Congo e de Zanzibar13, enquanto o
caminho pelo qual chegou o milho na mesma regio era talvez o do Leste, atra-
vs da Etipia14. Outros recursos alimentares, compreendendo sobretudo todo
tipo de ervilha, de feijo e de nozes, foram e acendo so cultivados na regio.
    Como quer que seja, o cultivador leste-africano experimentou todas estas
culturas no seu ambiente, procurando obter as colheitas mais abundantes
possveis.
          Como as vias de comunicao e as feiras eram relativamente pouco numerosas,
      o cultivador devia semear um grande nmero de espcies vegetais com caracters-
      ticas muito diversas, a fim de poder sobreviver a quaisquer que fossem as variaes
      climticas e de no ser pura e simplesmente aniquilado. Estabelecendo-se em uma
      s zona ecolgica, tendo uma compreenso global de toda sua complexidade, de
      que o ocidental no faz ideia, elaborando uma linguagem rica e sutil, abundante em
      termos que serviam  apreenso da ecologia local, praticando dezenas de culturas s
      quais o meio estava particularmente adaptado, o cultivador se esforava para vencer
      a fome e enganar a morte15.
    Quando, em meados do sculo XVIII, os abagusii, vindos das plancies que
circundam o golfo de Winam, se estabeleceram nas montanhas do Sul do Qu-

12    J. Iliffe, 1979, p. 13.
13    M. D. Gwynne, 1975, p. 268-270; B. W. Langlands, 1966, p. 12.
14    A. C. A. Wright, 1949, p. 80; M. D. Gwynne, 1975, p. 253.
15    S. Feierman, 1974, p. 19.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)   981



nia, o fracasso imediato de suas culturas provocou uma fome que dizimou
a populao. Foram obrigados a cultivar em menor quantidade as numero-
sas variedades de sorgo e as outras plantas que faziam brotar nas plancies, e
aumentar sua produo de milhete e de razes alimentcias que estavam muito
bem adaptadas a seu novo meio16. Somente uma longa experincia podia pro-
porcionar esse tipo de capacidade, na qual se assentava a autoridade da idade17.
No sculo XVIII, as regies do interior do Qunia e da Tanznia comportavam
vrios sistemas agrcolas diferentes.
   Dissemos que os habitantes de todas as comunidades observavam as parti-
cularidades de seu prprio meio ambiente e se esforavam em pr em prtica
tcnicas que lhes permitissem utiliz-las de modo racional. A cultura aps a
queimada, muito difundida, era habitual e permitia a cultivo de novas terras
por vrias estaes. Quando os solos ficavam esgotados, o agricultor se deslo-
cava para que eles pudessem se recuperar. De acordo com as poucas indicaes
de que se dispe, parece que no conjunto das regies do interior do Qunia e
da Tanznia todos os sistemas agrcolas se apoiavam na fora de trabalho de
exploraes equipadas das mesmas ferramentas simples: machados, enxadas,
panga e venbulos.
   A criao de aves, de ovelhas e de cabras continuou sendo uma atividade
econmica e cultural essencial no interior de frica do Leste, em particular
nas regies relativamente secas e pouco povoadas do vale do Rift, no Qunia, e
nos grandes planaltos herbosos da Tanznia Central. As cabeas de gado eram,
como o observou Abdul Sheriff, uma forma de riqueza mais fcil de estocar
que matrias alimentcias vegetais18. O estrume animal desempenhava um papel
importante na intensificao das culturas. O gado fornecia vestes e alimentos,
armas e ferramentas. Entre os criadores, como os masa e os turkana, a criao
determinava o desenrolar da vida cotidiana e as relaes de parentesco; a riqueza
de uma famlia e a segurana individual se mediam pela posse de gado19. Mesmo
entre os povos de agricultores sedentrios e nas sociedades mistas agrcolas e
pastoris, a posse e manuteno de gado de grande porte e de outros animais
domsticos tinham um grande valor econmico e social. Em numerosas socieda-
des sobretudo agrcolas, entre os kikuyu e os abagusii, por exemplo, a aquisio
e a posse de gado eram tidas como sinais evidentes de fortuna e prestgio, "e


16   M. H. Y. Kaniki, 1979, p. 14.
17   R. W. July, 1974, p. 180.
18   M. H. Y. Kaniki, 1979, p. 14.
19   R. W. July, 1974, p. 180.
982                                                          frica do sculo xvi ao xviii



suas relaes com os povos vizinhos, masa e akamba, estabeleciam-se nesse
contexto20". Os turkana, os luo, os kalenjin e os masa tomavam emprestado
e emprestavam gratuitamente o gado que, alis, formava o dote das mulheres.
Assim, o rebanho de cada famlia se dispersava entre um grande nmero de
amigos ou de parentes que muitas vezes viviam em regies distantes, o que era
de proveito tanto para os indivduos quanto para a sociedade em seu conjunto.
"A disperso de seu rebanho diminua para cada um o risco de ver seus animais
dizimados por uma catstrofe: epidemia, incurses ou seca21." Ao emprestar
gratuitamente seu gado, um indivduo aumentava o nmero de seus amigos, de
seus parentes ou simplesmente daqueles com que poderia contar em caso de
necessidade.
    A riqueza dos povos predominantemente pastoris no se limitava  posse
dum rebanho, era tambm fundiria. Grupos como os oromos, os somalis e os
masa desdobravam sua atividade sobre vastos territrios da frica do Leste.
"Com sua mobilidade natural, sua coeso poltica e graas  sade e ao vigor
que lhes proporcionava em geral seu regime alimentar rico em protenas  base
de leite, de sangue e carne, os pastores nmades dominavam militarmente uma
grande parte da frica do Leste22."De fato, dar-se-ia uma imagem adequada da
geografia econmica do interior do Qunia e da Tanznia, em meados do sculo
XVIII, apresentando-a como um "mar" de economia pastoril banhando algumas
"ilhas" de produo agrcola. Definitivamente, os pastores, em virtude de seu sta-
tus social, de sua riqueza, da extenso de seu territrio e de seu poderio poltico
e militar, impunham seu modo de produo e de vida, e eram invejados.
    A caa era uma atividade complementar da agricultura e da criao de gado,
tanto como fonte nutricional quanto para a proteo das culturas. Muitas tradi-
es leste-africanas evocam sua importncia, em especial entre os povos pobres
em gado e, por conseguinte, em protenas animais. As histrias, particularmente
dos luo, dos shambaa, dos pare e dos abakuria, explicam que, muito comumente,
os movimentos migratrios eram faanha de caadores que, ao perseguir um
animal, descobriam um lugar que lhes convinha e onde decidiam se estabe-
lecer. A origem mtica do Reino de Shambaa nos  revelada pela histria de
Mbegha, um caador ngulu que matava os porcos selvagens que destruam as
culturas dos shambaa, e distribua gratuitamente a carne assim conseguida. "Os
shambaa, para testemunhar sua admirao e seu reconhecimento, lhe deram

20    R. M. A. van Zwanenberg e A. King, 1975, p. 80.
21    R. W. July, 1974, p. 180.
22    R. M. A.van Zwanenberg e A. King, 1975, p. 80.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)   983



mulheres e o fizeram rei de todo o Usumbara23." O fundador da dinastia dos
Muyinga, que reinou sobre os hehe, viera, segundo se diz, de Ikombagulu (em
Usagara) durante uma expedio de caa24. Diz-se tambm que os fundadores
das chefias sumbwa, zinza, tongwe e bende eram "caadores originrios de Buha,
do Burundi, de Rusuubi ou de Ruanda"25. Portanto, a caa era uma atividade
importante e respeitada.
    Os homens caavam os animais por sua carne, a fim de completar seu regime
alimentar vegetal. As terras cultivadas e os animais domsticos precisavam ser
protegidos contra os animais selvagens e os pssaros. Impedir os herbvoros e
os roedores de destruir as culturas era a tarefa dos homens; eles se empenhavam
em cavar trincheiras e alapes, preparando armadilhas e caando com dardos
e arcos, e com ces.
    A importncia atribuda pela tradio  criao,  agricultura e  caa con-
trasta com o pouco caso, ao que parece, com relao  pesca, salvo entre as
comunidades que viviam nas margens dos lagos Turkana, Vitria, Baringo, Eyasi
e no litoral do Oceano ndico. Diversas espcies de peixes se pegavam com linha,
redes, cestos e nassas. O peixe secado era e  sempre vendido aos habitantes
distantes dos lugares de pesca.
    As tradies da maior parte dos povos da frica Oriental atestam a anti-
guidade de seu conhecimento do trabalho do ferro, seja quanto  fundio, seja
quanto  forja. Os arquelogos e os linguistas estabeleceram da mesma forma
que as tcnicas da metalurgia foram introduzidas na frica do Leste pelos
bantos, provavelmente seis sculos antes de nossa era. Os mais velhos stios da
idade do ferro na frica Oriental se acham ao redor do lago Vitria (Buhaya,
Rwanda, Nyanza e Chobi). Os de Buhaya remontam ao sculo V ou VI antes
de nossa era, e os que esto na margem do golfo de Winam e no Norte da
Uganda datam do sculo III ou IV de nossa era26. "Estes stios se caracterizam
por fornos de fundio altos e cilndricos, por olarias de um estilo particular
chamado urewe, pela densidade populacional dos vilarejos e pela prtica da
agricultura27." Um outro conjunto de stios do comeo da idade do ferro (sculo
II ou III antes de nossa era) acha-se em Kwale, em Pare, na regio do Kiliman-
jaro e em Usambare. "Estes stios se caracterizam por olarias de estilo kwale;


23   A. D. Roberts, 1968a, p. 5.
24   Ibid., p. 39.
25   Ibid., p. 120.
26   H. N. Chittick, 1975, p. 18; T. T. Spear, 1981, p. 12.
27   T. T. Spear, 1981, p. 12.
984                                                                            frica do sculo xvi ao xviii




figura 27.2 Ferreiros fabricando uma enxada. [Fonte: D. Livingstone, Last journals, Londres, John Murray,
1874, vol. I, p. 146.  Royal Commonwealth Society Library].



descobriram-se a vestgios de um habitat sedentrio e de atividade agrcola28."
Geralmente, a metalurgia do ferro era a ocupao exclusiva de um pequeno
nmero de grupos, era muito prestigiada e, por vezes, possibilitava enriquecer-
-se. Para os nyiha, a fundio do ferro era cercada de uma grande cerimnia,
durante a qual era absolutamente proibido s mulheres aproximarem -se do
forno29. Muitas tradies ugweno do conta que, l pelo comeo do sculo XVI,
certas famlias eram especializadas na fundio e forja do ferro. A principal, a
famlia Washana, detinha o poder poltico no pas. Foi mais tarde destruda pelos


28    Ibid., p. 12-13; D. W. Phillipson, 1977. Para maiores esclarecimentos, ver UNESCO, Histria geral da
      frica, vol. II, cap. 23.
29    R. Brock, 1968, p. 75.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)     985



wasuya que transformaram aquilo que havia sido at ento um ritual de inicia-
o clnica em uma instituio poltica complexa dotada de poderes coercitivos
ilimitados30. No Oeste do Qunia, os abagusii pretendem ter trabalhado o ferro
desde o sculo XVI. Seus ferreiros, segundo eles, teriam enriquecido de modo
considervel com a venda dos produtos por eles fabricados31. Entre os luo, ao
Norte do golfo de Winam, os principais ferreiros eram os walowa de Yimbo32.
Fabricavam enxadas, pontas de flecha, ornamentos, agulhas, machados, lanas,
facas e navalhas. A explorao das minas de sal e o artesanato, assim como a
fabricao de tambores, a olaria e a construo de canoas tinham tambm sua
importncia. A tradio fazia destas atividades as especialidades exclusivas de
determinados cls. O ofcio de cesteiro e a construo de casas, pelo contrrio,
no eram apangio particular de especialistas, antes eram empreendidas por
todos os que tinham tempo para se dedicarem a isso.
    Afinal de contas, no se poderia destacar o suficiente como, entre 1500 e
1800, a produo de vveres foi incessantemente um fator primordial para a
sobrevivncia e a expanso da sociedade, uma vez que ela permitiu um cresci-
mento regular da populao.  medida que as exploraes agrcolas extensivas
e as pastagens cobriam a maior parte da frica do Leste e que a produo per-
mitia satisfazer as necessidades essenciais, o homem podia desviar o seu olhar do
imediato para dirigi-lo a outros objetivos. Sabia conservar e estocar alimentos e
podia assim empregar o tempo livre a outros fins alm da procura dos meios de
subsistncia. Estava em condies de comear um processo de especializao,
desobrigando determinados indivduos da tarefa de produzir alimentos para
que se consagrassem a outros objetivos, tais como a produo de mercadorias, a
conduo da guerra, o servio do Estado, a arte, a religio, a medicina, a filosofia
e o progresso tcnico.

     O comrcio
    At o final do sculo XVIII, a maior parte das sociedades do interior do
Qunia e da Tanznia desenvolvia-se independentemente das foras globais
externas. Eram poltica, econmica e socialmente independentes. Conforme
afirma Sheriff, "sua economia era simtrica e integrada, isto , elas produziam o
que consumiam e o excedente era conservado no interior da coletividade para


30   I. N. Kimambo, 1969, p. 45-64.
31   W. R. Ochieng', 1974a, p. 213.
32   Idem, 1970, p. 8.
986                                                           frica do sculo xvi ao xviii



favorecer o avano de ofcios no-agrcolas e a diferenciao social33". A troca
de vrios excedentes chama-se comrcio.
    O comrcio, troca de bens entre indivduos para vantagem mtua,  um
hbito humano universal que se encontra mesmo entre as comunidades mais
simples. Embora sejam correntemente consideradas como economias de sub-
sistncia autossuficientes, frequentemente se encontra um comrcio no sentido
de uma srie regular de atos de troca, inclusive entre os que vivem da caa e
da coleta. A necessidade do comrcio decorre do simples fato de em nenhum
momento a natureza dotar todos os grupos e todas as regies de meios e recursos
semelhantes. As pessoas puseram-se a fazer comrcio, porque seus vizinhos pos-
suam bens essenciais que lhes faltavam, mas de que tinham igual necessidade
seja para viver, seja para seu prazer.
    Tomemos como exemplo a relao entre pastores e agricultores. H, eviden-
temente, a ideia falsa que consiste em considerar a vida pastoril como histori-
camente separada, e essencialmente antagnica, da agricultura. O fato  que a
produo literria colonial criou a imagem de uma perptua luta entre pastores
e agricultores.  verdade, pode-se falar de contrastes entre os dois, mas sem
esquecer tudo o que incitava  cooperao: pastores e agricultores trocavam
seus produtos.
    Muito se escreveu sobre as relaes comerciais existentes h sculos entre
a frica do Leste e o Oriente. Com efeito, mesmo antes do estabelecimento
do comrcio longnquo que, no sculo XIX, iria tornar-se a espinha dorsal das
trocas comerciais entre a frica do Leste e os pases de ultramar, tais trocas
j existiam entre a frica do Leste e os Estados asiticos34. Importa, porm,
sublinhar que as relaes comerciais de alguma importncia na frica do Leste
no se limitavam s trocas meramente comerciais com os mercados estrangeiros,
porque havia laos comerciais internos importantes entre as diferentes regies
culturais e ecolgicas.
    O comrcio africano foi de h muito estimulado pelos contatos entre regies
ecolgicas distintas e culturas ao mesmo tempo distintas e complementares. Poder-
-se-ia at afirmar que  aquele comrcio que verdadeiramente contava para os povos
africanos, porque constava de artigos correspondentes a carncias essenciais, muitas
vezes determinadas por fatores ecolgicos e climticos. O comrcio interno africano
obedecia a motivaes e a uma dinmica diferentes das do comrcio rabe ou euro-
peu. Em certas regies, por exemplo, vencer a fome era um dos principais objetivos

33    A. M. H. Sheriff, 1980, p. 36.
34    Ver o captulo 25.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)    987



do comrcio africano. Em consequncia, era irregular e espordico. Era tambm um
meio de enriquecer-se pelo acmulo de gado e produtos alimentcios.
    Examinemos alguns exemplos desse comrcio. As tradies dos kikuyu falam
de ligaes comerciais antigas entre eles e seus vizinhos, os akamba e os masa. A
economia kikuyu possua variados recursos. Os kikuyu eram, com certeza, prin-
cipalmente agricultores, mas convm lembrar que certos grupos, como os kikuyu
de Tetu e os mathira em Nyeri, estavam em tal medida influenciados pelos seus
vizinhos masa, que haviam evoludo para uma economia semipastoril e viviam
quase como os masa. No outro extremo, havia a faco athi dos kikuyu que se
especializara na caa, na explorao de produtos da floresta e na coleta da cera de
abelha e do mel. Aos masa, os kikuyu ofereciam diversos produtos manufatura-
dos e tantos produtos agrcolas  potes, cabaas, lanas e espadas, mas tambm
mel, tabaco, crinas de elefante e ocras , todos produtos que os masa pagavam
com gado, com magia, com leite, com peles e com capas de couro.
    Os territrios kikuyu foram tambm excelentes mercados para os akamba
aps 1760. Os negociantes akamba buscavam, junto s comunidades kikuyu de
Muranga e Nyeri, os produtos agrcolas bsicos que faltavam em parte no seu
pas: certa espcie de feijo que podia ser conservada (nzavi), uma variedade
de inhame (ikwa), a maranta arundincea que crescia nos poos de gua do
interior (nduma), um feijo muito comum entre os kikuyu (njaki), o milho cls-
sico (mwembe) e, s vezes, um legume verde de que os akamba muito gostavam
(ndulu). Pagavam essas mercadorias com peles de animais (mbua) e certo tipo
de cerveja (uki) que fermentava mais do que aquela das comunidades vizinhas
e, oportunamente, trocavam seu trabalho no momento das colheitas em troca
de uma parcela dos produtos recolhidos35.
    Mais a Oeste, na margem oriental do lago Vitria, uma vasta rede de relaes
comerciais ligava as diversas comunidades entre si. Os principais parceiros das
trocas eram os abagusii e os luo. Os primeiros vendiam aos segundos produtos
agrcolas e artigos de ferro, como machados, lanas, navalhas e pontas de flechas,
assim como esteatito e peles de leopardo e de babuno. Tudo isso era trocado por
diversas mercadorias que os luo ofereciam, principalmente gado, mas tambm sal
para o gado, peles, manteiga clara, leite, peixes, loua e bebida. O comrcio entre
os masa e seus vizinhos do Nyanza era de pouca monta, ainda que as lanas
de ferro largo dos masa, assim como sua magia, fossem muito prezadas pelos
abagusii e pelos luo. Os masa recebiam em paga produtos alimentcios36.

35   K. Jackson, 1976.
36   W. R. Ochieng', 1974, p. 68-69.
988                                                         frica do sculo xvi ao xviii



    Quando se desce para o Sul, na Tanznia, as tradies do Unyamwezi Oci-
dental e do Uvinza falam de grupos de migrantes vindos do Norte antes de
1800 e que trocavam cereais por potes com os primeiros habitantes da regio,
"pescadores que viviam at ento nas margens dos cursos dgua e no faziam
seno agricultura37". Entre os nyamwezi, produtos da floresta  tecidos de fibra
de casca de rvores, caixas de cascas e hastes de lanas, mel e cera de abelha 
eram tambm o objeto de um comrcio entre vilarejos e eram especialmente pro-
curadas pelos pases do Norte, onde viviam os iramba, os sumbwa e os sukuma.
Em Unyakyusa, a maior parte das mulheres fazia potes de barro, mas as regies
vulcnicas, que no possuam argila, tinham que esperar pela passagem de espe-
cialistas como as mulheres kisii das margens do lago Nyasa que, trocando seus
vasos de barro, iam de casa em casa nas aldeias nyakyusa, ou dos habitantes
de Ngaseni que vendiam suas grandes bilhas para cerveja ao longo da via que
serpenteava pelos altos aclives do Kilimanjaro38.
    O ferro e o sal constituam provavelmente os dois principais artigos, os mais
importantes nos primeiros tempos do comrcio na Tanznia Central. A princi-
pal regio de extrao e de trabalho com ferro se achava no Norte, no pas dos
ha e dos zinza. A escassez geral do ferro encorajava demais sua comercializao.
Fosse na Tanznia Central, Ocidental ou Setentrional, era utilizado de formas
muito diversas: ferros de enxadas para a cultura, lminas de facas e ferros de
machados para a construo e outros trabalhos artesanais, ferros de lanas e
pontas de flecha para a caa, a pesca e a guerra. Numerosos eram os comercian-
tes do Norte e do Sul que se dirigiam ao pas dos ha e dos zinza para comprar
esses artigos de ferro e revend-los em seu pas mediante lucro. Os nyamwezi
do Norte introduziram as enxadas de ferro entre os nyatura. Andrew Roberts
nos explica que aquelas do Norte eram trabalhadas novamente para fazer ferros
de lanas, no somente entre os pescadores sukuma e wakiko do Baixo Mala-
garasi, mas tambm entre os masa do Oeste do Baraguyu39. No Nordeste, os
chagga e os masa obtinham produtos de ferro junto a fundidores de Pare e,
pelo final do sculo XVIII, o principado mamba se tornou o centro do trabalho
com ferro para uma grande parte da regio do Kilimanjaro. No Sul, os ferreiros
fipa trocavam o produto de seu trabalho pelos tecidos produzidos no vale do
Rukwa, enquanto os nyakyusa enfrentavam os montes Livingstone para trocar
produtos alimentcios por produtos sados das fundies kinga. O ferro era um

37    A. D. Roberts, 1970c, p. 43.
38    J. Iliffe, 1979, p. 18.
39    A. D. Roberts, 1970c, p. 45-46.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)    989



bem raro e precioso. Precisava ser rico para possuir enxadas de ferro. As que eram
utilizadas na regio do Kilimanjaro pelo final do sculo XVIII tinham apenas
alguns centmetros de largura e os sandawe que se serviam delas as gastavam
at o cabo40.
    Outro produto central das trocas regionais era o sal, necessidade vital dos
homens, cuja alimentao era essencialmente  base de vegetais. A maior parte
das pessoas conseguiam produzi-lo em pequenas quantidades, queimando erva
ou raspando depsitos superficiais, mas raras eram as reservas de boa qualidade.
Os principais poos salinos encontravam-se em Ivuna, em Kanyenye, em Ugogo,
na margem do lago Balangida, em Singida e nas margens do lago Eyasi, bem
como em Bukuna e Bulungwa, no Sul de Kahama, e as mais importantes reser-
vas de gua salgada se localizavam em Buha e em Uvinza. O comrcio de todo
esse sal era geral, mas ele se efetuava "particularmente em direo ao Norte e ao
Sul41". As reservas de Uvinza, em especial, parecem ter sido exploradas desde o
primeiro milnio de nossa era42. A indstria salineira de Vinza foi depois esti-
mulada pela fundao da primeira chefia vinza em 1800, "que ampliou o leque
dos contatos sociais e criou um grupo social que se beneficiava diretamente, com
a aplicao de uma taxa, do crescimento da produo de sal43".
    O comrcio entre os miji-kenda do Sudeste do Qunia e do Nordeste da
Tanznia comeou a tomar uma importncia substancial a partir de meados
do sculo XVIII.  ao longo deste perodo que a maioria dos miji-kenda, que
antes se haviam entrincheirado nas aldeias fortificadas construdas no topo das
colinas situadas alm das plancies costeiras, comearam a sair de seu territrio.
A seguir, tendo sua populao crescido de modo considervel, lanaram-se em
uma srie de novas migraes que os conduziram s partes baixas menos frteis
de seu pas cheio de vales, onde tiveram choques frequentes com os oromos e
os masa44.
    Os miji-kenda eram essencialmente cultivadores de milhete, de arroz e de
frutas. Durante todo o sculo XVIII, foram os aliados indefectveis dos mazrui e
abasteceram regularmente numerosas aldeias do litoral de todo tipo de produtos,
como marfim, goma arbica, mel, cera de abelha, tabaco, cereais, produtos alimen-
tcios e madeira para a construo de veleiros. Em troca, os negociantes miji-kenda


40   J. Iliffe, 1979, p. 19.
41   A. D. Roberts, 1970c, p. 47.
42   J. Iliffe, 1979, p. 19.
43   A. D. Roberts, 1970c, p. 47.
44   T. T. Spear, 1976 e 1978.
990                                                            frica do sculo xvi ao xviii



obtinham sal, prolas de vidro, tecidos, enxadas de ferro e outros artigos. Se cremos
em John Lamphear, desde 1750, seno mais cedo, os miji-kenda eram interme-
dirios do comrcio suali e rabe45. Suas caravanas ligavam a costa ao interior do
pas, percorrendo uma rota rumo ao Norte e ao Noroeste . No primeiro rumo,
os mercadores miji-kenda atravessavam o pas dos oromos e dos borna, de quem
obtinham especialmente gado em troca de tecidos e prolas. No rumo noroeste,
penetravam no pas akamba e chagga, onde obtinham marfim, mel e cera de abe-
lha46. Mas o domnio dos miji-kenda sobre o comrcio interior foi de curta durao
e, na segunda metade do sculo XVIIII, foram suplantados pelos akamba.
    As consideraes precedentes nos levam a pensar que o comrcio das regies
interioranas do Qunia e da Tanznia, em 1700 ou mesmo antes, talvez origi-
nasse trocas de longa distncia.  claro, entretanto, que foi somente por volta
de 1800 que o interior da frica do Leste comeou a participar do comrcio
distante e, portanto, a ser ligada aos sistemas econmicos que o sustentavam.


      A atividade social e poltica
    As instituies e organizaes sociais e polticas desempenhavam um papel
importante na manuteno da coeso social e na proteo da propriedade e do
comrcio.  preciso notar que, nessa poca, a sociedade do interior da frica
Oriental estava longe de ter adquirido sua fisionomia definitiva. Se bem que
o mapeamento lingustico da frica Oriental estivesse ento em via de tomar
o aspecto que ele tem hoje em dia, importantes migraes internas continua-
vam a se produzir rumo s regies menos povoadas ou desabitadas. Punham,
s vezes, em contato populaes que falavam lnguas ou dialetos diferentes ou
que no tinham a mesma organizao poltica e econmica. Os conflitos se
multiplicavam no interior das sociedades africanas na medida em que os cls
se estendiam e cresciam. Achar uma maneira de resolver os conflitos de modo
eficaz tornava-se uma necessidade. Quando uma querela entre cls surgia, as
partes procuravam a arbitragem de indivduos respeitados por sua sabedoria. Em
certas regies, por exemplo Shambaa47, Yimbo48, Nandi49 e Unyiha, grupos ou


45    J. E. Lamphear, 1970; W. R.Ochieng', 1975b.
46    W. R.Ochieng', 1974a e b.
47    S. Feierman, 1968, p. 1-8.
48    W. R. Ochieng', 1975c e 1976.
49    Idem, 1977, p. 58-76; B. J. Walter, 1970.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)                           991




figura 27.3 Estatueta kamba representando uma figura feminina; madeira tendo uma ptina natural clara.
O pescoo e os tornozelos ostentam numerosos anis de cobre e os olhos, o umbigo e os cabelos incrustaes
de metal. Altura: 26,5 cm. [H. Dubois, Bruxelas.]
992                                                          frica do sculo xvi ao xviii



famlias de migrantes impuseram sua dominao poltica sobre as comunidades
autctones. Alhures, eles foram assimilados pelas instituies da sociedade local.
Nos dois casos, as migraes interiores desencadearam processos de integrao
cultural e poltica que prosseguiram no perodo colonial.
   Em outras palavras, os sculos XVI, XVII e XVIII foram marcados, do ponto
de vista poltico e cultural, por uma tendncia a uma centralizao poltica maior
e pela constituio de grupos lingusticos e sociais cada vez mais importantes.
Alguns fatores conspiravam para uma passagem a uma escala poltica mais vasta.
Era necessrio, por exemplo, pr em prtica meios de defesa mais eficazes que
aqueles que o cl ou a aldeia podiam oferecer e alargar os espaos da atividade
econmica. Diversos modos de organizao social passaram a existir no interior
da frica Oriental, sendo que o contraste mais evidente, no entanto, era o que
opunha os criadores aos cultivadores50.
   Os pastores eram, assim como os caadores, parasitas que viviam s expensas
dos herbvoros. Como os caadores, eles levavam uma vida errante, deslocando-
-se por muito longas distncias para procurar pastagens. Seguiam muitas vezes
um esquema mais ou menos regular de migrao que lhes permitia descobrir
os terrenos de pastagem mais ricos e mais irrigados, segundo as estaes do
ano. Acima de tudo, tinham que proteger seus rebanhos contra os inimigos
carnvoros, que podiam ser animais ou outros homens. Este tipo de vida no
podia existir sem uma forma organizada de comando. Importava que houvesse
uma autoridade hierarquizada claramente identificada para determinar as rotas
a seguir e para tomar o comando da comunidade toda em caso de urgncia,
quando os inimigos tentavam introduzir-se nas pastagens tradicionais da comu-
nidade ou furtar os animais de seus rebanhos51.
   Em certo sentido, a histria poltica do interior do Qunia e da Tanznia foi
a de uma oscilao entre a superioridade numrica tornada possvel pela agri-
cultura e a organizao poltico-militar disciplinada que a vida pastoril exigia.
O equilbrio balanava ora em favor de um, ora em favor de outro destes modos
de vida, segundo as flutuaes da organizao e da coeso sociais e em funo
do progresso tcnico. Em 1800, os pastores comeavam a perder seu poder eco-
nmico e militar em benefcio dos cultivadores que melhoravam rapidamente
suas instituies polticas graas  integrao social e ao aperfeioamento de suas
capacidades agrcolas. Durante todo o sculo XIX, as doenas que destruam o
gado, as epidemias e as guerras civis acarretaram, por exemplo, o declnio militar

50    B. Brock, 1968.
51    R. M. A. van Zwanenberg e A. King, 1975, p. 79-87.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)   993



e econmico dos criadores masa52. Seria possvel, portanto, dizer que a evoluo
sociopoltica das regies do interior do Qunia e da Tanznia se acelerava com
a multiplicao das organizaes sociais e das migraes.
    Havia, no princpio do sculo XVIII, dois tipos de formaes sociopolticas
nesta zona. De um lado, havia sociedades desprovidas de toda forma de adminis-
trao tradicional centralizada, como as dos kikuyu, dos miji-kenda, dos kamba
e dos masa, que formavam comunidades dispersas e independentes compostas
de famlias patrilineares e de cls de importncia varivel. Entretanto, a des-
centralizao no era sinnimo, como veremos, de desorganizao nem de falta
de coeso poltica e social. Essas sociedades descentralizadas tinham conselhos
de famlia, de aldeia e de distrito. No nvel mais elevado, os membros do con-
selho de governo eram escolhidos entre os ancios que formavam os conselhos
de cl ou de distrito. Os membros de cada famlia, de cada cl e de cada setor
estavam unidos por relaes que determinavam e regiam o comportamento dos
indivduos e estabeleciam entre eles direitos e obrigaes recprocos. Entre os
kikuyu, as iniciativas pessoais, consideradas como egostas, eram combatidas,
"enquanto se tinha por uma virtude essencial o senso de solidariedade e de
esforo coletivo53".
    Por outro lado, existiam sociedades centralizadas (ou centralizadoras) como
as dos shambaa, dos pare, dos nyamwezi e dos wanga, cujo sistema administra-
tivo rudimentar era o instrumento de enquadramento sociopoltico. No final do
sculo XVIII, alguns desses grupos, especialmente os shambaa e os pare, eram
governados por reis poderosos e despticos ou por chefes supremos assistidos
por diversos conselhos, ministros e chefes distritais.
    Vejamos de mais perto certos exemplos desta evoluo. Antes de 1300, a
Tanznia Central era habitada por uma populao esparsa de agricultores ban-
tos sedentrios, de pastores sob influncia cuchtica, os mbugu, os gorowa, os
burungi, os alagwa e os aramanik, e de caadores-colhedores, os sandawe e os
hadzapi. Eles viviam em aldeias de que se acham vestgios, particularmente
as de agricultores bantos, espalhadas por todo o pas. Essas primeiras aldeias
autogovernavam-se segundo uma organizao familiar, estando a autoridade
centralizada nas mos de duas ou trs famlias influentes. De fato, parece que a
maior parte das comunidades tanzanianas, quando se estabeleceram em seus res-
pectivos territrios, tenha compreendido a importncia de elas se organizarem
de uma forma ou de outra. Mas por serem suas migraes ato de indivduos ou

52   G. S. Were e D. A. Wilson, 1972, p. 89-96.
53   R. W. July, 1974, p. 177-178.
994                                                                frica do sculo xvi ao xviii



de pequenos grupos, os laos de parentesco desempenharam tambm um papel
fundamental em sua organizao. Cada um dos grupos definidos por esses laos
continha os germes de uma organizao poltica.
    Junto aos Pare, o primeiro estgio de organizao poltica foi atingido quando
cada cl se estabeleceu em um territrio e se submeteu  autoridade de um chefe
ritual e hereditrio. As necessidades religiosas da comunidade estavam, por isso,
no cerne de sua evoluo poltica54. Uma vez fixado em um territrio, cada grupo
construa, por etapas, um santurio (mpungi) que lhe permitia entrar em relao
com os ancestrais fundadores e cujos membros se reuniam periodicamente para
a praticar seu culto. Com o crescimento da populao, tornou-se necessrio
unificar os diferentes cls. A poca em que se produziu essa unificao  cercada
de mitos, mas, de acordo com Isaria Kimambo, vrios cls ugweno reconheceram
como chefe um ferreiro washana, "h aproximadamente dezesseis geraes". Os
washana foram, em seguida, derrubados pelos wasuya, que, a partir da organi-
zao poltica rudimentar j existente, fundaram um Estado centralizado. Este
golpe de Estado foi obra de Angovi, mas foi seu filho Mranga que consolidou
o Estado ugweno. Isaria Kimambo considera Mranga como um dos grandes
reformadores polticos da Tanznia:
          Ele transformou o que havia sido at ento um ritual de iniciao clnica em uma
      instituio poltica complexa dotada de poderes coercitivos ilimitados. Organizou
      uma hierarquia de conselhos, rodeou-se de numerosos dignitrios que dependiam
      somente dele e estendeu seu reino a todo o Norte do planalto de Pare, confiando a
      seus filhos o governo de alguns distritos55.
   No apogeu de seu poder, o Estado ugweno era dirigido por um chefe supremo
(mangi mrwe), que governava com a ajuda de um conselho de ministros e de
wamagi (chefes de distritos).
   Mostramos que o crescimento demogrfico, ligado ao aparecimento dos
chefes rituais e dos ferreiros especializados, conduziu, em Ugweno (e mais tarde
no conjunto dos montes Pare),  unificao dos cls no interesse poltico e eco-
nmico de toda a comunidade. Desse modo, a parte norte do planalto de Pare
formava um territrio geograficamente unificado, o que favorecia a concentrao
da populao. Alm disso, a riqueza e os pretensos poderes sobrenaturais de
chefes decididos atraram partidrios na sua esteira.



54    I. N. Kimambo, 1969, p. 4.
55    Idem, 1968, p. 19.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)   995



    Buboka era outra regio da Tanznia onde se haviam estabelecido, desde o
incio do sculo XVI, slidas instituies centradas na funo de chefe e onde
diversas linhagens dirigentes se tinham formado no seio de comunidades agrco-
las, compreendendo o Karagwe, os Estados buhaya, o Buzinza e os Estados ha.
Seu sistema poltico, mais centralizado que todos os outros Estados tanzanianos,
se apoiava no controle da terra e dos rebanhos, de tal forma que seu sistema
de tributo era tambm mais pesado. Estes Estados se achavam na regio dos
Grandes Lagos56. Mais ao Sul, por volta de 1600, as chefias que se haviam multi-
plicado por toda a Tanznia se pareciam sob muitos aspectos. Por exemplo, cada
uma era formada por um pequeno grupo de aldeias e de setores colocados sob
a autoridade de um nico chefe que os aldeos escolhiam no seio da linhagem
dirigente, e que se chamava ntemi ou mtemi. Ele presidia os conselhos e a corte
suprema da chefia, era o detentor de certos ornamentos especiais, smbolos da
supremacia, como as lanas sagradas, e conservava o fogo real, com o qual se
supunha serem acendidos todos os fogos de seu pequeno reino.
    A semelhana surpreendente que a organizao destas chefias e as insg-
nias dos chefes apresentavam conduziu, em certa poca, historiadores como R.
Oliver e J.D. Fage a lanar a hiptese de uma origem comum, situada por eles
em Uganda, em Ruanda, no Burundi e, voltando ainda mais no tempo, no vale
do Nilo57. Contudo, especialistas da histria poltica da Tanznia refutaram
essas teorias difusionistas que, em alguns casos, so marcas de racismo58. I. N.
Kimambo, particularmente, sustentou que a explicao das semelhanas entre
entidades polticas da frica, seja em escala regional, seja em escala continen-
tal, deveria ser procurada entre os povos de agricultores e que as diferenas de
grandeza entre estas entidades se explicavam pela adaptao ao meio e a certos
fatores externos.
    Andrew Roberts afirma, por exemplo, que as numerosas chefias nyamwezi
provavelmente no eram oriundas de um nico processo de migrao ou difu-
so, mas do meio onde viviam os nyamwezi. "Muito cedo, mas no sabemos
com exatido em que poca, certos homens foram respeitados por seus poderes
mgicos, porque eles sabiam fazer cair a chuva, desmatar as florestas ou arbitrar
os conflitos59".  ao redor destes homens que nasceram as chefias nyamwezi.
"Os chefes nyamwezi (ntemi) tinham poderes tanto rituais quanto administra-


56   Ver o captulo 26.
57   R. Oliver e J. D. Fage, 1962, p. 44-52; I. N. Kimambo, 1969, p 1-10.
58   C. G. Seligman, 1957, p. 85.
59    D. Roberts (org.), 1968, p. 18.
996                                                        frica do sculo xvi ao xviii



tivos quase semelhantes aos dos outros chefes da frica Oriental e Central60".
Mas, contrariamente ao que se passou em Upare, que tendia a se centralizar, as
pequenas chefias nyamwezi tendiam a se multiplicar, "por causa no somente das
migraes, mas tambm da fragmentao das chefias". O Unyamwezi no conhe-
ceu uma rpida centralizao seno no sculo XIX, com "a extenso do comrcio"
e o aparecimento de negociantes e de organizadores temveis como Mirambo.
    Entre os fipa do Sudoeste da Tanznia, os mitos mais antigos sobre a origem
se ligam  fundao do Reino milansi. De acordo com uma verso transmitida
por Roy Willis, "o primeiro homem, que se chamava Ntatakwa, caiu do cu no
comeo do mundo e fundou a linhagem dos chefes milansi61". Os primeiros
habitantes de Ufipa foram cultivadores que viviam agrupados dentro das aldeias,
o que os incitou a organizar sua defesa comum e, finalmente, a construir forti-
ficaes. Os membros da famlia reinante, provavelmente oriunda da regio do
lago Mweru, teriam obtido seu poder da sua habilidade de trabalhar o ferro. "O
fato de o chefe milansi atual exercer a funo hereditria de ferreiro  diz-nos
Willis  confirma a hiptese segundo a qual os prprios fundadores da chefia
eram ferreiros62." As tradies milansi do conta de que seu primeiro chefe,
Ntatakwa, enviou seu filho para fundar aldeias e governar outras partes do pas.
O Reino dos fipa parece ter sido uma confederao de circunscries cujos
chefes eram aparentados.
    Mais tarde, no sculo XVIII, o regime poltico dos fipa mudou aps uma
invaso de criadores vindos do Norte, que introduziram no Reino ideias polticas
anlogas quelas que eram correntes em Buganda, em Bunyoro e em Ankole. O
novo governo no se baseava mais nas relaes dos "chefes pais" com "os chefes
filhos", mas no lao de fidelidade pessoal que unia um soberano a certo nmero
de seus partidrios por ele nomeados para postos de comando nas fronteiras do
Reino. No havia relao de parentesco entre esses homens e o rei. Tudo indica
que um golpe de Estado destituiu a dinastia tradicional, a dos milansi, e trouxe
ao trono a dos twa. Certos chefes vassalos, que continuaram fiis  dinastia
milansi, tiveram sem dvida que ser submetidos pela fora. O reino dos twa,
porm, esteve longe de ser pacfico, porque Ufipa foi novamente invadido pelo
final do sculo XVIII, desta vez pelos nyiha, que queimaram as aldeias milansi.
No incio do sculo XIX, a paz ainda no fora restabelecida: a guerra civil se
encarniava entre dois pretendentes ao trono.

60    Ibid., p. 119.
61    R. G. Willis, 1968, p. 82-83.
62    Ibid., p. 84.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)    997



    Um nmero muito grande de chefias ntemi, mais ou menos extensas e cen-
tralizadas, apareceu ento na Tanznia entre o sculo XVI e o sculo XVII.
Respondiam a necessidades humanas, polticas e econmicas, e foram moldadas
pelo meio fsico e humano. A maior parte dos Estados tanzanianos tinham por
objetivos a centralizao e a expanso econmica, mas o processo de construo
das naes se revelou muitas vezes difcil. s vezes, como no caso dos nyamwezi,
estes Estados tiveram que enfrentar divises e secesses ou, como no caso dos
fipa, golpes de Estado e guerras civis. As dificuldades que encontraram se asse-
melham, em muitos aspectos, quelas que enfrentaram os Estados africanos
modernos no processo de construo nacional.
    No Oeste do Qunia, parece que os luo desenvolveram seu sistema de paren-
tesco, seus cultos ancestrais e a transmisso hereditria do poder, o que fez com
que tivessem a tendncia de formar comunidades fundadas no direito e que eram
organizadas em um modo ritual em torno de cls proprietrios das terras (weg-
-piny) e de seus chefes hereditrios designados. Quando chegaram em Nyanza,
criaram preferencialmente entidades sociopolticas que eram mais centralizadas e
mais estratificadas que todas as comunidades que tinham existido antes. E, embora
os cls e as linhagens dos luo fossem quase iguais, a existncia de grupos dirigen-
tes, de grupos de sacerdotes e de grupos plebeus atestava, no entanto, um grau de
desigualdade que era raro encontrar na maior parte das sociedades do Qunia.
    A melhor anlise da maneira como o sistema sociopoltico dos Luo funcio-
nava em Nyanza nos tempos pr-coloniais  aquela que devemos a Peter C. Oloo
em seu estudo sobre o ramo alego dos luo63. Ele concorda com B. A. Ogot ao
dizer que, no mais alto nvel de organizao poltica, os luo estavam subdivididos
em doze ou treze ogendini (subgrupos tnicos) de perfil diferente. Para ser mem-
bro deles, precisava passar pela intermediao do gweng' (plural gwenge), uma
unidade territorial e poltica semiautnoma. Em princpio, o gweng' era habi-
tado pelos membros de um cl, mas, muito frequentemente, certas partes eram
concedidas a linhagens e a cls estrangeiros (jodak) "seja porque estes tinham
tomado parte da conquista do territrio, seja por meio das condies estipuladas
pelo cl dominante que se julgava possuir todo o terreno da unidade territorial.
A sociedade gweng' tendia a se tornar, portanto, uma sociedade plural64".
    A mais alta assembleia poltica de todo gweng' era o conselho dos ancios
(buch judong gweng'). Em Alego, estavam habilitados a fazer parte dele todos os
chefes de linhagem do cl dominante; quanto s comunidades dos jodak, elas

63   P. C. Oloo, 1969; B. A. Ogot, 1963.
64   P. C. Oloo, 1969.
998                                                          frica do sculo xvi ao xviii



no podiam estar representadas seno por alguns de seus ancios escolhidos em
funo de sua capacidade. No Yimbo, outra chefia luo, essa discriminao no
existia65. O conselho do gweng' era o guardio do territrio do cl. Ele admitia
ou rejeitava os estrangeiros recm-chegados e servia de corte de apelao de
ltima instncia nos litgios que diziam respeito ao gweng'. Exercia tambm as
cerimnias rituais e declarava a guerra a outros gwenge ou negociava a paz. Uma
deciso do buch jodong gweng' tinha fora de lei para todas as pessoas. Os que
infringiam seus regulamentos e no respeitavam suas decises podiam ser amal-
dioados. A maldio do judongo consistia em infligir a chira, doena incurvel
que os ancestrais, conforme se suponha, atraam sobre o condenado e todos os
seus descendentes. O conselho do gweng' podia tambm banir do territrio os
criminosos reincidentes e sua famlia. Condenava tambm a castigos corporais
e a multas os que eram reconhecidos como culpados de diversos crimes.
    Acima do conselho gweng' mantinha-se o buch piny (conselho do subgrupo
tnico) cujos membros eram os chefes dos diversos conselhos do gweng', alm
dos adivinhos, dos curandeiros, dos fazedores de chuva e dos guerreiros reno-
mados. Era ordinariamente presidido pelo ruoth (ou won piny). O conselho
debatia as principais questes polticas, judicirias e econmicas que criavam
problemas no piny (territrio do subgrupo)  como os homicdios, os roubos
de gado, os conflitos de fronteiras, as fomes, as epidemias, as invases, a defesa,
as trocas comerciais e os conflitos entre cls e entre gwenge. Em alguns pinje
centralizados, como no Yimbo, o buch piny era um instrumento de controle e
coero muito eficaz. Em outros lugares, como em Sakava ou Asembo, onde a
centralizao ainda no se completara, tendia a ter poderes limitados e a ver seu
papel reduzido  arbitragem dos litgios internos.
    Os kalenjin, que viviam h sculos nos altiplanos do Oeste do Qunia, eram
o exemplo tpico de sociedade descentralizada. As pesquisas de B. E. Kipkorir
nos mostram que, at o sculo XIX, seu sistema poltico era igualitrio e descen-
tralizado66. A autoridade era monopolizada pelos ancios e pelos representantes
influentes de diversas especialidades. A eloquncia, a habilidade de formular sem-
pre opinies aceitveis nos conselhos e o conhecimento das precedncias e dos
costumes eram consideradas como qualidades importantes para todo dirigente
poltico. Mas, acima disso tudo, um homem deveria inicialmente distinguir-se
como algum feliz em sua vida familiar e gozando de boa reputao social como
membro de um cl ou de uma comunidade local para se ver merecedor do abrao

65    W. R. Ochieng', 1975c.
66    B. E. Kipkorir, 1974.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)     999



dos chefes. Entre os nandi, que so um ramo dos kalenjin, parece evidente que,
entre o sculo XVIII e o sculo XIX, uma nova dimenso foi introduzida no
governo da sociedade com a adoo de um chefe espiritual denominado orkoiyot
(plural orkoik). H. A. Mwanzi afirma que, sem modificar na essncia a estrutura
sociopoltica da sociedade nandi, na qual o cl e os conselhos territoriais assenta-
vam as bases da vida social e poltica, o orkoiyot tinha transformado o oganda dos
nandi em uma teocracia, da qual ele mesmo era o soberano67.
    Em um dado momento, o orkoiyot esteve em condio de exigir uma parte
do butim de guerra e de impor sua autoridade sobre os conselhos de aldeia e
de distrito por meio de um sistema de delegados que eram seus representantes
pessoais junto de cada um deles. Esta interveno na poltica criou laos podero-
sos entre os guerreiros dos diferentes setores e os orkoik, mas, em muitos outros
domnios, o poder e a influncia que exerciam diretamente os orkoik eram muito
limitados. Certas indicaes levam, no entanto, a pensar que, l por 1890, os
orkoik dos nandi, bem como os laibon dos masa, comeavam a pretender uma
autoridade poltica que ultrapassava em muito aquela que seus predecessores
tinham se preocupado em ter. Essas pretenses estavam sendo encorajadas pelos
conselhos regionais que se beneficiavam do savoir-faire do orkoiyot e tinham
concebido uma crena irracional em seus atributos sobrenaturais.
    Desse modo foi criada entre os nandi uma categoria especial de personagens
oficiais que eram encarregadas de manter a comunicao entre os conselhos e o
orkoiyot. Estes dignitrios acompanhavam os chefes guerreiros em suas campa-
nhas para obter do orkoiyot a permisso de lanar as incurses que projetavam.
Tinham tambm o papel de agentes secretos do orkoiyot, mantendo-o informado
dos acontecimentos e da opinio pblica na sua regio. Estas disposies tiveram
como efeito centralizar gradativamente a sociedade nandi na segunda metade
do sculo XIX68.


     Concluso
   Por volta de 1800, um nmero incrvel de diferentes comunidades de lngua
cuchtica, niltica e banta se espalhava por todo o territrio do Qunia e da
Tanznia. A regio dos Grandes Lagos da frica do Leste era a nica onde



67   H. A. Mwanzi, 1973.
68   W. R. Ochieng', 1977, p. 58-76.
1000                                                        frica do sculo xvi ao xviii



se desenvolveram Estados e reinos de certa dimenso69. No interior do Qunia
e da Tanznia, a entidade sociopoltica padro era pequena e organizada em
cls. A maior parte das pessoas de lngua banta eram agricultores, o que no os
impedia, onde fosse possvel, de criar seu prprio gado, ao qual eles atribuam
um grande valor. Os pastores, como os turkana, os oromos e os masa, que viviam
em sociedades mais agressivas, eram senhores de extenses considerveis entre
as terras agrcolas bantas.70 Ao longo da costa se achavam as cidades-Estado
sualis, dominadas pelas oligarquias rabes locais. A populao destas cidades
litorneas era misturada, falava principalmente o suali e vivia em um ritmo
muito diferente daquele do interior da regio.
    O fim do sculo XVIII marcou o trmino do crescimento independente da
frica do Leste, o fim de uma longa era  a da idade do ferro  durante a qual
os habitantes do interior, na sua maior parte, no tinham quase sido tocados
pelos comportamentos do resto da humanidade. Pouco depois de 1800, os povos
independentes do Qunia e da Tanznia tiveram que enfrentar fatos carregados
de um sentido novo e muitas vezes terrvel. Umas aps as outras, as grandes
ondas das invases rabes e europeias vieram quebrar-se nas suas tranquilas
margens. Grande parte da civilizao tradicional foi gravemente danificada,
qui submersa por uma mar de violncia. Numerosos costumes e crenas
ancestrais desapareceram, como foram abandonadas tantas antigas formas de
manter a ordem e a paz cvica.
    Ora, nesta poca, a frica do Leste estava em ms condies para enfrentar
este assalto to brutal quanto sbito das foras externas. Frente s enormes
potncias do resto do mundo, a frica estava doravante muito atrasada na sua
capacidade de produzir, fosse para guerra, fosse pela paz. A Europa, aps 1500,
tinha entrado em uma era de descobertas e de desenvolvimento mecnico e
cientfico de larga escala. O interior da frica, ao contrrio, no conhecia nada
disso. Seus habitantes tinham prosseguido em um ritmo regular, porm lento, o
desenvolvimento de sua prpria civilizao71. Esta civilizao da idade do ferro
tinha numerosos xitos a seu favor. Tinha progredido muito e tinha inventado
muitas coisas nas artes da vida comunitria, na cultura de novos produtos agrco-
las, na aquisio e difuso de tcnicas de trabalho do metal, no desenvolvimento
das trocas comerciais e, mais importante ainda, nos mtodos de autogoverno e
nas maneiras de manter a paz. Estavam a aquisies de indiscutvel importncia,

69     Ver o captulo 26.
70     R. M. A. van Zwanenberg; A. King, 1975, p. 79-109.
71     W. Rodney, 1970a e 1972; W. R. Ochieng', 1975d.
O interior da frica do Leste: os povos do Qunia e da Tanznia (1500-1800)   1001



mas que no pesavam diante da potncia crescente das grandes naes industria-
lizadas da Europa. Em 1800, a capacidade tcnica dos europeus era bem maior
que a dos africanos72. Em 1900, o fosso tornara-se imenso entre suas respectivas
potncias. A acentuao dessa desproporo j contm uma grande parte do
que adveio  frica aps 1800, especialmente as obras do imperialismo.  este
fenmeno de desequilbrio que explica, em grande medida, a crise que se abriu a
partir de 1800 e, embora no se fizesse sentir diretamente antes de 1850, houve
um efeito indireto sobre os povos do interior muito tempo antes desta data.




72   E. A. Alpers, 1973; A. M. H. Sheriff, 1980.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                             1003



                                         CAPTULO 28


                      Madagascar e as ilhas do
                         Oceano ndico
                                               R. K. Kent




    Madagascar
    O perfil moderno de Madagascar deve-se essencialmente ao sculo XIX,
quando os merina, povo do interior da ilha, estabeleceram sua supremacia pol-
tica e impuseram a inmeras outras populaes uma mistura de caractersticas
que lhes eram prprias ou que haviam importado da Europa, tornando-se assim
virtualmente os nicos malgaxes aos olhos dos estrangeiros. O perodo colonial,
que comeou com uma derrota militar dos merina, devia ainda reforar sua pre-
sena no sculo XX. Contudo, alm do impacto de acontecimentos relativamente
recentes, a histria de Madagascar comporta tambm um outro passado, cujo
alcance  mais amplo e no qual os trs sculos a se findarem em 1800 destacam-se
de forma particular.  quase certo que a maioria dos habitantes de Madagascar
tenha se juntado nesse perodo para formar os principais grupos sociais, econ-
micos, religiosos, culturais e polticos que compem o povo malgaxe atual: os
antankara, os antandroy, os atambahoaka, os antanosy, os antemoro, os antesaka,
os antefasy, os bara, os betsimisaraka, os betsileo, os bezanozano, os merina, os
mahafaly, os sakalava, os sihanaka, os tanala e os tsimihety1.

1    Visto que os nomes tnicos nunca foram padronizados, outras ortografias tambm so usadas. Em geral,
     o prefixo an- (ou ant-) significa "povo de", mas se encontra escamoteado pelo falar usual (assim, antanosy
     = "Tanus", j que "o" se pronuncia "u" em malgaxe); b- et -b significam "numerosos" ou "grandes" e
     denotam portanto a importncia; tsi- ou -tsi marcam a negao. Os makua, que representam por volta
1004                                                                                                                                          frica do sculo xvi ao xviii




                                                                                                           Cabo Ambre (atual: Bobaomby)


           0                      100                200 milhas
                                                                                                                                         Diego-Suarez (atual: Antseranana)
           0                     150                 300 km




                                                                                                                                  RA
                                                                                                         Nossi-b
                                                                                      Baia                                      Ambilobe
                                                                                                                                                       Vohemar




                                                                                                                                                 A
                                                                                 de Ampasindava




                                                                                                                              Rio M


                                                                                                                                              NK
                                                                                                                                   ahavavy
                                                                                                                Ambanja




                                                                                                                                         ANTA
                                                                                                           Bealanana


                                                             Baia de
                                                            Mahajamba                                                  ia
                                                                                                                     of                           Maroantsetra




                                                                                                                                              A
                                                                                                                 S
                                                                                                               o
                                                                                                            Ri
                                                  Baia de                                                          Mandritsara                    Baia de Antongil




                                                                                                                                        R A K
                                                                                             A
                                          Baia de  Boina                Majunga




                                                                                                                 A
                                                                                                                                           Y
                                           Baly                        (ou: Mahajanga)                               T
                                                                                                              N                                           Cabo de Masoala
                                                                                                           I IHE                                     Mananara
                                                                                                 O M
                                                                        V                     B TSI




                                                                                                                                  I S A
                                     Besalampy                                                         SIHANAKA
                                                                                      R                                                                 Ilha de Santa Maria
                                                                                       io



                                                                                                       Lago Alaotra
                                                                                          Be
                                                            A


                                                                                                                            I M O
                                                                                             ts
                                                                                             ibo



                                                                                                                                               Foulpointe
                                                                                                           A

                                                                                                                                N
                                                                                                 ka




                                                                                                                              A
                                                                                                       N
                                                                                 Rio




                                Maintirano                                                                         Z                          Tamatave
                                                                                     Iko
                                                                        O




                                                                                                                 O
                                                                                                   I



                                                                                                                                             (atual: Toamasina)
                                                                                     pa
                                                                   AM
                                              L


                                                                                                                        T S
                                                                                                                N
                                                                                             R
                                                                 IM




                                    Antsalova
                                                                                                            A



                                                                                                   Antananarivo
                                                lo
                                              bo




                                                                                           E
                                           am




                                     Rio Man
                                                                                                          Z




                                                                ANDRANTSAY
                                                                                                                    B E
                                                                                                        E




                                                                                                                                Vatomandry
                                          K A


                                                                                                       B
                                                                             M




                                                                                                         Ri
                                       B E




                                                                                                           oM
                                                                                                                ang
                                                                                                                   oro

                  Morondava
                                      A




                                                                                                   ANTAMBAHOAKA
                                    N




                                                                   O
                                                                 LE
                                E




                                                               SI                          ANTEMORO
                           M




                                                                            LA
                                                           T




                                                                                            Fianarantsoa
                                                        BE




                          Ri
                                                                   NA




                            oM
                                    A




                                 angoky
                                                                TA




                                                                                       AN          ANTEFASY
          Morombe
                                                                                            TE
                                                                                                             Manakara
                                                                                 Rio




                       FIHERENANA                                                                 SA
                                                                                                    KA
                                                                                     M




         Cabo                                                                              ta
                                                B




                                                                                      at




                                                                                             na
                                                                                        i




       So Vicente
                        S


                                                                            Ri




                                                                                 M                        Farafangana
                                                                               o




                                                                                     an
                                                A




                                                         MA                            an
                                                           CH                            ara
                Tular                                         IC                                        Vangaindrano
                                    Rio Onilahy                  OR
                                                 R




    Baia de (atual: Toliara)                                       O               ANTAVARATRA
 Santo Agostinho                                        A
                                                                            drare
                               MA




                                                                       an
                                                     a
                                                   dr




                                                                                        Y
                                                                   M
                               HA




                                                                                      OS
                                                 an




                                                               Rio
                                               ar




                                                                                    N
                                 FA


                                            en




                                                                                 TA
                                           M
                                    LE

                                            o




                                                                            AN
                                         Ri




                                                ANTANDROY                                  Fort-Dauphin


                                          Cabo de Santa Maria




figura 28.1 Os grupos tnicos de Madagascar. [Fonte: segundo R. K. Kent, 1970.  Holt, Rinehart e
Winston, Inc. Adaptao realizada com a amvel autorizao da editora.]
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                              1005



    A chegada no pas de imigrantes que, ao se misturar aos autctones, formavam
novas populaes, findou-se a partir de meados do sculo XVI. Alguns habitantes
de Madagascar j haviam entrado em contato com os europeus, notadamente
portugueses, e pelo menos uma das maiores e mais influentes famlias reais, a dos
Maroserana, j comeara a se formar. No comeo do sculo XVII, Madagascar
constitua um mosaico de reinos, em sua maioria pequenos e autrquicos. Antes
de 1700, a maior parte do Sudeste da ilha aliou-se ao imprio sakalava, ao passo
que vrios reinos apareciam nos altos planaltos, onde viviam povos tais como os
betsileo e os merina; no Sudeste, onde viviam os antemoro, os antesaka, os ante-
fasy e os antanosy; no extremo sul, onde viviam os antandroy; no Sudoeste, onde
viviam os mahafaly; e na parte meridional do interior, onde viviam os bara. No
decorrer desse mesmo sculo, o contato com os europeus comeou a se multiplicar
em diferentes pontos da ilha e as trocas intensificaram-se, uma vez que as compa-
nhias das ndias orientais da Holanda, da Inglaterra e da Frana se interessavam
cada vez mais pela grande ilha africana. A exportao de escravos que, at ento,
apenas ocorria rumo  frica Oriental e  Arbia a partir de trs pontos de
embarque vizinhos situados a Noroeste, voltou-se para o Cabo, as Mascarenhas
e o Novo Mundo, multiplicando assim os pontos de embarque ao longo das cos-
tas de Madagascar. As armas de fogo comearam a se espalhar e, ainda que no
em grandes quantidades, as consequncias no plano poltico foram evidentes. O
Imprio Sakalava e, em particular a sua parte setentrional, o Reino Iboina2, atingiu
seu apogeu no sculo XVIII, ao passo que uma parte da costa oriental, do lado
oposto, se unia pela primeira vez no seio da Confederao betsimisaraka. Antes
do fim do sculo, a potncia dos sakalava do Norte e dos betsimisaraka declinara
irremediavelmente em virtude de acontecimentos ocorridos na prpria ilha e no
exterior. Pelo contrrio, o Imerina, outrora fraco e desunido, conseguiu aumentar
sua produo alimentar, acrescentar sua populao e levar a cabo um renascimento
poltico que ofereceu aos merina uma base slida para sua futura expanso.

    Os recmchegados e as coligaes
   Antes do sculo XIX, os antemoro haviam adquirido um certo prestgio, pois
formavam o nico grupo capaz de escrever o malgaxe (usando o alfabeto rabe)


     de 70.000 descendentes africanos importados atravs de Moambique durante a primeira metade do
     sculo XIX, no figuram na lista acima. Foi sustentado erroneamente que alguns dos principais nomes
     de etnias teriam se formado sob a hegemonia dos merina.
2    Nos topnimos, o prefixo i- significa "lugar". Tambm serve para caracterizar os nomes de indivduos
     ou de grupos. Trata-se de uma sobrevivncia africana.
1006                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



e possuam habilidades especficas nas reas de magia e de religio. Os especia-
listas ainda no chegaram a um acordo quanto  data e ao lugar de chegada de
seus antepassados em Madagascar, a sua origem, seu grau de islamizao e sua
influncia na ilha. Os autores mais antigos tendiam a situar seu desembarque no
Noroeste da ilha por volta de 1400 e a consider-los como rabes vindos da Ar-
bia3. Mais recentemente, a influncia real do isl na cultura passada e presente
dos antemoro foi completamente revisada4. Gustave Julien foi o primeiro espe-
cialista a pensar que seriam originrios de frica Oriental5, tese esta que, desde
algum tempo, tem sido sustentada por vrios elementos. Outrossim, os primeiros
antemoro teriam tido uma formao religiosa e uma organizao islmica, mas
no as teriam conservado por serem totalmente isolados do mundo muulmano6.
Sabemos que os antemoro no formaram nenhuma sociedade, tampouco um
Estado, em Madagascar antes da chegada de seus antepassados nas margens do
Matitana, no Sudeste do pas. Foi somente aps terem se miscigenado com os
tompon-tany (os mestres da terra, os primeiros habitantes da ilha) que surgiram
tal sociedade e Estado.  contudo possvel datar com bastante preciso seu
estabelecimento nas margens do Matitana, uma vez que trs navegadores por-
tugueses visitaram a regio no momento oportuno, entre 1507 e 1514. Os dois
primeiros, com um ano de intervalo, no falaram em "mouros", mas assinalam
que a populao local tem o costume de comerciar com eles7. Quanto ao terceiro,
ele foi mandado diretamente na regio para ali implantar uma fbrica. Nesta
poca, existia no vale do Matitana "uma cidade povoada por inmeros mouros".
Aps terem manifestado durante cerca de seis meses sua oposio  presena
comercial portuguesa, tais mouros foram obrigados pelos tompon-tany a deixar
definitivamente o Matutina8. Haja vista que os antepassados dos antemoros so,
nesse caso, os nicos a poderem ser chamados de "mouros", infere-se que seu
estabelecimento ao longo do Matitana teria ocorrido entre 1509 e 1513.



3   A. Grandidier (1908-1928, vol. IV, parte I, p. 156) supe que alguns dos antepassados dos antemoro
    haviam permanecido na frica Oriental, mas no constatou nenhuma influncia cultural africana
    levando-o a alterar suas ideias sobre sua origem rabe inicial.
4   J. Fauble (1958, p. 71) segue A. van Gennep (1904, pp. 4-11) que questiona os fatos atestando suas origens
    islmicas. . de Flacourt (1661, p. 171) deu indicaes sobre a hierarquia muulmana no Sudeste da ilha.
5   G. Julien, 1929, p. 75.
6   R. K. Kent, 1970, p. 108-114.
7      Ver A. Grandidier e al. (1903-1920, vol. I, p. 18-19 e p. 48-49) a respeito das visitas de Ruy Pereira e
       Diego Lopes de Sequeira (que era muito mais do que um mero navegador) em 1507 e 1508.
8      Ibid., p. 53; Documentos sobre os Portugueses em Moambique e na frica central, 1497-1840, 1962-1975,
       vol. III, p. 508, no que tange  viagem de Luis Figueira.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                  1007



    Os documentos escritos pelos antemoros relativos ao perodo de formao
de sua sociedade ("quando ainda no havia sete aldeias no Matitana") e aos
sculos seguintes no apenas relatam acontecimentos do passado, mas consti-
tuem tambm elementos de um processo de introspeco. De forma geral, eles
narram o encontro dos antemoro com as comunidades que habitavam no litoral
sudeste antes de sua chegada. Tambm evocam a oposio entre as concepes
patrilineares dos recm-chegados e as concepes matrilineares dos autcto-
nes. Mencionam no apenas uma, mas vrias chegadas de "protoantemoro"
no Matitana, assim como descrevem os inmeros conflitos entre os prprios
recm-chegados9. O primeiro antepassado, Ramakararube, foi o nico a per-
manecer alheio a esses conflitos, pois havia retornado a "Maka" (Meca)10. Para
ser mais preciso, foi no decorrer dos trs primeiros quartos do sculo XVI que
os antemoro evitaram ser incorporados em um ou mais grupos tompon-tany e
formaram uma sociedade articulada em torno de quatro cls aristocrticos e de
quatro cls sacerdotais. De fato, a maior parte do que se sabe da histria interna
dos antemoro, at muito depois de 1800, resume-se a conflitos entre os cls
aristocrticos anteoni, antemahazo, anteisambo e zafikazimambo, cada um dis-
pondo de seu prprio territrio no reino11. O andrianoni, rei supremo de todos
os antemoro, podia ser oriundo de qualquer um desses quatro cls (por vezes
chamados coletivamente de anteoni). Ao mesmo tempo, os cls sacerdotais riva-
lizavam para ocupar o primeiro posto nas funes religiosas e culturais. Dessa
forma, os tsimeto, os zafimbolazi, os anakara e os anterotri buscavam ser os
guardies dos manuscritos sagrados (sorabe) dos antemoro, os grandes sacerdotes
do reino ou os mais prximos a um andrianoni e a seu cl12. Como previsvel, os
aristocratas almejavam controlar os aspectos religiosos da sociedade antemoro,
ao passo que os antalaotra pretendiam gozar do poder temporal. Essas divises
desfaleceram-se no sculo XIX, quando o cl dos anakara monopolizou o poder
religioso e poltico em suas mos. Tal supremacia permaneceu incontestada at
que revoltas populares, ainda que reprimidas por tropas estrangeiras vindas do
Imerina, comeassem a abal-la13.


9    G. Julien, 1929, pp. 1-23, e 1933, pp. 57-83; G. Mondain, 1910, p. 50-191 (textos rabo-malgaxes e
     tradues francesas).
10   G. Mondain, 1910, p. 51; G. Ferrand, 1891-1902, vol. II, p. 57.
11   No sculo XVII, esses quatro territrios foram reduzidos a trs. Os anteoni e os antemahazo ocupavam o
     baixo e o mdio Matitana. Ivato era a capital do andrianoni. Vohipeno era o centro dos cls sacerdotais,
     conhecidos sob o nome coletivo de Antalaotra. H. Deschamps, 1961, p. 93 e mapa p. 110.
12   G. Ferrand, 1891-1902, vol. I, p. 1-41, e vol. II, p. 69-72; H. Deschamps e S. Vians, 1959, p. 41-45.
13   G. Huet, 1901.
1008                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



    Ao se estabelecerem na costa oriental de Madagascar, os antemoro encon-
traram ali, alm de alguns grupos tompon-tany, outras comunidades exgenas
que haviam chegado antes deles14. Encontrando-se principalmente entre os
atambahoaka, vizinhos dos antemoro no Norte, os descendentes de Raminia,
os zafindraminia, estavam tambm disseminados no centro e no Sul da costa
oriental. Seus grandes antepassados tambm se originariam de "Maka". Diversas
origens foram atribudas a Raminia e a seus companheiros15, mas h um con-
senso em considerar que eles teriam chegado em Madagascar o mais tardar antes
do sculo XV. Uma das raras tradies a ter sobrevivido de outra forma que nos
textos antemoro deixa entender que, independentemente do pas de origem de
Raminia, a frica Oriental teria sido uma importante escala no caminho rumo
a Madagascar16. No momento em que os antemoro chegaram, os zafindraminia
gozavam, no conjunto, de posies privilegiadas entre os tompon-tany, em grande
parte graas ao costume em vigor naquela poca (sombili), segundo o qual apenas
um descendente de Ramania podia matar os animais domsticos. Assim como
se podia prever (alis, seus prprios textos o confirmam), os antepassados dos
antemoro buscaram casar com mulheres zafindraminia. Houve at rivalidades a
respeito dessas mulheres, mas tais unies permaneceram "estreis"17. Finalmente,
os conflitos polarizaram-se entre as duas levas sucessivas de recm-chegados e
provocaram uma grande insegurana. Certas tradies orais dos tompon-tany
mencionam esses enfrentamentos como sendo uma luta entre dois "gigantes"
(Darafify e Fatrapaitanana)18. A mais aguda fase desse conflito generalizado
coincidiu com a emergncia dos aristocratas zafikazimambo que, em torno de
1550, se tornariam os novos e poderosos senhores da regio. Apesar de algumas
dificuldades, os textos antemoro consideram o fundador dos zafikazimambo
(Zafikazimambobe) como um descendente de Ramarohala, o antepassado ime-
diato das aristocracias anteoni, que representa a terceira gerao autctone e
do qual dois filhos (de um total de dezessete) fundaram as aristocracias ante-
mahazo e anteisambo19. Esses textos genealgicos mostram que o processo de


14     Nos textos antemoro so citados treze nomes de grupos de tompon-tany, dos quais os mais importantes
       eram os antemanampatra e os manankarunga. Um pequeno nmero de imigrantes mais antigos que os
       antemoro, conhecidos como os onjatsy (pronunciar undzatse), manteve alguns de seus privilgios sob o
       reinado dos novos mestres, alguns dos quais casaram com mulheres onjatsy.
15 Entre outras, javanesa, shrz e indiana.
16   G. Ferrand, 1902, p. 219-222.
17   G. Mondain, 1910, p. 52-55. A "ausncia de prole"  uma afirmao simblica.
18   Essa tradio  evocada por A. Grandidier, 1908-1928, vol. IV, parte I, p. 135 e nota 1.
19   G. Mondain, 1910, p. 56-59. Os outros filhos fundaram pequenos grupos locais.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                  1009



assimilao lingustica e cultural se estendeu durante vrias geraes, mas eles
atestam tambm a preocupao em assegurar a coeso da sociedade, uma vez
que consideram os zafikazimambo como descendentes dos anteoni, dando-lhes
assim uma origem aristocrtica e local adequada. Sabemos contudo, graas a
um observador independente de meados do sculo XVII que conhecia bem o
Sudeste de Madagascar, que os zafikazimambo foram os ltimos imigrantes de
alm-mar a se instalarem nas margens do Matitana e que seu nome provm
do de uma mulher tompon-tany casada com um deles20. Na poca, eram todos
considerados sacerdotes (ombiasa) e escribas enviados de Meca um sculo e meio
antes do relato de de Flacourt (1658), no intuito de instruir os habitantes do
pas21. A partir de 1550, os zafikazimambo exerceram uma influncia decisiva
sobre a sociedade antemoro. Atriburam-se, em detrimento dos zafindraminia,
o monoplio ritual do sombili e usaram-no de maneira rgida como instrumento
econmico e poltico. Reduziram as liberdades do povo e fizeram da religio
o centro da vida poltica. Resolveram tambm os conflitos entre antemoro e
zafindraminia ao matar o maior nmero possvel de descendentes masculinos
de Raminia e ao isolar suas mulheres e filhos em guetos22. Pode-se dizer que
os zafikazimambo criaram o primeiro reino forte dos antemoro no Matitana
e deram-lhes dois andrianoni de grande habilidade: Rabesirana (aproximada-
mente 1580-1615) e Andriapanolaha (aproximadamente 1630-1660)23.
    A agitao sofrida pelo pas dos antemoro teve repercusses alm de suas
fronteiras. Suscitou por exemplo uma tendncia  expatriao que se tornou uma
caracterstica permanente dessa sociedade24. Visto que os cls sacerdotais engen-
dravam mais especialistas do que o necessrio para as diversas subdivises do reino
antemoro, eles costumavam se espalhar entre os outros povos a fim de oferecer
seus talentos especficos a quem deles precisava25. Esses ombiasa26 tornavam-se
assim itinerantes ou fixavam-se em algum lugar, geralmente para servir a um
chefe. No existe estimativa cronolgica satisfatria que permita medir a influ-
ncia dos expatriados antemoro sobre as outras comunidades entre meados do


20   . de Flacourt, 1661, p. 17. Convm notar que os ttulos mambo e kazi encontram-se no centro-sudeste
     da frica.
21   Ibid.
22   Ibid. de Flacourt situa tal pogrom nos anos 1630.
23 R. K. Kent, 1970, p. 98-99.
24   B. F. Leguvel de Lacombe, 1823-1830, vol. II, p. 187.
25   Ver G. A. Shaw, 1893, p. 109, para um exemplo de expatriao antemoro.
26   Foneticamente, oumbias (plural e singular)  muitas vezes traduzido por sacerdote, feiticeiro, mdico. Os
     ombiasa desempenhavam vrias funes e subdividiam-se, junto aos malgaxe, em vrias categorias.
1010                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



sculo XVI e o fim do sculo XVIII. Todavia, no h dvida de que participaram
de um processo primordial de evoluo poltica: a passagem de um mosaico de
pequenos territrios isolados, submetidos a um chefe e sem pretenses territoriais,
para unies polticas mais amplas e ambiciosas. Talvez fossem, nesse sentido, os
primeiros pr-malgaxes. De Flacourt relata que os ombiasa do Matitana (ele no
conhecia a palavra antemoro) no somente eram os mestres dos ombiasa de outras
regies do Sudeste, como tambm formavam especialistas religiosos estrangeiros,
dos quais alguns desempenharam talvez um papel central em suas sociedades de
origem. O fato de o Matitana estar em constante efervescncia levou tambm
alguns membros da aristocracia a exilarem-se. Outrossim, o pogrom organizado
pelos zafikazimambo contra os zafindraminia adultos de sexo masculino certa-
mente impulsionou rumo ao interior de Madagascar um nmero substancial de
migrantes involuntrios. Os zafirambo, chefes dos tanala ou ikongo27, descende-
riam talvez desses exilados, assim como alguns dos antepassados dos nobres da
futura Imerina28 ou que os zafindramnia entre os antanosy.
   Segundo de Flacourt, os zafindraminia fixaram-se junto aos antanosy no
fim do sculo XVI29. Outros autores sustentam que ocorreu muito mais tarde,
por volta de 162530. A primeira data nos parece melhor e, alm disso,  pro-
vvel que os primos dos zafindraminia fugindo do Matitana tenham tambm
se juntado aos antanosy. Uma genealogia zafindraminia-antanosy, ainda que
pouco confivel do ponto de vista cronolgico, indica que uma "linhagem real"
existia desde a dezessete geraes31. Na verdade, relatos escritos por residentes
europeus entre 1614 e 1680, assim como uma pesquisa32, mostram claramente
que os zafindraminia no conseguiram fixar-se junto aos antanosy. Introduziram
o sombili na regio, exceliam na construo de casas de madeira, acumulavam
rebanho (principal fonte de riqueza, mesmo em uma sociedade agrcola), tinham
uma boa noo das ligaes de parentesco e uma vontade de poder afirmada,
bem como conseguiram garantir para si uma posio privilegiada junto aos anta-
nosy. Porm, seu instinto de posse, suas rivalidades internas e sua incapacidade


27   H. Deschamps, 1965 (2a edio), p. 55 (manuscrito 13, Biblioteca Nacional, Paris).
28   Um texto antemoro um pouco suspeito (ou, antes, um texto de influncia antemoro) do sculo XIX
     parece indicar que alguns dos primeiros zafindraminia teriam emigrado para Imerina.
29   . de Flacourt, 1661, p. 5. Em seu prefcio, de Flacourt situa a chegada dos zafindraminia em Madagascar
     uns 500 anos antes de sua poca.
30   Por exemplo, A. Grandidier hesitava entre as duas datas.
31     Biblioteca Nacional, Paris, Fundo francs, manuscrito 20181, f. 146 v-147; . de Flacourt, 1661, p. 48-53;
       L. Mariano, Relations, 1613-1614, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 49.
32     R. K. Kent, s.d.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                1011



em encontrar smbolos que transcendam as necessidades de um determinado
rohandrian (nome que designava o posto mais elevado entre os zafindraminia) e
capazes de unificar todos os antanosy impediam a criao de um Estado nico
governado pelos reis zafindraminia. Em vez disso, desenvolveram-se duas socie-
dades paralelas, copiando os zafindraminia a hierarquia tompon-tany. Quando,
em 1643, os franceses fundaram Fort-Dauphin no pas Antanosy, as duas socie-
dades haviam se misturado, no somente em virtude da prtica da exogamia,
mas tambm pelo fato de os escales superiores, de ambos os lados, terem
evoludo rumo  centralizao poltica. Porm, os trinta anos de existncia de
Fort-Dauphin (1643-1674) bastaram para aniquilar totalmente esse processo,
fazendo com que a unidade poltica permanecesse fora de alcance33.
    Os zafindraminia no costumavam edificar reinos e os antemoro constituem
um dos raros exemplos de recm-chegados a terem fundado sua prpria sociedade
e seu prprio Estado. Porm, os maroserana destacam-se como a mais importante
famlia predinstica da histria poltica de Madagascar. Afinal, os maroserana for-
neceram soberanos aos mahafaly, aos sakalava do Menabe e do Boina, assim como
a parte dos antandroy e dos bara. Uma vez formado seu grupo, os maroserana
(assim como os rafindraminia e os antemoro) no podiam mais ser considerados
estrangeiros em Madagascar, nem constituam mais um grupo no assimilado
que teria conservado uma lngua e uma cultura prprias. Assim como para outros
recm-chegados, a origem e a fase de gestao do grupo permanecem controversas.
Em primeiro lugar, as tradies orais mahafaly e sakalava no concordam a respeito
do primeiro ancestral maroserena, tampouco a respeito do lugar de origem dos
"protomaroserena". As narrativas orais recolhidas na poca em que a maioria dos
sakalava ainda era independente do-lhes, simultaneamente, duas origens muito
diferentes: andrianalimbe, vindos do interior de Madagascar, e andriamandazoala,
vindos de alm-mar34. A questo ainda se complica pelo fato de o fundador dos
maroserana ser, segundo algumas tradies, Rabaratavokoka35. Os mahafaly do
Sudoeste de Madagascar, entre os quais os maroserana apareceram no sculo XVI,
indicam que sua famlia real foi fundada por Olembetsitoto36.

33   Ibid. Ver tambm abaixo.
34   C. Guillain, 1845, pp. 10-11.
35   L. Thomassin, 1900, p. 397, onde esse nome est ortografado Rabavavatavokoka. Outras tradies do-lhe
     tambm um pai.
36 C. Poirier, 1953, pp. 34-35. Na verdade, "Andriamaroserana"  o nome genrico do primeiro soberano
   maroserana cujo crnio, chamado Andriamaro, se tornou o protetor de todos os mahafaly (ver abaixo).
   As dificuldades levantadas pelas genealogias mahafaly tm como origem um fator poltico: quatro
   Estados foram criados nesse grupo do Sudoeste, o que torna complicadas as verses da primeira rvore
   genealgica real.
1012                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



    Tais contradies contriburam para explicar as teses de alguns auto-
res segundo as quais os maroserana proviriam, por exemplo, do Sudeste de
Madagascar e seriam indianos que haviam desembarcado perto do atual Fort-
-Dauphin, por volta do ano 1300, para se dirigir ao Norte e fundar a famlia
real dos antesaka, os Zarabehava. Da, teriam seguido rumo ao Oeste, forne-
cendo famlias reais aos antnadroy do extremo sul (os Zafy Manara), aos bara
do centro-sul (os Zafy Manely) e, mais tarde, aos mahafaly e aos sakalava37.
Interpretou-se o termo maroserana como sendo "aqueles que tinham vrios
portos"  "nome dado principalmente aos prncipes de sangue que Radama I
enviou como governadores nos diferentes portos martimos onde estabeleceu
alfndegas38" , o que permite pensar que o controle do litoral era o objetivo
de uma estratgia antiga. Todas essas teses sofreram algumas modificaes no
decorrer dos ltimos anos, baseando-se sobretudo nas primeiras fontes de que
dispomos39. Assim como o indicam as tradies orais antesaka, os reis zara-
behava constituam um ramo dos sakalava da costa ocidental, que atravessaram
o Madagascar entre 1620 e 165040. Tal deslocamento tambm foi confirmado
por outras provas41. Por conseguinte, a dinastia maroserana no se deslocou do
Leste para o Oeste, e no existem mais dvidas de que essa famlia se constituiu
no Sudoeste de Madagascar. Os Zafy Manely, famlia real do Ibara, partiram do
Sudoeste para se dirigirem rumo ao interior meridional (e no o contrrio), e
nada confirma a suposta origem indiana: mesmo no plano lingustico, nunca se
encontraram sobrevivncias indianas no vocabulrio dos reis maroserana. O fato
de aproximadamente 250 anos terem separado a suposta data de chegada (1300)
da apario dos maroserana (1550) contradiz tambm a ideia de uma influncia
poltica indiana. Por fim, h mais de 150 anos, Charles Guillain demonstrou
in loco que um ttulo criado no comeo do sculo XIX pelo rei merina Radama
I (1810-1828), a fim de fortalecer seu controle dos portos, no tinha o mesmo
significado no Sudoeste de Madagascar por volta de 184042.

37   A. Grandidier, 1908-1928, vol. IV, parte I, p. 127-128 (nota 1), p. 168, 212, 214, 278-280 (nota 4).
38   A. Abinal e V. Malzac, 1888, p. 557.
39   R. K. Kent, 1969.
40     Marchand, 1901, pp. 485-486; H. Deschamps, 1936, p. 162-164, passim, e 1965, p. 94.
41   J. Boto, 1923, pp. 252-253. Ademais, os sakalava travaram um certo nmero de guerras no decorrer de
     sua viagem pelo interior do pas, guerras estas que marcaram as memrias.
42     C. Guillain, 1845, p. 11, nota 1. Disseram-lhe, perto de Tular, que o termo maroserana significava
       "inmeras trilhas", em virtude do costume segundo o qual os primeiros reis maroserana do Mahafaly
       instalavam suas residncias no centro das outras moradias e abriam vrias trilhas ao redor, conduzindo
       s aldeias vizinhas. Contudo, Guillain no achou satisfatria tal explicao. Ele conhecia tambm o
       significado desse termo no Imerina.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                               1013



    As duas tradies divergentes dos sakalava no so contraditrias. Andria-
mandazoala e Rabaratavokoka significam respectivamente "o Senhor que mur-
chou a floresta" e "Nobre Junco Inclinado". Pelo fato de os mahafaly e os sakalava
darem nomes pstumos a seus monarcas e em virtude da interdio do uso
da palavra "morto" para se referir aos reis falecidos (esse tabu lingustico era
chamado anaratahina entre os mahafaly e fitahina junto aos sakalava), a ideia
de um junco "inclinado" (o termo junco representando um conceito anlogo ao
uthlanga dos zulus)43 leva a pensar que Rabaratavokoka seria provavelmente um
fitahina para Andriamandazoala. Tal tese encontra-se tambm sustentada pela
ausncia de tmulo para Rabaratavokoka e pela afirmao da existncia do de
Andriamandazoala (embora tenha sido encontrado vazio quando foi aberto)44.
O tmulo de Olembetsitoto situa-se em pas mahafaly45. Alm do mais, recm-
-chegados oriundos do interior (talvez expulsos por outros recm-chegados),
representados pelo Grande Senhor `Al (Andrianalimbe)46, e aqueles vindos de
ultra-mar, representados por Andriamandazoala, aproximaram-se uns aos outros
graas a um processo de coligaes e conflitos, segundo um esquema clssico
para os recm-chegados a Madagascar.  muito provvel que alguns dos ante-
passados dos maroserana tenham chegado no Sudoeste de Madagascar por via
martima. O ramo dos maroserana que reinava junto aos sakalava era conhecido
sob o nome de Zafivolamena (Filhos do ouro), ao passo que os tmulos dos
reis maroserana no pas ainda se chamam volamena (ouro, literalmente "prata
vermelha"). Existem tambm tradies segundo as quais uma grande quanti-
dade de ouro teria sido desembarcada nas proximidades da atual Tular pelos
antepassados dos sakalava-maroserana47. Por no se encontrarem ouro nem
minas de ouro em toda metade sul de Madagascar (no sculo XVI, marinheiros
portugueses exibindo ouro foram observados com indiferena pelos habitantes
do litoral), as tradies indicando que esse metal foi importado no podem ser
errneas em sua essncia. O fato de o volamena ter se tornado um metal sagrado
(fady, faly) reflete tambm a vocao pandinstica daqueles que o trouxeram.
Se levarmos em considerao a proximidade das importantes minas de ouro de
Rodsia, a existncia de homens capazes de levar o metal para Madagascar em

43   C. Callaway, 1870, p. 2-3 e nota.
44   Segundo E. Birkeli, 1926, p. 32.
45   M. A. Marion, 1971.
46   Andrianalimbe: "nobres por dezenas de milhares" (andriana = senhores, nobres + ali, de alina = 10.000,
     e mbe/be no sentido de numerosos, vrios) seria obviamente uma melhor traduo. Andriana no deve
     ser interpretado como um ttulo funcional aplicvel aos titulares de determinados cargos.
47 Tovonkery, 1915, p. 7.
1014                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



uma s travessia (os comerciantes afro-rabes ou mesmo exilados voluntrios
portugueses que detinham grandes quantidades de ouro, mas no sabiam para
onde ir), a presena de algumas palavras e costumes similares em Madagascar
e na Rodsia, dificilmente se pode descartar a probabilidade de ligaes entre
maroserana e mwene mutapa48.
    Algumas tradies extremamente interessantes, recolhidas e publicadas por
um sakalava no incio do sculo XX, esclarecem os princpios da histria dos
maroserana. Elas indicam que as primeiras tentativas desses recm-chegados
no Sudoeste para se afirmar politicamente foram infrutferas: suas inmeras
tentativas de ento no obtiveram nenhum xito. Revelam que os primeiros
sucessos polticos maroserana apenas se tornaram possveis ao se estabelecerem
laos de parentesco entre eles e as famlias de chefes locais, cujo nome era o de
uma floresta vizinha, Analamahavelona49. Mostram tambm que a aptido em
inovar representou um importante trunfo dos primeiros maroserana: tinham o
sentido da expanso territorial, comearam a edificar as primeiras fortificaes
e a construir nas alturas; empregavam tropas de mercenrios; arbitravam as
disputas; sabiam atrair seguidores distribuindo comida e rebanho (a primeira
capital chamava-se Itsororobola, nome que sugere um fluxo abundante e cons-
tante de bens); comearam a consultar adivinhos encontrados localmente sobre
os negcios do Estado50. Eles procederam de forma similar com os mahafaly,
junto aos quais alianas com famlias de chefes enfraquecidas por vrios anos de
conflitos, os Andriantsileliky, garantiram-lhes a supremacia poltica. Entretanto,
as famlias de chefes conservaram inmeros privilgios importantes e no foram
desapossados de seus bens51. Tudo indica que o efeito conjugado de uma taxa de
natalidade elevada entre os maroserana e da vontade de aplicar o princpio da
primogenitura quando das sucesses reais tenha produzido um nmero ilimi-
tado de ramos colaterais e de prncipes sem direito a reinar. Os textos sakalava
(por vezes "ao fazer remontar" a genealogia dos maroserana no tempo) chama-
ram essa bifurcao da rvore genealgica em reis legtimos e colaterais de fase
dos volamena e dos volafotsy ("prata branca"). Foi provavelmente para resolver


48   R. K. Kent, 1970, passim. Contudo, essas ligaes talvez no seriam diretas no que tange aos costumes
     e a origem rodesiana de alguns antepassados dos maroserana permanecer controvertida, pelo menos
     at que novas pesquisas, realizadas dos dois lados do canal de Moambique, evidenciem um nmero
     suficiente de paralelismos para dissipar todas as dvidas.
49   O Analavelona era uma crista do vale do Fiherenana, parcialmente paralelo  costa ocidental, entre os
     rios Fiherenana Mangoky.
50   Firinga, 1901, pp. 664-669.
51   E. Mamelomana, s.d., pp. 1-3.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                  1015



esse problema que se iniciou a busca ativa para novas terras (orin-tany), o que
contribuiu para ampliar a esfera de influncia, aldeias inteiras comeando a ser
governadas por membros da famlia real. Porm, o problema ainda se colocava
no sculo XIX, levando de vez em quando ao exlio voluntria de colaterais
(eram ento chamados de longo'mpanilo ou vohitsy mananila),  aliana destes
com opositores aos maroserana ou, ainda,  constituio de dinastias rivais
como os Andrevola, reis do vale do Fiherenana que muito atrapalharam os
maroserana.

     Os estrangeiros e sua influncia
   Os relatos dos europeus que visitaram Madagascar antes do perodo colonial
tm o mrito cumulativo e durvel de contribuir de maneira inestimvel para o
conhecimento do passado da ilha52. No se pode contudo referir-se a uma viso
monolinear no que concerne  influncia que a Europa tinha na ilha por volta de
180053. De forma geral, os portugueses tiveram, no sculo XVI, uma influncia
negativa sobre o comrcio dominado pelos muulmanos e seus estabelecimentos
 beira do Oceano ndico54. No alvorecer do sculo XVI, havia quatro destes
estabelecimentos em Madagascar: um perto da cidade de Vohemar, no Nor-
deste, e trs no Noroeste, no longe da atual Majunga. As feitorias do Noroeste
encontravam-se em pequenas ilhotas das baas de Mahajamba, Boina e Bom-
betock. Eram controladas e habitadas por comunidades de lngua kiswahili que
exportavam essencialmente arroz e escravos para a frica Oriental e a Arbia.
Quanto  do Nordeste, chamada Iharana, ela era diferente sob vrios aspectos.
Os habitantes de Iharana viviam na grande ilha, exportavam muito menos gros
e homens que as feitorias do Noroeste e sua cultura, de origem local, era antiga e
centrada no polimento da pedra e nas tcnicas de construo55. Segundo fontes
portuguesas do incio do sculo XVI, Iharana teria sido fundada por "mouros"
de Malindi. No h muitas dvidas de que seu declnio apenas tenha comeado
no momento em que a Europa se ingeriu no comrcio dos muulmanos atravs


52   Um grande nmero desses relatos constam das Collections des ouvrages anciens concernant Madagascar (1903-
     -1920), obra publicada sob a gide de seus dois principais organizadores, Alfred e Guillaume Grandidier.
     A srie no vai alm de 1800 e ainda no existe nenhuma coleo comparvel para o sculo XIX.
53   A mais dura e radical condenao de todos os europeus vindos a Madagascar at 1800 foi formulada pelos
     Grandidier, que forma sem dvida os mais importantes especialistas de Madagascar. Ver A. Grandidier,
     1908-1928, vol. IV, parte II, p. 106-108.
54   J. Strandes, edio de 1961, p. 12-155.
55   Para uma ideia geral das obras existentes a respeito de Iharana, ver P. Vrin, 1971, p. 225-229; P. Gau-
     debout e E. Vernier, 1941, permanecem a referncia de base de todos os trabalhos.
1016                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



do Oceano ndico. Em 1700, j no era mais do que a sombra dela mesmo e sua
cultura desvaneceu-se sem deixar o menor rastro tangvel na ilha. Em 1506, os
portugueses atacaram a principal feitoria suali do Noroeste, Lulangane, situada
na ilhota de Nosy Manja, na baa de Mahajamba. Eles tentaram destruir Boina
em vo e pouparam totalmente Bombetock, cujo shaykh adotara uma atitude
amigvel para com os lusitanos56. Mais a Norte, na baa de Anorontsanga, estes
descobriram tambm uma densa colnia de africanos composta de aproxima-
damente 2000 homens que se juntaram na praia, armados de arcos e flechas
(armas estas que sumiram de Madagascar depois desse episdio), assim como
de lanas e escudos. Mas mudaram de ideia antes da batalha e sumiram no
interior da ilha. Suas casas foram queimadas e foi como se "a montanha inteira
estivesse em chamas". Entretanto, tal colnia especfica no fazia parte da rede
comercial muulmana. Tratava-se de escravos que haviam fugido de Malindi,
Mombaa e Mogadscio57.
    Contudo, aps esses primeiros contatos belicosos, os portugueses instalados
em Moambique mudaram sua atitude e puseram-se a enviar cada ano no
Noroeste de Madagascar um navio que dali trazia rebanho, mbar cinza, tecido
de rfia e escravos58. Do Couto relata que em meados do sculo XVI, seus con-
terrneos haviam se tornado os mais ativos compradores de escravos de todos
os intermedirios do Noroeste59. Ao fazer aumentar a demanda por produtos de
exportao, os portugueses contriburam para a emergncia de um certo nmero
de pequenas unies polticas no Noroeste da ilha, no longe das feitorias sualis.
Cinco conjuntos desse tipo constituram-se ao longo do litoral e, parcialmente,
no interior das terras, entre 14 e 16 graus de latitude sul60. Um deles tornou-
-se rapidamente importante sob a direo de um chefe, portador do ttulo de
tingimaro, chamado, no sem exagero, "o rei mais poderoso da ilha". Ele estava
"continuamente em guerra com seus vizinhos61". Meio sculo mais tarde, em
junho de 1614, o Tingimaro recebeu a visita do padre Luis Mariano, da ordem
de Jesus em Moambique. Este ltimo fez trs viagens de ida e volta at Cuala,
capital do Tingimaro, distante de aproximadamente 25 quilmetros da costa,
no intuito de obter que religiosos (e os leigos portugueses) pudessem implantar


56     Albuquerque e de Barros, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 15, 20-21 e 24-31.
57     Ibid., p. 22.
58   J. dos Santos, 1609 (edio de 1891), vol. II, cap. 19, p. 332-333, e 1901, p. 332.
59     Do Couto, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 100.
60     Ibid.
61     Ibid. Os prisioneiros de guerra eram vendidos aos intermedirios do litoral.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                            1017



um primeiro estabelecimento em um Estado que os intermedirios do litoral
comeavam a temer62. Aps um dos sditos do Tingimaro ter passado pelo
teste do veneno a fim de conhecer as intenes do padre Mariano, este foi bem
recebido, mas o Tingimaro recusou-se a assinar um tratado com os portugueses
e no aceitou nenhuma atividade missionria dentro de suas terras63. O Tingi-
maro era um buque (do kiswahili wa-Buque), nome adotado pelos portugueses
para distinguir os que falavam malgaxe dos cafres de Madagascar, que falavam
idiomas bantos, mas usado pela comunidade de lngua kiswahili para designar
todos os habitantes da grande ilha64. Como o Tingimaro acabou por controlar
tambm a baa de Anorontsanga, tudo indica que a colnia de escravos que
fugiram da costa suali da frica tenha sido absorvida pelos buque no decorrer
de aproximadamente cinco geraes.
    No fim dos anos 1580, os mouros de Mazalagem (os nomes de "Velho" e
"Novo" Mazalagem foram dados s feitorias das baas de Mahajamba e de Boina
pelos europeus, com diversas grafias) recusaram o comrcio com os portugueses,
e um dominicano que queria converter os autctones foi morto65. A guerra s
foi evitada em virtude de ordens procedentes de Lisboa66, aps uma demons-
trao de fora e retaliaes contra os mouros fora de Madagascar67. Em 1590,
o Noroeste de Madagascar foi integrado  zona comercial da ilha de Moambi-
que68. Entre 1614 e 1620, houve tentativas, em particular por parte do dinmico
padre Mariano, para construir uma igreja no Noroeste de Madagascar. Como
atesta um dirio, isso no serviu  causa da cristandade. Os muulmanos locais,
relativamente permissivos e pouco voltados a frequentar a mesquita, foram assim
levados a tornar-se mais rigorosos e a estreitar seus laos com os muulmanos
sunitas vindos da frica Oriental e da Arbia69. Aproximadamente meio sculo
mais tarde, em 1667, o padre Manuel Barreto escreveria que havia frequente-
mente ouvido Bartholomew Lopes, homem de grande juzo [...] dotado de uma

62   Samamo, rei suali do Novo Mazalagem, disse a Paulo Rodrigues da Costa, em 1613, que o Tingimaro
     o obrigou, assim como seu tio, a abandonar o Velho Mazalagem e que ele temia tambm uma tentativa
     de anexao do Novo Mazalagem.
63   A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 66-70.
64    s no Noroeste que Madagascar era chamada Ubuque, e a distino entre Buque e Cafres no "Dirio"
     de P. R. Costa (1613) e nos relatos de Mariano era intencional.
65   J. dos Santos, 1609 (edio de 1895), vol. I, p. 286.
66   King to Meneses, 6/2/1589, BFUP, I, 302.
67   J. dos Santos, 1609 (edio de 1895), vol. I, p. 286-287.
68   Fazendo parte da zona comercial de Goa.
69   P. R. da Costa, 1613 (edio de 1970), p. 61-72, comparar com a carta de Mariano a de Medeiros, 24
     de agosto de 1619, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 303-311.
1018                                                                                frica do sculo xvi ao xviii



grande experincia das viagens a Madagascar, dizer que se o rei [de Portugal]
quisesse dar-lhe seis navios armados com soldados portugueses a bordo, ele iria 
ilha com a sua canoa e outros barcos com alguns kaffir de outra raa e impediria
qualquer navio mouro proviniente de Meca, Brava e Mogadoxo de fazer escala
na ilha para ali praticar o trfico dos buque, que eles transformavam em mou-
ros, em um ritmo de 3500 por ano, pois os xeiques que residem em diferentes
portos a este fim compram-nos e doutrinam-nos ao longo do ano para a maior
desonra dos cristos70.
    Em 1613, os portugueses assinaram tambm alguns tratados com os reis
do litoral ocidental de Madagascar e, em 1616 e 1617, uma misso jesuta foi
enviada ao reino de Sadia, prximo ao rio Manambolo. Essa misso provocou
uma guerra civil latente h algum tempo71 cujas consequncias influenciariam
fortemente a fundao do reino sakalava do Menabe. Em 1641, os portugueses
anexaram oficialmente o Oeste de Madagascar conforme os termos de um tra-
tado lusitano-holands72, mas apenas se tratava da expresso de um desejo do
principal parceiro comercial de Madagascar no Moambique. Por volta de 1700,
com efeito, o Noroeste de Madagascar era dominado pelos sakalava-maroserana
e, exatamente meio sculo mais tarde, os malgaxes atacariam no somente os
navios portugueses encontrados no canal de Moambique, mas tambm suas
bases das ilhas de Querimba e Ibo73.  certo que alguns portugueses naufragados
tinham ido ao Sul de Madagascar entre 1510 e 1550, e de Flacourt74 relatou
acontecimentos em que eles estavam associados a grandes quantidades de ouro.
Um grupo desses portugueses estabeleceu-se em Antanosy, onde se encontrou
um pequeno forte de pedra (trano-vato) portando inscries. Alguns zafindra-
minia afirmaram que casamentos haviam unido suas famlias a portugueses que
assim foram assimilados sem deixar quase nenhum rastro de sua presena nesta
parte da ilha75.
    Tudo indica que no incio do sculo XVII, os portugueses tomaram menos
escravos em Madagascar do que seus concorrentes da frica e da Arbia. Ade-
mais, eles tinham que pagar um preo muito mais alto para comprar os cativos.


70   M. Barreto, 1899, p. 503-504 (suplemento). 
71     L. Mariano, "Letter", 24 de maio 1617, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 236.
72   G. M. Theal, 1898-1903, vol. I, p. 407. O tratado foi ratificado em Portugal e na Holanda em 1641 e 1642.
73   E. de Froberville, 1845.
74   . de Flacourt, 1661 (edio de 1920), p. 32-33.
75     L. Mariano, "Relation", em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 41-48; . de Flacourt, 1661 (edio
       de 1920), p. 32-34.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                      1019



Durante esse mesmo perodo, as ilhas Comores tornaram-se o centro desse
comrcio, onde eram juntados os escravos e as mercadorias de Madagascar
a serem em seguida enviadas para Malindi, Mombaa, Mogadscio e Arbia
(principalmente no Golfo de Aden). Por exemplo, os comerciantes de Domoni
obtiveram "inmeros" escravos no Noroeste de Madagascar "em funo de inces-
santes guerras civis" travadas entre os reis da regio. Em 1614, um escravo era
comprado em Madagascar por 9 ou 10 piastras e revendido aos portugueses por
100 piastras76. J que nesta poca vrios mercadores de Domoni falavam razoa-
velmente o portugus, eles teriam se voltado comercialmente para os Comores.
Ainda em 1614, relatou-se que Anjouan estava repleta de escravos dos dois
sexos trazidos de Madagascar, na espera de serem enviados na Arbia em troca
de algodo indiano e de pio77. Aproximadamente trinta anos mais tarde, viu-
-se em Anjouan um barco proveniente da baa de Boina (Novo Mazalagem)
transportando 500 escravos, em sua maioria crianas e jovens, comprados por "2
a 4 moedas de um oitavo de real". Em Anjouan, o preo j havia quadruplicado.
Decuplicaria em Malindi para dobrar de novo ao atingir as margens do Mar
Vermelho78. Barcos de Shihir, no Golfo de Aden, iam tambm diretamente a
Madagascar para comprar arroz, milhete e jovens dos dois sexos79. Fica claro
que os portugueses estavam perdendo flego em Madagascar em proveito dos
compradores tradicionais. Aps aproximadamente 1620, tudo indica que eles se
desinteressaram totalmente da grande ilha.
    No incio da segunda metade do sculo XVII surgiram novos compradores
que no se limitaram a atuar no Noroeste da ilha. Sabemos que, de 1639 a 1647,
pelo menos oito navios abasteciam os holandeses da ilha Maurcio com arroz e
escravos de Madagascar. Atuavam principalmente a partir da baa de Antonil80.
Um tratado assinado com o rei de Antongil em maro de 1642 obrigava-o a
fornecer escravos apenas  Companhia Holandesa das ndias Orientais. Em
1646, o terceiro governador da ilha Maurcio encarou a possibilidade de cons-
truir e equipar um forte nessa baa, mas ordens vindas de Batavia puseram fim
aos esforos de implantao partindo de Maurcio81. Confrontos frequentes


76   Visita de Walter Peyton em Mohli, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 84.
77   Visita de Pieter van den Broecke nas ilhas Comores, ibidem, p. 93.
78   Smart em Kynnaston, 23 de junho 1646, ibidem, vol. V, p. 515 e 518.
79   P. van den Broecke (1614).
80   Ver a tabela provisria estabelecida por G. Grandidier e R. Decary, 1958, vol. V, parte III, seo 1, p. 208.
81   Para o texto do tratado, ver Corpus Diplomaticum Neerlando-Indicum, erste deel (1596-1650), A Haia,
     1907, pp. 360-362.
1020                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



(por vezes muito violentos) opuseram os holandeses aos habitantes do Leste
de Madagascar at 1655, ano em que os primeiros comearam a vir na ilha
a partir do Cabo. Eles participaram tambm de conflitos locais. Porm, em
seu conjunto, a costa oriental era desunida e no se pode dizer que a presena
comercial dos holandeses ou sua participao ocasional em guerras civis tenha
tido um impacto durvel. No sculo XVIII, todavia, os holandeses se juntaram
a outros europeus para exercer uma considervel influncia comercial em vrias
regies de Madagascar, notadamente na costa ocidental.
    Navios ingleses acostaram em Madagascar centenas de vezes entre 1600 e
1800, geralmente na costa ocidental e notadamente na baa de Santo Agostinho,
que chegou a receber simultaneamente oito embarcaes. O pidgin ingls, a
lngua do comrcio, imps-se na regio e alguns autctones adotaram nomes e
ttulos ingleses82. Em 1645, puritanos ingleses foram enviados a essa baa para
fundar uma colnia. Cinco anos mais tarde, houve outra tentativa de implanta-
o colonial em Nosy Be, uma ilhota do Noroeste. Embora Madagascar tenha
sido apresentada aos futuros colonos como um paraso terrestre, essas tentativas
fracassaram e o nmero de vtimas foi considervel83. Ao contrrio dos portu-
gueses e dos holandeses, os ingleses no criaram bases em Madagascar. Mesmo
assim, eles se tornaram os mais ativos exportadores de escravos malgaxes rumo
ao Novo Mundo, particularmente para Barbados e Jamaica. Segundo um recen-
seamento efetuado em Barbados no fim do sculo XVII, a ilha tinha 32.473
escravos cuja metade vinha de Madagascar84. Inmeros piratas americanos e
ingleses participaram do trfico de escravos entre 1688 e 1724. Eles visitaram
todas as zonas de trfico de Madagascar e implantaram tambm colnias em
Diego-Surez, na baa de Antongil e na ilhota oriental de Santa-Maria. Piratas
participaram das guerras locais e contriburam assim para a insegurana pro-
pcia a um abastecimento constante em cativos destinados  exportao85. Foi
no decurso dessa "era dos piratas" que ocorreram duas mudanas importantes
no que diz respeito ao comrcio e s mercadorias. Em primeiro lugar, como os
europeus entraram em concorrncia diante dos mesmos fornecedores, os chefes
costeiros tenderam, na maioria dos casos, a aumentar cada vez mais os preos.
Em seguida, e talvez como consequncia, os europeus comearam a trocar os


82     A ttulo de exemplo, ver A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. V, p. 255.
83     Ibid., vol. III, p. 44-64, 69-183, 184-187 e 221-258. Existe tambm um certo nmero de ensaios a
       respeito desse tema.
84 G. Grandidier e R. Decary, 1958, vol. V, parte III, seo 1, p. 213.
85 H. Deschamps, edio de 1972, permanece a obra de referncia sobre essa questo.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                  1021



escravos que eles almejavam por armas defeituosas ou obsoletas. Como disse um
mdico ingls em 1754, as armas vendidas aos habitantes de Santo Agostinho
eram de pssima qualidade e muitas vezes explodiam, mutilando ou matando
seus usurios86.
    Entre os pases europeus desejosos de se instalar duravelmente em Mada-
gascar, a Frana foi a nica a obter um modesto sucesso com Fort-Dauphin,
feitoria fortificada a Sul da ilha por ela dominada durante um pouco mais de
trinta anos, de 1643 a 1674. s vezes, os franceses pareciam ocupar uma posi-
o intermediria entre "estrangeiros" e "recm-chegados". Em Fort-Dauphin,
muitos homens casaram-se com mulheres locais. Entre os casos mais conhecidos
consta o de Pronis, o primeiro governador de Fort-Dauphin, que se casou com
uma rohandrian zafindraminia, e o do soldado francs apelidado "La Case" que
chegou na feitoria em 1656 e casou uma herdeira presuntiva da parte setentrio-
nal do pas antanosy, onde ele se tornou um heri militar87. Alguns franceses
tambm disponibilizaram suas armas de fogo (que lhes conferiam uma grande
vantagem, j que os autctones tinham poucas) para diversos reis da regio.
tienne de Flacourt, o mais instrudo e duradouro governador de Fort-Dauphin
(1648-1658), autor de duas obras fundamentais a respeito de Madagascar88,
tornou-se um potentado local obrigado a se defender sozinho, sem muito apoio
da Frana. De fato, durante a metade do tempo em que ele ocupou o cargo de
governador, nenhuma embarcao francesa atracou em Fort-Dauphin.
    De forma geral, subestimou-se a influncia de Fort-Dauphin. Esta foi sen-
svel no somente em nvel local, como tambm em um nvel mais amplo.
Os antanosy, por exemplo, estavam quase chegando  unio poltica com os
zafindraminia sob a direo de Dian Ramack, antigo prncipe da subdiviso
dos matikassi que tinha ido a Goa. Fort-Dauphin constituiu um obstculo a
tal unio. Na poca em que nenhum navio ali acostava (1650-1654) estourou
uma luta encarniada pela supremacia entre os rohandrian recm-chegados e os
soldados franceses, ao passo que a maioria dos simples cultivadores fugia para a
selva para escapar da crescente violncia. Em 1653, Dian Ramack, assim como
inmeros rohandrian, estava morto e diversos chefes juraram fidelidade (mifaly)
a de Flacourt, que no buscava fundar um Estado local. A situao piorou
depois de sua partida, mas a segunda Companhia Francesa das ndias Orien-
tais acentuou seu esforo no intuito de implantar uma colnia em Madagascar.

86   Relatrio do Doutor Edward Yves, A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. V, p. 256.
87   E. F. Gautier e H. Froidevaux, 1907, passim.
88 . de Flacourt, 1658 (edio de 1913) e 1661 (edio de 1920) ; A. Malotet, 1898.
1022                                                                               frica do sculo xvi ao xviii




figura 28.2 tienne de Flacourt, governador de Fort-Dauphin (Madagascar) de 1648 a 1658. [Fonte:
Madagascar au dbut du XXe sicle, Paris, Socit d'ditions scientifiques et littraires, 1902, p. 319.  Royal
Commonwealth Society Library, Londres.]
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                               1023



Em 1665, postos avanados foram criados em Antongil, no Matitana e em
Santa-Maria. Em 1667, aproximadamente 2000 colonos e soldados franceses
desembarcaram de dez navios em Fort-Dauphin. Isso acarretou uma srie de
mifaly por parte dos chefes antanosy, que abandonaram totalmente a luta. Fora
do pas antanosy, a presena francesa em Fort-Dauphin acelerou a fundao de
Menabe pelo rei maroserana, Andriandahifotsy, que quis concluir uma aliana
com Fort-Dauphin89. As campanhas realizadas por La Case no Matitana,
que puseram fim  supremacia poltica dos zafikazimambo, constituem
outro exemplo da influncia francesa fora do territrio controlado pelos
antanosy. Fort-Dauphin foi abandonada em 1674 e seus ltimos habitan-
tes foram evacuados ao Moambique,  ndia e  ilha Bourbon (a atual
Reunio), mas a repercusso dessa presena de trinta anos se fez sentir at
Ibara, junto aos betsileo do Sul, nos pases antandroy e mahafaly, assim
como todo o Sudeste de Madagascar.
    No decorrer do sculo XVIII, as plantaes das ilhas Mascarenhas vizi-
nhas, da ilha Bourbon e da ilha de Frana (ilha Maurcio abandonada pelos
holandeses em 1710 e ocupada a partir da ilha Bourbon entre 1715 e 1721)
teriam, como sistema econmico, uma influncia negativa sobre Madagascar,
particularmente no que diz respeito  costa oriental. Em 1744, a ilha Bourbon
exportava 1140 toneladas de caf e era composta de 10.338 escravos e 2358
brancos. Em 1797, sua populao j atingia 56.800 habitantes, dos quais mais
de 80% eram escravos. Em 1788, a ilha Maurcio tinha um pouco menos de
43.000 habitantes, dos quais 36.000 eram cativos. J em 1797, mais de 83% dos
59.000 habitantes da ilha eram escravos90. Admite-se geralmente que a maioria
dos escravos importados nas duas ilhas Mascarenhas entre 1664 e 1766 vinha
de Madagascar. Porm, a administrao real francesa (que comprou essas ilhas
da Companhia Francesa das ndias Orientais por mais de 7,5 milhes de libras
esterlinas) substituiu progressivamente os malgaxes por escravos oriundos da
frica91. Entretanto, no se pode esquecer que as importaes dobraram entre
1766 e 1788  primeira "gerao" do governo real  e que, aps 1766, Madagas-
car quase nunca foi deixada de lado pelas Mascarenhas. Em 1784, um agente do
rei foi enviado a Foulpointe, a principal cabea de ponte das Mascarenhas em


89   R. K. Kent, 1970, p. 199.
90   A. Toussaint, 1972, p. 335-336.
91   A deciso oficial foi tomada em 1740, mas antes dessa data, escravos j eram procurados em Moambique.
     Tal mudana se deve ao fato de os escravos malgaxes fugitivos terem fundado colnias de impossvel
     desmantelamento. Ver C. Grant, 1801, p. 75-78.
1024                                                                               frica do sculo xvi ao xviii



Madagascar. Dois anos mais tarde, um nobre libertino polaco-hngaro chamado
Benyowsky tomou iniciativas que prejudicaram os interesses comerciais das
Mascarenhas no Leste de Madagascar e foi morto por soldados vindos da ilha
de Frana (Maurcio). Na verdade, o Nordeste de Madagascar, de Tamatave a
Foulpointe, estava se tornando uma plantao satlite para os empreendedores
das Mascarenhas.

     Os Estados do Norte e do Oeste: Mahafaly,
     Sakalava, Antankara, Tsimehity
    Ao passo que os primeiros maroserana se impuseram politicamente no
Sudoeste, uma nova sociedade constituiu-se entre os rios Menarandra e Oni-
lahy. Seu nome, Mahafaly (tornar sagrado), est ligado  diferenciao social e
ao cerimonial real. Segundo a tradio, o primeiro maroserana, aconselhado e
protegido pelo ombiasa do rei, retirou-se em um isolamento total. Por no ser
mais visto, tornou-se sagrado (faly) e, consequentemente, transformou o pas e
seus habitantes em Maha-Faly92. A principal divindade maroserana, o crnio
andriamaro, tambm no podia ser vista, pois residia em uma montanha coberta
pela bruma e apenas manifestava sua vontade por intermdio de um mdium
(vaha). Nessa sociedade com um longo passado pastoril e pouco voltada para a
autoridade, Andriamaro parece ter conseguido impor um cdigo moral baseado
no temor93. Aps a chegada no poder dos maroserana, a sociedade mahafaly
comps-se de privilegiados (renilemy), de plebeus (valohazomanga) e de pessoas
oriundas de outro lugar (folahazomanga). Formavam a nova elite os descendentes
do mais poderoso chefe da poca da constituio dos maroserana, Tsileliki (o
Invencvel), seus antigos sditos (que gozavam de um estatuto especial), todos
aqueles que chegaram com os protomaroserana e indivduos ou famlias que
se queria recompensar de quando em quando94. Alguns dos numerosos cls
mahafaly detinham cargos que lhes permitiam se aproximar do mpanjaka (rei,
chefe, soberano), tais como, por exemplo, os forjadores do rei ou fornecedores
de mel da corte. Cada cl elegia seu prprio chefe, que era em seguida confir-
mado como "amigo do rei" (rainitsy ny mapanjaka) e assistido por seus prprios
altos conselheiros (ondaty-b). Os reis mahafaly tinham um grande sacerdote,


92   Relato recolhido por A. Grandidier, 1908-1928, vol. IV, parte I, seo 1, p. 213, nota 1.
93   D. Jakobsen, 1902.
94     E. Mamelomana, s.d. passim; Enqute sur les... Mahalafy, s.d., Centre d'tude des coutumes, Universidade
       de Madagascar, p. 1-3. Essas duas obras datam muito provavelmente do incio dos anos 1960.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                1025



o mpisoro, que presidia as cerimnias organizadas em torno do altar coletivo, o
hazomanga-lava, onde se imolavam os animais95.
    A histria do Mahafaly at 1800  marcada por conflitos com seus vizinhos,
por uma ciso em quatro reinos distintos e independentes (Sakatovo, Menaran-
dra, Linta e Onilahy), e pela anexao de territrios pertencentes ao ramo mais
ocidental dos antandroy (karimbola). de Flacourt fornece-nos algumas indica-
es a respeito desses conflitos. Ele menciona uma embaixada composta de 12
mahalafes (mahafaly) que, em junho de 1649, veio a Fort-Dauphin a mando
de Dian Manhelle. Eles pediram a ajuda de mercenrios franceses para lutar
contra um dos reis machicores (termo genrico designando os povos da parte
meridional do interior, cuja grafia corrente  Machicoro) que tinha se apossado
de boa parte do rebanho de seu prprio rei. de Flacourt aceitou, sendo que ele
receberia a remunerao habitual, ou seja, a metade do rebanho capturado com
a ajuda de seus homens96. Em meados de 1653, s vsperas da morte de Dian
Manhelle, os povos da parte meridional do interior encontravam-se em uma
situao de completa desorganizao aps terem perdido sucessivamente dois
reis em guerras contra ele97. Tudo indica que os mahafaly estavam tambm
sofrendo um processo de ciso durante os anos 1650, data aproximativa em que
se formaram os dois primeiros reinos distintos, o Menarandra e o Sakatovo.
Um pouco mais tarde, o Menarandra daria origem a dois outros reinos, o Linta
(por volta de 1670) e o Onilahy (por volta de 1750), sendo este ltimo o mais
setentrional dos Estados mahafaly governados pelos maroserana98. Foi um dos
reis menarandra quem conquistou as terras dos karimbola-antandroy do Oeste
durante a primeira metade do sculo XVIII99. Percebe-se uma influncia ante-
moro sobre o Reino onilahy, cujo primeiro rei escolhera como nome o ttulo
antemoro de andrianoni. Antes de 1800, houve seis reis em Sakatovo, sete em
Linta, trs em Menarandra (aps a ciso de 1750) e dois em Onilahy. Tais divi-
ses refletem as inmeras divergncias internas existentes junto aos maroserana,
mas a histria interna dos mahafaly permanece ainda pouca conhecida at o
fim do sculo XIX.


95   G. Grandidier e R. Decary, 1958, vol. IV, parte III, seo 1, apndice 31, p. 235-236.
96   . de Flacourt, 1661 (edio de 1920), p. 263. Foi preciso aproximadamente 12 dias para 15 franceses e
     2000 mahafaly atingirem os machicores e capturarem 10.000 cabeas de rebanho e 500 escravos.
97   . de Flacourt, 1661, p. 74-75.
98   As genealogias mahafaly e maroserana, assim como as datas de sua histria, foram estabelecidas por
     Speyer, um austraco que passou 30 anos junto aos mahafaly e foi conselheiro de seu ltimo rei, Tsiam-
     pondy (1890-1911). As datas so sujeitas  reviso.
99   E. Defoort (1913, pp. 168 e 172) situa o acontecimento por volta de 1750.
1026                                                                  frica do sculo xvi ao xviii



    Embora os maroserana tenham obtido seus primeiros sucessos polticos entre
os tompon-tany que viviam no Sul do Onilahy, a maior via navegvel do Sudo-
este, essa dinastia maroserana s adquiriu uma importncia poltica real a partir
do momento em que alguns de seus membros atravessaram o rio rumo ao Norte
para chegar ao vale do Fiherenana, entre o Onilahy e o Mangoky. Foi nesse
vale que nasceram os maroserana-volamena e a partir dele que atravessaram o
Mangoky para formar a dinastia dos Estados sakalava  o Menabe e o Iboina.
Andriandahifotsy fundou a dinastia do Menabe e, muito provavelmente, seu
ramo volamena. Segundo seu fitahina, ele era "o senhor que humilhou milhares
de pessoas" (Andrianihananinariyo). Segundo o mapa de de Flacourt, o Sul
do Menabe constitua, antes de 1660, o pas dos lahe fonti (lahe/dahe significa
homem e fonti/fouti/foutchy/fotsy branco). A fundao das dinastias volamena e
menabe tem aspectos religiosos e seculares. Um moasy (sacerdote) real associado
aos crocodilos, Ndriamboay (nobre crocodilo), teria introduzido o culto dos
antepassados (dady) junto aos maroserana, de tal forma que estes se tornaram
os ampagnitob (grandes antepassados reais, pais do povo). Por sua vez, em guisa
de recompensa, ele foi includo entre os dady maroserana, quer como pai (ideia
de submisso) de Andriandahifotsy, quer como seu tio, e recebeu o nome ps-
tumo de Andriamisara (`ishara significa "adivinhar" em rabe)100. Segundo outras
tradies, foi Ndriamboay quem sacrificou a mulher de Andriandahifotsy, cujo
sangue deu origem aos volamena (prata que se tornou vermelha) e ao nome de
Menabe (Grande Vermelho)101. Sabemos que houve sacrifcios humanos durante
alguns sepultamentos maroserana, mas, segundo uma tradio mais confivel,
a mulher de Andriandahifotsy (que fazia parte dos numerosos sakoambe cujos
tmulos encontram-se at hoje perto de Morondava) conseguiu trazer-lhe as
primeiras armas de fogo durante uma batalha decisiva102. As dez armas foram
incorporadas ao tesouro real103 e seus filhos tornaram-se os volamena.
    Quando os maroserana entraram em contato com os povos do Menabe, j
no se encontravam mais nas terras dos pastores do Sudoeste e os tompon-many
do menabe eram tambm muito diferentes. A zona costeira que se estende
aproximadamente de Majunga a Morondava (por volta de 640 quilmetros
de extenso) estava ocupada por pescadores e agricultores que criavam poucos


100 Academia malgaxe, Antananarivo, manuscrito annimo 2238/2, por volta de 1908, Niandohan'ny
    Fivavahan'ny (Origens da religio dos sakalava), f. 1-7.
101 C. Betoto, 1950b, p. 3.
102 E. Birkeli, 1926, p. 33.
103 R. K. Kent, 1970, p. 200 e nota 163.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                  1027



animais. Com exceo do Sadia, densamente povoado (sua capital tinha 10.000
habitantes em 1614), a maioria dos moradores vivia em pequenas comunidades e
no possua armas, o que sempre surpreendia da Costa104. Essa zona chamava-se
Bambala. Seus ocupantes no falavam malgaxe, mas idiomas bantos. Eram cafres
e no buque. Sua lngua enriquecera-se com emprstimos do malgaxe, todavia
em nmero relativamente limitado105. Complicou-se indevidamente o problema
da origem dos sakalava, principalmente recorrendo a argumentos lingusticos:
eles vinham do Bambala, mais precisamente do Sadia, e entraram em contato
com os maroserana nos arredores do Mangoky, provavelmente no nvel de um
de seus pequenos afluentes chamado Sakalava. Todas as tradies concordam
em indicar que os sakalava eram os mais notveis guerreiros de seu tempo, e o
testemunho de Mariano confirma essa funo junto aos suculamba de Sadia,
que fizeram secesso em 1616 e efetuaram grandes incurses a partir de 1620106.
Ademais, o culto dos dady, descrito por Mariano durante sua estadia no Sadia107,
fora adotado como modelo pelos maroserana-volamena. Os sakalava foram as
pontas de lana da autoridade poltica dos reis volamena, mas o culto dos dady
deu-lhe um fundamento religioso que sobreviveria aos terrveis guerreiros e a
seus descendentes diretos. No Menabe, a frmula que consistia em dar aos reis
nomes pstumos compostos do prefixo andria (senhor, nobre) e do sufixo arivo
(mil, milhares) foi introduzida do exterior, provavelmente, mas no diretamente,
com os maroserana108. O infixo varivel evocava geralmente a imagem que o
monarca deixara na memria de seus sditos, mas, em seu conjunto, a frmula
reflete uma ideia poltica: um verdadeiro rei deve ter muitos sditos.
    Por volta do incio dos anos 1670, o Sul do Menabe (regio que se estende
aproximadamente entre os rios Mangoky e Manambovo) era dominado por
Andriandahifotsy. Nesta mesma poca, esse monarca recebeu a visita de um
francs de Fort-Dauphin, um pecuarista que testemunhou a presena de um
exrcito de quase 12.000 homens e recebeu 50 novilhos como presente para
o governador do forte109. Segundo as melhores estimativas, Andriandahifotsy
morreu por volta de 1685. Quando se findaram os conflitos decorrentes de sua


104 P. R. da Costa, 1613 (edio de 1970), pp. 72-126.
105 L. Mariano, em sua "Relation" e em suas "Letters", em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 225,
    241, 256 e 315 (em pequenos caracteres a respeito do "enriquecimento").
106 Mariano indica claramente isso em sua "Letter" de 24 de agosto de 1619, em A. Grandidier e al., op. cit.
107 L. Mariano, "Letter", 22 de outubro de 1616, em A. Grandidier e al., op. cit., p. 226-229 e 232-233.
108 A frmula poderia ter sido antemoro, j que alguns de seus sorabe a aplicam.
109 Du Bois, 1674, pp. 105-108.
1028                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



sucesso, um de seus filhos, Trimonongarivo (falecido por volta de 1718/1719
e tornado Andriamanetriarivo), tomou o controle do Menabe. Ele ampliou-
-o110 e povoou-o com inmeros novos sditos recrutados entre os pastores do
Sudoeste111. Seu irmo caula, Tsimanatona (tornado, por fitahina, Andriaman-
disoarivo), atravessou o rio Tsiribihina e dirigiu-se rumo ao Norte com menos
de 1000 guerreiros sakalava para fundar o Iboina durante a ltima dcada do
sculo XVII. Uma vez que existe uma certa confuso a respeito de alguns nomes
reais constando das tradies orais e dos relatos europeus da poca, torna-se
difcil dizer se o Menabe teve quatro ou seis reis entre 1720 e 1800112. Todavia,
permaneceu estvel durante esse perodo, com exceo de um nico caso de
regicdio relatado nos anos 1730. No decorrer da dcada seguinte o Menabe
concluiu uma importante aliana com os reis andrevola do vale do Fiherenana.
Tratava-se de um pacto de sangue real (o fatidra) que tornou muito mais seguras
as fronteiras meridionais do Menabe. Houve tambm uma aliana matrimonial
com um poderoso monarca do Oeste do Imerina, aliana esta que levou seu
rival do Imerina central a tentar submeter em vo o Menabe no fim do sculo
XVIII113. No Iboina, protegido no Sul pelo Estado irmo Menabe, as feitorias
e os negociantes muulmanos foram colocados pela fora sob a proteo do rei
volamena. Analalava e Anorontsangana (anteriormente sob a dominao do
Tingimaro) foram incorporados ao reino, assim como novos sditos. Majunga
cresceu e se tornou a capital comercial do pas, ao passo que seus reis e sua corte,
estabelecidos em Marovoay, atingiam um esplendor sem igual em toda ilha. Na
poca de Andrianinevenarivo (conhecido como Andrianbaga, falecido em 1752),
o Iboina estava no seu apogeu. Da mesma forma que criadores do Sul, em funo
da sua migrao para a regio, haviam substitudo virtualmente os agricultores
do Menabe na poca da ascenso dos maroserana, imigrantes vindos do Norte
e dirigindo-se ao Sul com seu rebanho absorveram progressivamente a maioria
do que sobrava dos bambala114. Isso acarretou no somente o desaparecimento
do banto falado pelos tompon-tany, mas tambm uma evoluo desfavorvel da
economia, no momento em que os Estados sakalava precisavam de um maior
nmero de agricultores. Em funo da crescente dificuldade em encontrar mo

110 No seu apogeu, o Menabe abrangia, do Norte ao Sul, a zona que se estende entre os rios Fiherenana e
    Manambao e avanava para o interior em direo aos macios de Isalo, de Midongy, de Lava, de Tsara
    e de Bongo; ver L. Thomassin, 1900, p. 397.
111 R. Drury, 1729/1890, p. 274-275.
112 E. Fagering (1971, p. 22-24) tenta resolver esse problema.
113 C. Guillain, 1845, p. 16 e seguintes; F. Callet, 1878-1902, p. 659-661; E. Fagering, 1971, p. 23-24.
114 E. Birkeli, 1926, p. 9-48; R. K. Kent, 1968.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                             1029



de obra agrcola nas outras regies de Madagascar, os sakalava comearam a
organizar incurses nas ilhas Comores e at no Sudeste da frica115.
    Durante o ltimo tero do sculo XVIII, o Iboina teve um nico monarca:
a rainha Ravahiny (aproximadamente 1767-1808) que, como se diz geralmente,
garantiu a seu pas um governo estvel e uma economia prspera116. Contudo, o
declnio do pas iniciou-se sob seu reinado. Os volamena no tiveram mais reis
dinsticos a partir dos anos 1750, e os muulmanos do Iboina, que haviam se
juntado aos sakalava, constituram o elemento mais dinmico desse Estado. Sendo
que os iboina-sakalava respeitavam a regra normal de sucesso real e aceitaram
(no sem algumas tenses) trs rainhas sucessivas (sendo Ravahiny a terceira),
os muulmanos tentaram se apossar do trono. Por exemplo, o filho e herdeiro
presuntivo de Ravahiny converteram-se ao isl e as tenses entre os silamos (de
islam/islamos) e as elites tradicionalistas sakalava no serviram  causa do Iboina.
Uma outra causa de fraqueza, desta vez indireta, veio da costa leste, onde o conde
de Benyowsky persuadira um certo nmero de chefes betsimisaraka a no pagar
mais tributo para o Iboina. Guerreiros foram enviados ali em 1776 no intuito de
castigar esses antigos tributrios e de eliminar M. A. de Benyowsky. O fracasso
dessa tentativa de retaliao e o fato de alguns sakalava terem se juntado a de
Benyowsky117 revelaram aos povos do interior que o Iboina no era mais todo
poderoso. Enfim, ao decidir apoiar o rei do Imerina Central, Andrianampoinime-
rina, contra outros rivais locais, Ravahiny cometeu, em matria de poltica externa,
um erro que teria importantes consequncias a longo prazo.
    Os reis sakalava eram ao mesmo tempo despticos e faustosos. Sua vida
cotidiana estava regrada pelos moasy (sacerdotes) reais e nada se podia fazer
sem o aval prvio deles118. Havia um conselho real composto de seis ancios que
viviam na corte. O primeiro ministro (manantany) tratava diretamente com os
inmeros conselheiros do rei. Seu poder era em geral inversamente proporcio-
nal  implicao direta do rei nos assuntos do Estado. Seu aceitante, o fahatelo,
era habitualmente escolhido em virtude de seu conhecimento dos cls e das
linhagens, assim como dos costumes sakalava. Toda aldeia, qualquer seja seu
tamanho, tinha seu prprio funcionrio real (tambm chamado frequentemente


115 E. de Froberville, 1845, p. 194-208; R. K. Kent, 1970, p. 203-204 e 296-298.
116 H. Deschamps, edio de 1965, p. 101 e 104; M. A. de Benyowsky, 1790, vol. II.
117 Para as datas, consultar J. Vansina, 1962a.
118 Isso servia tambm para proteger os reis maroserana que sempre podiam tornar seus moasy responsveis
    por seus erros de avaliao quando do fracasso de uma de suas empreitadas. Sabemos que vrios moasy
    reais cados em desgraa foram executados no Menabe.
1030                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



de fahatelo) que zelava para que a populao trabalhasse quatro dias por semana
nos arrozais reais e para que o rebanho do rei estivesse constantemente renovado
por meio de presentes. Tal sistema compensava a ausncia de imposto regular,
e as cotas eram calculadas segundo a posio social e a capacidade de contri-
buio. Outros funcionrios, chamados talempihitry e hanimboay, supervisavam
o culto dady praticado por todos os sakalava. Nenhum monarca podia reinar
sem possuir o dady real (relquias ancestrais volamena), ainda mais porque o
novo rei se tornava automaticamente o nico intermedirio entre os vivos e os
antepassados reais (ampagnito-b). J que o costume regia ainda mais a vida dos
sakalava do que o prprio dady real, seus intrpretes gozavam de uma grande
considerao, e cada aldeia possua seu conselho de ancios constitudo segundo
o modelo do conselho real. Tratava-se do sojabe que regulamentava todos os
aspectos da vida social119. Os membros da famlia real tornavam-se muitas vezes
chefes menores (mpanjaka): eram-lhes atribudos um fehitra (palavra que se
poderia traduzir como feudo aldeo, na falta de um termo mais adequado) que
lhes assegurava recursos suficientes para viver sem contudo conceder-lhes uma
verdadeira influncia poltica. Tal organizao serviu de modelo para o Iboina e
o Menabe no sculo XVIII. Os governadores de provncia gozavam muitas vezes
de um poder importante e tendiam por vezes a se declararem independentes.
Alguns monarcas preocupavam-se pouco em seguir a via hierrquica e o poder
real era muitas vezes usado de maneira diferente nos portos, por onde entravam
as riquezas exteriores destinadas diretamente  Coroa.
    Grupos de refugiados sem chefe vindos da costa leste deram origem aos tsi-
mihety. Tratava-se de homens e mulheres que haviam fugido das guerras ligadas
 procura por escravos e haviam se instalado, com seu rebanho, na grande plan-
cie de Mandritsara,  qual se podia ter acesso sem passar pelas ladeiras abruptas
que separam a maior parte do litoral oriental do interior120. Por outro lado, os
antankara eram os tompon-tany do extremo norte de Madagascar, os povos dos
rochedos (ant-ankara) que caracterizavam essa parte da grande ilha. Nenhum
desses dois povos criara seu prprio Estado121 e ambos acabaram aceitando
serem governados por colaterais dos maroserana (os volafotsy, descendentes


119 C. Betoto, 1950a; R. K. Kent, "Field notes", 1966.
120 H controvrsias a respeito da origem precisa dos "prototsimihety". Ver B. Magnes, 1953, pp. 13-14; A.
    Grandidier, 1908-1928, vol. IV, parte I, p. 227.
121 Tudo indica que uma parte da costa antankara tenha sido controlada em algum momento por um
    poderoso chefe vindo da ilhota de Nosy Be, que se opusera aos muulmanos e estava estendendo sua
    influncia poltica quando foi morto, com toda sua famlia, pela exploso de um barril de plvora: N.
    Mayeur, 1912, p. 128 e 148-149.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                   1031



da "prata branca" e oriundos da unio de maroserana com mulheres que no
pertenciam a essa famlia) que, por no poder reinar junto aos sakalava, tinham
emigrado rumo a parte setentrional do interior em busca de um reino. Con-
tudo, os tsimihety rejeitariam logo os volafotsy (ou os volamena) e escolheriam
deliberadamente seu nome coletivo (tsimihety) para indicar, ao recusar cortar
seus cabelos, que no se submeteriam aos maroserana. Como no constituam
um reino centralizado, sua histria no sculo XVIII permanece virtualmente
desconhecida. Eles casaram mulheres iboina-sakalava e antankara, mas, embora
seu nmero tenha consideravelmente aumentado antes de 1800, nenhuma ten-
tativa sria foi empreendida do exterior para control-los politicamente  o que
se mostra bastante surpreendente, j que no tinham guerreiros, no pagavam
tributos e ocupavam frequentemente com seu rebanho o vale do alto Sofia,
grande eixo ao longo do qual os iboina garantiram sua supremacia poltica sobre
os betsimisaraka da costa leste at aproximadamente 1780.
    Bem diferentes foram as reaes dos antankara. Alguns dentre eles se sub-
meteram ao fundador do Iboina e os sakalava controlaram-nos em parte, em
um momento ou outro, at que o sculo XIX estivesse bem avanado122. Todavia
imps-se junto a eles uma linhagem real remontando a um volafotsy chamado
kazobe. Mas foi preciso esperar o reinado de seu sobrinho-neto, Andriantsirotso,
para que se constitusse um reino totalmente centralizado entre os antankara.
Segundo fontes, Andriantsirotso reinou de aproximadamente 1697 a 1710, ou
de 1710 a aproximadamente 1750123. Aps ter sido exilado junto aos betsimi-
saraka de Maroantsetra e obrigado, para reinar, a pagar um tributo aos boina,
ele construiu a necrpole real de Ambatosahana (lugar onde ele encontrara
refgio ao fugir do rei boina Andranbaga). Na ausncia de um culto dady real,
ele introduziu o smbolo unificador da realeza antankara, o saina, que consiste
em uma bandeira ornada de um crescente124 e de uma estrela, trazida por ele
de Maroantsetra. Andriantsirotso ligou seu poder a uma impressionante moasy
(sacerdotisa), que fabricava amuletos reais (mandresirafy) conferindo a inven-
cibilidade e transmitidas como objetos sagrados de um rei para outro. Ele se
tornou o conselheiro de dois de seus sucessores e viveu mais de cem anos125. Seu
filho e sucessor, Lamboina (apesar da provvel "incoerncia das datas"), teve um


122 G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 153-156. 
123 M. Vial, 1954, p. 5; G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 154-156 e 232-233 (apndice 25).
124 Embora a famlia real tenha se convertido ao isl por volta de 1840 (enquanto estava em exlio), a bandeira
    e seu crescente no tinham ligao nenhuma, a no ser visual (cpia do crescente), com essa religio.
125 M. Vial, 1954, p. 19-22.
1032                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



dos mais longos reinados de Madagascar (de 1710 a 1790 ou de cerca de 1750
a 1802, dependendo das fontes). A tradio atribui-lhe mais de trinta filhos, e
a caracterstica marcante de seu reinado foi a ausncia de guerras. Lamboina
apenas tentou uma vez subtrair-se  obrigao de pagar ao Iboina um tributo
consistindo em uma cinquentena de cargas de carapaas de tartaruga por ano, e,
em 1775, concluiu um tratado com o envio e intrprete de de Benyowsky, Nico-
las Mayeur. Dez anos depois, de Benyowsky convenceu Lamboina a transferir
sua fidelidade para a Frana e de no pagar mais tributo aos reis boina. Porm,
tal conselho no foi seguido durante um bom tempo, pois o conde de Benyowsky
foi morto em 1786126. A organizao poltica dos antankara inspirava-se em
grande parte do modelo boina-sakalava, com exceo do culto dady. Os pares dos
fahatelo do Iboina em Ambilobe (mais tarde capital antankara) chamavam-se
rangahy; o conselho rgio, chamado famoriana, era provavelmente mais poderoso
junto aos antankara que,  imagem dos boina-sakalava, no dispunham de fis-
calidade regular e praticavam o sistema de "percepo peridica" (tatibato) para
alimentar as finanas do Estado.

    Os Estados do interior: Betsileo, Imerina,
    Sihanaka, Bezanozano, Tanala e Bara
   O nome dos betsileo vem de um chefe chamado Besilau que, ao que tudo
indica, se ops com xito  expanso dos sakalava do Menabe nos altos planaltos
do interior durante os anos 1670 (silau/tsileo: o invencvel)127. Entretanto, de
forma geral, a populao chamada mais tarde de betsileo no apoiou as iniciati-
vas tomadas no interior para chegar  unidade poltica e s adotou um governo
nico no sculo XIX em virtude da presso de foras exgenas128. Uma mistura
do tompon-tany e de recm-chegados  migrando em grupos ou separadamente
para tentar garantir seu destino poltico  subdividiu os betsileo em quatro prin-
cipais Estados: no Sul, fusionando com o Ibara, o Arindrano; no centro-oeste,
frente aos sakalava, o Isandra; no centro-leste, com vizinhos tanala, o Lalan-
gina; no Norte, o Manandriana, o mais prximo ao Imerina, foi o ltimo a se
constituir e o primeiro a se submeter  dominao dos merina no fim do sculo
XVIII. rvores genealgicas complexas poderiam ser estabelecidas remontando
at o sculo XVI, mas  pouco provvel que os betsileo tenham formado reinos


126 N. Mayeur, 1912, pp. 119-124; C. Guillain, 1845, p. 369-370.
127 F. Martin, "Mmoire", em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. IX, p. 480 e 620.
128 G. Grandidier e R. Decary, 1958, vol. V, parte III, seo 1, p. 12-13 e 16-19.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                  1033



antes de meados do sculo XVII. Em 1648, o Isandra e o Arindrano (nome dado
tambm aos betsileo do Sul que haviam solicitado os servios de mercenrios
franceses em Fort-Dauphin) estavam ainda sendo dirigidos por uma multido
de pequenos chefes independentes. O Lalangina ainda era um Estado de poder
limitado em 1667, data em que La Case,  frente de uma pequena tropa, se
apossou de uma grande quantidade de rebanho129. As dificuldades internas que
sofria o Lalangina nesta poca so confirmadas pela tradio oral. Seu fundador,
Rasahamanarivo, teve que abdicar em favor de seu irmo (porque ele sofria de
lepra, doena esta que parece ter atingido mais de um monarca), mas, por volta
de 1680, ele rumou para o Arindrano onde foi aceito como chefe pelos betsileo
do Sul130. O crescimento do Lalangina foi prejudicado por lutas de sucesso e
guerras de vizinhana, e aps um regicdio, o pas dividiu-se em quatro provn-
cias, cada uma com seu chefe131. Contudo, no sculo XVIII, o ramo usurpador
da famlia real do Lalangina deu origem a, no mnimo, trs poderosos chefes:
Raonimanalina que, graas s armas de fogo obtidas junto aos sakalava ("trs
mil fuzis com platina de slex em troca de trs mil escravos"), reunificou o reino
e criou uma milcia nacional no intuito de reprimir as revoltas; Andrianonin-
dranarivo, que realizou algumas reformas econmicas e sociais importantes,
acarretando assim um forte aumento da produo de arroz, o crescimento da
populao e o incio de uma era de paz para o pas; Ramaharo, seu filho e
sucessor, que transformou a milcia em um agente econmico do Estado para
aumentar ainda mais a produo de arroz (foi de fato no sculo XVIII que os
betsileo se tornaram os maiores produtores de arroz de Madagascar). Os chefes
que governaram o Lalangina no sculo XVIII no conheceram o mesmo xito
no domnio das relaes externas, mas, aproximadamente no fim desse sculo,
Ramaharo recusou se submeter aos merina132.
    Segundo algumas tradies contraditrias, o antepassado da famlia real do
Isandra, o Zafimanarivo, era ou uma mulher antemoro, ou um prncipe maro-
serana em exlio133. Do ponto de vista geogrfico, um antepassado maroserana
seria certamente mais provvel. Um dos primeiros Zafimanarivo tem seu nome


129 . de Flacourt, "Histoire" e "Relation", em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. VIII, p. 23 e vol. IX, p.
    41-42, 85 e 376.
130 G. Grandidier e R. Decary, 1958, vol. V, parte III, seo 1, p. 11; H. M. Dubois, 1938, captulos sobre o
    Lalangina e o incio da histria do Arindrano, pp. 169-206 e 218-219.
131 G. Grandidier e R. Decary, 1958, vol. V, parte III, seo 1, p. 11 e nota 8.
132 Ibid., p. 10.
133 H. M. Dubois, 1938, captulos sobre o incio do Isandra, p. 112-139; G. Grandidier e R. Decary, 1958,
    p. 4 e 5 e nota 3.
1034                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



associado ao termo volamena (ouro). Ademais, os corpos dos reis defuntos do
Isandra, assim como os dos monarcas maroserana do Menabe, eram "esvaziados
de seus humores" antes de ter acesso ao descanso eterno. Porm, contrariamente
aos sakalava do Menabe, os betsileo do Oeste chegaram a acreditar que esses
"humores" reais se transformaram em grandes serpentes (fanane), objetos de um
culto anterior, porm de menor importncia134.  tambm muito provvel que
um sacerdote vindo do Sudeste de Madagascar tenha sido integrado  genea-
logia real em funo de servios que teria prestado, como foi o caso do famoso
sacerdote dos maroserana do Menabe. No pode o Isandra ser considerado como
um Estado betsileo notvel antes de meados do sculo XVIII, poca em que o
pas comeou a ser governado por um grande monarca, Andriamanalina I. Por
vezes chamado "o Rei bufo" em razo de sua capacidade em convencer politi-
camente por meio do humor, ele foi o primeiro betsileo a conceber e constituir
um nico Estado unificado. Quando, por exemplo, fracassava a diplomacia para
submeter algumas partes do Lalangina e do Arindrano (que muitas vezes foi
eclipsado pelo primeiro no sculo XVIII), Andriamanalina I impunha-se pelas
armas. Ele estendeu tambm seu reino rumo ao Oeste, instalou seus betsileo no
macio de Midangy e, avanando em direo ao Sul, entrou no Ibara, onde sub-
meteu um importante vassalo, o chefe bara Andriamanely II. Ao mesmo tempo
em que preservava as estruturas tradicionais de cada regio, Andriamanalina I
colocou seus filhos  frente de quatro novas provncias nas quais vivia a maior
parte dos betsileo. Quando de sua morte em 1790, os betsileo haviam chegado
a seu apogeu poltico135. Quanto ao Manandriana, apenas constituiu um Estado
independente por pouco tempo, uma vez que foi fundado aps 1750 e que seu
segundo chefe se submeteu voluntariamente aos merina por volta de 1800136.
    A histria dos merina comeou, de fato, com o reinado de Ralambo, chefe
ao qual um grande nmero de tradies orais atribui no somente a origem do
uso desse nome coletivo137, mas tambm a introduo de novas instituies e de
uma hierarquia. Antes de seu reinado (segundo vrias estimativas, entre 1610
e 1640138), o Imerina no constitua um Estado organizado. Ele compreendia



134 F. Callet, edio de 1958, vol. III, p. 234-237; R. K. Kent, 1970, p. 294-295 (apndice).
135 G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 5-6.
136 Ibid., p. 3; H. M. Dubois, 1938, p. 102-104.
137 F. Callet, edio de 1953, vol. I, p. 284-285.
138 M. Cheffaud, 1936, p. 46-47; A. Jully, 1898, p. 890-898; A. Grandidier, 1908-1928, vol. IV, parte I, p.
    83-85; R. K. Kent, 1970, p. 229 e nota.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                   1035



vrias chefias aldees povoadas por vazimba, seus tompon-tany, ou por hova139,
cujos cls emigraram no Imerina em duas grandes ondas  provavelmente o
mais tardar por volta de 1500140. Conflitos espordicos parecem ter estourado
regularmente no decorrer do sculo XVI, mas foram por vezes resolvidos por
meios pacficos. As disputas eram tambm submetidas  arbitragem de sbios
e astrlogos locais, os ancios dos ampandrana, que haviam se instalado junto
aos vazimba antes da chegada dos hova141. Pelo fato de os hova e os vazimba
da poca no serem grupos tnicos ou povos agrupados em torno de uma auto-
ridade poltica central, os ampandrana assumiram progressivamente um papel
dirigente que levou  formao da dinastia dos Andriana, cujo primeiro repre-
sentante foi Andriamenalo, o pai de Ralambo. Foi ele quem mandou erguer as
primeiras fortificaes em Alosara e comeou a usar o ferro, at ento apenas
usado de forma limitada no mbito domstico, para fins belicosos. Embora
suas lanas de ferro lhe tenham outorgado uma superioridade absoluta frente
s lanas com ponta de argila, ele se aliou por casamento  famlia do poderoso
chefe vazimba de Ambohitrabiby142.
    Junto a Ralambo apareceram o primeiro dos doze sampy, guardies de amu-
letos do Imerina, a prtica real da circunciso e do incesto, o fandroana ou
cerimnia anual do banho rgio143, a divinizao dos monarcas falecidos, as
classes nobres (andriana), as unidades de ourives e de forjadores a servio do
Estado, a capitao, o consumo de carne de boi e um exrcito pouco numeroso,
porm permanente144. Seu filho e sucessor, Andrianjaka, empreendeu uma ao
decisiva contra os vazimba, servindo-se de armas de fogo adquiridas junto a
negociantes da costa ocidental que gozavam da proteo real145. Sob o reinado de
Andrianjaka, a monarquia merina tornou-se mais arrogante, afastou-se de seus
sditos e tomou medidas de poltica interna que lhes inspiraram medo. Porm,
Andrianjaka fundou Antananarivo e valorizou os pntanos a fim de impulsionar
a produo de arroz, o que, como o constata H. Deschamps, proporcionou desde


139 Ainda que usado at ento para o perodo inicial da histria local, o termo "hova" no correspondia a
    uma etnia; depois de Ralambo e at o fim do Estado merina, esse termo (muitas vezes empregado em
    vez de "merina" e vice-versa) designava as pessoas comuns.
140 C. Savaron, 1928, p. 63; R. K. Kent, 1970, p. 220.
141 F. Callet, edio de 1953, vol. I, p. 18, 28-29, 540; C. Savaron, 1928, p. 65-66; R. K. Kent, 1970, p. 227-
    -228, (nota 112) e 233-235.
142 R. K. Kent, 1970, p. 308-309, apndice; F. Callet, edio de 1953, vol. I, p. 27 e 126.
143 A melhor obra a esse respeito  a de G. Razafimino, 1924.
144 R. K. Kent, 1970, p. 235; H. Deschamps, edio de 1965, p. 116.
145 F. Callet, edio de 1953, vol. I, p. 461; R. K. Kent, 1970, p. 241-242.
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cedo aos merina uma base econmica que lhes permitiria se tornarem o mais
importante povo de Madagascar146.
    O crescimento demogrfico do Imerina multiplicou tambm os riscos de
fome (tsimiompy) e obrigou os chefes a aumentarem continuamente as superf-
cies irrigadas  prtica adotada sem exceo pelos trs sucessores de Andrianjaka
at que o sculo XVIII estivesse bem avanado. Enquanto seu filho e seu neto
se distinguiram essencialmente pela ampliao de seus nomes reais (Senhor dos
Senhores, Supremo Senhor dos Senhores, ou seja, 33 letras em malgaxe), seu
bisneto, Andriamasinavalona, foi outro grande monarca. Principalmente graas 
ajuda de um conselheiro avisado, Andriamampiandry, ele deps um irmo mais
velho que fugiu junto aos sakalava e chegou a pedir-lhes uma ajuda militar147.
Andriamasinavalona prosseguiu uma poltica de expanso agressiva e no outor-
gou seno pouca independncia aos chefes submetidos. Ele ampliou o nmero
de cls nobres de quatro para seis e recompensou os nobres mais merecedores
concedendo-lhes feudos e o ttulo de tompon-menakely (mestres dos feudos)148.
Por causa de sua idade avanada, ele teve tambm que se debruar sobre o pro-
blema de sua sucesso quando ele ainda estava no poder. Apesar dos conselhos
de Andriamampiandry, ele dividiu o Imerina em quatro provncias, cada uma
sendo dirigida por um de seus filhos, e logo se encontrou diante de quatro reinos
independentes: dois a Norte, perto de Ambohitrabiby e da necrpole de Ambo-
himanga (onde, segundo a lenda, "nenhum javali, co ou estrangeiro podia pr
o p"), um a Sul, governado a partir de Antananarivo, e o ltimo a Oeste, tendo
Ambohidratrimo como capital. Ele sofreu tambm a humilhao de ser encarce-
rado (durante "sete anos") por seu filho Andriantomponimerina, que reinava na
zona ocidental (Marovatana)149. O velho monarca morreu por volta de 1750150.
O Imerina tornou-se ento o palco de guerras civis das quais at estrangeiros
participaram. Entretanto, em 1770, Ambohimanga derrotara Ambohitrabiby e
parecia poderosa sob a direo de seu chefe, Andriambelomasina. Embora seu
filho, Andrianjafy, tenha herdado o trono, foi seu sobrinho, Ramboasalama, que
se tornou rei em Ambonhimanga por volta de 1777-1778. Ele seria considerado
mais tarde como o mais importante dos reis merina.

146 H. Deschamps, edio de 1965, p. 117.
147 C. Guillain, 1845, p. 42; V. Malzac, 1912, p. 54-65.
148 Essa instituio remontava  poca de Andrianjaka e de seu irmo, Andriantompokoindrindra, no
    decorrer da qual doze menakely foram criados. J. Rasamimanana e L. Razafindrazaka, 1909 (edio de
    1957), p. 37.
149 G. Grandidier, 1942, vol. V, parte I, p. 62 e 64.
150 A. Tacchi, 1892, p. 474.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                            1037



    Tomando o nome de Andrianampoinimerina, ele conseguiu, em primeiro
lugar, concluir a paz com seus rivais e irmos reais, depois consolidou as fron-
teiras de seu reino povoando-as com sditos engajados em defend-las, e, por
fim, conseguiu um nmero considervel de armas de fogo provenientes do Oeste
de Madagascar. Ele submeteu Antananarivo por volta de 1797151 e Ambohidra-
trimo pouco tempo depois, assim como, antes do fim do sculo, algumas regies
menos definidas do Imerina. Ele no se limitou a buscar a unificao do Irema
e comeou a enviar emissrios cuidadosamente escolhidos no intuito de propor
aos chefes de outras regies de Madagascar tornarem-se seus vassalos e con-
servarem assim sua autonomia, ameaando-os, caso recusarem, conquistar seus
territrios. Por vezes, esse tipo de diplomacia obtinha xito, por exemplo como
entre os betsileo do Manadriana, os amndrantsay do Betafo (uma mistura de
antandrano fugindo a Oeste de Madagascar diante da expanso sakalava com
betsileo e alguns merina assimilados) ou o Imano Ocidental. Sofreu tambm
fracassos, por exemplo no Menabe ou em algumas partes do Lalangina e do
Isandra. Contudo, no h dvida de que o Imerina de Andrianampoinimerina
desistira de pagar um tributo aos sakalava e se tornava uma potncia importante,
apesar de suas dimenses geogrficas reduzidas152. Andrianampoinimerina era
um monarca enrgico e diz-se que, graas  sua ao, no somente o roubo, mas
tambm o consumo de lcool e de tabaco desapareceu do Imerina durante seu
reinado. Em ltima anlise, ele concentrou o poder em suas mos, em todos
os nveis  desenvolvendo assim ideias que j haviam sido aplicadas em uma
certa medida por Andriamasinavalona , mas exerceu-o solicitando sempre a
opinio de ancies renomados, das assembleias pblicas (kabary) e do Conselho
dos setenta, no qual todas as grandes comunidades do reino estavam represen-
tadas153. Ao unificar e reestruturar o Imerina, ele assentou as bases do imprio
que emergiria no sculo XIX.
    Embora os sihanaka e os bezanozano no tenham conseguido constituir
estruturas estatais potentes, sua histria no carece de aspectos muito interessan-
tes. O grupo dos sihanaka constituiu-se em redor do lago Alaotra (o maior de
Madagascar), ao passo que os bezanozano se assentaram em uma regio compre-
endida entre a mata tropical mida do litoral oriental e as encostas do planalto.


151 G. Grandidier, 1942, p. 91, nota 2, e p. 92; H. Deschamps, 1965, p. 121-122.
152 Aproximadamente 33 quilmetros de dimetro. Ver o mapa estabelecido graas aos trabalhos detalhados
    de Savaron em H. Deschamps, edio de 1965, p. 118.
153 Para uma descrio esquemtica dessas mudanas, ver H. Deschamps, edio de 1965, p. 121-127, ou a
    verso francesa de F. Callet, edio de 1953, vol. II e III.
1038                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



Portanto, ambos gozavam de uma situao geogrfica ideal  os bezanozano ao
longo da principal rota comercial ligando o Imerina  costa oriental e os siha-
naka ao longo daquela que o ligava aos entrepostos do Noroeste.  quase certo
de que os primeiros "ova" (hova) vendidos como escravos em 1614, de acordo
com o padre Mariano, chegaram aos entrepostos passando por intermedirios
sihanaka154. Por sua vez, no Leste de Madagascar, os bezanozano constituram os
principais fornecedores de escravos do Imerina para os comerciantes das Mas-
carenhas155. De fato, ambos os grupos possuam tantos escravos que, em 1768,
eles foram obrigados a pedir a ajuda dos europeus para reprimir os que haviam
se revoltado156. Em 1667, quando Franois Martin penetrou no territrio dos
sihanaka pelo Leste (aps dezoito dias de viagem), ele observou que os autc-
tones habitavam vilarejos fortificados, erguidos no topo das colinas e cercados
por altas muralhas de pedra (cimentadas com uma massa avermelhada) e fossos
largos e profundos. Os sinahaka eram excelentes ceramistas e tinham construdo
a nica ponte vista, at ento, pelos europeus em Madagascar. Eles eram tambm
muito bem armados e, com seus arcos e flechas, derrotaram os quase 3000 bet-
simisaraka dirigidos por Martin e 44 de seus conterrneos157. Martin confirma
igualmente os sinahaka serem um dos mais importantes grupos de comerciantes
da ilha, o que implica uma certa organizao poltica. Mas nada comprova a
existncia de uma autoridade central. Rabenifananina, provavelmente de origem
betsileo, tentou estabelecer uma dinastia junto aos tompon-tany do lago Alaotra,
mas, apesar de ter deixado de herana o nome coletivo de Antsihanaka, ele no
teve sucessor poltico158. Na verdade, no sculo XVIII, os sihanaka pagavam
um tributo ao Iboina. Porm, eles tentaram pelo menos uma vez se libertarem
graas a um ataque vigoroso que foi derrotado159. Os bezanozano, cujo pr-
prio nome coletivo indica, segundo William Ellis160, a ausncia de autoridade
central, e cujo pas era inicialmente conhecido sob o nome de Ankay, tambm
eram governados por chefes locais (mpifehy) e viviam em vilarejos fortificados.
Porm, ao contrrio dos sihanaka, eles tinham pelo menos uma instituio uni-
ficadora que agrupava os amuletos representando as onze divindades protetoras


154 L. Mariano, "Relation", em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 12-13.
155 N. Mayeur, 1806, p. 123.
156 G. Grandidier e R. Decary, 1958, pp. 120, 121, nota 1 e p. 132.
157 F. Martin, "Mmoire", dezembro de 1667, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. IX, p. 552-559.
158 G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 117, nota 3.
159 C. Guillain, 1845, p. 24; N. Mayeur, 1912, p. 70.
160 W. Ellis, 1838, vol. I, p. 131. Mayeur dera ao conjunto dos bezanozano o nome de "repblica".
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                  1039



provavelmente vindas do pas dos sakalava. Uma vez que algumas dentre elas
portavam nomes sakalava161, parece evidente que elas eram oriundas da costa
ocidental, ainda que seja tambm possvel que os ombiasa bezanozano tenham
fabricado alguns desses amuletos. Por volta do fim do sculo XVIII, igualmente
ao contrrio dos sihanaka, os bezanozano pareciam ter aceitado a autoridade de
Randrianjomoina, seu primeiro rei, mas este no reinaria muito tempo, uma vez
que os merina exigiram e obtiveram sua submisso162.
    Presos entre os montanheses betsileo e os antemoro do litoral, os tanala
batizaram-se em funo de seu meio natural, ou seja, "o povo da floresta" (Anta-
lana), nome este usado em outras regies de Madagascar, mas sem contudo
carregar um valor tnico to durvel. Com efeito, os tanala tornar-se-iam logo
um povo muito miscigenado, pois at vinte e trs de seus cls reivindicavam
uma ascendncia betsileo. Porm, nunca chegaram a formar um Estado. Alguns
dentre eles, contudo, ocuparam uma posio privilegiada na histria da regio,
tal como os tanala do Ikongo, um enorme rochedo ao qual s se podia chegar
por passagens artificiais163. A regio dos tanala-ikongo, inteiramente isolada
das montanhas betsileo, constitua o meio natural do interior da regio costeira
(distante de apenas 45 quilmetros) e s era acessvel (salvo a partir do prprio
rochedo) por vias fluviais como o Sandrananta, o Faraony e o Matitana, o rio dos
antemoro164. No , portanto, de se surpreender que os tanala do Ikongo tenham
aceito no seu seio imigrantes da costa oriental e que um desses ltimos, Rambo
(que teria sido um anteony-antemoro), tenha dado origem  dinastia local dos
zafirambo, mencionada pela primeira vez por estrangeiros em 1668165. Segundo
as tradies tanala recolhidas por Ardant du Picq por volta de 1900, Rambo
teria se tornado rei do Ikongo graas a seu conhecimento dos amuletos curativos
(fanafody) e dos sorabe. Ele tambm era lembrado em virtude de seu papel de
"legislador". Alguns de seus sucessores fabricavam tambm amuletos destinados
a proteger os tanala do Ikongo e adquiriram uma certa reputao como predi-
cadores dos fenmenos naturais. Os chefes pr-dinsticos (os Anakandriana e
os Andriambaventy) conservaram um certo nmero de privilgios e, embora os
zafirambo praticassem o sombili (prerrogativa de abater os animais domsticos),


161 Vallier, 1898, p. 80-81.
162 F. Callet, edio de 1908, vol. I, p. 77-84, e edio de 1909, vol. II, p. 527; V. Malzac, 1912, p. 92; G.
    Grandidier e R. Decary, 1958, p. 133-134.
163 A. du Picq, 1905, p. 541-542.
164 Ibid., p. 543.
165 R. K. Kent, 1970, p. 92 e nota 14. Deschamps situa o exlio de Rambo no sculo XVI.
1040                                                                             frica do sculo xvi ao xviii




figura 28.3 Grupo tnico bara de Ambutsira (Sudeste de Madagascar): esttua comemorativa dita alualu,
erguida na ocasio da morte de uma pessoa sem descendncia masculina ou quando seu corpo no  inumado
no tmulo familiar. A esttua era cercada por postes de madeira sobrepujados de chifres de zebus sacrificados
durante os funerais. A regra consistia em fazer de uma figura feminina o substituto de um falecido de sexo
masculino, como smbolo do elemento encarregado da descendncia. Cerne de canforeira. Altura: 107cm. [
G. Berjonneau, ART 135, Boulogne-Billancourt.]
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                         1041



apenas o exerciam por conta prpria. Eles eram tambm conhecidos sob o nome
de zanaka-isandrananta (filhos do Sandrananta), pois, de acordo com Rambo,
as vsceras dos reis defuntos eram jogadas nesse rio, onde teriam dado origem
aos crocodilos166. A maior parte do sculo XVIII foi marcada por conflitos entre
os tanala do Ikongo e os antemoro, os primeiros acabando, por volta do fim do
sculo, por invadir e devastar as baixas terras. No comeo do sculo XIX, um dos
zafirambo, Andriamamohotra, aliou-se a Andrianampoinimerina167.
    Os bara, principais pastores de Madagascar aos quais muitas vezes se atribuiu
uma origem africana168, teriam vindo de uma zona situada na regio meridio-
nal do pas arindrano, ao longo do rio Ihosy. De Flacourt menciona o stio de
Varabei169, nome este que se encontra tambm em "bara-be" (varabei e bei/be:
grande, numeroso), um dos trs grandes cls bara. Os bara-be instalaram-se
no planalto de Horombe, com os bara iantsantsa a Leste e os bara imamono a
Oeste, do lado dos sakalava. Dois cls bara importantes, ainda que menores, a
saber os vinda do Ibara do Sudoeste e os antivondro instalados a Leste do rio
Ionaivo, so de origem mais recente, a constituio do cl vinda datando apenas
do incio do sculo XIX170. De uma forma geral, tudo indica que os bara tenham
se estendido at chegar s fronteiras mais ou menos naturais com os sakalava,
os mahafaly, os antandroy, os antanosy, os antesaka e os antefasy. Houve dois
perodos dinsticos distintos na parte meridional do interior (da qual o Ibara
ocupa, de longe, a maior superfcie). Um desses perodos coincide com o dos
protomaroserana, mas permanecer verossimilmente mal conhecido171, ao passo
que o mais recente, o dos Zafimanely, comea por volta de 1650. A partir de
1640, quando o rei Dian Manhelle invadiu o interior dessa regio e comeou a
instalar ali reis locais escolhidos no seio de sua famlia, a ausncia total de leis
de sucesso e a facilidade com a qual os dissidentes podiam emigrar com seu
rebanho rumo a pastagens ainda melhores facilitaram certamente o processo de
desintegrao da autoridade. Aps a morte de Dian Manhelle, em 1653, seus
descendentes, os Zafimanely, assentaram progressivamente sua autoridade no
Ibara, alis sem que este se beneficiasse necessariamente de tal situao. Entre
1650 e 1680, a histria do Ibara foi dominada por rivalidades entre reizinhos


166 A. du Picq, 1933, pp. 27-39.
167 Ibid., p. 39.
168 R. K. Kent, 1970, pp. 116-120 e notas a esse respeito.
169 . de Flacourt, 1661 (edio de 1913), p. 33.
170 R. K. Kent, 1970, p. 124.
171 Ibid., p. 123-137.
1042                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



Zafimanely (mpanjaka-kely em oposio a mpanjaka-b, ttulo de rei atribudo
apenas aos chefes dos grandes cls bara), rivalidades estas que se multiplicaram,
acrescentando vrios subgrupos (tariki)  famlia bara. Sua rivalidade interna era
mais econmica do que poltica. Por no disporem de um sistema de tributos
regulares, os Zafimanely tiveram que manter seu poder de senhores locais ao
proteger sua fortuna por meio de decises jurdicas172 e, sobretudo, ao roubar
rebanho, sua principal fonte de riqueza. Como no podiam atacar o rebanho
de seus prprios sditos ou arriscar-se em guerras no exterior, eles atacavam-se
uns aos outros, quase continuamente e sem a menor viso poltica. Esse ciclo de
tenses artificiais s se findou depois de 1800 graas a Raikitroca, sendo este um
rei muito interessante e digno de um estudo mais aprofundado173. Na verdade, os
reis bara no governavam seus cls como chefes absolutos e no podiam declarar
a guerra sem a aprovao de seu conselho de ministros (chamados tandonaka
junto aos imamono) e de seus governadores de provncia (mamandranomay),
nomeados pelo mpanjaka-b, mas controlados tambm pelos conselhos locais
de ancies (os ionaka junto aos imamono)174.

    Os Estados do Leste e do Sul: Betsimisaraka, Antemoro,
    Antambahoaka, Antefasy, Antesaka, Antanosy, Antandroy
   Os betsimisaraka, muitas vezes divididos entre "setentrionais" (antavaratra)
e "meridionais" (antatsimo), e os betanimena, estabelecidos entre os dois, viviam
na costa oriental de Madagascar, grosso modo entre a baa de Antongil e Vato-
mandry. Segundo vrias fontes, os tompon-tany dessa regio permaneceram na
margem das grandes unies polticas at o incio do sculo XVIII, sob a auto-
ridade de chefes (filohany) cujo poder raramente se estendia alm de uma ou
duas aldeias. Parece contudo que, ao redor da imensa baa de Antongil, os chefes
eram organizados de forma mais eficiente, tendo por exemplo insgnias reais, ao
menos desde o fim do sculo XVI175. Os antavaratra eram tambm favorecidos
pela natureza, pois possuam todos os portos (Antongil, Titingue, Foulpointe,
Fenerive e Tamatave), ao passo que no havia nenhum no litoral dos betanimena.


172 Talvez por isso o sistema judicirio dos bara compreendesse uma grande variedade de ordlios.
173 J. Rabemanana, Le pays des Kimoso et son histoire depuis les origines jusqu' l'an 1820, 1911-1912, manus-
    crito dos arquivos da Academia malgaxe, Antananarivo, p. 98; R. K. Kent, 1970, p. 124, nota 44, e p. 129,
    nota 65.
174 L. Michel, 1957, p. 34-51; C. Le Barbier, 1916-1917, p. 97-100.
175 Nos anos 1590, os holandeses viram um chefe que reservara para si o uso da cor vermelha e que portava
    um tipo de coroa com dois chifres.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                          1043



 medida que as Mascarenhas dependiam mais das regies orientais de Mada-
gascar, donde importavam arroz, rebanho e escravos, o domnio desses portos
no somente garantia a fortuna dos filohany como tambm assegurava uma
potncia de fogo para a defesa ou o ataque. Foi tambm a parte de Madagascar
que, de 1680 a aproximadamente 1720, contava com a maior colnia de piratas
europeus, principalmente ingleses e americanos. Muitos casaram com mulheres
antavaratra, dando assim  luz mestios que se tornariam os zana malata, muitas
vezes aliados dos filohany, cujas filhas eram suas mes. Foi de uma dessas uni-
es que nasceu, por volta de 1694, um zana malata chamado Ratsimilahoe176,
cujo pai o levou consigo na Inglaterra e na ndia para estadias curtas177. Uma
mudana poltica sobrevinda entre os betanimena (ento conhecidos como os
sicoua, ou tsikoa em malgaxe moderno) devia fornecer-lhe a ocasio de se lanar
na vida poltica. Por volta de 1700, os tsikoa comearam a se juntar em torno de
chefes fortes. Por volta de 1710, eles elegeram o dirigente de Vatomandry como
chefe supremo para liderar a conquista dos portos do Norte. Foi no intuito de
resistir  invaso desses portos que Ratsimilahoe, apesar de sua pouca idade,
conseguiu unir a maior parte dos antavaratra.
    Ratsimilahoe reconquistou Fenerive em 1712 e a retirada precipitada dos tsi-
koa atravs dos campos pesados de argila vermelha que colava aos ps valeu-lhes
o nome de Be-tani-mena (os numerosos de terra vermelha)178. Ratsimilahoe
forjou o nome de betsimisartaka (os numerosos indivisveis) para sublinhar o
carter durvel da unio poltica e para se distinguir dos betanimena. Con-
cluiu tambm a paz com estes ltimos, cedendo o porto de Tamatave a seu rei.
Enfim, em sua capital de Foulpointe, ele foi eleito rei (mpanjaka-b) de todos
os betsimisaraka sob o nome de Ramaroumanompou (em malgaxe moderno,
Ramaromanompo, "o Senhor de Numerosos Sditos")179. Porm, a paz durou
apenas seis meses e Ratsimilahoe retomou Tamatave, repelindo o rei betani-
mena rumo a uma regio inacessvel do Sul180. Concluiu tambm uma aliana
com os antatsimo (meridionais) e os bezanozano181. Por volta de 1730, ele era
um dos reis mais poderosos de Madagascar,  frente de uma confederao de
cls e de famlias de carter assaz independente da qual ele mantinha a coeso.


176 N. Mayeur, Ratsimilahoe, 1806, cpia datilografada do manuscrito, p. 132.
177 Ibid., p. 11; G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 28, nota 1.
178 N. Mayeur, op. cit., p. 28-36.
179 Ibid., p. 36-48.
180 Ibid., p. 64-77.
181 Ibid., p. 83-90.
1044                                                        frica do sculo xvi ao xviii



Ele chegou a esse resultado ao deixar sua autonomia aos chefes tradicionais
e ao permitir-lhes fixarem eles mesmo o tributo que julgavam necessrio de
lhe entregar em escravos, rebanho e arroz. Ele tambm indenizou os parentes
de diversos filohany falecidos no decorrer das batalhas contra os betanimena,
oferecendo-lhes presentes reais (vilipate), e permitiu aos betanimena comprar
de volta seus parentes presos durante os combates. Na corte, ele guardava como
refns os filhos dos grandes e dos pequenos filohany, empregando-os de forma
til como ompanghalalan (mensageiros do rei que transmitiam suas ordens aos
betsimisaraka). Enfim, ele administrava a alta justia, o que permitia a qual-
quer betsimisaraka enderear-se diretamente a ele sem passar pelo seu prprio
chefe182. Por ter conscincia das tendncias centrfugas que ameaavam seu reino,
Ratsimilahoe casou-se com Matave, a filha nica do rei do Iboina (andrianbaga),
no intuito de se ligar aos volamena e ao Imprio Sakalava183. Ele faleceu em 1754
aps ter reinado por quase quarenta anos sobre os betsimisaraka, dos quais havia
sido o unificador. Sucederam-lhe trs reis entre 1755 e 1803. O primeiro perdeu
a vida durante um ataque serpresa de escravos, o terceiro foi morto a lana por
seus prprios sditos, ao passo que o segundo, Iavy, s deveu sua notoriedade
ao fato de ter sido o maior traficante de escravos de Madagascar. Na segunda
metade do sculo XVIII, o pas betsimisaraka acabou por parecer com Angola
nos piores momentos das tragdias escravagistas do comeo do sculo XVII.
    No h mais dvidas sobre o fato de que ambos os cls antesaka e antefasy do
Sudeste de Madagascar tenham sido fundados por imigrantes vindos do Oeste.
Conflitos entre o rei do Sakalava-Menabe, Andriandahifotsy, e seu irmo (ou
tio), Andriamandresi, obrigaram este ltimo a deixar o Menabe para o Centro-
-Sul com seus seguidores. Ele atravessou o planalto de Horombe e ainda  pro-
vvel que ele tenha atingido a passagem de Bara-Tanala (que d acesso ao litoral
oriental). Porm, s foi depois do advento de seu neto, Behava, que os antesaka
atingiram Nosipandra (futura Vangaindrano) e fizeram dela sua capital, cidade
dos reis zarabehava e celeiro de arroz de seu reino184. Segundo informantes
antesaka, o nome desse grupo reflete suas origens sakalava185. De acordo com o
mapa de de Flacourt, parece que a migrao dos antesaka tinha se findado por
volta 1650. Quanto aos antefasy, suas tradies indicam que seu primeiro ante-
passado, Ndretsileo, chegou do continente africano ao rio Menarandra em uma


182 Ibid., p. 116-124.
183 Ibid., p. 124-130.
184 H. Deschamps, 1936, p. 166.
185 Ibid., p. 162-164; Marchand, 1901, p. 485-486.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                         1045



poca em que os maroserana j haviam se estabelecido junto aos mahafaly, no
Menabe e em algumas regies do Ibara. Com um companheiro chamado Isoro
(que depois se separaria dele para fundar os zafisoro), Ndretsileo estabeleceu-se
no Ibara. Porm, as dificuldades com os zafimanely agravaram-se na poca de
seu neto, Ndrembolanony. Ele avanou portanto rumo a Leste onde se juntou
ao rei antevatobe na ocasio de uma guerra local. A filha desse rei casou com
Ndrembolanony. Foi um dos trs filhos Ndretsileo, Marofela, quem forjou o
nome "antefasy" (gente da areia), sugerindo que seu reino seria densamente
povoado, em uma analogia com a areia186.
    Antes do incio do sculo XIX, o mais importante rei antefasy foi, sem dvida,
Ifara, que residia em Ambaky (o antigo nome de Farafangana). Este obteve o
monoplio do comrcio com os primeiros navios europeus que faziam escala em
seu litoral, tornando-se assim to poderoso que chegou a ser considerado o nico
"dono" do rio Manampatra187. Tambm permaneceu muito vivaz a lembrana
de um outro rei zarabehava, Maseba. De fato foi ele quem livrou os antefasy
de uma breve dominao antemoro. Sabemos que Ifara sucedeu a Maseba, mas
fica difcil estabelecer datas. Os antefasy (que, por vezes, reivindicam ligaes de
parentesco com os zarabehava) constituam um cl cuja formao foi certamente
posterior quela dos antesaka, talvez entre 1670 e 1680, e Maseba teria sido o
ltimo rei do sculo XVII. Se confiarmos nas fontes antemoro, os conflitos que
opuseram antemoro e antefasy teriam ocorrido durante os anos 1680188. Tais
conflitos prosseguiriam no sculo XVIII, mas sem resultados convincentes. Os
antesaka eram mais voltados para si mesmo do que os antefasy e enfrentaram
vrios problemas de sucesso. A tradio guardou a lembrana de um de seus
reis zarabehava, Ratongalaza, que teria "matado ou expulsado todos seus irmos".
Seu neto, Lengoabo, foi o ltimo rei do sculo XVIII e estendeu as fronteiras
dos antesaka at seus limites extremos189. A histria dos antambahoaka e dos
antemoro no sculo XVIII permanece desconhecida, embora os relatos dos
europeus mencionem o Matitana como sendo um dos principais exportadores
de arroz e de escravos, principalmente aps 1724190. Outro aspecto de grande
importncia a caracterizar esse perodo, principalmente aps 1750, foi o mal-
-estar geral que reinava entre os sditos dos reis zafindraminia e anteony, mal-


186 M. Fontoynont e E. Raomandahy,1939, p. 1-5.
187 Ibid., p. 6-7.
188 G. Mondain, 1910, p. 73; R. K. Kent, 1970, p. 98 e 157.
189 H. Deschamps, 1936, p. 166-167.
190 C. Grant, 1801, p. 167-171, segundo um relato de 1763.
1046                                                                            frica do sculo xvi ao xviii



-estar este que chegaria ao seu auge no sculo XIX, obrigando os anteony a pedir
a ajuda aos merina contra seus prprios sditos.
    Dos quase 4000 colonos e soldados enviados da Frana para Fort-Dauphin
em 1674, dois teros morreram de malria, de fome ou de morte violenta191.
Vinte e quatro anos mais tarde, no meio das runas desse forte, no pas Antanosy,
um capito de navio holands descobriu que o "rei" local era um pirata martini-
cano chamado Samuel. Ele liderava por volta de vinte europeus e 300 antanosy,
alm de uma frota de 15 pirogas, e guerreava constantemente com o rei tradi-
cional, Diamarang Diamera192. A presena europeia em pas antanosy baseava-se
nos laos anteriores criados por intermdio de Fort-Dauphin, mas tambm se
explica pelo avano das plantaes das Mascarenhas depois de 1720, acarre-
tando uma forte demanda por escravos, arroz e rebanho. O conde de Modave,
governador do segundo estabelecimento francs de Fort-Dauphin (1767-1770),
descobriu nada menos do que 35 reis entre o vale do Ambolo e o Mandrare.
Eles guerreavam uns contra os outros para conseguir rebanho e escravos, levando
frequentemente seus prprios sditos (particularmente entre os antondroy) a
emigrar. O mais poderoso desses reis locais tinha ao menos 3000 pessoas sob sua
autoridade193. De Modave, por ser vivamente oposto ao trfico de escravo, viera
para substitu-lo por um comrcio legtimo. Porm, foi abandonado pela Frana
(assim como de Flacourt antes dele) e acabou se tornando mercador de escravos
a fim de pagar suas dvidas e poder reabastecer suas prprias plantaes na Ilha
de Frana (Maurcio)194. Convm lembrar que Fort-Dauphin fora construdo em
um momento em que o pas antanosy j era uma das regies mais povoadas de
Madagascar, cuja produo agrcola era amplamente excedente e que estava no
ponto de se unificar e de se tornar um Estado de uma certa importncia. Pouco
aps o fracasso da misso de De Modave, um viajante francs considerava o
pas antanosy o "mais pobre" e o "mais triste" da ilha, muito pouco povoado e
quase "sem recursos". At os escravos e o rebanho eram escassos e tinham que
busc-los ao longe195.



191 G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 103, nota 2.
192 J. Coin, "Voyage", 1698, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. VI, p. 41-47.
193 Modave, "Journal", 1768, em G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 10. Aps 1730, no pas Antanosy,
    houve uma revolta contra os zafindraminia, que foram espoliados de seu rebanho, segundo Le gentil,
    1779-1781, vol. II, p. 511-522; mas essa revolta teria talvez ocorrido entre 1770 e 1780, segundo A.
    Grandidier, Notes, manuscrito, f. 316, 410, 551; G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 104, nota 5.
194 H. Deschamps, edio de 1965, p. 80-81.
195 M. de la Haye, 1774, em G. Grandidier e R. Decary, 1958, p. 10, nota 1 (a).
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                             1047



    O Antandroy, no extremo sul de Madagascar, dividia -se em duas partes
muito diferentes. Os karimbola, que foram os tompon-tany do Antandroy Oci-
dental, entre os rios Manarandra e Manambovo, no guardaram lembrana de
uma migrao. O Antandroy Oriental (chamado por de Flacourt de "a terra
dos Ampatres"), situado entre o Manambovo e o Mandrare, foi outrora ocu-
pado principalmente pelos mahandrovato que, em seguida, foram submersos
por uma grande onda de imigrantes vindos do Ibara e do Antanosy, fugindo
da instabilidade poltica para buscar asilo nas zonas ridas do Sul196. A dinastia
reinante dos zafimanara parece proceder dos mahandrovato (que acolheram os
primeiros grupos de imigrantes), e sua dominao foi pouco a pouco tolerada
pelos karimbola. Foram os zafimanara que deram o nome coletivo de antan-
droy a todos os povos que viviam entre os rios Menarandra e Mandrare. Tal
nome trazia um sentimento de unidade poltica e implicava a existncia de uma
"Confederao zafimanara". Os karimbola, cujos chefes viviam em Ambahy e
preservaram sua autonomia, aceitaram os reis zafimanara, concluindo com eles
alianas matrimoniais a fim de conter um perigo real e permanente: a expan-
so dos maroserana-mahafaly rumo ao Leste197. Com o passar do tempo, os
zafimanara, que apenas conseguiram conter os mahafaly no Menarandra at
aproximadamente 1750198, cessaram de ser teis aos karimbola. Quase na mesma
poca, migraes repetidas do interior e do Antanosy diluram a autoridade dos
zafimanara no Antandroy Oriental. Por volta de 1790, os zafimanara, incapazes
de fazer frente s mudanas em curso em seu antigo habitat, tiveram de se refu-
giar no planalto do Manombo. Como para muitos outros povos malgaxes, o fim
do sculo XVIII no augurava nada de bom para os antandroy.


    As ilhas Comores Grande Comore,
    Anjouan, Mohli, Mayotte199
  Os Comores constituem um grupo de ilhas situadas aproximadamente a
meio caminho entre Madagascar e a frica. A Grande Comore  a mais pr-


196 E. Defoort, 1913, pp. 161-172, expe de forma geral essas diferentes migraes.
197 Ibid., pp. 162 e 166.
198 Ibid., p. 168.
199 Os nomes das quatro ilhas Comores variam imensamente nas fontes antigas, Mas suas denominaes
    locais eram: Ngazija, Anzuani, Muali (por vezes M'heli) e M'samburu (a partir do nome do maior grupo
    de lngua banta de Mayotte, M'Chambara), s vezes tambm M'Ayata. J. Repiquet, 1902, p. 110; A.
    Gevrey, 1972, p. 74. Os nomes constando desse ensaio so os mais usados.
1048                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



xima do continente africano, Mayotte fica em frente  Madagascar, Anjouan e
Mohli ocupam o centro do arquiplago. Seu passado pode, com toda razo, ser
considerado, entre outras coisas, o reflexo de tal situao geogrfica. Segundo a
opinio geral, os Comores foram povoadas por continentais falantes de banto,
sem ligaes aparentes com o isl. Esta grande religio foi importada pelos afro-
-shrz, mas a supremacia do isl sunita junto s comorenses deu-se tambm
em virtude dos sucessos polticos de muulmanos vindos da frica em uma
poca mais recente. Segundo as tradies recolhidas por a'd Ahmad `Al200,
os perodos pr-islmicos e shrz so associados aos chefes antigos, os bdja,
e a seus sucessores fani, cujas filhas (jumbe) casariam com os recm-chegados
sunitas201. No se sabe quase nada a respeito dos bdja e no se pode delimitar
muito estreitamente os dois perodos202, mas atribui-se aos fani a tcnica de
construo em pedras e a edificao da primeira mesquita comorense203. Embora
essa segmentao tenda a confirmar aquela que usamos de forma corriqueira
para a histria da frica do Leste204, ainda no  possvel estabelecer uma cro-
nologia para os bdja e os fani, j que faltam estudos arqueolgicos, lingusticos
e histricos aprofundados. Tais estudos, a nosso ver imprescindveis, poderiam
contribuir de forma importante para um melhor entendimento de trs acon-
tecimentos de prima importncia: as migraes dos povos de lngua banta, as




200 Essai sur l'histoire d'Anjouan, 29 de dezembro de 1927, manuscrito datilografado, p. 1-45, Biblioteca
    Grandidier, Tsimbazaza-Tananarive (atual Antananarivo), Repblica Malgaxe; seguimos a paginao do
    manuscrito datilografado. Fragmentos do Essai (ensaio) de S. A. `Al foram muito mal reproduzidos em
    uma revista local efmera, Promo Al-Camar, em maio de 1971. Apesar da confuso de vrios trechos, o
    Essai de 1927 permanece a mais interessante e a mais preciosa tentativa de histria local. Ele trata do
    governador geral de Madagascar e de suas dependncias. As Comores foram anexadas a Madagascar
    de 1914 a 1946. Mayotte tornou-se protetorado francs em 1843. As outras Comores caram sob a
    dominao francesa em 1886.
201 S. A. `Al, 1927, p. 3-7.
202 Os bdja aparecem s vezes como os primeiros chefes shirzi. M. Fontoynont e E. Raomandahy (1937,
    p. 12) registraram a seguinte tradio oral: "Graas a seus conhecimentos botnicos, farmacuticos e
    medicais, esses shirazis evitaram as doenas, se multiplicaram rapidamente e depois se espalharam,
    escolhendo chefes aos quais deram o nome Bedja, que tambm se encontrariam junto a vrios sultes,
    tais como Fabedja" (grifos nossos). As reservas expressadas por James Kerkman sobre a frica do Leste,
    em sua nota sobre "Les Perses" de Justus Strandes (p. 309-310 da traduo inglesa, edio de 1971)
    aplicam-se s diferenas entre shirzi e rabes, assim como aos perodos fani e sunita, usados por uma
    questo de mera comodidade.
203 A mesquita mais antiga encontra-se em Chingoni, Mayotte. Segundo A. Gevrey (1972, p. 207), que se
    baseia em sua interpretao da data gravada, ela dataria do ano 944 da hgira, ao passo que, segundo S.
    A. `Al (1927, p. 4), ela dataria de 844 (ou seja, 1566 e 1441 da era crist).
204 Ver o estudo de H. N. Chittick, 1971, p. 100-117.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                     1049



migraes indonsias para a frica e Madagascar e o surgimento da prpria
cultura suali205.
    Com as ltimas migraes muulmanas surgiu claramente um conceito pol-
tico. Pela primeira vez, as quatro ilhas Comores eram percebidas como uma
entidade nica, e tentou-se junt-las sob a autoridade de um nico monarca (o
sulto), residente em Anjouan, ilha situada no centro do arquiplago. O incio
da "era dos sultes" poderia remontar a 1506, ou mesmo antes de 1400, segundo
a interpretao das raras fontes de que dispomos206. Antes da chegada dos "ra-
bes muulmanos pertencentes  tribo que fundou Malindi207", uma ou mais
ilhas poderiam ter estado sob a autoridade de comerciantes de Moambique e
de Kilwa208. Do continente africano, desde tempos imemoriais, podia-se ver a
Grande Comore a cada erupo vulcnica do Monte Kartala.
    Segundo as tradies de diversas fontes e as ditas funcionais, a primeira dinas-
tia comorense seria oriunda de Anjouan, embora o primeiro antepassado tenha, de
incio, emigrado para a Grande Comore209. Talvez isso no seja to ilgico quanto
parece. A Grande Comore  a mais vasta das ilhas, mas ela carece de gua doce
e sua terra  em geral ingrata. Em 1727, Alexander Hamilton descrevia-a ainda
como uma ilha que s podia fornecer o mnimo necessrio a pouqussimos habi-
tantes210. O segundo antepassado hasan/hasani, verdadeiro fundador da dinastia,


205 Se tais estudos fizessem aparecer a origem precoce da presena dos continentais nas ilhas Comores,
    provavelmente seria preciso revisar a quase totalidade das inmeras teorias e hipteses relativas s ondas
    migratrias dos povos de lngua banta e s suas diferentes fases. Destarte, seria possvel que os colonos
    vindos do continente fossem mestios de origem afro-indonsia e que os wamatsaha  primeiros ocu-
    pantes dos Comores  tivessem um certo nmero de traos fsicos, etnogrficos e mesmo lingusticos
    que confirmariam essa hiptese. Ver J. Repiquet, 1902, p. 51 e foto; S. A. `Al, 1927, p. 1; e os estudos
    comparativos de James Hornell (1934) sobre as canoas de Madagascar, das Comores e da frica do
    Leste. Os mais antigos vocabulrios comorenses de que dispomos j esto em kiswahili: por exemplo, no
    que tange s 14 palavras citadas por Walter Peyton em 1613, ver S. Purchas, 1613; His pilgrims, British
    Library, Londres, manuscrito n 6115, vol. I, f. 488-490; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 491 e
    nota; L. Aujas, 1920, p. 51-59.
206 A. Gevrey, edio de 1972, p. 78-79, 148, 184, 206-207; S. A. `Al, 1927, p. 2-5; J. Repiquet, 1902, p.
    111-112. Gevrey fornece, na pgina 227, uma lista de 18 sultes de Mayotte (dos quais o ltimo vinha de
    Madagascar) que teriam reinado de 1530 a 1843. Segundo ele, algumas dessas datas so exatas, e outras
    aproximativas. Infelizmente, a data indicada para a viagem de Lancaster s Comores, 1561, comporta
    um erro de trinta anos, pois aconteceu em 1591, e no se trata de uma mera inverso do 6 em 9.
207 Do Couto, cap. 5, pp. 310-318; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 103.
208 J. Strandes, reimpresso, 1971, p. 85; J. de Barros, 1552-1613, vol. I, p. 214-215; A. Gevrey, 1972, p. 123.
209 O fato de a primeira mesquita encontrar-se em Mayotte, e no em Anjouan (ainda mais porque sua
    construo  atribuda a Haissa, filho de hasani), parece confirmar o aspecto funcionalista. Mas no se
    pode ser categrico pois, na verdade, no existiu histria cientfica propriamente dita das Comores antes
    do sculo XIX.
210 A. Hamilton, 1727, vol. I, p. 16-22; Antananarivo annuel, vol. IV (1892), p. 498 (da segunda edio de
    1744).
1050                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



 igualmente apresentado como sendo um grande construtor de mesquitas em
Anjouan  em primeiro lugar em Sima e, depois, em Domoni. Ele  tambm
considerado o principal propagador do rito shfi`te, e parece at difcil imaginar
que ele no tenha autorizado a adoo do isl sunita pelo povo de Anjouan. Seus
filhos portavam dois nomes: um banto e outro rabe. Eles estenderam o poder
da dinastia hassanita nas ilhas Comores, muito provavelmente ao mesmo tempo
em que introduziram uma nova f religiosa211. Aps esse perodo, a histria das
Comores foi marcada por rivalidades internas, at mesmo no mbito dos mins-
culos sultanatos das diferentes ilhas. Destarte, enquanto o isl sunita se impunha
em todas as Comores, acarretando a implementao de um novo sistema judicirio
com seus kdi, seus n`ib (juiz de aldeia) e seus madjelisse (corpo de juristas), riva-
lidades polticas entre membros de uma mesma etnia e entre alguns dos antigos
fani e os novos sultes tornaram-se ao mesmo tempo um fenmeno constante e
um fator dinmico da sociedade comorense.
    Os relatos dos europeus que visitaram as ilhas Comores foram raramente
corroborados pelas tradies locais ou, ao menos, por aquelas at hoje trans-
critas. Contudo, essas duas fontes  internas e externas  revelam uma cons-
tante rivalidade e mostram que a histria dos Comores no foi dominada pela
Grande Comore e Mayotte, mas por Anjouan e Mohli. No alvorecer do sculo
XVII, viajantes independentes de diferentes regies da Europa confirmaram
que Anjouan tinha, de fato, um monarca  uma rainha  considerado o chefe
supremo das quatro Comores212. Segundo as mesmas fontes, cada ilha tinha
seu prprio chefe, que detinha um certo poder e venerava a rainha de Anjouan
como chefe dinstico213, e no necessariamente como autoridade militar e admi-
nistrativa temvel. Em 1602, por exemplo, Mohli era governada por um rei
muulmano independente e imponente, que surpreendia os viajantes europeus
em virtude de suas impressionantes competncias em matria de navegao,
de seus mapas martimos da regio se estendendo do Mar Vermelho s ndias
Orientais, de seu conhecimento direto da frica e da Arbia e  o que no era
menos surpreendente  de seu domnio da lngua portuguesa214. Esse comorense


211 S. A. `Al, 1927, p. 3. Seus nomes bantos eram Machinda e Chivampe.
212 Notadamente os holandeses em 1599, 1601-1602 e tambm Franois-Martin de Vitr em 1602; ver A.
    Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 256, 272 e 317.
213 Vrios relatos mencionam as rainhas do "sulto", por vezes suas esposas e outras vezes sua me. A rainha-
    -me (de um sulto) parece ter sido uma figura muito respeitada; ver o relato de John Saris sobre Mohli
    em 1661, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 497.
214 Relato do almirante G. Spilberg sobre sua visita de 1602, traduzido do neerlands em de Constantin,
    1725, vol. IV, p. 29-30 e 42-60; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 312-313.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                 1051



extremamente interessante morreu em 1613, um dia exatamente antes da che-
gada de Christophe Newport, que observou que apenas a morte do rei podia
provocar uma trgua momentnea nas frequentes operaes realizadas pelas
embarcaes de Mohli contra Anjouan e as "outras" Comores215. Um ano mais
tarde, outros viajantes ingleses constataram que a Grande Comore era dividida
entre dez "senhores" e que a rainha de Anjouan (a "velha sultana") "delegara"
seu poder sobre Mohli a seus dois filhos, Amar-Adel como sulto, e seu irmo
como vice-sulto e shrf (principal personalidade religiosa). Ambos viviam no
interior da ilha, perto de Fombony. Os ingleses notaram tambm que a parte
principal do porto de Mohli era colocada sob a autoridade do governador de
uma personagem muito importante, Fombony216. Ainda em 1614, o velho fani
de M'samudu proclamou-se sulto independente e mestre do Norte de Anjouan,
tendo a venervel rainha perdido qualquer autoridade sobre sua ilha217. Martin
Pring encontrou tambm um poderoso fani em Mohli em 1616218. Por volta de
1626, houve dois pretendentes ao sultanato de Mohli: um descendente do fani
(provavelmente falecido na poca) e um "rabe". Ambos deviam sua "fortuna"
e, aparentemente, o essencial de sua rivalidade a suas esposas, filhas do "ltimo
sulto"219.
    Salvo raras excees220, os chefes comorenses buscaram estabelecer boas relaes
com os europeus que visitavam suas ilhas. Os capites de navios europeus adquiriram
o hbito de entregar, quando de sua chegada, suntuosas espadas e pistolas aos chefes
locais221. Os sultes e seus governadores de "portos", por sua vez, recebiam cartas
de recomendao por parte desses capites, quando de sua partida. Depois, essas
cartas eram apresentadas  como prova de amizade internacional  aos capites que



215 A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 490.
216 Relatos de Walter Peyton e Thomas Roe, 1614, em S. Purchas, His pilgrims, 1613, British Library, Londres,
    manuscrito n 6115, vol. I, f. 529 e 536 e seguintes; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 83-89.
217 A. Gevrey, 1870, p. 185; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 90 e seguintes. Gevrey e Grandidier
    afirmam que Magn-fan (fani) era o nome do sulto "rebelde" de M'samudu e ambos citam Pieter van
    den Broecke, observador avisado e oficial da frota holandesa sob as ordens do general Reynst, que visitou
    as Comores em 1614. Mas P. van den Broecke no menciona esse nome.
218 A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 100. O nome  citado por M. Pring em Fanno Mary O Fannadill.
219 Relato de Thomas Herbert, em A. Grandidier e al., op. cit., p. 394-399.
220 Por exemplo, 35 marinheiros sob o comando de J. Lancaster foram mortos em uma emboscada na
    Grande Comore em 1591 (ato que proporcionaria uma m reputao a essa ilha durante dcadas e at
    mesmo durante um sculo). Ver A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I, p. 161.
221 Em 1608, quando Alexander Sharpy, ao desembarcar na Grande Comore, enviou algumas bagatelas e
    duas facas ao chefe local, teve seu presente "rejeitado com desdm". Ver A. Grandidier e al., 1903-1920,
    vol. I, p. 419.
1052                                                                             frica do sculo xvi ao xviii



chegavam s Comores222. Segundo Hamilton, quase todos "os navios ingleses com
destino a Mocha,  Prsia ou a Surat" faziam escala em "Johana" (Anjouan) para se
"refrescar", criando assim os laos de uma longa amizade anglo-anjouanense, para
a qual apelavam de tempo em tempo os sultes locais. Os comerciantes comoren-
ses foram, durante muito tempo, os intermedirios entre Madagascar, a frica e a
Arbia, porm isso no significa (como podemos ler por vezes) que as quatro ilhas
no tinham nada para exportar por si prprias. As guerras que atingiam uma ilha,
como na Grande Comore em 1620223, e as frequentes incurses de uma ilha em
outra ultrapassavam as tenses meramente polticas. Em muitos casos, tratava-se
unicamente de capturar escravos a exportar mediante um lucro elevado. Essa duali-
dade de objetivos afirmou-se quando M'samudu construiu sua grande mesquita em
1670 e ficaria ainda mais ntida na poca dos piratas do Oeste do Oceano ndico
(1680-1720). Nessa poca, os sultes dos Comores aproveitaram-se de piratas to
renomados quanto Mission e Caraccioli, antes de tornarem-se as prprias vtimas
deles, e o saque e a destruio das cidades comorenses eram fatos corriqueiros224. Foi
precisamente entre 1700 e 1720 que esquadras da marinha britnica sob o comando
do capito Cornwall e do comodoro Littleton abandonaram a neutralidade de seu
pavilho e proporcionaram uma ajuda ativa a Ajouan e a seu sulto225. Essa assistn-
cia militar e naval traduzia o desejo por estender a autoridade efetiva de Anjouan s
outras Comores e por obter, em contrapartida, a recusa categrica em abrigar piratas.
A supremacia desses ltimos findou-se por volta de 1720, porm as intervenes
armadas britnicas en nome de Anjouan continuaram.
    Em 1736, segundo a`d ahmad `Al, Anjouan houve um novo monarca, o sulto
Ahmad. Este pensava  assim como os primeiros hassanitas  que todas as Comores
deviam depender de um chefe supremo. Seu reino durou muito tempo, "mais de
quarenta anos", mas foi marcado, em 1743, por uma tentativa quase exitosa de golpe
dirigida contra a dinastia, por uma guerra poltica aberta com Mayotte alguns anos


222 Por exemplo, em 1620, cartas escritas em ingls e em neerlands, datadas respectivamente de 16 de
    agosto de 1616 e de 8 de agosto de 1618, foram apresentadas ao general de Beaulieu como "atestados"
    (A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 358). A prtica das cartas internacionais de recomendao foi
    certamente inspirada pela cultura escritural suali local, pois sabemos que ao menos os chefes de Mayotte
    comunicavam por cartas com o Sulto de Anjouan. Em 1599, por exemplo, o Sulto de Mayotte entregou
    aos holandeses uma carta de recomendao da rainha de Anjouan (A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. I,
    p. 256); em 1646, John Smart levou as "cartas" do "Rei de Mayotte" para Anjouan (Smart em Kynnaston,
    26 de junho de 1646, em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. V, p. 514-517).
223 A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. II, p. 365.
224 Ibid., vol. III, p. 480-514.
225 Ibid., vol. V, p. 53, 156, 159. (Em 1790, o capito francs Pron apoiou Anjouan contra Mayotte, que se
    tornaria um protetorado francs 53 anos depois.)
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                               1053



mais tarde (terminando pela derrota humilhante de Anjouan) e, principalmente, por
um grande levante interno. Com efeito, os descendentes dos primeiros ocupantes de
Anjouan (os wamatsaha), liderados por um plebeu de alto poder carismtico, Tumpa
(que sustentava descender de um fani), levantaram-se em 1775 contra o elemento
dominante rabe, exigindo uma plena igualdade e "o direito de casar com mulhe-
res rabes". A cidade de Domoni ops uma fraca resistncia aos rebeldes, que ali
acharam um nmero suficiente de armas de fogo para poder sitiar a prpria cidade
de M'samudu. Felizmente para os hassanitas, eles haviam recrutado uma seo de
fuzileiros navais britnicos que no encontraram dificuldades para matar Tumpa, em
p em uma plataforma elevada e abrigado sob um guarda-chuva vermelho226. Sua
morte marcou o fim de um movimento que poderia ter tido consequncias de um
alcance considervel para Anjouan e as outras ilhas Comores. Contudo, ao passo que
se findava o sculo XVIII, os verdadeiros problemas a serem sofridos pelas Comores
apenas comeariam. De fato, frotas de canoas malgaxes, lideradas pelos sakalava e
pelos betsimisaraka, comearam a praticar incurses nas quatro ilhas,  procura de
escravos, e aterrorizaram durante bastante tempo a populao local. Tais expedies
martimas cessaram por volta de 1825, principalmente em funo de intervenes
britnicas227. Ademais, as grandes mudanas provocadas pela expanso merina em
Madagascar tiveram, ao menos, uma consequncia inesperada. Mayotte tornou-se
um pas de lngua malgaxe por causa da chegada macia de sakalava que fugiam
do Iboina. A ilha tambm teve sultes malgaxes (Ramanetaka, parente de Radama
I, e Andriantsoli, ltimo chefe sakalava-boina)228. A situao das Comores, a meio
caminho entre a frica e Madagascar, no era das mais confortveis.


    As Ilhas Mascarenhas: Reunio, Maurcio, Rodrigues229
  Contrariamente a Madagascar e s Comores, a trs ilhas Mascare-
nhas permaneceram despovoadas at a chegada dos europeus no Oceano


226 S. A. `Al, 1927, p. 12-14.
227 Sobre as expedies martimas dos malgaxes, ver a nota 109 acima, assim como o relato de Austin Bissel
    (novembro de 1798), em A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. V, p. 415-416; ver tambm M. Fontoynont
    e E. Raomandahy, 1937, p. 15-21.
228 A. Gevrey (1870, p. 217-225) trata de forma rpida de Ramanetaka e de Andriantsoli.
229 No trairemos aqui de Rodrigues, rochedo vulcnico de aproximadamente 155 quilmetros quadrados
    situado a algumas centenas de milhas marinhas da Reunio e da Ilha Maurcio. Ver, para essa ilha, J.
    F. Dupon, 1969; A. J. Bertuchi, 1923. As trs ilhas receberam seu nome coletivo atual nos anos 1820 e
    A. Toussaint (1972)  a obra de referncia a esse respeito. A Reunio chamou-se outrora Bourbon e os
    franceses rebatizaram Maurcio a Ilha de Frana. Conservamos os nomes atuais.
1054                                                                           frica do sculo xvi ao xviii



ndico230. Sua situao geogrfica, a Leste de Madagascar, contribuiu para
fazer da Reunio (Ilha Bourbon) e da Ilha Maurcio (Ilha de Frana) bases
navais estratgicas controladas pelas grandes companhias martimas. As
duas maiores ilhas do conjunto experimentaram tambm uma economia
de plantation de tipo clssico, tal como aquela que se alastrou, em momen-
tos e graus diversos, no somente na regio oriental de Madagascar, mas
tambm na frica do Leste e do Sudeste, e at mesmo no litoral indiano.
Aps 1638, os holandeses concentraram seus esforos na ilha Maurcio no
intuito de explorar a madeira e de implementar o comrcio de escravos
com Madagascar, mas abandonaram -na em 1710 231. Quanto  Reunio,
recebeu seus primeiros colonos de Fort-Dauphin em 1646 e 1654. Estes
eram constitudos, em nmeros quase iguais, de franceses e de malgaxes
que haviam se levantado contra a primeira Companhia Francesa das ndias
Orientais. Esta ltima conseguiria, contudo, garantir seu monoplio na
Reunio entre 1664 e 1719232. Os franceses colonizaram a Ilha Maurcio a
partir da Reunio por volta de 1721 e ambas as ilhas permaneceram sob a
autoridade da segunda Companhia Francesa das ndias Orientais at 1767,
ano em que as Mascarenhas passaram a ser controladas pela administrao
real233. A partir de 1790, inspirados pelo exemplo da Revoluo Francesa,
os plantadores da Reunio e de Maurcio comearam a reinvindicar uma
forma de nacionalismo local para se opor a algumas medidas tomadas pela
metrpole, tais como a abolio da escravido em 1794 e as tentativas da
Conveno para despachar seus agentes, dos quais dois foram expulsos em
1796. As guerras napolenicas prejudicaram as Mascarenhas francesas: a
ilha Maurcio passou definitivamente sob a autoridade britnica e o abaste-
cimento em escravos acabou, ainda que provisoriamente. Entretanto, apesar
das mudanas polticas, a Reunio e a ilha Maurcio estavam  vspera de
um perodo de grande prosperidade econmica.
   Por volta de 1710, essas duas ilhas juntavam 2000 habitantes, um tero sendo
escravos. Em meados do sculo, a populao havia triplicado, mas os escravos


230 Tal dado de fato permite tambm recusar a tese dos movimentos populacionais diretos da Indonsia a
    Madagascar atravs do Oceano Pacfico, movimentos estes que teriam dado s Mascarenhas seus prprios
    tompon-tany.
231 Sobre os holandeses na ilha Maurcio, ver A. Pitot, 1905.
232 J. Barassin, 1953.
233 Encontra-se um excelente resumo dos perodos posteriores a 1719 em A. Toussaint, 1972, p. 38-106
    (sobre a Companhia e a administrao real). Para mais detalhes, ver A. Pitot, 1899; C. Grant, 1801; A.
    Lougnon, 1956 e 1958.
Madagascar e as ilhas do Oceano ndico                                                                1055



eram responsveis por mais dos dois teros de tal aumento, e por volta do fim
do sculo, as duas ilhas tinham 120.000 habitantes, dos quais 94.000 escravos234.
Desde o incio do sculo XVIII, j se podiam distinguir cinco grupos sociais: os
brancos descendentes das primeiras famlias de colonos, os crioulos brancos, os
crioulos mulatos, os estrangeiros brancos (entre os quais inmeros antigos pira-
tas ingleses e alguns refugiados holandeses que haviam fugido da sua Compa-
nhia das ndias Orientais) e os escravos que se subdividiam em crioulos negros e
escravos que no nasceram nas ilhas235. Houve poucos escravos alforriados antes
de 1797 (em 1788, por exemplo na Reunio, s havia 950 deles em um total de
45.800 habitantes e 2.456 em um total de 42.828 em Maurcio236). Contudo, a
populao servil modificou-se sensivelmente quando os compradores das Mas-
carenhas comearam a desinteressar-se de Madagascar para voltarem-se para
a frica e a ndia  procura de novos trabalhadores. Essa mudana explica-se
notadamente pela crena de que os malgaxes tinham uma tendncia a formar
colnias de escravos foragidos. Segundo um relatrio de 1758, "os escravos de
Madagascar tm uma forte tendncia a escapar. Muitos dentre eles, sedentos por
liberdade, fugiram nas montanhas, em meio a florestas inacessveis, para voltar
em grupos atacar as plantaes onde haviam sido escravos237". Na verdade, na
Reunio e em Maurcio, como em qualquer outro lugar, a marronagem cons-
titua uma reao  escravido, favorecida pelo meio ambiente, e o fenmeno
permaneceu problemtico at uma poca recente, em que quase no havia mais
escravos malgaxes.
    A cana-de-acar era cultivada na ilha Maurcio desde 1639, mas a primeira
usina aucareira foi construda sob a administrao de Mah de Labourdonnais
(1735-1746), que reorganizou tambm as Mascarenhas, fazendo delas uma base
dirigida contra os britnicos da ndia238. Porm, a ilha Maurcio apenas comeou
a exportar acar aps o advento da administrao real francesa, que revogou
as medidas restritivas impostas pela Companhia das ndias Orientais e abriu as


234 A. Toussaint, 1972, tabelas estatsticas, p. 335-338.
235 Segundo o relato de 1714: ver J. Barassin, 1953, p. 309; A. Toussaint, 1972, p. 32. Citando um relatrio
    redigido em 1763 por um oficial da marinha britnica, Grant sustentava que os primeiros colonos apenas
    tiveram filhos com mulheres malgaxes, que quase todos os crioulos refletiam tal unio e que os crioulos
    autctones tinham quase os mesmos privilgios do que a pequena nobreza da Frana. C. Grant, 1801,
    pp. 163-171; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. V, p. 303.
236 A. Toussaint, 1972, tabelas estatsticas, p. 335-338.
237 C. Grant, 1801, pp. 75-78; A. Grandidier e al., 1903-1920, vol. V, p. 316-317.
238 Sobre Mah de Labourdonnais, certamente a personagem mais inovadora, ver seu Mmoires des les de
    France et de Bourbon, editado e anotado em 1937 por A. Lougnon e A. Toussaint. Sobre a indstria
    aucareira, ver A. North-Coombes, 1937.
1056                                                        frica do sculo xvi ao xviii



ilhas a todos os nacionais franceses no fim dos anos 1760239. O caf, introduzido
na Reunio em 1715 para se tornar a sua principal cultura, bateu seu ltimo
recorde de produo no incio dos anos 1740. Por volta de 1767, seu declnio
(por causa da concorrncia das Antilhas) chegou a ponto de os plantadores da
Reunio voltarem-se para as especiarias240. Durante os trinta anos seguintes, as
ilhas Mascarenhas,  medida que "o comrcio desamparou o Oceano Atlntico
em proveito do Oceano ndico", tornaram-se "o ponto de convergncia de uma
verdadeira `rota das ilhas'241". A ilha Maurcio que, na poca da Companhia,
acolhia aproximadamente 30 navios por ano, viu esse nmero decuplicar por
volta de 1803. A maioria desses navios pertenciam a mercadores estrangeiros,
principalmente dos Estados Unidos aps a guerra de independncia. Poder-se-
-ia dizer que as minorias privilegiadas das ilhas Mascarenhas tinham um nvel
de vida igual ou superior ao de todos os outros territrios coloniais por volta
de 1800.




239 A. Toussaint, 1967, p. 94.
240 Id., 1971, p. 35-36.
241 Id., 1967, p. 94.
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso          1057



                                        CAPTULO 29


       A histria das sociedades africanas de
              1500 a 1800: concluso
                                                B. A. Ogot




    Diversos rtulos foram aplicados ao perodo da histria da frica que vai
de 1500 a 1800. Muitos livros de Histria apresentam-no como "a era do
trfico de escravos", superestimando a importncia do fenmeno na histria
do continente. Esquecem-se de que, na frica Ocidental e Oriental, o trfico
de escravos perdurou at por volta de 1850 e que foi no sculo XIX que ele
se desenvolveu na frica do Leste, excetuando-se um perodo anterior em
direo ao mundo muulmano. Este rtulo no d conta sequer do fato de que
certas partes do continente, como, por exemplo, a frica do Sul, praticamente
o desconheceram. Outros historiadores, sobretudo os neomarxistas, fazem da
integrao progressiva da frica na economia capitalista mundial dominada
pela Europa a principal caracterstica desse perodo. Atribuem eles, portanto,
um lugar mais importante s relaes exteriores da frica do que  sua evo-
luo interna e apresentam os povos africanos como as malfadadas vtimas de
foras mundiais que eles no podem compreender nem dominar. A frica se
encontra marginalizada e ideias racistas sobre o continente e seus habitantes se
propagam e intensificam. Outros historiadores ainda fazem dos movimentos
populacionais e do povoamento definitivo do continente a maior caracterstica
do perodo. Na verdade, cumpre constatar que, salvo algumas excees, no
houve quase migraes em massa na frica aps 1500. Outros pesquisadores,
por fim, estariam propensos a apresentar a histria destes trs sculos como
1058                                                         frica do sculo xvi ao xviii



uma srie de catstrofes ecolgicas e a considerar as secas e fomes como os
fatores determinantes do perodo.
    Cada um desses rtulos tem sua parte de verdade, mas nenhum deles d a
devida conta da complexidade e do dinamismo destes trs sculos de histria
africana. Neste ltimo captulo, esforar-nos-emos para traar as grandes linhas
da evoluo histrica das sociedades africanas deste perodo, apoiando-nos
mormente nos vrios captulos deste volume.
    Talvez fosse indicado comear nossa exposio pela questo fundamental
dos movimentos populacionais. Foram esses movimentos importantes para esse
perodo da histria africana, mas, e a reserva  de Vansina no captulo 3, "eles
no so especialmente caractersticos do perodo de 1500 a 18001". A maior
parte da frica j tinha sido colonizada em 1500 e o que as tradies orais
apresentam como migraes nestas zonas no era de fato seno expanso e
deslocamentos populacionais. Somente o Nordeste da frica (quer seja a Som-
lia atual, o Sul da Etipia, o Sul do Sudo, o Norte do Qunia e o Norte da
Uganda) conheceu movimentos macios de populao ao longo deste perodo
entre os oromos, os somalis, os luo, os karimojong, os kalenjin, os turkana e os
masa. Para Vansina, "estes movimentos populacionais atm-se [...]  histria
da ocupao das terras marginais. [...] Na verdade, quase por toda parte, vastas
regies eram ocupadas por povos cuja economia era adaptada ao meio natural
e  densidade populacional.2".
    H, no entanto, muita coisa mais significativa do que essas migraes que
so motivo de tanta preocupao: o perodo 1500-1800 foi crucial para as for-
maes sociopolticas do continente.  nesses trs sculos que a maior parte
dos habitantes das diferentes regies da frica se reagrupou para formar os
conjuntos sociais, econmicos, religiosos, culturais e polticos que constituem
os povos africanos de hoje.
    Enquanto as sociedades africanas davam origem a grupos tnicos distintos, s
caractersticas lingusticas e culturais prprias, grande parte da frica se trans-
formava em consequncia da evoluo das relaes exteriores do continente. Em
1500, a maior parte das sociedades africanas era relativamente independente
do resto do mundo, suas relaes exteriores estavam reduzidas ao mnimo. Mas,
em 1800, uma grande parte da frica estava integrada aos circuitos comerciais
mundiais que a ligavam estreitamente  Europa,  Amrica e  sia. Este pro-
cesso de integrao fora facilitado pelo aparecimento, no continente, de novas

1      Ver o captulo 3.
2      Id.
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso                 1059



comunidades, como os colonos holandeses na frica Austral, os portugueses
em Angola e na costa leste, e os Otomanos no Egito e no Magreb. Numerosas
sociedades africanas tiveram ento que mudar progressivamente seu modo de
vida, ou se deslocar, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Muito rapidamente,
relaes totalmente diferentes estabeleceram-se entre as sociedades e em seu
seio. Estas novas relaes se caracterizavam pela dominao e pela dependncia,
tanto no plano interno quanto no sistema mundial em que a Europa se tornara
a potncia preponderante.
    Path Diagne levantou as grandes estruturas econmicas que apareceram ao
longo deste perodo, quais sejam, o sistema de castas no Sudo Ocidental, na
regio do Nger-Chade e no Saara, a economia de pilhagem nos pases ribeiri-
nhos do Mediterrneo, do Nilo e do Oceano ndico, e a economia de entreposto
ou de feitoria nas proximidades do Oceano Atlntico3.
    A economia de pilhagem, por exemplo, era consequncia do expansionismo
espanhol e portugus e dependia bem mais do produto de pirataria, de tributos
e de direitos que do comrcio e da indstria, como era o caso antes de 1500.
Desmembrou totalmente os subsistemas do Mediterrneo e do Oceano ndico e
empobreceu os campos que, em seguida, o trfico de escravos iria mergulhar em
uma crise profunda. Entrou em cena uma oligarquia militar que vivia de pirataria
e de incurses, para as quais utilizava os servios de homens livres e de escravos.
Este sistema de explorao e de opresso provocou vrias revoltas camponesas,
especialmente no Sudo Ocidental, nas regies do Nger e do Chade, no Egito,
no Saara, no Magreb, na Etipia e no baixo Zambeze.
    Como a economia de pilhagem, a economia de feitoria quase no se preo-
cupava em inovar. Palcos de violncia e de saques, as novas feitorias martimas
eram mais fortalezas do que centros comerciais ou industriais. Nas costas da
Guin e da frica Equatorial, no Congo, em Angola e na Senegmbia, os por-
tugueses saqueavam mais do que compravam. De 1650 a 1800, a economia de
feitoria apoiava-se no trfico internacional de escravos.
    As sociedades atingidas por esse tipo de economia transformaram-se pro-
gressivamente nos sculos XVII e XVIII. Este complexo processo acarretou
grandes reestruturaes, das quais a principal, especialmente na frica Centro-
-ocidental, foi o predomnio das redes comerciais sobre os Estados. Na maior
parte das cidades costeiras, houve uma exploso geral dos centros de autoridade
e esfacelamento do poder poltico. Citemos M'Bokolo:


3    Ver o captulo 2.
1060                                                            frica do sculo xvi ao xviii



        [...] a organizao do comrcio, do lado africano, no foi monoplio do Estado:
    a concorrncia beneficiou alguns indivduos, prncipes, plebeus, qui ex-escravos,
    formadores de uma nova aristocracia, ciumenta de seus privilgios e vida por poder
    poltico [...] No Loango, homens novos  plebeus, comerciantes, caravaneiros e
    demais intermedirios  obtiveram a maior fortuna, tendo os meios de comprar a
    terra junto ao rei e de trazer para sua assessoria numerosos subordinados livres ou
    servis: cita-se, no fim do sculo XVIII, o exemplo de plebeus possuindo a bagatela
    de 700 subordinados a guerrear ou cultivar a terra por conta prpria4.
    Em outras palavras, o declnio dos Estados acarretou o das antigas elites
dirigentes, que uma classe de negociantes veio substituir ou acrescentar. A pene-
trao portuguesa no Sul da Zambzia, por exemplo, desferiu srio golpe no
poder da classe dominante autctone e facilitou a instalao de formas diretas
de explorao dos camponeses pelos capitalistas portugueses. "A convergncia
das redes comerciais regionais com as do comrcio longnquo gerou uma classe
mercantil africana, os vashambadzi. [... Serviam eles] como intermedirios entre
os negociantes estrangeiros e os produtores agrcolas africanos 5."
    Fatos da mesma espcie fizeram nascer os "Mestizos e os Crioulos" de Casa-
mansa, da Guin e da Serra Leoa. Os afro-portugueses e os anglo-africanos
deste ltimo pas eram grupos de negociantes que serviam de intermedirios
entre os navios europeus e as sociedades africanas do interior. Eram sobretudo
agentes a servio do capitalismo mercantil europeu que se enriqueceram de
modo considervel.
    Mesmo no caso dos Sultanatos funj e fr, em que os sultes parecem ter
dirigido e protegido o comrcio exterior, ligando-os ao Egito e ao mar Vermelho,
o essencial das trocas estava nas mos dos djallba (negociantes) sudaneses que
serviam de intermedirios e de financistas em matria de comrcio exterior.
    Relativamente isolados em 1500, os diversos povos da frica gradualmente
se integraram, portanto,  economia mundial. Na maior parte dos casos, esta
integrao se fez acompanhar de profundas transformaes sociais e polticas.
    Apesar do desaparecimento de grandes Estados no Sudo Ocidental e na
frica do Nordeste no incio do perodo que nos interessa, "os diferentes Estados
da frica  escreve Vansina  exerciam seu domnio sobre uma maior parte do
continente no fim do sculo XVIII do que no incio do sculo XVI6". Mas no


4      Ver o captulo 18.
5      Ver o captulo 22.
6      Ver o captulo 3.
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso               1061



so somente os territrios dominados por Estados que se estenderam ao longo
destes trs sculos: o perodo est marcado tambm por numerosos exemplos de
reagrupamentos polticos devidos  expanso e  centralizao das instituies
polticas. Assim, a formao de Estados e a centralizao da autoridade poltica
foram os dois processos marcantes deste perodo.
    Na frica do Nordeste, por exemplo, enquanto os sculos XVI e XVII assis-
tiram ao desmoronamento do imprio cristo da Etipia, ao qual se seguiu uma
anarquia que prosseguiu intermitentemente at 1855, ano em que Teodoro
II inaugurou a era dos grandes imperadores, houve, em compensao, uma
expanso deste imprio rumo ao Sul, o que estimulou o aparecimento de novos
Estados, como os de Bosa, de Kaffa, de Sekko, de Wolayta e de Dauro.
    No caso de Madagascar, constatamos um processo inverso de centralizao.
No incio do sculo XVII, a ilha no possua ainda seno pequenas chefias aut-
nomas. Mas, no fim do sculo, o Imprio dos sakalava constituiu-se na parte
ocidental e vrios reinos surgiram junto aos povos dos altos planaltos, assim
como em toda a parte sul da ilha. O Imprio dos sakalava alcanou seu apogeu
no sculo XVIII e o litoral oriental ficou politicamente unido pela primeira vez
no quadro da Confederao dos betsimisaraka. Em 1800, estes dois Estados
estavam em declnio e o Imerina, at ento fraco e desunido, ganhava poder.
    O mesmo processo de unificao e de centralizao encontra-se na costa
da Guin inferior. De acordo com um mapa datado de 1629, havia ento nessa
regio florestal e costeira 38 Estados e reinos que haviam sido fundados pelos
ga e pelos akan. Entre 1670 e 1750, produziu-se nessa regio uma grande revo-
luo poltica. Os 38 Estados engendraram os trs grandes imprios dos aowin,
dos denkyira e dos akwamu que, em 1750, se fundiram para formar o Imprio
dos ashanti.
    Buganda, Ruanda e Maravi so outros exemplos de Estados que se desenvol-
veram e constituram sistemas polticos centralizados ao longo deste perodo.
    Houve contudo um fenmeno poltico mais comum durante estes trs
sculos: aos Estados em declnio ou que ruram sucederam diversos pequenos
Estados ou sistemas econmicos. Assim, na frica Central, Estados cada vez
maiores se constituram e originaram, no sculo XVI, os Reinos do Congo, de
Tio, de Loango e do Ndongo (a futura Angola), tendo sido o Reino do Congo
o mais importante e o mais centralizado. Mas, a partir de 1665, estes Estados
comearam a declinar e os territrios foram reorganizados em escala maior, em
funo de imperativos econmicos ditados pelo trfico de escravos.
    Na costa da Alta Guin, os Estados que sucederam aos Imprios Songhay e
do Mali apareceram nos sculos XVII e XVIII. O grande Imprio Foul se cons-
1062                                                         frica do sculo xvi ao xviii



tituir no sculo XVIII sobre as runas do Imprio Songhai, mas este cedeu lugar
ao Imprio do Kaarta no decorrer da segunda metade do sculo XVIII. Ao longo
do Atlntico, os Estados que se haviam constitudo depois do desmembramento
do Mali foram unificados pelo Gabu (Kaabu) nos sculos XVII e XVIII, depois
pelo Futa Djalon nos sculos XVIII e XIX. No Centro, a recuperao teve lugar
no incio do sculo XVIII sob os auspcios dos bambara de Segou e, no Sul, os
jula organizaram o Imprio de Kong no sculo XVIII.
    Assistiu-se a um processo semelhante no Sul do Zambeze. O declnio do
Grande Zimbbue fez nascer, primeiramente, o Estado de Torwa e, em seguida,
como fato mais notvel, o Estado de Mutapa no incio do sculo XVI. A frag-
mentao e o consequente declnio do Estado Mutapa comearam em 1629. O
Imprio soobrou na decadncia e na desordem ao longo do sculo XVIII, mas
a entidade poltica mutapa s desapareceu completamente em 1917.
    A maior parte dos novos Estados dotaram-se de sistemas de governo e de
administrao originais. O Daom, por exemplo, representava uma nova noo
de Estado. Havia sido criado por migrantes vindos de Allada, que se tinham
imposto a vrios grupos, mais ou menos em 1625. Ao conceito tradicional de
Estado, considerado como uma verso mais ampla da famlia, sucedia o de
Estado forte e centralizado, com um monarca absoluto no seu comando a exigir
lealdade sem reserva de todos os cidados.
    As novas concepes do Estado e dos sistemas de governo que se formaram
nas mais diferentes regies (sobretudo nos sculos XVII e XVIII) merecem ser
estudadas de forma mais exaustiva. Na maior parte desses Estados, vrias clas-
ses sociais tambm surgiram: aristocratas, grupos militares, plebeus e escravos.
Assim, a sociedade kanuri do Borno era extremamente estratificada. Estava,
em linhas gerais, dividida em duas classes, os kontuowa (classe dominante ou
nobreza) e os talia (plebeus), sendo estes subdivididos em vrios grupos distintos
por sua linguagem, vestimenta, moblia e arquitetura de sua casa. No pas haussa,
com o enriquecimento dos aristocratas e negociantes, esta distino deu lugar a
uma distino econmica entre os attijirai (os ricos) e os talakawa (os pobres).
    A aristocracia (administrativa e militar) enriqueceu empregando vrios meios
de explorao. Adquiriu muito depressa uma ideologia da opresso. No Egito,
por exemplo, o declnio do Imprio Otomano coincidiu com o comeo dos
conflitos internos entre as camadas sociais, cujo objetivo no era a independncia
poltica, mas o domnio da economia, do pas e de suas instituies polticas.
O estado crtico da economia era reflexo de uma poltica de opresso a que
a maior parte da populao estava submetida e graas  qual era explorada
por uma pequena elite que compreendia os beis mamelucos e seu squito. Tal
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso                 1063



situao de opresso provocou o aparecimento de uma literatura popular em
lngua rabe (especialmente potica e satrica), tendo por tema a explorao
dos camponeses.
    Como j o tnhamos sublinhado ao mostrar os resultados da economia de
pilhagem, tais regimes opressores provocaram numerosas revoltas camponesas
em toda a frica. As dos sculos XVII e XVIII deveriam ser objeto de um
estudo mais aprofundado. Delas seria preciso estabelecer a tipologia. Ademais,
em vrias regies, as classes inferiores no constituam um grupo homogneo:
algumas delas no eram sequer constitudas de camponeses. Mas, em regra geral,
pode-se dizer que, qualquer que fosse sua composio, as classes inferiores luta-
ram contra a deteriorao de sua situao para preservar ao menos o statu quo.


    O trfico de escravos
    As questes que se levantam habitualmente a este respeito, tais como o
recenseamento de escravos ou os efeitos do trfico de escravos para a sociedade
africana, foram estudadas no captulo 4 e nas sees pertinentes da maior parte
dos captulos deste volume. Por isso, no  necessrio voltar ao assunto aqui.
Permitam-me antes insistir sobre alguns pontos fundamentais com relao ao
trfico de escravos que, a meu juzo, deveriam merecer a ateno dos historia-
dores especialistas em frica.
    Antes de mais nada, que lugar deve ocupar o trfico de escravos na histria
da frica? Em outras palavras, que interesse o trfico de escravos representa para
ns, historiadores da frica? Todas as raas foram escravas outrora: o prprio
termo vem da palavra eslavos, que designa os europeus do Leste. Mas todos
os outros grupos populacionais encontraram um meio de eliminar esta noo
de sua conscincia histrica. Os judeus, por exemplo, foram outrora escravos,
mas no presente eles interpretam a escravido como uma condio especial e
nica que lhes tinha sido atribuda por Deus. Os africanos sobrestimam tanto
a importncia da escravido em sua histria que h uma assimilao ou quase
entre os termos escravo e africano. Como o demonstrou claramente D. B. Davis
em suas obras, Problem of slavery in western culture e Slavery and human progress,
a escravido  um fenmeno maior da ideologia do mundo ocidental moderno
que deveramos esforarmo-nos por compreender7.  este fenmeno o principal
responsvel pela atitude negativa para com a frica e os africanos.

7    D. B. Davis, 1966-1975 e 1984.
1064                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



    No captulo 4, Inikori se esfora por mensurar o papel do trfico de escravos
negros para o progresso econmico do mundo ocidental. Essa questo, tambm
fundamental, deve ser examinada abertamente e de modo aprofundado. Marx e
Engels sustentaram que, mesmo sendo e tendo sido sempre imoral, a escravido
no deixou de ser essencial para o progresso econmico e, consequentemente,
para o progresso social. Sem a escravido, asseveraram eles, no teria havido
civilizao grega nem civilizao romana. Inikori traz a observao, por sua vez,
de que a escravido africana foi essencial para o desenvolvimento do sistema
econmico e geopoltico atlntico e para a industrializao da Europa Ocidental.
Alm disso, em sua obra em trs volumes, Civilizao material, economia e capi-
talismo nos sculos XV a XVIII, Fernand Braudel deu-nos outra imagem da con-
quista do mundo pelo capitalismo europeu: passando pela tradicional economia
de subsistncia camponesa e pelo advento do mercado, explica ele, por fim, como
um punhado de banqueiros e de negociantes conseguiram, monopolizando o
comrcio e tendo o mximo de lucro, criar uma srie de "economias-mundo"
ancoradas na Europa e, desse modo, estender o poderio crescente do capitalismo
europeu. Atribui este crescimento a empresas multinacionais como a Casa dos
Fugger de Augsburg no sculo XVI e a Companhia das ndias Orientais nos
sculos XVII e XVIII8. O papel do trfico de escravos africanos neste debate
deve ser radicalmente reavaliado.
    No captulo 5, Harris levanta outra importante questo ligada  escravido.
Todos os documentos disponveis mostram claramente que a desumanizao
dos africanos se intensificou de 1500 a 1800 por causa da intensificao da
escravido a partir de 1619.
    , no entanto, o trfico intercontinental dos escravos que, mais que outro
fator, esteve na origem da presena dos negros no mundo inteiro. Como conse-
quncia, houve uma dispora africana muito expressiva, sobretudo no continente
americano e no Caribe. De acordo com Harris,
        a natureza de tal trfico e suas consequncias, mais especificamente na Amrica
    e nos Caribes, levaram os africanos a travarem lutas por sua liberdade. Estas lutas,
    com o passar do tempo, despertaram nas conscincias a preocupao generalizada
    da redeno da frica e da libertao dos negros do mundo inteiro. [...] Apesar da
    dominao colonial, tal processo seguiu seu curso, tratando-se provavelmente da mais
    importante consequncia histrica da dispora africana 9.


8      F. Braudel, 1984. Ver tambm I. Wallerstein, 1976.
9      Ver o captulo 5. p. 136 na edio inglesa ; quando diagramado colocar a referncia da pgina.
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso                                         1065



    efetivamente este fenmeno que esteve na base do movimento pan-
-africano dos sculos XIX e XX.


     A introduo de novas culturas de alimentos
   Para numerosos escritores, a introduo de novas culturas originrias das
Amricas  um aspecto positivo do comrcio transatlntico. Alguns destacaram
que estas culturas, que acarretaram automaticamente modificaes no regime
alimentar, melhoraram a resistncia fsica dos africanos, contribuindo assim
com o crescimento da populao. Citemos a propsito um manual tpico de
histria africana:
        As novas culturas originrias das Amricas permitiram  frica Tropical, e
     sobretudo s regies de floresta, nutrir sua populao muito mais numerosa que no
     passado. O milho, o amendoim e a mandioca  para citar apenas estes trs exemplos
      modificaram de modo permanente a relao dos africanos com seu ambiente10.
    Mas, como nos leva a observar M'Bokolo, os efeitos dessas transformaes
agrcolas nas populaes africanas so difceis de interpretar. "Teriam elas con-
tribudo, como frequentemente se sublinha, para uma alimentao mais segura
e mais diversificada, para uma maior resistncia fsica da populao e para um
crescimento demogrfico mais forte?" Nada oferece menos certeza. Pelo con-
trrio, destaca ele, a mandioca no tem seno um valor nutricional medocre,
alm de se constatar sinais de desnutrio grave entre os que mais a utilizaram,
como os tio e os mboshi11.
    Se as tendncias demogrficas ao longo dos sculos XVII e XVIII so dif-
ceis de discernir,  porque esta poca, que foi tambm a do apogeu do trfico
transatlntico, foi marcada pelo aparecimento de novas doenas, como a varola,
que deveriam em seguida tornar-se flagelos recorrentes.
    O que  certo, porm,  que as novas culturas originrias das Amricas e
da sia, que foram introduzidas pelos Europeus em diversas regies da frica
entre 1500 e 1800, especialmente o milho, a mandioca, o amendoim, vrios tipos
de inhame, a batata doce, as frutas ctricas, os tomates, as cebolas e o tabaco,
diversificaram a agricultura do continente. Numerosas culturas alimentares afri-
canas como a banana, o sorgo, o milhete e o inhame foram progressivamente


10   P. D. Curtin, S. Feierman, L. Thompson e J. Vansina, 1978, p. 214.
11   Ver o captulo 18. p. 531 na edio inglesa ; quando diagramado colocar a referncia da pgina
1066                                                                              frica do sculo xvi ao xviii



substitudos ao longo deste perodo pela mandioca e pelo milho. , portanto, a
esta poca que remonta o lugar to importante que ocupam atualmente estes
dois elementos da alimentao de base dos africanos.
    No nvel social, para M'Bokolo, esta revoluo agrcola contribuiu, junta-
mente com o comrcio, para criar uma nova diviso do trabalho: tarefas agrco-
las, como as roadas, as culturas e o condicionamento dos produtos, foram cada
vez mais abandonadas pelos homens  que preferiam dedicar-se ao comrcio,
muito mais lucrativo  e confiadas s mulheres e aos escravos. A intensificao
da escravido domstica e de outras formas de dependncia foi ento uma con-
sequncia direta destas mudanas agrcolas12.


     As catstrofes ecolgicas
    Alguns tentaram demonstrar que aos diversos perodos da histria da frica
correspondiam essencialmente condies climticas e que havia uma correla-
o significativa entre os perodos de seca grave e os grandes acontecimentos
histricos. A poca que nos interessa de modo especial  considerada como um
perodo de seca13.
    Estas anlises tendem a dar ao meio ambiente fsico um carter imutvel
que reduz os africanos ao papel de vtimas impotentes da natureza. Tm ainda
o inconveniente de atribuir demasiada importncia aos anos de seca em detri-
mento dos anos de pluviometria normal e acima da mdia, o que levou certos
historiadores a formular generalizaes excessivas a respeito das fomes da frica
pr-colonial14. Estes historiadores nada dizem das medidas que os Africanos
tomaram para contrapor-se aos efeitos da seca e calam-se, por exemplo, quanto
ao papel que elas tiveram na transformao dos sistemas de produo e de dis-
tribuio, na valorizao das culturas de alimentos e na evoluo dos mtodos
de conservao de alimentos.
    A questo das secas e das fomes inscreve-se tambm na questo mais vasta
da eficcia da agricultura africana durante o perodo pr-colonial. O perodo de
1500 a 1800, por exemplo, foi marcado pelo aparecimento de tcnicas intensi-
vas de uso dos solos que, por sua vez, permitiram o crescimento da densidade
populacional. Vansina nos d a esse respeito alguns exemplos:


12     Id.
13     J. B. Webster, 1979 e 1980; S. E. Nicholson, 1978 e 1979; J. C. Miller, 1982; D. J. Schove, 1973; J. K.
       Thornton, 1981a. Ver tambm o captulo 26.
14     Ver o captulo 22.
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso                        1067



         A Baixa Casamansa, o pas Igbo, as pradarias de Camares onde se cultivavam
     diversos vegetais, as montanhas da regio dos Grandes Lagos, na borda do rift oci-
     dental onde se praticava a irrigao e a cultura intensiva de bananas, o plat kukuya
     onde se aplicavam novos mtodos de fertilizao, ou ainda o vale do alto Zambeze,
     cujas cheias serviam para a irrigao [...]. O que se praticava h milnios era uma
     cultura intensiva nos osis da frica do Norte e no Egito15.
    Enfim, embora a prtica da agricultura intensiva no fosse to antiga na
maior parte das outras regies da frica como na frica do Norte, havia c e
l, sobretudo na frica Ocidental e Central, pequenos bolses de agricultura
intensiva. Empregavam-se nessas regies tcnicas de cultivo avanadas como as
culturas em terraos, a rotatividade de culturas, os adubos verdes, a agricultura
mista e a explorao controlada dos pntanos. Essas questes merecem mais a
ateno dos historiadores que as generalizaes habituais sobre a fome e a seca
na frica.


     O Cristianismo e o Islamismo
    O perodo que vai de 1500 a 1800 foi marcado pelo declnio do cristianismo
na frica  sobretudo na Etipia, na costa oriental e, em escala menor, no
Congo  e pelo crescimento do islamismo na frica do Oeste, no Sudo, na
Etipia e na costa leste.
    Na costa da Guin inferior, por exemplo, o cristianismo havia sido introdu-
zido pelos holandeses e pelos ingleses. Comearam por criar escolas elementares
em seus castelos na Costa do Cabo, Elmina e Accra. Depois disso, em meados
do sculo XVIII, missionrios haviam sido enviados para a Costa do Cabo pela
Sociedade para a propagao do Evangelho. Alm do mais, alguns dos novos
convertidos, especialmente os filhos de mulatos e de dirigentes locais, haviam
sido enviados ao exterior para aperfeioar sua educao e uma grande parte
deles voltara como professores e missionrios. Os fundamentos da revoluo
crist que deveria acontecer na frica Ocidental no sculo XIX foram, portanto,
assentados nesta poca.
    No Congo, o cristianismo foi introduzido no reinado de Afonso I (1506-
-1543). Sob a direo de seu filho Henrique, que fora consagrado bispo em
Roma, ele fez do catolicismo a religio de Estado. Mas o fervor religioso declinou


15   Ver o captulo 3.
1068                                                           frica do sculo xvi ao xviii



no Congo at 1645, data em que grande nmero de missionrios capuchinhos
italianos chegou ao pas. Cerca de 400 missionrios foram ao Congo e, mais
tarde,  Angola, ao longo do sculo XVI, para pregar o Evangelho, especialmente
nas zonas rurais. Como disse Vansina, o cristianismo, inicialmente introduzido
no Congo pelos portugueses, era, em grande parte, a religio da nobreza urbana,
e a hierarquia eclesistica continuava essencialmente portuguesa. Mas de 1645 a
1770, os missionrios italianos empenharam-se em converter sistematicamente
a populao, sobretudo nas zonas rurais16.
    O cristianismo, assim como o islamismo, foi, ao longo desse perodo, essen-
cialmente sincrticos. No Congo, por exemplo, o cristianismo coexistia com a
religio tradicional. De fato, a interpenetrao entre as duas religies era tal que,
segundo Vansina, "a partir do sculo XVI, pode-se falar de uma nica religio
em que elementos cristos e antigos haviam se misturado, ao menos junto aos
nobres, e tal religio difundiu-se sobretudo no sculo XVII. [...] Essa nova
religio deu origem ao vodu haitiano 17".
    Tambm nesta poca, tentou-se organizar igrejas independentes. No Congo,
as primeiras tentativas para criar uma igreja autctone foram feitas a partir de
1630 e este esforo ganhou toda sua amplitude em 1704, quando Dona Beatriz
Kimpa Vita comeou a pregar um cristianismo reformado, denominado anto-
nianismo, que rejeitava os missionrios e os brancos. Doravante o catolicismo
autctone iria dominar no Congo.
    No que concerne ao islamismo,  evidente que a expanso islmica na frica
constitui um dos temas importantes do perodo que vai de 1500 a 1800. Na costa
da Guin Inferior, por exemplo, so os comerciantes mande e haussa que intro-
duziram o islamismo. Propagou-se, depois disso, seguindo as rotas comerciais
do Norte e atingiu os ashanti e os baoul por volta de 1750. Em 1800, havia em
Kumasi um bairro muulmano muito prspero e uma escola cornica.
    Na costa da Alta Guin, so os fulbe e os malinke que foram os responsveis
pela expanso do islamismo. Formaram uma aliana religiosa fulbe-mande des-
tinada no somente a converter a populao da regio mas tambm a submet-la.
A propagao do islamismo esteve, portanto, associada  dominao poltica
em numerosas regies da frica, como bem o ilustra o caso da Senegmbia,
onde a oposio entre as teorias muulmanas e os regimes dos ceddo (senhores
da guerra) serve de pano de fundo  histria da regio. No Sudo, a islamizao
do Norte do pas criou uma fronteira ideolgica entre o Sudo do Norte e o

16     Ver o captulo 19.
17     Id.
A histria das sociedades africanas de 1500 a 1800: concluso                1069



Sudo do Sul, que continua muito marcante. Assistiu este perodo  criao e
 expanso de dois Estados muulmanos da savana: os Sultanatos funj e fr.
Nos sculos XVII e XVIII, o islamismo continuou a se propagar nos Reinos
Bambara, Mossi, de Kong e de Gwirika, por meio dos comerciantes e dos chefes
religiosos, e mesmo pela violncia. Constata-se o mesmo processo de islamiza-
o no pas Haussa e no Borno.
    Alm da simples expanso geogrfica do islamismo na frica nesta poca, o
fundamentalismo muulmano foi um fator importante em numerosas regies.
Citemos como exemplo o movimento Nir al-Dn, que nasceu na Mauri-
tnia e, em seguida, se propagou rumo ao Sul. Justificava-se por razes em
parte econmicas (controlar o comrcio de cereais e de escravos) e em parte
religiosas (purificar e reformar o islamismo, substituindo um regime arbitrrio
pela teocracia muulmana). Constata-se a mesma tendncia reformista entre os
muulmanos do pas Haussa, sobretudo durante o sculo XVIII. Comunidades
de eruditos muulmanos, que tinham a mesma formao poltica, econmica e
religiosa, multiplicaram-se em diversos centros e se puseram a criticar a ordem
estabelecida e representada pela aristocracia. O mais eminente desses eruditos,
Malam Djibrl dan `Umaru, pregava reformas islmicas. `Uthmn e `Adullh
dan Fodio foram ambos discpulos seus. Quando a dominao dos aristocratas
se tornou ainda mais opressiva, os eruditos atacaram abertamente a ordem
estabelecida. So tais as origens da jihad do sculo XIX.
    Ao oprimir os camponeses africanos, especialmente no Sudo Ocidental,
nas regies do Nger e do Chade, no Egito, no Saara, no Magreb, na Etipia e
no Congo, as elites rurais e urbanas fizeram o jogo dos dirigentes muulmanos
e dos movimentos messinicos cristos, que no tiveram nenhuma dificuldade
em angariar o apoio macio dos camponeses. Os chefes religiosos prometiam
a igualdade e o fim da injustia, ao mesmo tempo em que estigmatizavam as
aristocracias tradicionais e os europeus, elementos perturbadores e causas da
injustia social.
    Destaquemos, para concluir, que os africanos tinham uma concepo sin-
crtica do islamismo, assim como do cristianismo. Aceitavam o islamismo, mas
continuavam fiis  religio tradicional. Como Izard e Ki-Zerbo observam, estes
sincretismos se desenvolveram mais tarde com o cristianismo na frica e no
culto afro-americano no Brasil, no Haiti e em Cuba. "O isl, assim concluem,
apresentava-se aos bambara com instituies que no negavam necessariamente
as suas, como, por exemplo, a poligamia, o divrcio, o repdio, a escravido 18."


18   Ver o captulo 12.
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de uma Histria Geral da frica   1071




          Membros do Comit Cientfico
       Internacional para a Redao de uma
             Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria)  1971 Coordenador do volume VI
Prof. F. A. Albuquerque Mouro (Brasil)  1975
Prof. A. A. Boahen (Gana)  1971 Coordenador do volume VII
S. Exa. Sr. Boubou Hama (Nger)  1971-1978 (Demitido em 1978; falecido em 1982)
S. Exa. Sra. Mutumba M. Bull, Ph. D. (Zmbia)  1971
Prof. D. Chanaiwa (Zimbbue)  1975
Prof. P. D. Curtin (EUA)  1975
Prof. J. Devisse (Frana)  1971
Prof. M. Difuila (Angola)  1978
Prof. Cheikh Anta Diop (Senegal)  1971 Prof. H. Djait (Tunsia)  1975
Prof. J. D. Fage (Reino Unido)  1971-1981 (Demitido)
S. Exa. Sr. M. El Fasi (Marrocos)  1971 Coordenador do volume III
Prof. J. L. Franco (Cuba)  1971
Sr. Musa H. I. Galaal (Somlia)  1971-1981 (Falecido)
Prof. Dr. V. L. Grottanelli (Itlia)  1971
Prof. E. Haberland (Repblica Federal da Alemanha)  1971
Dr. Aklilu Habte (Etipia)  1971
S. Exa. Sr. A. Hampat Ba (Mali)  1971-1978 (Demitido)
Dr. I. S. El-Hareir (Lbia)  1978
1072                                                                    frica do sculo xii ao xvi



Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia)  1971 Co diretor do volume III
Dra. A. Jones (Libria)  1971
Pe. Alexis Kagame (Ruanda)  1971-1981 (Falecido)
Prof. I. M. Kimambo (Tanznia)  1971
Prof. J. Ki-Zerbo (Alto Volta)  1971
Coordenador do volume I
Sr. D. Laya (Nger)  1979
Dr. A. Letnev (URSS)  1971
Dr. G. Mokhtar (Egito)  1971 Coordenador do volume II
Prof. P. Mutibwa (Uganda)  1975
Prof. D. T. Niane (Senegal)  1971 Coordenador do volume IV
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana)  1971
Prof. T. Obenga (Repblica Popular do Congo)  1975
Prof. B. A. Ogot (Qunia)  1971 Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)  1971
Sr. W. Rodney (Guiana)  1979-1980 (Falecido)
Prof. M. Shibeika (Sudo)  1971-1980 (Falecido)
Prof. Y. A. Talib (Cingapura)  1975
Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal)  1978-1982 (Falecido).
Mons. T. Tshibangu (Zaire)  1971
Prof. J. Vansina (Blgica)  1971
Rt. Hon. Dr. E. Williams (Trinidad e Tobago)  1976-1978 (Demitido em 1978; fale-
cido em 1980)
Prof. A. Mazrui (Qunia) Coordenador do volume VIII (no  membro do
Comit)
Prof. C. Wondji (Costa do Marfim) Codiretor do volume VIII (no  membro do
Comit)

Secretaria do Comit Cientfico Internacional para a Redao de Uma Histria Geral da frica
Sr. Maurice Glel, Diviso de Estudos e Difuso de Culturas, Unesco, 1, rue Miollis,
75015 Paris
Dados biogrficos dos autores do volume V                                          1073




                         Dados biogrficos dos
                         autores do volume V




  Captulo 1        M. Malowist (Polnia). Especialista em histria econmica e social da
                    Alta Idade Mdia e do incio da poca moderna; autor de vrios livros
                    e artigos sobre o assunto; antigo professor de histria da Universidade
                    de Varsvia; antigo membro da Clare Hall, Cambridge, e membro do
                    Institut for Advanced Study, Princeton. In memoriam.
  Captulo 2        P. Diagne (Senegal). Doutor em cincias econmicas e polticas; eco-
                    nomista e lingista; autor de vrios trabalhos sobre o poder poltico
                    africano e sobre a gramtica wolof moderna, atualmente professor e
                    consultor.
  Captulo 3        J. Vansina (Blgica). Especialista em histria da frica; autor de vrios
                    livros e artigos sobre a histria pr-colonial da frica; professor de
                    histria e de antropologia, Universidade de Wisconsin.
  Captulo 4        J. E. Inikori (Nigria). Especialista em histria econmica; autor de
                    vrios livros e artigos sobre o assunto. Professor e chefe de departa-
                    mento, Universidade Ahmadu Bello, Zaria.
  Captulo 5        E. Harris (Estados Unidos da Amrica). Especialista em dispora africana;
                    autor de vrios livros e artigos sobre o assunto, atualmente professor na
                    Universidade Howard, Washington D. C.
  Captulo 6        R. Vesely (Repblica Tcheca). Especialista em histria do Egito, em
                    problemas diplomticos e econmicos dos pases rabes na Idade
1074                                                               frica do sculo xii ao xvi



               Mdia, autor de vrios trabalhos de estudos histricos e diplomticos
               sobre o perodo medieval rabe (particularmente o Egito) e dos pases
               islmicos; conferencista sobre os pases rabes e islmicos e sua hist-
               ria na Philosophical Faculty of Charles University, Departamento de
               estudos orientais e africanos, Praga.
 Captulo 7    Y. F. Hasan (Sudo). Especialista em histria do Sudo; autor de
               numerosos trabalhos sobre o assunto; anteriormente professor de his-
               tria na Universidade de Cartum e diretor da Sudan Research Unity,
               Universidade de Cartum; atualmente vice-chanceler, Universidade de
               Cartum.
               B. A. Ogot (Qunia). Especialista em histria africana; pioneiro em
               tcnicas de histria oral, autor de numerosas publicaes sobre a
               histria da frica oriental; anteriormente diretor do International
               Louis Leakey Memorial Institute; depois vice-chanceler adjunto, Uni-
               versidade de Nairbi; professor de histria, Universidade Kenyatta,
               Nairbi.
 Captulo 8    M. El Fasi (Marrocos). Autor de numerosos trabalhos (em rabe e em
               francs) concernentes  histria lingstica e  crtica literria; antigo
               vice-chanceler da Universidade Karwiyyn, Fes. In memoriam.
 Captulo 9    M. H. Cherif (Tunsia). Especialista em histria social e poltica norte-
               -africana; autor de vrios artigos sobre a histria norte-africana; pro-
               fessor e decano da universidade Faculdade de Cincias Humanas e
               Sociais de Tnis.
 Captulo 10   B. Barry (Sengal). Doutor em histria; autor de numerosos trabalhos
               sobre o Waalo, a Senegmbia e o Futa Djalon; antigo secretrio geral
               da Associao dos historiadores africanos; atualmente professor na
               Faculdade de Artes, Universidade Cheikh Anta Diop, Dacar.
 Captulo 11   M. Abitbol (Israel). Especialista em Sudo nigeriano; autor de nume-
               rosos trabalhos sobre a histria do Sudo, pesquisador da Hebrew
               University de Jerusalm.
 Captulo 12   M. Izard (Frana). Especialista em histria pr-colonial dos reinos
               mossi (Burkina Faso); antroplogo e historiador, autor de numerosas
               publicaes e artigos, particularmente sobre o antigo reino do Yatenga,
               pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Cientfica-CNRS (labo-
               ratrio de antropologia social), Paris.
               J. Ki-Zerbo (Burkina Faso). Especialista em metodologia de histria
               africana; autor de numerosos trabalhos sobre a frica negra e sua
               histria; professor de histria na Universidade de Dacar, deputado na
               Assemblia Nacional de Burkina Faso.
Dados biogrficos dos autores do volume V                                                1075



  Captulo 13        C. Wondji (Costa do Marfim). Especialista em histria moderna e
                     contempornea da frica, autor de numerosas obras sobre as culturas
                     africanas e a histria da Costa do Marfim; anteriormente chefe do
                     Departamento de Histria na Faculdade de Letras da Universidade
                     Nacional da Costa do Marfim (Abidjan) e diretor adjunto do Instituto
                     de Arte e de arqueologia na Universidade de Abidjan; atualmente
                     diretor da Diviso do Pluralismo Cultural, UNESCO, Paris.
  Captulo 14        A. A. Boahen (Gana). Especialista em histria oeste-africana; autor
                     de numerosas publicaes e de artigos sobre a histria africana; ante-
                     riormente professor e chefe do departamento de histria; atualmente
                     professor emrito na Universidade de Gana.
  Captulo 15        E. J. Alagoa (Nigria). Especialista em histria africana e em his-
                     toriografia; autor de numerosos estudos sobre os ijo, as tcnicas e a
                     metodologia concernentes  tradio oral e  arqueologia; professor
                     de histria na Universidade de Port Harcourt.
  Captulo 16        D. Laya (Nigria). Especialista em culturas oeste-africanas; socilogo;
                     autor de trabalhos sobre o assunto; diretor do Centro de Estudos
                     Lingsticos e Histricos de tradio oral (CELHTO), Niamey.
  Captulo 17        B. Barkindo (Nigria). Especialista em formao dos Estados e em
                     relaes entre Estados na bacia do Chade; autor de numerosos traba-
                     lhos sobre o assunto; encarregado do ensino de Histria na Universi-
                     dade Bayero, Kano.
  Captulo 18        E. M' Bokolo (Repblica democrtica do Congo). Especialista em
                     histria da frica negra, autor de numerosos trabalhos sobre o assunto;
                     pesquisador da Escola de Altos Estudos em Cincias Sociais (EHESS);
                     encarregado de ensino no Instituto de Estudos Polticos (IEP), Paris;
                     produtor na Rdio Frana Internacional.
  Captulo 19        J. Vansina.
                     T. Obenga (Repblica Popular do Congo). Especialista em lnguas
                     africanas; autor de numerosos artigos e trabalhos sobre a histria afri-
                     cana e sobre a frica no mundo antigo; anteriormente professor da
                     Faculdade de Letras da Universidade Marien N'Gouabi, Brazzaville;
                     atualmente diretor geral do Centro Internacional de Civilizaes Ban-
                     tas (CICIBA). Libreville.
  Captulo 20        Ndaywel  Nziem (Repblica Democrtica do Congo). Especialista
                     em histria da frica Central; autor de numerosos artigos sobre o
                     assunto, professor de histria na Universidade de Kinshasa e no Ins-
                     tituto Pedaggico Nacional; diretor geral da Biblioteca Nacional da
                     Repblica Democrtica do Congo.
1076                                                             frica do sculo xii ao xvi



 Captulo 21   K. M. Phiri (Malau). Especialista em histria do Malau, da frica
               Central e do Sul; anteriormente encarregado do ensino de histria na
               Universidade do Malau; atualmente professor associado de histria
               na Universidade do Malau.
               O. J. M. Kalinga (Malau). Especialista em histria da regio do lago
               Malau, autor de numerosos trabalhos sobre o assunto; professor de
               histria na Universidade Nacional do Lesotho.
               H. H. K. Bhila (Zimbbue). Especialista em histria da frica do Sul
               e Oriental; autor de trabalhos sobre a frica do Sul; anteriormente
               presidente do Departamento de Histria na Universidade do Zimb-
               bue; atualmente deputado do Parlamento do Zimbbue.
 Captulo 22   H. H. K. Bhila.
 Captulo 23   D. Denoon (Reino Unido). Especialista em frica do Sul e Oriental;
               autor de numerosos trabalhos sobre o assunto; anteriormente convi-
               dado e encarregado de ensino na Universidade de Idaban; atualmente
               professor na Australian National University, Canberra.
 Captulo 24   E. Haberland (Alemanha). Especialista em Etipia e em frica do
               Oeste pr-colonial; autor de trabalhos sobre a Etipia, diretor do Ins-
               tituto Frobenius, Frankfurt; professor titular da cadeira de etnologia e
               de histria africana na Universidade de Frankfurt, diretor do Centro
               de Estudos Africanos de Frankfurt.
 Captulo 25   A. I. Salim. (Qunia). Especialista em histria da frica Oriental,
               autor de numerosos artigos sobre os povos falantes de kiswahili; pro-
               fessor e presidente do Departamento de Histria na Universidade de
               Nairbi.
 Captulo 26   J. B. Webster (Canad). Especialista em histria pr-colonial, pres-
               tando ateno particular ao clima, autor de numerosos trabalhos sobre
               a histria dos acholi e dos iteso, de um livro intitulado Chronology,
               migration and drought in interlacustre Africa; anteriormente professor
               e chefe do Departamento de Histria em Makerere na Universidade
               do Malau; atualmente professor de histria africana na Universidade
               Dalhousie.
               B. A. Ogot.
               J. P. Chrtien (Frana). Especialista em histria de Burundi, autor de
               numerosos trabalhos sobre os reinos dos Grandes Lagos e a frica
               Oriental alem; pesquisador do Centro de Pesquisas Africanas (CRA)
               na Universidade Paris-1.
Dados biogrficos dos autores do volume V                                           1077



  Captulo 27        W. R. Ochieng' (Qunia). Especialista em histria do Qunia; autor
                     de numerosos trabalhos sobre o assunto; anteriormente encarregado
                     do ensino de histria queniana na Universidade Kenyatta, Nairbi;
                     atualmente na Universidade MOI, Eldoret, Qunia.
  Captulo 28        R. K. Kent (Estados Unidos da Amrica). Especialista em histria de
                     Madagascar; autor de numerosos trabalhos sobre o assunto; professor
                     de histria africana na Universidade da Califrnia, Berkeley.
  Captulo 29        B. A. Ogot.
Abreviaes e listas de peridicos                                    1079




             Abreviaes e listas de peridicos




   Os editores gostariam de colocar que embora tenha sido feito todo esforo
para assegurarmos que os detalhes desta bibliografia estejam corretos, alguns
erros podem ocorrer devido  complexidade e natureza internacional da obra.

AA -- Antananarivo Annual, Antananarivo
Abbia -- Abbia, revue culturelle camerounaise, Yaound.
ABUP -- Ahmadu Bello University Press, Zaria
AE -- Annales d'Ethiopie, Rome
AEH -- African Economic History, Madison, Wisconsin
AESC -- Annales: Economies, socits, civilisations, Paris Africa Africa, Rome
AHS -- African Historical Studies (atual IJAHS), African Studies Center,
  Boston University
AL -- Africana Linguistica, Tervuren: Muse royal de l'Afrique centrale
ALR -- African Language Review (atual African Languages) London: Interna-
  tional African Institute
Anais -- Anais da Junta de Investigaes do Ultramar
Annual Review of Anthropology -- Annual Review of Anthropology, Paio
  Alto, CA Anthropos Anthropos: Revue internationale d' ethnologie et de
  linguistique, Fribourg
Arabia -- Arabia: the Islamic World Review, Slough, UK: Islamic Press Agency
1080                                                          frica do sculo xii ao xvi



Arnoldia -- Arnoldia, Salisbury: National Museums of Rhodesia
ARSOM -- Acadmie royale des sciences d'Outre-mer (antigo `Institut royal
  colonial belge' e `Acadmie royale des sciences coloniales'), Brussels
AS -- African Studies (continuou como Bantu Studies), Johannesburg: WUP
ASR -- African Social Research, Lusaka: University of Zambia
ASR -- African Studies Review, Camden, NJ
AVG -- Annuaire des voyages et de la gographie
Azania -- Azania: Journal of the British Institute of History and Archaeology in
  Eastern Africa, London

BAM -- Bulletin de l'Acadmie malgache, Antananarivo
BARSOM -- Bulletin de l'Acadmie royale des sciences d'Outre-mer, Brussels
BCAF -- Bulletin du Comit de l'Afrique franaise - Renseignements coloniaux,
   Paris
BCEHSAOF -- Bulletin du Comit d'tudes historiques et scientifiques de
   l'Afrique Occidentale franaise, Dakar
BCGP -- Boletim cultural da Guin portuguesa, Bissau
BEM -- Bulletin conomique de Madagascar, Antananarivo
BGHD -- Bulletin de gographie historique et descriptive, Paris
BIEA -- British Institute in Eastern Africa, Nairobi
BIFAN -- Bulletin de l'Institut franais (mais tarde fondamental) d'Afrique
   noire, Dakar
BIHBR -- Bulletin de l'Institut historique belge de Rome
BJIDCC -- Bulletin des juridictions indignes et du droit coutumier congolais
   (atual Bulletin des tribunaux coutumiers), Elisabethville: Societ des Etudes
   Juridiques du Katanga
BLLE -- Bulletin de liaison - Linguistique-ethnosociologie, Abidjan: Centre uni-
   versitaire de recherches de dveloppement, University of Abidjan
BLS -- Bulletin de liaison saharienne, Algiers
BM -- Bulletin de Madagascar, Antananarivo
BODE -- Bulletin officiel de la Direction de l'enseignement, Madagascar
BS -- Bantu Studies, Johannesburg
BSGL -- Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Lisbon
BSOAS -- Bulletin of the School of Oriental and African Studies, London

CA -- Codices Aethiopici
CCAH -- Cahiers congolais d' anthropologie et d'histoire, Brazzaville
CCB -- Centre de civilisation burundaise, Bujumbura
Abreviaes e listas de peridicos                                        1081



CEA -- Cahiers d'tudes africaines, Paris: Mouton
CEDA -- Centre d'tudes et de diffusion africaine, Paris/Abidjan
CHM -- Cahiers d'histoire mondiale, Paris: Librairie des Mridiens
CIS -- Cahiers Internationaux de Sociologie, Paris: PUF
CJAS -- Canadian Journal of African Studies, Ottawa: Canadian Association
  of African Studies, Department of Geography, Carleton University, Ottawa
CNRS -- Centre national de la recherche scientifique, Paris
CNRSS -- Centre nigrien de recherches en sciences sociales, Niamey
Congo -- Congo, Brazzaville: Centre National de la Statistique et des Etudes
  Economiques
CRA -- Centre de recherches africaines, Paris
CRDTO -- Centre de recherche et de documentation pour la tradition orale
  [Research and Documentation Centre for Oral Tradition] Niamey
CSCO -- Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, Paris
CUP -- Cambridge University Press
CUP -- Caribbean University Press
CVRS -- Centre voltaque des recherches scientifiques, Ouagadougou
CZA -- Cultures au Zare et en Afrique

EALB -- East African Literature Bureau, Nairobi, Kampala and Dar es Salaam
EAPH -- East African Publishing House, Nairobi
EHA -- Etudes d'histoire africaine, Kinshasa
EHR -- Economic History Review, Cambridge: Economic History Society EN
  Etudes nigriennes, Niamey: IRSH
EUP -- Edinburgh University Press, Edinburgh

GASS -- Accra
GNQ -- Ghana Notes and Queries, Legon
GSSJ -- Ghana Social Science Journal, Legon
GUP -- Ghana Universities Press

HAJM -- History in Africa: A Journal of Method, Waltham, Massachusetts
HAHR -- Hispanic American Historical Review, Durham, NC: Duke University Prcss
Hespris -- Hespris, Rabat: Institut des hautes tudes marocaines
HUP -- Harvard University Press
HUP -- Howard University Press, Washington, DC

IAI -- International African Institute, London
1082                                                         frica do sculo xii ao xvi



IAS -- Institute of African Studies, University of Nairobi
ICS -- Institute of Commonwealth Studies, London
IFAN -- Institut franais d' Afrique noire, Dakar
IJAHS -- International Journal of African Historical Studies, Boston: African
   Studies Center, Boston University
IJMS -- International Journal of Middle-Eastern Studies, Cambridge: CUP
IRES -- Institut de recherches conomiques et sociales, Lopoldville
IRSH -- Institut de recherches en sciences humaines, Niamey
IUP -- Ibadan University Press

JA -- Journal asiatique, Paris
JAAS -- Journal of Asian and African Studies, Tokyo
JAE -- Journal of Arid Environments, London: Academic Press
JAH -- Journal of African History, Cambridge: CUP
JAS -- Journal of the African Society (mais tarde African Affairs), London
JEH -- Journal of Economic History, Wilmington, DE: Economic History
   Association
JES -- Journal of Ethiopian Studies, Addis Ababa: Institute of Ethiopian
   Studies, Haile Salassie I University
JHSN -- Journal of the Historical Society of Nigeria, Ibadan
JHUP -- Johns Hopkins University Press, Baltimore
JIMM -- J. Inst, Mining Met.
JMBRAS -- Journal of the Malayan Branch of the Royal Asiatic Society,
   Singapore
JNH -- The Journal of Negro History, Washington, DC
JRAI -- Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and
   Ireland, London
JRAS -- Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland,
   London
JSA -- Journal de la Socit des Africanistes, Paris
JSH -- Journal of Social History, Pittsburgh, PA: Carnegie - Mellon University
   Press
JSS -- Journal of Semitic Studies, Manchester: Department of Near Eastern
   Studies, Manchester University

KASP -- The Kroeber Anthropological Society Papers
KHR -- Kenya Historical Review, The Journal of the Historical Association of
  Kenya, Nairobi
Abreviaes e listas de peridicos                                              1083



KHS -- Kenya Historical Society, Nairobi
KLB -- Kenya Literature Bureau
KS -- Kano Studies, Kano, Nigeria
KUP -- Khartoum University Press

LA -- L'ducation africaine
LSJ -- Liberian Studies Journal, Newark, Delaware: University of Delaware

MAM -- Mmoires de l'Acadmie malgache, Antananarivo
Man -- Man, London
MJSS -- Malawi Journal of Social Science
MRAC -- Muse royal de l'Afrique centrale - Annales Sciences humaines,
  Terouren
MRAL -- Memorie in Italian della Reale Accademia nazionale dei Lincei, Rome
MUP -- Manchester University Press, Manchester

NA -- Notes africaines: Bulletin d'information de l'IFAN, Dakar
NADA -- The Rhodesian Native Affairs Department Annual, Salisbury
NEA -- Nouvelles ditions africaines, Dakar
NJ -- Nyasaland Journal
NNPC -- Northern Nigerian Publishing Company, Zaria
N RE -- Notes, reconnaissances et explorations, Madagascar
NRJ -- Northern Rhodesian Journal
NUP -- Northwestern University Press, Evanston, Illinois
Nyame Akuma -- Nyame Akuma, Calgary: Department of Archaeology,
   University of Calgary Odu Odu: Journal of West African Studies (previa-
   mente Journal of African Studies, Ife; precedido por Journal of Yoruba and
   Related Studies, Ibadan), Ife: University of Ife Oduma Oduma, Port
   Harcourt, Nigeria

OHCIS -- Ohio University Centre for International Studies
ORSTOM -- Office de la recherche scientifique et technique d'Outre-mer,
  Paris
OUP -- Oxford University Press

PA -- Prsence africaine, Paris
Paideuma -- Paideuma: Mitteilungen zur Kultureunde, Frankfurt-am-Main
Phylon -- Phylon, Atlanta, GA: University of Atlanta
1084                                                         frica do sculo xii ao xvi



PP -- Past and Present, Oxford
PS -- Population Studies, London
PTRSA -- Proceedings and Transactions of the Rhodesian Scientific Association,
  Bulawayo
PUF -- Presses universitaires de France, Paris
PUP -- Princeton University Press

RA -- Revue africaine, Journal des travaux de la Socit historique algrienne,
  Algiers
REI -- Revue des tudes islamiques, Paris
RFHOM -- Revue franaise d'histoire d'Outre-mer, Paris
RH -- Revue historique, Paris: PUF
RHM -- Revue d'histoire maghrbine, Zaghovan, Tunisia
RLJ -- Rhodes-Livingstone Journal (atual African Social Research), Lusaka
RM -- Revue de Madagascar, Antananarivo
RR -- Research Reinem, University of Ghana
RS -- Revue smiuque, Paris
RSE -- Rassegna di studi etiopici, Rome
RT -- Revue tunisienne, Algiers/Tunis: Jean-Baptiste Salvago
RTC -- Revue des troupes coloniales
RV -- Recherches voltaiques, Ouagadougou: Centre Voltaque de la Recherche
  Scientifique

Saeculum -- Saeculum, Freiburg
SAJS -- South African Journal of Science, Johannesburg
SELAF -- Socit d'tudes linguistiques et anthropologiques de France, Paris
SEVPEN -- Service d'dition et de vente des publications de l'Education na-
   tionale, Paris
SFHOM -- Socit franaise d'histoire d'Outre-mer, Paris
SGM -- Scottish Geographical Magazine, Edinburgh: Royal Scottish Geo-
   graphical Society
SM -- Sudanese Memoirs
SMJ -- Society of Malawi Journal, Blantyre, Malawi: Society of Malawi
SNP -- Kaduna, Nigeria: National Archives
SNR -- Sudan Notes and Records, Khartoum
SOAS -- School of Oriental and African Studies, University of London
SSL -- Studi storici e Linguist
SSM -- Social Science and Medicine, New York: Pergamon Press
Abreviaes e listas de peridicos                                            1085



Studia -- Studia, Lisbon
SUP -- Stanford University Press, Stanford, CA

Target -- Target, Dar es Salaam
TD -- Travaux et documents
THSG -- Transactions of the Historical Society of Ghana (previamente
   Transactions of the Gold Coast and Togoland Historical Society), Legon
TJH -- Transafrican Journal of History, Nairobi: EALB
TNR --Tanganyika Notes and Records (atual Tanzania Notes and Records), Dar
   es Salaam
TPH -- Tanzania Publishing House
Trav. IRS -- Travaux de l'Institut de recherches sahariennes, Algiers: University
   of Algiers

UCLA -- University of California, Los Angeles
UCP -- University of California Press, Berkeley, CA
Ufahamu -- Ufahamu, Los Angeles, CA: UCLA
UJ -- Uganda Journal, Kampala: Uganda Society
ULP -- University of London Press, London
UNCP -- University of North Carolina Press, Chapel Hill
UTP -- University of Tennessee Press
UWP -- University of Wisconsin Press, Madison

W AJA -- West African Journal of Archaeology, Ibadan
W MQ -- William and Mary Quarterly, Williamsburg, V A
WUP -- Witwatersrand University Press, Johannesburg

YUP -- Yale University Press

Zaire -- Zaire, Kinshasa
Zamani -- Zamani, Nairobi: History Association of Kenya
ZFE -- Zeitschrift fr Ethnologie, Berlin
ZH -- Zimbabwean History
ZJH -- Zambia Journal of History, Lusaka: University of Zambia
Referncias bibliogrficas                                                   1087




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ndice remissivo                                                                 1171




                               ndice remissivo




Algodo, produo e                  Ordem econmica               927, 929, 936, 940,
    comrcio, 39,          43,       (Amricas, Europa e           945, 947, 958, Chifre
    Amricas, 9, 18, 22,             frica), 91-134, Esta-        da frica, 853, Ilhas do
    94, 106, 109, frica             dos Haussa, 575, Ilhas        Oceano ndico, 1048,
    oriental, costa, 889,            do Oceano ndico,             1050, Reino do Congo,
    895, Estados Haussa,             1056, Guin Inferior,         648, Madagscar, 1017,
    565-7, 569, 572, 574,            costa, 475, 482, 484,         1027-8, Delta do Nger
    Chifre da frica, 879,           489, 508-09, Delta            e Camares, 519, 536,
    Kanem-Bornu, 594,                do Nger e Camares,          538-9, Zambezia do
    600, Regio do Nger-            521, 525, 531, 533,           Norte, regio do lago
    Volta, 426, Sene-                535, 539, Imprio             Malaui, 719, 721-2,
    gmbia, 316, Imprio             Songhai, 379-81, Alta         Atividades polticas e
    Songhai, 377, 383, Sul           Guin, costa, 449,            militares, 50, Mobi-
    do Zambeze, 790-91,              451-468 passim.               lidade populacional,
    Alta Guin, costa, 454,        Banto/Bantu, regio de          56, 58, 68,78-9, frica
    461-62.                          Camares ao alto Nilo,        austral, 828, Sudo,
At l  n t i c o, c om  rc i o,     613-14, 617, 620-24,          231, 233.
    1-26 passim, 46, 49              frica oriental, costa,    Brasil, 70, 636, 1069,
    94, 1058-59, 1064-               888, 907, frica orien-       Dispora africana, 141,
    65, Regio de Cama-              tal, interior, 980, 983,      142, 143, e Angola,
    res ao alto Nilo,               993, 999, Regio dos          667, 670-1, 681, 690-
    611, 621-33, 635-42,             Grandes Lagos, 921,           4, Economia e comr-
1172                                                               frica do sculo xii ao xvi



   cio, 98, Economia e           58-61, 66, 68, 71, 88,         Nger-Volta, 431, e
   comrcio, sobretudo           Imprio Songhai, 361,          Trfico de escravos,
   de escravos, 9, 10, 11,       376, 378, frica austral,      135, 136, 146, frica
   17, 98, 116, 99, 141-         811, 817, Sul do Zam-          austral, 821, Alta
   3, 525, 744, Religio,        beze, 783-85.                  Guin, costa, 469.
   431.                       Cobre, produo e comr-       Cristianismo na Eti-
Bronze/Lato, 15, frica         cio, 15, 38, Regio de         pia, 216, 833-38, 880,
   oriental, interior, 991,      Camares ao alto Nilo,         e Arte, 838, 865-70,
   Guin Inferior, costa,        614, 616, 625, 635-6,          Conflito dogmtico
   483-4, 487-8, 513, 515-       639, 641, frica orien-        com o catolicismo,
   16, Luba e Lunda, 704,        tal, costa, 889, Regio        860-865, e Isl, 838,
   706, Delta do Nger e         dos Grandes Lagos,             843-15, 851, 853-856,
   Camares, 526, 533,           972, Kanem-Bornu,              862, Batismo, 858-9, e
   Zambezia do Norte,            594, Reino do Congo,           Oromo, 836, e Som-
   regio do lago Malaui,        648, 649, 650, 659, 661,       lia, 852, no Sudoeste,
   745-6, 749.                   665, 671, 680, 683-84,         871, 878-882.
Caribe e Amrica Central,        687 Guin Inferior,         Cultos aos espritos e
   95, 1020, 1064-65, e          costa, 488, 512, Luba e        ancestrais, frica orien-
   Dispora Africana,            Lunda, 697, 699, Zam-          tal, interior, 995, 997,
   135-63 passim, Eco-           bezia do Norte, regio         Regio dos Grandes
   nomia e comrcio, 95,         do lago Malaui, 745-           Lagos, 939, 973, Reino
   137, Subdesenvolvi-           46, Senegmbia, 323,           do Congo, 657, 677,
   mento, 113-20 e Reino         frica austral, 809, Sul       708-09, Zambezia do
   do Congo, 673, 681, e         do Zambeze, 766, 790,          Norte, regio do lago
   Guin Inferior, costa,        805, Alta Guin, costa,        Malaui, 725, 729, 730,
   481-2, 484, e Mada-           454.                           739-40, Sul do Zam-
   gscar, 1056, Religio,    Cristianismo, 27, 28, 45,         beze, 761.
   413, e Senegmbia,            75 1067-69, frica          Cultos da chuva, regio
   323, 334, Trfico de          oriental, costa, 890,          de Camares e alto
   escravos, 17, 18, 22,         901-902, 912, Chifre           Nilo, 625, Regio dos
   94, 109.                      da frica, ver Cris-           Grandes Lagos, 916,
Clima, regio dos Gran-          tianismo na Etipia,           918-19, Zambezia do
   des Lagos, 915, 921-          Reino do Congo, 656-           Norte, regio do lago
   31, Reino do Congo,           8, 668, 674, 677-78,           Malaui, 725, 742, Sul
   630, Magreb, 280-81,          680, 687, 690, Guin           do Zambeze, 761.
   Regio do Nger-Volta,        Inferior, costa, 511,       Especiarias, comr-
   426, Zambezia do              512, 518, Madagscar,          cio (particularmente
   Norte, regio do lago         1017-1018, Magreb,             pimenta), 13, 122,
   Malaui, 725, e Mobi-          290, Marrocos, 244-            Egito, 166, Ilhas do
   lidade populacional,          252, 266, Regio do            Oceano ndico, 1056,
ndice remissivo                                                                  1173



   S enegmbia, 314,             894, 912, Egito, 171-        771, 785, 790, 796-99,
   Imprio Songhai, 384,         2, 180-182, 185, 197,        805, Sudo, 205-07,
   Alta Guin, costa, 455,       199, 201, Regio dos         217-20, Alta Guin,
   456, 458.                     Grandes Lagos, 972,          costa, 449- 51.
Ferro, metalurgia e comr-       Estados Haussa, 561-       Madeira, comrcio, 4, 36,
   cio, 15, Regio de            562, Chifre da frica,       94, Regio de Cama-
   Camares ao alto Nilo,        838, Kanem-Bornu,            res ao alto Nilo, 613,
   613, 614, 616, 621,           588.                         625, 627, 636, frica
   638, 641-42, frica       Isl/Muulmanos e ra-           oriental, interior, 989,
   oriental, costa, 907,         bes: Dispora Africana,      991, Estados Haussa,
   frica oriental, inte-        153-62, frica orien-        565, Reino do Congo,
   rior, 983-85, 987-88,         tal, costa, 883, 887-        649, 650, 664, 680,
   996, 1000, Regio dos         88, 890, 912, frica         685, Guin Inferior,
   Grandes Lagos, 916,           oriental, interior, 977,     costa, 512, Magreb,
   919, 938, 944, Estados        986, 990, 1000, Eco-         300, Delta do Nger e
   Haussa, 541, 565, 566,        nomia e comrcio,            Camares, 533, Regio
   570, Kanem-Bornu,             16, 24, 29, 563, 572,        do Nger-Volta, 393,
   592, Reino do Congo,          Egito, 203, e Regio         411.
   648, 650, 659, 665,           dos Grandes Lagos,         Marfim, produo e
   686, Guin Inferior,          908, Estados Haussa,         comrcio, 3, 13, 94,
   costa, 482, 483, Luba         565, 569, 572, Chifre        Regio de Camares
   e Lunda, 697, 699,            da frica, 831-2, 838-       ao alto Nilo, 625,
   702, 706, Madagscar,         45, 853-56, 862, 865,        627, 636-7, 639, 641,
   1035, Delta do Nger          879, 1067-69, Ilhas do       646, frica orien-
   e Camares, 523, 526-         Oceano ndico, 1047-         tal, costa, 886, 889,
   27, Regio do Nger-          53, Guin Inferior,          893-96, 906-909,
   Volta, 429, Zambezia          costa, 490, 511, 518,        911, frica oriental,
   do Norte, regio do           Madagscar, 1005-            interior, 978, 989-
   lago Malaui, 721, 724,        06, 1014, Marrocos,          90, Kanem-Bornu,
   733, 736, 745, 748            276, Regio do Nger-        592, 594, Reino do
   750-51, Senegmbia,           Volta, 430-34, Zambe-        Congo, 658, 664-65,
   314, 315, 323, Imprio        zia do Norte, regio do      672, 679-80, 683, 686,
   Songhai, 377, frica          lago Malaui, 740, 744,       692, 694, Guin Infe-
   austral, 808, 816, Sul        Atividades polticas e       rior, costa, 482, 484,
   do Zambeze, 766, 790,         militares, 45, Mobili-       487, 500, 508, 512,
   805, Alta Guin, costa,       dade populacional, 69,       Zambezia do Norte,
   454.                          71, 159, Senegmbia,         regio do lago Malaui,
Impostos, dzimos e tri-         314, 319-55, Estrutu-        721, 729, 731, 735,
   butos, 35, 45, 50, 52,        ras sociais, 27, 28, Sul     738, 745-54, Sene-
   frica oriental, costa,       do Zambeze, 765, 766,        gmbia, 313-16, 347,
1174                                                              frica do sculo xii ao xvi



   355, Imprio Songhai,         e Lunda, 703, Mada-          817, 819, 825, 828, 830,
   384-5, frica austral,        gscar, 1017, 1020,          Sul do Zambeze, 787-
   821, Sul do Zambeze,          1027, Magreb, 289,           90, 799, Sudo, 209,
   769-71, 805, Alta             Marrocos, 247, Delta         226, 238.
   Guin, costa, 455-57,         do Nger e Camares,      leo de palma, produ-
   463-64, 472.                  519, 521, 530-31, 536,       o e comrcio, 39,
Moeda 32, 39, Regio de          538, Regio do Nger-        44, Regio de Cama-
   Camares ao alto Nilo,        Volta, 419, Zambezia         res ao alto Nilo, 613,
   625, 627, 636, 643, 646,      do Norte, regio do          641, Reino do Congo,
   roupa como moeda,             lago Malaui, 723-25,         650, Luba e Lunda,
   Egito, 182-84, Estados        735, 737, 739, 741-42,       699, Delta do Nger
   Haussa, 582, Reino do         e Mobilidade popu-           e Camares, 536, Alta
   Congo, 649, 653, 664-         lacional, 57, 67-69,         Guin, costa, 455.
   66, 671, 683, Luba e          78-80, frica aus-        Ouro, produo e comr-
   Lunda, 669, Marrocos,         tral, 809, 812, Sudo,       cio, 2, 3, 4, 7, 11- 17, 26,
   263, Regio do Nger-         230-31, 233-35, Alta         38-40, 48, Comrcio
   Volta, 428.                   Guin, costa, 438, 440,      atlntico, 102-104, 122,
Lnguas, Regio de Cama-         443-45, 459, 469.            128, 133, frica orien-
   res ao alto Nilo, 612-    Rebanho, criao e comr-       tal, costa, 884, 886, 889,
   15, 620, 624, 634, 644,       cio, Regio de Cama-         913, Estados Haussa,
   frica oriental, costa,       res ao alto Nilo, 621,      541, 570, 586, Chifre
   888, frica orien-            frica oriental, inte-       da frica, 877, Kanem-
   tal, interior, 975, 990,      rior, 978, 980-983,          Bornu, 586, 594, Guin
   Egito, 187-90, 1063,          987, 992, Regio dos         Inferior, costa, 480-87,
   Regio dos Grandes            Grandes Lagos, 931-          493, 500, 504-6, 508,
   Lagos (norte e cen-           34, 938, 967-68, Esta-       512, 515-16, Mada-
   tral), 916, 918-20,           dos Haussa, 562-3,           gscar, 1013, 1018,
   925-26, 930-33, 941,          565, 569, 572, Chifre        Magreb, 298, Regio
   Regio dos Grandes            da frica, 847, 851,         do Nger-Volta, 396,
   Lagos (sul), 942, 947,        Kanem-Bornu, 591,            400, 423-26, Zambe-
   Estados Haussa, 576,          Reino do Congo, 648,         zia do Norte, regio do
   Chifre da frica, 836,        Guin Inferior, costa,       lago Malaui, 737, 743,
   840, 851, 853, 858,           480, Madagscar, 1008,       746, Senegmbia, 313-
   861, 872, Ilhas do            1025, 1039, Regio do        15,347, 355, Imprio
   Oceano ndico, 1053,          Nger-Volta, 395, 410,       Songhai, 357-58, 373,
   Kanem-Bornu, 598,             e Mobilidade popu-           383-4, frica austral,
   600, Reino do Congo,          lacional, 55, 57-60,         821, Sul do Zambeze,
   647-48, 652, 676,             66, 71-72, 83, Imp-         755, 763-66, 769, 771,
   Guin Inferior, costa,        rio Songhai, 373, 387,       791-97, 802-6, Sudo,
   477-80, 497, 512, Luba        frica austral, 811-13,      220, Alta Guin, costa,
ndice remissivo                                                                          1175



   442, 455-56, 461, 436,        1026, 1026-27, 1048,       Sal, comrcio, 40, 46,
   472.                          1050-51, Magreb,               Regio de Camares
Prata, comrcio e pro-           285-87, 290, 301,              ao alto Nilo, 613, 616,
   duo, 14, 38-39, e           306, Delta do Nger e          640-1, frica oriental,
   Comrcio Atlntico,           Camares, 528, 535-            interior, 985, 987-89,
   102-04, 133, Estados          36, 539, Regio do             Regio dos Grandes
   Haussa, 566, Chifre           Nger-Volta, 402, 406,         Lagos, 938, 972, Esta-
   da frica, 878, Guin         412-14, 420-21, 424,           dos Haussa, 562, 569,
   Inferior, costa, 513,         428, Zambezia do               Chifre da frica,
   Madagscar, 1013-14,          Norte, regio do lago          838, Kanem-Bornu,
   1026, 1031, Magreb,           Malaui, 730, 740-44,           590, 592, Reino do
   307, Zambezia do              e Mobilidade popu-             Congo, 649, 650, 683,
   Norte, regio do lago         lacional, 80, Imprio          691, Guin Inferior,
   Malaui, 737, Sul do           Songhai, 385-87, Sul           costa, 480-83, Luba e
   Zambeze, 791.                 do Zambeze, 760-61,            Lunda, 697, 699, 702,
Religio e ritual, 27, 45,       766, 777-78, Sudo,            707, 713, Magreb,
   e Dispora Africana,          206, 211, 217-220.             298, Delta do Nger e
   143, Regio de Cama-       Tradies orais e evidn-         Camares, 530, regio
   res ao alto Nilo, 614,       cias, 1058, Regio de          do Nger-Volta, 423,
   625, 644-46, frica           Camares ao alto Nilo,         428-29, Zambezia do
   oriental, interior, 994-      611, 624, frica Orien-        Norte, regio do lago
   5, 997-99, Egito, 185,        tal, costa, 900, frica        Malaui, 733, 745-46,
   187, 189-90, Regio           oriental, interior, 975,       752, Senegmbia, 315,
   dos Grandes Lagos             977, Chifre da frica,         336, 340, 348, Imp-
   (norte e central), 927-       849, 859, 871, Guin           rio Songhai, 357, 378,
   28, 939, Regio dos           Inferior, costa, 477,          Sul do Zambeze, 786,
   Grandes Lagos (sul),          499-500, 505-506,              791, 805, Alta Guin,
   957, 963-64, 966, 972-        Luba e Lunda, 696,             costa, 446, 454, 456,
   73, Estados Haussa,           Madagscar, 1011-              458, 461.
   555, 570, 575-580,            12, 1028, Delta do         S o c i e d a d e s s e c re t a s ,
   Chifre da frica,             Nger e Camares,              regio de Camares
   845-48, Ilhas do Oce-         525, 527-30, Regio            ao alto Nilo, 614,
   ano ndico, 1048-51,          do Nger-Volta, 391,           615, Delta do Nger
   Kanem-Bornu, 601,             Zambezia do Norte,             e Camares, 538-39,
   609, Reino do Congo,          regio do lago Malaui          Zambezia do Norte,
   646, 653, 656-57, 676-        727, 729-30, 735, e            regio do lago Malaui,
   79, Guin Inferior,           Mobilidade populacio-          725-26, frica orien-
   costa, 479, Luba e            nal, 57, 75-76, Sudo,         tal, interior, 999.
   Lunda, 707, Madags-          239, Alta Guin, costa,    Tabaco, cultivo e comrcio,
   car, 1006-1010, 1016,         440-42.                        Amricas, 18, 94, 110,
1176                                                            frica do sculo xii ao xvi



   regio de Camares              Sul do Zambeze, 767,      Bornu, 592, Guin
   ao alto Nilo, 642, 646,         Comrcio internacio-      Inferior, costa, 512-14,
   frica oriental, interior,      nal, 1-26, e Potncias    516, Regio do Nger-
   879, Estados Haussa,            europeias, 10-13.         Volta, 426, Sene-
   565, 569, 600, Reino do      Tecelagem, 38, 39, Estados   gmbia, 316, Imprio
   Congo, 666, 686, Imp-          Haussa, 566, Chifre da    Songhai, 378, Guin
   rio Songhai, 378, 384,          frica, 879, Kanem-       Inferior, costa 462.
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
